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Leituras de Outubro de 2017

Em outubro, resolvi explorar o meu relacionamento com a loja Terramédia, em São Paulo, lendo vários livros de tipos e gêneros diversos, adquiridos nela. Hoje, a Terramédia está sob nova direção, de Luiz Mauro Gonçalves Batista, a quem desejo boa sorte.

Quando ingressei no fandom de ficção científica em meados da década de 1980, as lojas especializadas em assuntos nerds/geeks era raríssimas. Eu conhecia apenas a Muito Prazer, na Av. São João em São Paulo, loja que eu visita quando vinha a São Paulo para as reuniões mensais do Clube de Leitores de Ficção Científica. Essa loja era basicamente um corredor amplo como uma garagem, abarrotado de gibis, revistas, fanzines, alguns livros e posters. Lá, comprei muitos exemplares originais da saudosa revista em quadrinhos The Nam, e as primeiras edições da Locus com que tive contato. As lojas geeks de hoje são voltadas para um público de classe média alta, com decoração temática e  atendentes hipsters. Bem diferente da aura alternativa da Muito Prazer.

A loja Terramédia tem justamente essa aura de classe trabalhadora, o tipo de estabelecimento no qual você dá uma passada depois da escola ou do trabalho em busca das novidades em quadrinhos, ou espera o fim de semana para se encontrar lá com seus amigos ou grupo de RPG e cardgame. Mais do que buscar o material de venda certa, vício comum das lojas geeks atuais, a Terramédia está abarrotada de material raro, antigo ou alternativo. Meu amigo Christopher Kastensmidt diz que essa loja é que é o real deal.

Em 13 de outubro, o mundo da literatura especulativa brasileira e da nossa cultura nerd/geek perdeu o editor Douglas Quinta Reis, um dos fundadores da Devir Brasil e da Terramédia. Douglas, além de ser meu editor na Devir, era um bom amigo, que me deu inúmeras oportunidades e me ajudou a explorar a loja, junto à qual cedo me incluiu como um “parceiro” com direito a descontos especiais. Douglas tinha apenas 63 anos. Durante seus 30 anos de atividade junto à Devir, teve atuação importante na formação do mercado nacional para RPGs e jogos de tabuleiro, livros de quadrinhos nas livrarias e literatura de ficção científica, fantasia e horror. Vai deixar saudades, e dificilmente será substituído na sua generosidade e abertura para autores nacionais e estrangeiros de várias tendências. Fica aqui a minha homenagem.

—Roberto Causo

 

Arte de capa de Gahan Wilson.

Now We Are Sick, de Neil Gaiman & Stephen Jones, eds. Minneapollis: DreamHaven Books, 1994 [1991], 94 páginas. Capa de Gahan Wilson. Ilustrações de Andrew Smith. Trade paperback. Onde mais, senão na Terramédia, você poderia encontrar, por exemplo, esta antologia de poemas de horror e humor, editada por ninguém menos que Neil Gaiman (com Stephen Jones), de quando ele ainda não era um superastro da literatura de fantasia?

Montado originalmente em 1991 a partir de uma sugestão de Clive Barker, o livro reúne poemas rimados, irônicos, safados e nojentos de um time de astros das décadas de 1980 e 1990 nos Estados Unidos e, principalmente, Reino Unido. Diana Wynne Jones, autora da série os Mundos de Crestomanci e de O Castelo Animado, e mentora de Gaiman, abre a antologia. Atrás dela vêm Kim Newman, Allan Moore, Stephen Gallagher (um tremendo escritor de dark suspense), Terry Pratchett, John Grant, Brian Aldiss (o mestre inglês da FC, falecido este ano), Colin Greenland, Ramsey Campbell, Garry Killworth, John M. Ford, James Herbert (autor de ficção de horror mais vendido que Stephen King, na Inglaterra), Storm Constantine, Jo Fletcher, Samantha Lee, R. A. Lafferty, Gene Wolfe, Robert Bloch (autor do romance Psicose), e outros. O tema acaba sendo a infância, seus medos e as reações das crianças a essas criaturas ameaçadoras: os adultos. Há muito humor no meio do nojo, da malícia e do horror. Há também algo de mais sério em vários poemas, especialmente na seção “Adults Only” na qual o sexo e o abuso entram na discussão. É difícil imaginar este estranho livro sendo lido para crianças — é para adultos com uma lembrança crítica, sombria e irônica da infância. As ilustrações de Andrew Smith funcionam muito bem nesse contexto, e a capa é do famoso chargista de humor negro Gahan Wilson, muito visto na revista Playboy. Este é o livro de Gaiman mais estranho que já li? Muito provavelmente.

This book is CLIVE BARKER’s fault—blame him.” —Neil Gaiman & Stephen Jones, Now We Are Sick.

 

Arte de capa de Bill Willingham.

The Monster Maker, de Bill Willingham. Austin, TX: Clockwork Storybook, 2002, 108 páginas. Capa de Bill Willigham. Trade Paperback. Este é um livro com uma novela e um conto, que estendem o universo de Coventry, um estado americano imaginário, antes explorado em histórias em quadrinhos escritas por Willingham. Daí eu encontrar o livro naquilo que é basicamente uma loja de gibis, como a Terramédia. 

Willingham escreve uma variante cínica e violenta da tradição dos heróis pulps. No caso, seu herói é Beowulf, aquele mesmo do poema homônimo em inglês antigo, traduzido ou modernizado por nomes importantes como J. R. R. Tolkien ou Sheamus Heaney (ganhador do Nobel em 1995). E explorado na ficção popular em obras como Devoradores de Mortos (1976), de Michael Crichton. Este Beowulf tornou-se imortal quando matou o dragão da narrativa original, cobrindo-se com o sangue mágico da criatura. No momento ele é um “herói particular” sem licença. É procurado por uma elegante investigador a serviço de um instituto dedicado à destruição de monstros. Nesse universo, o sobrenatural é reconhecido e estudado, de modo que  empresta algo da moda das fantasias urbanas. O contraste está no lado pulp seco e masculino, sem qualquer romance, e no contexto rural. Uma cidade de menos de 100 habitantes é vítima de uma onda de suicídios, e o tal instituto quer que a garota e Beowulf investiguem o ocorrido, juntamente com as autoridades federais. Na sua primeira saída, o herói é atacado por um monstro aparentemente invencível. Eviscerado, ele leva dias para se recuperar — como o Wolverine do filme Logan. Mais algumas encrencas se seguem depois, até que ele tenha o confronto final com o vilão, ele mesmo sobrenatural e parente do herói. A narrativa rápida tem um ritmo seguro e é cheia de detalhes interessantes ou divertidos, e de diálogos cortantes. A novela é seguida de uma seção de agradecimentos que comenta muito do conteúdo dos capítulos, com detalhes autobiográficos do autor (que estudou o Beowulf original em profundidade). Fecha o livro o conto “Green Grow the Rushes Oh”, também estrelado pelo herói. Willingham claramente conhece a história dos heróis pulp, e criou um atualizando as suas características ao mesmo tempo em que mantém suas raízes.

 

Poems for the Dead, de Hart D. Fisher. Scottsdale, AZ: Chaos! Comics, July 1997, 134 páginas. Introdução de Wayne Allen Sallee. Prefácio de Brian Patrick Pulido. Ilustrado. Trade paperbackMais um livro singular, que você provavelmente só conseguiria adquirir na Terramédia: um livro de poesia escrito por uma personalidade da área do horror nos quadrinhos e no cinema, publicado por uma editora de HQs. Mais do que esse aspecto associativo, o livro sugere uma terrível confusão entre horror e um momento brutal da vida pessoal de Fisher. Ele, que causou escândalo ao publicar uma série de HQs baseada nos crimes do serial killer conhecido como “Canibal de Millwalkee” (curiosamente, figura presente no romance de estreia do brasileiro Alexey Dodsworth, Dezoito de Escorpião). Além disso, Fisher daria o primeiro trabalho ao músico e quadrinista Gerald Way (que já apareceu por aqui pela Devir Brasil), e escreveu e produziu o filme independente The Garbage Man (2008), sobre um serial killer afro-americano. Esse filme marca uma das bordas de uma situação de terrível ironia e enorme tragédia na vida de Fisher: enquanto a produção acontecia em 1993, a namorada de Fisher, Michelle Davis, de apenas 20 anos, foi assassinada por um serial killer da vida real. Este livro é dedicado a ela, e seus poemas de verso livre são um mergulho nu e brutal em sentimentos de depressão, culpa, raiva, desespero e desejo de suicídio. Parte do relacionamento turbulento entre Fisher e Davis é descrito nos poemas, mas alguns transbordam para um contexto que parece ser externo e geral. Certamente, um ethos urbano, artístico e bem americano transpira dos poemas — muitos dos quais sem título, aparecendo apenas como “Poem #1” a “Poem #60”. Um aspecto interessante da poesia visceral de Fisher são as transições rápidas e ásperas, entre as imagens. O crédito dos 10 artistas que ilustram o livro aparece apenas no índice. Essas ilustrações, ao contrário da maioria dos poemas, remetem de diversas maneiras, ao horror como expressão artística.

A vinculação desse livro com o horror é uma questão para se pensar. Dentre os três gêneros da literatura imaginativa (a ficção científica, a fantasia e horror), ele é aquele que mais se confunde com estados de espírito, opções existenciais e estilos de vida relacionados ao seu assunto — como o movimento gótico. O livro certamente se remete ao gênero pela editora que o publicou e pelas ilustrações. Mas a poesia de Fisher se insere no horror de um modo mais do que associativo — imagens e atmosfera do horror contemporâneo, urbano, violento e desesperançado costuram os seus poemas e parecem informar a expressão dos seus sentimentos obsessivos, numa atitude que iria além de qualquer noção de oportunismo. Uma lembrança terrível e impactante, de que os gêneros populares podem ser mais do que entretenimento comercial.

 

Arte de capa de John Bolton.

Dragon Moon, Chris Claremont & Beth Fleisher. Nova York: Bantam Books, 1994, 124 páginas. Capa e ilustrações internas de John Bolton. Brochura. Como a maioria das pessoas, conheço o trabalho de Chris Claremont pelas HQs de X-Men, que cheguei a acompanhar na década de 1980. Mas ele já andou escrevendo romances de ficção científica e fantasia (uma trilogia escrita para George Lucas continuando as aventuras de Willow). Aqui ele se aliou à sua esposa Beth Fleisher para produzir uma novela de fantasia contemporânea como um livro ilustrado. O artista é o capista de quadrinhos John Bolton.

Assim com outros livros neste mês, este tem uma associação com o mundo dos quadrinhos. Cass Dunreith é herdeira de uma propriedade senhorial na Escócia, mas depois de perder a família, torno-se escritora de quadrinhos de fantasia em Nova York. Todo ano ela participa de um festival de medievalismo com combates simulados e tudo. Um detalhe interessante, porque esse tipo de revival foi uma tendência da década de 1990. Lá, aos poucos Cass descobre que um grupo de guerreiros mitológicos celta foi convocado, com resultados possivelmente desastrosos aos frequentadores do festival. Descrita como uma mulher forte e determinada, Cass leva algum tempo para entender que cabe a ela impedir o massacre. Para isso ela precisa admitir a herança mágica que faz parte da sua família. O foco da novela é colocar o leitor em um espaço de estilo de vida que é invadido pela magia, mas exclusivamente pela consciência da heroína. Embora tenha sua atividade profissional, passado e amizades apenas rascunhadas, Cass é interessante o suficiente. O único problema está no modo como os autores desenvolveram a dinâmica dos diálogos, com Cass sempre insolente e respondona. Toda vez que ela discute com as pessoas ao seu redor, perde interesse como personagem. A arte de Bolton para este livro é bem variada mas consistente. As pranchas coloridas são robustas e vívidas, com efeitos de aerógrafo. Mas também há desenhos a bico de pena, ilustrações monotonais e detalhes de armas e objetos, não apenas de personagens. Imagens de Cass dominam, e ele a representou como uma mulher pernuda e robusta, traços finos e um corte de cabelo mohawk. Gosto muito das capas que Bolton fez para os quadrinhos da franquia Aliens, da Dark Horse Comics.

 

Come in Alone, de Warren Ellis. San Francisco: AIT/Planet Lar, 2001, 246 páginas. Trade paperback. Hesitei muito em adquirir este livro, já que a escrita do roteirista de quadrinhos Warren Ellis ainda não havia me conquistado. Enfim, quando meu filho propôs um curso de extensão sobre jornalismo nerd/geek na Faculdade Cásper Líbero, achei interessante ele e eu termos acesso ao que essa personalidade de destaque dos quadrinhos atuais disse sobre o campo, em uma coluna no site Comic Book Resources, entre dezembro de 1999 e dezembro de 2000. Como são 52 colunas reunidas neste livro, deve ter tido periodicidade semanal. Como muitos livros de ficção e de não ficção publicados por editoras de quadrinhos (inclusive estes anotados acima), este é um volume muito mal diagramado e editado. O que importa é o conteúdo.

Ellis faz parte de um grupo muito inovador de criadores britânicos de quadrinhos que inclui Garth Ennis e Grant Morrison. Sua postura neste livro é atacar o modo como as grandes corporações — do tipo Marvel e DC — tratam os quadrinistas, e defender a independência criativa e profissional. A Marvel é a empresa que ele mais acompanha, porque enxergava na época a HQ de super-herói como um beco sem saída e um negócio ameaçado, e a Marvel andava em dificuldades. Seu foco então é o graphic novel entendido como um livro com uma HQ completa e autocontida; o oposto dos gibis de super-heróis, é claro. Além das colunas opinativas e editorais, ele entrevista colegas ou descreve suas andanças como um astro da área, viajando à Finlândia e aos Estados Unidos. Não tem muito de positivo a dizer sobre o fandom de super-heróis nem o de FC no cinema e televisão (na Comic Con de San Diego, por exemplo), mas faz apelos frequentes aos leitores de quadrinhos para realizar ações de lobby em favor das HQs independentes. Outro foco das suas reflexões são as lojas especializadas, de venda direta ao consumidor (que pré-encomenda os quadrinhos, livros ou brinquedos do seu interesse), que, segundo ele, deveriam se abrir para uma diversidade maior. No Brasil, a rede de lojas especializadas está se formando apenas atualmente, e sua articulação como algo mais do que revistarias foi um dos projetos da Devir Brasil, seguindo a batuta do editor Douglas Quinta Reis. Ellis também via a Internet como um novo veículo para os quadrinhos, com um potencial que começava a ser explorado na época. Assim como Ennis e Morrison, Ellis tem uma irreverência e iconoclastia boca suja meio punk, meio beatnik, e isso transparece também nestes textos. Tudo se insere dentro da problemática de ter os quadrinhos distanciados das suas origens juvenis, e assumidos como uma forma de arte adulta. Muita coisa mudou no mundo nerd/geek nestes 17 anos desde que ele se meteu a escrever a coluna. Mas muita coisa também não mudou, e aqui o leitor encontra um retrato da situação e das ansiedades em torno da indústria anglo-americana das histórias em quadrinhos.

“Os quadrinhos são um meio pequeno, hoje em dia. Cinquenta e poucos anos atrás, uma revista em quadrinhos venderia cinco milhões, sem esforço. Enquanto eu escrevi isso hoje, seriam necessários todos os recursos de marketing de uma das duas maiores editoras americanas para fazer a sua revista principal vender perto de cento e cinquenta mil exemplares. Quer dizer, não é bem o mercado para a poesia, mas está chegando lá. Esses são números tristes para o que seria uma mídia de narrativa visual de baixo custo, relativamente não corrompida. Há uma razão desse material costumar vender cinco milhões de exemplares num estalo. A mesma razão da indústria do filme agora buscar o impulso criativo dessa mídia. A mesma razão do Pulitzer reconhecer os quadrinhos A mesma razão dos escritores e artistas dos quadrinhos serem contratados constantemente por outras mídias.” —Warren Ellis, Come in Alone.

 

Arte de capa de Erick Sama.

Mistérios do Mal: Contos de Horror, de Carlos Orsi. São Paulo: Editora Draco, 2016, 234 páginas. Capa de Erick Sama. Brochura. Carlos Orsi é um contemporâneo meu, da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015). No começo da década de 1990, ele publicou o conto “Aprendizado” no Somnium, o fanzine do Clube dos Leitores de Ficção Científica. Eu me lembro de ter sugerido a ele que o ampliasse e submetesse à Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica. Dito e feito: estreia profissional. Seu primeiro livro de contos apareceu em 1996, Medo, Mistério e Morte. O segundo, O Mal de um Homem, é de 2001; e o terceiro, Tempos de Fúria, foi lançado em 2015. Fiquei feliz em ver este que é o quarto à venda na Terramédia — que dá espaço à Draco, à Argonautas, à Jambô e outras pequenas da literatura brasileira de fantasia e ficção científica.

“Aprendizado” é uma fantasia científica com clima de horror, e está em Mistérios do Mal. O livro reúne algumas histórias saídas das duas coletâneas anteriores, mais duas outras ainda não colecionadas. Está aqui a excepcional “A Fábrica”, que usa arquitetura e geometria para evocar o seu “horror cósmico”. Essa é uma forma de horror explorada pelo americano H. P. Lovecraft (1890-1937), de longe o autor mais influente sobre a ficção de Orsi, um autor brasileiro que conscientemente emprega os recursos da weird fiction de Lovecraft e outros autores da era das revistas pulp. Há, é claro, atualizações e adaptações. Especialmente aquelas que trazem o horror para o contexto brasileiro, invocando locações exóticas, magia indígena e heresias do Brasil Colônia. Uma das histórias, porém, busca o horror cósmico de Lovecraft e dos seus Mitos de Cthulhu nas planícies vermelhas de Marte. Das duas narrativas não vistas previamente nas coletâneas do autor, “Rex Ex Machina” é a mais longa e interessante, sendo homenagem à famosa novela de horror de Robert W. Chambers, O Rei de Amarelo (The Yellow King, 1895), celebrizado recentemente por ter sido uma das fontes da primeira temporada de True Detective, e disponível no Brasil em tradução pela Intrínseca. Orsi imagina um hipponga tentando encenar uma versão teatral da obra, durante a ditadura militar. A história faz transparecer o interesse do autor pelo registro oral, que ele explora em diálogos e também na estrutura narrativa (que aqui é um depoimento). A segunda história colecionada, “Criaturas da Noite”, é mais curta e exemplifica outra vertente do autor — a sobreposição do horror de rituais e de monstruosidades arcanas, aos horrores quotidianos da nossa sociedade. A ilustração de capa de Erick Sama, o titular número um da Editora Draco, captura a atmosfera bizarra e monstruosa da weird fiction tropical de Carlos Orsi.

 

Arte de capa de Dean Williams.

Tarzan: The Lost Adventure, de Edgar Rice Burroughs & Joe R. Lansdale. Milwalkie, OR: Dark Horse Books, Edição Limitada, dezembro de 1995, 212 páginas. Capa de Dean Williams. Ilustrações de Studly O. Burroughs, Gary Gianni, Michael Kaluta, Monty Sheldon, Charles Vess e Thomas Yeates. Prefácio e George T. McWhorter. Hardcover. Quando contei ao editor Gumercindo Rocha Dorea que eu havia ficado com este exemplar, único de uma liquidação da loja Terramédia, ele me fuzilou com os olhos e disse: “Que amigo russo que você é!” Sorry, Guga, mas o mundo é uma selva. O livro é edição limitada do romance resultante de um rascunho perdido de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), o criador de Tarzã, John Carter e outros heróis e mundos da fantasia e ficção científica, realizado pelo escritor texano Joe R. Lansdale. Além dessa edição, a Dark Horse Comics colocou na praça, naquele ano, o mesmo romance serializado no formato de revista pulp, em quatro edições ilustradas por esse time de supercraques dos quadrinhos. Também acompanhava a serialização, tiras escritas pelo filho de Burroughs, John Coleman Burroughs, com aventuras de John Carter em Marte. Essas quatro revistas eu consegui para o Gumercindo, um grande fã de Tarzã, e free of charge.

A primeira metade do livro apresenta vários choques entre duas equipes de uma expedição exploratória com um grupo de desertores da Legião Estrangeira, e o próprio Tarzã e seus amigos animais, o macaco Nkima e o leão Jad-Bal-Ja. A segunda metade leva os personagens até a cidade perdida de Ur (o objetivo da expedição) e a um confronto com o seu deus oriundo de Pellucidar, o mundo selvático da Terra oca. Existe aí um crossover de Tarzã com a série iniciada com At the Earth’s Core (1914), Pellucidar (1924) e Tanar of Pellucidar (1928), sendo que o próprio homem macaco andou por lá em Tarzan at the Earth’s Core (1929). Outras aventuras de Tarzã envolvem cidades ou raças perdidas, logo com o segundo livro da série: The Return of Tarzan (1915). Os capítulos curtos são repletos de ação e movimento constante, de um grupo ou outro e do herói e seus assistentes. Em Ur, monarca é um sádico maior do que Calígula. Há um crescendo de tensão, ação violenta e exotismo, culminando com o confronto do herói com uma espécie de louva-a-deus gigante vindo de Pellucidar, em uma arena de gladiadores. Pelas minhas outras leituras de Lansdale, especialmente a novela de steampunk Zeppelins West (2001), ele é adepto de uma ultraviolência pós-modernista de fazer inveja a Quentin Tarantino. Um pouco dessa tendência aparece em The Lost Adventure, mas muita gente apontou o fato de que originalmente Tarzã era uma série de livros muito violenta, distante das incarnações juvenis vistas na TV, nos quadrinhos e no cinema. Considerando que o romance aqui é uma colaboração com um dos colaboradores in absentia, resta a questão da prosa mais ágil e moderna de Lansdale. Alguns especialistas em Burroughs, incluindo o prefaciador George T. McWhorter, afirmam que os últimos livros de Burroughs já tomavam esse rumo.

 

De Volta…

Arte de capa de Teo Adorno.

Anacrônicos/Anacrónicos, de Luiz Bras. São Paulo: Alink Editora, 2017, 80 páginas. Capa de Teo Adorno. Tradução de Alejandro Mansilla. Livro de bolso. Eu já tratei aqui, em junho, da versão e-book da noveleta de ficção científica e realismo mágico Anacrônicos, de Luiz Bras (a identidade de Nelson de Oliveira voltada para a ficção científica e a literatura para o leitor jovem). Naquela ocasião, apontei a fusão das duas tradições literárias e comparei a noveleta às histórias do pioneiro André Carneiro (1922-2014). Em setembro, o autor lançou esta mui simpática versão bilíngue português/espanhol pela Alink Editora, com uma tradução competente para o espanhol, pelo escritor, tradutor e diretor argentino Alejandro Mansilla. O livro é pequeno, com um bom tratamento editorial e agradável de manusear. Espero que a história de Luiz Bras ganhe, com essa publicação, muitos leitores brasileiros e internacionais.

Nas minhas leituras de junho de 2017, escrevi sobre a noveleta de Luiz Bras:

 A noveleta segue o ponto de vista de uma jovem que vive os dias de uma estranha invasão: redivivos, feitos de borracha industrial, com a exata aparência e parte da personalidade e comportamento de pessoas falecidas, do conhecimento dela e dos demais habitantes da Terra… Bras coloca a sua própria variação e personalidade no conceito, ao torná-lo global e explicitando a artificialidade dos redivivos. A prosa tem uma qualidade muito intimista, para equilibrar o conteúdo panorâmico, e elegante.

 

Blade Runner: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick. São Paulo: Editora Aleph, outubro de 2017, 336 páginas. Tradução de Ronaldo Bressane. Prefácio de Rodrigo Fresán. Ilustrações de Dave McKean, Liniers, Peter Kuper, Rebecca Hendin, Elena Gumeniuk, Antonello Silverini, Gustavo Duarte, Guilherme Petreca, Danilo Beyruth e Bianca Pinheiro. Capa dura. A Editora Aleph produziu uma tremenda edição especial do romance clássico de Philip K. Dick, seguindo a onda promocional em torno do filme novo de Denis Villeneuve, Blade Runner 2049. Além da tradução do autor da Geração 90 Ronaldo Bressane, a edição traz muitos “extras” de interesse, incluindo uma carta do próprio Dick ao divulgador do Blade Runner original, de 1982, no ano de lançamento do filme. Em capa dura com sobrecapa, a edição tem design gráfico do celebrado designer Pedro Inoue. Apresenta não apenas uma bela jaqueta de proteção, mas também uma “capa oculta” na encadernação capa dura. O look geral do livro é muito moderno e agradável, e o time de ilustradores de primeira linha, composto de brasileiros e estrangeiros, produziu uma coleção de imagens que parece ter uma coerência estética maior do que aquela do projeto anterior da Aleph, criado com premissa semelhante: a edição especial de Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Achei que o resultado foi superior. Preciso agradecer à fotógrafa e youtuber Gabriela Colicigno, e a Luciana Fracchetta, divulgadora da Aleph, pelo exemplar que recebi — uma edição obrigatória para os fãs de Dick e do filme seminal de Ridley Scott. Sobre o romance propriamente, lembro que eu o discuti nas minhas leituras de setembro, afirmando: 

Um romance consistente e realizado dentro de um clima próprio e engenhoso, que faz o leitor coçar a cabeça do começo ao fim. De fato, torna o ato de coçar a cabeça uma experiência de leitura essencial. A ficção científica e as questões de cognição, sobre o que percebemos da realidade, têm uma longa história juntos, desde o século 19. Mas Philip K. Dick foi o autor da FC moderna que mais sistematicamente explorou essa relação.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Fiona Staples.

Saga Volume 2, de Brian K. Vaughan & Fiona Staples. São Paulo: Devir Brasil, 2015 [2013], 164 páginas. Capa de Fiona Staples. Tradução de Marquito Maia. Capa dura. Saga é uma ficção científica satírica, uma space opera pós-modernista, totalmente nonsense, que brinca com chavões e enfia situações adultas e às vezes sombrias no meio da sua narrativa. Publicada nos States pela Image, ganhou um caminhão de prêmios. Meu exemplar eu adquiri na Virada Nerd, promoção da Devir Brasil com vários parceiros, inclusive a própria loja Terramédia, onde eu o comprei.

O casal multi-espécie Alana e Marko, cujos planetas estão em guerra e que são caçados pelas autoridades, pela família e por assassinos profissionais das duas partes em conflito, continuam em fuga na espaçonave viva de que se assenhoraram no volume anterior. Fogem acompanhados da filhinha recém-nascida (que também é a narradora da história) e sua babá fantasma, além dos pais de Marko, que chegaram a eles por via mágica. Enquanto isso, o caça-prêmios Querer passa a ser acompanhado pela ex-noiva de Marko, Gwendolyn (que, apesar do nome anglo, é uma mulata). Flashbacks contam como o casal se apaixonou, enquanto ela era carcereira dele em um planeta campo de concentração. O destino dos fugitivos é a casa do escritor D. Oswald Heist, cujo livro de bolso inspirou não só o romance do casal, quanto a sua suposta disposição “revolucionária”. Trata-se de um romance de love story açucarada, e seu papel nesta HQ pós-modernista parece ser o de sugerir, mesmo com ironia, que a cultura popular guarda sentidos e funções interessantes e que escapam aos incautos. Mas não ao Príncipe Robô IV, ele mesmo na cola do casal. O príncipe, que tem um velho monitor de TV no lugar da cabeça (e que, quando ele está confuso, exibe cenas de um filme pornô gay), chegou primeiro até Heist. O livro, que parece apresentar uma arte um pouco mais sólida da parte de Fiona Staples e uma colorização mais sutil, termina com esse gancho. O volume 3 já saiu, e pretendo lê-lo em breve.

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Leituras de março de 2017

Nas leituras de março, Dante Alighieri, Saladin Ahmed, Luiz Bras e Andrew Vachss compõem um conjunto variado: o clássico e o novo, livro de arte e livro ilustrado, ficção e não ficção. E muita ilustração de qualidade.

 

Arte de capa de Bob Eggleton

Alien Horizons: The Fantastic Art of Bob Eggleton, de Bob Eggleton & Nigel Suckling. Londres: Paper Tiger, 2.ª edição, 1995 [1994], 128 páginas. Capa de Bob Eggleton. Introdução de Gregory Benford. O último livro que li mês passado foi um título da Paper Tiger. Começo as leituras de março com outro livro da mesma editora. Este é um título mais próximo do costumeiro para a Paper Tiger — portfolios de grandes ilustradores de arte de ficção científica. Bob Eggleton esteve muito ativo a partir da década de 1980, deixando sua marca  na capa de livros e revistas de FC, e também em revistas de astronomia e divulgação científica. Ter um livro publicado pela Paper Tiger é uma honraria em si, mas Eggleton já ganhou oito vezes o Prêmio Hugo de melhor artista!

Tenho muitas revistas e livros com capas feitas por ele, mas apesar de tudo, mantinha reservas quanto ao seu trabalho. Às vezes, um excesso de pinceladas finas dá um contorno esgarçado às suas figuras — e a publicação de várias ilustrações claramente em estágios intermediários, longe da finalização esperada, com certeza não ajudou. E Eggleton nem sempre acerta com a figura humana. Mas a impressão caprichada das suas artes neste livro fornece a oportunidade ideal para se reavaliar seu trabalho. Algumas das suas imagens de arte espacial são absolutamente deslumbrantes, e as pinceladas finas trazem a algumas um acabamento texturado que encanta. O texto é quase num formato de entrevista, integrando o leitor a uma conversa que expressa a personalidade de um artista que gosta de variar (há um trajeto quase que antipodal, entre arte de FC hard e arte de horror sangrento). Mantendo a mesma lógica, as legendas das imagens também são partilhadas pelos dois, com Suckling comentando algumas, e Eggleton outras. Um livro que mudou minha opinião sobre um artista prolífico e versátil.

 

Arte de capa de Vagner Vargas

Mistério de Deus, de Roberto de Sousa Causo. São Paulo: Devir Livraria, março de 2017, 600 páginas. Capa de Vagner Vargas. OK, incluir o seu próprio livro em uma lista de leituras completadas em março é trapaça. Afinal, ao revisá-lo como rascunho, eu já o li várias vezes. Mas rascunho é rascunho e livro é livro, só existindo como tal depois de publicado.

Mistério de Deus é uma dark fantasy (narrativa em que o horror se insere sobre uma base realista) ambientada no interior de São Paulo em 1991. Há muito de ficção de crime no romance, e um pouco de ficção científica. Um jovem recém-saído da prisão escapa de uma tentativa de assassinato, ao retornar à sua cidade natal. Em torno de ele, aos poucos se forma um grupo de quatro jovens — entre eles um segurança e corredor ilegal, um policial militar e uma médium relutante — dispostos a enfrentar uma quadrilha de assassinos que matam sem motivo, carregando as vítimas em um carro envenenado. Aos poucos, vão entendendo que existe uma ameaça sobrenatural por trás dos crimes. Para chegar a essa força sobrenatural, porém, os heróis precisam passar por traficantes de drogas e policiais e políticos corruptos, sobreviver a perseguições automobilísticas a quase 260 quilômetros horários, e transitar na linha incerta entre vivos e mortos. Mistério de Deus se conecta com o meu segundo romance, Anjo de Dor (Devir; 2009), finalista do Projeto Nascente da USP, mas não é uma sequência. Comecei a escrevê-lo em setembro de 1998, e o terminei em setembro de 2003, quando Anjo de Dor nem havia encontrado uma editora. Naquela época, não havia chances de um romance de horror desse tamanho ser publicado — situação que veio a mudar com o sucesso dos livros de André Vianco. Meu desejo, com o romance, era dominar a “narrativa entrançada”, na qual vários personagens, cada um na sua linha narrativa, avançam em paralelo até que elas se enlacem perto do final. Douglas Quinta Reis, meu editor na Devir Brasil, elogia a estrutura do romance e acha que fui bem-sucedido. A arte de capa de Vagner Vargas captura com brilhantismo o clima de velocidade e solidão. Além disso, constrói uma iluminação engenhosa em torno dos faróis dos carros, e deixa claro, com o semblante demoníaco no alto, a qual gênero o livro pertence.

 

Throne of the Crescent Moon, de Saladin Ahmed. Nova York: DAW Books, 2013 [2012], 368 páginas. Paperback. Criador do Prêmio Hydra, o escritor Christopher Kastensmidt tem feito há mais de dez anos a ponte entre a comunidade brasileira de fantasia e ficção científica, e a sua contraparte americana. Depois de umas de suas passagens pela convenção mundial de FC, ele me trouxe livros autografados por seus colegas da geração mais jovem da fantasia em língua inglesa. Saladin Ahmed é um expoente, e só lamento estar lendo este romance agora — o livro sumiu da minha estante de autografados, só reaparecendo recentemente.

Throne of the Crescent Moon é, assim com o romance A Bandeira do Elefante e da Arara (2016), de Kastensmidt, uma fantasia heroica de cenário incomum. Um mundo secundário modelado no Oriente Médio, no primeiro; o Brasil Colônia, no segundo. O livro de Ahmed ganhou o Prêmio Locus de Melhor Romance de Estreia em 2013, e é o primeiro de uma série. Nele, o erudito Adoulla Makhslood é um “caçador de goul” (espécie de zumbi do folclore árabe) que tem como assistente o jovem dervixe e espadachim magistral Raseed. Em suas aventuras, eles agregam outros heróis, num grupo dos mais originais e divertidos da fantasia heroica — uma garota que se transforma em leoa, e um casal de alquimistas. Vivem na cidade de Dahmasawaat, capital do Reino da Lua Crescente, que está às voltas com um príncipes dos ladrões, espécie de Robin Hood das Arábias. Mas o que a equipe de heróis descobre é uma força sobrenatural que ameaça instaurar um reinado do terror, na cidade e no reino. O tempo todo nesse mundo secundário calcado na experiência histórica e cultural árabe, fala-se em Deus e no trabalho de Deus, realizado por Adoulla e seus amigos. Na cidade, agentes das normas religiosas patrulham as ruas como o talibã. Uma das grandes sacadas de Ahmed é entender que numa sociedade em que ser pio faz parte das estruturas de poder, uma resposta possível está na ênfase cotidiana no mundano. Por isso, os heróis são pessoas despachadas e endurecidas, repletas — especialmente os velhos — de um humor ácido. A interação entre os velhos e o jovem casal é deliciosa. O final é satisfatório, mas o romance tem uma “barriga” enorme do meio para o fim, apoiando-se demais nessa interação. De qualquer modo, a acolhida desse livro pela comunidade de FC e fantasia americana atesta o quanto ela é aberta e, neste momento, interessada na diversidade cultural.

 

Arte de capa de Cathie Bleck

The Divine Comedy (La Divina Commedia), de Dante Alighieri. Nova York: Barnes & Noble, 2008, 694 páginas. Capa de Cathie Bleck. Tradução de Henry Wodsworth Longfellow. Ilustrações de Gustave Doré. Introdução de Melinda Corey. Capadura. Eu conhecia A Divina Comédia da juventude, quando comprei a edição da saudosa coleção de clássicos da Abril Cultural (que usou uma tradução de Hernani Donato, em prosa e não em verso). Mais tarde, na pós-graduação, estudei o livro de Dante Alighieri. Meu Mestre das Marés, o segundo romance da série As Lições do Matador, empresta dele imagens e versos para sublinhar o estado mental do herói Jonas Peregrino, quando ele desce à paisagem torturada de um planeta destruído por um buraco negro. Para tanto, recorri a esta edição da tradução para o inglês de Longfellow, lendo o “Inferno” e o “Purgatório”. Mas neste mês achei que valia terminar a leitura de “Paradiso”, fechando o livro. Além disso, Dante e sua obra terão um papel no romance Archin, que Taira Yuji do Desire®  Universe me contratou para escrever.

A edição da Barnes & Noble, a rede de livrarias americana, é do tipo “bargain edition” — quer dizer, imita o acabamento de um livro de couro com douramento, mas numa faixa de preço bem abaixo. É gostoso de manusear, de qualquer modo, e a tradução versificada de Longfellow faz toda a diferença, mesmo não sendo rimada e usando um inglês do século 19. A estrutura em tercetos de Dante é preservada, e a habilidade de Longfellow (que levou uns três anos para terminar a tradução do italiano) no uso de rimas internas e de sequências aliterativas dá uma cadência profunda e magnética à sua tradução desse poema narrativo e filosófico. As ilustrações de Gustave Doré (também na edição da Abril) são obrigatórias. Hoje, estão em toda parte, como a interpretação última da imagética dantesca, influentes até no cinema. O cuidado de Doré com atmosfera, aliado à sua imaginação grotesca, certamente romântica, fazem um interessante contraponto à erudição clássica de Dante, e transformam o mergulho do turista do além túmulo na cultura clássica e dos dilemas sociais e religiosos do século 13 europeu, em um mergulho no inconsciente.

 

Dante, anônimo, ed. São Paulo: Colégio Dante Alighieri, 2008 [1965], 100 páginas. Ilustrações. Na sequência da Divina Comédia, decidi ler este opúsculo sobre vida e obra de Dante, produzido e publicado pelo Colégio Dante Alighieri, de São Paulo. Quando Daniel Abrahão decidiu que Dante seria um personagem no romance Archin, ele, o redator Pedro Santos e eu fizemos uma visita ao colégio em 28 de junho de 2016, para uma conversa com dois especialistas no poeta italiano, o artista Canato e a bibliotecária Marilda Mitsui. Além de informações preciosas e um tour guiado pelos murais primorosos de Canato interpretando a Divina Comédia, cada um de nós recebeu esta edição fac-similar de um livreto de 1965, quando se comemorou 700 anos do nascimento do poeta.

A nota da primeira edição informa que os textos foram escritos por professores “que vivem e ensinam no nosso meio”. Não há mais informações editoriais ou de autoria — talvez perdidas quando se produziu o fac-símile. Comparado a outro livro sobre Dante que li, Dante Alighieri: O Poeta Filósofo, de Carlos E. Zampognaro, a linguagem mais rica (“antiquada”) deste atrai mais do que o livro de Zampognaro, mais burocrático na sua intenção de amparar estudos universitários. Um insight que importa aos estudos da “proto ficção científica” aparece na página 61: “poder-se-ia qualificá-lo como romance de aventura: da mais extraordinária e inverossímil aventura que possa ocorrer a um homem.” E na página 72: “um invulgar clima de aventura e de imprevisto, dando à própria ficção extraordinária ambientação, ao mesmo tempo realística e fantástica”. Nessa aventura pelos reinos do além, não estão apenas os conhecimentos teológicos reelaborados pela imaginação e pela verve do poeta, mas também algo dos conhecimentos científicos da época.

 

Arte de capa de Teo Adorno

Não Chore, de Luiz Bras. São Paulo: Editora Patuá, 2016, 152 páginas. Capa e Ilustrações de Teo Adorno. A ficção científica e fantasia brasileira estão em grande efervescência desde 2004 ou por aí. Isso nos obriga a uma leitura prospectiva constante. Mas aos poucos, certos autores vão surgindo como nomes obrigatórios. Luiz Bras é um deles. Um dos heteronômios do consagrado escritor mainstream Nelson de Oliveira, foi criado para explorar a FC e o infanto-juvenil. Sua coletânea de histórias Paraíso Líquido (2010) é uma das mais experimentais e ousadas, desde A Espinha Dorsal da Memória (1989) e Mundo Fantasmo (1994), de Braulio Tavares; O Fruto Maduro da Civilização (1993), de Ivan Carlos Regina; e Confissões do Inexplicável (2007), de André Carneiro. Seu romance Distrito Federal (2014) leva a FC tupinipunk a novas direções e produz uma dos mais contundentes denúncias do status quo do Brasil pós-Mensalão. O movimento que ele lançou a partir do ensaio “Convite ao Mainstream” é um dos desenvolvimentos mais interessantes da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira, situando-se no polo oposto do apelo à estética pulp, desse contexto característico do século 21.

A novela Não Chore vem com a chancela do ProacSP, mas faz par com Distrito Federal. Repete a estrutura de rapsódia, e sua crítica mira agora a questão do crime e as omissões do Estado. O caráter experimental está na mistura de trechos em terceira, primeira e segunda pessoas do singular, e na prosa poética que emprega repetições, reiterações e o entrecruzamento de linhas narrativas. No plano temático, o malabarismo surrealista é com uma organização de viajantes no tempo, nuvens de nanomáquinas, realidade virtual, clonagem, anarquistas em ação contra policiais, entidades espirituais afro-nativo-brasileiras, ameaça de choque de asteroides contra São Paulo, e um futuro ou realidade alternativa distópica em que presídios apresentam reality shows de tortura de prisioneiros. O texto aqui tem menos espinhos dirigidos à autoridade e ao poder, mas nos traz personagens mais próximos e vozes mais comoventes, do que o de Distrito Federal. Alguns personagens meio que desaparecem antes na melancólica conclusão, mas o texto conserva sua força e complexidade estrutural até o fim. As ilustrações de Teo Adorno (outro heteronômio) apresentam personagens de traços afros, homens e mulheres, acompanhados de reflexões e confissões pessoais. Funcionam em si mesmas, mas uma delas dá a chave metaficcional deste que é, derradeiramente, um texto de fabulation pós-modernista: “A mentira da ficção é mais verdadeira que a verdade do jornalismo e da historiografia porque a realidade não é ‘real’, é uma convenção social cuidadosamente ajustada. As obras mais realistas (mais verdadeiras) são as que denunciam o autoengano social dessa irrealidade cotidiana.”

 

Arte de capa de Paul Chadwick

Another Chance To Get it Right: A Children’s Book for Adults, de Andrew Vachss. Milwalkee, OR: Dark Horse Books, 1995, 64 páginas. Capa de Paul Chadwick. Ilustrações internas. Continuo encontrando material de interesse nas prateleiras de promoções da loja Terramédia, de São Paulo. Este é um livro ilustrado com a proposta muito importante, de nos lembrar da vulnerabilidade da criança perante a desigualdade, a guerra, o vício, a violência e o abuso. Andrew Vachss é um advogado que milita na área, com experiência pessoal como investigador de campo do serviço de saúde pública, supervisor de serviço social, e diretor de ONGs. Além disso tudo, é romancista de ficção de crime, autor da série Burke, com um detetive particular que se especializa em casos de abuso infantil.

Vachss também escreve para quadrinhos, sendo autor de Batman: The Ultimate Evil (1995) e de outros trabalhos. Another Chance To Get it Right é uma coletânea de textos sem títulos, ilustrada só por craques da área: Tim Bradstreet, Paul Chadwick, Geof Darrow, Rick Geary, Gary Gianni (que já desenhou Príncipe Valente e Conan), Dave Gibbons (o artista de Watchmen) e Warren Pleece. Em alguns momentos, os desenhos que acompanham o texto são de arte sequencial mesmo, faltando apenas os balões. O livro de Vachss é eficiente em chamar a atenção do leitor para a situação da infância ameaçada. E seu texto tem uma qualidade poética saudada por Joe R. Lansdale na contracapa. Esse elemento poético vem da ternura que pulsa por baixo de toda a dureza das situações descritas. E essa ternura expressa esperança que as crianças trazem, para o mundo — está no título, inclusive: as crianças representam uma outra chance de acertarmos, em como nos relacionamos com o mundo.

–Roberto Causo

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Máquinas suicidas em estradas brasileiras

Meu novo livro, Mistério de Deus, é um romance de horror ambientado em 1991 na Região de Campinas, no interior do Estado de São Paulo, e lida com a cultura automobilística dos muscles cars, corridas ilegais e violência urbana.

“À noite, passamos pelas mansões da glória em máquinas suicidas”

—Bruce Springsteen (“Born to Run”)

 

Arte de Vagner Vargas.

 

Mistério de Deus, que conta com esta estupenda ilustração de capa de Vagner Vargas, será lançado pela Devir Brasil em março de 2017. Com 600 páginas e ambientado em 1991, é um épico do horror que toca em assuntos graves como a inércia das autoridades diante da violência que atinge as classe baixas, e a corrupção — ainda que apresentando um fundo sobrenatural para a intriga.

No romance, um grupo de jovens resolve agir, diante da inércia das autoridades, contra um bando de assassinos que atacam aleatoriamente, fugindo com suas vítimas em um carro envenenado. Além de armas, os heróis precisam de um carro capaz de perseguir o veículo de fuga dos assassinos. O Dodge Magnum (fabricado no Brasil, com um motor Chrysler 318V8) abaixo, fotografado em fevereiro em São Paulo, tem nas rodas de magnésio e na suspensão dianteira rebaixada, a cara dos carros envenenados da época.

Sobre o romance, a escritora Giulia Moon, autora de Kaori, Perfume de Vampira, escreveu: “Roberto Causo utiliza um cenário tipicamente brasileiro com suas mazelas, criminosos e heróis anônimos, para contar de forma vívida uma história de arrepiar a espinha de qualquer fã de terror moderno. Leia com todas as luzes acesas!”

Mistério de Deus já está em pré-venda na Amazon, e Fernando Moraes já publicou a primeira resenha no eu blog Por Certos Livros.

—Roberto Causo

 

Foto de Roberto Causo.

Foto de Roberto Causo.

 

 

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Leituras de fevereiro de 2017

A ficção científica, o zen budismo e a ideia de transcendência deram a tônica das leituras de fevereiro, mesmo sem retiro de Carnaval. Confira as minhas anotações.

 

 

The Art of Japanese Architecture, de David & Michiko Young. Tóquio: Tuttle Publishing, 2007, 176 páginas. Taira Yuji, o brilhante líder da empreitada multimídia do Desire® Universe, talvez o mais interessante projeto da FC e fantasia nacional em curso, me contratou para escrever Archin, o primeiro livro da franquia. E me inundou com livros sobre cultura japonesa, já que a maior parte do romance se passa no Japão do século XIII. Este The Art of Japanese Architecture, do casal Young, foi o primeiro do lote que completei neste ano.

Trata-se de um livro de arte, em formato grande, muito bem estruturado e extremamente bem ilustrado com fotos, gráficos e concepções artísticas. Realmente informativo, vai da pré-história ao presente do Japão — de cabanas erguidas em cima de uma depressão cavada no solo, a projetos pós-modernistas de arranha-céus futuristas. Comentários sobre a evolução da sociedade, da religião budista e a sua história são habilmente associados a cada prática ou estilo de construção ou ornamento. Longe de ser um Casa Grande e Senzala, mas é impossível não sentir que mergulhamos em uma outra cultura, quando a imaginação nos leva a entrar nas casas das pessoas, e entendemos um pouco melhor o seu modo de vida. A Tuttle se especializa em cultura japonesa, e o seu fundador, Charles Egbert Tuttle, Jr., foi instrumental no renascimento da indústria editorial do Japão durante a ocupação americana. E por tabela, fundamental para a difusão da ficção científica americana naquele país (principalmente pela editora Hayakawa).

 

Arte de capa de Frank Frazetta

Downward to the Earth, de Robert Silverberg. Garden City, NY: Nelson Doubleday, 1970, 180 páginas. Capa de Frank Frazetta. Capa dura. Silverberg é um dos grandes nomes da ficção científica de todos os tempos. Downward to the Earth nunca foi publicado no Brasil, e sua leitura é uma indicação de Marcello Simão Branco, autor de Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (2004). Trata-se de um romance planetário escrito no modo New Wave próprio daquela década. Um fato curioso é que Silverberg não veio ao Brasil para o Simpósio de FC de 1969 justamente por estar na África pesquisando para este romance, primeiro serializado em 1969 na revista Galaxy. É inspirado no clássico de Joseph Conrad, Coração das Trevas (1899), que influenciou obras de J. G. Ballard como The Drowned World (1963) e “A Question of Re-entry” (1963) — esta, ambientada no Brasil —, e até a minha O Par: Uma Novela Amazônica (2008). Silverberg chega a apresentar um personagem chamado Kurtz (o famoso vilão da novela de Conrad).

Em Downward to the Earth, o antigo administrador do planeta colonial Mundo de Holman — rebatizado de Belzagor, agora que foi retornado aos seus habitantes, duas espécies inteligentes, os nildoror (parecidos com elefantes) e os sulidoror (semelhantes a gorilas) — retorna para expiar violências morais e físicas que infligiu a esses alienígenas. O principal produto do planeta é o veneno de vermes gigantes. Ele provoca nos humanos o crescimento acelerado de membros perdidos. No passado, o protagonista, instado por Kurtz, provara o veneno, resultando num momento de consciência trocada com os nildoror. Em sua jornada de expiação, reencontra antigos amigos (inclusive uma sensual mas distante ex-namorada), e participa da cerimônia central tanto dos nildoror quanto dos sulidoror. Ele experimenta agora um transformador vislumbre da totalidade transcendente. Há pontos de contato entre este romance e a FC New Wave inglesa de J. G. Ballard e Brian W. Aldiss. Mas o livro também se apoia na estratégia central da New Wave americana: a concretização do mito — ou, no caso deste admirável livro de Silverberg, do ritual.

 

O Zen e a Experiência Mística (This Is It), de Alan W. Watts. São Paulo: Editora Cultrix, s.d. [1960], 150 páginas. Tradução de José Roberto Whitacker Penteado. O terceiro romance da minha série As Lições do Matador, Anjos do Abismo, vai tocar na questão da religião organizada. Além disso, a religião e o místico farão parte de Archin, o primeiro romance do Desire® Universe. Seu criador, Daniel Abrahão me forneceu livros sobre o budismo no Japão. Mas minha esposa Finisia Fideli tem uma bela prateleira de obras sobre zen budismo, que, inclusive, eu já tinha visitado antes. Este livro de Alan Watts é uma coletânea de ensaios sobre a experiência mística zen: o insight da totalidade ou da ordem profunda da vida. O processo em que a “compreensão de que tudo é tão errado quanto pode ser se transforma na compreensão de que tudo é tão certo quanto pode ser”, Watts escreveu (explorei noção semelhante em meu conto de horror “Trem de Consequências”, de 1999).

O ensaio intitulado “O Zen Beat, ou da Contestação, o Zen Square, ou Tradicional, e o Zen” é particularmente interessante. Faz crítica da apropriação de conceitos budistas pelos beats ou beatniks, o movimento de Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs. Como a literatura beat (especialmente a de Burroughs) influenciou pesadamente a FC da New Wave e do cyberpunk, existe aí um ponto de contato com minhas pesquisas desses movimentos dentro da ficção científica. Já o ensaio “O Zen e o Problema do Controle” me plantou a ideia de uma identidade entre o budismo e o transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson, especialmente no conceito da “autoconfiança” (self-reliance) — que tem tido muita importância na minha escrita. E buscando, encontrei na internet evidências de que Emerson de fato teve contato com o budismo, lá na primeira metade do século 19 — espantoso! O Zen e a Experiência Mística tem um tratamento editorial básico, e a tradução de Whitacker Penteado derrapa aqui e ali, mas o livro me trouxe uma leitura frutífera.

 

Arte de capa de David Mattingly

The Armageddon Inheritance, de David Weber. Nova York: Baen Books, 4.ª edição, 2000 [1993], 344 páginas. Capa de David Mattingly. Paperback. Weber é famoso pela série de space opera militar Honor Harrington, iniciada em 1993. Lançado no mesmo ano, este é o segundo volume da trilogia de space opera Dahak. A capa do experiente David Mattingly é na técnica de acrílica, e anterior à sua transição para a arte digital. Apareceu no prestigioso catálogo Spectrum 2 (1995). A hemorragia cósmica que ela representa já diz tudo.

No primeiro livro, o herói da trilogia, um astronauta americano, descobre no lado escuro da Lua que nosso satélite natural é uma espaçonave gigante de um império galáctico em crise. Ele é adotado por ela como herdeiro da sua tecnologia, e acaba se casando com uma alienígena descendente da primeira tripulação. No segundo, a Terra é unida para enfrentar a ameaça de alienígenas guerreiros chamados achuultani, comandados por um supercomputador e “programados” para tripular monstruosas esquadras de naves voltadas para um único propósito: o extermínio preventivo de qualquer outra espécie dotada de navegação espacial. Parece que Weber, na sua trilogia, compactou os dois primeiros ciclos da série alemã Perry Rhodan — hipótese que outros também apontaram na internet. Como em Perry Rhodan (iniciada em 1961), a ação deste romance de Weber é repleta de batalhas espaciais, lances dramáticos em rápida sucessão, e ideias fabulosas. The Armageddon Inheritance habita exclusivamente o espaço da hipérbole: naves do tamanho de planetoides, tripulações de dezenas e centenas de milhares, armas destruidoras de planetas, uma epidemia transplanetária capaz de extinguir todo um império galáctico, combates que acontecem no espaço normal e no hiperespaço ao mesmo tempo, uma inteligência artificial com alma, escudos de energia envolvendo um planeta inteiro, batalhas com milhões de vasos de guerra, e a Terra atingida por armas que a lançam numa pequena era glacial. Raramente a história acelerada e incansável mergulha na consciência dos personagens, e mesmo o herói mal arranha a superfície. A narrativa acaba assemelhando-se a um romanceiro medieval — poema narrativo que salta de situação em situação, com enredo frouxo e dentro de uma verve repetida por poemas anteriores, destituído das qualidades usuais do romance moderno (caracterização redonda, cenas bem construídas e alternância de formatos, cadências e tons numa mesma narrativa). Nesse sentido, expressa aquela “poesia pulp” atribuída pelo crítico Phil Hardy à série Perry Rhodan — um vertiginoso uso de imagens e sentidos que apenas a space opera é capaz de produzir.

 

REQU13M, de Lidia Zuin. São Paulo: Editora Nova Abordagem, dezembro de 2016, 272 páginas. Ilustrações internas de Davi Augusto e Pe Oliveira. Posfácio de Roberto de Sousa Causo. Apêndices. Agora em fevereiro chegou o meu exemplar do primeiro livro de papel da escritora da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira, Lidia Zuin. Graças à indicação de Carlos Angelo, e à boa vontade do editor Nestor Turano Jr., tive a chance de escrever o posfácio do livro. Ele narra as aventuras da hacker Lynx (a primeira heroína de uma série cyberpunk brasuca?), que já circulava por aí em antologias e e-books pela Editora Draco. Quando o li para escrever o posfácio, ele não tinha nem as ilustrações internas, nem os apêndices — dois textos acadêmicos não creditados, mas de autoria da própria Zuin, que é Mestre em Semiótica. (Um deles está em inglês no site Neon Dystopia.) A rica edição é do pessoal do curso de Produção Editorial da Universidade Anhembi Morumbi.

REQU13M, que pode ser lido como um romance, é uma aventura movimentada. Tem correrias e tiroteios, escapadas de última hora e encontros com tipos estranhos e tecnologias bizarras, que causam estragos no nível das ruas da cidade indefinida que a heroína percorre. Dentre essas tecnologias, o upload da mente humana na rede. Mas o livro não prescinde de um lado filosófico e intelectualizado, que discute real e virtual, mundano e transcendente. Nesse sentido, os dois ensaios mencionados acima lançam luz sobre o projeto literário da autora — sem dúvida, um diferencial, dentro da recente produção brasileira de ficção científica cyberpunk.

 

Night Passage, de Robert B. Parker. Nova York: G. P. Putnam’s Sons, 1997, 322 páginas. Capadura. Sou fã de Parker, um escritor de ficção de crime e de western, um dos poucos herdeiros, de fato, do mestre Raymond Chandler. Na ficção de crime, Parker (1932-2010) desenvolveu três séries — a do detetive particular Spenser, a do chefe de polícia Jesse Stone, e a da detetive Sunny Randall. Spenser foi a série que mais acompanhei, mas eu já tinha lido o terceiro romance das histórias de Jesse Stone, Stone Cold (2003). Meu interesse pelas aventuras de Stone foi renovado pela ótima série de longas produzidos e estrelados por Tom Selleck, exibida no Brasil em vários canais a cabo.

Night Passage apresenta o personagem, bem mais jovem que a versão de Selleck. É um ex-policial de Los Angeles que mergulhou no álcool para lidar com as traições conjugais da esposa atriz, e acabou exonerado. É contratado para assumir a força policial de Paradise, em Massachussetts, do outro lado do país. Parker sempre escreve sobre essa região. O próprio Spenser é baseado em Boston, a capital. Enquanto se reequilibra, Stone arruma uma namorada e muitos inimigos. Por toda volta, encontra casos de traição extraconjugal. Paradise é uma espécie de subúrbio de classe alta, branco e quase que exclusivamente WASP. A intriga, envolvendo uma milícia armada de supremacistas brancos (ausentes da adaptação para a TV), comandada por um frustrado banqueiro, mostra que Paradise não é assim por acaso. Parker era fissurado em psicanálise, e às vezes isso aparecia de modo exagerado ou repetitivo, nos seus livros. O seu Stone é um homem duro, independente e estoico. Bem na tradição da self-reliance de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, que lançaram o seu movimento transcendentalista lá mesmo na Nova Inglaterra. Embora mais complicado do que Spenser, Stone é, assim como o detetive particular de Boston, uma ilha de maturidade num mundo que parece cada vez mais infantilizado. Nesse sentido, Parker lida com o tema da milícia americana armada como uma fantasia infantilizada de compensação. Assim com os argumentos racialistas e contrários à globalização, que viriam a contribuir para a eleição de Donald Trump, tanto tempo depois do lançamento deste romance.

 

Arte de capa de Tom Adams

Journeys of the Mind, de Alan Pemberton. Limpsfield: Paper Tiger, 1983, 144 páginas. Capa de Tom Adams. Ilustrações internas de Adams, Graham Humphries e Bill Donohue. Quando eu era adolescente, na primeira metade da década de 1980, os livros de arte de ficção científica e fantasia da Paper Tiger circulavam timidamente no Brasil. A minha coleção dos seus livros foi adquirida em sebos e nos saldões da loja Terramédia, em São Paulo. Mas eu não sabia que a Paper Tiger tinha publicado livros ilustrados, até comprar esta coletânea de contos de horror em um desses saldões, ano passado.

A edição de Journeys of the Mind nada traz sobre Alan Pemberton, o autor das histórias, e não achei nada sobre ele rede. É um autor competente na ficção de horror (embora a primeira história do livro seja de ficção científica), e sua coletânea traz doze contos. A maioria deles é ambientada na Inglaterra, mas alguns se passam em outras terras (Malásia, África do Sul, Suécia, e uma plataforma petrolífera talvez instalada no Mar do Norte) e envolvem outras culturas. Tendem a ser curtos — calibrados para amparar três ilustrações por conto, uma delas sempre em página dupla e a maioria de colorido total. O fato de serem curtos implica um desenvolvimento mais superficial e, às vezes, um desenrolar meio truncado. Mas todos prendem a atenção, e a exuberância e riqueza das ilustrações compensa (especialmente as de Adams). Os temas comuns a todos são a morte e a mensagem vinda do além, com um lado moralizante que condena a arrogância e a frieza das classes altas. A história que dá título fala de um homem que perde a namorada num acidente, cai em depressão e, durante uma sessão de eletrochoque, tem uma experiência extracorpórea que se desdobra em outras. Sua conclusão dá o tom do livro — a morte oscilando entre o horror e a transcendência.

–Roberto Causo

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