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Leituras de Novembro de 2018

Em novembro de 2019 aconteceu o IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional, nas dependências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Fui convidado pelo organizador Flavio García para apresentar uma conferência, e na preparação dessa conferência pouco tempo sobrou para as leituras habituais. Mesmo assim, o mês trouxe alguma leitura de ficção científica e, especialmente, da pioneira antologia das melhores histórias brasileiras de horror, organizada por Marcello Branco & Cesar Silva.

 

Home from the Shore, de Gordon R. Dickson. Nova York: Ace Books, 1.ª edição, 1979 [1978], 122 páginas. Ilustrações de James R. Odbert. Posfácio de Sandra Miesel. Paperback. Assim como na série Dorsai, em Home from the Shore o escritor canadense-americano Gordon R. Dickson (1923-2011) apresenta uma espécie de proto-divisão da humanidade entre conservadores e progressistas — estes determinados a encararem o futuro no espaço e em outros planetas. Neste romance curto, após duas gerações apenas, humanos que colonizaram os mares do nosso mundo começam a se diferenciar daqueles que ficaram em terra. Jovens são selecionados para se tornarem cadetes espaciais, mas a empreitada se transforma em um revés para toda a comunidade dos humanos do mar. Isso acontece depois que eles realizam um protesto, involuntariamente coletivo, contra a “caça para propósitos científicos” de uma espécie alienígena volante que vaga pelo Sistema Solar. De algum modo, o ambiente aquático desses jovens nutre uma sensibilidade incompreensível para os outros, e que permitiu uma empatia com tais seres, percebendo-os como sencientes. Vindos de uma sociedade libertária, quando passam a ser perseguidos pelas autoridades a deserção é a solução imediata.

O líder desse grupo é o jovem Johnny Joya, que, quando volta para a sua comunidade subaquática, descobre ser pai de um menino esperto e um tanto ressentido. Nesse ponto, a história muda substancialmente de tom, que se torna mais introspectivo e literário. A comunidade tem a habilidade de se desfazer em habitats autônomos chamados Lares, e por algum tempo é como um jogo de gato e rato, até que a trama se dirija a uma operação de resgate aos prisioneiros, enfiados numa instalação de Nova York. A missão é sabotada por um traidor muito próximo de Johnny, que, depois de perder a esposa, desiste do conflito e parte com o filho pequeno, Timo, para viver, sem os Lares high-tech, diretamente do mar como as gerações anteriores. Ele sugere o mesmo aos outros, em uma dispersão que vai dificultar que os humanos da terra continuem a persegui-los. No posfácio, Sandra Miesel, uma estudiosa da obra de Dickson, explica que Home from the Shore é parte de uma sequência completada com The Space Swimmers, protagonizada por Timo. Segundo ela, Dickson apresenta uma dicotomia entre inconsciente/conservadorismo e consciente/progressismo. Para além desse aspecto filosófico, o livro é uma aventura movimentada e colorida no espaço e no oceano, envolvendo golfinhos e orcas, e um ode à juventude e à simplicidade na vida.

Home from the Shore foi concebido como um livro ilustrado com elegantes desenhos em autocontraste de James R. Odbert, bem fundidos com o texto. Eles formam uma fusão equilibrada do conhecido e do futurista, e de linhas retas e formas ovoides e onduladas. Muitas vezes, Dickson soava bastante hiperbólico com respeito ao próprio trabalho e projetos, e neste caso ele afirma que a cooperação de texto e arte aqui seria única, não só no campo da FC quanto no âmbito editorial. Provavelmente, não é tanto assim, mas ele tem uma observação no prefácio que vale ser reproduzida:

“A ilustração sempre foi considerada como uma parte dos livros, até o começo deste século, quando ela começou a ser expulsa da maior parte da ficção por razões de custo editorial. A única exceção a essa tendência estava na ficção escrita para os jovens; e mesmo nesse tipo de material de litura elas foram severamente limitadas. Uma concepção errônea do editor cresceu para uma aceitação generalizada de que eram as palavras, e apenas as palavras, que os leitores adultos queriam, e não imagens.

“Como ocorre frequentemente no campo literário, essa concepção errônea foi gerada e aceita sem qualquer referendo real daqueles mais interessados — os próprios leitores. O resultado é que ela existia até bem perto do momento histórico presente, com uma exceção. A exceção era a ficção científica, a única área da literatura em que se tinha a oportunidade de responder diretamente aos autores tanto em pessoa quando por carta; e na qual, apropriadamente, eles expressavam sua preferência não apenas por ilustrações nos livros que leem, como por boas ilustrações — ilustrações não expressas apenas nas cores tipo poster da moda do momento e nos padrões frívolos da publicidade, sem qualquer preocupação real com a história na qual é aplicada. A ilustração que os leitores demonstravam desejar era aquela que verdadeiramente espelhava a história ilustrada; e que tentasse trazer para um foco agudo e artístico as imagens gerais dos personagens e cenas formadas na mente conforme a história fosse lida.” —Gordon R. Dickson.

Oneironautas, de Fábio Fernandes & Nelson de Oliveira. São Paulo: Editora Patuá, 2018, 90 páginas. Texto de orelha de Santiago Santos. Livro de bolso. Este livro é uma incomum colaboração entre dois nomes de peso dentro da ficção científica brasuca moderna — Fábio Fernandes, acadêmico e ficcionista da Segunda Onda da FC Brasileira, e parte do Grupo da Renovação que fez a ponte com a Terceira; e Nelson de Oliveira, autor consagrado no mainstream literário que, como o heterônimo “Luiz Bras”, é um dos autores mais interessantes da Terceira Onda e uma das suas melhores lideranças e cabeças pensantes. Uma nota no fim do livro observa que ele deveria ter saído em 2016, quando os dois escritores completariam 50 anos de idade. As eventualidades da escrita e da edição determinaram que sairia apenas em 2018. Eu o li enquanto aguardava meu voo para o Rio de Janeiro, onde ia participar, por obra e graça do Prof. Flavio García e da CAPES, do IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional.

A história enfoca uma dupla de viajantes do tempo que participam de uma festa eterna na qual encontram não apenas alienígenas mas também várias versões deles mesmos. No capítulo 3, porém, surge uma ex de Fábio, uma mulher negra que tentou matá-los em um outro contínuo do espaço-tempo. Além disso, os outros foliões estão atrás deles por terem espalhado um vírus de insônia entre os “oneironautas” — sendo que os saltos entre os mundos paralelos se dá por meio de sonhos. A narrativa, cheia de referências culturais pop e surrealistas, se desenvolve em capítulos curtos, com diálogos exaltados e sempre apresentando um gancho no final. Cada capítulo é narrado em primeira pessoa, mas sob o ponto de vista alternado de um Nelson ou um Fábio (e vice-versa). Difícil saber, mas me parece que a narrativa foi construída como uma espécie de round-robin, sem planejamento, com um escritor pegando de onde o outro parou. Oneironautas é divertidíssimo, especialmente para quem conhece a dupla e consegue visualizar os dois trilhando o seu caminho entre as dimensões da Festa Eterna.

 

Arte de capa de Flávio Correia Lima.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror, de Marcello Simão Branco & Cesar Silva, eds. São Paulo: Devir Livraria, 2018, 272 páginas. Arte de capa de Flávio Correia Lima. Brochura. Há décadas que Cesar Silva e Marcello Simão Branco vêm contribuindo, individualmente ou em dupla, para o avanço da ficção científica e fantasia no Brasil. Os criadores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica (encerrado em 2014) retornaram em 2018 com um trabalho fabuloso, esta antologia que se associa a outras que têm surgido em tempos recentes valorizando a ficção de horror e, em particular, o horror no Brasil. Entre elas estão a internacional Contos Clássicos de Terror, de Julio Jeha, ed. (Cia das Letras; 2018); e a anterior Páginas Perversas: Narrativas Brasileiras Esquecidas (Appris Editora; 2017), de Maria Cristina Batalha, Júlio França & Daniel Augusto P. Silva, eds.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror é um dos projetos deixados por Douglas Quinta Reis, no inventário de projetos que ele conduzia na Devir Brasil. É maravilhoso que tenha sido completado. A seleção de histórias começa lá no século 19 e vem até o início do nosso século 21. Inclui “A Vida Eterna” (1870, de Machado de Assis; “Acauã” (1892), de Inglês de Sousa; e o mais antologizado “Demônios” (1893), de Aluísio Azevedo. O destaque do período para mim, porém, é “Assombramento (História do Sertão)” (1898), de Afonso Arinos, conto mais longo e com fortes marcas regionalistas, que pinta um quadro bastante expressivo da casa mal-assombrada — uma casa-grande de fazenda, no caso, e que o corajoso vaqueiro Manuel decide enfrentar sozinho, passando a noite lá dentro. No que pode ou não ser um episódio sobrenatural, ele sai machucado mas de coragem intacta, em uma narrativa de força incomum — que encontra um estranho paralelo na bela ilustração de capa de Flávio Correia Lima.

A atmosfera tétrica, carregada de impressões de medo e de perturbações mentais, é a tônica das narrativas selecionadas do começo do século 20 — “O Defunto” (1907), de Thomaz Lopes; “A Peste” (1910), de João do Rio; e “Rag” (1922), de M. Deabreu —, até encontrarem o equilíbrio perfeito em uma obra-prima de Gastão Cruls, autor do clássico da FC de mundo perdido A Amazônia Misteriosa (1925): “O Espelho” (1938), em que a influência de Edgar Allan Poe se faz sentir da melhor maneira, numa história de obsessão sexual. Daí em diante, já na segunda metade do século 20, as histórias ganham variedade de enfoque, tom e tema, a partir de “Tuj” (1968), tentativa de uma espécie de impressionismo New Wave do autor da Primeira Onda da FC Brasileira Walter Martins, também publicada na França (na revista Antarès). Muito vista no campo da literatura infanto-juvenil, Márcia Kupstas está no livro com uma releitura de terror e erotismo da história de Pinocchio, com o conto “Geppeto” (1987). A década de 1990 é representada por “Bença, Mãe” (1992), de Júlio Emílio Braz; “Solo Sagrado” (1995), uma história de fanatismo religioso de Carlos Orsi; o meu “Trem de Consequências” (1995), uma história de trato com o diabo; até alcançar seu ápice na fusão da imaginação gótica e da exploração da herança histórica de violência brasileira, na novela de Tabajara Ruas, “O Fascínio” (1997). “Os Internos” (2007), de Gustavo Faraon, representa o século 21, mas é o conto de horror folclórico “Bradador” (2014), de Braulio Tavares, que fecha esta histórica antologia com chave de ouro. Um livro necessário, e uma realização importante de Branco & Silva, que aqui fornecem uma moldura para a produção de ficção de horror no Brasil, frisada pelo seu ensaio panorâmico e aprofundado, “Trajetória e Caracterização de uma Ficção de Horror Brasileira”, que serve de introdução ao livro.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Thomas Campi.

A História de Joe Shuster: O Artista por Trás do Superman (The Joe Shuster Story), de Julian Voloj (texto) & Thomas Campi (arte). São Paulo: Editora Aleph, 2018, 192 páginas. Capa de Thomas Campi. Tradução de Marcia Men. Há alguns anos, resenhei o livro Homens do Amanhã: Geeks, Gângsteres e o Nascimento dos Gibis (Men of Tomorrow; 2004), de Gerard Jones, para o Terra Magazine. Foi uma leitura fascinante, centrada na presença de artistas e empresários judeus na indústria dos quadrinhos, com muita interface com a ficção pulp de FC, detetive e aventura — e com a história da criação do super-homem pela dupla Jerry Siegel & Joe Shuster como principal estudo de caso. Afinal, a criação do homem de aço resultou no subgênero dos super-heróis nos quadrinhos. Depois de ler o livro de Jones, fica fácil de entender um romance como As Incríveis Aventuras de Cavalier & Clay (2000), de Michael Chabon, que explora a trajetória dos judeus-americanos no campo dos quadrinhos. Eu ainda adquiri, anos mais tarde em uma liquidação na loja Terramédia (hoje, Ominiverse), Man of Two Worlds: My Life in Science Fiction and Comics, de Julius Schwartz com Brian M. Thomsen, autobiografia de um agente literário e roteirista de quadrinhos que também atuou com Super-Homem.

Este romance gráfico de Voloj & Campi é uma biografia panorâmica, contada a partir de um artifício interessante: idoso e empobrecido, Shuster é retirado de um banco de praça por um policial na década de 1970. O tira paga a ele uma sopa num diner, e ali, depois de se apresentar como um dos criadores do Super-Homem, ele narra a própria história. Nesse ponto, o estilo da arte muda de traço e cor para mancha e cor, até o momento em que a narrativa se reencontra com o personagem novamente na década de 1970. Os avós de Shuster eram judeus russos que saíram do país fugindo dos pogroms, indo primeiro para a Holanda. Seus pais se conheceram em um hotel de Roterdã e migraram para o Canadá, e então para Cleveland, nos EUA, onde seu pai foi trabalhar como alfaiate. O primeiro contato do pequeno Joe com os quadrinhos foi com as tiras e páginas dominicais das HQs “sindicalizadas” (distribuídos a diversos periódicos país afora) que seu pai lia para ele. Campi brinda o leitor com um lindo painel em que Joe folheia os jornais que continham histórias dos Sobrinhos do Capitão e de Little Nemo in Slumberland, sua tira favorita. Joe conhece Jerry Siegel no high-school e o interesse dos dois pela ficção científica das pulp magazines e pelos quadrinhos fortalece a amizade. A obra de Voloj & Campi mostra os dois editando fanzines e colaborando com jornais locais, e criando personagens juntos, seguindo o modelo da aventura — o campo literário mais forte nas pulps. No processo, a narrativa passa pela morte do pai de Siegel, um comerciante, de ataque cardíaco ao sofrer um assalto a mão armada. E também pelo instante em que Siegel antecipa o surgimento das revistas em quadrinhos ao produzir o projeto do que chamou de “revista pulp em quadrinhos” (na época, as HQs apareciam como anexos em revistas pulp normais), mas que não conseguiu realizar antes do lançamento de Detective Dan, a primeira revista em quadrinhos. A dupla muda seu foco para oferecer material à editora dessa publicação, controlada pelo escritor pulp Major Malcolm Wheeler-Nicholson. O Super-Homem, enquanto isso, já vinha sendo gestado na cabeça de Siegel — primeiro como um vilão de FC pulp no fanzine dos dois, Ficção Científica: A Vanguarda da Civilização Futura (pelo qual Siegel levou um puxão de orelha da sua professora de inglês). Siegel chegou a pensar que o Super-Homem viria do futuro, mas achou que um alienígena chamaria mais a atenção. O personagem só sairia na revista Action Comics em 1938, depois que o Major já havia passado adiante a sua editora, fazendo a dupla de criadores cair nas mãos de empresários de caráter duvidoso como o ex-pornógrafo Harry Donenfeld e Julius Liebowitz. Os pilantras compraram não apenas os direitos de reprodução do personagem, mas o próprio personagem, por US$ 412,00. Por mais que fosse uma graninha em 1938, toda vez que a dupla via um programa de rádio, um seriado ou um anúncio empregando o herói, ele percebiam que tinham sido engabelados. A luta por uma compensação justa pelo personagem ocupa grande parte do romance gráfico, tudo narrado com grande habilidade e brilho artístico que tornam este livro uma joia para o fã de quadrinhos e também desse momento pujante do capitalismo literário da era pulp americana. Há detalhes interessantes como o interesse romântico de Joe pela modelo Jolan/Joanne que posou para ele mas que acabou se casando com o amigo; o fato de ninguém menos que Stan Lee ter escrito contos de Super-Homem para que as revistas tivessem um benefício dos correios americanos; a vergonha que Joe sentia por ter desenhado fetiche e bondage para revistinhas do submundo da pornografia, nos tempos das vacas magras; e a possível morte violenta de Donenfeld (que tinha conexões com a máfia).

Quando digo que esta é uma biografia panorâmica, em parte é por detalhes que falam também da época e de como os quadrinhos sofreram com campanhas moralizadoras, com a caça às bruxas do macartismo e também da situação dos judeus na sociedade americana. Esta é a história de dois nerds que abriram um campo que hoje é bilionário — o dos super-heróis — e que criaram um dos personagens mais icônicos da cultura popular. Meu fascínio pelo contínuo pulp da FC e dos quadrinhos é igualado e recompensado por Voloj & Campi quando eles incluem notas ilustradas no final do livro, uma leitura tão deliciosa quanto a HQ propriamente dita. Apesar da tradutora ter sido presa de falsos cognatos aqui e ali, e da narrativa não ter mencionado algumas fontes conhecidas na inspiração para o herói, recomendo o livro com grande ênfase e alegria. Muito grato à Aleph, que tem abordado muitos produtos cult como Watchmen e a FC clássica, e que acertou na mosca com A História de Joe Shuster.

—Roberto Causo

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Shazam, Diacho!

Mais uma vez, a aventura da DC Comics no cinema acerta ao investir em um filme despretensioso e divertido, com algo a dizer sobre a infância: Shazam para todos nós!

Shazam! Diretor: David F. Sandberg. Escritor: Henry Gayden. Personagem criado por Bill Parker e C. C. Beck. Estados Unidos, 2019, 132 minutos. Warner Bros. Com Zachary Levi, Djimon Hounsou, Mark Strong, Asher Angel, Jack Dylan Grazer, Grace Fulton, Marta Milans, Cooper Andrews.

 

Eu tive a minha fase de fã do Capitão Marvel, ainda criança. Que ele era uma espécie de rival do Super-Homem era algo bastante claro nos seus poderes. Mais tarde eu soube que o personagem criado por Bill Parker & C. C. Beck vendia mais do que o Homem de Aço, e bateu o super-herói criado por Jerry Siegel & Joe Shuster como seriado nas telas das matinés: chegou às telas em 1941, enquanto o Super-Homem só estreou em 1948. Tamanho sucesso levou a DC a processar a Fawcett Comics, que publicava o Capitão Marvel, por plágio em 1953, alegando que o herói de malha vermelha era cópia da criação de Siegel & Shuster. Em 1972, a própria DC adquiriu os direitos do personagem que ela havia calado, trazendo-o de volta aos gibis.

Uma das suas histórias mais bacanas do herói, que ficou comigo ao longo dos anos, tratava de um menino tão pouco especial que era praticamente invisível. O próprio Capitão Marvel tinha dificuldade para trazê-lo para o seu foco da atenção. Um traço desse argumento entrou no filme de David F. Sandberg, na queixa do personagem Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), um órfão de muleta que em um momento se afirma invisível. Uma das qualidades mais interessantes das histórias do herói era ter algo a dizer sobre a infância e sobre questões sociais.

O filme abre ousadamente contando a origem do supervilão Dr. Silvana (Sivana, no original). Ele foi convocado pelo guardião dos Sete Pecados Capitais, em busca de uma criança de coração puro que pudesse se transformar no seu campeão e impedir que os demônios grassem soltos na Terra. Silvana (o ator-mirim Ethan Pugiotto) é rejeitado pela entidade, e, sem entender nem aceitar, acaba sofrendo um acidente de carro com a família. Tanto as páginas dos quadrinhos quanto na vida real, frustração, ressentimento e culpa são a receita infalível para a formação de um sociopata sedento de poder — dão testemunho as biografias de Adolf Hitler e de dezenas de outros tiranos ao longo da história.

Billy Batson (Asher Angel), a identidade secreta do Capitão Marvel, entra em cena logo a seguir. O tom sombrio da abertura cede ao humorístico, quando testemunhamos a molecagem do garoto órfão que usa sem autorização a rede de informação policial para encontrar o endereço de uma mulher que ele acredita ser sua mãe. Mas ela é apenas um homônimo, e aos poucos o espectador fica sabendo que encontrar a mãe é a obsessão de Billy, desde que ele se separou dela num parque de diversões, quando tinha uns 5 anos ou menos.

Por ora ele é colocado pela assistência social aos cuidados de uma foster family (pais adotivos temporários) composta do zeloso casal Rosa (Marta Milans) e Victor Vasquez (Cooper Andrews) e mais meia dúzia de outros órfãos de várias etnias. Entre eles está Freddy, nerd de plantão e especialista em super-heróis. Embora todos recebam Billy muito bem, o rapaz de 14 anos só tem uma coisa em mente: fugir assim que tiver pista de uma nova candidata à sua mãe. No ínterim, porém, o guardião o convoca e encontra nele a sua opção, contra as evidências, para se tornar o Capitão Marvel — materializado na figura de 1,93 m do ator Zachary Levi em um traje com leves enchimentos.

Billy tem um longo caminho a percorrer, “auxiliado” pelo deslumbrado Freddy, até se tornar um super-herói de fato. A sequência é de pura comédia: o arsenal de superpoderes é testado com combustíveis, pancadas e tombos, tudo gravado e jogado nas redes sociais — uma atualização interessante e divertida. Voar parece ser um problema. O caráter do “herói” também, já que ele usa suas habilidades basicamente para cobrar por selfies com os fãs e para entrar em lugares proibidos para menores, incluindo uma casa de go-go-girls.

Se a memória não falha, um dos aspectos mais interessantes das HQs do Capitão Marvel estava no fato de Billy Batson ser mesmo uma criança, enquanto a sua versão super-herói ser adulta e compenetrada. O contra-intuitivo aí era intrigante e talvez sugerisse que ser “infantil” e “adulto” pode ser algo performativo, ou que um traz o potencial intrínseco do outro, se as condições forem certas, ou mágicas. No filme, provavelmente inspirado pelo mesmo recurso empregado no relançamento do Universo DC com os Novos 52, o super-herói conserva a personalidade de sua versão adolescente. O ator Jack Dylan Grazer notou, porém, que o binômio herói e identidade secreta conserva uma dissociação no fato de que, aparentemente mais liberado pelos superpoderes, a versão mágica é mais moleque ainda do que o muitas vezes sorumbático Billy. Entre pré-adolescente e adolescente de fato, talvez… Desse modo, o diretor tirou o melhor tanto do lado charmoso e vulnerável de Asher Angel, quanto do tino cômico de Levi.

A trajetória tropeçante do herói nos quadrinhos inclui a DC ser forçada a abandonar o nome e a marca “Capitão Marvel” por causa da Capitã Marvel da Marvel Comics — coincidentemente com a sua estreia no cinema sendo lançada mundialmente poucas semanas antes de Shazam! Esse, inclusive, é o nome pelo qual o herói passou a aparecer, Shazam. O roteirista Henry Gayden e o diretor Sandberg brincaram bastante com essa circunstância, nos momentos em que Billy e Freddy tentam imaginar nomes para o super-herói invulnerável e que lança raios das mãos. Capitão Thunder (o primeiro nome que o personagem teve, temporariamente, até que os criadores Parker & Beck descobrissem que alguém já havia registrado o nome) e principalmente Capitão Sparkle Fingers (“Dedos Faiscantes”) são aventados, sendo que esse último parece ter alguma alusão pornográfica embutida… Eu mesmo nunca assinei nada e vou continuar chamando-o de Capitão Marvel, em homenagem às minhas lembranças de infância. Quem é que aguenta essas aporrinhações corporativas e legais, diacho! (A praga característica do Capitão Marvel nos quadrinhos.)

Quem traz a dupla desmiolada para a dura realidade é o Dr. Silvana, transmutado no versátil Mark Strong, que aqui parece satisfeito em reprisar o vilão soturno e sádico de Kick-Ass. O Silvana adulto é um ocultista que pesquisa eventos semelhantes ao sofrido por ele na infância (e por Billy Batson, sem que ele saiba), em busca dos símbolos esotéricos que o levarão novamente ao salão do mago guardião (Djimon Hounsou). Incorporando os demônios capitais, ele identifica no Capitão Marvel o obstáculo derradeiro para cumprir a profecia e adquirir poder absoluto.

No meio do caminho para enfrentar o vilão nos céus da Filadélfia, onde o filme se passa, há espaço para decepções infantis sofridas tanto por Billy quando por Freddy, a descoberta da realidade sobre a mãe que Batson busca com tanta força, e a realidade sobre o que é de fato uma família, para além dos laços de sangue. Tudo isso mantendo um clima acolhedor de filme das décadas de 1980 ou 90, com uma qualidade quotidiana que faz falta na maioria dos filmes da Marvel, por exemplo. Com certeza, a invernal paisagem canadense em que o filme foi rodado ajuda, assim como o mínimo de imagens geradas por computador e cenários inseridos via tela azul.

O charme de Shazam! resiste até mesmo ao humor enfiado entre as situações de ação nas sequências climáticas, e à transformação das outras crianças da foster family na Família Marvel dos gibis, um lance que divide muito a ação e parece queimar um cartucho importante na já anunciada sequência. Assim como aconteceu com Mulher-Maravilha (2017) e com Aquaman (2018), seu forte é a falta de pretensão e a leveza da narrativa e da abordagem dos assuntos. Além da personalidade vibrante de Zachary Levi, a produção traz ótimos atores adolescentes, o espirituoso Angel e o divertido Grazer (que vimos no ótimo It, de 2017, como o hipocondríaco garoto Eddie Kaspbrak), além da bela Grace Fulton, que faz a garota mais velha abrigada pelos Vasquez, Mary Bromfield.

O charme de Shazam! cresce por parecer um filme da década de 1980 lançado com os recursos técnicos do século 21. Além disso, parece um filme natalino lançado fora da época natalina; um filme “família” que não se esquiva de uma piada sobre pedofilia nem se curva a qualquer traço de patriarcalismo (que ele ataca, na figura do pai magnata do Dr. Silvana); um filme sobre bullying que não traz adultos para a discussão; e um filme com elenco multiétnico que não soa nada politicamente correto. O que poderia ser visto como um anacronismo em vários níveis, soa como uma afirmação de independência e personalidade própria. Finalmente, um filme que tem algo a dizer sobre as encrencas da infância, a serviço de celebrar a imaginação heroica da criança. Uma imaginação antes plasmada nas histórias em quadrinhos que o inspiraram.

—Roberto Causo

 

A sobreposição do Capitão Marvel e de sua identidade “civil”, o superpentelho Billy Batson.

 

Roberto Causo agradece a Gabriela Colicigno & Roberto Fideli, do Who’s Geek, pela oportunidade de ver a cabine de Shazam! em 26 de março de 2018, no Shopping Cidade de São Paulo.

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