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Nostalgia Perry Rhodan: Nos Arquivos da Ediouro

Por solicitação do leitor Dioberto Souza, um dos grandes fãs brasileiros da série alemã de space opera Perry Rhodan, procurei e encontrei em um velho computador o texto “Nos Arquivos da Ediouro”, que, aparentemente, tem chamado a atenção de outros fãs brasileiros da série. Foi publicado em outubro de 2009 no Terra Magazine, a revista eletrônica criada pelo jornalista Bob Fernandes para o Portal Terra, e mais tarde no volume 800 da edição brasileira de Perry Rhodan. Não está mais disponível online, já que o Terra Magazine foi cancelado, mas encontra-se disponível na edição da SSPG Editora. Considerando que a edição da Ediouro foi a primeira edição da série Perry Rhodan no Brasil, e que a SSPG Editora anunciou recentemente que irá republicá-la a partir do seu primeiro ciclo (começando pelo número 1), imagino que seja apropriado trazer o artigo de volta.

 

Nostalgia Perry Rhodan

NOS ARQUIVOS DA EDIOURO

 

A edição da Ediouro seguia um padrão de capa da edição americana da Ace Books. Arte de capa de Gray Morrow.

Nos dias 9 e 10 de setembro de 2004 estive no Rio de Janeiro para o 2.º Simpósio “Ciência, Arte e Cidadania”, promovido pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Instituto Oswaldo Cruz. Fui convidado para o simpósio por Lucia La Rocque, da FioCruz-IOC, em meados de abril. Eu deveria dar a oficina “Ficção e Ciência: Extrapolação Científica e Prática de Escrita” na sexta-feira, dia 10, mas a organização do evento que ia de 9 a 12, presidida por Tania Araújo-Jorge, da FioCruz, franqueou-me a possibilidade de estar presente em outros dias, com estadia paga em um hotel da cidade. Hesitei, porque sempre penso no custo/benefício para quem está organizando um evento desses, mas aceitei a oferta de ir para lá no dia 9 pensando justamente em fazer uma visita aos arquivos da Ediouro, a editora que, como Tecnoprint/Edições de Ouro, primeiro publicou sistematicamente a série Perry Rhodan no Brasil.

Antes de confirmar com a FioCruz, falei de São Paulo com Lucina Ferreira Matos, a arquivista da Ediouro. Estando no Rio, recém-chegado ao hotel, liguei novamente para ela e combinamos que eu iria para as instalações da editora às 15h00. Peguei um táxi e fui para o bairro do Bonsucesso, que eu já conhecia de uma visita ao escritor Jorge Luiz Calife, anos antes.

As instalações da Ediouro localizam-se “desde sempre” na Rua Nova Jerusalém 245. Na portaria, fui recebido pelo estagiário-arquivista Carlos Eduardo Rodrigues da Silva, que me levou por cinco lances de escadas até os arquivos. Dentro do grande salão, fui conduzido até um espaço isolado por divisórias e mantido sob ar-condicionado. Tanto Carlos quanto Lucina foram atenciosos e tolerantes com a minha presença em seu local de trabalho. Expliquei que buscava especificamente por informações editoriais — dados sobre tiragem e circulação, normas contratuais e procedimentos de produção dos livros.

Como já haviam me informado previamente por telefone, eram poucas as chances de encontrar alguma coisa. A editora teve o seu quadro de funcionários mudado seguidamente ao longo dos anos, e ninguém do presente staff se lembra da época em que os livros foram publicados. Em uma rápida visita ao departamento editorial, confirmei esse estado de coisas por meio de uma conversa com Cristiane Marinho: pouco se sabe a respeito da editora nessa época que foi a “era de ouro” da literatura popular no Brasil, com a Tecnoprint sendo uma das casas dominantes, por publicar séries como Matt Helm, Shell Scott, Irving Le Roy, Sherlock Holmes, Perry Rhodan e Espaçonave Orion, entre outras. Também não consegui nenhum contato com os tradutores que trabalharam com Perry Rhodan: Richard Paul Neto, S. Pereira Magalhães e Ayres Carlos de Souza.

Perry Rhodan foi publicado pela Tecnoprint a partir de 1975, em duas versões de capa branca — a primeira com “Perry Rhodan” figurando nas letras desalinhadas que apareciam na edição original alemã pela Erich Pabel Verlag; a segunda com o nome do herói disposto em “Cinemascope”, como na edição norte-americana da Ace Books. Ambas tinham o selo “Infinitus” aparecendo na capa em uma elipse com o símbolo matemático ∞ (de infinito) ao fundo. Depois que a série foi descontinuada, surgiu uma coleção “capa preta”, ainda seguindo o padrão da Ace e em um formato discretamente maior (11,5 x 18 cm, contra 10,5 x 16 cm). Eventualmente, em 1984 e a partir do seu número 200, a série retorna sob o rótulo “Futurâmica Espacial” — “Futurâmica” era o nome de uma coleção de ficção científica assinada por vários autores, que a Tecnoprint manteve anos antes. Esta última edição vinha em dimensões que, segundo eu viria a descobrir examinando os arquivos, eram chamadas pela editora de formato “superbolso” (12 x 21 cm).

Carlos me levou até os corredores de estantes. Logo encontramos as caixas de papelão com os livros da série, tão numerosas que ocupavam dois corredores. Os números mais antigos tinham de duas a quatro caixas destinadas a cada um deles (os últimos números tinham apenas uma ou duas), contendo coisas como provas heliográficas, fotolitos, correções de impressão, originais e manuscritos de traduções. Mas não pude encontrar nenhum exemplar nem números de tiragens referentes às primeiras coleções “capa branca”. Salvo pela possibilidade remota de estarem em alguma outra parte dos arquivos, pelo jeito a editora não pôde, por alguma razão, salvar para a posteridade essa fase do seu envolvimento com Perry Rhodan. Um dos problemas, supõe-se, de se lidar com a edição de livros populares, considerados “perecíveis”.

Ficou claro para mim, conforme examinava o material, que para o fã da série os arquivos da Ediouro são simultaneamente céu e inferno — há muita informação que se pode analisar, mas os “buracos” inevitáveis são frustrantes.

Estudando um contrato da fase “Futurâmica Espacial”, soube que a Tecnoprint adquiria os direitos de publicação dos episódios da série em lotes de dez títulos, que ela se obrigava a lançar na ordem numérica. Dez exemplares de cada título publicado no Brasil eram enviados à editora alemã.

Examinando a primeira caixa com o material do N.º 1, Missão Stardust, encontrei a ficha de tradução, que ficou a cargo de Richard Paul Neto, com certeza o tradutor mais prolífico da série. Datada de 16 de julho de 1975, a ficha de tradução é uma pista para a altura desse ano em que a Tecnoprint começou a lançar Perry Rhodan no Brasil — provavelmente, no terceiro quadrimestre.

A página de rosto da tradução de Richard Paul Neto revela alguns dados que valem a pena comentar. No alto, escrito a lápis, aparece “Título da série: Perry Rhodan, o herdeiro do universo”, mas com “herdeiro” riscado a caneta e uma seta apontando para a palavra que deveria substituí-la: “pacificador.” Paul Neto estava traduzindo do original alemão, Unternehmen Stardust, e “herdeiro do universo” é uma expressão que aparecesse na edição original (der Erbe des Universums), enquanto que a edição norte-americana da Ace tem “peacelord of the universe” como subtítulo — “senhor da paz”, mais próximo do “pacificador do universo” que a Tecnoprint adotou. Na mesma página, encontramos os nomes dos capitães Reginald Bull e Clark G. Flipper (como no original) alterados a caneta para “Bell” e “Fletcher”, seguindo as mudanças realizadas pela edição da Ace, que parecia pautar as decisões da Tecnoprint. Fica claro que o editor brasileiro tinha em mente aproximar a edição brasileira daquela organizada pelo “Mr. Science Fiction” Forrest J. Ackerman para a Ace entre 1968 e 1977.

Uma última curiosidade a respeito das alterações do anônimo editor sobre a tradução de Paul Neto está no título: originalmente Richard Paul Neto chamou o episódio de “Programa Stardust”, mas o editor escreveu “missão” no alto, a caneta. Curiosamente, o título da edição americana foi Enterprise Stardust. Já A Abóboda Energética, o terceiro episódio da série, quase foi chamado pela Tecnoprint de “A Cúpula Dourada”…

Como os artistas gráficos da Tecnoprint faziam as capas dos livros de Perry Rhodan? Sabemos que davam preferência às ilustrações americanas assinadas por Gray Morrow (até onde o artista as produziu), mas que, como a Ace agrupava dois episódios em um único livro, os artistas da Tecnoprint frequentemente tinham que empregar as artes originais de Johnny Brück.

Um número substancial de publicações alemãs e americanas com as capas faltantes, descobertas nas caixas de arquivamento, sugere que não eram usados cromos ou filmes recebidos da Alemanha ou dos Estados Unidos, mas que essas capas eram aproveitadas diretamente. Encontramos uma evidência ainda mais clara — uma transparência em acetato, com a capa e a quarta capa do N.º 297, A 73.ª Era Glacial, com a “janela” em que se inseria a ilustração aplicada sobre a capa do original alemão da 4.ª edição, arrancada do Heftromane (o formato original alemão, de 15 x 22,5 cm e 64 páginas). O título do livro vem pintado sobre o acetato, sugerindo que essa montagem seria apenas uma indicação de como o artista gráfico deveria proceder. Mas os indícios apontam fortemente para essa prática de emprego direto das imagens originais, sem reduções nem uso de filmes ou cromos importados, de certo com o fim de economizar tempo e dinheiro, dentro de recursos técnicos menos sofisticados do que aqueles que a editora dispõe hoje. É claro, a prática permitia que se aproveitassem apenas um detalhe das artes originais, especialmente as alemãs.

Que dados sobre tiragem pude localizar? Nada a respeito das edições “capa branca”, mas aparentemente a “capa preta” tinha tiragens oscilando entre 3 e 6 mil exemplares, coincidindo com uma fase em que Perry Rhodan não tinha uma presença nas bancas.

Perry Rhodan é relançada nas bancas brasileira em 1984, com o episódio 200 sendo o primeiro da linha Futurâmica Espacial, em formato mais comprido, o “superbolso“. Arte de capa de Johnny Brück.

As informações mais claras e abundantes se referem à edição “Futurâmica Espacial”. A Rota para Andrômeda, o N.º 200, com o qual a editora relançou a série no princípio da década de 1980, teve uma tiragem de lançamento de 80 mil exemplares. Sem dúvida, o bastante para criar uma presença ostensiva nas bancas de todo o país. Já no N.º 203 ela havia caído para 50 mil. Dos N.ºs 205 a 298, foi de 40 mil — o que ainda garantiria uma boa presença nas bancas. Os N.ºs 209 e 210 tiveram 30 mil exemplares de tiragem, e do 211 ao 216, 20 mil. Por sua vez, a segunda edição da Futurâmica Espacial, que trazia a série toda desde o episódio 1, teve em 10 de outubro de 1984 uma tiragem de 15 mil exemplares para o Missão Stardust. Ainda no mesmo ano, em fins de dezembro, ela havia caído para 10 mil.

Analisando os números da tiragem da série, fica claro que Perry Rhodan na Futurâmica Espacial não foi o sucesso esperado pela editora, mesmo que consideremos os 80 mil exemplares iniciais como apenas uma estratégia de lançamento. Do 217 em diante, o número de livros impressos por título se estabilizou em 15 mil, ainda substancial para os padrões brasileiros, e foi assim até o N.º 398, quando a tiragem passou a ser de apenas 9 mil exemplares. A crise econômica da década de 1980 podem ter tido um papel importante nesse declínio, e nós sabemos que toda a publicação de ficção científica no Brasil foi duramente afetada nesse período. A Tecnoprint insistiu com os 9 mil exemplares, de qualquer modo, indo do 398 ao Perry Rhodan de número 536, o último a ser lançado por ela. Esse número 536 teve apenas 5.200 exemplares impressos, o que certamente o torna um item de colecionador.

A ressalva que se pode fazer com relação aos dados aqui expostos é que as informações sobre tiragem e circulação não estariam completas, tendo alguns nuances passados desapercebidos. Algumas fichas de produção informavam que a tiragem era “de banca”, mas isso nos permite supor que haveria uma outra tiragem — para livraria ou para a venda por assinatura, por exemplo? Difícil saber…

Uma “descoberta” que talvez toque os leitores da série, saudosos das edições da Tecnoprint, são os números que deixaram de serem lançados, após o 536. Como a editora adquiria os títulos da Erich Pabel Verlag em lotes de dez e tinha um esquema industrial de produção dos livros, quando a série foi cancelada muitos estavam traduzidos, alguns quase prontos para o lançamento. Aqui estão os onze títulos que encontrei, armazenados em caixas de papelão, para meditarmos sobre o que a editora carioca deixou passar:

 

A Bordo da  Marco Polo 537

Espalhando o Pânico 538

A Experiência dos Cynos 539

O Ataque dos Cynos 540

No Fascínio do Campo de Pânico 541

A Hora do Centauro 542

O Último Recurso da Marco Polo 543

Os Espiões de Gevarri 544

O Portador da Máscara 545

Homens entre Cynos 546

O Sol não Faz Sombra 547

 

Em um gesto de extremo carinho e consideração pelo leitor brasileiro fã de Perry Rhodan, a SSPG Editora traduziu e lançou no Brasil esses episódios, do 537 ao 547, em 2015 e 2016.

—Roberto Causo

 

Arte de capa de Johnny Brück.

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Pandemias na Ficção Científica

Em 15 de maio de 2020, a Editora Seoman promoveu uma live no Instagram com a pesquisadora e ficcionista Cláudia Fusco e o criador do Universo GalAxis, Roberto Causo, reunidos para discutir o tema “Ficção Científica na Quarentena: Pandemias e Distopias“. Antes, Causo havia tocado no tema em sua coluna “Ficção Especulativa“, na revista Perry Rhodan, da SSPG Editora. Este artigo reaproveita a coluna e expande parte do que foi discutido na live.

 

 

 

O tema da praga global é consideravelmente antigo dentro da ficção científica. A tradição milenarista cristã o vincula fortemente às narrativas de fim de mundo. The Encyclopedia of Science Fiction (Third Edition) coloca tais narrativas entre as mais antigas da proto-ficção científica — ou da “fantasia futurista pré-século 20”, como o verbete prefere —, juntamente com a utopia e os contos cautelares.

Alguns dos exemplos mais antigos de narrativas envolvendo pandemias que “destroem o mundo” incluem o romance O Último Homem (The Last Man; 1826), de Mary Shelley, e a novela A Praga Escarlate (1912), de Jack London. London é o conhecido autor clássico americano de O Chamado Selvagem e Presas Brancas, e a inglesa Shelley é a famosa autora de Frankenstein (1818), um dos primeiros romances da FC moderna. Ambos os livros têm edições no Brasil, datando do início deste século. Juntos, eles expressam duas possibilidades clássicas (com alguma superposição) da questão das grandes pragas dentro da FC: se a história conta o que ocorre durante, trata-se de uma narrativa de fim de mundo; se conta o que ocorre depois, é uma narrativa de pós-apocalipse — subgênero da FC normalmente associado à guerra nuclear.

As narrativas de pandemia, em especial, desde cedo formaram uma das formas mais coerentes de especulação sobre o futuro, já que fazem parte da experiência histórica da humanidade. Basta lembrar da terrível Peste Negra que assolou a Europa no século 14, matando, estima-se, entre 75 a 200 milhões de pessoas em sete anos. Na ficção científica, a Peste Negra foi assunto do excelente romance de Connie Willis, O Livro do Juízo Final (The Doomsday Book, 1992). Antes dessa praga, a antiguidade registrava a Peste Antonina (165 dC), que teria tomado aproximadamente cinco milhões de vidas, e a baixa idade média a Praga de Justiniano (541-544 dC), que teria vimado vinte e cinco milhões. E quando London escreveu a sua novela, a sexta epidemia transnacional de cólera ainda estava em curso, e o próprio London teria escapado a um surto de peste bubônica que atingiu San Francisco na virada do século 19 para o 20.

Armas, Germes e Aço (Guns, Germs and Steel: The Fates of Human Societies, 1997), de Jared Diamond, é um livro dedicado a demonstrar como a continuidade geográfica entre Europa e Ásia deu vantagens aos povos eurasianos sobre o resto do mundo. Entre essas vantagens, a resistência a doenças epidêmicas que colocaram outros povos de joelhos após o primeiro contato. Ganhou o Prêmio Pulitzer, entre outros. Nele, Diamond “argumenta contra a ideia de que a hegemonia eurasiana se deva a qualquer forma de superioridade eurasiana intelectual, moral, ou inerentemente genética”. Nisso ele, felizmente, contradiz a tese de Victor Davis Hanson em Carnage and Culture (2001), de que a algo de inerentemente superior nas práticas bélicas das nações ocidentais (Hanson exclui o Brasil, a propósito, desse rol).

Como um dos editores da Seoman, Adilson Silva Ramachandra, observou durante a live Ficção Científica na Quarentena: Pandemias e Distopias“, o romance clássico de invasão de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1898), também toca no tema da infecção causadora de mortes em massa. Mas da morte dos marcianos invasores, que caem presa dos micro-organismos terrestres, para os quais não têm defesa, apesar da sua tecnologia bélica superior. O recurso é um deus ex-machina que salva a humanidade no último instante, mas ao mesmo tempo expande um tanto do sentido do romance, sempre considerado como alegoria anti-imperialista que devolve aos europeus a experiência devastadora que eles levavam aos povos de todas as outras partes do mundo.

No Brasil, temos a experiência dos indígenas amazônicos, cuja população e nível civilizatório teriam sido muito maiores do que o imaginado antes, segundo revela a arqueologia dos últimos vinte anos. O livro de Michael J. Heckenberger, The Ecology of Power: Culture, Place, and Personhood in the Southern Amazon A.D.1000-2000 (2004), defende a possibilidade de que aquilo que conhecemos a respeito dos indígenas dessa região seja uma versão, deformada pela depopulação causada pelas pragas trazidas pelo europeu, de uma cultura que teria sido bem diferente e mais expressiva. Em outras palavras, esses povos indígenas vivem no pós-apocalipse da sua civilização — possibilidade que explorei no meu conto tupinipunk de fim de mundo “Para Viver na Barriga do Monstro” (2012), publicado na antologia original editada por Alícia Azevedo & Daniel Borba, 2013: Ano Um.

Na segunda metade do século 20, dois romances se tornaram marcantes, certamente com o segundo sendo influenciado pelo primeiro: Só a Terra Permanece (Earth Abides, 1949), de George R. Stewart, e A Dança da Morte (The Stand, 1978), de Stephen King. No primeiro, um sobrevivente do fim do mundo causado pela praga registra o seu esforço para preservar o pouco que pode da cultura e do conhecimento humanos. É um romance imensamente melancólico, enquanto o bojudo livro de King imagina uma praga que se origina em laboratórios militares, tem componentes de ação e também de ficção religiosa, já que, nos Estados Unidos, os sobreviventes dividem-se em dois grupos: um de concentração mística, solidário, tranquilo e humanista; e o outro de concentração técnica, competitiva e violenta — liderada por uma figura de contornos demoníacos e de líder fascista carismático, Randall Flagg.

Flagg é interessante por demonizar justamente a confluência do conceito de Friedrich Nietzsche da “vontade de potência” com o espírito americano. A vontade de poder seria uma constante da FC anglo-americana, segundo o pesquisador Adam Roberts em A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas (The History of Science Fiction, 2006), cuja segunda edição (2016) foi publicada no Brasil justamente pela Seoman, em 2018. Em Flagg, uma interpretação fascista da figura do Übermensch de Nietzsche, King mostra como os piores momentos da humanidade ainda serão motivo de manipulação por parte de grandes espertalhões — como vemos no Brasil, nos EUA e em países em que um autoritarismo de direita ou de esquerda tenta ganhar capital político com a desgraça de todos.

 

A Dança da Morte (The Stand) foi uma minissérie exibida pela rede ABC em 1994.

A Dança da Morte virou minissérie em 1994, pela rede ABC, e algo que Stephen King “acertou” foi a noção de que a praga mais contagiante possível seria uma gripe, uma das doenças virais de maior disseminação e transmissibilidade humana. O romance de Stewart está disponível no Brasil pelas Edições GRD, e o de King faz parte do catálogo da Suma, editora que o vem republicando intensamente nos últimos anos. É claro, muitos livros e filmes sobre a pandemia de zumbis também podem ser lidos como dramatização fantástica da ideia da praga global, com um ângulo particularmente interessante: aquela pessoa que é absolutamente normal e mesmo atraente em certo momento, torna-se um inimigo desumanizado, bestializado, depois de “convertido” ou “infectado” pela praga zumbi.

Nesse sentido, no thriller de FC Ordens do Executivo (Executive Orders, 1996), de Tom Clancy, têm-se um comentário perfeito sobre essa perspectiva: uma improvável aliança entre chineses, iranianos (que incorporaram o Iraque) e traidores americanos trama para contaminar o país com uma variante agravada do terrível vírus hemorrágico ebola. Em dado instante, um general especialista em guerra biológica observa:

“Essa é a elegância da guerra biológica. São as suas vítimas que causam a maioria das mortes.” —Tom Clancy, Ordens do Executivo.

Uma rara obra que imagina como prevenir que uma pandemia leve ao fim do mundo, pelo combate efetivo de uma praga artificialmente criada, é justamente Ordens do Executivo, que saiu aqui pela Record com tradução de Sylvio Gonçalves. Sob o comando do herói Jack Ryan (elevado a presidente da república por um atentado terrorista realizado no livro anterior da série, Dívida de Honra), os Estados Unidos controlam a epidemia com medidas de saúde pública, de isolamento e de interrupção de transporte interestadual e internacional — medidas que Donald Trump, o presidente da vida real, hesitou e hesita em assumir perante a pandemia da COVID-19. No romance, em uma reunião decisiva, na qual se avalia a necessidade da operação “Chamado da Cortina”, o mesmo general informa:

“Pior possibilidade? Vinte milhões de mortes. A essa altura, o que acontece é que a sociedade entrará em colapso. Médicos e enfermeiros fugirão dos hospitais, as pessoas se trancarão em suas casas, e a epidemia se desgastará de forma muito parecida com o que aconteceu com a Peste Negra do século XIV … O problema, senhor, é que se não tomarmos nenhuma medida e depois descobrirmos que a doença é muito poderosa, então será tarde demais.” —Tom Clancy, Ordens do Executivo.

Anterior, O Enigma de Andrômeda (The Andromeda Strain, 1969), de Michael Crichton, foi um dos primeiros bestsellers nacionais da ficção científica nos Estados Unidos, levado ao cinema em 1971 por Robert Wise. Também imagina, em detalhe e disfarçando a sua narrativa ficcional com elementos de montagem como relatórios, tabelas e diagramas, como um laboratório bilionário de segurança máxima consegue determinar como combater um vírus trazido do espaço por um satélite americano. O vírus não é um invasor alienígena, porém, e sim o produto de experimentos secretos de guerra biológica.

Ao imaginar uma praga global que se originasse no Brasil, eu apelei para uma variante do hantavírus originária da selva amazônica. No meu conto “O Salvador da Pátria” (2000), um jovem tenente ferido no acidente aéreo do qual é o único sobrevivente, é convocado pelo espírito viajante temporal de uma xamã indígena, que vive no futuro marcado pela destruição causada pela praga, para matar traficante de drogas que seriam os primeiros a disseminar o vírus. Ao contrário do que propõe o nosso atual governo, no meu conto o futuro dos índios corresponde ao futuro do país, e o soldado que se sacrifica está a serviço da visão deles. A história saiu na antologia Phantastica Brasiliana, de Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi, em comemoração aos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil.

Para escrever “O Salvador da Pátria”, consultei The Coming Plague: Newly Emerging Diseases in a World Out of Balance (1994), de Laurie Garrett, e Zona Quente (1994), de Richard M. Preston — dois livros de não ficção escritos no início do atual estágio da globalização que demonstram que o temor de uma plaga planetária já preocupava cientistas e administradores públicos. É interessante que o romanção de Clancy tenha sido publicado dois anos depois, e que, no ano seguinte, tenham aparecido os filmes Epidemia (Outbreak, 1995), dirigido por Wolfgang Petersen, e Os 12 Macacos (Twelve Monkeys, 1995), dirigido por Terry Gilliam. Obviamente, o assunto estava na pauta da vida pública de então — e obviamente, os seus alertas não foram respondidos pelas autoridades com mais investigação científica e estudos de protocolos de contenção. Àquela altura, pandemias como a da AIDS e epidemias assustadoras como a do ebola acionaram o sinal de alerta.

O subtítulo do livro de Garrett, “doenças recentemente emergentes em um mundo fora do equilíbrio”, informa de saída qual é o seu motivador principal: a destruição do meio ambiente e o contato cada vez mais íntimo e frequente de humanos com animais portadores de vírus desconhecidos. Na quarta capa da edição pela Editora Rocco do livro de Preston, por sua vez, aparece: “À medida que as florestas tropicais vão sendo destruídas, vírus antes desconhecidos se revelam, em padrões semelhantes ao da AIDS [que teria vindo de primatas africanos], e em escala apavorante.” Exatamente o que se supõe ter havido na China com respeito ao novo coronavírus, que migrou de morcegos ou raposas-voadores para os humanos, em razão do consumo da sua carne ou da ausência de boas condições sanitárias no seu abate e venda em feiras populares — tardiamente fechadas pelo governo.

Eu escrevo este texto em meio às restrições de mobilidade recomendadas pelo governador do Estado de São Paulo, em razão dos efeitos nacionais da pandemia da COVID-19. Digo “relativo” porque minha esposa, a também escritora da FC Finisia Fideli, é médica homeopata e continua atendendo aos seus pacientes, na medida do possível. De fato, parte deste texto foi escrito no consultório particular de Finisia, já que eu a acompanho no trabalho. Essa conjuntura é um lembrete da confluência inesperada entre a FC e a vida real — e entre o passado e o presente.

É cedo para saber que tipo de conclusão a pandemia assumirá. O que já se sabe, porém, é que a pressão para o retorno à vida normal tem sido danosa antes, durante, e o será depois da COVID-19. Antes, levou à atitude inicial da Organização Mundial da Saúde de minimizar o surto e a não propor medidas de contenção imediatas. Durante, está levando ao relaxamento potencialmente trágico dessas medidas. E depois, poderá conduzir novamente as autoridades a ignorar, enquanto atentam apenas aos apelo do status quo político, o dramático sinal de alerta do momento presente.

Teorias de conspiração são mais divertidas — como atestam livros como O Enigma de Andrômeda e Ordens do Executivo — do que a ideia de que mexer com animais selvagens, que deveriam estar isolados e protegidos, pode ter efeitos desastrosos em todo o mundo. Não obstante, este é o momento de se recordar que antes de apelarmos para hipóteses ideológicas, delirantes ou racialistas, a ciência e a experiência histórica já nos fornecem explicações sólidas e comprovadas. Elas também nos oferecem medidas claras e eficazes de enfrentamento das crises.

Finalmente, ambientalismo, preservacionismo e a luta contra a atual emergência climática (o aquecimento global facilita a proliferação de doenças antes confinadas a certas zonas climáticas, e o ressurgimento de vírus e bactérias confinados ao gelo do círculo polar ártico) também se mostram como mais do que componentes de uma visão “ideológica de esquerda” — lembrando que China, Rússia, Vietnã e Coreia do Norte têm um terrível histórico de devastação. São, na verdade, atuações necessárias para enfrentar, no médio e longo prazo, situações dramáticas como a atual pandemia.

—Roberto Causo

 

Causo agradece a Adilson Silva Ramachandra e a Carolina Bessa pela oportunidade de falar na live da Editora Seoman, e a Cláudia Fusco pela interação.

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Roberto Causo É Entrevistado no “Almanaque de Arte Fantástica Brasileira”

Marcello Simão Branco, jornalista, cientista político e fã histórico de ficção científica entrevistou o escritor Roberto Causo, criador do Universo GalAxis, para o Almanaque de Arte Fantástica Brasileira, que ele mantém com o seu colaborador de longa data, Cesar Silva.

 

 

O blogue Almanaque de Arte Fantástica Brasileira é uma poderosa ferramenta de acesso a recursos de ficção científica, fantasia, horror e literatura fantástica. Representa uma continuidade, em outro formato, do importante Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, que Branco & Silva publicaram ao longo de uma década.

A entrevista foi postada em 1.º de novembro de 2019, e nela Branco e Causo comentam os 30 anos de carreira do escritor e discutem o que mudou nesse tempo, no campo da ficção científica brasileira, a sua comunidade de fãs e com a recente produção intelectual e acadêmica voltada para a FC no Brasil.

O Universo GalAxis também é abordado, assim como a influência da série alemã Perry Rhodan sobre ele e as novidades e projetos futuros do universo que combina as séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue.

Marcello Simão Branco foi um dos criadores, com Renato Rosatti, do importante fanzine Megalon, e é um dos mais longevos observadores do campo da ficção especulativa no Brasil. Com Cesar Silva ele editou a revista HorrorShow e participou da Editora Pecas, além de fundar a Sociedade Brasileira de Arte Fantástica e organizar convenções de FC e de horror. Branco, que também é professor universitário de Ciência Política, editou as antologias Outras Copas, Outros Mundos (1998) e Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (2010), esta última com a noveleta das Lições do Matador, “Trunfo de Campanha”. É assim que ele abre a entrevista com Roberto Causo:

Conheço o Causo desde setembro de 1987, faz tempo, a partir de uma reunião mensal do Clube de Leitores de Ficção Científica, em São Paulo. Artista e militante em tempo integral, fez tudo e mais um pouco em prol da ficção científica e fantasia no país desde então. O que se faz com as perguntas a seguir é além de celebrar a longevidade de sua carreira, reconhecer sua importância, que se confunde com a trajetória e desenvolvimento do gênero no país. Pois se ele, numa visão de conjunto, se estabeleceu como um dos nossos autores mais relevantes, tem uma contribuição multiforme, e não menos significativa: fã, fanzineiro, ilustrador, crítico e ensaísta, editor, tradutor, pesquisador acadêmico, organizador de eventos.

A entrevista você encontra aqui.

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Leituras de Janeiro de 2019

O ano começou com uma boa dose de ficção científica… e outra de Harlan Ellison. Foi um mês de dobradinhas com Ellison e Charles Sheffield.

 

Arte de capa de Larry Price.

Odyssey, de Jack McDevitt. Nova York: Ace Books, 2006, 410 páginas. Arte de capa de Larry Price. Hardcover. Ano passado eu li Omega (2003), de McDevitt. Este Odyssey é a sequência na série The Academy — ou Romances de Priscilla Hutchins. Aqui, o experiente autor americano parte de uma premissa rara e instigante: avistamentos de OVNIs no espaço. Quem mais pensou nisso? No seu livro In Search of Wonder Essays on Modern Science Fiction (1956), Damon Knight menciona um romance com essa premissa. Em Odyssey, os OVNIs são chamados de moonriders e são vistos ao longo de uma rota turística que cobre vários sistemas solares.

Nesse momento, a Academia está sob ataque de políticos atrás do seu orçamento. O esforço de colonização de outros mundos não trouxe os resultados esperados, e a humanidade não fez contato com nenhuma civilização alienígena com presença espacial. Além disso, o aquecimento global tornou-se uma questão urgente, e muitos defendem o uso de recursos no combate às suas consequências, e não na viagem interestelar. Isso acontece lá por 2230, com aquilo que se projeta acontecer, em termos de mudança climática catastrófica, por volta de 2050. A perspectiva derrotista começa a mudar com o acúmulo de avistamentos e com a revelação de que tais objetos não-identificados conseguiriam mover asteroides — primeiro contra um dos poucos planetas com vida animal complexa, conhecido da humanidade, e depois contra um hotel espacial. Uma nave fora enviada para investigar os avistamentos. Na tripulação, um jornalista cético e contrário aos gastos com as viagens interestelares, uma competente pilota grega, um executivo de RP que resolve se meter na ação, e a filha adolescente de um senador americano. MacAllister, o jornalista, teve sua vida salva por Priscilla “Hutch” Hutchins no romance Deepsix (2001), que eu não li. Amy, a adolescente, quer ser piloto e tem um contato imediato de “quarto grau”, em que um alienígena personificando Hutch manda um recado à humanidade por meio dela. Na Terra, MacAllister e Hutch independentemente descobrem que a maior parte dos avistamentos são farsas organizadas por grupos de interesse, para marcar a importância do voo interestelar e da militarização da viagem espacial. Mas de tudo, o contato imediato de Amy permanece sem explicação. Por isso Hutch reage a ele enviando naves de resgate à uma gigantesca estação espacial europeia construída como um acelerador de partículas. Esse acelerador busca sondar os mistérios mais profundos do universo, criando microburacos negros. Existe a perspectiva de uma ruptura no tecido do espaço-tempo que levaria ao fim do universo — premissa semelhante à de Forever Peace (1997), premiado romance de Joe Haldeman. Todos os cientistas com que os Hutch e MacAllister falam se apressam em afirmar que a possibilidade disso acontecer é muito pequena. Mas obviamente os alienígenas, que surgem de fato nos momentos finais do romance, discordam. A arte digital de Larry Price na capa captura com dinamismo a forma esférica com que suas naves são descritas, e deu um jeito de colocar uma nave em forma de disco na arte. No texto, a ironia em torno dos OVNIs é divertida e bem realizada, ainda que com discrição. A crítica à política, à burocracia e às obsessões da ciência é bem estabelecida e de ironia mais marcada, já que mesmo diante da morte e da destruição, as pessoas se agarram às suas perspectivas limitadas e mesquinhas. McDevitt tem em Odyssey mais um exemplo da sua capacidade de criar um suspense natural a partir de reflexões sobre as faltas da sociedade e de sua fé nas qualidades individuais humanas como a coragem e o auto-sacrifício.

“Certos tipos de decisão pode ser ignorado com segurança. Algumas questões irão embora com a passagem do tempo, outras vão se desenvolver tão lentamente, que os tomadores de decisão terão partido antes que os resultados da sua negligência se tornem manifestos. O que nos traz ao meio ambiente.” —Jack McDevitt, Odyssey.

 

Arte de capa de Bob Eggleton.

Between the Strokes of Night, de Charles Sheffield. Nova York: Baen Books, 1985, 346 páginas. Arte de capa de Bob Eggleton. Paperback. Este romance de Charles Sheffield também menciona as consequências catastróficas do aquecimento global, e em 1985! Mas enquanto McDevitt parece ter errado para mais quanto a incidência dessas consequências, Sheffield, projetando-as para 2010, errou para menos. Em cima das tensões causadas pela mudança climática e superpopulação, Sheffield colocou uma guerra termonuclear total e um inverno nuclear. Por sorte da espécie humana, um trilionário investiu sua fortuna (outra antecipação brilhante de Sheffield: o cara fez sua fortuna em ações de empresas de computação) em habitats espaciais. A primeira parte do livro, de fato, é dedicada a descrever como esse visionário recrutou um instituto de pesquisas sobre o sono, vinculado a ONU, para se instalar em seu principal habitat.

O romance dá um salto de dezenas de milhares de anos, para um contexto de muitas colônias humanas em outros planetas. Um grupo de jovens é selecionado, a partir de uma grande competição, para visitar um outro mundo. De um modo bem próprio da FC hard americana, um deles sofre um acidente potencialmente fatal. O único modo de salvá-lo é um de seus colegas colocá-lo em uma espécie de hibernação química. Quando desperta, ele e seus amigos estão em uma nave espacial desconhecida. Aos poucos é revelado a eles que parte da civilização humana na galáxia é composta de pessoas que vivem no “espaço-S” — uma percepção do passar do tempo milhares de vezes mais lenta do que a do espaço normal. Isso é fruto dos experimentos do instituto apresentado na primeira parte, e o recurso funciona como um modo de driblar a velocidade da luz como lei universal, sem rompê-la. Em alguns momentos, ele também lembra a história de H. G. Wells, “The New Accelerator” (1901), e o episódio da invasão dos Druufs, na série alemã Perry Rhodan. A outra coisa que o espaço-S faz é permitir o contato com estranhas criaturas que vivem flutuando no espaço, sendo que algumas podem ser inteligentes.

O pessoal do instituto e dos primeiros habitats ainda está vivo e atuando como dirigentes invisíveis da humanidade. A competição planetária que selecionou o grupo de protagonistas da segunda parte do romance é um modo desses dirigentes renovarem os seus quadros com pessoas competitivas e intelectualmente aptas. Mesmo porque um efeito colateral do espaço-S é a impossibilidade da reprodução humana. O grupo visita a Terra do pós-apocalipse, ainda não recuperada de uma era glacial, e então descobre onde fica realmente o centro das decisões. Ao chegarem, descobrem que são esperados. O grande segredo é contado a eles: experimentos para uma ampliação ainda maior da percepção são realizados, para que o voluntário possa observar eventos de milhões e bilhões de anos. A necessidade dessa perspectiva vem do fato de que um daqueles seres espaciais ter comunicado a visão de um futuro em que alguma força desconhecida iria converter todos os sóis do nosso braço da Via Láctea em anãs-vermelhas, tornando impossível a vida humana. Uma parte do grupo de aventureiros decide abrir mão desse novo “espaço” — e do espaço-S — ao se mudarem para um segundo centro de pesquisa. É como a Segunda Fundação, de Isaac Asimov, e lá, gerações dos seus descendentes, vivendo um tempo de vida normal, poderão se dedicar à solução dessa ameaça com maiores chances de sucesso. Como acontece com muita FC hard, o romance não oferece protagonistas simpáticos, interessantes ou mesmo bem realizados. Sheffield também tem a tendência de expor o assunto mais por meio de monólogos do que diálogos. Por conta disso tudo e das especulações que ele apresenta, há uma face muito estéril para esse estranho futuro. Um toque interessante e que mostra a sua autoconsciência como autor, está no fato de seus protagonistas terem escolhido a opção mais humana para enfrentarem o problema que enfrentam. É uma luz particularmente brilhante, nesse romance estranho. Mas o maior fator mesmo é o senso do maravilhoso que ele comunica e a dimensão “stapledoniana”, como dizem os anglo-americanos, das suas especulações.

 

Sight of Proteus, de Charles Sheffield. Nova York: Del Rey, 1988 [1977; 1978], 248 páginas. Paperback. Neste romance de Sheffield, o mundo está novamente na beira do precipício, por causa da superpopulação. Inclusive, Sight of Proteus faz par com a sequência Proteus Unbound (1989) mas menciona situações e tecnologias vistas na série Crônicas de Arthur Morton McAndrew. A impressão geral é bem diferente daquela do livro One Man’s Universe, porém. Isso porque a principal novidade tecnológica presente em Sight of Proteus é a modificação da morfologia humana, permitindo a customização do corpo e até que ele adquira a aparência de animais. Uma dupla de investigadores está na cola de um supergênio da área, que teria usado cobaias humanas, crianças, em seus experimentos. Capman, esse cientista, some do mapa mas deixa pistas que levam os investigadores a uma jornada que os leva à galeria do grotesco que é o Palácio dos Prazeres; ao acesso à genética de alienígenas que viveram milhões de anos atrás no planeta Loge, um gigante gasosos que, ao ser destruído, gerou no cinturão de asteroides do Sistema Solar; a uma equação para o equilíbrio econômico-populacional da humanidade; e a um asteroide em forma de bola de gude oca, transformado em nave espacial interestelar. No fim das contas, Capman é encontrado mas a questão em torno dele já havia se dissipado há algum tempo. Inclusive, o experimento com crianças era na verdade uma tentativa de rejuvenescimento. A imagem final é menos positiva do que assustadora, pelo número de pessoas que, sorridentes, abandonam uma humanidade conhecida em favor de uma visão alternativa, ainda desconhecida, de humanidade. O leve tom farsesco, presente inclusive na quantidade de ideias de FC empilhadas e pouco problematizadas, reforça os percalços de uma leitura que não conduz o leitor a um futuro que parece coerente e interessante de se conhecer. Não obstante, vale refletir sobre a hipótese de Sheffield ter refletido ou expressado ainda na década de 1970 (uma versão do romance apareceu primeiro na revista Galaxy em 1977) ansiedades sobre o controle e a radicalização do corpo — que na década seguinte estariam no cyberpunk, e que hoje estão na política de identidade.

 

Arte de capa de Glen Orbik.

Web of the City, de Harlan Ellison. Londres: Titan Books/Hard Case Crime, 2013 [1958; 1957; 1959; 1956], 284 páginas. Arte de capa de Glen Orbik. Trade paperbackDesencarnado no ano passado, Harlan Ellison foi um dos escritores mais inquietantes da FC e do horror americanos, e uma das suas figuras mais polêmicas. Quando estive no Festival Utopiales em Nantes, em 2002, flagrei Brian W. Aldiss perguntando a Norman Spinrad se o “little guy” (o baixinho Ellison) ainda seguia sem ter escrito nenhum romance. De FC, bem entendido, pois Ellison no começo de sua carreira ele publicou este romance de ficção de crime, escrito enquanto ele fazia o treinamento básico no Fort Benning. Mais tarde, quando ele escrevia uma coluna de resenhas de paperbacks para o jornal do Fort Knox, onde servia, encontrou, em uma caixa de livrinhos enviados pela Pyramid Books pra serem resenhados, o seu romance — que ele havia submetido à Lion Books como Web of the City (a teia da cidade). A Lion fechou e o seu inventário foi comprado pela Pyramids, que lançou o livro como Rumble.

Web of the City é centrado no delinquente juvenil Rusty Santoro, e contam as lendas que como pesquisa para o livro Ellison teria se enfiado em uma gangue de verdade. Rusty é o líder da sua gangue, mas alguma coisa das admoestações do professor Carl Pancost cala nele. Ao tentar se afastar da violência, ele passa a ser acossado pelos seus ex-amigos. Poupa o seu

A edição original do romance de estreia de Harlan Ellison, pela Pyramid Books.

adversário em uma briga ritual de canivete, pela liderança do bando. Quando as coisas parecem estar se assentando para ele, sua irmã, que entrou na gangue influenciada por ele, é assassinada brutalmente, e a mãe o responsabiliza. Atormentado, Rusty se lança em uma fiada de atos de violência no território de gangues rivais, enquanto caça o assassino. Na introdução, Ellison reconhece que o livro tem os seus problemas. Mas a leitura revela o pendor precoce do autor pelo over the top e pela linguagem vigorosa, expressiva, e o seu interesse pelos tipos estranhos que se encontra nas ruas. O clima é forte e as situações são tensas, a textura dos bairros pobres e dos seus espaços violentos é muito presente. O romance alcança um senso trágico genuíno.

Ao pessoal que descuidadamente define “ficção de gênero” como sendo apenas ficção científica, fantasia e horror, é bom lembrar que ficção de crime também é gênero literário, e a ficção sobre delinquência juvenil foi um subgênero popular na década de 1950, nos Estados Unidos. A informação está na mui útil Encyclopedia of Pulp Fiction Writers (2002), de Lee Server. O mesmo livro menciona Wenzell Brown como um dos “três mais” do subgênero, e pode ser que o romance de Ellison tenha sido rebatizado como Rumble para entrar no rastro de um livro de Brown, The Big Rumble (1955). Eu vi muitos filmes na madrugada, pertencentes ao subgênero — e que não eram Amor Sublime Amor. Três histórias curtas de Ellison, “No Game for Children” (1959), “Stand Still and Die!” (1956), e “No Way Out” (1957), noveleta que fornece o primeiro material empregado em The Web of the City. “No Game for Children” combina a violência juvenil com a cultura dos hot rods (carros envenenados), em uma história em que um acadêmico sossegadão se mostra mais implacável do que os bandidinhos das ruas, quando provocado por um deles. O selo Hard Case Crime tem feito um trabalho maravilhoso com a ficção de crime hard-boiled, resgatando obras antigas e publicando material novo, mantendo um amor saudosista pelo formato do paperback e pela arte pulp que invariavelmente colore as suas capas. Esse material pulp e o projeto gráfico já rendeu até matéria e capa da revista de arte alternativa Juxtapoz. Algumas edições especiais aparecem em trade paperback, de dimensões semelhantes àquelas dos livros em brochura que temos aqui no Brasil. Confesso que se tivesse grana, enchia uma estante com todos os livrinhos da Hard Case Crime (já tenho uns oito). Glen Orbik, que assina esta capa e várias outras do selo, é um mestre da arte pulp oriundo dos quadrinhos.

 

Angry Candy, de Harlan Ellison. Nova York: Plume, 1989, 334 páginas. Trade paperback. Nesta coletânea de histórias, caí direto no centro da produção de Ellison, em termos de ficção científica, fantasia e horror. Já tinha lido outras coletâneas, mais antigas, mas nesta encontrei uma grande concentração de histórias premiadas, instigantes, sugestivas, nostálgicas e incômodas. Na um paia introdução, Ellison (famoso pelos comentários e introduções) comenta que, depois de montada a coletânea, ele se deu conta de que a tônica das histórias era a morte. Alguns páginas registram nas margens quem partiu entre 1985 e 1987, incluindo gente como Theodore Sturgeon e Frank Herbert. A primeira história, “Paladin of the Lost Hour”, acompanha um jovem que salva um idoso do ataque de uma dupla de assaltantes num cemitério, abriga o velho, aprende a tratá-lo como a um pai, aí descobre que era tudo um teste para que o homem lhe passe o bastão na tarefa de impedir o fim do universo. O bastão na verdade é um relógio que não pode tiquetaquear. Ao mesmo tempo, o objeto mágico confere desejos, mas ao custo de um tempo com o relógio funcionando. O teste final é negar ao velho a graça, em troca de um minuto, de rever sua esposa falecida. Uma bonita alegoria da responsabilidade, próxima daquela que Stephen King e Richard Chizmar fazem com A Pequena Caixa de Gwendy, que discuto mais abaixo. A noveleta de Ellison ganhou o Prêmio Hugo 1986. “Footsteps” é uma história de horror sobre uma vampira que seduz suas vítimas, até que encontra um semelhante. Mais curta (dua páginas), “Escapegoat” tem três viajantes temporais no Titanic, com o propósito da missão deles oferecendo um final surpresa. “When Auld’s Acquaintance Is Forgot” é um conto de FC quase-cyberpunk sobre um homem que recorre a um serviço clandestino de remoção de lembranças, por causa de uma lembrança ruim. “Broken Glass” é outra FC, mas sobre telepatia e com o toque perverso de Ellison, que narra como uma garota que sofre um estupro mental devolve a agressão com fantasias sexuais violentas ao atacante, levando-o à loucura. “On the Slab” é uma história meio lovecraftiana, com o toque ellisoniano de evocação da cultura popular cotidiana (também como Ray Bradbury fazia): um empresário do showbiz desencava o que parece ser a múmia de um ser imemorial, que ele põe em exposição — até que testemunha um inimigo igualmente imemorial surgir para vingar-se da sua descoberta, em um final intenso. “Laugh Track”, que eu conhecia da Asimov’s Science Fiction, evoca igualmente a cultura popular americana, ao tratar com leveza de uma risada gravada e empregada em diversos sitcoms e de um dispositivo tecnológico que, a partir dessa gravação, acessa a alma da tia do protagonista, a dona da risada. Também em primeira pessoa, “Prine Myshkin, and Hold the Relish” mostra que Ellison também consegue dialogar com a alta cultura literária, mas com o seu próprio twist: o narrador visita uma lanchonete onde sempre se encontra com um amigo pra discutir Dostoievsky; um terceiro ouve os dois debatendo a violência do autor russo contra as mulheres, e resolve contar uma fiada dos seus casos com o sexo feminino, todos resultando em algum tipo de acidente/incidente trágico, fatal ou aleijante — um tremendo pé frio para as mulheres.

“The Region Between” se afasta da tendência principal de Ellison, por ser uma FC que acompanha um homem aparentemente comum que assume diversas identidades por vários planetas, e em torno de quem o destino derradeiro do universo passa a orbitar. A história, uma noveleta, é bem New Wave e inclui diagramação especial e ilustrações feitas pelo artista de FC Jack Gaughan, com direito a recursos concretistas, incluindo um texto composto em espiral. (Ellison foi um dos nomes centrais da New Wave americana.) “Eidolons” é outra história em primeira pessoa, narrada por um ser sobrenatural que encontra um outro, disfarçado de proprietário de uma loja de soldadinhos de chumbo. O encontro coloca nas mãos do narrador um pergaminho com o segredo da imortalidade, e boa parte do conto é composto de 13 excertos enigmáticos desse pergaminho. A história ganhou o Prêmio Locus 1989, assim como “With Virgil Oddum at the East Pole” (uma FC sobre um homem misterioso que cria uma obra de arte para alienígenas nativos de um outro planeta, enchendo o narrador de inveja), que o recebeu em 1986, e “The Function of Dream Sleep” (também em 1989, sobre um homem que vê um monstro quando da morte do seu melhor amigo, desenvolve problemas de sono e vai ver um homem misterioso que explica a ele como é o além da vida). A melhor história do livro, porém, deve ser “Soft Monkey”, ficção de crime que ganhou o American Mystery Award 1988 — conto sobre uma moradora de rua que testemunha um crime e passa a ser caçada pela máfia, fugindo pelos becos e no meio das multidões de Nova York. É uma história dura, com muito sangue derramado Mas ela conserva um conteúdo trágico, porque a sem-teto é uma pessoa enlouquecida por alguma perda em seu passado, carregando uma boneca que ela chama de Alan, e que fará tudo para proteger. O que surge como contraponto à toda a dureza do conto é portanto esse ponto de ternura insana, que serve apenas a alguém que sempre esteve sozinho. Angry Candy ganhou o World Fantasy Award. Um testemunho das razões de Ellison ter sido considerado por tanto tempo como um dos melhores contistas do campo, e, por alguns, da literatura americana.

 

Irlanda: Os Lugares e a História (Irlanda: I luoghi e la storia), de Rosalba Graglia. Lisboa: Verbo, 2001 [1996], 136 páginas. Tradução de Rui Pires Cabral. Capa dura, formato grande. E eu que achava que travelogues e guias de viagem deviam ser o máximo da leitura chata… O texto da escritora italiana Rosalba Graglia faz a diferença, neste livro sobre a Irlanda. Espirituoso, informativo e inteligente, ele também se destaca pela sua simpatia pelo povo irlandês. O livro chegou às minhas mãos emprestado por Taira Yuji, que por sua vez o emprestou de Cristiana Vieira. Muito bem organizado, comenta a história, a paisagem, os costumes, as contribuições literárias (W. B. Yates, James Joyce) e artísticas da Irlanda para o mundo. Mas não deixa de fora o lado mais triste do lugar, mencionando a história de abusos promovida pelo Reino Unido sobre a população irlandesa, nem a questão separatista e a violência entre as duas Irlandas — Norte e Sul —, que perdurou por tanto tempo. Lindas fotografias marcam cada página, mas é o texto de Rosalba Graglia que distingue o livro. Li o livro de arte para embasar um segmento ambientado na Irlanda do século 13, do romance multivolume “Archin”, um projeto de Taira Yuji e do seu Desire Studio.

 

Arte de capa de Ben Baldwin.

A Pequena Caixa de Gwendy (Gwendy’s Button Box), de Stephen King & Richard Chizmar. Rio de Janeiro: Suma, 2018 [2017], 168 páginas. Arte de capa de Ben Baldwin e ilustrações internas de Keith Minnion. Tradução de Regiane Winarski. Capa dura. A mais famosa colaboração de Stephen King com outros escritores é o romance O Talismã (1983), com Peter Straub. Mas ele tem outras, inclusive com os filhos Joe Hill e Owen King. Esta, com Richard Chizmar, editor da revista Cemetery Dance, com a qual King chegou a colaborar, veio ao Brasil em 2018 com um belo tratamento editorial que inclui capa dura e ilustrações internas, em preto e branco (grafite) de ótima qualidade de Keith Minnion, com efeitos granulados muito sutis.

A história começa na década de 1970. Acompanha uma garota de Castle Rock — a cidade ficcional em que King ambientou muitas das suas histórias e romances de horror —, que aos 12 anos recebe de um homem de preto (outro leitmotif favorito de King) uma caixa com botões. Apertando um deles, uma gavetinha abre com um chocolate dentro. Apertando um segundo, a gaveta revela uma moeda de alto valor para colecionadores. O terceiro botão, se apertado, pode vir a causar alguma tragédia longe dali. É bem o tipo de dispositivo fascinante que a dark fantasy americana vem imaginando desde Richard Matheson (1926-2013), cuja história “Button, Button” (1970) virou o filme A Caixa (The Box), de 2009. O próprio King já havia empregado premissa semelhante em “Tudo É Eventual” (“Everything’s Eventual”), uma novela de 1997. A Pequena Caixa de Gwendy passa a acompanhar a menina do título, contando como ela enxuga o seu corpo rechonchudo, ganha formas atléticas, torna-se confiante e capaz, arruma um namorado, perde uma amiga… e também como ela apertou o botão do terror pela primeira vez e qual é o fato terrível que ela imagina ter provocado. Com leveza, a novela explora a psicologia da moça, suas dúvidas, ansiedades, e como ela constrói sua força de vontade para evitar o emprego de um poder tão maior do que ela. Sem dúvida, assim como a protagonista de The Girl Who Loved Tom Gordon (1999) e outros livros e histórias de King, Gwendy é uma personagem feminina encantadora pela sua determinação. A sua história sugere o quão poderoso pode ser um ato de imaginação na construção tanto de um caráter sólido, marcado pela autodeterminação, quanto de um desproporcional sentimento de culpa e de responsabilidade por tragédias que estão além do nosso poder individual de controlar.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Shane Davis.

Superman: Terra Um (Superman: Earth One), de J. Michael Straczynski (texto) e Shane Davis & Sandra Hope (arte). Barueri-SP: Panini Books, 2012, 138 páginas. Arte de capa de Shane Davis. Tradução de Rodrigo Oliveira & Paulo França. Capa dura. Sou eu, ainda procurando os quadrinhos de autoria de Straczynski, e estendendo as minhas leituras do Super-Homem. Na verdade, passei um bom tempo refletindo se valia a pena adquirir este livro em que Straczynski recria a origem do personagem. É sempre um risco, e muitos esforços semelhantes derrapam. Felizmente, não é o caso aqui. De fato, valeu muito o investimento. Na verdade, fiquei surpreso com a resposta emocional que essa HQ despertou em mim. Essa atenção para com a “lógica emocional” (nas palavras da escritora de FC Kelly Robson), ou mesmo lógica moral, do que ele narra é uma das características que distinguem o roteirista conhecido pela criação da série Babylon 5. 

A história começa com Clark Kent arriscando a sorte na cidade grande — Metrópolis, onde faz teste para um time profissional de futebol americano, e para uma vaga em uma empresa de materiais. Fisicamente ele excede, e intelectualmente também, o que é um detalhe importante, considerando o quanto gêneros e formas artísticas populares tendem a se esquivar de personagens inteligentes. A caminho de realizar o sonho americano, Clark hesita quando sua mãe lhe diz que ele deve buscar a ocupação que lhe trouxer felicidade e que melhor empregue seus supertalentos. O rapaz então visita a redação do jornaleco Planeta Diário, onde conhece o idealista Jimmy Olsen e a durona Lois Lane. Enquanto ele reflete sobre as suas possibilidades profissionais, a história, que ia muito bem, retrabalhando o material conhecido da mitologia do herói, de modo que as variações do autor caiam com naturalidade e também de modo interessante e sugestivo, nas fendas antecipadas pelo leitor que conhece essa mitologia, se transforma em uma ficção científica de invasão alienígena, completa com naves gigantes e tropas com armaduras robotizadas. Nesse ponto, achei que o enredo iria se perder, mas mesmo durante as sequências de ação os flashbacks vão preenchendo as lacunas da formação do personagem e garantindo o interesse. Os alienígenas estão na Terra atrás do próprio Superman. Buscam terminar o serviço iniciado com a destruição do planeta Kripton. Essa é uma inovação de Straczynski, eu imagino: a destruição do planeta seria resultado de uma guerra de gerações entre Kripton e um outro mundo do mesmo sistema planetário. A briga de Superman contra o líder dos invasores acontece entre os arranha-céus de Metrópolis, e aí há semelhanças com o filme Homem de Aço (Man of Steel; 2013). Há ainda uma linha narrativa coadjuvante, em que uma cientista militar analisa a nave que trouxe o personagem de Kripton. Os personagens dessa linha não interferem muito no enredo, mas a nave é crucial para virar a mesa sobre os invasores. Para sublinhar a sua participação, Straczynski trouxe uma interessante ideia de ficção científica: os próprios átomos da nave apresentam um código ativado quando Superman sonda um fragmento dela, com a sua supervisão.

Lendo essa HQ, me pareceu que Hollywood tem quase que sistematicamente se apropriado das histórias de Straczynski para realizar produções de menor potencial — como em Thor (2011) e Doutor Estranho (2016). No início de Terra Um, Clark Kent é um jovem melancólico e ensimesmado. Está em busca do seu lugar no mundo, e o conflito indica a ele com clareza qual é esse lugar. Por isso, apesar de toda a morte e destruição, ele sorri no final. Shane Davis tem aquele desenho correto anatomicamente e versátil em termos da representação de roupas e arquitetura, que caracteriza a DC Comics. A arte-final cuidadosa de Sandra Hope reforça suas qualidades. O seu jovem Clark se parece com uma versão alta e corpulenta de Tom Cruise em A Guerra dos Mundos, completa com a jaqueta de capuz. Ao mesmo tempo, Davis homenageia alguns desenhos clássicos de Joe Shuster, o co-criador (com Jerry Siegel) de Superman. O livro é muito bem diagramado, a propósito. Por sua vez, Straczynski não perde o seu senso de lógica moral e fornece uma espécie de epílogo (disfarçado como uma entrevista do Superman dada a Kent) em que o herói não deixa de registrar as perdas sofridas durante a invasão, e faz a sua promessa de se dedicar à proteção da humanidade, sem se colocar a serviço do governo americano.

—Roberto Causo

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Edição Brasileira de Perry Rhodan Lança Episódio 1000 da Série

 

PERRY RHODAN 1000

 

Arte de capa de Johnny Brück.

 

Sob a batuta do editor Rodrigo de Lélis, a Editora SSPG, de Belo Horizonte, continua o seu processo de renovação dos ciclos da série Perry Rhodan, trazendo ao leitor brasileiro marcos como a publicação recente do episódio 800 — e agora, o episódio 1000, O Terrano, que dá início ao ciclo “A Hansa Cósmica”. Tudo isso em um ano no qual a publicação original da série na Alemanha, realizada pela Pabel-Moewig Verlag, alcançou a marca assombrosa de 3000 episódios — fato de que já tratei aqui.

O Perry Rhodan japonês. Edição 500. A tradução é de Yooichi Shimada.

Certamente, as facilidades de produção e publicação de e-book contribuem para a condução simultânea dos diversos ciclos. Atualmente, a SSPG trabalha apenas com essa modalidade. Uma das marcas do projeto editorial de Perry Rhodan na Alemanha, seu país de origem, também inclui reedições da série e recapitulações agrupadas em volumes capa dura. Vale lembrar que o lançamento do episódio 1000 também ocorreu há pouco no Japão, por exemplo. Nesse país, o marco se deu em 2015, com a publicação do volume 500 pela Hayakawa (lá os volumes são duplos). No mundo globalizado, marcos do passado pipocam no espaço e no tempo, atestando a persistência da criação de K. H. Scheer e Walter Ernsting.

O fenômeno cult de Perry Rhodan investe não só na longevidade e nos números assombrosos, não igualados por nenhuma outra série de ficção científica onde quer que olhemos. Seus responsáveis também investem na sobrevivência e acessibilidade do conjunto todo da série — a SSPG participa desse empenho para mantê-la longe da pecha de perecível ou descartável.

Igualmente, é notável que essa gigantesca space opera criada em 1961 tenha abrigado autores de grande competência e talento como Scheer e William Voltz — este último, o autor deste episódio de número 1000. Voltz está ciente de que se trata de um momento muito especial, e dedica a edição “aos leitores de Perry Rhodan”, sem os quais e ao longo de décadas, a série não teria passado da sua previsão inicial de cerca de 15 episódios. A edição original, de 1980 (publicada na Alemanha Ocidental), mereceu capa dupla com arte de Johnny Brück, repleta de entonações épicas, evocações de 2001: Uma Odisseia no Espaço (dirigido por Stanley Kubrick, 1968) e capricho de execução incomum, mesmo mantendo a sua alma pulp.

 

A edição original do episódio 1000 original. Alemanha. Arte de capa de Johnny Brück.

 

O conceito do momento especial marca toda a estrutura de O Terrano. Em certo instante, passando da metade, há uma longa recapitulação de tudo ou quase tudo que aconteceu desde que o astronauta americano Perry Rhodan se deparou com uma nave alienígena oculta no lado escuro da Lua, no ano de 1971 (desse universo ficcional compartilhado). Contudo, uma dimensão cósmica ainda maior delineia os contornos do episódio. Ele abre com um alienígena chamado Carfesch, emissário do cosmocrata Tiryk, chegando ao mundo de Ambur, uma criação da superinteligência conhecida como Aquilo — personagem irônico e misterioso presente desde o primeiro ciclo (episódios 1 a 49). Carfesch traz com ele dois ativadores celulares especiais, fornecidos pelos cosmocratas, e uma tarefa para Aquilo: encontrar candidatos a portadores desses dispositivos que conferem imortalidade relativa. Os escolhidos se tornarão auxiliares na tarefa da superinteligência em preservar e estabilizar a “concentração de poder” aos seus cuidados, seguindo o interesse dos cosmocratas.

É assumidamente difícil compreender a natureza de Aquilo, inteligência formada, assim como aquela do clássico de Arthur C. Clarke O Fim da Infância (1953), por uma coletividade de consciências agregadas ao longo de muitas eras. Imagine então os cosmocratas, que se encontrariam em uma escala acima de Aquilo, subordinando-o à sua própria hierarquia de propósitos.

William Voltz (1938-1984), porém, é um escritor com inclinação muito forte para o intimismo, para o drama individual. É natural que ele corte, portanto, das figuras de de Aquilo e de Carfesch (logo absorvido pela coletividade do Imortal) para uma dupla de E.T.s em patrulha de reconhecimento em busca dos candidatos a portadores dos ativadores celulares especiais. Eles chegam ao que é claramente o Sistema Solar na época em que Atlan, o lorde arcônida que estabeleceu uma colônia alienígena na Terra da antiguidade pré-histórica (a Atlântida batizada em sua homenagem), luta contra os druufs, civilização invasora de uma dimensão temporal milhares de vezes mais lenta do que a do nosso universo. Atlan, sabemos pela leitura do segundo ciclo da série, foi o primeiro a receber um ativador celular na galáxia.

De modo semelhante ao que acontece em outro romance de Clarke, A Cidade e as Estrelas (1956), Carfesch pode sair da inteligência coletiva (ou de um grande computador, no caso do livro de Clarke) e reassumir sua individualidade — para examinar a tarefa destinada à superinteligência e realizada por seus povos auxiliares. Voltz logo se foca em mais uma figura individualizada: o explorador Rook, um alienígena representante da tendência dominante na escrita de Voltz: o solitário desesperado em luta contra forças muito superiores. A sua tarefa é sobreviver tempo suficiente, em sua nave sucateada e invadida por alienígenas hostis, para transmitir a mensagem de que um novo candidato foi encontrado no Sistema Solar, milhares de anos depois.

Desta vez, Carfesch vem examinar pessoalmente o candidato em questão, um menino americano de 9 anos de idade.

É uma delícia para um fã da série ter um vislumbre de Rhodan em sua infância. O ano é 1945 e os Aliados acabam de alcançar a paz no teatro europeu da Segunda Guerra Mundial. Perry visita a fazenda administrada pelo seu tio Karl no Meio Oeste americano, e é descrito como um menino melancólico, leitor de ficção científica. Carfesch fica horrorizado com o conflito e intrigado com a criança. Ele e Aquilo discutem o que fazer. Mais cauteloso, Aquilo planta uma semente para que no futuro o terrano venha até ele, provando que Perry e sua espécie belicosa mereceriam, respectivamente, o ativador celular e o destino superior possivelmente reservado a ela. Um toque sensível de Voltz está em caracterizar a semente como uma proteção contra as desilusões próprias do crescer:

“O mundo das crianças é um mundo de fantasia, maravilha e aventura. Tudo é possível nesse mundo. Se, um dia, os adultos deixassem de educar seus filhos para a vida em um mundo de processos causais, talvez a imaginação das crianças pudesse ser suficiente para levar algumas dessas maravilhas e aventuras para a vida adulta — e o mundo seria completamente diferente.”

Aquilo exclama: “Mas que tragédia, que as crianças sejam mais sábias que os adultos.” E em seguida, declara: “Vou trazer esta pequena criatura até mim — por um breve momento. Vou fazê-la olhar através da janela para o Cosmo e me certificar de que o fogo nunca se apague nela.

A dádiva da imaginação… O conceito singelo unifica os vários focos deste episódio, que tem estrutura fragmentada e opõe o individual e o mundano ao cósmico e ao maravilhoso, além do passado e do futuro distantes. Muito habilidoso, dentro da sua simplicidade habitual Voltz mantém um tom objetivo mas cintilante, que sustenta as abordagens diferenciadas dos vários segmentos. Se ele havia tratado do passado da série, sua evolução até o momento presente vivido por Rhodan, quando o personagem entra plenamente em cena o que o autor apresenta é um vislumbre do seu futuro.

Rhodan caracterizado como mais um dos solitários de Voltz. Disfarçado, ele, um imortal, visita bares e outros locais púbicos, em busca de uma reconexão com a base da condição humana. É capturado por uma dupla de robôs e levado pela segunda vez à presença de Carfesch. A cena lembra a perseguição nas esteiras transportadoras de As Cavernas de Aço (1953), de Isaac Asimov.

Agora, Rhodan vai até Aquilo, que lhe dá uma visão de como os cosmocratas organizam a evolução do universo. Também, dos conflitos existentes nesse nível, inclusive entre o próprio Aquilo e seu arqui-inimigo, a superinteligência Seth-Apophis. Uma visão repleta de sentido do maravilhoso, outro aspecto da FC e da space opera — aqui, dentro do escopo avassalador de evolução e de projeção da consciência que chamamos de “stapledoniano”, em referência ao inglês Olaf Stapledon (1886-1950), um dos primeiros a escrever nessa escala. Toda space opera com uma perspectiva teleológica semelhante — a sugestão de que tudo conduz a uma finalidade predeterminada e especial — fornece um contrapeso ao aventuresco e acena como algo mais do que o entretenimento superficial.

Nesse ponto, interessa notar que temos mais do personagem, do que se tem em geral na série. Conforme cresciam os ciclos e a origem de Rhodan foi ficando para trás, mais os escritores passaram a hesitar no emprego direto do personagem e em investir na sua subjetividade. O crítico inglês Adam Roberts, cada vez mais lido e citado no Brasil, traçou a interessante hipótese (no ensaio “Perry Rhodan’s ‘Electric Personality'”) de que a caracterização cada vez mais vaga do personagem representa uma desconstrução da figura do “grande líder das massas”. De qualquer modo, Voltz, ao contrário, não tem qualquer melindre e usa a subjetividade do herói para ancorar muito das novas informações que Aquilo apresenta.

Mais uma vez, Volts tempera o cósmico com o mundano e o pessoal. Usa vinhetas que singularizam personagens às voltas com opressão, racismo, crime, abuso e corrupção. Um panorama da condição humana no início da década de 1980, com sua dramática instância da guerra fria pós-guerra do Vietnã, mas toda vinheta termina com a afirmação de que o personagem é “um terrano”. O último deles é o próprio Rhodan, símbolo, desde sua criação em 1961, do melhor que a humanidade pode produzir.

O Terrano não apenas maravilha, mas comove. Recupera a atmosfera de confronto da humanidade com o cósmico, própria do primeiro ciclo, e ao mesmo tempo soa como um trabalho muito pessoal de Voltz. Uma pequena joia brilhante, que a SSPG presenteia aos seus leitores.

O Terrano (Der Terranen), de William Voltz. Tradução de Ernst Weissmann. Arte de capa de Johnny Brück.

 

—Roberto Causo

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