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Leituras de Fevereiro de 2018

Fevereiro foi um mês em que fiz leituras rápidas sobre arquitetura e artes plásticas, mas com espaço para ficção científica brasileira e estrangeira, e um gênero do qual eu estava afastado há algum tempo: o horror.

 

Down River, de Stephen Gallagher. Londres: New English Library, 1990 [1989], 362 páginas. Paperback. São raros os casos em que me identifiquei imediatamente com a prosa de um escritor, como aconteceu quando li a noveleta de Stephen Gallagher, “Ribbon of Darkness, Over Me”, em The Magazine of Fantasy & Science Fiction de agosto de 1989. Justamente um excerto deste Down River, em que dois tiras ingleses perseguem um carro roubado por um bando de garotos. Essa história representou também uma das poucas vezes em retornei ao texto de um outro autor para aprender, fixar e empregar alguns dos seus recursos — exatamente a sequência de perseguição, com os movimentos do carro da frente interpretados pelo ponto de vista subjetivado, de um personagem no carro de trás (que usei no meu Mistério de Deus). Gallagher é um escritor e roteirista de talento na cena britânica, tendo trabalhado em Doctor Who e e seriados de ficção de crime. No seu romance, a dupla Johnny Mays e Nick Frazier fazem a perseguição, levada extremos pelo obcecado Mays, um detetive de polícia meio fascistoide, que tem um livro negro no qual anota desafetos como uma garota num carro chique que não lhe deu bola, ou a socióloga que o entrevistou para um projeto sobre a polícia inglesa. A certa altura, Nick não suporta mais e desce do carro. Mays vai em frente e acaba com o carro em uma represa. É dado como morto, mas ressurge, salvo por um fazendeiro solitário que morreu do coração depois de tirá-lo da água. Mays herda dele uma remota base de operações, para ir à desforra mortal contra os marcados no seu caderninho.

O Johnny Mays ressurgido é um serial killer com um pé no horror focado na figura do monstro. Veste-se com as roupas rotas do fazendeiro, dirige a sua caminhonete caindo aos pedaços, abriga-se em uma casa  assombrada pelo cadáver do fazendeiro, ainda sentado em uma poltrona perto da lareira. Ele mesmo se move como um zumbi, atordoado por tudo o que aconteceu (deve ter perdido uns neurônios, no afogamento). Essa esqualidez transborda para o retrato de uma Inglaterra de classe média baixa da Era Thatcher (1979 a 1990), de alienação e decadência social e humana, compondo um clima melancólico e angustiante. É um dos efeitos mais poderosos do livro, mais texturado e vívido do que aquele de O Jardim de Cimento (The Cement Garden; 1978), de Ian McEwan. Demora para que caia a ficha junto a Nick e seus colegas, de que Mays está de volta e num rompante de assassinatos. Quando Nick, o protagonista do romance, vai até a cidade litorânea em que os dois nasceram, os fatos começam a fazer sentido. Nesse ponto, a narrativa reconstrói relacionamentos e aprofunda a caracterização dos dois, ao mesmo tempo em que aumenta o suspense: Nick passa a se interessar por uma ex-namorada de Mays que certamente está na mira dele. O tema do livro passa a ser a infância e a memória, e como a vida nos transforma, frequentemente se não sempre, em algo que nos desaponta ou desagrada. Os diálogos são ótimos mas sem remeter a uma estrutura de roteiro ou drama teatral. Há espaço para uma reflexão mais sociológica sobre o abuso de poder e a violência policial. Os protagonistas são bem desenhados e os coadjuvantes têm solidez, especialmente Alice, a ex de Mays. A prosa é firme e clara e densa, com o tipo de textura que lembra Stephen King mas de personalidade própria. É conduzida com um toque sutil até um desfecho que só não é hollywoodiano no confronto derradeiro entre os amigos de infância em seu terreno natal, porque o sentimento presente na cena soa verdadeiro e humano. Por tudo, Down River é um romance de dark suspense que deixa uma forte impressão, fazendo o leitor habitar o seu mundo pelo tempo da leitura, e que, depois de a encerrar, deixa aquela sensação de termos vivenciado uma experiência dura e inquietante.

 

Arte de capa de Stephen Hickman.

Brother to Dragons, de Charles Sheffield. Nova York: Baen Books, 1992, 262 páginas. Capa de Stephen Hickman. Paperback. O físico e matemático inglês Charles Sheffield teve um bom momento no Brasil, no início da década de 1990. Ronaldo Sérgio de Biasi, o editor da Isaac Asimov Magazine, então publicada pela Editora Record, era fã dele e não apenas selecionou suas histórias para a revista, como propôs a publicação de seus romances pela poderosa editora carioca. Na década de 1990, portanto, saíram aqui os dois primeiros livros da série O Universo dos Construtores: Maré de Verão e Divergência. Stephen Hickman, um regular da Baen Books, é artista de estilo próprio, adepto de cores fortes e imagens complexas. A arte dele aqui descreve um dos momentos finais do romance, mas pode sugerir erroneamente que se trata de uma FC militar.

Na verdade, Brother to Dragons é um intenso romance de futuro próximo, mais sociológico do que qualquer outra coisa, que dramatiza uma América extremamente degradada. Nela, em um contexto de superpopulação, os ricos vivem encastelados e os pobres desassistidos, com a polícia dedicada a oprimir. Pra piorar, o herói nasceu de uma  viciada em drogas, e só sobreviveu às primeiras semanas de vida pela dedicação de uma enfermeira que, de algum modo, apostou nele apesar de suas deformidades faciais. Por sorte, o menino, batizado de Job (o Jó, da Bíblia) pela enfermeira, foi agraciado por uma inteligência superior, que o ajuda a sobreviver primeiro ao orfanato administrado por mafiosos que desviavam até a comida dos garotos; e depois, à vida nas ruas, onde passa a trabalhar como aviãozinho de prostitutas e traficantes. É uma espécie de Oliver Twist futurista, até esse ponto da narrativa. Quando se dá conta do risco que corre, muda de ramo, fazendo algum sucesso como vendedor ambulante. É nesse ponto que entra em sua vida uma garota rica que foi cair no gueto, enganada por um cafetão. Ela é sinônimo de encrenca, e ele acaba nas mãos das autoridades. Um espertalhão da polícia política percebe o quanto ele é inteligente e pleno de recursos, e o recruta para espionar uma espécie de lixão tóxico/nuclear para onde são enviados os mais indesejados. Mais grave para os poderosos: os cientistas foram banidos pelos fundamentalistas religiosos e luditas que puseram neles a culpa da degradação do meio ambiente. Essa prisão ao ar livre congrega o maior número de cientistas de peso, que, paradoxalmente, conseguem trabalhar ali sem intervenção dos poderosos. Eles estão tramando alguma coisa, e o herói deve sair de lá com essa informação. Por felicidade do autor, Brother to Dragons é mais do que um drama darwiniano sobre um herói que se firma como self-made man na adversidade. Tem boa textura e um andamento preciso, com situações que soam coerentes, e num sentido talvez cristão (o título saiu do Livro de Jó, na Bíblia), é retrato da sobrevivência de um caráter sólido e bondoso, em um ambiente pouco propício ao seu surgimento. Desse modo, Job emerge da sua provação na terra de ninguém de lixo tóxico com uma solução que vira a mesa da elite corrupta e dá uma chance ao cansado planeta Terra.

Brother to Dragons agradou os jurados do John W. Campbell Memorial Award, que o escolheu Melhor Romance em 1993. Provavelmente pelo seu retrato de uma América em que as forças conservadoras e retrógradas colocaram o país e o mundo contra a parede. As tendências políticas que levaram à presidência de Donald Trump parecem ter sido denunciadas nesse romance. Eu tive o privilégio de incluir a novela premiada de Sheffield, “Georgia on my Mind” (1993), na minha antologia Estranhos Contatos: Um Panorama da Ufologia em 15 Narrativas Extraordinárias (Caioá Editora, 1998). Sheffield morreu em 2002, de um tumor cerebral.

 

Arte de capa de James Warhola.

Tales from the Spaceport Bar, de George H. Scithers & Darrell Schweitzer, eds. Nova York: Avon Books, 1.ª edição, 1987, 236 páginas. Capa de James Warhola. PaperbackMeu conto de Shiroma, Matadora Ciborgue “Cheiro de Predador”, é o mais perto que cheguei de uma história do tipo “contos da taberna”, passado justamente em um bar frequentado por astronautas. Estava pensando em escrever outro, mesmo que o ambiente de bar não seja exatamente a minha praia (sou abstêmio). A dupla de editores lembra daquela situação popularíssima da Cantina de Mos Eisley, em Guerra nas Estrelas (Stars Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança). Apesar dessa evocação e da capa muito sugestiva de James Warhola — o sobrinho mais esperto de Andy Warhol —, a maioria das histórias não é de ficção científica espacial ou ambientada no futuro. As histórias também não se referem exclusivamente a bares, sendo que algumas se passam em clubes. Muitas delas fazem parte de séries escritas por grandes nomes como Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Lord Dunsany, Larry Niven (que tem dois contos no livro). Prova de como esse tipo de narrativa é popular nas revistas americanas.

Algo que parece ser exigência desse formato é a história contada a partir da dinâmica dos frequentadores do bar, mas as melhores do livro são aquelas que escapam disso. É claro, os diálogos também são determinantes. “Hands of the Man”, de R. A. Lafferty, é uma história curiosa porque o comentário do autor, embutido no texto que se segue ao conto, é mais intrigante e divertido do que a própria história. “A Pestilence of Psychoanaysts” é uma divertida história sobre alienígenas infiltrados, linguagem e psicanálise, é claro, pela analista Janet O. Jeppson — a viúva de Asimov. “The Regulars”, de Robert Silverberg, é um conto bem bacana, estilo Além da Imaginação e podendo se passar em uma espécie de dimensão além da vida. A melhor história do livro deve ser, porém, a premiada noveleta “Unicorn Variation”, de Roger Zelazny, em que um sujeito tem que lidar com um unicórnio e suas demandas (o bicho é beberrão) no saloom de uma cidade fantasma. Hilariante. Histórias de Darreel Schweitzer, Gardner Dozois, L. Sprague de Camp & Fletcher Pratt, Grendel Briarton, Steven Barnes, John Gregory Betancourt, Spider Robinson, Margaret St. Clair, Avram Davidson, Algis Budrys, Randall Garrett, Barry B. Longyear, John M. Ford & George H. Scithers completam essa antologia tão irregular que acabou sendo uma leitura meio morna. Ou talvez seja apenas eu, o abstêmio, e minha aversão ao botequim. Ainda sobre James Warhola, consta que o tio Andy Warhol ficou triste, tadinho, quando ele escolheu se tornar um artista de ficção científica. Aquelas coisas…

 

Oscar Niemeyer, de Guilherme Wisnik. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha Grandes Arquitetos Vol. 2, 2011, 80. Páginas. Capa dura. A convivência com Taira Yuji, fundador do Estúdio Desire e arquiteto de formação, aliada à necessidade de aprofundar as descrições das histórias do Universo GalAxis, me levaram a um esforço de conhecer alguns nomes da arquitetura de cunho futurista. Sendo brasileiro, o primeiro arquiteto futurista de que tomei conhecimento, ainda criança, foi o nosso Oscar Niemeyer. Nada mais justo que eu começasse esse esforço lendo o volume dedicado a ele, na Coleção Folha Grandes Arquitetos, distribuída nas bancas.

Os livros da coleção trazem sempre uma apresentação do arquiteto, uma cronologia de biografia e obra, a discussão das suas principais construções, uma seção com seus desenhos, e, fechando, algo do seu pensamento. A introdução faz um apanhado da sua importância, depois trata dos seus primeiros passos na formação e seu trabalho com Lúcio Costa, e o contato com o arquiteto franco-suíço Le Corbusier em 1936. Ainda, a primeira obra de destaque na Pampulha; o projeto de Brasília; a questão política e a perseguição sofrida durante o regime ditatorial militar; e o lugar da beleza na sua concepção arquitetônica, com ênfase na leveza das formas. A discussão das obras começa com o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, e termina com o Centro Cultural Internacional Niemeyer, em Avilés, na Espanha. O Edifício Copan, em São Paulo, ficou de fora — talvez por ser uma obra que acabou descaracterizada pela construtora. Também está lá o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (na capa do livro), um favorito meu, por razões óbvias. A seção com os projetos é divertida porque deixa claro que o desenho de Niemeyer sempre teve aquele traço incerto tipo delirium tremens. A seção com o pensamento do arquiteto reproduz um trecho do seu livro Meu Sósia e Eu, de 1992. Niemeyer deixa claro que Pampulha é a obra que o definiu como arquiteto, e reforça o seu compromisso com os valores que sua arquitetura incorpora, de beleza, harmonia, leveza e monumentalidade. A partir daí ele abandonou a arquitetura racionalista para abraçar a versatilidade plástica do concreto. O texto tem um tom de crônica mas adota aqui e algo de defensivo, ao responder às críticas que o arquiteto recebeu ao longo dos anos.

“Poucos projetos de caráter social realizei, e confesso que ao fazê-lo sempre me senti como que conivente com o objetivo demagógico e paternalista que representam: enganar a classe operária, que reclama melhores salários e as mesmas oportunidades. […] Por outro lado, a monumentalidade nunca e atemorizou. Afinal, o que ficou da arquitetura foram as obras monumentais, as que marcam o tempo e a evolução técnica. As que, justas ou não sob o ponto de vista social, ainda nos comovem. É a beleza a se impor na sensibilidade do homem.” —Oscar Niemeyer.

 

Arte de capa de Vicente Abreu.

Viagem Interplanetária, de Soares de Faria. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1956, 174 páginas. Capa de Vicente Abreu. Brochura. Apesar do título e da ilustração de capa, este é basicamente um romance brasileiro de ficção científica de mundo perdido, escrito originalmente em 1938 mas só publicado em 1956. Eu me pergunto se há algum fenômeno embutido nisso, já que A Destruição do Mundo, de Vero de Lima, visto nas minhas leituras de janeiro, também foi escrito na década de 1930 e só publicado na de 1950. Coincidência? Razões econômicas? Razões políticas? O fato é que os dois livros trazem marcas bastante acentuadas da FC brasileira da década de 1930, e ambos partilham de um pensamento católico que colore a sua escrita.

O romance acompanha um imigrante alemão que, depois de uma desilusão amorosa, vem ao Brasil e acaba se dando conta de que continua desconfiando das mulheres em geral. Talvez por isso mesmo ele desenvolve um fascínio pela lenda das Amazonas. Sua pesquisa a respeito, nos corredores da Biblioteca Nacional, lembra o ótimo conto de Gastão Cruls, “Meu Sósia” (1938), que incluí na minha antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2007). Também há um duplo no romance de Soares de Faria, uma espécie de manifestação do demônio, que deixa o herói espantado e angustiado. O fascínio pela lenda das mulheres guerreiras leva o protagonista Karl (ou Carlos) à selva amazônica. Lá, ele prontamente encontra um inglês enfurnado na selva. Aqui, a literatura de costumes cede à aventura, e esse segundo personagem, parceiro na aventura, conhece tanto as amazonas quanto os índios que as servem, e a dupla, acompanhada de um curumim extremamente inteligente e despachado, acabam chegando até uma cidade perdida. A narrativa de como os três expedicionários penetram num chapadão, seguindo um rio subterrâneo, é muito boa e tem o tipo de imagética exótica e fascinante que a gente encontra no ótimo O Rei do Mundo Perdido (1944), de Hamilcar de Garcia. A cidade, Salóndia, foi erigida em tempos idos a mando do Rei Salomão. Os salondianos são cristãos, porém, e quando os heróis observam com os seus cientistas, a superfície de Marte, também encontram lá igrejas cristãs:

“Cristo não veio salvar apenas a terra. Na verdade, aqui lhe foi pior a tarefa, porque nêste planeta, de baixa civilização, devia morrer, para redimir os demais. Nos outros mundos não encontraria Judas. Tinha que ser mesmo aqui. Outras terras, nos espaços, já adiantadíssimas, tiveram notícia dessa morte — viram mesmo o desenrolar do drama no Calvário. E bastou-lhes saber que assim foi, para abominarem os grandes pecados. […] Continua, só a Terra, num cáos de sofrimento, porque é insensível ao bem e adóra o mal. Ainda agora, ceifa o canhão insaciável, as vidas que o Cristo deseja para o amôr e a glória.” —Soares de Faria, Viagem Interplanetária.

Bem se vê que Soares de Faria não é C. S. Lewis, pela falta de uma sofisticação argumentativa ou alegória, apesar da coincidência temática. Também não é H. Rider Haggard, pois a mulher que reina na sua cidade perdida, a venerável Salandina, mulher imortal que vive ali desde os tempos das expedições do Rei Salomão, não é a sensual e tirânica Ayesha, mas uma versão cristianizada, pura e distante. (O próprio leitmotif de Salomão lembra Haggard, não esqueçamos.) Assim como em A Filha do Inca ou A República 3000, de Menotti Del Picchia, os salondianos estão cansados da ignorância e da violência humana, e se preparam para empregar seu avanço tecnológico ímpar para abandonar a Terra e se instalarem em Marte (daí o título do romance). Não apenas o romance de Soares de Faria repete recursos de obras precedentes, como o discurso cristão, o mito das amazonas e a figura do duplo maligno não se costuram com o fraco exotismo do mundo perdido carola que os heróis encontram. Como outras obras brasileiras desse subgênero da FC e fantasia, o autor abre mão da aventura em favor do discurso moralizante e pacifista.

Uma Lista de Obras de Mundo Perdido, no Período Pioneiro:

A Amazônia Misteriosa, de Gastão Cruls. 1925.

A República 3000 ou A Filha do Inca, de Menotti Del Picchia. 1927.

Kalum, o Mistério do Sertão, de Menotti Del Picchia. 1936.

O Irmão do Diabo, de Jeronymo Monteiro. 1937. Farsa atribuída a “Walter Baron”, republicada em 1970 como O Ouro de Manoa.

A Serpente de Bronze, de Ronnie Wells (Jeronymo Monteiro). 1938?

O Rei do Mundo Perdido, de Hamilcar de Garcia. 1944.

A Cidade Perdida, de Jeronymo Monteiro. 1948.

Viagem Interplanetária, de Soares de Faria. 1956.

 

Le Corbusier (Le Corbusier), de Stefania Suma. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha Grandes Arquitetos Vol. 5, 2011, 80 páginas. Tradução de Wally Constantino. Capa dura. Le Corbusier foi um dos pais intelectuais e artísticos de Oscar Niemeyer, que estagiou com ele durante uma visita do arquiteto franco-suíço ao Brasil, na década de 1930. Le Corbusier foi um dos primeiros amantes do concreto armado, na arquitetura modernista. Ele foi o homem do “brutalismo” na arquitetura, por conta da sua adoção de materiais sem acabamento (especialmente o concreto bruto), a partir de fins da década de 1920. Sua inovação de erguer prédios sobre pilones, suavizando o peso dos caixotões modernistas, foi refinada por Niemeyer no edifício do Supremo Tribunal Federal em Brasília, por exemplo. Um aspecto interessante sobre ele foi ter começado como artista plástico, antes de ir para a arquitetura. Por conta disso, seus desenhos e projetos têm uma qualidade artística nas linhas e na tonalidade.

Quanto às obras, os especialistas concordam que o seu projeto da Maison Dom-ino ditou a tendência de linhas simples e retas que definiria o modernismo na arquitetura, no que chamam de estética purista. O concreto armado pré-fabricado interessou o arquiteto como possibilidade de viabilizar construções modulares, ampliáveis e a baixo custo como moradia popular (algo que não se realizou na prática). Um de seus projetos mais ousados, com essas características, foi o de uma cidade para três milhões de habitantes, modular, nunca construída. Seu manifesto da poética purista buscava abraçar o modernismo na arquitetura, incorporando nela expressões do espírito científico, da praticidade e da energia da era industrial, traduzidos poeticamente como uma busca pela pureza. Sua construção mais famosa deve ser a Capela de Notre-Dame-du-Haut, em Ronchamp, França (aparece na capa do livro), mostra que sua estética pode ser relativamente complexa e manter o antigo compromisso com a captura de formas básicas mas expressivas, e que, em meados da década de 1950, parece ter prenunciado o pós-modernismo na arquitetura. Avança mais no futurismo, portanto, e é interessante notar que algumas imagens da fachada norte e oeste da capela parecem sugerir o tipo de solução simples mas futurista das construções de Tatooine, de Star Wars.

 

Arte de capa de Edvard Munch.

Expressionismo (Expressionism), de Ashley Bassie. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha O Mundo da Arte vol. 8, 2017, 68 páginas. Capa de Edvard Munch. Tradução de Gil Reyes. Capa dura. Meu cérebro não lida bem com oposições binárias, e por isso sempre confundi o Impressionismo e o Expressionismo nas artes. Este livrinho certamente dissolve essa minha confusão. Mesmo assim, Bassie começa lembrando que o Expressionismo não foi um movimento coerente, e sim uma tendência difusa na pintura do início do século 20, primeiro associada a artistas como Gauguin, Van Gogh, Matisse e Cézanne — certamente não identificados com o Expressionismo como ele é conhecido. Acaba sendo que a corrente passa a se identificar mais com a vanguarda alemã, principalmente durante e depois da Primeira Guerra Mundial. Sem apresentar recursos inovadores, é uma arte que emprega o já conhecido para tratar da experiência subjetiva, individual, a partir de distorções de anatomia e perspectiva, simplificação de formas e detalhes, redução de paleta de cores, e interpretação geométrica de formas.

Me interessou em particular a adoção da xilogravura pelo grupo Ponte de Artistas, na Alemanha, porque eu já enxergava uma conexão com as ilustrações de xilogravura de João Mottini (1923-1990) na FC brasileira 3 Meses no Século 81 (1947), de Jeronymo Monteiro, e o Expressionismo. (Mottini também ilustrou, com um estilo completamente diferente, O Rei do Mundo Perdido, de Hamilcar de Garcia.) É uma pena que o livro não explore mais as xilogravuras e litogravuras expressionistas, reproduzindo apenas e en passant um cartaz de Käthe Kollwitz.

Os principais pintores examinados no livro são Max Beckmann, Otto Dix, George Grosz, Wassily Kandinsky, Ernst Ludwig Kirchner, Paul Klee (que incluía elementos gráficos nas suas pinturas), Oskar Kokoshchka, Franz Marc, e Edvard Munch — cujo O Grito,quadro em têmpera e pastel sobre madeira, é a obra mais famosa do Expressionismo.

—Roberto Causo

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Os Melhores de 2017

Veja aqui a lista dos melhores livros e melhores filmes lidos e vistos por Roberto Causo, em 2017.

 

Livros

1. Doomsday Book, de Connie Willis. Por boa margem, este foi o melhor romance de ficção científica que li este ano, uma história de viagem no tempo originalmente publicada em 1992, com edição brasileira pela Suma de Letras, em capa dura, lançada em 2017 — a tradução é de Braulio Tavares. Pouco publicada no Brasil, Willis é um dos grandes nomes da corrente humanista da FC pós-modernista americana.

Arte de capa de Kevin Murphy

2. Adiamante, de L. E. Modesitt, Jr. Um romance compacto de ficção científica do futuro distante que, sozinho, oferece alternativa à enxurrada perpétua de ficção científica que propõe o genocídio preventivo como a estratégia básica das civilizações galácticas, no máximo imaginável de darwinismo social. A solidez do suspense está a par com a filosófica.

3. South of Broad, de Pat Conroy. O último romance do recentemente falecido Conroy, é um drama de várias décadas envolvendo um fiel e traumatizado grupo de amigos na charmosa capital sulista Charleston. Mistura ficção de crime, crônica social, reflexões sobre diversidade sexual, abuso e AIDS, da maneira ao mesmo tempo sentimental e incisiva que caracteriza a obras de Conroy.

4. The Divine Comedy, de Dante Alighieri. Edição em inglês da Divina Comédia, clássico poema épico de Dante, uma das maiores construções poéticas do Renascimento. A tradução do italiano é de outro poeta mestre, Henry Wadsworth Longfellow.

5. Teoria do Drone, de Grégoire Chamayou. O mais importante livro de não-ficção que li em 2017, amarra e explicita todas as relações insidiosas de poder, guerra e alienação da opinião pública, em torno de um dos temas mais candentes do século 21: o uso de drones de ataque em “guerras” por atacado, conduzidas “contra o terror” pelos Estados Unidos. Certamente, um assunto que também tem tudo a ver com a ficção científica.

6. The Underground Railroad, de Colson Whitehead. Premiadíssimo romance afro-americano que toca o realismo mágico e a ficção científica, enquanto acompanha uma jovem que fugiu da escravidão em uma fazenda no Sul dos Estados Unidos, para descobrir outras dimensões da opressão racista conforme ela passa por outros estados e encontra extremos de organização social voltada para o controle da população negra.

7. Dragon Haven: Volume Two of the Rain Wilds Trilogy, de Robin Hobb. Segundo volume de uma tetralogia de alta fantasia ambientada no mesmo universo da Trilogia do Assassino e da Trilogia dos Mercadores de Navios Vivos. Hobb lida como ninguém com textura, caracterização, enredo e passo narrativo. Este não é o seu melhor, mas ainda acima da maioria.

8. Os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater. Primeiro de uma tetralogia de fantasia contemporânea para jovens, ambientada na Virgina e envolvendo o resgate, por um grupo de garotos esoteristas, de um rei celta sepultado no lugar, e incógnito há séculos. A prosa de Stiefvater tem uma vivacidade única e uma complexidade enganadora.

9. Beowulf’s Children Larry Niven, Jerry Pournelle & Steven Barnes. Um bojudo romance de colonização planetária escrito a seis mãos, que fiz questão de ler no ano em que Pournelle faleceu. Elabora e problematiza de modo engenhoso uma série de questões sobre liberdade, comunidade, sexo e ecologia.

10. Hunter’s Run George R R Martin, Gardner Dozois & Daniel Abraham. Outro romance de FC de colonização planetária — e outro escrito a seis mãos! Mas Hunter’s Run, que saiu no Brasil pela LeYa este ano como Caçador em Fuga, concentra-se no retrato psicológico de um único personagem, com muita aventura das antigas costurada no meio.

11. O Esplendor, de Alexey Dodsworth. Um dos romances brasileiros de FC mais ambiciosos dos últimos anos, este que é o segundo livro de Dodsworth compõe um diálogo com uma das obras-primas de Isaac Asimov, a noveleta “O Cair da Noite”. Rendeu ao autor o seu segundo Prêmio Argos (do Clube de Leitores de Ficção Científica) de Melhor Romance.

12. American Fascists: The Christian Right and the War on America, de Chris Hedges. Um necessário livro reportagem que disseca a direita cristã americana, por tabela lançando luz sobre a atual situação política os EUA — e a potencial situação política brasileira, já que também aqui essa corrente reacionária tem crescido.

13. Não Chore, de Luiz Bras. Uma novela de ficção científica tupinipunk, certamente o destaque de Luiz Bras em um ano no qual ele publicou três livros. Faz par com o seu notável romance rapsódico Distrito Federal, de 2015, embora os dois livros possam ser lidos separadamente.

14. O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis. Clássico da ficção científica americana da década de 1960, virou filme e foi lançado no Brasil apenas em 2017, pela DarkSide. Uma FC sobre alienígena infiltrado na Terra, com um expressivo conteúdo existencialista.

15. Stories of Your Life and Others, de Ted Chiang. A primeira coletânea do multipremiado contista americano, incluindo a história título que foi base do filme A Chegada. Narrativas complexas, fabulation pós-modernista e especulação científica de alta qualidade.

 

Cinema

1. Logan, dirigido por James Mangold. A Marvel entra no terreno de Cormac McCarthy, neste que é um sério candidato a melhor filme de super-heróis da história. Filme duro, tecnicamente impecável e surpreendentemente emocional, estrelado por Wolverine e o Prof. Xavier num diálogo com os westerns do passado.

2. Fragmentado (Split), dirigido por M. Night Shyamalan. Outro incomum filme de super-herói (de supervilão, na verdade) conduzido de modo diferenciado — como um admirável filme de suspense, com ótimas interpretações e uma reflexão importante sobre trauma psicológico. Só não digo que com ele Shyamalan recuperou a sua glória passada, por que de fato ele nunca a perdeu — as críticas constantes dirigidas a ele são só implicância dos críticos.

3. Blade Runner 2049, dirigido por Denis Villeneuve. A sequência do clássico de Ridley Scott é um banquete visual e uma introspectiva viagem a um plausível mundo futuro dominado por uma megacorporação obcecada em recriar e controlar a vida. Mais forte em enredo e mais fraco em sugestões de transformação social do que o proto-cyberpunk de 1982. Ainda sim, celebração de uma FC séria e cinematicamente hábil.

4. 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey), dirigido por Stanley Kubrick. Minha esposa Finisia Fideli e eu tivemos a chance de ver uma reprise deste clássico do cinema de ficção científica, com roteiro de Kubrick e Arthur C. Clarke, em uma sessão no Shopping Pátio Higienópolis, em maio de 2017. A tela grande faz toda a diferença para a linguagem visual desse filme ainda inquietante.

5. Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars Episode VIII: The Last Jedi), dirigido por Rian Johnson. O diretor Johnson devolveu a esperança ao prato principal da franquia agora dominada pela Disney, com uma história que prende a atenção, inverte construtivamente algumas expectativas, e mostra uma atuação dos jedi que vai além do usual kung-fu aéreo. Algumas premissas não estão em sintonia com o universo de Star Wars, e o roteiro insiste que devemos deixar para trás o que já sabemos sobre ele e aceitar como boas ovelhas o que será apresentado dali em diante. Esperem sentados.

6. Assassinato no Expresso do Oriente (Murder at the Orient Express), dirigido por Kenneth Branagh. O clássico de mistério de Agatha Christie tem uma adaptação engenhosa e criativa por parte de Brannagh, que usou o tom exaltado do teatro, movimentos de câmera e enquadramentos incomuns para arejar um romance em que a mãe desse subgênero de ficção de crime reflete, subverte e dignifica as próprias artimanhas.

7. A Vigilante do Amanhã (Ghost in the Shell), dirigido por Rupert Sanders. A primeira adaptação live action do anime cyberpunk original de 1995, dirigido por Mamoru Oshi, é um imbróglio pós-modernista de fluxos de capitais transnacionais plasmados em franquias e percepções étnicas em fluxo — ah, teorias pós-modernistas à parte, o filme é um triunfo da pré-produção, grande expressão do que a arte digital e as IGCs consegue realizar hoje em dia, e pouco mais do que isso.

O cinema é um grande prazer. Mas por algumas dificuldades sofridas em 2017, que incluíram falta de tempo, não vi tantos filmes quanto gostaria. Acima estão todos os que vi durante o ano.

—Roberto Causo

 

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Causo Fala Sobre o Filme “A Chegada”, na UNIFESP

Em 6 de novembro de 2017, Roberto Causo esteve no campus de Guarulhos da Universidade Federal  de São Paulo, para uma atividade da Semana do Inglês, dirigida aos alunos de graduação do curso de Inglês da Faculdade de Letras daquela universidade. O assunto foi o filme A Chegada (Arrival, 2016), dirigido por Denis Villeneuve, e a premiada noveleta do escritor sino-americano Ted Chiang que o inspirou, “História da sua Vida”.

 

 

O convite para falar no evento foi feito pela Prof.ª Suzanna Mizan, a quem Causo conheceu na pós-graduação na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, em 2014. Os dois foram acompanhados pelo mesmo orientador, o Prof. Lynn Mário Trindade Menezes de Souza. Esta foi a primeira Semana do Inglês realizada na UNIFESP de Guarulhos. Depois da exibição do filme em DVD, Causo falou sobre suas implicações e sobre a noveleta.

O filme de ficção científica de Villeneuve foi muito bem recebido pela crítica e rendeu uma indicação ao Oscar para a protagonista, Amy Adams. A resposta foi tão positiva, que logo o diretor canadense foi chamado para dirigir Blade Runner 2049. Contudo, o projeto da adaptação cinematográfica da história de Ted Chiang é do roteirista Eric Haisserer.

 

Quanto a Ted Chiang, sua carreira começa em 1991, quando é indicado e recebe o Prêmio Nebula pela noveleta “A Torre da Babilônia” (“Tower of Babylon”), publicada na revista Omni. As duas histórias estão presentes no primeiro livro de Chiang publicado no Brasil, História da sua Vida e Outros Contos (Histories of your Life and Others), pela Intrínseca. O fato de ele publicar esporadicamente e de ainda não ter se dedicado à escrita de um romance assinala o seu desinteresse em ter uma carreira comercial na ficção científica. Nesse mesmo sentido, suas histórias são vistas como altamente literárias e arrojadas. Dificilmente alguns dos seus textos deixa de ser indicado aos principais prêmios do campo da FC.

“História da sua Vida” pertence a um subgênero bastante específico da ficção científica, as histórias de primeiro contato. Um exemplo disponível nas livrarias brasileiras é o romance clássico O Fim da Infância (1953), de Arthur C. Clarke.

Como FC, a história combina elementos de ficção científica hard (centrada nas ciências exatas), e ficção científica soft (centrada nas ciências humanas). No caso, seriam respectivamente a física ótica e física quântica, e a linguística e a filosofia, respectivamente. É claro que, tanto no filme quanto na noveleta, o componente mais saliente é a linguística, já que o enredo gira em torno da decifração de uma língua alienígena, por uma linguista americana, a Dr.ª Louise Banks. Causo lembrou que o primeiro contato entre uma cultura e outra é um fato da vida real, e que o Brasil é pródigo em primeiros contatos (entre nossa cultura e as diversas culturas indígenas que interagem conosco).

Uma outra oposição que foi tratada na apresentação, é aquela entre ficção de gênero e ficção literária. The Encyclopedia of Science Fiction (1993), de Peter Nicholls & John Clute faz inclusive uma distinção, “genre sf ” e “non-genre sf” para destacar o fato de que um trabalho de FC pode ser apresentado ou não como parte dou gênero, ou ter uma tônica popular ou comercial (ficção de gênero) ou não (literária). Obviamente, a escrita de Chiang é mais literária, mas fica claro que o filme buscou aspectos da ficção de gênero, aproximando-se do thriller para garantir viabilidade maior nas bilheterias.

Como uma FC mais literária, “História da sua Vida” apresenta características exemplares da ficção pós-modernista americana atual: ausência de enredo ou de intriga; a descrição de slices of life ou instantes da vida; uma prosa complexa e com algo de experimental; o tema da perda pessoal; o caráter metalinguístico ou metaficcional; a ênfase na memória e na psicologia; a projeção de um ethos universitário nos valores e na linguagem representados; e referências literárias (no caso, a Jorge Luis Borges).

A complexidade da prosa de “Historia da sua Vida” aparece no tempo verbal que funde pretérito perfeito e futuro do pretérito. Além disso e igualmente refletindo a premissa central da história — de que o aprendizado de uma língua alienígena em que o tempo é circular e não linear —, ocorre, no plano estrutural, um embaralhamento da ordem cronológica das situações narradas.

Por sua vez, o filme se aproxima da aventura e da ficção de gênero, mas busca ser artístico a partir de elementos cinemáticos centrados no flashback, na atmosfera, nos recursos fotográficos, no estranhamento visual, na profundidade emocional da performance dos atores, etc. Ele “compensa” a adoção de elementos mais aventurescos, com uma linguagem específica do cinema.

Metalinguagem é a linguagem que discute a linguagem, e claramente noveleta e filme possuem essa característica. Nas duas obras, a decifração da língua alienígena e o seu poder de mudar a cognição são explorados de maneiras bastante engenhosas. Quando essas reflexões se expressam no plano narrativo, elas também se apresentam como metaficção — uma ficção que discute, dramatiza ou desafia o nosso entendimento imediato do que é a ficção.

Muitas questões interessantes surgiram ao final da atividade, por parte de Suzanna Mizan e suas colegas. É claro, a hipótese de que a linguagem afeta a cognição é conhecida da área dos estudos linguísticos. Além disso, foi observado que a figura dos alienígenas no filme lembrava os seres imaginados por H. P. Lovecraft, talvez havendo aí um elemento crítico e subversivo, considerando o horror que elas inspiravam nos eruditos de Lovecraft, numa reação contrária (passado o estranhamento inicial) à da Dr.ª Banks e do seu colega, o físico Donnelly. Mais tarde, quando Causo lembrou que, no filme, a improvável casa que Banks tinha à beira do lago faz uma oposição de sentido com a paisagem rural tétrica em que uma das naves se manifesta, a mesma pessoa apontou uma conexão om o gótico americano, em que o ambiente rural é fonte de fatos ou coisas terríveis.

Outra colega notou que, na subtrama envolvendo o general chinês (exclusiva do filme), também está presente o tema da perda, já que é por saber das últimas palavras preferidas pela esposa moribunda do general, que Banks tem uma abertura para a simpatia e a colaboração dele.

Roberto Causo recebeu da Prof.ª Mizan um exemplar da edição americana pela Vintage, de Stories of Your Life and Others, e deixou com ela um exemplar de Shiroma, Matadora Ciborgue, e para a biblioteca da universidade, sua antologia Contos Imediatos (Terracota Editorial, 2009), e o livro de M. Elizabeth Ginway, Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir Brasil, 2005). Um exemplar extra de Contos Imediatos foi entregue a uma aluna de pós-graduação interessada em explorar a ficção científica nos seus estudos.

Os presentes concordaram que o filme de Denis Villeneuve e a história de Ted Chiang são escolhas interessantes de estudo, e se aventou a hipótese da ficção científica como assunto integrar novos eventos acadêmicos na Faculdade de Letras da Universidade Federal  de São Paulo em Guarulhos, no futuro.

 

 

 

 

Roberto Causo agradece à Prof.ª Suzanna Mizan pela oportunidade de falar na UNIFESP.

 

A Profa. Suzanna Mizan (no centro) e suas alunas e colegas.

 

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Douglas Quinta Reis (1954-2017)

O desencarne do editor Douglas Quinta Reis, da Devir Brasil, em 13 de outubro de 2017, representou uma aguda perda pessoal, mas também foi uma perda grave para o campo da ficção científica, fantasia e horror no Brasil.

 

Douglas Quinta Reis (1954-2017).

Devo ter conhecido Douglas Quinta Reis em alguma reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica em São Paulo, em fins da década de 1980. Só o associei à Devir quando o procurei em 2002, por intermédio do editor Silvio Alexandre, que na época trabalhava na Devir. Meu objetivo era sugerir a publicação dos livros de ficção científica e fantasia de Orson Scott Card — algo que eu já tinha feito junto a outras editoras. Silvio escreveu o seu próprio obituário para o site Publishnews, com muitas informações importantes e a sua própria avaliação pessoal do Douglas.

Para minha surpresa, Douglas era tão fã de Card quanto eu. Ele me disse, inclusive, que tinha o desejo de publicar toda a sua obra. Algumas semanas depois, eu submetia à ele o projeto de publicar a coletânea de histórias A Sombra dos Homens, com as primeiras histórias da Saga de Tajarê, de fantasia heroica, que eu havia iniciado anos antes nas páginas da revista de RPG Dragão Brasil.

Também para minha surpresa, o projeto foi aceito por Douglas sem grandes discussões. A decisão dele me trouxe um grande alento, pois naquela época eu vivia uma daquelas crises periódicas de dúvidas sobre a carreira e o ofício da escrita de FC e fantasia no Brasil, que costumam me acometer.

Escrevi mais duas histórias, além das duas que tinham saído na Dragão Brasil, e o livro apareceu em 2004 com introdução de Braulio Tavares e capa de Lourenço Mutarelli— na época um nome muito associado à Devir como artista de quadrinhos, mas que a editora, com o trabalho do Douglas, já havia revelado como romancista, para o mainstream literário brasileiro. Mais tarde, Douglas também publicaria o meu primeiro romance, A Corrida do Rinoceronte (2008).

Essa atitude leve com respeito à publicação de livros foi uma das características notáveis da atuação editorial de Douglas. Raramente eu o vi rejeitar um projeto — e quando isso ocorreu, foi em razão de alguma rigidez do autor ou autora, em relação às observações dele. Ou em momentos em que a editora estava se reorganizando e certas áreas de publicação estavam momentaneamente suspensas. Essa abertura vinha primeiro da sua qualidade de leitor polivalente, sem preconceitos e familiarizado com vários gêneros. Mas também pelo entendimento de que a escrita, a leitura e a publicação de livros são aventuras de descobrimento — não apenas de talentos literários, mas da receptividade  do leitor. Daí ele dispensar a obsessão de muitas editoras em perseguir tendências visando otimizar vendas, publicando mais do mesmo.

Em 2005, Douglas me convidou para atuar como editor free-lancer, e rapidamente criamos três linhas de livros: a Pulsar (ficção científica), que acolheu os livros de Card; a Quymera (fantasia) e a Pentagrama (horror). Mais tarde, desenvolvemos um projeto favorito dele, a coleção Asas do Vento de livros de bolso dentro de um formato inédito e nunca repetido posteriormente: em 9 x 15,5 centímetros, com capa semirrígida. E também e a Enciclopédia Galáctica, de estudos e referência na área da ficção especulativa.

A Pulsar e a Asas do Vento foram as coleções mais produtivas. A primeira conta hoje com 17 títulos, tendo publicado autores importantes para a FC internacional como Card, Bruce Sterling, Arthur C. Clarke e Ursula K. Le Guin (em uma antologia). Além de completar a Saga de Ender, de Card, a coleção demonstrou muita ousadia ao publicar a maior coletânea de histórias de um autor brasileiro de FC, Confissões do Inexplicável, de André Carneiro; o primeiro “omnibus” da FC brasileira, reunindo os três romances da Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife (que teve mais dois livros na coleção); a primeira antologia internacional de FC política montada no Brasil (organizada por Marcello Simão Branco); a primeira coletânea de Ivanir Calado, e a primeira série de antologias retrospectivas dos melhores da FC brasileira. Agora, em 2017, deve sair, fora da coleção, a primeira antologia retrospectiva do melhor do horror nacional, organizada por Branco & Silva. A Pulsar também incorporou os primeiros livros das minhas séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue. A Pulsar empregou muito o artista brasileiro de FC, Vagner Vargas, certamente impulsionando muito a sua carreira.

A Asas do Vento foi uma linha internacional que publicou Sterling, Card e o francês Jean-Pierre Laigle, além dos brasileiros Christopher Kastensmidt, Simone Saueressig, João Batista Melo e Carlos Orsi. Muitas vezes, combinava autores estrangeiros e nacionais num mesmo volume. Não foi adiante porque as questões de distribuição e exibição de livro de bolso são muito complicadas. A Enciclopédia Galáctica, por sua vez, publicou estudiosos importante como M. Elizabeth “Libby” Ginway (a brasilianista que é a maior especialista mundial em FC brasileira) e Alfredo Suppia (o especialista mundial em cinema brasileiro de FC), além de abrigar a última fase do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, de Cesar Silva & Marcello Simão Branco.

 

Douglas com o escritor e game designer Christopher Kastensmidt (à esquerda), com que estabeleceu uma relação muito produtiva em anos recentes.

Quando Douglas, Mauro Martinez dos PrazeresWalder Mitsiharu Yano, e de Deborah Fink, esposa do Mauro, fundaram a Devir Livraria em 1987 (há trinta anos), criaram uma importadora de histórias em quadrinhos e de jogos de cartas, eles provavelmente não tinham ideia do impacto que sua empresa iria ter. Aos poucos, a empresa cresceu e se internacionalizou, transformou-se também em editora. Com muita boa vontade e criando o  próprio trajeto na sua viagem de descobertas, ela foi fundamental para o boom do RPG na década de 1990, para os quadrinhos nacionais e para a entrada dos livros de HQs nas livrarias, e para o mercado local moderno de jogos de tabuleiro. Poucas empresas foram tão importantes para a face brasileira da cultura nerd/geek da atualidade. A ambição de Douglas para a ficção científica era semelhante — sedimentar sua presença nas livrarias e fomentar o autor brasileiro.

Por diversas questões comerciais, financeiras e conjunturais (as diversas crises políticas e econômicas que o país enfrentou e enfrenta), o impacto da atividade da Devir Brasil na área não foi tão grande quando poderia ter sido. Isso, porém, não diminui a importância, a originalidade e a ousadia do esforço que Douglas capitaneou nessa área.

Conviver com ele sempre foi um prazer que ia além da produção de livros. Douglas era um homem vivido e de cabeça aberta, gregário e conversador, que buscava conduzir o pensamento da gente com exemplos, metáforas e casos, em direções diferentes e incomuns. Sem afetações de intelectual ou de executivo, era sempre acessível e próximo no tratamento com autores ou leitores. Vai deixar saudades e fazer muita falta.

—Roberto Causo

 

Roberto Causo e Douglas Quinta Reis.

 

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