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Leituras de Novembro de 2018

Em novembro de 2019 aconteceu o IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional, nas dependências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Fui convidado pelo organizador Flavio García para apresentar uma conferência, e na preparação dessa conferência pouco tempo sobrou para as leituras habituais. Mesmo assim, o mês trouxe alguma leitura de ficção científica e, especialmente, da pioneira antologia das melhores histórias brasileiras de horror, organizada por Marcello Branco & Cesar Silva.

 

Home from the Shore, de Gordon R. Dickson. Nova York: Ace Books, 1.ª edição, 1979 [1978], 122 páginas. Ilustrações de James R. Odbert. Posfácio de Sandra Miesel. Paperback. Assim como na série Dorsai, em Home from the Shore o escritor canadense-americano Gordon R. Dickson (1923-2011) apresenta uma espécie de proto-divisão da humanidade entre conservadores e progressistas — estes determinados a encararem o futuro no espaço e em outros planetas. Neste romance curto, após duas gerações apenas, humanos que colonizaram os mares do nosso mundo começam a se diferenciar daqueles que ficaram em terra. Jovens são selecionados para se tornarem cadetes espaciais, mas a empreitada se transforma em um revés para toda a comunidade dos humanos do mar. Isso acontece depois que eles realizam um protesto, involuntariamente coletivo, contra a “caça para propósitos científicos” de uma espécie alienígena volante que vaga pelo Sistema Solar. De algum modo, o ambiente aquático desses jovens nutre uma sensibilidade incompreensível para os outros, e que permitiu uma empatia com tais seres, percebendo-os como sencientes. Vindos de uma sociedade libertária, quando passam a ser perseguidos pelas autoridades a deserção é a solução imediata.

O líder desse grupo é o jovem Johnny Joya, que, quando volta para a sua comunidade subaquática, descobre ser pai de um menino esperto e um tanto ressentido. Nesse ponto, a história muda substancialmente de tom, que se torna mais introspectivo e literário. A comunidade tem a habilidade de se desfazer em habitats autônomos chamados Lares, e por algum tempo é como um jogo de gato e rato, até que a trama se dirija a uma operação de resgate aos prisioneiros, enfiados numa instalação de Nova York. A missão é sabotada por um traidor muito próximo de Johnny, que, depois de perder a esposa, desiste do conflito e parte com o filho pequeno, Timo, para viver, sem os Lares high-tech, diretamente do mar como as gerações anteriores. Ele sugere o mesmo aos outros, em uma dispersão que vai dificultar que os humanos da terra continuem a persegui-los. No posfácio, Sandra Miesel, uma estudiosa da obra de Dickson, explica que Home from the Shore é parte de uma sequência completada com The Space Swimmers, protagonizada por Timo. Segundo ela, Dickson apresenta uma dicotomia entre inconsciente/conservadorismo e consciente/progressismo. Para além desse aspecto filosófico, o livro é uma aventura movimentada e colorida no espaço e no oceano, envolvendo golfinhos e orcas, e um ode à juventude e à simplicidade na vida.

Home from the Shore foi concebido como um livro ilustrado com elegantes desenhos em autocontraste de James R. Odbert, bem fundidos com o texto. Eles formam uma fusão equilibrada do conhecido e do futurista, e de linhas retas e formas ovoides e onduladas. Muitas vezes, Dickson soava bastante hiperbólico com respeito ao próprio trabalho e projetos, e neste caso ele afirma que a cooperação de texto e arte aqui seria única, não só no campo da FC quanto no âmbito editorial. Provavelmente, não é tanto assim, mas ele tem uma observação no prefácio que vale ser reproduzida:

“A ilustração sempre foi considerada como uma parte dos livros, até o começo deste século, quando ela começou a ser expulsa da maior parte da ficção por razões de custo editorial. A única exceção a essa tendência estava na ficção escrita para os jovens; e mesmo nesse tipo de material de litura elas foram severamente limitadas. Uma concepção errônea do editor cresceu para uma aceitação generalizada de que eram as palavras, e apenas as palavras, que os leitores adultos queriam, e não imagens.

“Como ocorre frequentemente no campo literário, essa concepção errônea foi gerada e aceita sem qualquer referendo real daqueles mais interessados — os próprios leitores. O resultado é que ela existia até bem perto do momento histórico presente, com uma exceção. A exceção era a ficção científica, a única área da literatura em que se tinha a oportunidade de responder diretamente aos autores tanto em pessoa quando por carta; e na qual, apropriadamente, eles expressavam sua preferência não apenas por ilustrações nos livros que leem, como por boas ilustrações — ilustrações não expressas apenas nas cores tipo poster da moda do momento e nos padrões frívolos da publicidade, sem qualquer preocupação real com a história na qual é aplicada. A ilustração que os leitores demonstravam desejar era aquela que verdadeiramente espelhava a história ilustrada; e que tentasse trazer para um foco agudo e artístico as imagens gerais dos personagens e cenas formadas na mente conforme a história fosse lida.” —Gordon R. Dickson.

Oneironautas, de Fábio Fernandes & Nelson de Oliveira. São Paulo: Editora Patuá, 2018, 90 páginas. Texto de orelha de Santiago Santos. Livro de bolso. Este livro é uma incomum colaboração entre dois nomes de peso dentro da ficção científica brasuca moderna — Fábio Fernandes, acadêmico e ficcionista da Segunda Onda da FC Brasileira, e parte do Grupo da Renovação que fez a ponte com a Terceira; e Nelson de Oliveira, autor consagrado no mainstream literário que, como o heterônimo “Luiz Bras”, é um dos autores mais interessantes da Terceira Onda e uma das suas melhores lideranças e cabeças pensantes. Uma nota no fim do livro observa que ele deveria ter saído em 2016, quando os dois escritores completariam 50 anos de idade. As eventualidades da escrita e da edição determinaram que sairia apenas em 2018. Eu o li enquanto aguardava meu voo para o Rio de Janeiro, onde ia participar, por obra e graça do Prof. Flavio García e da CAPES, do IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional.

A história enfoca uma dupla de viajantes do tempo que participam de uma festa eterna na qual encontram não apenas alienígenas mas também várias versões deles mesmos. No capítulo 3, porém, surge uma ex de Fábio, uma mulher negra que tentou matá-los em um outro contínuo do espaço-tempo. Além disso, os outros foliões estão atrás deles por terem espalhado um vírus de insônia entre os “oneironautas” — sendo que os saltos entre os mundos paralelos se dá por meio de sonhos. A narrativa, cheia de referências culturais pop e surrealistas, se desenvolve em capítulos curtos, com diálogos exaltados e sempre apresentando um gancho no final. Cada capítulo é narrado em primeira pessoa, mas sob o ponto de vista alternado de um Nelson ou um Fábio (e vice-versa). Difícil saber, mas me parece que a narrativa foi construída como uma espécie de round-robin, sem planejamento, com um escritor pegando de onde o outro parou. Oneironautas é divertidíssimo, especialmente para quem conhece a dupla e consegue visualizar os dois trilhando o seu caminho entre as dimensões da Festa Eterna.

 

Arte de capa de Flávio Correia Lima.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror, de Marcello Simão Branco & Cesar Silva, eds. São Paulo: Devir Livraria, 2018, 272 páginas. Arte de capa de Flávio Correia Lima. Brochura. Há décadas que Cesar Silva e Marcello Simão Branco vêm contribuindo, individualmente ou em dupla, para o avanço da ficção científica e fantasia no Brasil. Os criadores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica (encerrado em 2014) retornaram em 2018 com um trabalho fabuloso, esta antologia que se associa a outras que têm surgido em tempos recentes valorizando a ficção de horror e, em particular, o horror no Brasil. Entre elas estão a internacional Contos Clássicos de Terror, de Julio Jeha, ed. (Cia das Letras; 2018); e a anterior Páginas Perversas: Narrativas Brasileiras Esquecidas (Appris Editora; 2017), de Maria Cristina Batalha, Júlio França & Daniel Augusto P. Silva, eds.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror é um dos projetos deixados por Douglas Quinta Reis, no inventário de projetos que ele conduzia na Devir Brasil. É maravilhoso que tenha sido completado. A seleção de histórias começa lá no século 19 e vem até o início do nosso século 21. Inclui “A Vida Eterna” (1870, de Machado de Assis; “Acauã” (1892), de Inglês de Sousa; e o mais antologizado “Demônios” (1893), de Aluísio Azevedo. O destaque do período para mim, porém, é “Assombramento (História do Sertão)” (1898), de Afonso Arinos, conto mais longo e com fortes marcas regionalistas, que pinta um quadro bastante expressivo da casa mal-assombrada — uma casa-grande de fazenda, no caso, e que o corajoso vaqueiro Manuel decide enfrentar sozinho, passando a noite lá dentro. No que pode ou não ser um episódio sobrenatural, ele sai machucado mas de coragem intacta, em uma narrativa de força incomum — que encontra um estranho paralelo na bela ilustração de capa de Flávio Correia Lima.

A atmosfera tétrica, carregada de impressões de medo e de perturbações mentais, é a tônica das narrativas selecionadas do começo do século 20 — “O Defunto” (1907), de Thomaz Lopes; “A Peste” (1910), de João do Rio; e “Rag” (1922), de M. Deabreu —, até encontrarem o equilíbrio perfeito em uma obra-prima de Gastão Cruls, autor do clássico da FC de mundo perdido A Amazônia Misteriosa (1925): “O Espelho” (1938), em que a influência de Edgar Allan Poe se faz sentir da melhor maneira, numa história de obsessão sexual. Daí em diante, já na segunda metade do século 20, as histórias ganham variedade de enfoque, tom e tema, a partir de “Tuj” (1968), tentativa de uma espécie de impressionismo New Wave do autor da Primeira Onda da FC Brasileira Walter Martins, também publicada na França (na revista Antarès). Muito vista no campo da literatura infanto-juvenil, Márcia Kupstas está no livro com uma releitura de terror e erotismo da história de Pinocchio, com o conto “Geppeto” (1987). A década de 1990 é representada por “Bença, Mãe” (1992), de Júlio Emílio Braz; “Solo Sagrado” (1995), uma história de fanatismo religioso de Carlos Orsi; o meu “Trem de Consequências” (1995), uma história de trato com o diabo; até alcançar seu ápice na fusão da imaginação gótica e da exploração da herança histórica de violência brasileira, na novela de Tabajara Ruas, “O Fascínio” (1997). “Os Internos” (2007), de Gustavo Faraon, representa o século 21, mas é o conto de horror folclórico “Bradador” (2014), de Braulio Tavares, que fecha esta histórica antologia com chave de ouro. Um livro necessário, e uma realização importante de Branco & Silva, que aqui fornecem uma moldura para a produção de ficção de horror no Brasil, frisada pelo seu ensaio panorâmico e aprofundado, “Trajetória e Caracterização de uma Ficção de Horror Brasileira”, que serve de introdução ao livro.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Thomas Campi.

A História de Joe Shuster: O Artista por Trás do Superman (The Joe Shuster Story), de Julian Voloj (texto) & Thomas Campi (arte). São Paulo: Editora Aleph, 2018, 192 páginas. Capa de Thomas Campi. Tradução de Marcia Men. Há alguns anos, resenhei o livro Homens do Amanhã: Geeks, Gângsteres e o Nascimento dos Gibis (Men of Tomorrow; 2004), de Gerard Jones, para o Terra Magazine. Foi uma leitura fascinante, centrada na presença de artistas e empresários judeus na indústria dos quadrinhos, com muita interface com a ficção pulp de FC, detetive e aventura — e com a história da criação do super-homem pela dupla Jerry Siegel & Joe Shuster como principal estudo de caso. Afinal, a criação do homem de aço resultou no subgênero dos super-heróis nos quadrinhos. Depois de ler o livro de Jones, fica fácil de entender um romance como As Incríveis Aventuras de Cavalier & Clay (2000), de Michael Chabon, que explora a trajetória dos judeus-americanos no campo dos quadrinhos. Eu ainda adquiri, anos mais tarde em uma liquidação na loja Terramédia (hoje, Ominiverse), Man of Two Worlds: My Life in Science Fiction and Comics, de Julius Schwartz com Brian M. Thomsen, autobiografia de um agente literário e roteirista de quadrinhos que também atuou com Super-Homem.

Este romance gráfico de Voloj & Campi é uma biografia panorâmica, contada a partir de um artifício interessante: idoso e empobrecido, Shuster é retirado de um banco de praça por um policial na década de 1970. O tira paga a ele uma sopa num diner, e ali, depois de se apresentar como um dos criadores do Super-Homem, ele narra a própria história. Nesse ponto, o estilo da arte muda de traço e cor para mancha e cor, até o momento em que a narrativa se reencontra com o personagem novamente na década de 1970. Os avós de Shuster eram judeus russos que saíram do país fugindo dos pogroms, indo primeiro para a Holanda. Seus pais se conheceram em um hotel de Roterdã e migraram para o Canadá, e então para Cleveland, nos EUA, onde seu pai foi trabalhar como alfaiate. O primeiro contato do pequeno Joe com os quadrinhos foi com as tiras e páginas dominicais das HQs “sindicalizadas” (distribuídos a diversos periódicos país afora) que seu pai lia para ele. Campi brinda o leitor com um lindo painel em que Joe folheia os jornais que continham histórias dos Sobrinhos do Capitão e de Little Nemo in Slumberland, sua tira favorita. Joe conhece Jerry Siegel no high-school e o interesse dos dois pela ficção científica das pulp magazines e pelos quadrinhos fortalece a amizade. A obra de Voloj & Campi mostra os dois editando fanzines e colaborando com jornais locais, e criando personagens juntos, seguindo o modelo da aventura — o campo literário mais forte nas pulps. No processo, a narrativa passa pela morte do pai de Siegel, um comerciante, de ataque cardíaco ao sofrer um assalto a mão armada. E também pelo instante em que Siegel antecipa o surgimento das revistas em quadrinhos ao produzir o projeto do que chamou de “revista pulp em quadrinhos” (na época, as HQs apareciam como anexos em revistas pulp normais), mas que não conseguiu realizar antes do lançamento de Detective Dan, a primeira revista em quadrinhos. A dupla muda seu foco para oferecer material à editora dessa publicação, controlada pelo escritor pulp Major Malcolm Wheeler-Nicholson. O Super-Homem, enquanto isso, já vinha sendo gestado na cabeça de Siegel — primeiro como um vilão de FC pulp no fanzine dos dois, Ficção Científica: A Vanguarda da Civilização Futura (pelo qual Siegel levou um puxão de orelha da sua professora de inglês). Siegel chegou a pensar que o Super-Homem viria do futuro, mas achou que um alienígena chamaria mais a atenção. O personagem só sairia na revista Action Comics em 1938, depois que o Major já havia passado adiante a sua editora, fazendo a dupla de criadores cair nas mãos de empresários de caráter duvidoso como o ex-pornógrafo Harry Donenfeld e Julius Liebowitz. Os pilantras compraram não apenas os direitos de reprodução do personagem, mas o próprio personagem, por US$ 412,00. Por mais que fosse uma graninha em 1938, toda vez que a dupla via um programa de rádio, um seriado ou um anúncio empregando o herói, ele percebiam que tinham sido engabelados. A luta por uma compensação justa pelo personagem ocupa grande parte do romance gráfico, tudo narrado com grande habilidade e brilho artístico que tornam este livro uma joia para o fã de quadrinhos e também desse momento pujante do capitalismo literário da era pulp americana. Há detalhes interessantes como o interesse romântico de Joe pela modelo Jolan/Joanne que posou para ele mas que acabou se casando com o amigo; o fato de ninguém menos que Stan Lee ter escrito contos de Super-Homem para que as revistas tivessem um benefício dos correios americanos; a vergonha que Joe sentia por ter desenhado fetiche e bondage para revistinhas do submundo da pornografia, nos tempos das vacas magras; e a possível morte violenta de Donenfeld (que tinha conexões com a máfia).

Quando digo que esta é uma biografia panorâmica, em parte é por detalhes que falam também da época e de como os quadrinhos sofreram com campanhas moralizadoras, com a caça às bruxas do macartismo e também da situação dos judeus na sociedade americana. Esta é a história de dois nerds que abriram um campo que hoje é bilionário — o dos super-heróis — e que criaram um dos personagens mais icônicos da cultura popular. Meu fascínio pelo contínuo pulp da FC e dos quadrinhos é igualado e recompensado por Voloj & Campi quando eles incluem notas ilustradas no final do livro, uma leitura tão deliciosa quanto a HQ propriamente dita. Apesar da tradutora ter sido presa de falsos cognatos aqui e ali, e da narrativa não ter mencionado algumas fontes conhecidas na inspiração para o herói, recomendo o livro com grande ênfase e alegria. Muito grato à Aleph, que tem abordado muitos produtos cult como Watchmen e a FC clássica, e que acertou na mosca com A História de Joe Shuster.

—Roberto Causo

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Leituras de janeiro de 2017

 Janeiro foi um mês de muitas leituras interessantes e variadas para mim. Partilho algumas anotações sobre os livros cuja leitura completei no primeiro mês de 2017.

 

Trópicos Utópicos, de Eduardo Giannetti. São Paulo: Companhia das Letras, 1.ª edição, 2016, 210 páginas. Capa dura. O economista e intelectual Eduardo Giannetti deu uma entrevista para Miriam Leitão na GloboNews mencionando este livro, que procurei imediatamente por tratar daquilo que o autor chama de “utopia brasileira”. Me pareceu tocar o meu conceito de “sonho brasileiro”, que explorei pontualmente em vários textos diferentes — a noção de que se pode vir de qualquer parte do mundo e encontrar aqui uma vida simples e descomplicada, em contato com a natureza e sem divisões étnicas, religiosas e ideológicas marcantes. Tem, é claro, o sonho americano como contraponto, e Giannetti também explora a versão ianque (que se pode vir aos EUA vindo de qualquer parte do mundo e encontrar lá a fama e a fortuna) como contraponto da sua utopia brasileira.

Giannetti é muito lúcido e erudito ao discutir as mazelas modernas, sem cair na visão “apocalíptica” do modernismo/pós-modernismo. Mas concentra sua discussão da utopia brasileira nas páginas finais, apelando para os “suspeitos usuais” (Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro) e concluindo com aquilo que é basicamente um apelo, sem fundamentá-lo nem dar pistas de como chegar a essa utopia. Eu concordo plenamente, mas gostaria de mais força no argumento. Fisicamente é um livro simpático, mas com um formato de texto incomum, não necessariamente positivo — são micro-capítulos, vários por página ou um em uma ou duas páginas, que se comunicam mais por subordinação do que por coordenação.

 

Teoria do Drone (Théorie du drone), de Grégoire Chamayou. São Paulo: Cosac Naify, 2015 [2013], 288 páginas. Tradução de Célia Euvaldo. Brochura. Uma das questões políticas, militares e tecnológicas mais graves da atualidade é o emprego de veículos aéreos não tripulados em ataques contra “alvos assimétricos”, principalmente na assim chamada “guerra contra o terror”. Minha própria série As Lições do Matador trata de tema próximo, uma vez que as naves robôs dos alienígenas tadais são a principal oposição aos assuntos humanos na galáxia. Este ensaio teórico sobre a drone warfare americana, escrito pelo filósofo francês Grégoire Chamayou, um especialista em história das ciências, é o melhor texto sobre o assunto que encontrei até o momento.

Chamayou resgata informações, cita especialistas e teoriza sobre a guerra aérea e a contrainsurgência pelo ar — as práticas que antecedem o surgimento do drone de ataque. Trata dos princípios teóricos do sujeito como objeto legítimo de caça, num contexto em que divisões entre combatentes e não combatentes, países oficialmente em guerra e espaços nacionais delimitados por fronteiras tornam-se indistintos. O corpo humano individual (muitas vezes, combatentes apenas “presumidos”) torna-se o alvo das hostilidades. Ele opõe aos VANTs o conceito do kamikase, citando, de um lado, a distância quase absoluta do videogame, e de outro, o “engajamento integral” representado pelo sacrifício do piloto suicida. Na seção “Necroética”, desmascara os argumentos humanitários no uso do drone de ataque, e a seguir mostra o quanto ele se afasta dos princípios consagrados da filosofia do direito de matar em combate. O resultado é a guerra facilitada, trivial, inquestionável. Nesse sentido, expõe como a distância física entre aparelho e piloto projeta-se como uma distância intelectual e discursiva na qual o pacifismo e o questionamento das decisões militares e jurídicas dos governos democráticos tornam-se mais difíceis de terem efeito. Chamayou não deixa de lado as discussões atuais sobre o drone autônomo, robô de fato, que decidirá por meio de um algoritmo, como e quando alguém deve ser morto — nem esconde a sua indignação com o uso atual dessas armas. Drones têm aparecido em vários filmes de FC e de super-heróis, além dos noticiários, e este é o livro para se entender a sua problemática.

 

Arte de capa de Neil Roberts

The Recollection, de Gareth L. Powell. Osney Mead: Solaris, 2011, 366 páginas. Capa de Neil Roberts. Paperback. Este é um romance de space opera e viagem no tempo, com boas ideias e estrutura interessante: na Terra dos dias de hoje, portais passam a se abrir aleatoriamente, e o irmão de um dos protagonistas é tragado por um deles. Cada portal leva a um planta diferente, mas mantendo a velocidade da luz como barreira final no universo. Desse modo, viaja-se também para o futuro. O herói, com a mulher do irmão, encontram outro portal em uma fazenda e se organizam para entrar nele em busca do desaparecido. Trata-se de um triângulo amoroso, porém, e isso traz alguma tensão psicológica ao tema aventuresco. Ao mesmo tempo, no futuro distante, desenvolve-se uma trama paralela em que uma mercadora espacial, um pesquisador erudito, e estranhos alienígenas orbitam a tal da Recollection (“A Lembrança”), uma arma do juízo final deixada à solta na galáxia para ameaçar todas as formas de vida — como o Enxame do videogame Halo.

O que a Recollection parece fazer é agressivamente incorporar tudo a um único banco de dados e inteligência artificial, desfazendo estruturas em componentes informacionais e transformando pessoas em zumbis. Mas os antigos também deixaram armas secretas para serem usadas pela comunidade espacial do futuro. Lá na frente, as duas linhas narrativas se juntam e sem completam, num conceito que recicla traços da new space opera. Sem aprofundar a maioria das situações, o romance mesmo assim funciona, firmando uma imagem de certa força. Um livro do qual gostei, sem saber exatamente por quê.

 

Halo: Coleção Poster de Luxo, Anônimo, ed. São Paulo: Editora Europa/Insight Editions, 2014, 40 páginas. Eu não jogo videogames, mas gosto de arte de ficção científica e essa indústria tem concentrado um número enorme de talentos. Para me inspirar na escrita das histórias das séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue, muitas vezes eu me volto para artes produzidas para videogames — especialmente aqueles de space opera militar como Halo e Mass Effect, e até li alguns tie-ins, romances baseados neles (como a Trilogia Forerunners, do premiado Greg Bear).

Este é um livro de arte sem texto, concebido como um conjunto de 40 posters que você pode destacar e usar como quiser, mas com imagens ocupando as duas páginas de uma mesma folha, o que dificulta as coisas (dura escolha). As ilustrações não são creditadas, infelizmente. Dá pra reconhecer algumas artes do francês Sparth (Nicolas Bouvier), visto no Brasil nas capas da trilogia de Bear, e na capa de Guerra do Velho, de John Scalzi, space opera militar publicada aqui pela Editora Aleph. A maioria é de artes digitais do tipo “épica”, dinâmica ou arte conceitual de interiores, paisagens e estruturas. Há também artes comemorativas de aniversários ou edições especiais do game. Em geral, são bonitas e atraentes, com sugestões de efeitos 3D e de luzes e sombras esmaecidas ou sobrepostas como se tem visto na arte digital de hoje. Para quem acompanha o jogo, as imagens vão até o Halo 4.

 

Arte de capa de Stephan Martiniere

The Three-Body Problem, de Cixin Liu. New York: Tor Books, 2014 [2006], 400 páginas. Capa de Stephan Martiniere. Traduzido para o inglês por Ken Liu. Capa dura. A publicação de ficção científica no Brasil tornou-se tão dinâmica nos últimos dois anos, que permitiu o aparecimento deste romance chinês de FC hard — publicado aqui como O Problema dos Três Corpos, pela Suma de Letras. Eu li a edição americana, com essa bela capa do premiado artista digital Stephan Martiniere.

O livro, que foi um best-seller na China e sucesso nos Estados Unidos, traz muitos aspectos extremamente intrigantes, e grande complexidade de situações. Melancólico, envolve o desencanto chinês com a terrível Revolução Cultural de Mao Tsé-tung na década de 1960, combinada com a atual situação ambiental desesperadora do planeta. Os aspectos culturais e históricos chineses são fascinantes. Mas este é um romance de primeiro contato com alienígenas, realizado por um grupo de pessoas da Terra que se colocam a serviço e uma civilização de Alfa Centauri, que, eles supõem, irá resolver os graves problemas que nos atingem. Para isso, um videogame tipo Second Life é usado para recrutar gente de alto nível para o movimento. É um emprego criativo daquilo que no Brasil chamamos de “cultos ufológicos”, muito vistos num tipo de FC brasileira incidental e proselitista. No livro, é um recurso fascinante, que foi me conquistando aos poucos pelo atrito entre uma sensibilidade chinesa com a ocidental. A prosa do romance de Cixin Liu, porém, combina o uso constante de frases afirmativas e perguntas retóricas, com um poucos momentos de mergulho na consciência dos personagens ou de descrição poética. Às vezes, traz resoluções ligeiras e passa um ar juvenil.

 

Arte de capa de Howard Chaykin

The Descent of Anansi, de Larry Niven & Steven Barnes. New York: Tor Books, 1.ª edição, setembro de 1982, 278 páginas. Capa de Howard Chaykin. Paperback. A década de 1980 foi um período formativo importante para mim como leitor de ficção científica. Quando vi este romance de FC hard de 1982, que menciona o Brasil e tem capa do quadrinista Howard Chaykin, coloquei-o no começo da fila. Ele se passa num futuro próximo em que uma estação espacial privada, a Falling Angels, é criada conectando tanques de combustível externo do space shuttle rebocados para perto da Lua por motores iônicos. O tema da empresa espacial privada é um traço libertariano muito comum na FC americana, herdada de Robert A. Heinlein. Niven é um monstro sagrado da FC hard, e Barnes é um dos poucos afro-americanos militando na área. Talvez daí o herói do romance ser um esquimó com traços afro-americanos…

A NASA rompeu com a Falling Angels, que fabrica materiais em microgravidade. Seu carro-chefe é um cabo ultra-fino e ultra-resistente, disputado por uma empresa brasileira e outra japonesa. A japonesa faz uma oferta melhor, e a brasileira articula um plano mirabolante — envolvendo terroristas árabes, um ataque de míssil orbital e um falso resgate usando shuttles brasucas comprados da NASA — para se apossar do carregamento de cabos. Ela conta com o fato do pessoal da estação estar desprotegido legalmente. O romance é uma problem story em que a tripulação que foi entregar o cabo tem que descobrir como baixar o seu shuttle danificado para atmosfera da Terra. O maior atrativo é a ação orbital, com direito a mercenários brasucas fazendo uma abordagem de nave a nave, via atividade extra-veicular. A caracterização e o desenvolvimento são um pouco superficiais, mas eficientes. O Brasil do futuro apresentado no livro extrapola o da época, recém-saído do “milagre econômico” mas autoritário e corrupto (o país ainda vivia a ditadura militar), vendendo armas e serviços de construção (e até material físsil clandestino, dizem) a países como Líbia e Iraque. A FC brasileira daquele período (a Onda de Utopias e Distopias) também enfocou esse Brasil próximo dos militares — como A Invasão (1979), de José Antonio Severo, e A Ordem do Dia (1983), de Márcio Souza — ou de empresas corruptoras — como a novela pop Miss Ferrovia 1999 (1982), de Dolabella Chagas (empreiteiras, no caso).

 

Arte de capa de Jean Philippe

Na Eternidade Sempre é Domingo, de Santiago Santos. Cuiabá, MT: Carlini & Caniato Editorial, 2016, 140 páginas. Capa de Jean Philippe. Brochura. O Universo GalAxis trata de um futuro em que a América Latina está fundida em um bloco político coeso (um sonho utópico de muita gente) que se lança ao espaço. O livro de estreia de Santiago Santos é um projeto literário dos mais interessantes, que oferece um mergulho na cultura andina: o autor fez viagem tipo mochileiro até a Bolívia, passeando pela antiga paisagem inca acompanhado de um misterioso guia que conta histórias de então, afirmando a sua validade — especialmente em termos de tipos humanos — no presente.

Cada conto é precedido e inspirado por uma foto feita pelo próprio autor. A dinâmica entre o narrador e o seu guia projeta uma argumentação metaficcional que talvez domine mais esta coletânea de contos, do que a evocação de um passado e uma cultura outra, que trans-secciona a cultura ocidental imposta ao continente americano. Para isso, o livro teria que mergulhar mais fundo na fantasia e na consciência do narrador, explorando com maior intensidade o choque cultural e seus atritos. A opção pelo tom leve da crônica é sempre problemática para mim, pois acho que muitas vezes ele invade os campos do conto e do romance, nem sempre com um resultado positivo. Mas o livro conseguiu me prender e me deixar intrigado com essas possibilidades, e já emprestei alguns detalhes culturais incas para colorir um romance futuro das Lições do Matador, Anjos do Abismo.

—Roberto Causo

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