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Machado e Poe

Em outubro de 2020 completam-se três anos do desencarne do meu amigo, mentor e alvo de admiração sincera, Douglas Quinta Reis, sócio-fundador da Devir Brasil e um herói nacional do mundo nerd/geek. Desejando não deixar a data passar em branco, resgatei da gaveta virtual este que foi o último texto encomendado a mim por Douglas, introdução para uma pretendida edição bilíngue do famoso poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, empregando a tradução de Machado de Assis. O texto foi entregue a ele em setembro de 2017, e um mês depois Douglas teria nos deixado. Fica a minha homenagem a ele, em reconhecimento a todas as oportunidades que ele deu a mim e a tantos outros artistas e escritores do Brasil.

—Roberto Causo

 

 

Machado de Assis em 1904. Foto: Wikimedia Commons.

Nascido em 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis conquistou a consagração literária ainda em vida, como romancista, poeta, contista e cronista popular, autor de livros que vendiam bem e chamavam a atenção da intelectualidade. Era influente entre seus pares no Brasil e em Portugal. Para Erico Verissimo, em Breve História da Literatura Brasileira (1945), aos 50 anos de idade Machado “era a figura mais distinguida e respeitada da cena literária brasileira”. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, instituição que ele lutou para criar, em conjunto com outros intelectuais do Brasil em fins da década de 1890, foi escolhido o seu presidente perpétuo. É tido pela maioria dos críticos como o maior autor brasileiro do século 19 — se não de todos os tempos. No plano da literatura mundial, é comparado a Henry James pela investigação psicológica dos seus protagonistas.

A obra literária de Machado é geralmente dividida entre uma primeira fase na qual ele aderiu ao Movimento Romântico, e uma segunda, a partir da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), na qual se aproximou do Realismo. Mas alguns críticos entendem que muitos dos procedimentos literários adotados por ele e a abordagem de alguns de seus romances o tornam um precursor do Modernismo na literatura. Desse modo, o autor fluminense faria a ponte entre o século 19 e o 20, pavimentando a literatura brasileira no caminho da sua tendência dominante. José Luiz Passos, em Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis (2007), aponta, por exemplo, Mário de Andrade e Graciliano Ramos como escritores impressionados pela contribuição de Machado ao romance brasileiro, marcada pela representação dos atritos “do indivíduo perante a comunidade”.

Desde cedo, essa foi a tônica da obra de Machado, a exploração das tensões entre o autoconhecimento do sujeito e as máscaras sociais que ele é forçado a usar ou que identifica nos outros como dissimulação moral. Também segundo Passos, logo com Ressurreição (1872) já se tem “um tema novo para o conjunto da narrativa brasileira: a justa visão do outro desmantelada pelo império do autoengano; um tema ousado para a pena de um estreante no romance”.

Passos observa igualmente que, em 1878, Machado publica uma resenha de O Primo Basílio, de Eça de Queirós, demandando maior imaginação moral do autor português — uma exigência em sintonia com o seu próprio projeto literário. Na mesma resenha há, porém, um dado problemático da visão de mundo do escritor brasileiro, quando ele iguala ciência, consciência moral e arte: “Quando a ciência nos disser: a ideia é verdadeira; a consciência nos segredar: a ideia é justa; a arte nos bradar: a ideia é bela — teremos tudo.”

Em “O Alienista” (1882), por exemplo, Machado trata da chegada à pequena cidade fluminense de Itaguaí, ainda no século 17, do alienista Simão Bacamarte. O seu frio propósito científico é descrito como um sacerdócio de dedicação absoluta, visão romântica da ciência que também aparece na ficção científica O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar. Mas essa novela de Machado é basicamente uma comédia de costumes, na qual Bacamarte recolhe os insanos locais, mas logo expande sua ação para recolher os dotados de pequenas manias e faltas morais próprias da época e do contexto — ostentação financeira, vaidade, superstição…

Depois de uma revolta popular dirigida contra ele e os políticos locais que o apoiavam, o alienista muda o seu foco e passa a recolher os virtuosos, vistos por ele como improváveis no mesmo contexto e portanto mentalmente desequilibrados. É o mesmo esquema alegórico de A Luneta Mágica (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, em que um jovem, incapaz de lidar com a realidade da vida, alterna óculos mágicos que o fazem ver tudo com lentes metafóricas escuras, com outros que pintam o mundo com cores róseas. Em “O Alienista”, assim como nas explorações de ideias “científicas” e “filosóficas” bizarras que apresentou em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e em Quincas Borba (1891), a busca pelo conhecimento não possui autonomia, leva ao desequilíbrio da consciência (como a do próprio Bacamarte), e soa como intrusão impertinente sobre a moralidade instituída.

Verissimo, que chama Machado de “nosso enigma literário mais intrigante”, tende a explicar o pessimismo do mestre fluminense e sua obsessão literária com a dissimulação e com o olhar julgamentoso da coletividade sobre o sujeito, pela própria biografia do autor: “Machado de Assis tinha seus padecimentos secretos”, escreveu. “Sofria de terrível doença. Era epilético. Temia a possibilidade de ter um de seus ataques na rua ou em qualquer lugar público. Abominava a ideia de ser um ‘espetáculo’.”

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A posição de Machado no compasso da história dos movimentos e ideias literárias é complicada pela sua grande e variada produção, e pela sua disposição de ocupar os espaços culturais disponíveis no seu tempo. Afinal, a ambição artística marca a trajetória de Machado desde a sua inserção, e o seu projeto literário é precoce: “Há grande ambição num escritor que, na sequência dos primeiros livros, tenta todos os [formatos] que a literatura do seu tempo lhe punha à disposição”, Passos observa; “inclusive um libreto de ópera que, aparentemente, não sobreviveu”.

“Aurora sem Dia”, por exemplo, é um conto que, mesmo escrito na fase romântica de Machado, faz crítica aos excessos do Romantismo e da conexão institucional entre literatura e política, na sua descrição de um pretensioso poeta tupiniquim. Juntamente com “A Chinela Turca” (1875), é talvez um conto antirromântico e parece dizer que em Machado as impropriedades intelectuais e artísticas se traduzem como impropriedades sociais. Passos isola “A Chinela Turca” como um marco na produção de Machado por expor “de modo evidente uma feição incomum à narrativa brasileira da época”: “o contraste entre os mundos interior e exterior, com a primazia do primeiro sobre o segundo”. Nele, um jovem é forçado a ler uma peça de teatro, que ele rejeita por conter os clichês e artifícios do Romantismo. O autor da peça, desagradado com sua reação, parte deixando-o sozinho. De imediato, porém, o protagonista é sequestrado e levado à força literalmente para dentro de um enredo de capa e espada. Soa profundamente irônico — exceto pelo fato de que era tudo um sonho (outro clichê romântico) —, e a mensagem do conto acaba alertando contra certa contaminação cognitiva ou moral, que aquela literatura ruim seria capaz de promover.

Passos, que chama a escrita de Machado de “realismo romântico de feição psicológica”, também observa que “uma obra vasta como a de Machado é uma região delicada, sujeita aos influxos da mirada anacrônica”. O lugar do fantástico — mais próximo do Romantismo do que do Realismo — nessa obra não é assunto de que Passos se ocupe, mas também ele pode ser explicado pela vastidão da atividade literária de Machado. “As Academias de Sião”, por exemplo, é um conto de fantasia ambientado em contexto orientalista muito próprio do Romantismo, e que propõe a troca temporária de corpos entre o monarca do antigo reino da Tailândia e uma de suas concubinas. Ela, como dirigente, revela-se mais implacável e eficaz do que ele. Além disso, ao mesmo tempo que troça das academias científicas e filosóficas, o conto permite a Machado explorar por um outro ângulo as suas mulheres calculistas e de personalidade forte.

Outro exemplo é a ficção científica “O Imortal” (1882), sobre um português chamado Rui de Leão que, nas guerras contra holandeses no Brasil, acaba convalescendo de um ferimento numa aldeia indígena, onde, depois de ser adotado pelo pajé local, bebe uma poção que lhe traz a imortalidade. Esse é um tema que a ficção científica herdou do romance gótico — sublinhado no conto pela narrativa do filho do protagonista, numa reunião com amigos em noite chuvosa… Herdou concomitantemente a posição de que a imortalidade física seria, no fim das contas, um fardo e um tormento. Essa é a posição de Machado, que, depois de traçar as várias aventuras do herói ao longo dos séculos e no Brasil e na Europa, encontra a solução para o tédio vivido por ele. Para João Adolfo Hansen, da Universidade de São Paulo, o traçado do enredo de Machado incorpora clichês do Romantismo, de modo que o seu enfileiramento na narrativa formaria mais uma crítica irônica dos excessos daquele movimento.

 

Edgar Allan Poe, circa 1847. Daguerreótipo de autoria desconhecida, restaurado por Yann Forget e Adam Cuerden.

 

Ao contrário de Machado de Assis, o escritor americano Edgar Allan Poe, nascido em 19 de janeiro de 1809 em Boston, só alcançou um largo reconhecimento postumamente. Sua vida foi difícil e incluiu a orfandade, o abandono da universidade e da academia militar para perseguir a atividade literária. Encontrou nesse esforço a penúria e a viuvez, e sua morte foi prematura — em 1849, cercada de controvérsias. A versão de que ele morreu bêbado na sarjeta é contestada pela hipótese de que teria sido drogado e arrastado por cabos-eleitorais de distrito em distrito, sendo forçado a votar várias vezes no mesmo político até ser jogado em algum canto, numa prática que se afirma ter sido comum nos Estados Unidos da época. Hoje, o consenso parece ser de que a memória de Poe foi vítima de um crítico literário malicioso chamado Rufus Wilmot Griswold, que teria fabricado a sua fama de “maldito” e “degenerado” — por ressentimento pessoal contra Poe, ou por oportunismo comercial, já que Griswold se tornou executor do legado de Poe após sua morte, e talvez achasse que essa “aura” venderia mais livros. O próprio Poe escreveu farsas durante a vida, na busca pelo sustento.

Assim como Machado de Assis, Poe escreveu crítica literária, sendo reconhecido com um crítico especialmente arguto e filosófico. Mas foi como poeta e contista que ele alcançou a fama maior. Considerado um dos grandes nomes do Romantismo americano, buscou com frequência o macabro e o insólito — daí a frequente confusão entre sua biografia e o conteúdo sombrio de suas narrativas. Ainda em vida, teve muitos admiradores, e sua influência sobre autores americanos de peso que vieram depois dele, como Ambrose Bierce e H. P. Lovecraft, é clara e significativa. Por meio desses e de outros nomes, Poe tornou-se central para certos ramos da ficção norte-americana nos séculos 19, 20 e 21. É especialmente instigante o fato de ele ter se tornado uma poderosa influência pioneira sobre alguns dos gêneros populares mais potentes a surgirem no século 19: a ficção de crime, a ficção científica e a de horror.

Apesar disso, observa-se que a reputação duradoura de Poe é na verdade devedora da sua recepção pelos intelectuais franceses da segunda metade do século 19. Isabelle Meunier foi uma das primeiras tradutoras, para o francês, dos seus contos. Mas logo ele chama a atenção dos mestres simbolistas Charles Baudellaire e Stéphane Mallarmé, sendo que, segundo Sandra M. Stroparo, que estudou a correspondência de Mallarmé, este teve mais tempo e energia para promover o trabalho do americano. Charles Kieffer aponta que “os simbolistas, jovens poetas que se reuniam no modesto apartamento de Mallarmé, na Rue de Rome, elegeram o autor de ‘O Corvo’ e ‘A Queda da Casa de Usher’ como seu profeta”.

Mallarmé e Baudelaire também traduziram obras de Poe para o francês, estendendo sua influência a vários países europeus e latino-americanos — inclusive o Brasil, que em fins do século 19 estava sob a influência cultural francesa. Baudelaire é responsável, por exemplo, pela coletânea de contos Histoires extraordinaires (1856), no Brasil traduzida do francês por ninguém menos que Clarice Lispector. Jules Verne foi um autor francês influenciado por Poe nas suas “viagens extraordinárias” — narrativas muito didáticas de aventura, precursoras da ficção científica.

Curiosamente, Poe também teve impacto sobre a música erudita francesa: Claude Debussy começou uma ópera baseada no conto “The Fall of the House of Usher” (1893), iniciada em 1908, “La chute de la maison Usher”, enquanto André Caplet escreveu a “Conte fantastique” (1924) inspirada no conto clássico do horror “A Máscara da Morte Rubra” (“Masque of the Red Death”; 1842), e Florent Schmitt compôs “Le palais hanté, Op. 49” (1900-1904), poema sinfônico baseado no poema “O Palácio Assombrado” (“The Haunted Palace”; 1839), de Poe. Na segunda metade do século 19, o inglês John Henry Ingram opõe a sua própria biografia de Poe, equilibrada e cuidadosa, às difamações de Griswold. É bom lembrar que no Reino Unido a influência de Poe se fez sentir sobre o escocês Arthur Conan Doyle, cujo detetive Sherlock Holmes foi inspirado no proto investigador criminalista de Poe, Auguste Dupin. Sobre Poe, Doyle declarou: “Suas histórias são um modelo para todas as ocasiões.”

 

 

Ilustração de John Tenniel (1820–1914) do poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe.

 

O brasileiro Machado de Assis se encontra com o americano Edgar Allan Poe, da maneira mais célebre, com a tradução que Machado fez do poema canônico de Poe, “O Corvo” (“The Raven”; 1845). Publicada na Gazeta de Notícias em 1883, sua tradução é uma das mais famosas em língua portuguesa. Aparentemente, foi submetida pelo próprio Machado, e não encomendada pelo periódico. Para a maioria dos especialistas, Machado teria tomado conhecimento do trabalho de Poe por via das traduções francesas de Baudelaire.

“The Raven” é um poema rico em figuras sonoras, de ritmo marcado, aliterações reiteradas e rimas fechadas finais no original em inglês, rimas internas entrelaçando versos e sentidos, e em tudo compondo uma atmosfera de pesadelo: o eu lírico pertence a um homem entre o sono e a vigília que reage a pancadas que houve em sua porta. Ele inicialmente se recorda de sua falecida amada Lenore, e descobre, além da sua porta, um corvo que vem pousar sobre um busto de pedra, e que passa a repetir uma única elocução: “Nevermore” (“nunca mais”); ou “nada mais”, alternado por “nunca mais”, na tradução de Machado. Imaginando o pássaro como arauto do além-túmulo (os litorais de Plutão, o deus da morte), ele o interroga sobre Lenore e recebe sempre a mesma terrível resposta. O fato do corvo estar pousado sobre o busto de Palas, a deusa da sabedoria, representa um outro nível de ironia: o conhecimento humano não tem acesso àquele território. O poema expressa, portanto, uma indagação que Poe fez com uma das suas farsas, “Os Fatos no Caso de Monsieur Valdemar” (“The Facts in the Case of M. Valdemar”; 1845), publicada no mesmo ano — apresentando um outro resultado e provocando grande estardalhaço entre o público leitor americano e britânico —, e outras narrativas sombrias ao longo de sua carreira.

O crítico Cláudio Weber Abramo observa: “é possível afirmar-se, sem sombra de dúvida, que a tradução do escritor brasileiro é muito mais da versão francesa de Baudelaire do que do poema original.” As diferenças são muitas, e incluem a transformação das estrofes de seis versos, de Poe, em estrofes de dez versos, além da redução das reiterações que dão a cadência peculiar do poema original. Com rimas finais mais abertas e menor ocorrência de rimas internas, o poema assume um tom mais declamativo. Os professores Adriano Mafra e Munique Helena Schrull entendem que a versão de Machado busca adaptar o poema “intencionalmente a um novo contexto, buscando bases sólidas para a formação de uma identidade literária nacional”, adotando a recriação, de modo que “traz à tona novos elementos, incorporando em sua tradução as influências de sua formação literária”.

Os versos finais na versão de Machado implicam que a alma do personagem que interroga o corvo, sem consolo algum, é prisioneiro como em uma gaiola ou cadeia; enquanto em Poe a sombra do pássaro envolve a alma afundada pela depressão, que dali não conseguirá elevar-se ou alçar voo. Cada um a seu modo, costura uma inquietante fusão de imagens de opressão e voos abortados. Repetindo apenas uma única fala de desesperança, o corvo torna-se, nos dois casos com grande maestria, uma presença fixa e eterna na consciência do eu lírico, símbolo de perda e luto perene.

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A presença de Poe na obra de Machado de Assis não se limita à sua tradução de “The Raven”. É interessante, porém, que José Luiz Passos, por exemplo, aponte que Machado teria bebido extensivamente de William Shakespeare, e composto cuidadosamente suas influências a partir não apenas do Bardo, mas de Victor Hugo e Ivan Turgueniev. A influência de Shakespeare, especialmente, parece óbvia a quem conhece seus contos e romances, mas Passos foi além e fez um levantamento das ocorrências de Shakespeare, menções e citações, na obra toda de Machado — mais de 200, com ocorrências majoritárias de peças como Otelo e Hamlet.

É interessante notar, a propósito da inclusão de Poe como influência sobre Machado, que sua coletânea Várias Histórias (1896) traz diversas narrativas que se aproximam da aura dos contos do americano — que, inclusive, é citado na nota introdutória: “[meus contos não] são feitos daquela matéria, nem daquele estilo que dão aos [contos] de Mérimée o caráter de obras-primas, e colocam os de Poe entre os primeiros escritores da América.”

Não obstante a modéstia de Machado, há no seu livro histórias famosas, marcantes para a produção nacional de ficção curta, como “A Cartomante” (1884), que pode ser lido como conto fantástico (a cartomante sabia ou não que o herói seria vítima de vingança passional?), e que já foi adaptado para o cinema. “Entre Santos” é outra história que bordeja o fantástico, com um padre que, diz o narrador, sonha que ouve os santos conversando na igreja, sobre um fiel de quem o padre dificilmente saberia tanto. Outros famosos: “Uns Braços” (1885) e “A Causa Secreta” (1885) — este último uma história macabra digna de Poe, sobre um sádico estudante de medicina e sua morbidez que, no final da história, volta-se para o cadáver da esposa. “Viver!” assume a forma de diálogo entre Prometeu e o Judeu Errante (um imortal como Rui de Leão, e presente na literatura gótica) — um formato que Poe utilizou antes em textos como “A Palestra de Eiros e Charmion” (“The Conversation of Eiros and Charmion”; 1839) e “Colóquio entre Monos e Una” (“The Colloquy of Monos and Una”; 1841). É interessante notar ainda que a maior parte das histórias de Machado neste livro são posteriores à sua tradução de “The Raven”; i.e., possivelmente posteriores ao seu contato com a obra do americano.

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O diálogo entre Machado e Poe não passou despercebido a outros pesquisadores. No ensaio “Machado de Assis e Edgar Allan Poe: Dois Escritores da Modernidade” (2012), a Prof.ª Greyce Pinto Bellin compara os contos “O Homem das Multidões” (“The Man of the Crowd; 1840), de Poe, e “Só!” (1885), de Machado. “Não podemos deixar de ignorar o fato de que, para Machado, [Poe] foi uma inegável influência no que diz respeito ao uso do conto como forma de expressão artística”, Bellin escreveu, no ensaio que ressalta a atenção dada pelos dois escritores, às transformações sociais que dão origem à modernidade. Ana Maria Lisboa de Mello, da PUC do Rio de Janeiro, já havia coberto território idêntico no artigo “Edgar Allan Poe e Machado de Assis: Estranhamento e Sedução da Cidade” (2009).

Já a Prof.ª Fabiana Gonçalves, no ensaio “Sadismo ou Demonismo na Poética de Machado de Assis”, escreve: “Um dos escritores preferidos de Machado de Assis, Edgar Allan Poe, evidenciou no conto ‘O Gato Preto’ [‘The Black Cat’; 1843] que a violência não atinge apenas os humanos”, comparando essa formulação com o contexto de um conto de Machado já mencionado aqui: “A tortura infligida a um gato na narrativa de Poe assemelha-se muito com o martírio aplicado por Fortunato ao rato em ‘A Causa Secreta’.” E o diálogo intertextual entre o brasileiro e o americano é explorado pela Prof.ª Renata Philippov, em “Edgar Allan Poe e Machado de Assis: Intertextualidade e Identidade” (2011).

Entender a influência de Poe sobre Machado Assis, incluindo-a junto à de outros grandes nomes como Shakespeare e Hugo, só faz alargar o alcance e a profundidade da obra do mestre brasileiro.

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Leituras de Agosto de 2017

Este foi um mês de novas leituras de fantasia e de ficção científica, mas com espaço para não-ficção, quadrinhos e ficção literária.

 

Arte de capa de Kevin Murphy.

Adiamante, de L. E. Modesitt, Jr. Nova York: Tor Books,1998 [1996], 312 páginas. Capa de Kevin Murphy. Paperback. Assim como Jack McDevitt, comentado mês passado, Modesitt é um escritor que se repete muito mas sempre entrega um trabalho consistente, despretensioso e, muitas vezes, instigante. É o caso deste Adiamante, obra de impacto que se expressa como exercício de filosofia moral numa ficção científica de futuro distante. Nesse futuro, a humanidade se dividiu em três grupos: os demi[gods], os cyb[orgs] e os draffs. Num passado indeterminado, o cybs se insurgiram e foram expulsos da Terra. No tempo do romance, eles retornam com uma esquadra de naves superpoderosas feitas com a substância mais resistente que a tecnologia humana é capaz de produzir: o “adiamante” do título.

Uma das características do autor é narrar na primeira e na terceira pessoas. Aqui o livro acompanha, na maior parte, a narrativa do protagonista, Ecktor. Ele é o Coordenador planetário da Velha Terra, indicado quando os cybs ressurgem. A sociedade que representa e fundada no respeito ao indivíduo, no aproveitamento energético (até a classe dirigente tem que prestar serviços à comunidade, quando consome energia com caprichos) e na recuperação ambiental. Ecologia é um tema de Modesitt — o primeiro livro dele que li foi um ecothrillerThe Green Progression, escrito com Bruce Scott Levinson. Em Adiamante, a humanidade, escolada em guerras e poluição em escala planetária, aprendeu as lições da história. Os demis adotaram um código estrito de conduta ética e integraram a própria ideia da resistência pacífica aos seus genes — exatamente dentro da conclusão de Reinhold Niebuhr em Moral Man and Immoral Society (1930), que discuti aqui em julho. A maior parte do intenso suspense que surge do romance vem de sabermos o tempo todo que os demis têm poder para destruir os cybs (Ecktor tem um pedaço de adiamante como peso de papel), mas evitam fazê-lo até que as intenções dos invasores, por seus próprios atos, fiquem claras. A única coisa que eles jamais farão, é um ataque preventivo, coisa que virou doutrina oficial americana durante a administração George W. Bush.

“Poder sem moralidade é o desastre; moralidade sem poder é inútil.” —L. E. Modesitt, Jr. Adiamante.

Além disso, a impossibilidade de comunicação quando os sistemas de valores são opostos também é marcada ao longo da narrativa, com Ecktor padecendo de um isolamento moral em relação aos cybs, que é partilhado por toda a coletividade de demis. Esse grupo escolhe o sacrifício de grande dos seus quadros, para que não cometessem um ato que iria corromper e destruir as bases da sua sociedade — eles têm sua própria versão da “psico-história” de Asimov, com previsões de alta percentagem indicando isso. Uma escolha tão singular, que só encontrei exemplos semelhantes em duas outras ocasiões, nas minhas leituras: na novela “Zanzalá” (1938), do brasileiro Afonso Schmidt (mas em tom farsesco), e no romance Pastwatch: The Redemption of Cristopher Columbus (1996), de Orson Scott Card. A FC costumava ser assim… romances compactos que dramatizavam com engenhosidade conceitos éticos e sociais caros à civilização. Esta foi uma das minhas melhores leituras neste ano, até aqui. A capa de Kevin Murphy é simples mas busca o tipo de textura de materiais que o mestre inglês Jim Burns costuma realizar.

“Apesar de todas as nossas redes, de todas as nossas comunicações, os humanos — cybs ou demis — são alienígenas, alienígenas uns para os outros, e para o universo, e é por isso que devemos ter confiança.” —L. E. Modesitt, Jr. Adiamante.

 

Arte de capa de Paola Giometti.

O Chamado dos Bisões, de Paola Giometti. São Paulo: Andross Editora, 2017, 144 páginas. Capa e ilustrações internas de Paola Giometti. Brochura. Ramo talvez recursivo da fantasia — hipótese enfatizada pela série Redwall do escritor inglês Brian Jacques (1939-2011) —, a fábula de animais é um pouco rara no Brasil. Eu gosto de bichos, e desse tipo de fábula desde que li uma num livro da Disney, quando era menino. Por sorte, tenho feito a preparação de texto da série de fábulas sobre animais norte-americanos escrita por Paola Giometti, e que inclui O Destino do Lobo (2014) e O Código das Águias (2016). Todos têm a mesma moldura: um jovem que viaja da cidade para zonas mais ermas, florestas e montanhas, onde ouve fábulas de animais importantes para a cultura nativo-americana, pela boca do seu sábio bisavô. O bicho deste terceiro volume é o bisão americano, e o tema é a migração como rito de passagem na formação de uma pequena bisonte que se separou da mãe e do rebanho. Quem conhece os volumes anteriores é premiado com aparições de personagens que viveram as aventuras precedentes. Todos os livros da trilogia tratam dos atritos muito ambíguos entre os animais e os seres humanos. Há um leve toque místico, no culto aos antepassados, pelas várias espécies. Parte da diversão desse tipo de fábula é como os animais são humanizados — aqui, com a inclusão de atitudes e modos de falar dos jovens. A função moralizante da fábula é explicitada pelas reações do jovem que ouve a história contada pelo avô. Com este livro, lançado em 12 de agosto na Biblioteca Viriato Corrêa, a série Fábulas da Terra se completa como uma trilogia. O lançamento contou com convidados muito especiais, duas corujas e uma águia-chilena mantidas pelo grupo de criadores Turma do Gavião, sendo que a águia Ragnar e a coruja Sansão aparecem como personagens no livro. (Minha esposa Finisia Fideli adorou ver os bichos e conversar com os criadores.) Giometti, que escreve com graça e vivacidade, e ilustra os próprios livros, pretende escrever agora narrativas de realismo mágico.

 

Arte de capa de Steve Stone

Dragon Haven: Volume Two of the Rain Wilds Trilogy, de Robin Hobb. Nova York: EOS, 1.ª edição, 2010, 508 páginas. Capa de Steve Stone. HardcoverEste é o segundo livro da tetralogia Rain Wild Chronicles, de Robin Hobb. E parte de uma longa série muito maior, iniciada com a Trilogia Farseer, conhecida no Brasil como Trilogia do Assassino. Hobb é o pseudônimo de Megan Lindholm, que apareceu na Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica com esse nome. Hobb/Lindholm é uma das melhores autoras de fantasia que conheço. Seu vasto mundo secundário é complexo e humano. A Trilogia Liveship Traders termina com o retorno de um dragão aos céus desse mundo. Um número de serpentes marinhas consegue se instalar no Rio Rain Wilds, onde criam casulos que vão chocar os dragões. Na Trilogia Tawny Man, dois personagens marcantes da Trilogia Farseer, Fitz e o Bobo, integram expedição a terras distantes e geladas, em busca de um dragão congelado. O Bobo diz que o seu objetivo na vida é trazer os dragões de volta ao mundo — uma loucura, na visão de Fitz. Para quê trazer feras destruidoras, famintas e arrogantes de volta? Para equilibrar a arrogância humana. Um projeto que tem a minha simpatia, e é a razão não religiosa mais abstrata possível para o preservacionismo ambiental.

No primeiro livro das Rain Wilds Chronicles, Dragon Keeper (2010), um grupo de dragões mal-formados emerge dos casulos. Eles não se viram sozinhos, e o Conselho de Comerciantes da cidade de Trehaug não quer pagar pelo seu sustento. Para se livrar dos dragões, montam uma expedição à cidade perdida de Kelsingra, em algum lugar subindo o rio. Jovens indesejados de Trehaug são convertidos em tratadores de dragões, e enviados com os bichos. A garota Thymara é um deles, e a expedição conta ainda com a aristocrata de Bingtown (a cidade da Trilogia Liveship Traders) Alise Kincarron, uma erudita no estudo dos dragões, que vai acompanhada de seu amigo de infância Sedric Meldar — o amante secreto do marido de Alise, Hest Finbok. Dragon Haven discute o quanto o secretismo em torno da homossexualidade leva a comportamentos esquivos: Sedric deseja comercializar partes de dragão, de alto valor de junto aos salcedeanos, uma das nações mais canalhas do mundo secundário criado por Hobb. Seu objetivo é enriquecer o bastante para viver com Hest sem precisar esconder o relacionamento. O livro também enfoca o sexo e os custos da gravidez adolescente, considerando que, por viverem no Rio Rain Wilds, os tratadores sofrem de deformidades que limitam sua chances de reprodução. Nem sempre eles entendem isso, e Thymara, em particular, é pressionada a escolher um parceiro para evitar atritos entre os rapazes. De personalidade forte, ela resiste. Os percalços do enredo incluem uma cabeça d’água que causa baixas na expedição; as ideias utópicas do tratador Greft, de criar sua própria sociedade livre em Kelsingra, fazendo uma guinada na direção de O Senhor das Moscas, de William Golding; o conflito entre os expedicionários, fomentado por traficantes de partes de dragões, infiltrados entre eles; e a maturação violenta dos próprios dragões, que começam a transformar fisicamente seus tratadores, como fizeram no passado na civilização desaparecida dos elderlings. Hobb é mestre em encontrar o timing preciso entre os diversos pontos do enredo, e quando o seu discurso sobre sexo e gravidez adolescente parece estar enchendo a paciência, ela põe em cena os mais terríveis argumentos. Sua sensibilidade a faz também relativizar o papel desagregador de Greft, e o retrato da homossexualidade que vinha construindo — achando um namorado honesto e dedicado para Sedric. Os elementos do gênero romance, combinados com a fantasia, estão mais claros no relacionamento apimentado de Alise com Leftrin, capitão da barcaça que acompanha a expedição. Um homem rude, mas que a aprecia mais do que o arrogante Hest jamais o faria.

Os dragões são um interesse à parte, na sua arrogância e pomposidade, e na interação com os jovens tratadores. Ao contrário daqueles de Game of Thrones, eles falam e também se comunicam telepaticamente. A ilustração de capa de Steve Stone tem uma bonita tonalidade, mas qualquer fã de fantasia vai dizer que seus dragões são um completo engano.

 

Arte de capa de Carlos Chagas.

Céu Vermelho, de Júlio Emílio Braz. Rio de Janeiro: Editora Ao Livro Técnico, 1995, 56 páginas. Capa e ilustrações internas de Carlos Chagas. O ano de 1995 foi aquele em que as coleções Novos Mundos da Ficção Científica (Francisco Alves) e Ficção Científica GRD (Edições GRD) deixaram de circular. A publicação de FC no Brasil, que já era esporádica, minguou ainda mais — situação que só se reverteu oito ou dez anos depois. A área juvenil sempre foi mais rica, mas nela também a FC tinha uma presença incerta. O colega Júlio Emílio Braz, um dos poucos afro-brasileiros trabalhando no campo da FC, foi roteirista de quadrinhos e escritor de livros de western para a Editora Escala, sob pseudônimo e vendidos em banca de jornal. Quando se instalou no campo infantojuvenil, ganhou fama e foi publicado no exterior. Imagino o quanto este Céu Vermelho — que encontrei outro dia numa arrumação — não representa um momento de transição do Júlio Emílio. Tem muito de faroeste, com perseguição a ladrões de cavalos, circo de horrores, duelo em saloom e confronto final entre herói e vilão. A palavra “xerife” conseguiu se enfiar no texto, inclusive…

Mas é ficção científica. Do tipo ufológica com direito a OVNIs e “ufonautas tipo 1”: um alienígena sinistrado na Terra acaba se integrando à família do militar que o abriga. Isso, num canto do Sul do Brasil chamado Cerros Bravos, na segunda metade do século 19. Lembra aí “Um Moço Muito Branco” (1962), de Guimarães Rosa, passado em Minas Gerais em 1872, com um alien abandonado acidentalmente nos rincões do lugarejo Serro Frio… O E.T. de Céu Vermelho conquista as crianças do lugar, manipulando a matéria e curando um guri com poliomielite, mesmo enquanto o padre local (que tem um não explicado neto) quer organizar um grupo de linchamento contra ele. Mas é um bando de bandoleiros que o ameaça de fato, capturando-o para a dona de um mafuá de passagem pela região. Li outros livros juvenis de Júlio Emílio (que li quando meu filho estudava no Colégio Notre Dame aqui perto de casa, onde conhecemos o escritor numa feira de livros dentro da escola). Neles, nota-se que o autor não é fã de finais felizes. Este não é exceção. O conto de Rosa tem no “estilo roseano” a marca maior, a novela de Júlio Emílio, também ela com um léxico rico, talvez devedor de Erico Verissimo, é marcada pelos elementos de aventura que ele combinou.

A Editora Ao Livro Técnico é responsável pela publicação do primeiro livro de arte de FC lançado no Brasil, Naves Espaciais: 2000 a 2100. Sua edição de Céu Vermelho deixou a desejar na revisão, mas a capa e as cinco ilustrações internas (em preto e branco) de Carlos Chagas são um plus. Chagas está lá com Manuel Victor como um dos grandes da ilustração de livros para crianças no Brasil, e embora aqui ele não explore muito os elementos de FC, suas artes remetem à pintura brasileira dos tipos regionais (tipo José de Ferraz Almeida Junior), reforçando a mistura sugestiva que o escritor criou. Há pelo menos mais um livro de FC juvenil pela editora, Os Semeadores da Via Láctea, de Paulo Rangel. Também com arte de Chagas.

 

Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis, de José Luiz Passos. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014 [2007], 400 páginas. Brochura. Ainda envolvido com Machado de Assis, desta vez peguei um estudo a respeito dele, pelo professor universitário e romancista José Luiz Passos. Seu O Sonâmbulo Amador ganhou o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013. O foco deste estudo está em como Machado busca na psicologia dos seus protagonistas a exploração da moralidade e das máscaras que usamos para transitar dentro da sociedade. Passos afirma que o nível de penetração psicológica que Machado alcançou seria uma contribuição dele para o romance latino-americano (embora não forneça contra-exemplos).

Um dado interessante é o quanto Machado teria bebido de William Shakespeare. Isso parece óbvio para quem conhece seus contos e romances, mas Passos foi além e fez um levantamento das ocorrências de Shakespeare, menções e citações, na obra toda de Machado. Há uma listagem no final do livro, com ocorrências majoritárias de peças como Otelo e Hamlet. Muito menos das que tratam da história da Inglaterra, e menos ainda, não pude deixar de notar, daquelas com elementos fantásticos como A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão. A tradução de um romance de Vitor Hugo também pode ter influenciado Machado na adoção das suas estratégias literárias mais características, assim como a obra do russo Ivan Turgueniev. Passos revela que o interesse de Machado pelo realismo teria surgido da sua apreciação do teatro da época, já que foi crítico de teatro e já que o realismo chegou antes às artes brasileiras via teatro, e não pela prosa literária. Aí também tem-se uma pista do privilégio do adultério como tema na sua obra, já que foi um assunto muito visitado por esse teatro pioneiro. O livro tem um estilo acessível e apresenta capítulos relativamente curtos, escritos com leveza e uma certa autonomia. Assim, os argumentos de um reforçam os de outros, mas sem que haja uma lógica de tese universitária amarrando-os — o que é muito positivo. O foco está nos romances de Machado, embora o autor também mencione alguns contos e novelas. Cita muito Antonio Candido e Roberto Schwarz, como seria de se esperar, mas também alguns estrangeiros, e trata ainda da polêmica entre Machado e um dos seus primeiros críticos, Sílvio Romero. Em tudo, expressa a admiração pelo modo como Machado de Assis deu a seus personagens o caráter de pessoas.

“Será que ganhamos algo de fundamental quando consideramos os protagonistas de um romance pessoas, e não meras instanciações simbólicas de qualidades mais abstratas?” —José Luiz Passos. Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis.

 

Dicionário de Pequenas Solidões, de Ronaldo Cagiano. Rio de Janeiro: Língua Geral, Coleção Ponta-de-Lança, 2006, 136 páginas. Texto de orelha de Ignácio de Loyola Brandão. Brochura.  Conheci Ronaldo Cagiano por intermédio do escritor mineiro João Batista Melo, que, como contista, às vezes explora a ficção científica e a fantasia. Quando João Batista vem a São Paulo, costumamos nos reunir os três (às vezes quatro, quando a esposa de Cagiano, a escritora Eltania André, o acompanha) para um papo. Cagiano e eu temos algumas coisas em comum: somos fãs de João Batista; costumamos reclamar muito da situação do mercado editorial; somos os dois oriundos de cidades pequenas, ele de Cataguases-MG, e eu de Sumaré-SP — duas cidades que contribuíram incidentalmente para a ficção científica. Mas ele escreve ficção literária e eu, ficção de gênero.

Alguns dos 14 contos do livro se passam em Cataguases, outros em Brasília, por onde Cagiano também passou. Um deles, “Encontros”, narra a passagem de Franz Kafka (1883-1924) por Cataguases nos idos de 1910, instigado pelo cineasta pioneiro Humberto Mauro (1897-1983) e acompanhado de Max Brod. Por isso talvez possamos classificar o conto como história alternativa… Outros contos falam das angústias da vida brasileira, focados em personalidades constrangidas por experiências de infância ou juventude, como a menina violentada em “O Abuso”, a prostituta assassinada em “Solidão”, o jovem frívolo que herda responsabilidades inesperadas com a morte do irmão em “Juízo Final”, a solidão de uma imigrante georgiana entre seus cachorros em “Pavlov”… Uma coisa que me agrada em Cagiano é o fato de ele se esquivar da prosa minimalista que veio a dominar a literatura brasileira com a Geração 90. Seu estilo é mais rico e remissivo dos momentos da literatura e da cultura brasileira que compõem sua formação como escritor, imagino que aqueles estabelecidos especialmente na década de 1970, bastante críticos da urbanização e desumanização da sociedade brasileira. Esse tipo de enfoque e a prosa literária que advém dele tendem ao mergulho psicológico e a um tom introspectivo, reflexivo, que para ser bem marcado costuma limitar a voz dos personagens ou embuti-la num discurso indireto livre. Dos 14 contos, nenhum deles apresenta situações de diálogos — o que não deixa de ser um tipo de redução… A edição da Língua Geral é muito bonita, com uma capa mais rígida do que o costumeiro, uma cinta emborrachada que a abraça (não aparece no scan acima) e apenas uma orelha, assinada por ninguém menos que Ignácio de Loyola Brandão.

“Quando você abre o livro e começa pelos contos da mulher violentada e a visita de Kafka percebe que está diante de um escritor que sabe o que fazer, sabe para onde vai, como se vai, as conduções que deve tomar … Cagiano é um autor que te prende na primeira página.” —Ignácio de Loyola Brandão.

 

Half Life, de Hal Clement. Nova York: Tor Books, 2000 [1999]. Paperback. Hal Clement (Harry Clement Stubs; 1922-2003) escreveu o clássico da ficção científica Mission of Gravity (1953), importante para a retomada da FC hard americana na década de 1970, com Larry Niven et alii. Ainda na primeira metade da década de 1990, a Editora Aleph contratou esse romance, produziu uma tradução e encomendou uma linda capa feita por Vagner Vargas. Mas o livro acabou não saindo. Assim como Mission of Gravity, este Half Life foi primeiro publicado em partes em uma revista, a Absolute Magnitude, mas como histórias interligadas — um fix-up, portanto.

A aventura se passa em um futuro em que a humanidade e a vida na Terra parecem ter seus dias contados. Uma profusão de doenças degenerativas jogou a expectativa de vida para metade da atual. As ciências exatas foram arregimentadas e militarizadas para concentrar o esforço de salvação da humanidade. Uma nave com uma tripulação de doentes terminais é enviada a Titã, a lua de Saturno. Vai em busca de traços de substâncias ou compostos pré-bióticos (constituintes químicos da vida biológica) que possam lançar luz sobre a formação da vida e, indiretamente, sobre a atual ameaça à vida na Terra. Uma FC hard baseada em microbiologia ou bioquímica, portanto (Clement foi professor da área). Há muita ironia tanto na premissa quanto no modo como o romance é narrado. O narrador onisciente salta de personagem em personagem e levantando os pontos científicos, mesmo que muito se desenvolva por meio de diálogos entre os tripulantes que, de tão doentes, não se comunicam fisicamente. Mais ainda em como as mortes dos homens e mulheres bombardeados da tripulação pontuam os passos e as descobertas da expedição, envolvendo uma substância de aparência betuminosa que corrói superfícies metálicas e trajes espaciais. Daí surge, aliás, um estranho senso de estoicismo que é uma das marcas da narrativa. As mortes e a investigação científica mantêm o suspense até o finzinho. O desfecho, ironicamente nada retumbante, sugere a descoberta de uma pista promissora em torno de enzimas perturbadas pelos metais pesados acumulados na biologia humana e animal. A verve de Clement torna Titã um mundo fascinante, e o destino que ele dá aos adoentados tripulantes é uma saudação à persistência da vontade humana. A arte de capa anônima tem Titã, os anéis de Saturno e um “código de barras genético” (atrás do título), mas não comunica muita coisa e parece indistinta e improvisada.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Chris Bachalos & Tim Towsend.

Star Wars Infinitos: O Império Contra-Ataca (Star Wars Infinities: The Empire Strikes Back), de Dave Land (texto) e Davidé Fabbri (desenho). Barueri-SP: Panini Comics, 2017, 108 páginas. Capa de Chris Bachalos & Tim Towsend. Brochura. Em abril, li o primeiro desta série Infinitos, de narrativas alternativas de Star Wars. O Império Contra-Ataca é o meu favorito dentro da franquia no cinema, e fiquei curioso com este livro de quadrinhos. Infelizmente, tanto o roteiro de Dave Land quanto a arte de Davidé Fabbri são inferiores àquelas de Star Wars Infinitos: Uma Nova Esperança, embora com uns pontos interessantes. Começa que a arte de Fabbri e a colorização de Dan Jackson puxam muito para o infantil.

A história abre com Luke Skywalker sendo morto por dois monstros da neve (e não apenas um, como no filme) no planeta Hoth. Mesmo com o pupilo mortalmente ferido, Ben Kenobi aparece e faz um apelo idiota para que ele vá ao planeta Dagobah instruir-se com Yoda. Depois da escaramuça abreviada com destroiers do Império, Han Solo vai parar em Bespin, onde, na cidade das nuvens e já reunido ao amigo Lando Calrissian, troca sopapos com o caça-prêmio Boba Fett. Quando Han finalmente chega a Dagobah, acompanhado da Princesa Leia, descobre que ela é o Skywalker que pode recolocar a força em equilíbrio. É bom ver Leia valorizada e Yoda outra vez no centro das ações (em O Retorno do Jedi ele morre de velho!), mas faltou desenvolvimento. Esta versão tem como ápice uma longa sequência em Dagobah, muito interessante por ter Yoda usando um recurso da força que eu nunca tinha visto antes: uma memory trip que faz Darth Vader rever seus crimes, desde os tempos de padawan. Tendo acesso aos seis filmes canônicos, Land também convoca para essa sequência Kenobi, Mace Windu e Qui-Gon Jinn, que esfregam sal nas feridas morais de Anakin Skywalker. Ao contrário de Star Wars Infinitos: Uma Nova Esperança, esta versão alternativa de O Império Contra-Ataca deixa o imperador fora da ação — e derradeiramente não faz jus ao ótimo filme de Irvin Kershner. (Que, aliás, não precisa de versões alternativas.) Estranhamente, a Panini deixou de dar crédito aos artistas das outras três capas da edição em partes, que aparecem no miolo do livro.

 

Star Wars: Império Despedaçado (Star Wars: Shattered Empire), de Greg Rucka (texto) e Marco Checchetto, Angel Unzueta e Emilio Laiso (arte). Barueri-SP: Panini Comics, 2016, 108 páginas. Capa de Phil Noto. Capa dura. Este livro surgiu ano passado com o selo Jornada para Star Wars: O Despertar da Força; ou seja, vem pavimentar o terreno entre o episódio VI, O Retorno de Jedi, e o VII. Devo dizer antes de mais nada que a arte do italiano Marco Checchetto chama muito a atenção. Ele também está na revista Star Wars nas bancas, edições 016, 017, 018 e 019, com uma aventura de Obi-Wan Kenobi & Anakin Skywalker num mundo meio steampunk. Pena que Checchetto não pôde desenhar o livro inteiro, mesmo porque a oscilação da arte incomoda.

A história começa na Batalha de Endor, quando Luke Skywalker foge da Estrela da Morte II com o seu moribundo pai. Um caça asa-A dos rebeldes intercepta o shuttle Tyridium que Luke pilota, e o poupa quando ele se identifica, passando a escoltá-lo até a lua de Endor. Quem pilota o caça é uma jovem morena chamada Shara Bey. O leitor passa a segui-la numa sucessão de episódios em que ela acompanha Han Solo, Leia Organa e Luke Skywalker em missões do tipo limpeza ou mop-up, enquanto o Império balança com a notícia do fim de Palpatine. A sequência inicial é bem feita, e não apenas as naves são perfeitamente reproduzidas, como traz as marcas da estrutura narrativa vista os filmes, com muitas comunicações em off e naves se cruzando no espaço. Checchetto também é um bom fisionomista, captando bem as caras dos heróis principais, mesmo enquanto mantém seu estilo. Shara, em especial, é encantadora por ter um rosto jovem de expressão ao mesmo tempo alerta e melancólica. Durante a comemoração triunfal em Endor, ela dá uma escapada com o marido, parte de uma tropa de operações especiais de infantaria. Quando Han chama essa grupo de combate, ela vai junto como piloto. Ao saber que o nome do marido é Kes Dameron, fica evidente que ela é mãe de Poe Dameron. A principal linha trata de como Shara, Leia e uma terceira garota salvam um mundo importante para o passado tanto de Leia quanto de Anakin Skywalker, de uma nova arma destruidora de planetas — via manipulação meteorológica. Esse segmento é ilustrado por outro artista, o espanhol Ángel Unzueta, que carece do charme de Checchetto. Numa espécie de epílogo, Shara reencontra Luke, pilotando para ele numa missão para recuperar duas mudas de uma árvore que antes existira dentro do templo jedi em Corusant (deve constar de algum romance ou HQ do universo expandido, imagino). Muitas aventuras, para uma moça que queria mais que tudo liquidar sua fatura com a Aliança Rebelde e se recolher em um planeta pacífico, com o marido e o filho.

A narrativa de Greg Rucka me pareceu mais complexa do que costumamos ver nessas HQs de Star Wars, mais episódica também. Mas a alternância de artistas acaba prejudicando o fluir do roteiro. A galeria de capas alternativas das revistas que forneceram o material para o livro inclui uma arte do brasileiro Mike Deodato. Essa que aparece na capa da versão em livro, tipo foto de família e  sem muito brilho, é de Phil Noto e não casa bem com o título.

 

Outras Leituras

O ícone do tumbler Brude’s World

Brude’s World, um tumblr de ilustrações. Eu visito muitos tumblrs de ilustração e imagem, em geral meio que sem sistema e normalmente abrindo direto o arquivo e escolhendo de lá as imagens que quero baixar. Mas recentemente encontrei este Brude’s World que me impressionou com uma curadoria sólida que bate bem com o meu gosto: lida com ficção científica, fantasia e horror na literatura, cinema e quadrinhos e a presenta uma boa continuidade entre esse gêneros e campos. Também entre o ontem e o hoje, recuando até imagens da antiguidade clássica e da ilustração e pintura do século 19 (incluindo os pintores pré-rafaelitas), com alguma coisa de erótico aqui e ali. Acho que tem uma das melhores curadorias dos tumblrs que estão por aí. Quem quer que seja o dono ou donos do tumblr, ele(s) conhece(m) a história desses gêneros e sabe(m) quem são os grandes nomes e o que é um desenho e uma arte-final de qualidade. Tem material lá de Frank Frazetta, Virgil Finlay, Frank R. Paul, Ed Emshwiller, Chesley Bonestell, Jack Kirby, Edward Burne-Jones, J. Allen St. John, N. C. Wyeth, Gustave Doré, Barry Windsor-Smith, Bernie Wrightson, Boris Vallejo, Jeffrey Catherine Jones, Drew Struzan, Moebius e Arthur Rackham. De vez em quando aparece algum brasileiro como Henrique Alvim Corrêa, Benício ou Mike Deodato. As postagens são frequentes e incluem ocasionalmente gifs e vídeos, e muitos daqueles posters alternativos — um tipo de arte de fã ou cartão de visitas de artistas ou estúdios, que virou moda nos tumblrs. Seu slogan é: “Poder, paixão, pin-ups e posters. Quadrinhos, belezuras, criaturas e calafrios.”

 

O banner com o logotipo do site Pulp International

Pulp International. Este é um site baseado em San Jose City, nas Filipinas, e quando diz que é internacional, é internacional mesmo. Traz muito material americano, mas também inglês, alemão, francês, australiano, japonês, mexicano, espanhol, indiano e até brasileiro — como esta postagem sobre a série ZZ7 de ficção de espionagem protagonizada por Brigitte Montfort e ilustrada pelo rei das pin-ups brasileiras, Benício. A definição de pulp que o site adota também é muito ampla, compreendendo a literatura e a indústria editorial centrada nela, e revistas pulp de todo tipo, não apenas de ficção mas de crime da vida real, pornografia (soft, na maior parte), cobertura de Hollywood, e os filmes, séries de TV e quadrinhos derivados. As postagens se agrupam em dez por páginas, o motor de busca funciona bem e os comentários muitas vezes são extensos e interessantes. A maior parte do conteúdo é vintage, mas às vezes aparece alguma postagem sobre algo moderno ou contemporâneo. Em agosto, estive lá baixando uma quantidade de capas de paperbacks de ficção de crime hardboiled com ilustrações de automóveis (vá entender…). Fiquem avisados: nesse site às vezes a gente tropeça em alguma coisa realmente de mau gosto. Mas pulp também é isso, não é verdade?

Roberto Causo

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