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Leituras de Novembro de 2018

Em novembro de 2019 aconteceu o IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional, nas dependências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Fui convidado pelo organizador Flavio García para apresentar uma conferência, e na preparação dessa conferência pouco tempo sobrou para as leituras habituais. Mesmo assim, o mês trouxe alguma leitura de ficção científica e, especialmente, da pioneira antologia das melhores histórias brasileiras de horror, organizada por Marcello Branco & Cesar Silva.

 

Home from the Shore, de Gordon R. Dickson. Nova York: Ace Books, 1.ª edição, 1979 [1978], 122 páginas. Ilustrações de James R. Odbert. Posfácio de Sandra Miesel. Paperback. Assim como na série Dorsai, em Home from the Shore o escritor canadense-americano Gordon R. Dickson (1923-2011) apresenta uma espécie de proto-divisão da humanidade entre conservadores e progressistas — estes determinados a encararem o futuro no espaço e em outros planetas. Neste romance curto, após duas gerações apenas, humanos que colonizaram os mares do nosso mundo começam a se diferenciar daqueles que ficaram em terra. Jovens são selecionados para se tornarem cadetes espaciais, mas a empreitada se transforma em um revés para toda a comunidade dos humanos do mar. Isso acontece depois que eles realizam um protesto, involuntariamente coletivo, contra a “caça para propósitos científicos” de uma espécie alienígena volante que vaga pelo Sistema Solar. De algum modo, o ambiente aquático desses jovens nutre uma sensibilidade incompreensível para os outros, e que permitiu uma empatia com tais seres, percebendo-os como sencientes. Vindos de uma sociedade libertária, quando passam a ser perseguidos pelas autoridades a deserção é a solução imediata.

O líder desse grupo é o jovem Johnny Joya, que, quando volta para a sua comunidade subaquática, descobre ser pai de um menino esperto e um tanto ressentido. Nesse ponto, a história muda substancialmente de tom, que se torna mais introspectivo e literário. A comunidade tem a habilidade de se desfazer em habitats autônomos chamados Lares, e por algum tempo é como um jogo de gato e rato, até que a trama se dirija a uma operação de resgate aos prisioneiros, enfiados numa instalação de Nova York. A missão é sabotada por um traidor muito próximo de Johnny, que, depois de perder a esposa, desiste do conflito e parte com o filho pequeno, Timo, para viver, sem os Lares high-tech, diretamente do mar como as gerações anteriores. Ele sugere o mesmo aos outros, em uma dispersão que vai dificultar que os humanos da terra continuem a persegui-los. No posfácio, Sandra Miesel, uma estudiosa da obra de Dickson, explica que Home from the Shore é parte de uma sequência completada com The Space Swimmers, protagonizada por Timo. Segundo ela, Dickson apresenta uma dicotomia entre inconsciente/conservadorismo e consciente/progressismo. Para além desse aspecto filosófico, o livro é uma aventura movimentada e colorida no espaço e no oceano, envolvendo golfinhos e orcas, e um ode à juventude e à simplicidade na vida.

Home from the Shore foi concebido como um livro ilustrado com elegantes desenhos em autocontraste de James R. Odbert, bem fundidos com o texto. Eles formam uma fusão equilibrada do conhecido e do futurista, e de linhas retas e formas ovoides e onduladas. Muitas vezes, Dickson soava bastante hiperbólico com respeito ao próprio trabalho e projetos, e neste caso ele afirma que a cooperação de texto e arte aqui seria única, não só no campo da FC quanto no âmbito editorial. Provavelmente, não é tanto assim, mas ele tem uma observação no prefácio que vale ser reproduzida:

“A ilustração sempre foi considerada como uma parte dos livros, até o começo deste século, quando ela começou a ser expulsa da maior parte da ficção por razões de custo editorial. A única exceção a essa tendência estava na ficção escrita para os jovens; e mesmo nesse tipo de material de litura elas foram severamente limitadas. Uma concepção errônea do editor cresceu para uma aceitação generalizada de que eram as palavras, e apenas as palavras, que os leitores adultos queriam, e não imagens.

“Como ocorre frequentemente no campo literário, essa concepção errônea foi gerada e aceita sem qualquer referendo real daqueles mais interessados — os próprios leitores. O resultado é que ela existia até bem perto do momento histórico presente, com uma exceção. A exceção era a ficção científica, a única área da literatura em que se tinha a oportunidade de responder diretamente aos autores tanto em pessoa quando por carta; e na qual, apropriadamente, eles expressavam sua preferência não apenas por ilustrações nos livros que leem, como por boas ilustrações — ilustrações não expressas apenas nas cores tipo poster da moda do momento e nos padrões frívolos da publicidade, sem qualquer preocupação real com a história na qual é aplicada. A ilustração que os leitores demonstravam desejar era aquela que verdadeiramente espelhava a história ilustrada; e que tentasse trazer para um foco agudo e artístico as imagens gerais dos personagens e cenas formadas na mente conforme a história fosse lida.” —Gordon R. Dickson.

Oneironautas, de Fábio Fernandes & Nelson de Oliveira. São Paulo: Editora Patuá, 2018, 90 páginas. Texto de orelha de Santiago Santos. Livro de bolso. Este livro é uma incomum colaboração entre dois nomes de peso dentro da ficção científica brasuca moderna — Fábio Fernandes, acadêmico e ficcionista da Segunda Onda da FC Brasileira, e parte do Grupo da Renovação que fez a ponte com a Terceira; e Nelson de Oliveira, autor consagrado no mainstream literário que, como o heterônimo “Luiz Bras”, é um dos autores mais interessantes da Terceira Onda e uma das suas melhores lideranças e cabeças pensantes. Uma nota no fim do livro observa que ele deveria ter saído em 2016, quando os dois escritores completariam 50 anos de idade. As eventualidades da escrita e da edição determinaram que sairia apenas em 2018. Eu o li enquanto aguardava meu voo para o Rio de Janeiro, onde ia participar, por obra e graça do Prof. Flavio García e da CAPES, do IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional.

A história enfoca uma dupla de viajantes do tempo que participam de uma festa eterna na qual encontram não apenas alienígenas mas também várias versões deles mesmos. No capítulo 3, porém, surge uma ex de Fábio, uma mulher negra que tentou matá-los em um outro contínuo do espaço-tempo. Além disso, os outros foliões estão atrás deles por terem espalhado um vírus de insônia entre os “oneironautas” — sendo que os saltos entre os mundos paralelos se dá por meio de sonhos. A narrativa, cheia de referências culturais pop e surrealistas, se desenvolve em capítulos curtos, com diálogos exaltados e sempre apresentando um gancho no final. Cada capítulo é narrado em primeira pessoa, mas sob o ponto de vista alternado de um Nelson ou um Fábio (e vice-versa). Difícil saber, mas me parece que a narrativa foi construída como uma espécie de round-robin, sem planejamento, com um escritor pegando de onde o outro parou. Oneironautas é divertidíssimo, especialmente para quem conhece a dupla e consegue visualizar os dois trilhando o seu caminho entre as dimensões da Festa Eterna.

 

Arte de capa de Flávio Correia Lima.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror, de Marcello Simão Branco & Cesar Silva, eds. São Paulo: Devir Livraria, 2018, 272 páginas. Arte de capa de Flávio Correia Lima. Brochura. Há décadas que Cesar Silva e Marcello Simão Branco vêm contribuindo, individualmente ou em dupla, para o avanço da ficção científica e fantasia no Brasil. Os criadores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica (encerrado em 2014) retornaram em 2018 com um trabalho fabuloso, esta antologia que se associa a outras que têm surgido em tempos recentes valorizando a ficção de horror e, em particular, o horror no Brasil. Entre elas estão a internacional Contos Clássicos de Terror, de Julio Jeha, ed. (Cia das Letras; 2018); e a anterior Páginas Perversas: Narrativas Brasileiras Esquecidas (Appris Editora; 2017), de Maria Cristina Batalha, Júlio França & Daniel Augusto P. Silva, eds.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror é um dos projetos deixados por Douglas Quinta Reis, no inventário de projetos que ele conduzia na Devir Brasil. É maravilhoso que tenha sido completado. A seleção de histórias começa lá no século 19 e vem até o início do nosso século 21. Inclui “A Vida Eterna” (1870, de Machado de Assis; “Acauã” (1892), de Inglês de Sousa; e o mais antologizado “Demônios” (1893), de Aluísio Azevedo. O destaque do período para mim, porém, é “Assombramento (História do Sertão)” (1898), de Afonso Arinos, conto mais longo e com fortes marcas regionalistas, que pinta um quadro bastante expressivo da casa mal-assombrada — uma casa-grande de fazenda, no caso, e que o corajoso vaqueiro Manuel decide enfrentar sozinho, passando a noite lá dentro. No que pode ou não ser um episódio sobrenatural, ele sai machucado mas de coragem intacta, em uma narrativa de força incomum — que encontra um estranho paralelo na bela ilustração de capa de Flávio Correia Lima.

A atmosfera tétrica, carregada de impressões de medo e de perturbações mentais, é a tônica das narrativas selecionadas do começo do século 20 — “O Defunto” (1907), de Thomaz Lopes; “A Peste” (1910), de João do Rio; e “Rag” (1922), de M. Deabreu —, até encontrarem o equilíbrio perfeito em uma obra-prima de Gastão Cruls, autor do clássico da FC de mundo perdido A Amazônia Misteriosa (1925): “O Espelho” (1938), em que a influência de Edgar Allan Poe se faz sentir da melhor maneira, numa história de obsessão sexual. Daí em diante, já na segunda metade do século 20, as histórias ganham variedade de enfoque, tom e tema, a partir de “Tuj” (1968), tentativa de uma espécie de impressionismo New Wave do autor da Primeira Onda da FC Brasileira Walter Martins, também publicada na França (na revista Antarès). Muito vista no campo da literatura infanto-juvenil, Márcia Kupstas está no livro com uma releitura de terror e erotismo da história de Pinocchio, com o conto “Geppeto” (1987). A década de 1990 é representada por “Bença, Mãe” (1992), de Júlio Emílio Braz; “Solo Sagrado” (1995), uma história de fanatismo religioso de Carlos Orsi; o meu “Trem de Consequências” (1995), uma história de trato com o diabo; até alcançar seu ápice na fusão da imaginação gótica e da exploração da herança histórica de violência brasileira, na novela de Tabajara Ruas, “O Fascínio” (1997). “Os Internos” (2007), de Gustavo Faraon, representa o século 21, mas é o conto de horror folclórico “Bradador” (2014), de Braulio Tavares, que fecha esta histórica antologia com chave de ouro. Um livro necessário, e uma realização importante de Branco & Silva, que aqui fornecem uma moldura para a produção de ficção de horror no Brasil, frisada pelo seu ensaio panorâmico e aprofundado, “Trajetória e Caracterização de uma Ficção de Horror Brasileira”, que serve de introdução ao livro.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Thomas Campi.

A História de Joe Shuster: O Artista por Trás do Superman (The Joe Shuster Story), de Julian Voloj (texto) & Thomas Campi (arte). São Paulo: Editora Aleph, 2018, 192 páginas. Capa de Thomas Campi. Tradução de Marcia Men. Há alguns anos, resenhei o livro Homens do Amanhã: Geeks, Gângsteres e o Nascimento dos Gibis (Men of Tomorrow; 2004), de Gerard Jones, para o Terra Magazine. Foi uma leitura fascinante, centrada na presença de artistas e empresários judeus na indústria dos quadrinhos, com muita interface com a ficção pulp de FC, detetive e aventura — e com a história da criação do super-homem pela dupla Jerry Siegel & Joe Shuster como principal estudo de caso. Afinal, a criação do homem de aço resultou no subgênero dos super-heróis nos quadrinhos. Depois de ler o livro de Jones, fica fácil de entender um romance como As Incríveis Aventuras de Cavalier & Clay (2000), de Michael Chabon, que explora a trajetória dos judeus-americanos no campo dos quadrinhos. Eu ainda adquiri, anos mais tarde em uma liquidação na loja Terramédia (hoje, Ominiverse), Man of Two Worlds: My Life in Science Fiction and Comics, de Julius Schwartz com Brian M. Thomsen, autobiografia de um agente literário e roteirista de quadrinhos que também atuou com Super-Homem.

Este romance gráfico de Voloj & Campi é uma biografia panorâmica, contada a partir de um artifício interessante: idoso e empobrecido, Shuster é retirado de um banco de praça por um policial na década de 1970. O tira paga a ele uma sopa num diner, e ali, depois de se apresentar como um dos criadores do Super-Homem, ele narra a própria história. Nesse ponto, o estilo da arte muda de traço e cor para mancha e cor, até o momento em que a narrativa se reencontra com o personagem novamente na década de 1970. Os avós de Shuster eram judeus russos que saíram do país fugindo dos pogroms, indo primeiro para a Holanda. Seus pais se conheceram em um hotel de Roterdã e migraram para o Canadá, e então para Cleveland, nos EUA, onde seu pai foi trabalhar como alfaiate. O primeiro contato do pequeno Joe com os quadrinhos foi com as tiras e páginas dominicais das HQs “sindicalizadas” (distribuídos a diversos periódicos país afora) que seu pai lia para ele. Campi brinda o leitor com um lindo painel em que Joe folheia os jornais que continham histórias dos Sobrinhos do Capitão e de Little Nemo in Slumberland, sua tira favorita. Joe conhece Jerry Siegel no high-school e o interesse dos dois pela ficção científica das pulp magazines e pelos quadrinhos fortalece a amizade. A obra de Voloj & Campi mostra os dois editando fanzines e colaborando com jornais locais, e criando personagens juntos, seguindo o modelo da aventura — o campo literário mais forte nas pulps. No processo, a narrativa passa pela morte do pai de Siegel, um comerciante, de ataque cardíaco ao sofrer um assalto a mão armada. E também pelo instante em que Siegel antecipa o surgimento das revistas em quadrinhos ao produzir o projeto do que chamou de “revista pulp em quadrinhos” (na época, as HQs apareciam como anexos em revistas pulp normais), mas que não conseguiu realizar antes do lançamento de Detective Dan, a primeira revista em quadrinhos. A dupla muda seu foco para oferecer material à editora dessa publicação, controlada pelo escritor pulp Major Malcolm Wheeler-Nicholson. O Super-Homem, enquanto isso, já vinha sendo gestado na cabeça de Siegel — primeiro como um vilão de FC pulp no fanzine dos dois, Ficção Científica: A Vanguarda da Civilização Futura (pelo qual Siegel levou um puxão de orelha da sua professora de inglês). Siegel chegou a pensar que o Super-Homem viria do futuro, mas achou que um alienígena chamaria mais a atenção. O personagem só sairia na revista Action Comics em 1938, depois que o Major já havia passado adiante a sua editora, fazendo a dupla de criadores cair nas mãos de empresários de caráter duvidoso como o ex-pornógrafo Harry Donenfeld e Julius Liebowitz. Os pilantras compraram não apenas os direitos de reprodução do personagem, mas o próprio personagem, por US$ 412,00. Por mais que fosse uma graninha em 1938, toda vez que a dupla via um programa de rádio, um seriado ou um anúncio empregando o herói, ele percebiam que tinham sido engabelados. A luta por uma compensação justa pelo personagem ocupa grande parte do romance gráfico, tudo narrado com grande habilidade e brilho artístico que tornam este livro uma joia para o fã de quadrinhos e também desse momento pujante do capitalismo literário da era pulp americana. Há detalhes interessantes como o interesse romântico de Joe pela modelo Jolan/Joanne que posou para ele mas que acabou se casando com o amigo; o fato de ninguém menos que Stan Lee ter escrito contos de Super-Homem para que as revistas tivessem um benefício dos correios americanos; a vergonha que Joe sentia por ter desenhado fetiche e bondage para revistinhas do submundo da pornografia, nos tempos das vacas magras; e a possível morte violenta de Donenfeld (que tinha conexões com a máfia).

Quando digo que esta é uma biografia panorâmica, em parte é por detalhes que falam também da época e de como os quadrinhos sofreram com campanhas moralizadoras, com a caça às bruxas do macartismo e também da situação dos judeus na sociedade americana. Esta é a história de dois nerds que abriram um campo que hoje é bilionário — o dos super-heróis — e que criaram um dos personagens mais icônicos da cultura popular. Meu fascínio pelo contínuo pulp da FC e dos quadrinhos é igualado e recompensado por Voloj & Campi quando eles incluem notas ilustradas no final do livro, uma leitura tão deliciosa quanto a HQ propriamente dita. Apesar da tradutora ter sido presa de falsos cognatos aqui e ali, e da narrativa não ter mencionado algumas fontes conhecidas na inspiração para o herói, recomendo o livro com grande ênfase e alegria. Muito grato à Aleph, que tem abordado muitos produtos cult como Watchmen e a FC clássica, e que acertou na mosca com A História de Joe Shuster.

—Roberto Causo

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Leituras de Agosto de 2018

 

Em agosto, dobradinhas de livros de Braulio Tavares e Nelson de Oliveira, mas de leitura variada entre eles. Gostei especialmente da biografia de Raymond Chandler, por Tom Williams.

 

Histórias para Lembrar Dormindo, de Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 1.ª edição, 2013, 176 páginas. Ilustrações internas de Christiano Menezes. Brochura. Na minha modesta opinião, o miniconto ou flash fiction desfruta de um interesse injustificado no Brasil. A prática se comunica com a crônica, formato de produção de ficção ou não-ficção que também tem aqui prestígio desmedido, chegando a exportar o seu tom, em geral subjetivo, para o conto e até o romance. Além disso, muita gente que vai trás do miniconto carece da habilidade necessária para o acúmulo de efeitos que ele precisa ter pra valer a pena. Sua escrita é mais afinada com a precisão cuidadosa que o poema precisa, do que com os recursos de ambientação, caracterização, narração e diálogos, do conto. Mas aí temos Braulio Tavares, um escritor que possui exatamente essas habilidades. 

Todos os textos deste Histórias para Lembrar Dormindo foram publicados na coluna diária que ele mantém no Jornal da Paraíba e vão de 2.900 a 3.000 toques. São 40 deles distribuídos em duas partes, todos com duas páginas de ilustração feitas por Christiano Menezes, remetendo à ilustração científica. Em quase todos, a prosa precisa requerida, num estilo brilhante e finais surpreendentes sempre bem casados com o curto desenvolvimento. A ponto de o leitor ficar antecipando a rasteira elegante, brutal, inquietante ou irônica que, muitas vezes, revela o fantástico dentro do fantástico. Muitas das histórias possuem um tom mitológico próprio do Nordeste, formando um conjunto particularmente saboroso, enquanto outras são ambientadas em diferentes países. Algumas nos levam a outros universos — e as letras intercaladas na capa sugerem esse elemento dominante, filosófico, da interpenetração do real com o irreal. No limite de três mil toques, Braulio Tavares muitas vezes cria heterotopias que exploram, de modo sugestivo, as incertezas pós-modernistas. Já falei de um outro livro de Braulio Tavares aqui, Sete Monstros Brasileiros, e enxergo esse autor como um dos principais nomes da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, e um dos melhores escritores em atividade que temos. Eu pessoalmente gostaria de vê-lo escrevendo novelas e romances, mas em Histórias para Lembrar Dormindo você e eu temos 40 exemplos do seu talento inigualável no quadro nacional da ficção especulativa.

 

Arte de capa de Maercio Siqueira.

Peleja de Braulio Tavares com Marco Haurélio, de Braulio Tavares & Marco Haurélio. Fortaleza: Tupynanquim Editora, 2017, 32 páginas. Capa de Maercio Siqueira. Brochura. A vida é muito estranha. Um dia depois de acabar a leitura de Histórias para Lembrar Dormindo, minha esposa Finisia Fideli e eu encontramos Braulio “Brown Leo” Tavares diante do estande da Editora Draco, na 25.º Bienal do Livro de São Paulo. Por pura coincidência. Ele nos levou ao maravilhoso estande da Editora IMEPH e da Câmara Cearense do Livro, dominado por um enorme caminhão que transporta o seu acervo e, no local, transformou-se em um palco para cantadores e artesãos. Braulio, um dos melhores autores brasileiros de ficção científica de todos os tempos, foi nosso guia nesse mundo paralelo que ele habita — o da poesia de cordel e do repente. Conhecemos o novo livro do Braulio, o romance Bandeira Sobrinho: Uma Vida e Alguns Versos (IMEPH, 2017). Fomos apresentados por ele aos poetas Evaristo Geraldo, Rouxinol do Rinaré e Marco Haurélio — este último, seu parceiro num duelo de repentista feito no Facebook e compilado neste livro. “Você que apanhou do Braulio, então?” brinquei com ele. É claro, a prática é menos de disputa e mais de colaboração, e dependendo do intervalo das respostas em verso, feitas nos comentários do Facebook, pode ter sido mais como um round-robin, em que um escritor se compromete a levar adiante um trecho escrito pelo anterior, respeitando suas soluções, antes de repassá-lo a outro ou ao mesmo para uma nova rodada.

A “peleja” começa com os poetas saudando um ao outro e Marco Haurélio perguntando a Braulio o que é o cordel. Segue-se, em sextilhas, definições e elogios à poesia de cordel. Há, nesse ponto, um elemento de saudosismo rural que me agradou, tendo crescido no interior de São Paulo. Segue-se uma alternância de formatos. Na seção em “martelo galopado” (dez versos por estrofe), Ésio Rafael forneceu o mote repetido nos dois versos finais. Em “gemedeira”, as sextilhas têm mote de Rouxinol do Rinaré e se desenvolvem em torno do gemer como padecer ou reclamar, e o conteúdo foi mais de crítica política e social (sobre o Brasil, claro). Em “galope à beira-mar”, os poetas expressam maior erudição e inventividade nas imagens, em dez versos de mais fôlego. No “mote de sete sílabas” também são dez versos, e num mote que celebra o sertanejo. Em “oito pés a quadrão”, oito versos discutem a arte — e aí também evoca-se o clássico e o contemporâneo, tendência de muito cordel por aí. No “martelo alagoano”, os poetas reafirmam a tradição e suas influências individuais. Não há como não admirar essa dupla de artistas da palavra. Na xilogravura de Maercio Siqueira, Braulio é o da esquerda e Marco o da direita.

 

Arte de capa de Maercio Siqueira.

Os Curumins e as Estrelas, de Evaristo Geraldo. Alto Santo, CE: Edição do autor, abril de 2018, 8 páginas. Capa de Maercio Siqueira. Folheto. Braulio nos recomendou os folhetos de Os Domínios do Rei Peste (2015), de Evaristo Geraldo, e A Sombra do Corvo (2017), de Rouxinol do Rinaré, por adaptarem para o estilo poético do cordel dois contos de Edgar Allan Poe. Mas também adquiri A Árvore de Todos os Frutos (Lenda Indígena), de Geraldo, e este Os Curumins e as Estrelas, de Rouxinol, pelo meu interesse pelo tema indígena brasileiro. Há um cruzamento temático aí, não, um que também cheira a colaboração entre dois poetas diferentes? Afinal, quais são as chances?…

O texto é bem curto e declaradamente adapta uma lenda indígena, em que um bando de curumins roubam o fubá que as índias tinham preparado pra receber seus maridos de volta da pesca. Na hora de enfrentar o castigo, eles fogem e são perseguidos por homens e mulheres, até que um bando de tuiuiús fica com dó dos safados e os leva para o céu, onde se instalam em bases permanentes. Lá, eles só têm olhos para a Terra, talvez de saudade… Os olhos brilhantes se transformam, com o tempo, no céu estrelado, de modo que se trata de um mito de criação. A narrativa versificada de Evaristo é a tradicional sextilha e ela se realiza de modo muito objetivo e escorreito, com um padrão de três rimas por estrofe, bem marcado em cima de uma mesma sílaba.

 

Raymond Chandler: Uma Vida (A Mysterious Something in the Light: The Life of Raymond Chandler), de Tom Williams. São Paulo: Editora Benvirá, 2014 (2012), 456 páginas. Tradução de Fabio Storino. Brochura. Eu não leio muitas biografias literárias, embora tenha adquirido há anos uma de John Steinbeck e outra de Joyce Carol Oates. A exceção são biografias ou livros de memórias que abordam dois autores em particular: Ernest Hemingway e Raymond Chandler. Quanto a Chandler, já li aquela escrita por Tom Hiney, Raymond Chandler: A Biography, e todos os volumes de cartas e anotações que consegui adquirir: Raymond Chandler Speaking, editado por Dorothy Gardiner & Kathrine Sorley Walker, e The Raymond Chandler Papers: Selected Letters and Nonfiction, 1909-1959, editado por Tom Hiney & Frank McShane.

Para mim, Chandler é uma fonte muito arguta, divertida e incisiva, especialmente em suas cartas, de comentários sobre a relação entre a ficção de gênero e o mainstream literário. Seu credo literário é único, ao combinar com muita personalidade o ethos do escritor pulp e do escritor mainstream. É claro, antes de mais nada sou um fã dos seus romances e contos de ficção de detetive, que descobri durante a adolescência.

Pouca gente sabe ou lembra que Chandler escreveu histórias de fantasia, uma delas publicada na revista Unknown do editor John W. Campbell, Jr. Uma das coisas que este livro sedimenta é que o escritor considerou se voltar para o gênero com mais constância. Além disso, a ansiedade em obter reconhecimento literário teria sido mais forte na vida do escritor, do que as outras biografias deram a entender. A outra contribuição do inglês Williams é se focar mais na relação dele com a Inglaterra (Chandler nasceu nos EUA mas migrou com a mãe para a Inglaterra ainda criança, antes de retornar definitivamente aos EUA para trabalhar). A situação do escritor nos Estados Unidos também é muito bem tratada por ele, incluindo alguns pontos que Hiney aborda pouco, como o background familiar e pessoal da esposa de Chandler, Cissy. E se a memória não falha, ele também discorre mais sobre os anos de velhice e viuvez de Chandler, com o ápice do alcoolismo e do comportamento presunçoso e patético. Também se a memória não falha, em Hiney Chandler emerge como alguém que tentava elevar a ficção de crime e que, se por um lado tem preocupações de estilo e ansiedades que o aproximam do modernismo, por outro faz uma crítica do modernismo literário e do seu intelectualismo. Já em Williams, Chandler surge, em traços trágicos, como presa do desejo de reconhecimento literário. Adivinha com qual versão eu me identifico mais.

 

Conjurações & Terra Seca, de Paola Siviero. São Paulo: Edição de autor, 1.ª edição, 2015, 20 páginas. Folheto. Ainda investigando a relação entre a fantasia e a matéria sertaneja expressa também na poesia de cordel, eu retornei a este conto publicado como um folheto, escrito por Paola Siviero. Mesmo porque a autora encontrou um novo lar na jovem editora Dame Blanche, de São Paulo, de modo que, felizmente, o seu projeto Agreste Fantástico terá continuidade — com o livro O Auto da Maga Josefa. Este primeiro episódio é uma fantasia heroica com uma ambientação historicamente indeterminada, com uma dupla de heróis: a feiticeira Josefa, filha do Dito Cujo, e o esgrimista da peixeira, Toninho. O texto é em prosa e a autora habilmente combina um bom conhecimento dos leitmotifs da fantasia, com um humor centrado na adaptação deles aos tipos, ambientes e modos de expressão sertanejos. Certamente, o cordel deve ter um papel de intermediação desses aspectos regionais, e no final do livreto Toninho ensaia um repente.

É bom lembrar (tudo tem história!), que esse veio de fusões de conteúdos e tradições literárias tem precedente nas novelas A Tisana (1989) e O Pão de Cará (1995), de Roberto de Mello e Souza, que levam as narrativas arturianas de Tristão e Isolda e Percival para o sertão, e no conto “O Lugar do Mundo” (1984), de Daniel Fresnot, em que um duelo de repentistas se transmuta em duelo de magos. Paola Siviero tem nos seus heróis uma dupla de matadores de monstros e demônios, assim como Gerard van Oost & Oludara, da série A Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt, ou da dupla Adoulla Makhslood & Raseed, de Saladin Ahmed no romance Throne of Crescent Moon (2012). Mas quem Josefa & Toninho perseguem é um cigano (o feiticeiro da história) que invocara um chupa-cabras, e depois

“um zumbi cangaceiro, um demônio d’água no São Francisco e uma assombração de corno — dos fantasmas, os mais ferozes — que castrou dois Don Juans logo na saída do forró.” —Paola Siviero, Conjurações & Terra Seca.

Daí se vê que o humor é uma das delícias da narrativa, escrita com precisão e simultânea desenvoltura. Além disso, há uma certa tensão entre a dupla de heróis, com ele a fim dela, mas sem achar brecha na casca grossa de perigo e independência, da filha do demo. Eu não sei como O Auto da Maga Josefa vai sair (por enquanto, só vi o folhetinho com um excerto), mas vou atrás. É muito bom saber que Paola Siviero continua mantendo a essa vereda aberta dentro da fantasia brasileira.

 


Sabixões & Sabixinhos: Philosophus Brasilis
, de Sofia Soft & Teo Adorno. São Paulo: Alink Editora, outono de 2018, 104 páginas. Livro de bolso.
Nelson de Oliveira faz dois dos seus heteronômios dançarem um tango neste livro. “Sofia Soft” cuida dos textos aforísticos e irônicos, enquanto “Teo Adorno” faz os desenhos muito estilizados de animais humanizados e outras figuras como as flechas que aparecem na capa. Esse mesmo material tem aparecido há alguns anos no perfil “Paisagem Personas” no Facebook, e é reunido aqui pela primeira vez numa bonita edição, pra você colocar ao lado de livros das criações do Henfil, de Quino ou de Charles Schultz. Tá nesse nível. Há muitos aforismos e opiniões jocosas sobre o brasileiro, o amor, a política, a justiça, a ciência e a ignorância — ainda que não de um modo específico ou contextualizado. Jogos de palavras iluminam sentidos presentes e ausentes, em lugares-comuns bem brasileiros. Os meus favoritos são os momentos mais filosóficos, em que os sentidos surgem de interações surpreendentes. Algumas falas e figuras aparecem de ponta cabeça na página, reforçando o caráter inquietante, heterodoxo e divertido do livro. Embora a ironia impere, há espaço para algum lirismo, como no exemplo abaixo:

Olhai os delírios do campo:

a vertigem da vida

— o amor —

é uma estrela maciça

incrustada

no breve intervalo

entre a genialidade

e a loucura dos olhos

de um bem-te-vi.

—Sofia Soft & Teo Adorno. Sabixões & Sabixinhos.

 

Às Moscas, Armas! de Nelson de Oliveira. São Paulo: Alink Editora, 2.ª edição, 2018 [2000], 118 páginas. Livro de bolso. Comecei com contos curtos, e termino com contos curtos… Se bem que algumas das histórias deste livro de Nelson de Oliveira têm uma extensão maior. De qualquer modo, este é a segunda leitura do mês que agride minha prevenção contra o miniconto ou a flash fiction.

Às Moscas, Armas! já havia aparecido no ano 2000 como e-book, mas com uma tiragem de 50 exemplares em papel — que hoje deve ser item de colecionador. Em 118 páginas, apresenta 24 textos diferentes, de modo que aí já se tem uma ideia de como predominam as narrativas breves. Assim como Braulio Tavares, Nelson de Oliveira encontra espaço para expressar a sua erudição e inteligência. A maioria dos textos, porém, afasta-se do tom da crônica e fazem da perspectiva, da reiteração e do diálogo ríspido as ferramentas de um texto mais cortante e incisivo. Nem todos são exatamente curtos. “Ah!” usa oito páginas e diálogos não marcados para narrar uma bizarra “contaminação” que transforma pessoas em bolhas luminosas flutuantes, um recurso típico do realismo mágico. A maior parte dos contos de fato pertence ao realismo mágico ou ao conto fantástico, tendências que marcam o autor, e até mesmo a sua persona voltada para a FC e a literatura juvenil, “Luis Bras”. Com três páginas, “Jacqueline in the Box” oferece uma metáfora da alienação da mulher causada pela violência sexual masculina, em torno da figura banal da caixa de papelão. Do mesmo tamanho, “Górgona” ousadamente se realiza pela linguagem chula masculina. “Ninfas”, uma narrativa de parágrafo único, centra-se nas impressões confusas de um casal em fuga, num cenário urbano e de motivações desconhecidas. “Inveja”, um dos meus favoritos, é um vertiginoso exposé dos bastidores da vida literária, entre o Escritor Que Tinha ou Que Não Tinha Boas Ideias (tudo assim, em iniciais maiúsculas), o Crítico Literário do Jornal do Momento, e outras figuras orbitantes dessa dinâmica. Já “O Homem Só”, de nove páginas, belisca os homens da minha faixa etária e formação, na sua sexualidade. Desenvolvido só com diálogos, “Quinze Minutos” brinca com o ir e vir das pessoas nos seus trabalhos de escritório. Na maioria das situações, tem-se no livro o desejo modernista de expor os azares da modernidade — presentes também na obra dos contistas experimentais Braulio Tavares e Ivan Carlos Regina. Ainda sobre Às Moscas, Armas!, Nelson aponta o conto “Lua, 1969”, como o momento em que a persona de Luis Bras começa a emergir. Com dez páginas e narrado em primeira pessoa no tempo presente, seu tom é mais solene e a situação enigmática é surpreendentemente rica: o narrador faz parte de uma dupla de seres invisíveis que assiste a certo grupo de pessoas velando uma menina moribunda em uma mansão decaída. Da TV que, supostamente, exibe a chegada da Apollo 11 à Lua, uma luz estranha, primal e mítica surge como um raio transportador que permite a visita de uma segunda categoria de seres não humanos, associados à Lua. Aqui, há uma espécie de caminho inverso, muito trilhado pela FC e pela fantasia contemporânea, de iluminar o cotidiano com uma luz fantástica, maravilhosa. Há até mesmo um traço de New Wave, em que eventos subjetivos ou culturais transformam-se em fatos concretos. Sob o livro e esse conto em particular, Nelson me escreveu:

“São contos do final do século passado, mas em pelo menos um deles, ‘Lua, 1969’, hoje eu já consigo notar a iminência de minha guinada pra FC. Esse continho de realismo mágico tem algo de FC esotérica, na linha do Shikasta [de Doris Lessing], por exemplo.” —Nelson de Oliveira.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Daryl Mandryk.

Mass Effect Omnibus Volume 1, de Mac Walters, Patrick Weekes, John Dombrow & Sylvia Feketekuty. Milwalkie, OR: Dark Horse Books, novembro de 2016, 400 páginas. Arte de capa de Daryl Mandryk. Trade paperback. Omnibus” é uma reunião de vários livros em um único volume — no Brasil, Turno da Noite, de André Vianco, e Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife, são exemplos. Este aqui eu comprei num bota-fora da Saraiva do Shopping Eldorado, em São Paulo. Nele, estão quatro minisséries do universo expandido, em quadrinhos, do videogame Mass Effect, produzido pela empresa canadense BioWare. Tanta gente trabalhou nessas minisséries, que só mencionei aí em cima os caras que bolaram as histórias. Mesmo porque, na hora de montarem o omnibus, a Dark Horse deixou alguns créditos de fora. As HQs são: Redemption, Evolution, Invasion e Homeworlds.

Não jogo videogames de console (atualmente, só jogo o Tadaroids, criado por Vagner Vargas aqui no GalAxis!) mas tento acompanhar alguma coisa desses que são space operas: Mass Effect, Halo, Destiny. Deste game em particular, há alguns anos li um paperback chamado Mass Effect: Ascension, de Drew Karpyshyn. Este compêndio de HQs da franquia estão sob a premissa de que o Comandante Shepard, o principal protagonista do game, está morto e diversos grupos lutam para se apoderar do seu corpo. A telecineta Liara T’Soni, a alienígena mais atraente da franquia (na bela capa de Mandryk, ao lado), chega ao asteroide/habitat espacial Omega para impedir que o Colecionador fique com os restos do herói. O sidekick de Liara é o malandro E.T. Feron, de outra espécie. Aria, a implacável comandante de Omega, é da mesma espécie de Liara, e não quer saber de encrenca na sua estação. O núcleo da história é a tensão entre Liara e Feron, de qualquer modo. A segunda história é interessante não apenas por apresentar uma arte superior, mas por oferecer uma narrativa de origem do “Illusive Man”, um chauvinista humano e um dos principais antagonistas do universo de Mass Effect. É narrativa mais dramática e moralmente ambígua, mas na qual não falta o impertinente clichê da space opera atual, a figura do zumbi. Aria e Omega retornam na história seguinte, quando o asteroide/estação espacial é invadida por uma força militar ou para-, comandada pelo erudito Oleg Petrovsky e enviada pela Cerberus, a organização secreta do Illusive Man, sob pretexto de defendê-la de um contingente de reapers, a ameaça à galáxia que a franquia apresenta. Centrada na relação entre Aria e Petrovsky, o episódio traz alianças momentâneas, traições, capturas, fugas e até batalhas espaciais. E, no todo, a melhor arte do livro todo. O fuzileiro fisiculturista James Vega é o centro da narrativa seguinte, e a alienígena Tali’Zorah nar Rayya no da próxima. Garrus Vakarian, outro E.T., e Liara T’soni fecham essa galeria presente em Homeworlds. Enfim, o omnibus é fechado por duas histórias relativamente fracas e avulsas, protagonizadas por Aria e o investigador Capitão Bailey. No geral, gostei do mergulho no universo de Mass Effect que o livro faculta. As HQs atendem ao visual determinado pela pré-produção do game, de modo que sua coerência sacrifica algo da variação e inventividade, de uma HQ para a outra. A arte de Daryl Mandryk na capa tem todas as virtudes das artes digitais da atualidade, vinculadas aos videogames, e as capas das minisséries, reproduzidas no interior, via de regra também expressam o encanto e o exotismo da space opera.

—Roberto Causo

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