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Os Melhores de 2017

Veja aqui a lista dos melhores livros e melhores filmes lidos e vistos por Roberto Causo, em 2017.

 

Livros

1. Doomsday Book, de Connie Willis. Por boa margem, este foi o melhor romance de ficção científica que li este ano, uma história de viagem no tempo originalmente publicada em 1992, com edição brasileira pela Suma de Letras, em capa dura, lançada em 2017 — a tradução é de Braulio Tavares. Pouco publicada no Brasil, Willis é um dos grandes nomes da corrente humanista da FC pós-modernista americana.

Arte de capa de Kevin Murphy

2. Adiamante, de L. E. Modesitt, Jr. Um romance compacto de ficção científica do futuro distante que, sozinho, oferece alternativa à enxurrada perpétua de ficção científica que propõe o genocídio preventivo como a estratégia básica das civilizações galácticas, no máximo imaginável de darwinismo social. A solidez do suspense está a par com a filosófica.

3. South of Broad, de Pat Conroy. O último romance do recentemente falecido Conroy, é um drama de várias décadas envolvendo um fiel e traumatizado grupo de amigos na charmosa capital sulista Charleston. Mistura ficção de crime, crônica social, reflexões sobre diversidade sexual, abuso e AIDS, da maneira ao mesmo tempo sentimental e incisiva que caracteriza a obras de Conroy.

4. The Divine Comedy, de Dante Alighieri. Edição em inglês da Divina Comédia, clássico poema épico de Dante, uma das maiores construções poéticas do Renascimento. A tradução do italiano é de outro poeta mestre, Henry Wadsworth Longfellow.

5. Teoria do Drone, de Grégoire Chamayou. O mais importante livro de não-ficção que li em 2017, amarra e explicita todas as relações insidiosas de poder, guerra e alienação da opinião pública, em torno de um dos temas mais candentes do século 21: o uso de drones de ataque em “guerras” por atacado, conduzidas “contra o terror” pelos Estados Unidos. Certamente, um assunto que também tem tudo a ver com a ficção científica.

6. The Underground Railroad, de Colson Whitehead. Premiadíssimo romance afro-americano que toca o realismo mágico e a ficção científica, enquanto acompanha uma jovem que fugiu da escravidão em uma fazenda no Sul dos Estados Unidos, para descobrir outras dimensões da opressão racista conforme ela passa por outros estados e encontra extremos de organização social voltada para o controle da população negra.

7. Dragon Haven: Volume Two of the Rain Wilds Trilogy, de Robin Hobb. Segundo volume de uma tetralogia de alta fantasia ambientada no mesmo universo da Trilogia do Assassino e da Trilogia dos Mercadores de Navios Vivos. Hobb lida como ninguém com textura, caracterização, enredo e passo narrativo. Este não é o seu melhor, mas ainda acima da maioria.

8. Os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater. Primeiro de uma tetralogia de fantasia contemporânea para jovens, ambientada na Virgina e envolvendo o resgate, por um grupo de garotos esoteristas, de um rei celta sepultado no lugar, e incógnito há séculos. A prosa de Stiefvater tem uma vivacidade única e uma complexidade enganadora.

9. Beowulf’s Children Larry Niven, Jerry Pournelle & Steven Barnes. Um bojudo romance de colonização planetária escrito a seis mãos, que fiz questão de ler no ano em que Pournelle faleceu. Elabora e problematiza de modo engenhoso uma série de questões sobre liberdade, comunidade, sexo e ecologia.

10. Hunter’s Run George R R Martin, Gardner Dozois & Daniel Abraham. Outro romance de FC de colonização planetária — e outro escrito a seis mãos! Mas Hunter’s Run, que saiu no Brasil pela LeYa este ano como Caçador em Fuga, concentra-se no retrato psicológico de um único personagem, com muita aventura das antigas costurada no meio.

11. O Esplendor, de Alexey Dodsworth. Um dos romances brasileiros de FC mais ambiciosos dos últimos anos, este que é o segundo livro de Dodsworth compõe um diálogo com uma das obras-primas de Isaac Asimov, a noveleta “O Cair da Noite”. Rendeu ao autor o seu segundo Prêmio Argos (do Clube de Leitores de Ficção Científica) de Melhor Romance.

12. American Fascists: The Christian Right and the War on America, de Chris Hedges. Um necessário livro reportagem que disseca a direita cristã americana, por tabela lançando luz sobre a atual situação política os EUA — e a potencial situação política brasileira, já que também aqui essa corrente reacionária tem crescido.

13. Não Chore, de Luiz Bras. Uma novela de ficção científica tupinipunk, certamente o destaque de Luiz Bras em um ano no qual ele publicou três livros. Faz par com o seu notável romance rapsódico Distrito Federal, de 2015, embora os dois livros possam ser lidos separadamente.

14. O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis. Clássico da ficção científica americana da década de 1960, virou filme e foi lançado no Brasil apenas em 2017, pela DarkSide. Uma FC sobre alienígena infiltrado na Terra, com um expressivo conteúdo existencialista.

15. Stories of Your Life and Others, de Ted Chiang. A primeira coletânea do multipremiado contista americano, incluindo a história título que foi base do filme A Chegada. Narrativas complexas, fabulation pós-modernista e especulação científica de alta qualidade.

 

Cinema

1. Logan, dirigido por James Mangold. A Marvel entra no terreno de Cormac McCarthy, neste que é um sério candidato a melhor filme de super-heróis da história. Filme duro, tecnicamente impecável e surpreendentemente emocional, estrelado por Wolverine e o Prof. Xavier num diálogo com os westerns do passado.

2. Fragmentado (Split), dirigido por M. Night Shyamalan. Outro incomum filme de super-herói (de supervilão, na verdade) conduzido de modo diferenciado — como um admirável filme de suspense, com ótimas interpretações e uma reflexão importante sobre trauma psicológico. Só não digo que com ele Shyamalan recuperou a sua glória passada, por que de fato ele nunca a perdeu — as críticas constantes dirigidas a ele são só implicância dos críticos.

3. Blade Runner 2049, dirigido por Denis Villeneuve. A sequência do clássico de Ridley Scott é um banquete visual e uma introspectiva viagem a um plausível mundo futuro dominado por uma megacorporação obcecada em recriar e controlar a vida. Mais forte em enredo e mais fraco em sugestões de transformação social do que o proto-cyberpunk de 1982. Ainda sim, celebração de uma FC séria e cinematicamente hábil.

4. 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey), dirigido por Stanley Kubrick. Minha esposa Finisia Fideli e eu tivemos a chance de ver uma reprise deste clássico do cinema de ficção científica, com roteiro de Kubrick e Arthur C. Clarke, em uma sessão no Shopping Pátio Higienópolis, em maio de 2017. A tela grande faz toda a diferença para a linguagem visual desse filme ainda inquietante.

5. Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars Episode VIII: The Last Jedi), dirigido por Rian Johnson. O diretor Johnson devolveu a esperança ao prato principal da franquia agora dominada pela Disney, com uma história que prende a atenção, inverte construtivamente algumas expectativas, e mostra uma atuação dos jedi que vai além do usual kung-fu aéreo. Algumas premissas não estão em sintonia com o universo de Star Wars, e o roteiro insiste que devemos deixar para trás o que já sabemos sobre ele e aceitar como boas ovelhas o que será apresentado dali em diante. Esperem sentados.

6. Assassinato no Expresso do Oriente (Murder at the Orient Express), dirigido por Kenneth Branagh. O clássico de mistério de Agatha Christie tem uma adaptação engenhosa e criativa por parte de Brannagh, que usou o tom exaltado do teatro, movimentos de câmera e enquadramentos incomuns para arejar um romance em que a mãe desse subgênero de ficção de crime reflete, subverte e dignifica as próprias artimanhas.

7. A Vigilante do Amanhã (Ghost in the Shell), dirigido por Rupert Sanders. A primeira adaptação live action do anime cyberpunk original de 1995, dirigido por Mamoru Oshi, é um imbróglio pós-modernista de fluxos de capitais transnacionais plasmados em franquias e percepções étnicas em fluxo — ah, teorias pós-modernistas à parte, o filme é um triunfo da pré-produção, grande expressão do que a arte digital e as IGCs consegue realizar hoje em dia, e pouco mais do que isso.

O cinema é um grande prazer. Mas por algumas dificuldades sofridas em 2017, que incluíram falta de tempo, não vi tantos filmes quanto gostaria. Acima estão todos os que vi durante o ano.

—Roberto Causo

 

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Causo Fala Sobre o Filme “A Chegada”, na UNIFESP

Em 6 de novembro de 2017, Roberto Causo esteve no campus de Guarulhos da Universidade Federal  de São Paulo, para uma atividade da Semana do Inglês, dirigida aos alunos de graduação do curso de Inglês da Faculdade de Letras daquela universidade. O assunto foi o filme A Chegada (Arrival, 2016), dirigido por Denis Villeneuve, e a premiada noveleta do escritor sino-americano Ted Chiang que o inspirou, “História da sua Vida”.

 

 

O convite para falar no evento foi feito pela Prof.ª Suzanna Mizan, a quem Causo conheceu na pós-graduação na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, em 2014. Os dois foram acompanhados pelo mesmo orientador, o Prof. Lynn Mário Trindade Menezes de Souza. Esta foi a primeira Semana do Inglês realizada na UNIFESP de Guarulhos. Depois da exibição do filme em DVD, Causo falou sobre suas implicações e sobre a noveleta.

O filme de ficção científica de Villeneuve foi muito bem recebido pela crítica e rendeu uma indicação ao Oscar para a protagonista, Amy Adams. A resposta foi tão positiva, que logo o diretor canadense foi chamado para dirigir Blade Runner 2049. Contudo, o projeto da adaptação cinematográfica da história de Ted Chiang é do roteirista Eric Haisserer.

 

Quanto a Ted Chiang, sua carreira começa em 1991, quando é indicado e recebe o Prêmio Nebula pela noveleta “A Torre da Babilônia” (“Tower of Babylon”), publicada na revista Omni. As duas histórias estão presentes no primeiro livro de Chiang publicado no Brasil, História da sua Vida e Outros Contos (Histories of your Life and Others), pela Intrínseca. O fato de ele publicar esporadicamente e de ainda não ter se dedicado à escrita de um romance assinala o seu desinteresse em ter uma carreira comercial na ficção científica. Nesse mesmo sentido, suas histórias são vistas como altamente literárias e arrojadas. Dificilmente alguns dos seus textos deixa de ser indicado aos principais prêmios do campo da FC.

“História da sua Vida” pertence a um subgênero bastante específico da ficção científica, as histórias de primeiro contato. Um exemplo disponível nas livrarias brasileiras é o romance clássico O Fim da Infância (1953), de Arthur C. Clarke.

Como FC, a história combina elementos de ficção científica hard (centrada nas ciências exatas), e ficção científica soft (centrada nas ciências humanas). No caso, seriam respectivamente a física ótica e física quântica, e a linguística e a filosofia, respectivamente. É claro que, tanto no filme quanto na noveleta, o componente mais saliente é a linguística, já que o enredo gira em torno da decifração de uma língua alienígena, por uma linguista americana, a Dr.ª Louise Banks. Causo lembrou que o primeiro contato entre uma cultura e outra é um fato da vida real, e que o Brasil é pródigo em primeiros contatos (entre nossa cultura e as diversas culturas indígenas que interagem conosco).

Uma outra oposição que foi tratada na apresentação, é aquela entre ficção de gênero e ficção literária. The Encyclopedia of Science Fiction (1993), de Peter Nicholls & John Clute faz inclusive uma distinção, “genre sf ” e “non-genre sf” para destacar o fato de que um trabalho de FC pode ser apresentado ou não como parte dou gênero, ou ter uma tônica popular ou comercial (ficção de gênero) ou não (literária). Obviamente, a escrita de Chiang é mais literária, mas fica claro que o filme buscou aspectos da ficção de gênero, aproximando-se do thriller para garantir viabilidade maior nas bilheterias.

Como uma FC mais literária, “História da sua Vida” apresenta características exemplares da ficção pós-modernista americana atual: ausência de enredo ou de intriga; a descrição de slices of life ou instantes da vida; uma prosa complexa e com algo de experimental; o tema da perda pessoal; o caráter metalinguístico ou metaficcional; a ênfase na memória e na psicologia; a projeção de um ethos universitário nos valores e na linguagem representados; e referências literárias (no caso, a Jorge Luis Borges).

A complexidade da prosa de “Historia da sua Vida” aparece no tempo verbal que funde pretérito perfeito e futuro do pretérito. Além disso e igualmente refletindo a premissa central da história — de que o aprendizado de uma língua alienígena em que o tempo é circular e não linear —, ocorre, no plano estrutural, um embaralhamento da ordem cronológica das situações narradas.

Por sua vez, o filme se aproxima da aventura e da ficção de gênero, mas busca ser artístico a partir de elementos cinemáticos centrados no flashback, na atmosfera, nos recursos fotográficos, no estranhamento visual, na profundidade emocional da performance dos atores, etc. Ele “compensa” a adoção de elementos mais aventurescos, com uma linguagem específica do cinema.

Metalinguagem é a linguagem que discute a linguagem, e claramente noveleta e filme possuem essa característica. Nas duas obras, a decifração da língua alienígena e o seu poder de mudar a cognição são explorados de maneiras bastante engenhosas. Quando essas reflexões se expressam no plano narrativo, elas também se apresentam como metaficção — uma ficção que discute, dramatiza ou desafia o nosso entendimento imediato do que é a ficção.

Muitas questões interessantes surgiram ao final da atividade, por parte de Suzanna Mizan e suas colegas. É claro, a hipótese de que a linguagem afeta a cognição é conhecida da área dos estudos linguísticos. Além disso, foi observado que a figura dos alienígenas no filme lembrava os seres imaginados por H. P. Lovecraft, talvez havendo aí um elemento crítico e subversivo, considerando o horror que elas inspiravam nos eruditos de Lovecraft, numa reação contrária (passado o estranhamento inicial) à da Dr.ª Banks e do seu colega, o físico Donnelly. Mais tarde, quando Causo lembrou que, no filme, a improvável casa que Banks tinha à beira do lago faz uma oposição de sentido com a paisagem rural tétrica em que uma das naves se manifesta, a mesma pessoa apontou uma conexão om o gótico americano, em que o ambiente rural é fonte de fatos ou coisas terríveis.

Outra colega notou que, na subtrama envolvendo o general chinês (exclusiva do filme), também está presente o tema da perda, já que é por saber das últimas palavras preferidas pela esposa moribunda do general, que Banks tem uma abertura para a simpatia e a colaboração dele.

Roberto Causo recebeu da Prof.ª Mizan um exemplar da edição americana pela Vintage, de Stories of Your Life and Others, e deixou com ela um exemplar de Shiroma, Matadora Ciborgue, e para a biblioteca da universidade, sua antologia Contos Imediatos (Terracota Editorial, 2009), e o livro de M. Elizabeth Ginway, Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir Brasil, 2005). Um exemplar extra de Contos Imediatos foi entregue a uma aluna de pós-graduação interessada em explorar a ficção científica nos seus estudos.

Os presentes concordaram que o filme de Denis Villeneuve e a história de Ted Chiang são escolhas interessantes de estudo, e se aventou a hipótese da ficção científica como assunto integrar novos eventos acadêmicos na Faculdade de Letras da Universidade Federal  de São Paulo em Guarulhos, no futuro.

 

 

 

 

Roberto Causo agradece à Prof.ª Suzanna Mizan pela oportunidade de falar na UNIFESP.

 

A Profa. Suzanna Mizan (no centro) e suas alunas e colegas.

 

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Douglas Quinta Reis (1954-2017)

O desencarne do editor Douglas Quinta Reis, da Devir Brasil, em 13 de outubro de 2017, representou uma aguda perda pessoal, mas também foi uma perda grave para o campo da ficção científica, fantasia e horror no Brasil.

 

Douglas Quinta Reis (1954-2017).

Devo ter conhecido Douglas Quinta Reis em alguma reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica em São Paulo, em fins da década de 1980. Só o associei à Devir quando o procurei em 2002, por intermédio do editor Silvio Alexandre, que na época trabalhava na Devir. Meu objetivo era sugerir a publicação dos livros de ficção científica e fantasia de Orson Scott Card — algo que eu já tinha feito junto a outras editoras. Silvio escreveu o seu próprio obituário para o site Publishnews, com muitas informações importantes e a sua própria avaliação pessoal do Douglas.

Para minha surpresa, Douglas era tão fã de Card quanto eu. Ele me disse, inclusive, que tinha o desejo de publicar toda a sua obra. Algumas semanas depois, eu submetia à ele o projeto de publicar a coletânea de histórias A Sombra dos Homens, com as primeiras histórias da Saga de Tajarê, de fantasia heroica, que eu havia iniciado anos antes nas páginas da revista de RPG Dragão Brasil.

Também para minha surpresa, o projeto foi aceito por Douglas sem grandes discussões. A decisão dele me trouxe um grande alento, pois naquela época eu vivia uma daquelas crises periódicas de dúvidas sobre a carreira e o ofício da escrita de FC e fantasia no Brasil, que costumam me acometer.

Escrevi mais duas histórias, além das duas que tinham saído na Dragão Brasil, e o livro apareceu em 2004 com introdução de Braulio Tavares e capa de Lourenço Mutarelli— na época um nome muito associado à Devir como artista de quadrinhos, mas que a editora, com o trabalho do Douglas, já havia revelado como romancista, para o mainstream literário brasileiro. Mais tarde, Douglas também publicaria o meu primeiro romance, A Corrida do Rinoceronte (2008).

Essa atitude leve com respeito à publicação de livros foi uma das características notáveis da atuação editorial de Douglas. Raramente eu o vi rejeitar um projeto — e quando isso ocorreu, foi em razão de alguma rigidez do autor ou autora, em relação às observações dele. Ou em momentos em que a editora estava se reorganizando e certas áreas de publicação estavam momentaneamente suspensas. Essa abertura vinha primeiro da sua qualidade de leitor polivalente, sem preconceitos e familiarizado com vários gêneros. Mas também pelo entendimento de que a escrita, a leitura e a publicação de livros são aventuras de descobrimento — não apenas de talentos literários, mas da receptividade  do leitor. Daí ele dispensar a obsessão de muitas editoras em perseguir tendências visando otimizar vendas, publicando mais do mesmo.

Em 2005, Douglas me convidou para atuar como editor free-lancer, e rapidamente criamos três linhas de livros: a Pulsar (ficção científica), que acolheu os livros de Card; a Quymera (fantasia) e a Pentagrama (horror). Mais tarde, desenvolvemos um projeto favorito dele, a coleção Asas do Vento de livros de bolso dentro de um formato inédito e nunca repetido posteriormente: em 9 x 15,5 centímetros, com capa semirrígida. E também e a Enciclopédia Galáctica, de estudos e referência na área da ficção especulativa.

A Pulsar e a Asas do Vento foram as coleções mais produtivas. A primeira conta hoje com 17 títulos, tendo publicado autores importantes para a FC internacional como Card, Bruce Sterling, Arthur C. Clarke e Ursula K. Le Guin (em uma antologia). Além de completar a Saga de Ender, de Card, a coleção demonstrou muita ousadia ao publicar a maior coletânea de histórias de um autor brasileiro de FC, Confissões do Inexplicável, de André Carneiro; o primeiro “omnibus” da FC brasileira, reunindo os três romances da Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife (que teve mais dois livros na coleção); a primeira antologia internacional de FC política montada no Brasil (organizada por Marcello Simão Branco); a primeira coletânea de Ivanir Calado, e a primeira série de antologias retrospectivas dos melhores da FC brasileira. Agora, em 2017, deve sair, fora da coleção, a primeira antologia retrospectiva do melhor do horror nacional, organizada por Branco & Silva. A Pulsar também incorporou os primeiros livros das minhas séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue. A Pulsar empregou muito o artista brasileiro de FC, Vagner Vargas, certamente impulsionando muito a sua carreira.

A Asas do Vento foi uma linha internacional que publicou Sterling, Card e o francês Jean-Pierre Laigle, além dos brasileiros Christopher Kastensmidt, Simone Saueressig, João Batista Melo e Carlos Orsi. Muitas vezes, combinava autores estrangeiros e nacionais num mesmo volume. Não foi adiante porque as questões de distribuição e exibição de livro de bolso são muito complicadas. A Enciclopédia Galáctica, por sua vez, publicou estudiosos importante como M. Elizabeth “Libby” Ginway (a brasilianista que é a maior especialista mundial em FC brasileira) e Alfredo Suppia (o especialista mundial em cinema brasileiro de FC), além de abrigar a última fase do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, de Cesar Silva & Marcello Simão Branco.

 

Douglas com o escritor e game designer Christopher Kastensmidt (à esquerda), com que estabeleceu uma relação muito produtiva em anos recentes.

Quando Douglas, Mauro Martinez dos PrazeresWalder Mitsiharu Yano, e de Deborah Fink, esposa do Mauro, fundaram a Devir Livraria em 1987 (há trinta anos), criaram uma importadora de histórias em quadrinhos e de jogos de cartas, eles provavelmente não tinham ideia do impacto que sua empresa iria ter. Aos poucos, a empresa cresceu e se internacionalizou, transformou-se também em editora. Com muita boa vontade e criando o  próprio trajeto na sua viagem de descobertas, ela foi fundamental para o boom do RPG na década de 1990, para os quadrinhos nacionais e para a entrada dos livros de HQs nas livrarias, e para o mercado local moderno de jogos de tabuleiro. Poucas empresas foram tão importantes para a face brasileira da cultura nerd/geek da atualidade. A ambição de Douglas para a ficção científica era semelhante — sedimentar sua presença nas livrarias e fomentar o autor brasileiro.

Por diversas questões comerciais, financeiras e conjunturais (as diversas crises políticas e econômicas que o país enfrentou e enfrenta), o impacto da atividade da Devir Brasil na área não foi tão grande quando poderia ter sido. Isso, porém, não diminui a importância, a originalidade e a ousadia do esforço que Douglas capitaneou nessa área.

Conviver com ele sempre foi um prazer que ia além da produção de livros. Douglas era um homem vivido e de cabeça aberta, gregário e conversador, que buscava conduzir o pensamento da gente com exemplos, metáforas e casos, em direções diferentes e incomuns. Sem afetações de intelectual ou de executivo, era sempre acessível e próximo no tratamento com autores ou leitores. Vai deixar saudades e fazer muita falta.

—Roberto Causo

 

Roberto Causo e Douglas Quinta Reis.

 

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