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Nostalgia Perry Rhodan: Nos Arquivos da Ediouro

Por solicitação do leitor Dioberto Souza, um dos grandes fãs brasileiros da série alemã de space opera Perry Rhodan, procurei e encontrei em um velho computador o texto “Nos Arquivos da Ediouro”, que, aparentemente, tem chamado a atenção de outros fãs brasileiros da série. Foi publicado em outubro de 2009 no Terra Magazine, a revista eletrônica criada pelo jornalista Bob Fernandes para o Portal Terra, e mais tarde no volume 800 da edição brasileira de Perry Rhodan. Não está mais disponível online, já que o Terra Magazine foi cancelado, mas encontra-se disponível na edição da SSPG Editora. Considerando que a edição da Ediouro foi a primeira edição da série Perry Rhodan no Brasil, e que a SSPG Editora anunciou recentemente que irá republicá-la a partir do seu primeiro ciclo (começando pelo número 1), imagino que seja apropriado trazer o artigo de volta.

 

Nostalgia Perry Rhodan

NOS ARQUIVOS DA EDIOURO

 

A edição da Ediouro seguia um padrão de capa da edição americana da Ace Books. Arte de capa de Gray Morrow.

Nos dias 9 e 10 de setembro de 2004 estive no Rio de Janeiro para o 2.º Simpósio “Ciência, Arte e Cidadania”, promovido pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Instituto Oswaldo Cruz. Fui convidado para o simpósio por Lucia La Rocque, da FioCruz-IOC, em meados de abril. Eu deveria dar a oficina “Ficção e Ciência: Extrapolação Científica e Prática de Escrita” na sexta-feira, dia 10, mas a organização do evento que ia de 9 a 12, presidida por Tania Araújo-Jorge, da FioCruz, franqueou-me a possibilidade de estar presente em outros dias, com estadia paga em um hotel da cidade. Hesitei, porque sempre penso no custo/benefício para quem está organizando um evento desses, mas aceitei a oferta de ir para lá no dia 9 pensando justamente em fazer uma visita aos arquivos da Ediouro, a editora que, como Tecnoprint/Edições de Ouro, primeiro publicou sistematicamente a série Perry Rhodan no Brasil.

Antes de confirmar com a FioCruz, falei de São Paulo com Lucina Ferreira Matos, a arquivista da Ediouro. Estando no Rio, recém-chegado ao hotel, liguei novamente para ela e combinamos que eu iria para as instalações da editora às 15h00. Peguei um táxi e fui para o bairro do Bonsucesso, que eu já conhecia de uma visita ao escritor Jorge Luiz Calife, anos antes.

As instalações da Ediouro localizam-se “desde sempre” na Rua Nova Jerusalém 245. Na portaria, fui recebido pelo estagiário-arquivista Carlos Eduardo Rodrigues da Silva, que me levou por cinco lances de escadas até os arquivos. Dentro do grande salão, fui conduzido até um espaço isolado por divisórias e mantido sob ar-condicionado. Tanto Carlos quanto Lucina foram atenciosos e tolerantes com a minha presença em seu local de trabalho. Expliquei que buscava especificamente por informações editoriais — dados sobre tiragem e circulação, normas contratuais e procedimentos de produção dos livros.

Como já haviam me informado previamente por telefone, eram poucas as chances de encontrar alguma coisa. A editora teve o seu quadro de funcionários mudado seguidamente ao longo dos anos, e ninguém do presente staff se lembra da época em que os livros foram publicados. Em uma rápida visita ao departamento editorial, confirmei esse estado de coisas por meio de uma conversa com Cristiane Marinho: pouco se sabe a respeito da editora nessa época que foi a “era de ouro” da literatura popular no Brasil, com a Tecnoprint sendo uma das casas dominantes, por publicar séries como Matt Helm, Shell Scott, Irving Le Roy, Sherlock Holmes, Perry Rhodan e Espaçonave Orion, entre outras. Também não consegui nenhum contato com os tradutores que trabalharam com Perry Rhodan: Richard Paul Neto, S. Pereira Magalhães e Ayres Carlos de Souza.

Perry Rhodan foi publicado pela Tecnoprint a partir de 1975, em duas versões de capa branca — a primeira com “Perry Rhodan” figurando nas letras desalinhadas que apareciam na edição original alemã pela Erich Pabel Verlag; a segunda com o nome do herói disposto em “Cinemascope”, como na edição norte-americana da Ace Books. Ambas tinham o selo “Infinitus” aparecendo na capa em uma elipse com o símbolo matemático ∞ (de infinito) ao fundo. Depois que a série foi descontinuada, surgiu uma coleção “capa preta”, ainda seguindo o padrão da Ace e em um formato discretamente maior (11,5 x 18 cm, contra 10,5 x 16 cm). Eventualmente, em 1984 e a partir do seu número 200, a série retorna sob o rótulo “Futurâmica Espacial” — “Futurâmica” era o nome de uma coleção de ficção científica assinada por vários autores, que a Tecnoprint manteve anos antes. Esta última edição vinha em dimensões que, segundo eu viria a descobrir examinando os arquivos, eram chamadas pela editora de formato “superbolso” (12 x 21 cm).

Carlos me levou até os corredores de estantes. Logo encontramos as caixas de papelão com os livros da série, tão numerosas que ocupavam dois corredores. Os números mais antigos tinham de duas a quatro caixas destinadas a cada um deles (os últimos números tinham apenas uma ou duas), contendo coisas como provas heliográficas, fotolitos, correções de impressão, originais e manuscritos de traduções. Mas não pude encontrar nenhum exemplar nem números de tiragens referentes às primeiras coleções “capa branca”. Salvo pela possibilidade remota de estarem em alguma outra parte dos arquivos, pelo jeito a editora não pôde, por alguma razão, salvar para a posteridade essa fase do seu envolvimento com Perry Rhodan. Um dos problemas, supõe-se, de se lidar com a edição de livros populares, considerados “perecíveis”.

Ficou claro para mim, conforme examinava o material, que para o fã da série os arquivos da Ediouro são simultaneamente céu e inferno — há muita informação que se pode analisar, mas os “buracos” inevitáveis são frustrantes.

Estudando um contrato da fase “Futurâmica Espacial”, soube que a Tecnoprint adquiria os direitos de publicação dos episódios da série em lotes de dez títulos, que ela se obrigava a lançar na ordem numérica. Dez exemplares de cada título publicado no Brasil eram enviados à editora alemã.

Examinando a primeira caixa com o material do N.º 1, Missão Stardust, encontrei a ficha de tradução, que ficou a cargo de Richard Paul Neto, com certeza o tradutor mais prolífico da série. Datada de 16 de julho de 1975, a ficha de tradução é uma pista para a altura desse ano em que a Tecnoprint começou a lançar Perry Rhodan no Brasil — provavelmente, no terceiro quadrimestre.

A página de rosto da tradução de Richard Paul Neto revela alguns dados que valem a pena comentar. No alto, escrito a lápis, aparece “Título da série: Perry Rhodan, o herdeiro do universo”, mas com “herdeiro” riscado a caneta e uma seta apontando para a palavra que deveria substituí-la: “pacificador.” Paul Neto estava traduzindo do original alemão, Unternehmen Stardust, e “herdeiro do universo” é uma expressão que aparecesse na edição original (der Erbe des Universums), enquanto que a edição norte-americana da Ace tem “peacelord of the universe” como subtítulo — “senhor da paz”, mais próximo do “pacificador do universo” que a Tecnoprint adotou. Na mesma página, encontramos os nomes dos capitães Reginald Bull e Clark G. Flipper (como no original) alterados a caneta para “Bell” e “Fletcher”, seguindo as mudanças realizadas pela edição da Ace, que parecia pautar as decisões da Tecnoprint. Fica claro que o editor brasileiro tinha em mente aproximar a edição brasileira daquela organizada pelo “Mr. Science Fiction” Forrest J. Ackerman para a Ace entre 1968 e 1977.

Uma última curiosidade a respeito das alterações do anônimo editor sobre a tradução de Paul Neto está no título: originalmente Richard Paul Neto chamou o episódio de “Programa Stardust”, mas o editor escreveu “missão” no alto, a caneta. Curiosamente, o título da edição americana foi Enterprise Stardust. Já A Abóboda Energética, o terceiro episódio da série, quase foi chamado pela Tecnoprint de “A Cúpula Dourada”…

Como os artistas gráficos da Tecnoprint faziam as capas dos livros de Perry Rhodan? Sabemos que davam preferência às ilustrações americanas assinadas por Gray Morrow (até onde o artista as produziu), mas que, como a Ace agrupava dois episódios em um único livro, os artistas da Tecnoprint frequentemente tinham que empregar as artes originais de Johnny Brück.

Um número substancial de publicações alemãs e americanas com as capas faltantes, descobertas nas caixas de arquivamento, sugere que não eram usados cromos ou filmes recebidos da Alemanha ou dos Estados Unidos, mas que essas capas eram aproveitadas diretamente. Encontramos uma evidência ainda mais clara — uma transparência em acetato, com a capa e a quarta capa do N.º 297, A 73.ª Era Glacial, com a “janela” em que se inseria a ilustração aplicada sobre a capa do original alemão da 4.ª edição, arrancada do Heftromane (o formato original alemão, de 15 x 22,5 cm e 64 páginas). O título do livro vem pintado sobre o acetato, sugerindo que essa montagem seria apenas uma indicação de como o artista gráfico deveria proceder. Mas os indícios apontam fortemente para essa prática de emprego direto das imagens originais, sem reduções nem uso de filmes ou cromos importados, de certo com o fim de economizar tempo e dinheiro, dentro de recursos técnicos menos sofisticados do que aqueles que a editora dispõe hoje. É claro, a prática permitia que se aproveitassem apenas um detalhe das artes originais, especialmente as alemãs.

Que dados sobre tiragem pude localizar? Nada a respeito das edições “capa branca”, mas aparentemente a “capa preta” tinha tiragens oscilando entre 3 e 6 mil exemplares, coincidindo com uma fase em que Perry Rhodan não tinha uma presença nas bancas.

Perry Rhodan é relançada nas bancas brasileira em 1984, com o episódio 200 sendo o primeiro da linha Futurâmica Espacial, em formato mais comprido, o “superbolso“. Arte de capa de Johnny Brück.

As informações mais claras e abundantes se referem à edição “Futurâmica Espacial”. A Rota para Andrômeda, o N.º 200, com o qual a editora relançou a série no princípio da década de 1980, teve uma tiragem de lançamento de 80 mil exemplares. Sem dúvida, o bastante para criar uma presença ostensiva nas bancas de todo o país. Já no N.º 203 ela havia caído para 50 mil. Dos N.ºs 205 a 298, foi de 40 mil — o que ainda garantiria uma boa presença nas bancas. Os N.ºs 209 e 210 tiveram 30 mil exemplares de tiragem, e do 211 ao 216, 20 mil. Por sua vez, a segunda edição da Futurâmica Espacial, que trazia a série toda desde o episódio 1, teve em 10 de outubro de 1984 uma tiragem de 15 mil exemplares para o Missão Stardust. Ainda no mesmo ano, em fins de dezembro, ela havia caído para 10 mil.

Analisando os números da tiragem da série, fica claro que Perry Rhodan na Futurâmica Espacial não foi o sucesso esperado pela editora, mesmo que consideremos os 80 mil exemplares iniciais como apenas uma estratégia de lançamento. Do 217 em diante, o número de livros impressos por título se estabilizou em 15 mil, ainda substancial para os padrões brasileiros, e foi assim até o N.º 398, quando a tiragem passou a ser de apenas 9 mil exemplares. A crise econômica da década de 1980 podem ter tido um papel importante nesse declínio, e nós sabemos que toda a publicação de ficção científica no Brasil foi duramente afetada nesse período. A Tecnoprint insistiu com os 9 mil exemplares, de qualquer modo, indo do 398 ao Perry Rhodan de número 536, o último a ser lançado por ela. Esse número 536 teve apenas 5.200 exemplares impressos, o que certamente o torna um item de colecionador.

A ressalva que se pode fazer com relação aos dados aqui expostos é que as informações sobre tiragem e circulação não estariam completas, tendo alguns nuances passados desapercebidos. Algumas fichas de produção informavam que a tiragem era “de banca”, mas isso nos permite supor que haveria uma outra tiragem — para livraria ou para a venda por assinatura, por exemplo? Difícil saber…

Uma “descoberta” que talvez toque os leitores da série, saudosos das edições da Tecnoprint, são os números que deixaram de serem lançados, após o 536. Como a editora adquiria os títulos da Erich Pabel Verlag em lotes de dez e tinha um esquema industrial de produção dos livros, quando a série foi cancelada muitos estavam traduzidos, alguns quase prontos para o lançamento. Aqui estão os onze títulos que encontrei, armazenados em caixas de papelão, para meditarmos sobre o que a editora carioca deixou passar:

 

A Bordo da  Marco Polo 537

Espalhando o Pânico 538

A Experiência dos Cynos 539

O Ataque dos Cynos 540

No Fascínio do Campo de Pânico 541

A Hora do Centauro 542

O Último Recurso da Marco Polo 543

Os Espiões de Gevarri 544

O Portador da Máscara 545

Homens entre Cynos 546

O Sol não Faz Sombra 547

 

Em um gesto de extremo carinho e consideração pelo leitor brasileiro fã de Perry Rhodan, a SSPG Editora traduziu e lançou no Brasil esses episódios, do 537 ao 547, em 2015 e 2016.

—Roberto Causo

 

Arte de capa de Johnny Brück.

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Pandemias na Ficção Científica

Em 15 de maio de 2020, a Editora Seoman promoveu uma live no Instagram com a pesquisadora e ficcionista Cláudia Fusco e o criador do Universo GalAxis, Roberto Causo, reunidos para discutir o tema “Ficção Científica na Quarentena: Pandemias e Distopias“. Antes, Causo havia tocado no tema em sua coluna “Ficção Especulativa“, na revista Perry Rhodan, da SSPG Editora. Este artigo reaproveita a coluna e expande parte do que foi discutido na live.

 

 

 

O tema da praga global é consideravelmente antigo dentro da ficção científica. A tradição milenarista cristã o vincula fortemente às narrativas de fim de mundo. The Encyclopedia of Science Fiction (Third Edition) coloca tais narrativas entre as mais antigas da proto-ficção científica — ou da “fantasia futurista pré-século 20”, como o verbete prefere —, juntamente com a utopia e os contos cautelares.

Alguns dos exemplos mais antigos de narrativas envolvendo pandemias que “destroem o mundo” incluem o romance O Último Homem (The Last Man; 1826), de Mary Shelley, e a novela A Praga Escarlate (1912), de Jack London. London é o conhecido autor clássico americano de O Chamado Selvagem e Presas Brancas, e a inglesa Shelley é a famosa autora de Frankenstein (1818), um dos primeiros romances da FC moderna. Ambos os livros têm edições no Brasil, datando do início deste século. Juntos, eles expressam duas possibilidades clássicas (com alguma superposição) da questão das grandes pragas dentro da FC: se a história conta o que ocorre durante, trata-se de uma narrativa de fim de mundo; se conta o que ocorre depois, é uma narrativa de pós-apocalipse — subgênero da FC normalmente associado à guerra nuclear.

As narrativas de pandemia, em especial, desde cedo formaram uma das formas mais coerentes de especulação sobre o futuro, já que fazem parte da experiência histórica da humanidade. Basta lembrar da terrível Peste Negra que assolou a Europa no século 14, matando, estima-se, entre 75 a 200 milhões de pessoas em sete anos. Na ficção científica, a Peste Negra foi assunto do excelente romance de Connie Willis, O Livro do Juízo Final (The Doomsday Book, 1992). Antes dessa praga, a antiguidade registrava a Peste Antonina (165 dC), que teria tomado aproximadamente cinco milhões de vidas, e a baixa idade média a Praga de Justiniano (541-544 dC), que teria vimado vinte e cinco milhões. E quando London escreveu a sua novela, a sexta epidemia transnacional de cólera ainda estava em curso, e o próprio London teria escapado a um surto de peste bubônica que atingiu San Francisco na virada do século 19 para o 20.

Armas, Germes e Aço (Guns, Germs and Steel: The Fates of Human Societies, 1997), de Jared Diamond, é um livro dedicado a demonstrar como a continuidade geográfica entre Europa e Ásia deu vantagens aos povos eurasianos sobre o resto do mundo. Entre essas vantagens, a resistência a doenças epidêmicas que colocaram outros povos de joelhos após o primeiro contato. Ganhou o Prêmio Pulitzer, entre outros. Nele, Diamond “argumenta contra a ideia de que a hegemonia eurasiana se deva a qualquer forma de superioridade eurasiana intelectual, moral, ou inerentemente genética”. Nisso ele, felizmente, contradiz a tese de Victor Davis Hanson em Carnage and Culture (2001), de que a algo de inerentemente superior nas práticas bélicas das nações ocidentais (Hanson exclui o Brasil, a propósito, desse rol).

Como um dos editores da Seoman, Adilson Silva Ramachandra, observou durante a live Ficção Científica na Quarentena: Pandemias e Distopias“, o romance clássico de invasão de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, 1898), também toca no tema da infecção causadora de mortes em massa. Mas da morte dos marcianos invasores, que caem presa dos micro-organismos terrestres, para os quais não têm defesa, apesar da sua tecnologia bélica superior. O recurso é um deus ex-machina que salva a humanidade no último instante, mas ao mesmo tempo expande um tanto do sentido do romance, sempre considerado como alegoria anti-imperialista que devolve aos europeus a experiência devastadora que eles levavam aos povos de todas as outras partes do mundo.

No Brasil, temos a experiência dos indígenas amazônicos, cuja população e nível civilizatório teriam sido muito maiores do que o imaginado antes, segundo revela a arqueologia dos últimos vinte anos. O livro de Michael J. Heckenberger, The Ecology of Power: Culture, Place, and Personhood in the Southern Amazon A.D.1000-2000 (2004), defende a possibilidade de que aquilo que conhecemos a respeito dos indígenas dessa região seja uma versão, deformada pela depopulação causada pelas pragas trazidas pelo europeu, de uma cultura que teria sido bem diferente e mais expressiva. Em outras palavras, esses povos indígenas vivem no pós-apocalipse da sua civilização — possibilidade que explorei no meu conto tupinipunk de fim de mundo “Para Viver na Barriga do Monstro” (2012), publicado na antologia original editada por Alícia Azevedo & Daniel Borba, 2013: Ano Um.

Na segunda metade do século 20, dois romances se tornaram marcantes, certamente com o segundo sendo influenciado pelo primeiro: Só a Terra Permanece (Earth Abides, 1949), de George R. Stewart, e A Dança da Morte (The Stand, 1978), de Stephen King. No primeiro, um sobrevivente do fim do mundo causado pela praga registra o seu esforço para preservar o pouco que pode da cultura e do conhecimento humanos. É um romance imensamente melancólico, enquanto o bojudo livro de King imagina uma praga que se origina em laboratórios militares, tem componentes de ação e também de ficção religiosa, já que, nos Estados Unidos, os sobreviventes dividem-se em dois grupos: um de concentração mística, solidário, tranquilo e humanista; e o outro de concentração técnica, competitiva e violenta — liderada por uma figura de contornos demoníacos e de líder fascista carismático, Randall Flagg.

Flagg é interessante por demonizar justamente a confluência do conceito de Friedrich Nietzsche da “vontade de potência” com o espírito americano. A vontade de poder seria uma constante da FC anglo-americana, segundo o pesquisador Adam Roberts em A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas (The History of Science Fiction, 2006), cuja segunda edição (2016) foi publicada no Brasil justamente pela Seoman, em 2018. Em Flagg, uma interpretação fascista da figura do Übermensch de Nietzsche, King mostra como os piores momentos da humanidade ainda serão motivo de manipulação por parte de grandes espertalhões — como vemos no Brasil, nos EUA e em países em que um autoritarismo de direita ou de esquerda tenta ganhar capital político com a desgraça de todos.

 

A Dança da Morte (The Stand) foi uma minissérie exibida pela rede ABC em 1994.

A Dança da Morte virou minissérie em 1994, pela rede ABC, e algo que Stephen King “acertou” foi a noção de que a praga mais contagiante possível seria uma gripe, uma das doenças virais de maior disseminação e transmissibilidade humana. O romance de Stewart está disponível no Brasil pelas Edições GRD, e o de King faz parte do catálogo da Suma, editora que o vem republicando intensamente nos últimos anos. É claro, muitos livros e filmes sobre a pandemia de zumbis também podem ser lidos como dramatização fantástica da ideia da praga global, com um ângulo particularmente interessante: aquela pessoa que é absolutamente normal e mesmo atraente em certo momento, torna-se um inimigo desumanizado, bestializado, depois de “convertido” ou “infectado” pela praga zumbi.

Nesse sentido, no thriller de FC Ordens do Executivo (Executive Orders, 1996), de Tom Clancy, têm-se um comentário perfeito sobre essa perspectiva: uma improvável aliança entre chineses, iranianos (que incorporaram o Iraque) e traidores americanos trama para contaminar o país com uma variante agravada do terrível vírus hemorrágico ebola. Em dado instante, um general especialista em guerra biológica observa:

“Essa é a elegância da guerra biológica. São as suas vítimas que causam a maioria das mortes.” —Tom Clancy, Ordens do Executivo.

Uma rara obra que imagina como prevenir que uma pandemia leve ao fim do mundo, pelo combate efetivo de uma praga artificialmente criada, é justamente Ordens do Executivo, que saiu aqui pela Record com tradução de Sylvio Gonçalves. Sob o comando do herói Jack Ryan (elevado a presidente da república por um atentado terrorista realizado no livro anterior da série, Dívida de Honra), os Estados Unidos controlam a epidemia com medidas de saúde pública, de isolamento e de interrupção de transporte interestadual e internacional — medidas que Donald Trump, o presidente da vida real, hesitou e hesita em assumir perante a pandemia da COVID-19. No romance, em uma reunião decisiva, na qual se avalia a necessidade da operação “Chamado da Cortina”, o mesmo general informa:

“Pior possibilidade? Vinte milhões de mortes. A essa altura, o que acontece é que a sociedade entrará em colapso. Médicos e enfermeiros fugirão dos hospitais, as pessoas se trancarão em suas casas, e a epidemia se desgastará de forma muito parecida com o que aconteceu com a Peste Negra do século XIV … O problema, senhor, é que se não tomarmos nenhuma medida e depois descobrirmos que a doença é muito poderosa, então será tarde demais.” —Tom Clancy, Ordens do Executivo.

Anterior, O Enigma de Andrômeda (The Andromeda Strain, 1969), de Michael Crichton, foi um dos primeiros bestsellers nacionais da ficção científica nos Estados Unidos, levado ao cinema em 1971 por Robert Wise. Também imagina, em detalhe e disfarçando a sua narrativa ficcional com elementos de montagem como relatórios, tabelas e diagramas, como um laboratório bilionário de segurança máxima consegue determinar como combater um vírus trazido do espaço por um satélite americano. O vírus não é um invasor alienígena, porém, e sim o produto de experimentos secretos de guerra biológica.

Ao imaginar uma praga global que se originasse no Brasil, eu apelei para uma variante do hantavírus originária da selva amazônica. No meu conto “O Salvador da Pátria” (2000), um jovem tenente ferido no acidente aéreo do qual é o único sobrevivente, é convocado pelo espírito viajante temporal de uma xamã indígena, que vive no futuro marcado pela destruição causada pela praga, para matar traficante de drogas que seriam os primeiros a disseminar o vírus. Ao contrário do que propõe o nosso atual governo, no meu conto o futuro dos índios corresponde ao futuro do país, e o soldado que se sacrifica está a serviço da visão deles. A história saiu na antologia Phantastica Brasiliana, de Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi, em comemoração aos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil.

Para escrever “O Salvador da Pátria”, consultei The Coming Plague: Newly Emerging Diseases in a World Out of Balance (1994), de Laurie Garrett, e Zona Quente (1994), de Richard M. Preston — dois livros de não ficção escritos no início do atual estágio da globalização que demonstram que o temor de uma plaga planetária já preocupava cientistas e administradores públicos. É interessante que o romanção de Clancy tenha sido publicado dois anos depois, e que, no ano seguinte, tenham aparecido os filmes Epidemia (Outbreak, 1995), dirigido por Wolfgang Petersen, e Os 12 Macacos (Twelve Monkeys, 1995), dirigido por Terry Gilliam. Obviamente, o assunto estava na pauta da vida pública de então — e obviamente, os seus alertas não foram respondidos pelas autoridades com mais investigação científica e estudos de protocolos de contenção. Àquela altura, pandemias como a da AIDS e epidemias assustadoras como a do ebola acionaram o sinal de alerta.

O subtítulo do livro de Garrett, “doenças recentemente emergentes em um mundo fora do equilíbrio”, informa de saída qual é o seu motivador principal: a destruição do meio ambiente e o contato cada vez mais íntimo e frequente de humanos com animais portadores de vírus desconhecidos. Na quarta capa da edição pela Editora Rocco do livro de Preston, por sua vez, aparece: “À medida que as florestas tropicais vão sendo destruídas, vírus antes desconhecidos se revelam, em padrões semelhantes ao da AIDS [que teria vindo de primatas africanos], e em escala apavorante.” Exatamente o que se supõe ter havido na China com respeito ao novo coronavírus, que migrou de morcegos ou raposas-voadores para os humanos, em razão do consumo da sua carne ou da ausência de boas condições sanitárias no seu abate e venda em feiras populares — tardiamente fechadas pelo governo.

Eu escrevo este texto em meio às restrições de mobilidade recomendadas pelo governador do Estado de São Paulo, em razão dos efeitos nacionais da pandemia da COVID-19. Digo “relativo” porque minha esposa, a também escritora da FC Finisia Fideli, é médica homeopata e continua atendendo aos seus pacientes, na medida do possível. De fato, parte deste texto foi escrito no consultório particular de Finisia, já que eu a acompanho no trabalho. Essa conjuntura é um lembrete da confluência inesperada entre a FC e a vida real — e entre o passado e o presente.

É cedo para saber que tipo de conclusão a pandemia assumirá. O que já se sabe, porém, é que a pressão para o retorno à vida normal tem sido danosa antes, durante, e o será depois da COVID-19. Antes, levou à atitude inicial da Organização Mundial da Saúde de minimizar o surto e a não propor medidas de contenção imediatas. Durante, está levando ao relaxamento potencialmente trágico dessas medidas. E depois, poderá conduzir novamente as autoridades a ignorar, enquanto atentam apenas aos apelo do status quo político, o dramático sinal de alerta do momento presente.

Teorias de conspiração são mais divertidas — como atestam livros como O Enigma de Andrômeda e Ordens do Executivo — do que a ideia de que mexer com animais selvagens, que deveriam estar isolados e protegidos, pode ter efeitos desastrosos em todo o mundo. Não obstante, este é o momento de se recordar que antes de apelarmos para hipóteses ideológicas, delirantes ou racialistas, a ciência e a experiência histórica já nos fornecem explicações sólidas e comprovadas. Elas também nos oferecem medidas claras e eficazes de enfrentamento das crises.

Finalmente, ambientalismo, preservacionismo e a luta contra a atual emergência climática (o aquecimento global facilita a proliferação de doenças antes confinadas a certas zonas climáticas, e o ressurgimento de vírus e bactérias confinados ao gelo do círculo polar ártico) também se mostram como mais do que componentes de uma visão “ideológica de esquerda” — lembrando que China, Rússia, Vietnã e Coreia do Norte têm um terrível histórico de devastação. São, na verdade, atuações necessárias para enfrentar, no médio e longo prazo, situações dramáticas como a atual pandemia.

—Roberto Causo

 

Causo agradece a Adilson Silva Ramachandra e a Carolina Bessa pela oportunidade de falar na live da Editora Seoman, e a Cláudia Fusco pela interação.

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Edição Brasileira de Perry Rhodan Lança Episódio 1000 da Série

 

PERRY RHODAN 1000

 

Arte de capa de Johnny Brück.

 

Sob a batuta do editor Rodrigo de Lélis, a Editora SSPG, de Belo Horizonte, continua o seu processo de renovação dos ciclos da série Perry Rhodan, trazendo ao leitor brasileiro marcos como a publicação recente do episódio 800 — e agora, o episódio 1000, O Terrano, que dá início ao ciclo “A Hansa Cósmica”. Tudo isso em um ano no qual a publicação original da série na Alemanha, realizada pela Pabel-Moewig Verlag, alcançou a marca assombrosa de 3000 episódios — fato de que já tratei aqui.

O Perry Rhodan japonês. Edição 500. A tradução é de Yooichi Shimada.

Certamente, as facilidades de produção e publicação de e-book contribuem para a condução simultânea dos diversos ciclos. Atualmente, a SSPG trabalha apenas com essa modalidade. Uma das marcas do projeto editorial de Perry Rhodan na Alemanha, seu país de origem, também inclui reedições da série e recapitulações agrupadas em volumes capa dura. Vale lembrar que o lançamento do episódio 1000 também ocorreu há pouco no Japão, por exemplo. Nesse país, o marco se deu em 2015, com a publicação do volume 500 pela Hayakawa (lá os volumes são duplos). No mundo globalizado, marcos do passado pipocam no espaço e no tempo, atestando a persistência da criação de K. H. Scheer e Walter Ernsting.

O fenômeno cult de Perry Rhodan investe não só na longevidade e nos números assombrosos, não igualados por nenhuma outra série de ficção científica onde quer que olhemos. Seus responsáveis também investem na sobrevivência e acessibilidade do conjunto todo da série — a SSPG participa desse empenho para mantê-la longe da pecha de perecível ou descartável.

Igualmente, é notável que essa gigantesca space opera criada em 1961 tenha abrigado autores de grande competência e talento como Scheer e William Voltz — este último, o autor deste episódio de número 1000. Voltz está ciente de que se trata de um momento muito especial, e dedica a edição “aos leitores de Perry Rhodan”, sem os quais e ao longo de décadas, a série não teria passado da sua previsão inicial de cerca de 15 episódios. A edição original, de 1980 (publicada na Alemanha Ocidental), mereceu capa dupla com arte de Johnny Brück, repleta de entonações épicas, evocações de 2001: Uma Odisseia no Espaço (dirigido por Stanley Kubrick, 1968) e capricho de execução incomum, mesmo mantendo a sua alma pulp.

 

A edição original do episódio 1000 original. Alemanha. Arte de capa de Johnny Brück.

 

O conceito do momento especial marca toda a estrutura de O Terrano. Em certo instante, passando da metade, há uma longa recapitulação de tudo ou quase tudo que aconteceu desde que o astronauta americano Perry Rhodan se deparou com uma nave alienígena oculta no lado escuro da Lua, no ano de 1971 (desse universo ficcional compartilhado). Contudo, uma dimensão cósmica ainda maior delineia os contornos do episódio. Ele abre com um alienígena chamado Carfesch, emissário do cosmocrata Tiryk, chegando ao mundo de Ambur, uma criação da superinteligência conhecida como Aquilo — personagem irônico e misterioso presente desde o primeiro ciclo (episódios 1 a 49). Carfesch traz com ele dois ativadores celulares especiais, fornecidos pelos cosmocratas, e uma tarefa para Aquilo: encontrar candidatos a portadores desses dispositivos que conferem imortalidade relativa. Os escolhidos se tornarão auxiliares na tarefa da superinteligência em preservar e estabilizar a “concentração de poder” aos seus cuidados, seguindo o interesse dos cosmocratas.

É assumidamente difícil compreender a natureza de Aquilo, inteligência formada, assim como aquela do clássico de Arthur C. Clarke O Fim da Infância (1953), por uma coletividade de consciências agregadas ao longo de muitas eras. Imagine então os cosmocratas, que se encontrariam em uma escala acima de Aquilo, subordinando-o à sua própria hierarquia de propósitos.

William Voltz (1938-1984), porém, é um escritor com inclinação muito forte para o intimismo, para o drama individual. É natural que ele corte, portanto, das figuras de de Aquilo e de Carfesch (logo absorvido pela coletividade do Imortal) para uma dupla de E.T.s em patrulha de reconhecimento em busca dos candidatos a portadores dos ativadores celulares especiais. Eles chegam ao que é claramente o Sistema Solar na época em que Atlan, o lorde arcônida que estabeleceu uma colônia alienígena na Terra da antiguidade pré-histórica (a Atlântida batizada em sua homenagem), luta contra os druufs, civilização invasora de uma dimensão temporal milhares de vezes mais lenta do que a do nosso universo. Atlan, sabemos pela leitura do segundo ciclo da série, foi o primeiro a receber um ativador celular na galáxia.

De modo semelhante ao que acontece em outro romance de Clarke, A Cidade e as Estrelas (1956), Carfesch pode sair da inteligência coletiva (ou de um grande computador, no caso do livro de Clarke) e reassumir sua individualidade — para examinar a tarefa destinada à superinteligência e realizada por seus povos auxiliares. Voltz logo se foca em mais uma figura individualizada: o explorador Rook, um alienígena representante da tendência dominante na escrita de Voltz: o solitário desesperado em luta contra forças muito superiores. A sua tarefa é sobreviver tempo suficiente, em sua nave sucateada e invadida por alienígenas hostis, para transmitir a mensagem de que um novo candidato foi encontrado no Sistema Solar, milhares de anos depois.

Desta vez, Carfesch vem examinar pessoalmente o candidato em questão, um menino americano de 9 anos de idade.

É uma delícia para um fã da série ter um vislumbre de Rhodan em sua infância. O ano é 1945 e os Aliados acabam de alcançar a paz no teatro europeu da Segunda Guerra Mundial. Perry visita a fazenda administrada pelo seu tio Karl no Meio Oeste americano, e é descrito como um menino melancólico, leitor de ficção científica. Carfesch fica horrorizado com o conflito e intrigado com a criança. Ele e Aquilo discutem o que fazer. Mais cauteloso, Aquilo planta uma semente para que no futuro o terrano venha até ele, provando que Perry e sua espécie belicosa mereceriam, respectivamente, o ativador celular e o destino superior possivelmente reservado a ela. Um toque sensível de Voltz está em caracterizar a semente como uma proteção contra as desilusões próprias do crescer:

“O mundo das crianças é um mundo de fantasia, maravilha e aventura. Tudo é possível nesse mundo. Se, um dia, os adultos deixassem de educar seus filhos para a vida em um mundo de processos causais, talvez a imaginação das crianças pudesse ser suficiente para levar algumas dessas maravilhas e aventuras para a vida adulta — e o mundo seria completamente diferente.”

Aquilo exclama: “Mas que tragédia, que as crianças sejam mais sábias que os adultos.” E em seguida, declara: “Vou trazer esta pequena criatura até mim — por um breve momento. Vou fazê-la olhar através da janela para o Cosmo e me certificar de que o fogo nunca se apague nela.

A dádiva da imaginação… O conceito singelo unifica os vários focos deste episódio, que tem estrutura fragmentada e opõe o individual e o mundano ao cósmico e ao maravilhoso, além do passado e do futuro distantes. Muito habilidoso, dentro da sua simplicidade habitual Voltz mantém um tom objetivo mas cintilante, que sustenta as abordagens diferenciadas dos vários segmentos. Se ele havia tratado do passado da série, sua evolução até o momento presente vivido por Rhodan, quando o personagem entra plenamente em cena o que o autor apresenta é um vislumbre do seu futuro.

Rhodan caracterizado como mais um dos solitários de Voltz. Disfarçado, ele, um imortal, visita bares e outros locais púbicos, em busca de uma reconexão com a base da condição humana. É capturado por uma dupla de robôs e levado pela segunda vez à presença de Carfesch. A cena lembra a perseguição nas esteiras transportadoras de As Cavernas de Aço (1953), de Isaac Asimov.

Agora, Rhodan vai até Aquilo, que lhe dá uma visão de como os cosmocratas organizam a evolução do universo. Também, dos conflitos existentes nesse nível, inclusive entre o próprio Aquilo e seu arqui-inimigo, a superinteligência Seth-Apophis. Uma visão repleta de sentido do maravilhoso, outro aspecto da FC e da space opera — aqui, dentro do escopo avassalador de evolução e de projeção da consciência que chamamos de “stapledoniano”, em referência ao inglês Olaf Stapledon (1886-1950), um dos primeiros a escrever nessa escala. Toda space opera com uma perspectiva teleológica semelhante — a sugestão de que tudo conduz a uma finalidade predeterminada e especial — fornece um contrapeso ao aventuresco e acena como algo mais do que o entretenimento superficial.

Nesse ponto, interessa notar que temos mais do personagem, do que se tem em geral na série. Conforme cresciam os ciclos e a origem de Rhodan foi ficando para trás, mais os escritores passaram a hesitar no emprego direto do personagem e em investir na sua subjetividade. O crítico inglês Adam Roberts, cada vez mais lido e citado no Brasil, traçou a interessante hipótese (no ensaio “Perry Rhodan’s ‘Electric Personality'”) de que a caracterização cada vez mais vaga do personagem representa uma desconstrução da figura do “grande líder das massas”. De qualquer modo, Voltz, ao contrário, não tem qualquer melindre e usa a subjetividade do herói para ancorar muito das novas informações que Aquilo apresenta.

Mais uma vez, Volts tempera o cósmico com o mundano e o pessoal. Usa vinhetas que singularizam personagens às voltas com opressão, racismo, crime, abuso e corrupção. Um panorama da condição humana no início da década de 1980, com sua dramática instância da guerra fria pós-guerra do Vietnã, mas toda vinheta termina com a afirmação de que o personagem é “um terrano”. O último deles é o próprio Rhodan, símbolo, desde sua criação em 1961, do melhor que a humanidade pode produzir.

O Terrano não apenas maravilha, mas comove. Recupera a atmosfera de confronto da humanidade com o cósmico, própria do primeiro ciclo, e ao mesmo tempo soa como um trabalho muito pessoal de Voltz. Uma pequena joia brilhante, que a SSPG presenteia aos seus leitores.

O Terrano (Der Terranen), de William Voltz. Tradução de Ernst Weissmann. Arte de capa de Johnny Brück.

 

—Roberto Causo

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Perry Rhodan 3000

Roberto Causo saúda o marco atingido pela série alemã de ficção científica Perry Rhodan: sua edição de número 3000!

 

PERRY RHODAN 3000

 

A estreia de Perry Rhodan em 1961. arte de capa de Johnny Bruck.

É sabido que sou grande fã da série de space opera Perry Rhodan, criada em setembro de 1961 pela dupla de autores alemães K. H. Scheer & Walter Ernsting (escrevendo como “Clark Darlton”). A série é um mundo ficcional compartilhado, ou shared world. Isso significa que diversos autores escrevem os episódios dentro de um enredo-mestre. O fato espantoso é que Perry Rhodan ainda está em circulação, o que significa que, grosso modo, três gerações de leitores têm se nutrido dela desde seu surgimento — e que várias gerações de autores também emprestaram seu talento a ela.

Conheci a série em 1975, ano em que ela chegou pela segunda vez ao Brasil — a primeira foi em 1968 com o romance Operação Astral, reunindo os dois primeiros episódios em uma única narrativa, e publicado pelas Edições O Cruzeiro em sua Coleção Galáxia 2000. O primeiro episódio foi escrito por Scheer e o segundo por Darlton, mas Operação Astral foi creditado apenas ao primeiro. Isso se deu em parte pelo fato de ter sido traduzido do francês, da coleção Anticipacion da editora Fleuve Noir, que publicou a série por muito tempo, desde 1966, dentro desse exato esquema: dois episódios por volume, e toda a série creditada a apenas um autor. Essa prática de agrupar duas aventuras por edição acontece porque os episódios da série são escritos dentro das dimensões relativamente curtas da novela (entre 17.500 e 40 mil palavras).

Em 1975, a Ediouro, o selo editorial da Tecnoprint, do Rio de Janeiro, trouxe Perry Rhodan ao país como uma série de fato. Nesse ano, eu tinha 9 anos e vivia na cidade Sumaré, no Interior do Estado de São Paulo. Na Alemanha, a série é publicada no formato de revistas no formato pulp. No Brasil, ela aparecia como livros de bolso, menores que um paperback americano, e claramente inspirados no formato e apresentação justamente na edição americana lançada pela Ace Books em 1969 e editada pelo “Mr. Science Fiction”, Forrest J. Ackerman.

A Abóbada Energética. Arte de capa de Gray Morrow.

Na época, demorei algum tempo para engatar na leitura dos livros, mais complexos do que minha dieta habitual de gibis. Se bem me recordo, o primeiro episódio que comprei foi o N.º 24, Na Selva do Mundo Primitivo. Mas o primeiro que li foi o N.º 3, A Abóbada Energética. Quando finalmente minha jovem consciência mergulhou na narrativa, minha cabeça explodiu. Com o auxílio do dono da banca de revistas em que eu os comprava, o Sr. Miguel Moreno, e também com o recurso do reembolso postal, completei a coleção e passei a ler os livrinhos compulsivamente, às vezes um a cada dois dias. Foi minha entrada na ficção científica escrita, e a partir dela passei a adquirir tudo o que fosse apresentado como FC: Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke e tudo o mais que circulava naquele tempo.

Perry Rhodan propriamente foi uma febre mundial, num momento em que, nos anos do pós-guerra, uma infinidade de produtos culturais de diferentes origens ganharam projeção mundo afora — foi uma instância de globalização cultural que o fim da guerra, surpreendentemente, abriu. A Inglaterra tinha James Bond e Os Beatles. A França tinha Asterix e a Bélgica tinha Tintin. A Itália tinha o western spaguetti. O Japão tinha Godzilla e sua galeria de monstros acompanhantes. O Brasil teve o Ciclo do Cangaço e o Cinema Novo. E a Alemanha tinha Perry Rhodan. Além de ser publicada no Brasil e Estados Unidos, a série apareceu em Israel (em edição pirata), na França, no Japão, na Itália, na Holanda, na Grécia, na Inglaterra, na Finlândia…

Nas décadas de 1970 e 80, o Brasil era um país fechado, ainda sob o regime militar, e as informações sobre a ficção científica estrangeira não eram comuns. Em algum momento da década de 1980, porém, eu adquiri The Illustrated Book of Science Fiction Lists (1983), do pesquisador inglês Mike Ashley, que informava que Perry Rhodan já havia vencido a casa dos 1200 episódios na Alemanha.

O tempo passou. Veio a Internet e a informação sobre a série multiplicou-se. Além disso, em 2001, a SSPG Editora, de Belo Horizonte, conduzida por Rodrigo de Lélis e César Maciel, leitores de Perry Rhodan, trouxe de volta a série ao Brasil depois que a Ediouro a deixou escapar, no início da década de 1990. A SSPG Editora lançou uma edição muito distinta, com dois episódios por volume e muito conteúdo extra. Graças à boa vontade dele, eu participei, ao longo dos anos, dessa edição com ilustrações, contos e artigos. Mais recentemente, depois que a publicação passou a ser exclusivamente no formato de e-books, também com revisões — e com histórias do Universo GalAxis, os contos da série Shiroma, Matadora Ciborgue “O Novo Protótipo” e “Cheiro de Predador”. Todas essas colaborações foram uma honra e um grande prazer para mim.

O Perry Rhodan japonês. Edição 500.

Nesse ínterim, Perry Rhodan ultrapassou os 2000 episódios… Há pouco tempo, no Japão a série chegou aos 500 volumes — o que significa ter alcançado o episódio de número 1000, já que na edição da importante editora Hayakawa também são dois episódios por livro.

E agora é chegado o momento da Alemanha comemorar a publicação do episódio de número 3000.

Não se trata de um feito corriqueiro, mesmo no plano da ficção científica internacional. Só para se ter uma ideia, em 2015, a famosa revista americana de FC Analog Science Fiction and Fact, que nasceu como Amazing Stories em 1930, chegou sem hiatos ao seu número 1000. A periodicidade da revista é outra, e é preciso assinalar que seu impacto foi bem maior, ditando como seria o núcleo central da FC entre 1938 e 1948 (a Era de Outro da FC), e compondo uma referência essencial para o gênero no mundo todo. Autores da Astounding como A. E. van Vogt e Isaac Asimov influenciaram a própria série Perry Rhodan. Mas considerando a dinâmica editorial em torno da ficção científica, o tempo de existência e a produtividade da criação alemã a tornam um fenômeno sem precedentes. O próprio site oficial de Perry Rhodan lembra que ela é “a mais longa história contínua do mundo”, e declara: “Em todos esses anos, nem uma única edição foi perdida: não importa se acontecem crises mundiais ou desastres naturais, não importa se houve o pouso na Lua ou a queda do muro de Berlim, a edição de Perry Rhodan ia sair.”

Perry Rhodan 3000. Arte de capa de Swen Papenbrock.

O título do Perry Rhodan 3000 é Mythos Erde — “Mito Terra” — e traz a chamada “O Tempo Muda Tudo”. Foi escrito por Win Vandermaan & Christian Montillon. Com arte de capa de Swen Papenbrock, o episódio foi lançado em 15 de fevereiro de 2019, na Alemanha. O dois autores são também os atuais coordenadores da série, elaborando o enredo-mestre. A editora alemã Pabel-Moewig lançou uma grande campanha de publicidade com participação dos autores e do capista, ações nas redes sociais e anúncios em estações de metrô por todo o país, além de uma pequena convenção realizada no dia 9 de fevereiro.

Mythos Erde inicia um novo ciclo da saga Perry Rhodan, que evolui em ciclos em que a situação cosmopolítica da galáxia e da humanidade é rearranjada, com grandes lapsos temporais e o surgimento de novas tecnologias. O protagonista Perry Rhodan e um grupo cada vez mais estreito de colaboradores próximos persistem fornecendo o fio da meada, uma vez que ainda no primeiro ciclo conquistaram a imortalidade, por graça da superinteligência Aquilo. O novo ciclo em questão foi batizado de “Mythos”, e, segundo o blog de César Maciel, “descreve um futuro distante no qual Perry Rhodan, a bordo de sua nave Ras Tschubai, ‘contempla um mundo que se tornou desconhecido para ele’. Segundo os autores, tanto este episódio como todo o ciclo ‘terão ligação com um antigo mito da série’. Várias histórias do novo ciclo se passarão na Via Láctea, porém os personagens principais da série também irão para galáxias distantes e se encontrarão com novas raças.”

A nova frente de publicação da SSPG Editora começa com o Perry Rhodan 1800. Arte de capa de Al Kelsner.

Quase que concomitante com o lançamento do Perry Rhodan 3000, a SSPG Editora — que tem várias frentes de publicação, desenvolvendo diversos ciclos da série ao mesmo tempo — abriu um novo ciclo com a publicação em e-book do episódio 1800. O episódio tem o título de Tempo Acelerado, de autoria de Robert Feldhoff. Nele, Rhodan e seus associados retornam de uma longa expedição a outras áreas do universo, externas à Via Láctea. Ao retornarem, encontram o Sistema Solar envolvido com todo um outro contexto político que parece abdicar da sua força e experiência. Mas surge um fenômeno que pode exigir o engajamento deles: o misterioso planeta Trokan, que em momentos anteriores da série veio a ocupar a posição orbital de Marte, desperta para uma estranha atividade em que se lança em uma progressão temporal milhões de vezes mais rápida do que aquela do restante do universo conhecido. Ao mesmo tempo, as preocupações de Rhodan se concentram na profecia da Ponte para o Infinito, que ele deve alcançar, forçando-o a imaginar um projeto futuro para a humanidade. O episódio inaugura o ciclo “Thoregon”, e é uma aposta da SSPG de renovação dos leitores da série, com um lapso de mais de 800 episódios entre ele e os ciclos que a editora já trabalhava.

Além disso, Tempo Acelerado inaugura um novo capista da série, Al Kelsner, que aparece pela primeira vez no Brasil. Até então, Perry Rhodan havia sido dominado pela figura dinâmica de Johnny Bruck, que produziu centenas de capar para a série e seus produtos secundários, que incluíam romances solo e revistas em quadrinhos. Rodrigo de Lélis nos informa: “Alfred Kelsner estreou como capista da série principal de Perry Rhodan justamente no N.º 1800, logo após a morte de Johnny Bruck. Antes disso, ele só ilustrou a coleção dos romances planetários, mas não publicamos nada dela aqui.”

Muito habilidoso, Kelsner possui uma arte-final mais harmoniosa maior e um senso mais unificado e sofisticado no design de naves, aparelhos, construções e vestimentas. Na capa do 1800 ele retrata a nave Boomerang, fornecida a ele e seus amigos depois que retornam da sua jornada extragaláctica, encimada pela fotografia tratada do rosto de Bruck, numa homenagem ao prolífico artista falecido em 1995, em um acidente de moto. O próprio Bruck aparece na história como um pintor de paisagens que se instala clandestinamente na residência de Rhodan, enquanto ele esteve fora, e com o qual vem a estabelecer uma amizade terna, após o retorno do herói.

Descrito como um astronauta americano, nos primeiros ciclos Perry Rhodan era uma expressão do “homem que se apoia em si mesmo” (o self-reliant man), da idealização do pensador Ralph Waldo Emerson. Não hesita em, ao herdar a tecnologia superior dos alienígenas arcônidas, declarar-se apátrida — sabendo que o país que se apossasse dessa tecnologia dominaria o mundo. Eram os anos da guerra fria, sem margem para idealismo pessoal ou para a negação do conflito ideológico entre Oriente e Ocidente. Mas o herói opta por concentrar-se em preparar o futuro para o desafio da inserção da Terra no violento contexto maior da política galáctica.

Ao longo das décadas, Rhodan perdeu alguma de suas características, mas acumulou um lastro de atitudes, vitórias e aventuras que certamente alimenta a mística em torno do personagem perante seus leitores. Estes, devem encontrar no herói e no vasto universo ficcional que ele impulsiona algo a ser dito sobre o mundo atual e as suas encrencas. Por qual outra razão, para além das dimensões incomparáveis e da longevidade invicta, o interesse pela série agora tri-milenar poderia ter se mantido até o século XXI?

—Roberto Causo

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