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Perry Rhodan 3000

Roberto Causo saúda o marco atingido pela série alemã de ficção científica Perry Rhodan: sua edição de número 3000!

 

PERRY RHODAN 3000

 

A estreia de Perry Rhodan em 1961. arte de capa de Johnny Bruck.

É sabido que sou grande fã da série de space opera Perry Rhodan, criada em setembro de 1961 pela dupla de autores alemães K. H. Scheer & Walter Ernsting (escrevendo como “Clark Darlton”). A série é um mundo ficcional compartilhado, ou shared world. Isso significa que diversos autores escrevem os episódios dentro de um enredo-mestre. O fato espantoso é que Perry Rhodan ainda está em circulação, o que significa que, grosso modo, três gerações de leitores têm se nutrido dela desde seu surgimento — e que várias gerações de autores também emprestaram seu talento a ela.

Conheci a série em 1975, ano em que ela chegou pela segunda vez ao Brasil — a primeira foi em 1968 com o romance Operação Astral, reunindo os dois primeiros episódios em uma única narrativa, e publicado pelas Edições O Cruzeiro em sua Coleção Galáxia 2000. O primeiro episódio foi escrito por Scheer e o segundo por Darlton, mas Operação Astral foi creditado apenas ao primeiro. Isso se deu em parte pelo fato de ter sido traduzido do francês, da coleção Anticipacion da editora Fleuve Noir, que publicou a série por muito tempo, desde 1966, dentro desse exato esquema: dois episódios por volume, e toda a série creditada a apenas um autor. Essa prática de agrupar duas aventuras por edição acontece porque os episódios da série são escritos dentro das dimensões relativamente curtas da novela (entre 17.500 e 40 mil palavras).

Em 1975, a Ediouro, o selo editorial da Tecnoprint, do Rio de Janeiro, trouxe Perry Rhodan ao país como uma série de fato. Nesse ano, eu tinha 9 anos e vivia na cidade Sumaré, no Interior do Estado de São Paulo. Na Alemanha, a série é publicada no formato de revistas no formato pulp. No Brasil, ela aparecia como livros de bolso, menores que um paperback americano, e claramente inspirados no formato e apresentação justamente na edição americana lançada pela Ace Books em 1969 e editada pelo “Mr. Science Fiction”, Forrest J. Ackerman.

A Abóbada Energética. Arte de capa de Gray Morrow.

Na época, demorei algum tempo para engatar na leitura dos livros, mais complexos do que minha dieta habitual de gibis. Se bem me recordo, o primeiro episódio que comprei foi o N.º 24, Na Selva do Mundo Primitivo. Mas o primeiro que li foi o N.º 3, A Abóbada Energética. Quando finalmente minha jovem consciência mergulhou na narrativa, minha cabeça explodiu. Com o auxílio do dono da banca de revistas em que eu os comprava, o Sr. Miguel Moreno, e também com o recurso do reembolso postal, completei a coleção e passei a ler os livrinhos compulsivamente, às vezes um a cada dois dias. Foi minha entrada na ficção científica escrita, e a partir dela passei a adquirir tudo o que fosse apresentado como FC: Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke e tudo o mais que circulava naquele tempo.

Perry Rhodan propriamente foi uma febre mundial, num momento em que, nos anos do pós-guerra, uma infinidade de produtos culturais de diferentes origens ganharam projeção mundo afora — foi uma instância de globalização cultural que o fim da guerra, surpreendentemente, abriu. A Inglaterra tinha James Bond e Os Beatles. A França tinha Asterix e a Bélgica tinha Tintin. A Itália tinha o western spaguetti. O Japão tinha Godzilla e sua galeria de monstros acompanhantes. O Brasil teve o Ciclo do Cangaço e o Cinema Novo. E a Alemanha tinha Perry Rhodan. Além de ser publicada no Brasil e Estados Unidos, a série apareceu em Israel (em edição pirata), na França, no Japão, na Itália, na Holanda, na Grécia, na Inglaterra, na Finlândia…

Nas décadas de 1970 e 80, o Brasil era um país fechado, ainda sob o regime militar, e as informações sobre a ficção científica estrangeira não eram comuns. Em algum momento da década de 1980, porém, eu adquiri The Illustrated Book of Science Fiction Lists (1983), do pesquisador inglês Mike Ashley, que informava que Perry Rhodan já havia vencido a casa dos 1200 episódios na Alemanha.

O tempo passou. Veio a Internet e a informação sobre a série multiplicou-se. Além disso, em 2001, a SSPG Editora, de Belo Horizonte, conduzida por Rodrigo de Lélis e César Maciel, leitores de Perry Rhodan, trouxe de volta a série ao Brasil depois que a Ediouro a deixou escapar, no início da década de 1990. A SSPG Editora lançou uma edição muito distinta, com dois episódios por volume e muito conteúdo extra. Graças à boa vontade dele, eu participei, ao longo dos anos, dessa edição com ilustrações, contos e artigos. Mais recentemente, depois que a publicação passou a ser exclusivamente no formato de e-books, também com revisões — e com histórias do Universo GalAxis, os contos da série Shiroma, Matadora Ciborgue “O Novo Protótipo” e “Cheiro de Predador”. Todas essas colaborações foram uma honra e um grande prazer para mim.

O Perry Rhodan japonês. Edição 500.

Nesse ínterim, Perry Rhodan ultrapassou os 2000 episódios… Há pouco tempo, no Japão a série chegou aos 500 volumes — o que significa ter alcançado o episódio de número 1000, já que na edição da importante editora Hayakawa também são dois episódios por livro.

E agora é chegado o momento da Alemanha comemorar a publicação do episódio de número 3000.

Não se trata de um feito corriqueiro, mesmo no plano da ficção científica internacional. Só para se ter uma ideia, em 2015, a famosa revista americana de FC Analog Science Fiction and Fact, que nasceu como Amazing Stories em 1930, chegou sem hiatos ao seu número 1000. A periodicidade da revista é outra, e é preciso assinalar que seu impacto foi bem maior, ditando como seria o núcleo central da FC entre 1938 e 1948 (a Era de Outro da FC), e compondo uma referência essencial para o gênero no mundo todo. Autores da Astounding como A. E. van Vogt e Isaac Asimov influenciaram a própria série Perry Rhodan. Mas considerando a dinâmica editorial em torno da ficção científica, o tempo de existência e a produtividade da criação alemã a tornam um fenômeno sem precedentes. O próprio site oficial de Perry Rhodan lembra que ela é “a mais longa história contínua do mundo”, e declara: “Em todos esses anos, nem uma única edição foi perdida: não importa se acontecem crises mundiais ou desastres naturais, não importa se houve o pouso na Lua ou a queda do muro de Berlim, a edição de Perry Rhodan ia sair.”

Perry Rhodan 3000. Arte de capa de Swen Papenbrock.

O título do Perry Rhodan 3000 é Mythos Erde — “Mito Terra” — e traz a chamada “O Tempo Muda Tudo”. Foi escrito por Win Vandermaan & Christian Montillon. Com arte de capa de Swen Papenbrock, o episódio foi lançado em 15 de fevereiro de 2019, na Alemanha. O dois autores são também os atuais coordenadores da série, elaborando o enredo-mestre. A editora alemã Pabel-Moewig lançou uma grande campanha de publicidade com participação dos autores e do capista, ações nas redes sociais e anúncios em estações de metrô por todo o país, além de uma pequena convenção realizada no dia 9 de fevereiro.

Mythos Erde inicia um novo ciclo da saga Perry Rhodan, que evolui em ciclos em que a situação cosmopolítica da galáxia e da humanidade é rearranjada, com grandes lapsos temporais e o surgimento de novas tecnologias. O protagonista Perry Rhodan e um grupo cada vez mais estreito de colaboradores próximos persistem fornecendo o fio da meada, uma vez que ainda no primeiro ciclo conquistaram a imortalidade, por graça da superinteligência Aquilo. O novo ciclo em questão foi batizado de “Mythos”, e, segundo o blog de César Maciel, “descreve um futuro distante no qual Perry Rhodan, a bordo de sua nave Ras Tschubai, ‘contempla um mundo que se tornou desconhecido para ele’. Segundo os autores, tanto este episódio como todo o ciclo ‘terão ligação com um antigo mito da série’. Várias histórias do novo ciclo se passarão na Via Láctea, porém os personagens principais da série também irão para galáxias distantes e se encontrarão com novas raças.”

A nova frente de publicação da SSPG Editora começa com o Perry Rhodan 1800. Arte de capa de Al Kelsner.

Quase que concomitante com o lançamento do Perry Rhodan 3000, a SSPG Editora — que tem várias frentes de publicação, desenvolvendo diversos ciclos da série ao mesmo tempo — abriu um novo ciclo com a publicação em e-book do episódio 1800. O episódio tem o título de Tempo Acelerado, de autoria de Robert Feldhoff. Nele, Rhodan e seus associados retornam de uma longa expedição a outras áreas do universo, externas à Via Láctea. Ao retornarem, encontram o Sistema Solar envolvido com todo um outro contexto político que parece abdicar da sua força e experiência. Mas surge um fenômeno que pode exigir o engajamento deles: o misterioso planeta Trokan, que em momentos anteriores da série veio a ocupar a posição orbital de Marte, desperta para uma estranha atividade em que se lança em uma progressão temporal milhões de vezes mais rápida do que aquela do restante do universo conhecido. Ao mesmo tempo, as preocupações de Rhodan se concentram na profecia da Ponte para o Infinito, que ele deve alcançar, forçando-o a imaginar um projeto futuro para a humanidade. O episódio inaugura o ciclo “Thoregon”, e é uma aposta da SSPG de renovação dos leitores da série, com um lapso de mais de 800 episódios entre ele e os ciclos que a editora já trabalhava.

Além disso, Tempo Acelerado inaugura um novo capista da série, Al Kelsner, que aparece pela primeira vez no Brasil. Até então, Perry Rhodan havia sido dominado pela figura dinâmica de Johnny Bruck, que produziu centenas de capar para a série e seus produtos secundários, que incluíam romances solo e revistas em quadrinhos. Rodrigo de Lélis nos informa: “Alfred Kelsner estreou como capista da série principal de Perry Rhodan justamente no N.º 1800, logo após a morte de Johnny Bruck. Antes disso, ele só ilustrou a coleção dos romances planetários, mas não publicamos nada dela aqui.”

Muito habilidoso, Kelsner possui uma arte-final mais harmoniosa maior e um senso mais unificado e sofisticado no design de naves, aparelhos, construções e vestimentas. Na capa do 1800 ele retrata a nave Boomerang, fornecida a ele e seus amigos depois que retornam da sua jornada extragaláctica, encimada pela fotografia tratada do rosto de Bruck, numa homenagem ao prolífico artista falecido em 1995, em um acidente de moto. O próprio Bruck aparece na história como um pintor de paisagens que se instala clandestinamente na residência de Rhodan, enquanto ele esteve fora, e com o qual vem a estabelecer uma amizade terna, após o retorno do herói.

Descrito como um astronauta americano, nos primeiros ciclos Perry Rhodan era uma expressão do “homem que se apoia em si mesmo” (o self-reliant man), da idealização do pensador Ralph Waldo Emerson. Não hesita em, ao herdar a tecnologia superior dos alienígenas arcônidas, declarar-se apátrida — sabendo que o país que se apossasse dessa tecnologia dominaria o mundo. Eram os anos da guerra fria, sem margem para idealismo pessoal ou para a negação do conflito ideológico entre Oriente e Ocidente. Mas o herói opta por concentrar-se em preparar o futuro para o desafio da inserção da Terra no violento contexto maior da política galáctica.

Ao longo das décadas, Rhodan perdeu alguma de suas características, mas acumulou um lastro de atitudes, vitórias e aventuras que certamente alimenta a mística em torno do personagem perante seus leitores. Estes, devem encontrar no herói e no vasto universo ficcional que ele impulsiona algo a ser dito sobre o mundo atual e as suas encrencas. Por qual outra razão, para além das dimensões incomparáveis e da longevidade invicta, o interesse pela série agora tri-milenar poderia ter se mantido até o século XXI?

—Roberto Causo

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Leituras de Agosto de 2018

 

Em agosto, dobradinhas de livros de Braulio Tavares e Nelson de Oliveira, mas de leitura variada entre eles. Gostei especialmente da biografia de Raymond Chandler, por Tom Williams.

 

Histórias para Lembrar Dormindo, de Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 1.ª edição, 2013, 176 páginas. Ilustrações internas de Christiano Menezes. Brochura. Na minha modesta opinião, o miniconto ou flash fiction desfruta de um interesse injustificado no Brasil. A prática se comunica com a crônica, formato de produção de ficção ou não-ficção que também tem aqui prestígio desmedido, chegando a exportar o seu tom, em geral subjetivo, para o conto e até o romance. Além disso, muita gente que vai trás do miniconto carece da habilidade necessária para o acúmulo de efeitos que ele precisa ter pra valer a pena. Sua escrita é mais afinada com a precisão cuidadosa que o poema precisa, do que com os recursos de ambientação, caracterização, narração e diálogos, do conto. Mas aí temos Braulio Tavares, um escritor que possui exatamente essas habilidades. 

Todos os textos deste Histórias para Lembrar Dormindo foram publicados na coluna diária que ele mantém no Jornal da Paraíba e vão de 2.900 a 3.000 toques. São 40 deles distribuídos em duas partes, todos com duas páginas de ilustração feitas por Christiano Menezes, remetendo à ilustração científica. Em quase todos, a prosa precisa requerida, num estilo brilhante e finais surpreendentes sempre bem casados com o curto desenvolvimento. A ponto de o leitor ficar antecipando a rasteira elegante, brutal, inquietante ou irônica que, muitas vezes, revela o fantástico dentro do fantástico. Muitas das histórias possuem um tom mitológico próprio do Nordeste, formando um conjunto particularmente saboroso, enquanto outras são ambientadas em diferentes países. Algumas nos levam a outros universos — e as letras intercaladas na capa sugerem esse elemento dominante, filosófico, da interpenetração do real com o irreal. No limite de três mil toques, Braulio Tavares muitas vezes cria heterotopias que exploram, de modo sugestivo, as incertezas pós-modernistas. Já falei de um outro livro de Braulio Tavares aqui, Sete Monstros Brasileiros, e enxergo esse autor como um dos principais nomes da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, e um dos melhores escritores em atividade que temos. Eu pessoalmente gostaria de vê-lo escrevendo novelas e romances, mas em Histórias para Lembrar Dormindo você e eu temos 40 exemplos do seu talento inigualável no quadro nacional da ficção especulativa.

 

Arte de capa de Maercio Siqueira.

Peleja de Braulio Tavares com Marco Haurélio, de Braulio Tavares & Marco Haurélio. Fortaleza: Tupynanquim Editora, 2017, 32 páginas. Capa de Maercio Siqueira. Brochura. A vida é muito estranha. Um dia depois de acabar a leitura de Histórias para Lembrar Dormindo, minha esposa Finisia Fideli e eu encontramos Braulio “Brown Leo” Tavares diante do estande da Editora Draco, na 25.º Bienal do Livro de São Paulo. Por pura coincidência. Ele nos levou ao maravilhoso estande da Editora IMEPH e da Câmara Cearense do Livro, dominado por um enorme caminhão que transporta o seu acervo e, no local, transformou-se em um palco para cantadores e artesãos. Braulio, um dos melhores autores brasileiros de ficção científica de todos os tempos, foi nosso guia nesse mundo paralelo que ele habita — o da poesia de cordel e do repente. Conhecemos o novo livro do Braulio, o romance Bandeira Sobrinho: Uma Vida e Alguns Versos (IMEPH, 2017). Fomos apresentados por ele aos poetas Evaristo Geraldo, Rouxinol do Rinaré e Marco Haurélio — este último, seu parceiro num duelo de repentista feito no Facebook e compilado neste livro. “Você que apanhou do Braulio, então?” brinquei com ele. É claro, a prática é menos de disputa e mais de colaboração, e dependendo do intervalo das respostas em verso, feitas nos comentários do Facebook, pode ter sido mais como um round-robin, em que um escritor se compromete a levar adiante um trecho escrito pelo anterior, respeitando suas soluções, antes de repassá-lo a outro ou ao mesmo para uma nova rodada.

A “peleja” começa com os poetas saudando um ao outro e Marco Haurélio perguntando a Braulio o que é o cordel. Segue-se, em sextilhas, definições e elogios à poesia de cordel. Há, nesse ponto, um elemento de saudosismo rural que me agradou, tendo crescido no interior de São Paulo. Segue-se uma alternância de formatos. Na seção em “martelo galopado” (dez versos por estrofe), Ésio Rafael forneceu o mote repetido nos dois versos finais. Em “gemedeira”, as sextilhas têm mote de Rouxinol do Rinaré e se desenvolvem em torno do gemer como padecer ou reclamar, e o conteúdo foi mais de crítica política e social (sobre o Brasil, claro). Em “galope à beira-mar”, os poetas expressam maior erudição e inventividade nas imagens, em dez versos de mais fôlego. No “mote de sete sílabas” também são dez versos, e num mote que celebra o sertanejo. Em “oito pés a quadrão”, oito versos discutem a arte — e aí também evoca-se o clássico e o contemporâneo, tendência de muito cordel por aí. No “martelo alagoano”, os poetas reafirmam a tradição e suas influências individuais. Não há como não admirar essa dupla de artistas da palavra. Na xilogravura de Maercio Siqueira, Braulio é o da esquerda e Marco o da direita.

 

Arte de capa de Maercio Siqueira.

Os Curumins e as Estrelas, de Evaristo Geraldo. Alto Santo, CE: Edição do autor, abril de 2018, 8 páginas. Capa de Maercio Siqueira. Folheto. Braulio nos recomendou os folhetos de Os Domínios do Rei Peste (2015), de Evaristo Geraldo, e A Sombra do Corvo (2017), de Rouxinol do Rinaré, por adaptarem para o estilo poético do cordel dois contos de Edgar Allan Poe. Mas também adquiri A Árvore de Todos os Frutos (Lenda Indígena), de Geraldo, e este Os Curumins e as Estrelas, de Rouxinol, pelo meu interesse pelo tema indígena brasileiro. Há um cruzamento temático aí, não, um que também cheira a colaboração entre dois poetas diferentes? Afinal, quais são as chances?…

O texto é bem curto e declaradamente adapta uma lenda indígena, em que um bando de curumins roubam o fubá que as índias tinham preparado pra receber seus maridos de volta da pesca. Na hora de enfrentar o castigo, eles fogem e são perseguidos por homens e mulheres, até que um bando de tuiuiús fica com dó dos safados e os leva para o céu, onde se instalam em bases permanentes. Lá, eles só têm olhos para a Terra, talvez de saudade… Os olhos brilhantes se transformam, com o tempo, no céu estrelado, de modo que se trata de um mito de criação. A narrativa versificada de Evaristo é a tradicional sextilha e ela se realiza de modo muito objetivo e escorreito, com um padrão de três rimas por estrofe, bem marcado em cima de uma mesma sílaba.

 

Raymond Chandler: Uma Vida (A Mysterious Something in the Light: The Life of Raymond Chandler), de Tom Williams. São Paulo: Editora Benvirá, 2014 (2012), 456 páginas. Tradução de Fabio Storino. Brochura. Eu não leio muitas biografias literárias, embora tenha adquirido há anos uma de John Steinbeck e outra de Joyce Carol Oates. A exceção são biografias ou livros de memórias que abordam dois autores em particular: Ernest Hemingway e Raymond Chandler. Quanto a Chandler, já li aquela escrita por Tom Hiney, Raymond Chandler: A Biography, e todos os volumes de cartas e anotações que consegui adquirir: Raymond Chandler Speaking, editado por Dorothy Gardiner & Kathrine Sorley Walker, e The Raymond Chandler Papers: Selected Letters and Nonfiction, 1909-1959, editado por Tom Hiney & Frank McShane.

Para mim, Chandler é uma fonte muito arguta, divertida e incisiva, especialmente em suas cartas, de comentários sobre a relação entre a ficção de gênero e o mainstream literário. Seu credo literário é único, ao combinar com muita personalidade o ethos do escritor pulp e do escritor mainstream. É claro, antes de mais nada sou um fã dos seus romances e contos de ficção de detetive, que descobri durante a adolescência.

Pouca gente sabe ou lembra que Chandler escreveu histórias de fantasia, uma delas publicada na revista Unknown do editor John W. Campbell, Jr. Uma das coisas que este livro sedimenta é que o escritor considerou se voltar para o gênero com mais constância. Além disso, a ansiedade em obter reconhecimento literário teria sido mais forte na vida do escritor, do que as outras biografias deram a entender. A outra contribuição do inglês Williams é se focar mais na relação dele com a Inglaterra (Chandler nasceu nos EUA mas migrou com a mãe para a Inglaterra ainda criança, antes de retornar definitivamente aos EUA para trabalhar). A situação do escritor nos Estados Unidos também é muito bem tratada por ele, incluindo alguns pontos que Hiney aborda pouco, como o background familiar e pessoal da esposa de Chandler, Cissy. E se a memória não falha, ele também discorre mais sobre os anos de velhice e viuvez de Chandler, com o ápice do alcoolismo e do comportamento presunçoso e patético. Também se a memória não falha, em Hiney Chandler emerge como alguém que tentava elevar a ficção de crime e que, se por um lado tem preocupações de estilo e ansiedades que o aproximam do modernismo, por outro faz uma crítica do modernismo literário e do seu intelectualismo. Já em Williams, Chandler surge, em traços trágicos, como presa do desejo de reconhecimento literário. Adivinha com qual versão eu me identifico mais.

 

Conjurações & Terra Seca, de Paola Siviero. São Paulo: Edição de autor, 1.ª edição, 2015, 20 páginas. Folheto. Ainda investigando a relação entre a fantasia e a matéria sertaneja expressa também na poesia de cordel, eu retornei a este conto publicado como um folheto, escrito por Paola Siviero. Mesmo porque a autora encontrou um novo lar na jovem editora Dame Blanche, de São Paulo, de modo que, felizmente, o seu projeto Agreste Fantástico terá continuidade — com o livro O Auto da Maga Josefa. Este primeiro episódio é uma fantasia heroica com uma ambientação historicamente indeterminada, com uma dupla de heróis: a feiticeira Josefa, filha do Dito Cujo, e o esgrimista da peixeira, Toninho. O texto é em prosa e a autora habilmente combina um bom conhecimento dos leitmotifs da fantasia, com um humor centrado na adaptação deles aos tipos, ambientes e modos de expressão sertanejos. Certamente, o cordel deve ter um papel de intermediação desses aspectos regionais, e no final do livreto Toninho ensaia um repente.

É bom lembrar (tudo tem história!), que esse veio de fusões de conteúdos e tradições literárias tem precedente nas novelas A Tisana (1989) e O Pão de Cará (1995), de Roberto de Mello e Souza, que levam as narrativas arturianas de Tristão e Isolda e Percival para o sertão, e no conto “O Lugar do Mundo” (1984), de Daniel Fresnot, em que um duelo de repentistas se transmuta em duelo de magos. Paola Siviero tem nos seus heróis uma dupla de matadores de monstros e demônios, assim como Gerard van Oost & Oludara, da série A Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt, ou da dupla Adoulla Makhslood & Raseed, de Saladin Ahmed no romance Throne of Crescent Moon (2012). Mas quem Josefa & Toninho perseguem é um cigano (o feiticeiro da história) que invocara um chupa-cabras, e depois

“um zumbi cangaceiro, um demônio d’água no São Francisco e uma assombração de corno — dos fantasmas, os mais ferozes — que castrou dois Don Juans logo na saída do forró.” —Paola Siviero, Conjurações & Terra Seca.

Daí se vê que o humor é uma das delícias da narrativa, escrita com precisão e simultânea desenvoltura. Além disso, há uma certa tensão entre a dupla de heróis, com ele a fim dela, mas sem achar brecha na casca grossa de perigo e independência, da filha do demo. Eu não sei como O Auto da Maga Josefa vai sair (por enquanto, só vi o folhetinho com um excerto), mas vou atrás. É muito bom saber que Paola Siviero continua mantendo a essa vereda aberta dentro da fantasia brasileira.

 


Sabixões & Sabixinhos: Philosophus Brasilis
, de Sofia Soft & Teo Adorno. São Paulo: Alink Editora, outono de 2018, 104 páginas. Livro de bolso.
Nelson de Oliveira faz dois dos seus heteronômios dançarem um tango neste livro. “Sofia Soft” cuida dos textos aforísticos e irônicos, enquanto “Teo Adorno” faz os desenhos muito estilizados de animais humanizados e outras figuras como as flechas que aparecem na capa. Esse mesmo material tem aparecido há alguns anos no perfil “Paisagem Personas” no Facebook, e é reunido aqui pela primeira vez numa bonita edição, pra você colocar ao lado de livros das criações do Henfil, de Quino ou de Charles Schultz. Tá nesse nível. Há muitos aforismos e opiniões jocosas sobre o brasileiro, o amor, a política, a justiça, a ciência e a ignorância — ainda que não de um modo específico ou contextualizado. Jogos de palavras iluminam sentidos presentes e ausentes, em lugares-comuns bem brasileiros. Os meus favoritos são os momentos mais filosóficos, em que os sentidos surgem de interações surpreendentes. Algumas falas e figuras aparecem de ponta cabeça na página, reforçando o caráter inquietante, heterodoxo e divertido do livro. Embora a ironia impere, há espaço para algum lirismo, como no exemplo abaixo:

Olhai os delírios do campo:

a vertigem da vida

— o amor —

é uma estrela maciça

incrustada

no breve intervalo

entre a genialidade

e a loucura dos olhos

de um bem-te-vi.

—Sofia Soft & Teo Adorno. Sabixões & Sabixinhos.

 

Às Moscas, Armas! de Nelson de Oliveira. São Paulo: Alink Editora, 2.ª edição, 2018 [2000], 118 páginas. Livro de bolso. Comecei com contos curtos, e termino com contos curtos… Se bem que algumas das histórias deste livro de Nelson de Oliveira têm uma extensão maior. De qualquer modo, este é a segunda leitura do mês que agride minha prevenção contra o miniconto ou a flash fiction.

Às Moscas, Armas! já havia aparecido no ano 2000 como e-book, mas com uma tiragem de 50 exemplares em papel — que hoje deve ser item de colecionador. Em 118 páginas, apresenta 24 textos diferentes, de modo que aí já se tem uma ideia de como predominam as narrativas breves. Assim como Braulio Tavares, Nelson de Oliveira encontra espaço para expressar a sua erudição e inteligência. A maioria dos textos, porém, afasta-se do tom da crônica e fazem da perspectiva, da reiteração e do diálogo ríspido as ferramentas de um texto mais cortante e incisivo. Nem todos são exatamente curtos. “Ah!” usa oito páginas e diálogos não marcados para narrar uma bizarra “contaminação” que transforma pessoas em bolhas luminosas flutuantes, um recurso típico do realismo mágico. A maior parte dos contos de fato pertence ao realismo mágico ou ao conto fantástico, tendências que marcam o autor, e até mesmo a sua persona voltada para a FC e a literatura juvenil, “Luis Bras”. Com três páginas, “Jacqueline in the Box” oferece uma metáfora da alienação da mulher causada pela violência sexual masculina, em torno da figura banal da caixa de papelão. Do mesmo tamanho, “Górgona” ousadamente se realiza pela linguagem chula masculina. “Ninfas”, uma narrativa de parágrafo único, centra-se nas impressões confusas de um casal em fuga, num cenário urbano e de motivações desconhecidas. “Inveja”, um dos meus favoritos, é um vertiginoso exposé dos bastidores da vida literária, entre o Escritor Que Tinha ou Que Não Tinha Boas Ideias (tudo assim, em iniciais maiúsculas), o Crítico Literário do Jornal do Momento, e outras figuras orbitantes dessa dinâmica. Já “O Homem Só”, de nove páginas, belisca os homens da minha faixa etária e formação, na sua sexualidade. Desenvolvido só com diálogos, “Quinze Minutos” brinca com o ir e vir das pessoas nos seus trabalhos de escritório. Na maioria das situações, tem-se no livro o desejo modernista de expor os azares da modernidade — presentes também na obra dos contistas experimentais Braulio Tavares e Ivan Carlos Regina. Ainda sobre Às Moscas, Armas!, Nelson aponta o conto “Lua, 1969”, como o momento em que a persona de Luis Bras começa a emergir. Com dez páginas e narrado em primeira pessoa no tempo presente, seu tom é mais solene e a situação enigmática é surpreendentemente rica: o narrador faz parte de uma dupla de seres invisíveis que assiste a certo grupo de pessoas velando uma menina moribunda em uma mansão decaída. Da TV que, supostamente, exibe a chegada da Apollo 11 à Lua, uma luz estranha, primal e mítica surge como um raio transportador que permite a visita de uma segunda categoria de seres não humanos, associados à Lua. Aqui, há uma espécie de caminho inverso, muito trilhado pela FC e pela fantasia contemporânea, de iluminar o cotidiano com uma luz fantástica, maravilhosa. Há até mesmo um traço de New Wave, em que eventos subjetivos ou culturais transformam-se em fatos concretos. Sob o livro e esse conto em particular, Nelson me escreveu:

“São contos do final do século passado, mas em pelo menos um deles, ‘Lua, 1969’, hoje eu já consigo notar a iminência de minha guinada pra FC. Esse continho de realismo mágico tem algo de FC esotérica, na linha do Shikasta [de Doris Lessing], por exemplo.” —Nelson de Oliveira.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Daryl Mandryk.

Mass Effect Omnibus Volume 1, de Mac Walters, Patrick Weekes, John Dombrow & Sylvia Feketekuty. Milwalkie, OR: Dark Horse Books, novembro de 2016, 400 páginas. Arte de capa de Daryl Mandryk. Trade paperback. Omnibus” é uma reunião de vários livros em um único volume — no Brasil, Turno da Noite, de André Vianco, e Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife, são exemplos. Este aqui eu comprei num bota-fora da Saraiva do Shopping Eldorado, em São Paulo. Nele, estão quatro minisséries do universo expandido, em quadrinhos, do videogame Mass Effect, produzido pela empresa canadense BioWare. Tanta gente trabalhou nessas minisséries, que só mencionei aí em cima os caras que bolaram as histórias. Mesmo porque, na hora de montarem o omnibus, a Dark Horse deixou alguns créditos de fora. As HQs são: Redemption, Evolution, Invasion e Homeworlds.

Não jogo videogames de console (atualmente, só jogo o Tadaroids, criado por Vagner Vargas aqui no GalAxis!) mas tento acompanhar alguma coisa desses que são space operas: Mass Effect, Halo, Destiny. Deste game em particular, há alguns anos li um paperback chamado Mass Effect: Ascension, de Drew Karpyshyn. Este compêndio de HQs da franquia estão sob a premissa de que o Comandante Shepard, o principal protagonista do game, está morto e diversos grupos lutam para se apoderar do seu corpo. A telecineta Liara T’Soni, a alienígena mais atraente da franquia (na bela capa de Mandryk, ao lado), chega ao asteroide/habitat espacial Omega para impedir que o Colecionador fique com os restos do herói. O sidekick de Liara é o malandro E.T. Feron, de outra espécie. Aria, a implacável comandante de Omega, é da mesma espécie de Liara, e não quer saber de encrenca na sua estação. O núcleo da história é a tensão entre Liara e Feron, de qualquer modo. A segunda história é interessante não apenas por apresentar uma arte superior, mas por oferecer uma narrativa de origem do “Illusive Man”, um chauvinista humano e um dos principais antagonistas do universo de Mass Effect. É narrativa mais dramática e moralmente ambígua, mas na qual não falta o impertinente clichê da space opera atual, a figura do zumbi. Aria e Omega retornam na história seguinte, quando o asteroide/estação espacial é invadida por uma força militar ou para-, comandada pelo erudito Oleg Petrovsky e enviada pela Cerberus, a organização secreta do Illusive Man, sob pretexto de defendê-la de um contingente de reapers, a ameaça à galáxia que a franquia apresenta. Centrada na relação entre Aria e Petrovsky, o episódio traz alianças momentâneas, traições, capturas, fugas e até batalhas espaciais. E, no todo, a melhor arte do livro todo. O fuzileiro fisiculturista James Vega é o centro da narrativa seguinte, e a alienígena Tali’Zorah nar Rayya no da próxima. Garrus Vakarian, outro E.T., e Liara T’soni fecham essa galeria presente em Homeworlds. Enfim, o omnibus é fechado por duas histórias relativamente fracas e avulsas, protagonizadas por Aria e o investigador Capitão Bailey. No geral, gostei do mergulho no universo de Mass Effect que o livro faculta. As HQs atendem ao visual determinado pela pré-produção do game, de modo que sua coerência sacrifica algo da variação e inventividade, de uma HQ para a outra. A arte de Daryl Mandryk na capa tem todas as virtudes das artes digitais da atualidade, vinculadas aos videogames, e as capas das minisséries, reproduzidas no interior, via de regra também expressam o encanto e o exotismo da space opera.

—Roberto Causo

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O Novo Logotipo do Universo GalAxis

O novo logo do Universo GalAxis foi desenvolvido pelo designer Daniel Abrahão, do Estúdio Desire, a partir do conceito do artista Vagner Vargas. Nele, duas setas ou eixos (em referência à fusão das palavras “galáxia” e “axis” em “GalAxis”) cruzam-se em uma esfera central.

É claro, cada eixo representa uma das séries que compõem o Universo GalAxis: As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue.

O logo entrou no site GalAxis — Conflito e Intriga no Século 25 em fins de janeiro de 2019, e um pouco antes na página Universo GalAxis do Facebook, no dia 18. O Universo GalAxis no Facebook está em www.facebook.com/UniversoGalAxis.

Daniel Abrahão também empregou o novo logo em todas as imagens produzidas para a promoção do lançamento de Mestre das Marés (Devir Brasil), o segundo livro da série As Lições do Matador.

 

 

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O Prefácio de Roberto Causo ao eBook “Sobre a Imortalidade de Rui de Leão”

Roberto Causo foi abordado pelo editor André Caniato, da Plutão Livros, para escrever o prefácio do e-book Sobre a Imortalidade de Rui de Leão (Pontes Gestal, SP: Plutão Livros, 1.ª edição eletrônica, 2018, 2784KB. Capa e ilustrações internas de Paula Cruz), que você pode conferir abaixo, na versão do autor.

 

O Imortal e o Imortal

Machado de Assis e a Ficção Científica

 

Arte de capa de Paula Cruz.

A ficção científica brasileira existe desde meados do século XIX. Essa é uma afirmativa que, ao mesmo tempo que é incontestável, exige explicações e qualificativos. Especialmente porque essa ocorrência de FC no país é bastante esporádica. Esse quadro de inconstância se dá, curiosamente, entre os anos de 1857 a 1957. Um lapso de 100 anos que formam o que chamei de Período Pioneiro da Ficção Científica Brasileira — e de saída admito que 100 anos são de fato muito tempo para se agrupar uma determinada circunstância literária.

Esse período, é claro, possui momentos e situações bastante variadas, mas é justo levantar dois pontos que circunscrevem muito da sua identidade: primeiro, a maior parte daquela produção ficcional aderia aos modelos narrativos e convenções literárias do século XIX, especialmente o romance de aventura e de capa e espada, o conto de subjetividade romântica, a narrativa de mundo perdido, a sátira social e o panfleto utópico; segundo, a falta do entendimento, crítico ou popular, de tal produção como parte de um gênero literário específico.

O segundo aspecto citado começa a se alterar muito rapidamente a partir de 1957, ano em que os cientistas soviéticos colocaram o Sputnik em órbita, e em que a ameaça de conflito nuclear entre as superpotências vencedoras da Segunda Guerra Mundial, e o advento de inovações tecnológicas como o computador, o aparelho de televisão, o voo supersônico e o míssil teleguiado entram na consciência popular. São fatores que aproximam a realidade imediata, das ideias da ficção científica. A FC é então redescoberta como um gênero literário com algo a dizer de concreto, profundo e urgente sobre o mundo. Nos Estados Unidos, a grande produção antes dirigida às revistas populares (chamadas de pulp magazines) já havia se decantado em um número de romances e antologias publicadas em livro — edições em capa dura destinadas ao mercado de bibliotecas públicas e clubes de livro; e edições em brochura e formato de bolso, em grandes tiragens, na assim chamada “revolução dos paperbacks” surgida durante a guerra.

No Brasil, dois livros lançados em 1958 marcam a “chegada” da FC como gênero no país: a antologia Maravilhas da Ficção Científica, editada por Fernando Correia da Silva & Wilma Pupo Nogueira Brito; e O Homem que Viu o Disco-Voador, um hábil romance de Rubens Teixeira Scavone ambientado em São Paulo e na Ilha da Trindade. A antologia não trouxe nenhuma história brasileira, mas apresentou uma brilhante e erudita introdução do crítico Mário da Silva Brito, que, por si só, disparou um debate envolvendo a intelectualidade de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sobre a relevância ou irrelevância da FC para a literatura e a modernidade. O gongo soou e no ringue dessa questão literária subiram figuras de peso como Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins, Antonio Olinto, Maria de Lourdes Teixeira, João Camilo de Oliveira Tôrres, Clóvis Garcia, Alcântara Machado, Frederico Branco, Willy Lewin, Fausto Cunha, Laís Corrêa de Araújo, André Carneiro, e o editor Gumercindo Rocha Dorea. Algo semelhante só viria a acontecer com os esforços de Luiz Bras (pseudônimo de Nelson de Oliveira), seguidos ao seu ensaio-manifesto “Convite ao Mainstream” (2009), de aproximar a ficção científica da ficção literária brasileira — mas em menor escala e com menor polêmica.

Quase nesse mesmo instante, Gumercindo Rocha Dorea publica a coletânea de histórias de Dinah Silveira de Queiroz, Eles Herdarão a Terra (1960), e Antologia Brasileira de Ficção Científica (1961), editada por ele — a primeira antologia de FC brasileira da história da literatura. Os livros saíram na Coleção Ficção Científica GRD, que a partir daí abrigou diversos outros autores nacionais: Olinto, Carneiro, Cunha, Zora Seljan, Levy Menezes, Guido Wilmar Sassi, Álvaro Malheiros e o veterano Jeronymo Monteiro — que fundou a Associação Brasileira de Ficção Científica (o primeiro fã clube de FC do país) e foi o editor do Magazine de Ficção Científica (1970-1972), a nossa versão da importante revista americana The Magazine of Fantasy & Science Fiction.

Seguindo as Edições GRD, de Dorea, vieram a EdArt, publicando Carneiro, Nilson D. Martello, Walter Martins, Domingos Carvalho da Silva e vários outros. O Clube do Livro também participou desse momento, publicando Scavone e Luiz Armando Braga. A atuação de Dorea foi impactante o suficiente para que Fausto Cunha, então um dos críticos mais relevantes do Brasil, chamasse de “Geração GRD” o elenco de escritores brasileiros que escreveram FC naquela década.

Surge aí, entre 1957 e 1972, a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira. Sem dúvida, a ditadura militar (1964 a 1985) teve um papel tanto na descontinuidade da Primeira Onda, quanto na reorientação do que seria a tônica da FC nacional na década de 1970. Esse momento seguinte — que pode ser chamado de Ciclo ou Onda de Utopias e Distopias (1972 a 1982) — empurrou os autores da Primeira Onda para o fundo do palco, como as figuras que tiveram uma sobrevida nessa década, Carneiro, Cunha, Queiroz e Scavone. Para a frente veio uma FC que, muitas vezes de maneira alegórica e absurdista, fazia a crítica ao regime militar, à tecnocracia e à impertinência do Estado tentando gerenciar a sexualidade e os costumes. Foram autores como Ruth Bueno, Mauro Chaves, Chico Buarque, Maria Alice Barroso, Herberto Sales, Márcio Souza e, especialmente, Ignácio e Loyola Brandão, cujo romance Não Verás País Nenhum (1981) se tornou o marco daquele momento. Essa tendência, porém, dissipou-se com a Abertura e a posterior redemocratização, sublimando-se na literatura pop brasileira e, mais tarde, na ficção auto-reflexiva ou metaficcional brasileira.

O que veio na década de 1980 foi a Segunda Onda (1982 a 2015), marcada pelos fanzines e por um número de autores que, ao contrário dos momentos anteriores, eram majoritariamente leitores de FC, cientes das suas convenções e características como gênero literário. Por isso mesmo, desenvolveram tendências mais variadas, incluindo a FC hard, a história alternativa, a FC feminista, a sociológica e a experimental. Braulio Tavares, Jorge Luiz Calife, Ivan Carlos Regina, Finisia Fideli, Roberto Schima, Simone Saueressig, Ivanir Calado, Guilherme Kujawski, Gerson Lodi-Ribeiro, Fábio Fernandes, Daniel Fresnot, Marien Calixte, João Batista Melo, Miguel Carqueija, Cesar Silva e Carlos Orsi são alguns dos autores do período, que também viu surgir o primeiro movimento literário da FC nacional, em torno do “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira” (1988) de Regina, que propunha mais brasilidade e antropofagia cultural.

Um núcleo desses autores — Lodi-Ribeiro, Orsi, Silva, Octávio Aragão e o pesquisador Marcello Simão Branco — uniram-se em uma editora cooperativada, a Ano-Luz, e mais tarde formou (com Fernandes, Max Mallmann e outros) o que chamei de Grupo da Renovação. O grupo se tornou influente junto à Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira (2004 ao presente), momento em a FC se aproxima da fantasia e do público jovem e passa por um esforço editorial de atualização de tendências — o cyberpunk e o steampunk, o New Weird e a FC queer, por exemplo. Seus autores propagam a importância da internet em suas posições literárias e se apresentam pela primeira vez como uma novidade no campo, própria do século XXI. Eles assumiram blogs, videologs e revistas eletrônicas, e advogam a popularização da literatura fantástica, levantando a ficção pulp e a busca direta do público leitor como bandeiras. Entre seus nomes de maior relevo e importância estão Jacques Barcia, Cirilo S. Lemos, Ana Cristina Rodrigues, Tibor Moricz, Flávio Medeiros Jr., Cristina Lasaitis, Enéias Tavares, Christopher Kastensmidt, Mustafá ibn Ali Kanso, Felipe Castilho, Aline Valek e Samir Machado de Machado. Um destaque importante é Luiz Bras — pseudônimo de Nelson de Oliveira, que se volta à FC brasileira nesse momento, impondo uma perspectiva mais literária e experimental.

Os dois textos de Machado de Assis reunidos aqui fazem parte, evidentemente, do Período Pioneiro da FC Brasileira. “Rui de Leão” foi publicado originalmente em 1872 no Jornal das Famílias, e “O Imortal” dez anos depois, em partes na revista A Estação.

O fato de Machado ter escrito alguma forma de ficção científica — e essa é outra ressalva que se deve fazer sobre o Período Pioneiro — não deve causar estranhamento. Os dois contos em questão, por exemplo, foram precedidos por “O Fim do Mundo em 1857” (1857), de Joaquim Manuel de Macedo, autor daquele que é considerado o primeiro romance brasileiro, A Moreninha (1844). O próprio Macedo mesmo retornaria ao fantástico posteriormente com A Luneta Mágica (1869). A historiografia da FC brasileira também registra Páginas da História do Brasil, Escrita no Ano de 2000 (1868-1872), de Joaquim Felício dos Santos. E, entre os dois textos de Machado, têm-se o marco da publicação de O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emilio Zaluar, o melhor candidato, até o momento, a primeiro romance brasileiro de ficção científica. Vinte e poucos anos depois, Emília Freitas publicaria o seu também pioneiro romance feminista de aventura e espiritualismo, A Rainha do Ignoto (1899). Enfim, o próprio Machado também é autor da fantasia orientalista “As Academias de Sião”, que propõe a troca temporária de corpos entre o monarca da antiga Tailândia e uma de suas concubinas.

A partir desse primeiro momento, muitos grandes nomes da literatura nacional escreveram algum tipo de FC: Lima Barreto, Monteiro Lobato, Menotti Del Picchia, Erico Verissimo, Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa. No caso de Machado, seu posicionamento na linha evolutiva dos movimentos literários é complicada pela sua produção variada e prolífica, sinal da disposição de ocupar os espaços literários disponíveis na sua época. José Luiz Passos, autor de Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis (2007), reconhece: “Há grande ambição num escritor que, na sequência dos primeiros livros, tenta todos os [formatos] que a literatura do seu tempo lhe punha à disposição.”

A relação aqui é menos ideária — isto é, obedecendo a um receituário como o do Realismo, por exemplo — e mais uma relação de aproveitamento pessoal de práticas literárias em circulação na época, coloridas com a personalidade do escritor. Neste caso, aquilo que viria a compor a nossa imagem do que é a FC como gênero estava, no século XIX, difuso na narrativa de aventura a terras estranhas, ou no conto gótico, ou na sátira social e política. Machado pescou esses e outros elementos, e incidentalmente fez aquilo que nosso olhar retrospectivo identifica como FC. Cabe lembrar que Machado demonstrou em vários contos da década de 1880, o seu interesse por Edgar Allan Poe, autor de gótico americano, pioneiro da literatura de horror e de ficção científica.

“Rui de Leão” (ou “Ruy de Leão”) abre com o personagem título, um fidalgo português, vivendo entre os tamoios. A história narra com ironia a sua aculturação entre os nativos, com direito a nudez e antropofagia, guiada pelo mui filosófico pajé da aldeia, seu sogro. Moribundo, o pajé lega ao genro um frasco contendo uma poção que traz a imortalidade. Rui hesita em beber, e mais tarde conhece um padre em missão na área, e nega-se a batizar seu filho com a filha do pajé. Como que reagindo à praga do padre, ele adoece na sequência e recorre à poção.

Depois disso ele tem seu vigor redobrado, não envelhece mais e não perece de agressões de outro modo fatais. Vai parar na Europa, onde apavora alguns com sua situação inédita. Aos poucos, é a condição de imortal e menos as peripécias advindas dela que assume o centro da narrativa.

A versão que Machado realizou com “O Imortal” tem estrutura mais sofisticada, com as aventuras de Rui de Leão narradas entre uma espécie de “parênteses”, já que a abertura e a conclusão estão a cargo de um filho do personagem, médico homeopata vivendo no século XIX, narrando os fatos a um grupo de amigos em uma noite chuvosa. É um detalhe que sublinha inspiração do conto gótico sobre a história machadiana.

A ironia tem uma presença mais discreta, assim como o percurso do personagem pela história brasileira e europeia ganha sofisticação e interesse. Mais do que isso, para a perspectiva da FC, o escritor nos dá um argumento de grande interesse, dada a sua raridade dentro do gênero, na época: “A ciência de um século não sabia tudo; outro século vem e passa adiante. Quem sabe se os homens não descobrirão um dia a imortalidade, e se o elixir científico não será esta mesma droga selvática?” Surge aí uma hipótese científica para fundamentar a premissa, mesmo que não problematizada. Além disso, Machado foi presciente ao antever uma iniciativa que se fixa em fins do século XX até o presente, da busca científica na floresta tropical e ao conhecimento dos povos nativos e tradicionais, por novos medicamentos e terapêuticas.

O tema da imortalidade igualmente integra-se à ficção científica por via da tradição gótica, levando o crítico inglês Brian Stableford a afirmar: “A imortalidade é um dos leitmotifs básicos do pensamento especulativo; o elixir da vida e a fonte da juventude são objetivos hipotéticos das buscas intelectuais e exploratórias clássicas.” Stableford também observa: “Uma coisa imediatamente perceptível sobre essa rica tradição literária é que a imortalidade é frequentemente tratada como um falso objetivo, algo como uma maldição” — bem dentro das aflições de Rui de Leão, nos dois textos reproduzidos aqui. Por outro lado, a biografia do próprio Machado de Assis nos sugere um outro nível de ironia, já que ele alcançou um tipo de imortalidade, talvez menos vão, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras — que ele ajudou a fundar — em 1897.

As peripécias de Rui de Leão, por sua vez, estão dentro do leque de aventuras físicas e sentimentais da literatura da época, e em uma análise bastante sofisticada de “O Imortal”, o Prof. João Adolfo Hansen, da Universidade de São Paulo, observa que enredo de Machado incorpora os clichês do Romantismo sobre o homem que ascende socialmente e conquista a mulher aristocrática, ou que se envolve em revoltas libertárias, e combate invasores ou indígenas, de modo que o seu agrupamento em uma única narrativa — e vividos por um único personagem, como um Forrest Gump do século XVII[1] — formaria uma crítica irônica dos excessos daquele movimento. Algo, inclusive, que Machado fez em vários outros momentos, como nos contos “Aurora sem Dia” e “A Chinela Turca”.

Não obstante essa hipótese de uma postura satírica, os contos não deixam de pertencer à ficção científica. Assim como o autor da sátira política não deixa de pertencer à sociedade ou ao país que ele ou ela satirizam.

A Plutão Livros presta um grande serviço ao pesquisador e ao leitor de FC, ao disponibilizar esta edição com as duas histórias lado a lado. Certamente, a ficção científica no Brasil é um gênero importante e rico demais, para que suas obras de interesse caiam no esquecimento.

 

Roberto de Sousa Causo

São Paulo, maio de 2018.

 

[1] Algo que Erico Verissimo também fez com a sua novela juvenil As Aventuras de Tibiquera (1937), eu tem como personagem título um indígena imortal que assiste aos eventos do Brasil desde o Descobrimento até a década de 1930. Verissimo escreveu também o romance Viagem à Aurora do Mundo (1939), em que há um visor temporal que guia o leitor por uma excursão pela origem da vida na Terra.

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Leituras de Julho de 2018

O destaque deste mês foram dois romances brasileiros recentes que se debruçaram sobre um momento da história no qual o Estado adotou medidas extremas motivadas pelo contexto da Segunda Guerra Mundial. O mês também trouxe espaço para não ficção, arte e quadrinhos.

 

Universo Alien: Se os Extraterrestres Existem… Cadê Eles? (Alien Universe), de Don Lincoln. São Paulo: Editora Cultrix, 2017 [20313], 320 páginas. Brochura. Tradução de Humberto Moura-Neto & Martha Argel. Em de 25 de maio, participei, com a pesquisadora Cláudia Fusco e o editor Adilson Silva Ramachandra, de uma mesa durante o laçamento do livro de não ficção de Adam Roberts, A Verdadeira História da Ficção Científica, pelo selo-irmão da Cultrix, Seoman. Fui presenteado com o titulo em lançamento, e com A Vida de Philip K. Dick: O Homem que Lembrava o Futuro (Philip K. Dick: The Man who Remembered the Future), de Anthony Peake — e também este Universo Alien. Seu autor, Don Lincoln, é um físico e divulgador, já tendo escrito para a famosa e longeva revista de ficção científica Analog. Presume-se de saída que ele conheça os assuntos do livro, a ciência da exobiologia e a própria FC — em como o gênero influencia a consciência coletiva no assunto OVNI e ufologia. E de fato, Lincoln demonstra grande conhecimento de todos os assuntos. Assim como Carl Sagan antes dele, sua preocupação é limpar um terreno científico do folclore, do misticismo e da má fé. A diferença é que ele é mais moderado em sua abordagem, e o resultado é um texto de grande clareza e precisão, leve e — ao mesmo tempo que dotado de uma medida exata dessa didática muito particular — respeitoso com as posições opostas. Mais um professor, portanto, e menos um cruzado fundamentalista científico. Note-se ainda, que se encontra em uma excelente tradução do casal Humberto Moura-Neto e Martha Argel.

A primeira obra de FC discutida é A Guerra dos Mundos (1897), mesmo porque esse romance de H. G. Wells fundamentava-se em ideias do século XIX acerca da possibilidade de vida em Marte. Lincoln também trata do Marte de Edgar Rice Burroughs, e, mais adiante, menciona nomes importantes da FC. As franquias Star Trek e Star Wars são igualmente mencionadas. A história da ufologia, a partir do relato de Kenneth Arnold em 1947, é explorada e logo o autor estabelece paralelos entre a questão dos discos voadores e a ficção científica popular da época, especialmente no cinema. Qualquer um que, como eu, tem interesse pela FC e pela ufologia, deve ter notado que tais paralelos existem — vejam, por exemplo, minha antologia Estranhos Contatos: Um Panorama da Ufologia em 15 Narrativas Extraordinárias (1998). Don Lincoln discute muito bem esse fato, até encerrar o livro com uma reflexão bem embasada sobre como seria a vida extraterrestre a partir do que se sabe sobre química, física e a vida na Terra. Universo Alien torna-se, portanto, uma obra de divulgação científica de interesse tanto para fãs e escritores de FC (que podem fundamentar melhor suas especulações sobre o assunto), quanto para quem deseja entender melhor a ufologia como fenômeno cultural dos nossos tempos.

 

Arte de capa de Paula Cruz.

Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, Anônimo, ed. Pontes Gestal, SP: Plutão Livros, 1.ª edição eletrônica, 2018, 2784KB. Capa e ilustrações internas de Paula Cruz. Prefácio de Roberto de Sousa Causo. Eu tive a honra de ser procurado pelo editor André Caniato, da Plutão Livros, para escrever o prefácio deste e-book — certamente por conta de ter incluído a história de Machado de Assis, “O Imortal”, na antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir Brasil, 2007), então uma indicação de Marcello Simão Branco.

O e-book reúne não apenas “O Imortal”, que é de 1882, mas também “Rui de Leão” (1872). Um conto deu origem ao outro; isto é, dez anos depois da primeira publicação, Machado viu impressa a segunda versão da história do aventureiro português Rui de Leão, que se torna imortal depois de beber uma poção indígena, entre os tamoios, durante o período colonial, e vive os eventos de séculos futuros. Ostensivamente, Machado afirmou que reescreveu o conto para “ganhar uns cobres”, mas entre uma e outra há uma evolução interessante. A segunda é mais sofisticada, de ironia mais fina e menor comicidade, com uma espécie de parêntese abraçando a narrativa do fidalgo — envolvendo seu filho a narrar as peripécias do pai, a um número de figuras da sociedade local, em noite de chuva. A edição da Plutão Livros tem uma capa marcante por Paula Cruz e um sólido tratamento editorial, que, salvo engano, a coloca um pouco acima dos e-books que eu andei vendo por aí. Chamou a atenção nas redes sociais. Note-se ainda que o livro saiu, oportunamente, no aniversário de 110 anos da morte do escritor. Você pode ler o prefácio, por cortesia de André Caniato, aqui.

 

 A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015, 318 páginas. Brochura. Este é um romance brasileiro de ficção científica de história alternativa, província de Gerson Lodi-Ribeiro, Roberval Barcellos e uns poucos outros, apesar do steampunk, mais popular, às vezes resvalar por essa modalidade de FC recursiva. O enredo aqui margeia um dos temas mais explorados do subgênero: a variação em torno da II Guerra Mundial. Provavelmente, A Segunda Pátria não existiria sem que antes fosse publicado Complô Contra a América (Plot Against America; 2004), do recentemente falecido Philip Roth, agora em maio. Por sua vez,  acredito que o romance do importante escritor judeu-americano não teria sido escrito não fosse o clássico O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle; 1962), de Philip K. Dick. Em todos os casos, temos uma visão distópica do home front, no aftermath (no caso de Dick) ou pouco antes e durante o conflito. No seu livro, Sanches Neto explora o fato de Getúlio Vargas ter nutrido simpatias fascistas para sugerir que ele teria, nessa linha temporal alternativa, facultado uma presença nazista mais ostensiva no território brasileiro.

A narrativa alterna seções vividas pelo ponto de vista de dois personagens diferentes. Um deles, o engenheiro Adolpho Ventura, é um germanista afro-brasileiro. O outro é uma jovem, Hertha, espécie de fêmea prototípica germânica, hipersexualizada como a posterior Laura de Dezoito de Escorpião (2014), de Alexey Dodsworth, e como a anterior Vera Blumenau de Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett. Adolpho aparece primeiro entregando seu filho bebê aos pais, antes de desaparecer após se apresentar a uma delegacia, como exigem as novas leias. Ele é encaminhado a uma fazenda para trabalhos forçados, enquanto seus pais fogem do Sul do Brasil, rumo ao Sudeste, como refugiados raciais — em andanças angustiadas e aflitivas como as da heroína de The Underground Railroad (2016), de Colson Whitehead. Enquanto isso, na fazenda modelo nazista tropical, seu filho tem a pele marcada como uma rês e trabalha como escravo, literalmente. Na outra linha narrativa, Hertha é contratada, como uma cortesã das antigas, para entreter um convidado especial vindo da Alemanha. Basta pensar no pior, dentro do contexto, para antecipar quem é essa figura misteriosa. A Segunda Pátria é modernista na estrutura e em boa parte da escrita — com diversas seções do romance tendo andamentos diferenciados —, mas flerta com a literatura pulp em vários momentos e situações. Na linha de Adolpho, que cai em si e abraça sua herança afro ao adotar o nome Trajano, há uma revolta dos negros escravizados e emboscadas nas florestas sulistas, com guerreiros despencando de árvores sobre a milícia nazista que os persegue. Mas é o frisson erótico politicamente incorreto em torno de Hertha nos primeiros momentos da sua linha narrativa, que se beneficia mais do pulp e se configura como o ponto mais interessante de se acompanhar, no romance. O encontro das duas linhas é intrigante, embora menos intenso, e reafirma justamente a qualidade mestiça da formação do brasileiro. A questão que o romance coloca acabou, pela superposição de fatos da vida real, política e social, do Brasil de hoje, ganhando uma relevância maior do que a denúncia velada do racismo presente na história do Sul. Afinal, o Brasil atual marcha cadenciado e convicto, rumo ao passado. A imagem da capa eu peguei na www. Aparentemente, no país a produção gráfica não é uma arte exata, e a imagem do mapa brasileiro, de ponta cabeça e apenas num tom mais escuro de vermelho, praticamente não aparece no exemplar que eu li.

 

Malditas Fronteiras, de João Batista Melo. São Paulo: Benvirá, 2014, 280 páginas. Texto de orelha de Luiz Bras. Brochura. A coincidência temática me fez pegar de novo este que é o segundo romance do multipremiado escritor mineiro João Batista Melo, também um festejado contista. O primeiro romance foi Patagônia, de 1998, uma espécie de western ambientado na América Latina de fins do século XIX, com um brasileiro que caça por vingança a famosa dupla de assaltantes Butch Cassidy e Sundance Kid no seu exílio sul-americano. Malditas Fronteiras é um romance mainstream de época, ambientado em Minas Gerais nos anos da eclosão da II Guerra Mundial. Ganhou o concurso Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte. É narrado pelo ponto de vista de uma família germânica envolvida com produção de cerveja artesanal, com agregados que incluem uma pintora judia que fugiu dos nazistas, e um menino brasileiro que tem ligação muito forte com Sophie, neta do cervejeiro Konrad Petersen. A condição de cegueira de Sophie a torna uma personagem que convoca a nossa ternura, e que simboliza a inocência de quem não enxerga divisões sociais.

Em Malditas Fronteiras, a situação é inversa à de A Segunda Pátria, e em mais de um sentido. A história aqui é aquela que conhecemos, e que insistimos em esquecer. Imigrantes alemães, italianos e japoneses sofreram a repressão do Estado e a desconfiança da sociedade brasileira, depois que o país entrou na guerra em 1943. Boa parte da tensão que a narrativa fomenta vem dos extremos que orbitam em torno dos Petersen, com um tio que vê oportunidades em aderir ao extremismo nazista, e com o pai do brasileirinho Valentino, que vê oportunidades em agredir a família alemã, fomentando o ódio popular contra ela e os alemães em geral. “Oportunidades” aqui é no sentido de sublinhar o oportunismo social e financeiro que surge nesses momentos de reorganização da sociedade. Se Miguel Sanches Neto misturou pulp e mainstream na narrativa do seu romance, João Batista Melo — que como contista já escreveu várias narrativas de ficção científica (inclusive a história alternativa “A Moça Triste de Berlim”), fantasia e realismo mágico — se mostra aberto para a ficção de gênero nas muitas epígrafes do seu. Nelas, J. R. R. Tolkien e Ray Bradbury aparecem juntos, por exemplo, com Clarice Lispector e Ian McEwan. E o tom que João Batista estabelece no livro é mais consistente do que o de Sanches Neto. Às vezes melancólico, às vezes pungente, sublinha com perfeição o sentimento trágico que sobrevém quando uma sociedade cede a posições extremistas. Ao mesmo tempo, esse tom é a marca de um estilo límpido e humano, um deleite para o leitor.

“Neste seu segundo romance, João Batista Melo prova mais uma vez que é um dos prosadores mais talentosos da geração 90.” —Luiz Bras (no texto de orelha de Malditas Fronteiras).

 

Arte de capa de Leo Pinheiro.

Sketchbook, Leo Pinheiro. São Paulo: edição do autor, s.d., 36 páginas. Capa de Leo Pinheiro. Brochura. Aqui está mais um sketchbook para a minha coleção, que inclui um material muito bacana de Gio Guimarães, Jeffrey Catherine Jones, Arthur Suydan (dois volumes) e Daniel HDR.

Eu comprei esse sketchbook do paulistano Leo Pinheiro no finzinho do mês na banca da Praça da Liberdade, o bairro oriental localizado aqui na região central de São Paulo. E o traço fino de Pinheiro de fato puxa para o mangá, o quadrinho japonês. Mesmo quando o artista faz, aparentemente, encomendas (requests) de super-heróis da Marvel ou da DC Comics. Inclusive, Leo Pinheiro dá aula na AreaE Escola de Arte, especializada em mangá e localizada lá mesmo na Liberdade. As suas figuras humanas são elegantes e bem proporcionadas, de rostos e poses expressivas, puxando para o juvenil. Há apenas uma página de quadrinhos no livro, porém. Alguns desenhos são bem infantis, expressando a versatilidade do artista. Gostei especialmente do desenho em que aparecem Groot e Rocky Racoon, inspirado no filme Guardiões da Galáxia. E este do dragão que a gente vê na capa, arte-finalizado a nanquim. Seu sketchbook acaba sendo, porém, uma edição bastante amadora e não traz muitas informações sobre o artista, mas cumpre a sua função. Pretendo, inclusive, acompanhar o trabalho de Leo Pinheiro no futuro.

 

Animais Fantásticos e Onde Habitam: Guia dos Personagens (Fantastic Beasts and Where to Find Them: Character Guide), de Michael Kogge. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2016, 144 páginas. Capa dura. Traduzido por Regiane Winarski. Já afirmei aqui que Animais Fantásticos e Onde Habitam foi meu filme favorito de 2016, e já tratei de um outro livro-guia do filme dirigido por David Yates. Este tem como foco os personagens, e também foi adquirido em uma unidade das Lojas Americanas aqui perto de casa, por um preço bem razoável.

O autor Michael Kogge estrutura o livro como fichas dos personagens, mas fornece alguma contextualização das situações do filme. Ele se esforça para não revelar demais, ao mesmo tempo em que menciona personagens que não entraram no corte final. Isso é interessante por alargar as relações dos heróis. Obviamente, o livro foi preparado antes do lançamento do filme. A tradução parece divergir um pouco do que eu me lembro de ter visto na telona, talvez também por isso. As fotos são o ponto forte do livro, assim como o material de design gráfico, já que a produção criou toda uma expansão do conteúdo do filme sob a forma de folhetos, cartazes, documentos e publicações. É um material muito rico, sugestivo — e também irônico, com uns trocadilhos bem sutis. Eu gostei especialmente da foto dos atores/personagens, cada um diante do seu painel personalizado no estilo art déco. O livro deixa de agregar uma ficha técnica do filme, justamente com os nomes dos atores e dos desenhistas de produção, provavelmente por ser dirigido a um público muito jovem que, supostamente, não se interessa por esses detalhes.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Gustavo Vícola.

Star Wars Infinitos: O Jetorno de Jedi (Star Wars Infinities: Return of the Jedi), de Adam Gallardo (texto) e Ryan Benjamin (arte). São Paulo: Panini Comics, 2018, 106 páginas. Capa de Rodolfo Migliari. Tradução de Gustavo Vícola. Brochura. Este é o livro que fecha uma exploração alternativa das situações da trilogia inicial de Star Wars (1977, 1980 e 1982) no cinema. A divergência é imediata: Leia Organa é desmascarada de saída, no palácio de Jabba the Hutt em Tatooine. O resgate de Han Solo é protelado, Boba Fett foge levando-o preso no bloco de carbonita para vendê-lo diretamente ao Império, e o retorno Luke a Dagobah também é adiado. Por conta disso, quando Han sai da carbonita, tempo demais se passou e ele acaba cego permanentemente. Ao mesmo tempo, Luke perde o adeus do moribundo Yoda — que depois aparece espiritualmente a ele junto com Ben Kenobi, para dar alertas mais extensos do que os do filme. Essa cena é um ganho, assim como a ação tática em Endor, que não envolve os heróis perdidos na superfície do planeta para fazer contato com os ewoks. Lando Calrissian tem mais tempo de cena e participa do resgate nos últimos instantes da Estrela da Morte 2.0. O ponto de reorganização mais importante do enredo é afastar Leia da sombra de Han e colocá-la no local do duelo entre Luke e Vader, de modo que os dois irmãos participem do virada moral do vilão de armadura negra. O imperador escapa, e a conclusão da trilogia fica em aberto — o que até pode ser interessante. A conversão de Vader é que soa absolutamente inverossímil e em desequilíbrio com os seus crimes anteriores.

A narrativa em quadrinhos de Ryan Benjamin é competente, mas ele não é um bom fisionomista nem lida particularmente bem com o conhecido hardware de Star Wars. Ainda assim, este episódio de Infinitos vale a leitura para aguçar o nosso senso crítico deste que é o pior dos filmes da primeira trilogia criada por George Lucas. O filme poderia ter sido muito melhor.

 

Arte de capa de Ricardo Delgado.

Age of Reptiles: Tribal Warfare, de Ricardo Delgado. Milwalkie, OR: Dark Horse Comics, 1996, 132 páginas. Introduções de Ray Harryhausen e John Landis. Capa de Ricardo Delgado. Brochura. Este é um livro de quadrinhos que eu vinha namorando há um bom tempo — desde que a loja Omniverse ainda se chamava Terramédia. Ele foi danificado por uma tempestade que se abateu há anos sobre o bairro do Cambuci, em São Paulo, daí a minha hesitação. Deu para ler sem problemas, de qualquer modo, e para apreciar o rico desenho do artista de storyboard Ricardo Delgado. Daí, inclusive, ele ter alguns grandes nomes da FC e da fantasia no cinema fazendo a apresentação deste que é o seu primeiro livro de quadrinhos: os diretores e produtores Ray Harryhausen e John Landis.

As tribos em guerra, que aparecem no subtítulo, são um bandos de velocirraptores e alguns tiranossauros. Seu conflito eterno é como aquele entre leões e hienas, nas savanas da África. A narrativa de Ricardo Delgado abre mão de balões com texto e de onomatopeias — é composta exclusivamente por imagens. Seu desenho é expressivo, de texturas precisas e dinamismo nas figuras. Lembra bastante o do famoso William Stout, que também se dedicou ao desenho de dinossauros, inclusive aparecendo no Brasil com o livro de contos de Ray Bradbury, Contos de Dinossauros. Delgado deu uma cara própria a cada um dos personagens animais, sem apelar para a sua humanização. Como artista de storyboards, ele sabe contar com precisão e competência uma história com imagens, buscando ângulos sugestivos e situações e atmosferas diversas. Obcecados com a sua luta constante, as duas tribos dão mole para uma terceira força: uma espécie de pró-símio pré-histórico, sublinhando aí, como foreshadowing engenhoso, a sucessão dos grandes lagartos  pelos mamíferos e pelo Homo sapiens. Há algo de bem pouco científico, porém, na descrição que Age of Reptiles faz dos dinossauros. A razão dos elefantes, o maior animal terrestre do planeta, não galoparem — a mesma razão de um tiranossauro, que tinha várias vezes o peso de um elefante, não poderia sobreviver a uma queda de sessenta metros.

—Roberto Causo

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