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Leituras de janeiro de 2017

Janeiro foi um mês de muitas leituras interessantes e variadas para mim. Partilho algumas anotações sobre os livros cuja leitura completei no primeiro mês de 2017.

 

Trópicos Utópicos, de Eduardo Giannetti. São Paulo: Companhia das Letras, 1.ª edição, 2016, 210 páginas. Capa dura. O economista e intelectual Eduardo Giannetti deu uma entrevista para a jornalista Miriam Leitão na GloboNews mencionando este livro, que procurei imediatamente por tratar daquilo que o autor chama de “utopia brasileira”. Me pareceu tocar o meu conceito de “sonho brasileiro”, que explorei pontualmente em vários textos diferentes — a noção de que se pode vir de qualquer parte do mundo e encontrar aqui uma vida simples e descomplicada, em contato com a natureza e sem divisões étnicas, religiosas e ideológicas marcantes. Tem, é claro, o sonho americano como contraponto, e Giannetti também explora a versão ianque (que se pode vir aos EUA vindo de qualquer parte do mundo e encontrar lá a fama e a fortuna) como contraponto da sua utopia brasileira.

Giannetti é muito lúcido e erudito ao discutir as mazelas modernas, sem cair na visão “apocalíptica” do modernismo/pós-modernismo. Mas concentra sua discussão da utopia brasileira nas páginas finais, apelando para os “suspeitos usuais” (Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro) e concluindo com aquilo que é basicamente um apelo, sem fundamentá-lo nem dar pistas de como chegar a essa utopia. Eu concordo plenamente, mas gostaria de mais força no argumento. Fisicamente é um livro simpático, mas com um formato de texto incomum, não necessariamente positivo — são micro-capítulos, vários por página ou um em uma ou duas páginas, que se comunicam mais por subordinação do que por coordenação.

 

Teoria do Drone (Théorie du drone), de Grégoire Chamayou. São Paulo: Cosac Naify, 2015 [2013], 288 páginas. Tradução de Célia Euvaldo. Brochura. Uma das questões políticas, militares e tecnológicas mais graves da atualidade é o emprego de veículos aéreos não tripulados em ataques contra “alvos assimétricos”, principalmente na assim chamada “guerra contra o terror”. Minha própria série As Lições do Matador trata de tema próximo, uma vez que as naves robôs dos alienígenas tadais são a principal oposição aos assuntos humanos na galáxia. Este ensaio teórico sobre a drone warfare americana, escrito pelo filósofo francês Grégoire Chamayou, um especialista em história das ciências, é o melhor texto sobre o assunto que encontrei até o momento.

Chamayou resgata informações, cita especialistas e teoriza sobre a guerra aérea e a contrainsurgência pelo ar — as práticas que antecedem o surgimento do drone de ataque. Trata dos princípios teóricos do sujeito como objeto legítimo de caça, num contexto em que divisões entre combatentes e não combatentes, países oficialmente em guerra e espaços nacionais delimitados por fronteiras tornam-se indistintos. O corpo humano individual (muitas vezes, combatentes apenas “presumidos”) torna-se o alvo das hostilidades. Ele opõe aos VANTs o conceito do kamikase, citando, de um lado, a distância quase absoluta do videogame, e de outro, o “engajamento integral” representado pelo sacrifício do piloto suicida. Na seção “Necroética”, desmascara os argumentos humanitários no uso do drone de ataque, e a seguir mostra o quanto ele se afasta dos princípios consagrados da filosofia do direito de matar em combate. O resultado é a guerra facilitada, trivial, inquestionável. Nesse sentido, expõe como a distância física entre aparelho e piloto projeta-se como uma distância intelectual e discursiva na qual o pacifismo e o questionamento das decisões militares e jurídicas dos governos democráticos tornam-se mais difíceis de terem efeito. Chamayou não deixa de lado as discussões atuais sobre o drone autônomo, robô de fato, que decidirá por meio de um algoritmo, como e quando alguém deve ser morto — nem esconde a sua indignação com o uso atual dessas armas. Drones têm aparecido em vários filmes de FC e de super-heróis, além dos noticiários, e este é o livro para se entender a sua problemática.

 

Arte de capa de Neil Roberts.

The Recollection, de Gareth L. Powell. Osney Mead: Solaris, 2011, 366 páginas. Capa de Neil Roberts. Paperback. Este é um romance de space opera e viagem no tempo, com boas ideias e estrutura interessante: na Terra dos dias de hoje, portais passam a se abrir aleatoriamente, e o irmão de um dos protagonistas é tragado por um deles. Cada portal leva a um planeta diferente, mas mantendo a velocidade da luz como barreira final no universo. Desse modo, viaja-se também para o futuro. O herói e a mulher de seu irmão encontram outro portal em uma fazenda e se organizam para entrar nele em busca do desaparecido. Trata-se de um triângulo amoroso, porém, e isso traz alguma tensão psicológica ao tema aventuresco. Ao mesmo tempo, no futuro distante, desenvolve-se uma trama paralela em que uma mercadora espacial, um pesquisador erudito, e estranhos alienígenas orbitam a tal da Recollection (“lembrança”), uma arma do juízo final deixada à solta na galáxia para ameaçar todas as formas de vida — como o Enxame do videogame Halo.

O que a Recollection parece fazer é agressivamente incorporar tudo a um único banco de dados e inteligência artificial, desfazendo estruturas em componentes informacionais e transformando pessoas em zumbis. Mas os antigos também deixaram armas secretas para serem usadas pela comunidade espacial do futuro. Lá na frente, as duas linhas narrativas se juntam e se completam, num conceito que recicla traços da new space opera. Sem aprofundar a maioria das situações, o romance mesmo assim funciona, firmando uma imagem de certa força. Um livro do qual gostei, sem saber exatamente por quê.

 

Halo: Coleção Poster de Luxo, Anônimo, ed. São Paulo: Editora Europa/Insight Editions, 2014, 40 páginas. Eu não jogo videogames, mas gosto de arte de ficção científica e essa indústria tem concentrado um número enorme de talentos. Para me inspirar na escrita das histórias das séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue, muitas vezes eu me volto para artes produzidas para videogames — especialmente aqueles de space opera militar como Halo e Mass Effect, e até li alguns tie-ins, romances baseados neles (como a Trilogia Forerunners, do premiado Greg Bear).

Este é um livro de arte sem texto, concebido como um conjunto de 40 posters que você pode destacar e usar como quiser, mas com imagens ocupando as duas páginas de uma mesma folha, o que dificulta as coisas (dura escolha). As ilustrações não são creditadas, infelizmente. Dá pra reconhecer algumas artes do francês Sparth (Nicolas Bouvier), visto no Brasil nas capas da trilogia de Bear, e na capa de Guerra do Velho, de John Scalzi, space opera militar publicada aqui pela Editora Aleph. A maioria é de artes digitais do tipo “épica”, dinâmica ou arte conceitual de interiores, paisagens e estruturas. Há também artes comemorativas de aniversários ou edições especiais do game. Em geral, são bonitas e atraentes, com sugestões de efeitos 3D e de luzes e sombras esmaecidas ou sobrepostas como se tem visto na arte digital de hoje. Para quem acompanha o jogo, as imagens vão até o Halo 4.

 

Arte de capa de Stephan Martiniere.

The Three-Body Problem, de Cixin Liu. New York: Tor Books, 2014 [2006], 400 páginas. Capa de Stephan Martiniere. Traduzido para o inglês por Ken Liu. Capa dura. A publicação de ficção científica no Brasil tornou-se tão dinâmica nos últimos dois anos, que permitiu o aparecimento deste romance chinês de FC hard — publicado aqui como O Problema dos Três Corpos, pela Suma de Letras. Eu li a edição americana, com essa bela capa do premiado artista digital Stephan Martiniere.

O livro, que foi um best-seller na China e sucesso nos Estados Unidos, traz muitos aspectos extremamente intrigantes, e grande complexidade de situações. Melancólico, envolve o desencanto chinês com a terrível Revolução Cultural de Mao Tsé-tung na década de 1960, combinada com a atual situação ambiental desesperadora do planeta. Os aspectos culturais e históricos chineses são fascinantes. Mas este é um romance de primeiro contato com alienígenas, realizado por um grupo de pessoas da Terra que se colocam a serviço e uma civilização de Alfa Centauri, que, eles supõem, irá resolver os graves problemas que nos atingem. Para isso, um videogame tipo Second Life é usado para recrutar gente de alto nível para o movimento. É um emprego criativo daquilo que no Brasil chamamos de “cultos ufológicos”, muito vistos num tipo de FC brasileira incidental e proselitista. No livro, é um recurso fascinante, que foi me conquistando aos poucos pelo atrito entre uma sensibilidade chinesa com a ocidental. A prosa do romance de Cixin Liu, porém, combina o uso constante de frases afirmativas e perguntas retóricas, com um poucos momentos de mergulho na consciência dos personagens ou de descrição poética. Às vezes, traz resoluções ligeiras e passa um ar juvenil.

 

Arte de capa de Howard Chaykin.

The Descent of Anansi, de Larry Niven & Steven Barnes. New York: Tor Books, 1.ª edição, setembro de 1982, 278 páginas. Capa de Howard Chaykin. Paperback. A década de 1980 foi um período formativo importante para mim como leitor de ficção científica. Quando vi este romance de FC hard de 1982, que menciona o Brasil e tem capa do quadrinista Howard Chaykin, coloquei-o no começo da fila. Ele se passa num futuro próximo em que uma estação espacial privada, a Falling Angels, é criada conectando tanques de combustível externo do space shuttle rebocados para perto da Lua por motores iônicos. O tema da empresa espacial privada é um traço libertariano muito comum na FC americana, herdada de Robert A. Heinlein. Niven é um monstro sagrado da FC hard, e Barnes é um dos poucos afro-americanos militando na área. Talvez daí o herói do romance ser um esquimó com traços afro-americanos…

A NASA rompeu com a Falling Angels, que fabrica materiais em microgravidade. Seu carro-chefe é um cabo ultra-fino e ultra-resistente, disputado por uma empresa brasileira e outra japonesa. A japonesa faz uma oferta melhor, e a brasileira articula um plano mirabolante — envolvendo terroristas árabes, um ataque de míssil orbital e um falso resgate usando shuttles brasucas comprados da NASA — para se apossar do carregamento de cabos. Ela conta com o fato do pessoal da estação estar desprotegido legalmente. O romance é uma problem story em que a tripulação que foi entregar o cabo tem que descobrir como baixar o seu shuttle danificado para atmosfera da Terra. O maior atrativo é a ação orbital, com direito a mercenários brasucas fazendo uma abordagem de nave a nave, via atividade extra-veicular. A caracterização e o desenvolvimento são um pouco superficiais, mas eficientes. O Brasil do futuro apresentado no livro extrapola o da época, recém-saído do “milagre econômico” mas autoritário e corrupto (o país ainda vivia a ditadura militar), vendendo armas e serviços de construção (e até material físsil clandestino, dizem) a países como Líbia e Iraque. A FC brasileira daquele período (a Onda de Utopias e Distopias) também enfocou esse Brasil próximo dos militares — como A Invasão (1979), de José Antonio Severo, e A Ordem do Dia (1983), de Márcio Souza — ou de empresas corruptoras — como a novela pop Miss Ferrovia 1999 (1982), de Dolabella Chagas (empreiteiras, no caso).

 

Arte de capa de Jean Philippe.

Na Eternidade Sempre é Domingo, de Santiago Santos. Cuiabá, MT: Carlini & Caniato Editorial, 2016, 140 páginas. Capa de Jean Philippe. Brochura. O Universo GalAxis trata de um futuro em que a América Latina está fundida em um bloco político coeso (um sonho utópico de muita gente) que se lança ao espaço. O livro de estreia de Santiago Santos é um projeto literário dos mais interessantes, que oferece um mergulho na cultura andina: o autor fez viagem tipo mochileiro até a Bolívia, passeando pela antiga paisagem inca acompanhado de um misterioso guia que conta histórias de então, afirmando a sua validade — especialmente em termos de tipos humanos — no presente.

Cada conto é precedido e inspirado por uma foto feita pelo próprio autor. A dinâmica entre o narrador e o seu guia projeta uma argumentação metaficcional que talvez domine mais esta coletânea de contos, do que a evocação de um passado e uma cultura outra, que trans-secciona a cultura ocidental imposta ao continente americano. Para isso, o livro teria que mergulhar mais fundo na fantasia e na consciência do narrador, explorando com maior intensidade o choque cultural e seus atritos. A opção pelo tom leve da crônica é sempre problemática para mim, pois acho que muitas vezes ele invade os campos do conto e do romance, nem sempre com um resultado positivo. Mas o livro conseguiu me prender e me deixar intrigado com essas possibilidades, e já emprestei alguns detalhes culturais incas para colorir um romance futuro das Lições do Matador, Anjos do Abismo.

—Roberto Causo

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Rogue One + filmes e leituras de 2016

Quando soube do projeto do filme Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story), achei que era uma boa ideia.

O sétimo episódio da série principal, O Despertar da Força, foi uma decepção. Talvez um filme solo, com uma outra proposta e livre da pressão de reproduzir os efeitos emocionais dos primeiros filmes da franquia, tivesse mais sorte. Mesmo assim, admito que me esforcei para não criar uma expectativa em torno do filme dirigido por Gareth Edwards e escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy. Vi uns trailers, mas perdi toda a polêmica em torno de cenas deletadas ou sequências refilmadas.

A premissa é contar a história do grupo de agentes da Aliança Rebelde que conseguiu roubar os planos de engenharia da Estrela da Morte e entregá-los à nave consular com a Princesa Leia Organa a bordo. Por sua vez, como sabemos pelo filme Guerra nas Estrelas (1977) — t.c.c. Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança –, Leia foi forçada a entregar os planos a Obi Wan Kenobi por meio do robô R2D2 e do jovem herói em formação, Luke Skywalker. No caminho para restituir os planos a ela, o bando mambembe, acompanhado desde o início pelo robô C3P0, acaba alugando os serviços do contrabandista espacial Han Solo e de seu co-piloto Chewbacca. Rapidamente, o espectador do filme inaugural da franquia foi conhecendo também os vilões Darth Vader e Moff Tarkin.

Rogue One recorre a uma nova heroína, a jovem encrenqueira Jyn Erson (Felicity Jones), para mover a trama e galvanizar o grupo de agentes rebeldes. Jyn é filha do cara que projetou a Estrela da Morte, o gênio da engenharia espacial Galen Erson (Mads Mikkelsen). Significa que, mesmo sendo uma heroína relutante, ela tem um interesse pessoal em atender ao apelo dos rebeldes em encontrar os planos da estação espacial capaz de destruir planetas com um único disparo (os planos estariam, supõe-se, com o seu pai).

E assim, eu me sentei no Cine Bristol do Center 3, em plena Avenida Paulista, para ver o filme com minha esposa Finisia Fideli e nosso filho Roberto Fideli (o crítico de cinema do site Who’s Geek) em 21 de dezembro do ano passado.

 

Pôster de Rogue One distribuído em sessões do filme em salas IMAX de São Paulo.

 

Foi o filme começar, e comecei a torcer o nariz.

A projeção estava muito escura — um problema com os filmes 3D, mesmo quando exibidos em “2D”. Problema contra o qual o crítico Roger Ebert já alertava logo depois do furor em torno do 3D causado pelo filme de James Cameron, Avatar (2009). Em Rogue One, havia pouco contraste, e com isso o espectador (ou este espectador) não conseguia entrar nos ambientes. Fossem eles a casa de Galen Erson, a insossa nave do soldado das forças especiais rebeldes Cassian Endor (Diego Luna), no reduto underground do radical Saw Gerrera (Forrest Whitacker), ou na base do Império onde a Estrela da Morte foi planejada.

Além disso, a música de Michael Giacchino atropela as cenas — ao contrário daquela de John Williams para a primeira trilogia, que conduzia o clima e sublinhava as situações com perfeição. E o enquadramento favorecido por Edwards é monótono: plano americano para os personagens, tomada “épica” para apresentar as estruturas, e panorâmica do alto para as cenas de destruição em massa (a Estrela da Morte faz dois disparos devastadores, no filme).

O esquema narrativo é semelhante ao de Os Sete Samurais (1954), do mestre japonês Akira Kurosawa — um esquema que George Lucas soube mascarar melhor em Guerra nas Estrelas, mesmo reconhecendo a influência. Especialmente no encontro e recrutamento dos diversos heróis, ao longo do caminho. A primeira parada de Jyn e Cassian é no planeta Jedha, onde existe um cristal usado antes nas baterias dos sabres de luz, e agora empregado na formação do raio destruidor da Estrela da Morte. É um recurso que parece olhar para o lado — para os “cristais dilithium” de Star Trek –, mais do que oferecer uma novidade.

Jedha é outro mundo desértico e rochoso, como o original Tatooine ou o saárico Jaku do Episódio VII. Seu nome, o vínculo com a tecnologia jedi e a repetição de um mantra sobre a força pelo guerreiro cego Chirrut Îmwe (Donnie Yen) sugerem que Jedha seria uma espécie de “planeta de origem dos jedi”, mas isso não é aprofundado. É mais ousada e interessante a sugestão de uma insurgência fanática, liderada por Gerrera, contra a ocupação imperial. Um ataque é mostrado, com direito a tanques nas ruas. Os dois heróis intervém e são capturados pelos fanáticos de Gerrera. Como resultado, saem do planeta com mais três recrutados: Chirrut, seu guarda-costas Baze Malbus (Wen Jiang) e o piloto desertor do império, Bodhi Rook (Riz Ahmed).

O grupo incrementado vai ao planeta rochoso Eadu, onde estão os engenheiros criadores da Estrela da Morte. Ali ocorre uma sequência debaixo de chuva, envolvendo os heróis, Galen Erson e o ambicioso oficial do império Orson Krennic (Ben Mendelsohn). Não há uma razão plausível para a sequência ao ar livre, exceto permitir a tensão entre o movimento de Jyn para chegar até seu pai, e a ordem recebida por Cassian de eliminar Galen assim que possível (no caso, com Cassian atuando como franco-atirador).

Krennic é o único vilão novo do filme, mas sem carisma ou personalidade. Darth Vader e Moff Tarkin também aparecem no filme — o primeiro interpretado por dois atores diferentes (Spencer Wilding & Daniel Naprous), e o segundo recriado digitalmente. Os dublês de corpo que fazem Vader não têm a força nem a presença ou a qualidade sombria que David Prowse imprimiu no Vader da primeira trilogia; um deles dá passinhos laterais, quando se detém atrás de Krennic… James Earl Jones volta a emprestar sua rara voz de baixo, para o personagem. Já Tarkin, interpretado em 1977 pelo agora falecido Peter Cushing, funciona melhor como personagem digital do que a Princesa Leia (a aparência de Carrie Fisher sendo rejuvenescida pelas IGPs), mas não menos vesgo…

A equipe de heróis acaba voltando à lua Yavin, onde se encontra a base rebelde secreta. Lá, mais uma vez o espectador é exposto à miopia tática e ao espírito burocrático da sua liderança. Certamente, o desejo de relativizar o heroísmo dos rebeldes faz parte das intenções do filme. Mas depois de descobrirmos, com os episódios I, II e III, que os jedi não eram mais que um bando de burocratas sonolentos, por que descobrir que os generais da Aliança seguem padrão semelhante deveria trazer algo de impactante à nossa visão da série?

Star Wars sempre foi uma space opera mais focada no exótico do que no seu lado militar. Mas Rogue One é mais space opera militar do que outra coisa. Essa proposta se configura com mais força no terço final do filme, ambientado no planeta Scarif, onde o grupo liderado por Lyn vai tentar se apossar dos planos da Estrela da Morte, guardados em uma espécie de arquivo imperial protegido por um escudo energético que envolve o planeta.

O primeiro Guerra nas Estrelas tinha várias sequências inspiradas em antigos filmes de guerra. Quando o Millennium Falcon “escapa” da Estrela da Morte, sua luta contra uma esquadrilha de caças Tie lembra uma Fortaleza Voadora combatendo Messerschmitts na Segunda Guerra Mundial. Do mesmo modo, os caças X e Y lutando em torno da Estrela Morte reproduzem cenas do filme A Batalha da Inglaterra (1969). Já o truque de lançar um míssil de prótons no exaustor da base imperial lembra as situações do filme Inferno nos Céus (1964), em que bombardeios De Havilland Mosquitos têm de atacar um depósito alemão de combustível para os foguetes V2, enfiado entre os paredões de um fiorde… Mas a sequência final de Rogue One parece inspirada na recente minissérie O Pacífico — ela mesma monótona e impertinente.

Certamente, o exótico também ficou de fora, eu creio, em razão da estranha inabilidade de Gareth Edwards. Planetas, E.T.s, artefatos, espaçonaves… tudo parece descolorido e desperdiçado. É claro que Edwards tem o direito e a liberdade de trazer outro tom e outro estilo à franquia. Mas é bom lembrar que George Lucas temperou o exotismo de Guerra nas Estrelas com um estilo naturalista e casual. Essa sempre foi uma marca de Lucas, de THX 1138 (1971) a Loucuras de Verão (1974), seus primeiros sucessos, mas que ele foi perdendo por causa das demandas estáticas da tela verde… Nada impediria Edwards de estudar essa combinação preciosa e bem-sucedida no passado, e trazê-la para o seu filme. Difícil entender por que ele não conseguiu chegar perto do melhor do que Lucas pôde realizar. Também é curioso que o roteirista Tony Gilroy (famoso pela série Bourne) possua a mesma marca de casualidade e naturalismo, ainda que em uma modulação diferente. É uma qualidade rara e extremamente interessante para o cinema de ficção científica, mas também ausente ou aguada, em Rogue One

Apesar de todas as minhas críticas, a sequência final — com ações em terra e em órbita — é dinâmica e bem orquestrada. Alcança um clímax emocional após o outro, demonstrando que seus personagens superficiais de algum modo calam no espectador. Culmina com uma eletrizante cena em que testemunhamos uma aterrorizadora ação de Vader em combate em ambiente fechado. Essa última cena deve se acoplar, em termos de continuidade e de emotividade, à fabulosa sequência de abertura de Guerra nas Estrelas. Mas a rigor, não o faz.

Do mesmo modo, a rigor, Rogue One não se conecta às melhores características de Guerra nas Estrelas. Salvo pelo desenho de produção mais moderno, por essa sequência com Vader mencionada acima, e pelo robô K-2S0 (Alan Tudyk) e sua personalidade divertida e dedicada, o filme também não traz novos pontos de interesse.

–Roberto Causo

 

Meus Filmes Favoritos de 2016

Não fui ao cinema tanto quanto gostaria — cinema nunca é demais! — em 2016, mas de qualquer modo, segue a minha lista dos melhores filmes do ano.

  1. Animais Fantásticos e Onde Habitam (fantasia, dirigido por David Yates)
  2. A Chegada (ficção científica, dir. Denis Villeneuve)
  3. Sully: O Herói do Rio Hudson (suspense, dir. Clint Eastwood)
  4. A Qualquer Custo (ficção de crime, dir. David Mackenzie)
  5. Capitão América: Guerra Civil (ficção científica, dir. Irmãos Russo)
  6. Star Trek: Sem Fronteiras (ficção científica, dir. Justin Lin)
  7. Doutor Estranho (fantasia, dir. Scott Derrickson)
  8. Poder e Conspiração (mainstream, dir. James Vanderbilt)
  9. Rogue One: Uma História Star Wars (ficção científica, dir. Gareth Edwards)

    O pôster de Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Claramente, em minha opinião e em termos de qualidade, não foi um bom ano para as grandes franquias de space opera ou de super-heróis. O destaque da ficção científica foi um raro filme de primeiro contato com alienígenas, A Chegada, inteligente, sutil e muito bem dirigido. Porém, Animais Fantásticos e Onde Habitam excede em todos os componentes de produção e direção, que nos colocam na Nova York de 1926, transformada pela magia. Sem ser pretensioso, é um encantador convite ao maravilhamento lançado em uma época em que esse sentimento tão essencial para a condição humana parece impossível perante as muitas crises que atingem o planeta. Nesse sentido, o filme também emenda uma crítica ao American way of life, resgatando a aura dos antigos filmes de Frank Capra (Aconteceu Naquela Noite, O Galante Mr. Deeds, Do Mundo Nada se Leva, A Mulher Faz o Homem, Adorável Vagabundo…) nos quais, em meio ao cinismo da vida moderna, é preciso encontrar força de caráter e solidariedade. Parece uma crítica sob medida para a América que Donald Trump quer criar.

–Roberto Causo

 

 

Minhas Melhores Leituras de 2016

Ser um prestador de serviços editoriais significa que nem sempre você pode dedicar seu tempo a ler o que gostaria, e ser um escritor dedicado a um universo de space opera significa concentrar suas leituras nesse subgênero de interesse. Eu certamente gostaria de acompanhar todo o campo da ficção especulativa com maior afinco e diversidade. Relaciono 12 indicações, de 50 livros lidos no ano.

  1. Fool’s Assassin: Book I of the Fitz and the Fool Trilogy, de Robin Hobb (alta fantasia). A melhor autora de fantasia da atualidade retorna pela segunda vez ao universo da Trilogia do Assassino (como foi batizada no Brasil). Fitz é um dos meus personagens favoritos em toda a fantasia.

    Arte de Ursula Dorada

  2. A Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt (fantasia heroica). O americano Kastensmidt, que vive no Brasil, está mudando a cara da fantasia brasileira com a série A Bandeira do Elefante e da Arara, plasmada num romance fix-up movimentado, romântico, divertido e que apresenta um Brasil Colônia mágico cheio de monstros.
  3. The Lost Gate, de Orson Scott Card (fantasia contemporânea). Li pela terceira vez o volume inaugural da série estrelada pelo mago de portais Danny North, e o romance que transita entre o aqui e o agora e um mundo mágico não perde a magia.
  4. The Operators: The Wild and Terrifying Inside Story of America’s War in Afghanistan, de Michael Hastings (não-ficção, reportagem). Livro escrito com ironia pelo jornalista da Rolling Stone que encerrou a carreira do General Stanley McChrystal. Oferece uma janela assustadora para as altas rodas políticas e militares na era da “guerra contra o terror”. Hastings morreu violentamente, em circunstâncias suspeitas.
  5. The Swerve: How the World Became Modern, de Stephen Greenblatt (não-ficção, história). Livro ganhador do Pulitzer, sobre o tratado clássico de filosofia natural que, no Renascimento, apresentou ao mundo o pensamento científico:  A Natureza das Coisas, de Lucrécio.
  6. Cuckoo’s Egg, de C. J. Cherryh (ficção científica). Mistura fascinante de FC de aventura e FC antropológica, é um dinâmico romance curto escrito no estilo telegráfico de Cherryh, com alguns pontos de contato com O Jogo do Exterminador, clássico de Scott Card. Um dos romances de FC da década de 1980 que não pude ler quando garoto.
  7. Uma Criança Única, de Guojing (fantasia para crianças). Uma tocante história em quadrinhos sem texto, que nos leva à fumacenta China e o seu difícil relacionamento com a infância.
  8. E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos (ficção científica steampunk). O segundo romance de Lemos, a revelação da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira, é uma movimenta aventura envolvendo retrofuturismo, história e política brasileira.
  9. O Teorema das Letras, de André Carneiro (ficção científica, coletânea). O primeiro livro póstumo de Carneiro é o seu quinto livro de histórias, com um “ensaio canonizador” do Prof. Ramiro Giroldo.
  10. Samaritan, de Richard Price (mainstream/ficção de crime). Li este romance duas semanas antes da estreia da minissérie The Night Of, da HBO, escrita por Price. Os dois trabalhos têm a mesma característica e explorar a posição precária da solidariedade humana no mundo moderno.
  11. The Dervish House, de Ian McDonald (ficção científica). Durante os primeiros anos deste século, McDonald se dedicou a um dos projetos literários mais interessantes da FC: abordar o futuro próximo das economias emergentes do Terceiro Mundo, países como Índia, Brasil e Turquia. Este, claro, é ambientado na Turquia. Pena que o enredo simplista não esteja no nível do rico estilo de McDonald.
  12. Bilac Vê Estrelas, de Ruy Castro (ficção científica humorística). Esta novela é uma FC ambientada no Brasil do século XIX envolvendo personagens e projetos aeronáuticos que existiram de fato, mas que aqui atraem a ganância de estrangeiros.

Aqui também, a fantasia superou a ficção científica. Robin Hobb (Megan Lindholm) é o máximo, embora às vezes arraste demais o desenvolvimento dos seus romances. Por escrever space opera militar, é de se esperar que eu leia alguma não ficção sobre o assunto. O livro de Michael Hastings é bem escrito, revelador e, por tratar da “guerra contra o terror”, ainda se encontra na ordem do dia. Também tenho encontrado muita inspiração em livros de arte de FC, e em 2016 apreciei em especial The Art of Halo 5: Guardians, com designs incríveis gerenciados pelo artista francês Sparth; e Frank Kelly Freas: As He Sees It, de Frank Kelly Freas & Laura Brodian Freas, nem tanto pelas ilustrações, mas pelo texto divertido e com grande insight sobre o fandom americano de FC. Não li tanta FC e fantasia brasileira em 2016, quanto gostaria (além dos listados, li três outros). Cirilo S. Lemos e Christopher Kastensmidt estão na pequena lista de autores da Terceira Onda da FC Brasileira que é obrigatório acompanhar. Espero ler mais brasileiros em 2017.

–Roberto Causo

 

 

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Shiroma no Somnium 112, do Clube de Leitores de Ficção Científica

“A Extração”, noveleta da série Shiroma, Matadora Ciborgue, foi publicada no Somnium N.º 112, especial de space opera, editado por Ricardo Miranda para o Clube de Leitores de Ficção Científica e lançado em dezembro de 2015.

 

Uma criação de R. C. Nascimento, o Somnium surgiu em dezembro de 1985, como o Boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica. Mais tarde, um concurso interno mudou seu nome para Somnium, de acordo com a sugestão vencedora, feita pelo escritor de FC José dos Santos Fernandes. Somnium é o título de uma proto ficção científica escrita pelo famoso astrônomo Johannes Kepler (1571-1630) e publicada postumamente em 1634. A nova edição do Somnium, editada por Ricardo Miranda, traz textos de Clinton Davisson (atual presidente do CLFC), Flávio Medeiros Jr., Ricardo França, Santiago Santos e Simone Saueressig.

Em “A Extração”, um experiente embaixador negocia com uma casta guerreira ciborgue o contato com um general que perpetrou de atrocidades internacionais no passado, quando, no meio das negociações, esse homem é assassinado. O embaixador não sabe, mas a aventura lhe reserva um misterioso encontro com Shiroma. A noveleta também está no primeiro livro da heroína do Universo GalAxis, Shiroma, Matadora Ciborgue (Devir Brasil; 2015).

 

Somnium 112

Somnium 112

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Roberto Causo fala de space opera na GalactiCon II

O autor das séries de space opera As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue falou desse subgênero da ficção científica na GalactiCon II, em São Paulo.

 

Organizada pelo fã-clube Battlestar Galactica Brasil, a GalactiCon II aconteceu em 17 de outubro de 2015 na Biblioteca Viriato Corrêa, em São Paulo. Convidado pelos organizadores Márcia Klimiuc e Samir Fabiano, Roberto Causo deu uma palestra às 14h30 sobre space opera, o subgênero da FC à qual pertence a série de TV Battlestar Galactica e outros grandes sucessos do cinema, da televisão, da literatura e dos videogames. A palestra dedicou-se justamente a fazer um panorama das origens (em fins do século XIX) e dos diversos exemplos de space opera, com especial atenção para a space opera militar, à qual pertence a série As Lições do Matador.

 

Durante a palestra, foi apresentada pela primeira vez (ainda em uma versão preliminar) a ilustração de capa de Shiroma, Matadora Ciborgue, criada pelo artista Vagner Vargas. Também foi apresentada pela primeira vez a arte digital de Sylvio Monteiro Deutsch, “Going to Space”, inspirada no romance Glória Sombria: A Primeira Missão do Matador, de Causo.

 

Fotos: Gabriela Colicigno.

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Roberto Causo no jornal Zero Hora

Roberto Causo é destaque da space opera nacional, diz jornal Zero Hora

 

Em matéria sobre os diversos subgêneros da ficção científica, jornalista do Zero Hora, Alexandre Lucchese, menciona Roberto Causo como um dos nomes importantes da space opera brasileira.

Artigo de Alexandre Lucchese no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, destaca vários subgêneros da ficção científica — como o steampunk, o cyberpunk, o New Weird e o tupinipunk (cyberpunk tupiniquim). Ao tratar da space opera, afirma: “Além de destaques internacionais, como [Isaac] Asimov e [Frank] Herbert, Roberto de Sousa Causo e Gerson Lodi-Ribeiro são importantes nomes nacionais.”

O artigo de 13 de setembro de 2014 também menciona Causo como o criador do termo “tupinipunk”, para designar uma “espécie de cyberpunk que expõe as contradições e a violência do país”.

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