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Repercussões de “Shiroma: Phoenix Terra”

 

O primeiro e-book da série Shiroma, Matadora Ciborgue recebeu resenhas positivas em diversos blogues nacionais, desde o seu lançamento em fins de 2020.

Shiroma: Phoenix Terra é uma noveleta publicada como e-book Kindle pelo Selo Miskdo do Malean Studios, com arte de capa de Carlos Rocha e ilustrações internas de Eduardo Brasil. A diagramação de Taira Yuji prova que há espaço para um book design sofisticado, no campo dos livros eletrônicos.

 

A capa completa de Shiroma: Phoenix Terra. Ilustração de Carlos Rocha.

 

Treinada para ser uma arma humana de grandes capacidades, a ciborgue Shiroma possui biocibersistemas únicos, que despertam a cobiça da Associação Céu e Terra da Era Galáctica, uma poderosa organização criminosa com tentáculos por todas as Zonas de Expansão Humana.

Para enfrentar este sindicato do crime, Shiroma precisa de recursos financeiros. Disfarçada como estudante de arqueologia, ela vai ao estranho planeta Phoenix Terra para ver Torgo Borkien, um especialista em arte alienígena que pode ajudá-la a vender artefatos valiosos de origem misteriosa.

Mas Shiroma logo descobre que, por trás da sua ecologia monótona e da ocupação humana aparentemente tranquila, Phoenix Terra esconde uma sucessão de armadilhas e perversões.

 

Tendo lido a noveleta antecipadamente, o próprio Carlos Rocha, que faz crítica de ficção científica e fantasia no site Selo Multiversos, a resenhou ainda em agosto de 2020, afirmando:

“A noveleta abre um novo ciclo para Shiroma trazendo uma experiência de leitura semelhante a dos outros títulos do autor: narrativa envolvente, personagens sólidos e construção de um universo ficcional único e instigante… Fica então a expectativa para esse novo ciclo de histórias da personagem que irão expandir ainda mais um dos melhores universos já criados na ficção científica brasileira.”

Gilberto Schoereder, veterano editor e observador da FC no Brasil, autor do livro de referência Ficção Científica (1987), em fevereiro de 2021 tratou de Shiroma: Phoenix Terra no Portal Vimana:

“É possível conhecer bastante da história de Shiroma acompanhando essa aventura, na qual ela entra em contato com o xenoarqueólogo Torgo Borkien — um nome que me lembrou o de alguns personagens de Asimov … A existência de culturas alienígenas no universo em que se passa a ação, e, em particular, de uma cultura extraterrestre desaparecida e aparentemente representada apenas pelos artefatos, prende a atenção desde o início da narrativa.”

Crítico literário, booktuber e organizador de antologias, Davenir Viganon resenhou o e-book no seu blogue Wilbur D.: Ficção Científica, também em fevereiro de 2021. Ele avalia:

“A protagonista continua interessante e bem construída e é impressionante ver como os contos, este e os anteriores continuam repletos de escolhas acertadas da parte do autor, que não permite que Shiroma vire uma boneca sexualizada invencível que vive aventuras de ação sem sentido mas uma mulher complexa, interessante e que se desenvolve um pouco a cada conto.”

Atuando no site Ficções Humanas, Paulo Vinicius é outro crítico destacado no campo da ficção científica no Brasil. Em fevereiro, ele destacou a segurança da composição da personagem e da ambientação:

“Essa é uma narrativa de hard sci-fi, que é uma marca do autor. Ele consegue lidar com altos conceitos de ficção científica de uma maneira que parece fácil. Ao ler sua história, algo que é marcante é o quanto ele tem de background sobre o mundo e seus personagens. Os elementos de construção de mundo são precisos. Não vejo um titubeio nas frases. Não há também incoerências ou contradições. … [U]ma excelente história para trazer novos leitores a esse interessante universo. Fica a nossa vontade de saber mais a respeito de quais serão os próximos passos dela. … [U]m mergulho em uma ficção científica de alta qualidade. Causo foi muito feliz ao nos apresentar um mundo repleto de mistérios e detalhes que fazem o leitor imaginar inúmeras possibilidades.”

E Jorge Luiz Calife, nome máximo da FC hard nacional, criador do Universo da Tríade e jornalista de cultura e entretenimento junto ao Diário do Vale, destacou, também em fevereiro:

“Roberto Causo é um dos nomes mais conhecidos da moderna ficção científica brasileira. Vivendo em São Paulo ele já produziu vários contos e romances premiados. … O mais interessante nessa ficção do Causo são os mundos extraterrestres que ele imagina. Como o planeta Phoenix Terra com suas florestas cheias de um pólen que sufoca os seres humanos.”

Não deixe de ler Shiroma: Phoenix Terra, disponível na Amazon Brasil.

 

 

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Leituras de Maio de 2020

Maio foi um mês de menos leituras do que eu gostaria, mas com ficção científica de boa qualidade.

 

The Counselor, de Cormac McCarthy. Londres: Picador, 2013, 184 páginas. Hardcover. Descobri Cormac McCarthy nas páginas da revista Esquire na década de 1990 (um excerto do romance A Travessia) e desde então adquiri quase todos os seus livros, faltando ler, da sua primeira fase, o romance Sutree (1979), e da última, o romance Onde os Velhos Não Têm Vez (No Country for Old Man; 2005). Este The Counselor é um script para cinema, filmado por Ridley Scott e exibido em 2013. Certamente não o primeiro roteiro de audiovisual escrito por McCarthy. Antes dele eu li The Gardener Son (1996), que foi um telefilme exibido em 1977.

O roteiro acompanha um advogado (counselor) que, para bancar um alto estilo de vida com a mulher por quem parece nutrir um amor genuíno, se envolve com o tráfico internacional de drogas. A história começa com o idílio amoroso/erótico do sujeito com sua amada, momento bem pouco característico de McCarthy. Depois disso, porém, o enredo retoma o seu normal violento e degradante. Parte da ação é tomada por uma mulher, a vilã argentina Malkina, filha da geração que viveu a violenta ditadura militar, amante do traficante Reiner. É uma femme fatale hiper-sexualizada de um jeito bizarro e que anda por aí acompanhada de dois guepardos como pets — algo que eu veria logo mais em The Peripheral (2014), de William Gibson.

Aos poucos, monta-se a intriga em que Malkina prepara um grande golpe contra o cartel das drogas, jogando a culpa nas costas do advogado. Os passos do golpe são narrados com a secura característica do autor, nos momentos de notação teatral, já que, como script, os diálogos dominam o formato. A crueldade moral aplicada ao advogado que vendeu a alma ao dinheiro das drogas parece desproporcional, também algo característico de McCarthy. Crueldade que é ancorada na realidade possível do nosso mundo que não parece ter limites para a violência e o terror que infligimos uns aos outros. Mas com a aura metafísica de uma moralidade cristã punitiva que costuma elevar os escritos de McCarthy ao terreno do quase metafísico. A linha acrescentada na capa expressa a “moral” e a tônica do projeto, ao afirmar que “a ganância é muito valorizada… mas o medo não”. O terror e a culpa, então, é o que se abate sobre o personagem. Ao mesmo tempo, é o darwinismo social brutal e amoral — igualmente, marca da postura crítica o autor — que move Malkina contra os desavisados e contra as hipocrisias do mundo civilizado, neste texto que parece estar na mesma chave temática e genérica (o formato do thriller) de Onde os Velhos Não Têm Vez:

“MALKINA      […] O caçador tem uma pureza de coração que não existe em nenhum outro lugar. Acho que ele não é definido tanto pelo que ele veio a ser quanto por tudo o que escapou de ser. Você não faz distinção do entre o que ele é e o que ele faz. E o que ele faz é matar. Nós é claro somos outra questão. Eu suspeito que somos mal ajustados ao caminho que escolhemos. Mal ajustados e mal preparados. Gostaríamos de estender um véu sobre todo esse sangue e terror. É isso o que nos trouxe a este lugar. É a nossa fraqueza de coração que fecharia os nossos olhos a tudo, mas fazendo isso o transformamos no nosso destino. Talvez você não concorde. Não sei. Mas nada é mais cruel do que um covarde, e a matança que está para vir provavelmente será além da nossa imaginação. […]” —Cormac McCarthy. The Counselor.

 

Arte de capa de Eddie Jones.

Nova, de Samuel R. Delany. Nova York: Bantam Books, 7.ª edição, junho de 1975 [agosto de 1968], 216 páginas. Arte de capa de Eddie Jones. Paperback. O afro-americano Samuel R. Delany foi um dos nomes mais vinculados ao movimento New Wave, iniciado na Inglaterra com a revista New Worlds, sob a editoria de Michael Moorcock. Recentemente foi publicado no Brasil pela Morro Branco: o seu clássico Babel 17 (1966). A space opera foi praticada por ele de modo destacado, mas numa época em que certo exotismo brincalhão e eivado de misticismo era indicado como parte do subgênero — e que vemos, com outra tônica, em Duna (1965), de Frank Herbert.

A premissa é a formação de uma tripulação de aventureiros que deve partir para um local secreto no universo, onde a explosão de uma nova teve lugar. Lá, Lorq Von Ray, o capitão da nave, aspira encontrar um material raro e de importância singular para a viagem espacial: o metal superpesado “illirion”. É um McGuffin pouco aprofundado, mas com um toque de FC hard, já que elementos superpesados fora da tabela periódica podem existir em condições especiais (a revista Scientific American Brasil publicou um artigo a respeito, na edição de maio de 2018). No caso do romance, essas condições são as de temperatura e pressão de uma estrela que explode. Todos os candidatos a tripulantes são estranhos: o músico cigano Pontichos “Camundongo” Provechi; o aspirante a romancista (uma arte extinta no do ano 3172) Katin Crawford, que funciona como uma versão do Ishmael de Moby Dick; um casal que inclui uma leitora de tarô; e os gêmeos africanos Lynceos & Idas, um deles albino — o que aponta, simbolicamente, para um futuro com um outro quadro de política racial. O motivo do tarô também aparece com relevo em outras space operas, como o romance de Herbert Messias de Duna (1969), e a série de quadrinhos de Alexandro Jodorowsky, O Incal (1980-2014). A leitura do tarô antes da grande missão de Von Ray tem tons ominosos, e reforça a aura mitológica de vários momentos. Isso é algo muito próprio da New Wave americana, à qual Delany se vincula (ele também é uns dos inspiradores do cyberpunk).

O centro do livro é um grande flashback que retorna à infância de Von Ray, também ele afro-descendente e mestiço, membro de uma aristocracia comercial importante em determinado setor da galáxia humana. Quando era garoto, um incidente determinou que ele seria alvo do ódio mortal e meio insano do cruel e mimado Prince Red, herdeiro de uma outra família de aristocratas e detentor de um braço biônico que não pode ser impunemente mencionado. O ódio se transforma em implacável rivalidade comercial quando ambos se tornam adultos. O terceiro ato reserva o confronto entre eles, perante a nova e o terrível preço que a obtenção pode cobrar: uma luz que cega e enlouquece. A crítica às obsessões mercantilistas do capitalismo é difusa, e o desfecho é genuinamente impactante. Aquele flashback e outros, envolvendo o Camundongo e outros personagens, são um esforço não apenas de caracterização, mas de evitar um arco narrativo convencional. O estilo de Delany, que escreveu o livro quando tinha 25 anos, adota muitas interrupções de falas e reticências, porém possui certa cintilância que fica na memória como efeito estético vívido e adequado ao romance. A arte do inglês Eddie Jones na capa não tem nada a ver com o romance, mas as suas evocações surrealistas combinam bem o bastante.

 

Arte de capa de Bruce Jensen.

Maré de Verão (Summertide), de Charles Sheffield. Rio de Janeiro: Editora Record, 1993 [1990], 270 páginas. Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasi. Arte de capa de Bruce Jensen. Brochura. O escritor inglês Charles Sheffield foi um dos autores favoritos do tradutor e editor Ronaldo Sérgio de Biasi, que, no início da década de 1990, editou a Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica (1990-1993). Além de publicar histórias de Sheffield na saudosa revista, de Biasi deve ter participado da seleção deste romance da série Heritage (“Universo dos Construtores”, no Brasil) e sua sequência imediata, Convergência.

Nesse universo ficcional, a Via Láctea do século 31 é marcada pela presença de artefatos hipertecnológicos de uma civilização desaparecida. A heroína Lang é uma especialista nesses artefatos, autora de um catálogo que integra o texto do romance sob a forma de excertos. Suas medições a levaram a concluir que um ponto específico da galáxia, envolvendo um desses artefatos, será palco de um evento extraordinário envolvendo a tecnologia dos tais Construtores. O artefato é considerado de pequena monta, e não atraiu a atenção das autoridades graúdas. Mas Lang não é a única a compreender isso, e para lá convergem um aventureiro humano e uma cientista alienígena, ambos assassinos em massa, e uma dupla de garotas suspeitas de genocídio — além de dois burocratas locais, e de dois alienígenas que funcionam como alívio cômico. O romance tem alguns elementos singulares, como a esqualidez da colônia local, em contraste com a hipertecnologia dos Construtores. O principal, porém, é a coleção de personagens caracterizados principalmente pela excentricidade de cada um, algo que me soou bem britânico.

O enredo envolve o grupo indo a um mundo vizinho à colônia, conectado a ele por um cabo gigantesco, acompanhado de um veículo que vai de um mundo a outro por esse cabo — obra dos Construtores. Lá, os heróis enfrentam uma grande catástrofe natural, traições e descobertas, até o ponto em que o evento antecipado de fato acontece. Sheffield é um escritor de estilo meio áspero; apesar disso manipula tudo isso com habilidade, gerando suspense e sense of wonder. A bonita aerografia de Bruce Jensen coroa a capa deste romance de FC hard, representado bem o ápice do romance, e num tipo de composição um pouco diferente daquele que é sua marca registrada, sempre com algo de trompe-l’oeil, e que o tornou um artista bastante vinculado à FC cyberpunk.

 

Arte de capa de Stephanie Marino.

A Bicicleta, de Roberto Fideli. São Paulo: Agência Magh, abril de 2020, 964 KB. Arte de capa de Stephanie Marino. EBook Kindle. Este e-book é o primeiro livro de ficção científica do meu filho Roberto Fideli, que este ano também apareceu nas antologias Histórias (Mais ou Menos) Assustadoras (2019), Vislumbres de um Futuro Amargo (2020) e Multiverso Pulp Volume 1: Espada & Feitiçaria (2020).

A história acompanha Daniel, um piloto de caça estelar. Abatido no espaço durante uma batalha, é ejetado para fora e sobrevive ao combate contra forças alienígenas. Nesse ponto, a narrativa migra para outro personagem, Bruno, um menino que ganha uma bicicleta no seu aniversário de 12 anos. Ele sofre um acidente grave com a tal bicicleta, e depois de um desmaio, desperta no corpo de Daniel, o guerreiro das estrelas. Numa transição sutil, a narrativa adota o ponto de vista de Daniel, e em seguida, mistura as lembranças dos dois personagens. Aurora, uma terceira personagem, é apresentada. Também é uma criança, e sofre um acidente quando tentava recuperar uma pipa presa no telhado de casa. Neste ponto, a história introduz uma nova situação básica: Daniel é prisioneiro dos alienígenas Allakianos. Ele acredita que uma máquina dos seus captores o induz a sonhar que é Bruno e Aurora, mas o inimigo afirma, telepaticamente, que a máquina na verdade desperta memórias. Lembranças de ter sido ainda outras pessoas se sucedem, até que vem a maior surpresa de todas.

Há algo de Star Trek e de Babylon 5 (que Roberto reconhece no posfácio e assume homenagear no conto) em A Bicicleta, mas vale também lembrar de histórias nacionais recentes, de humanos vivendo e revivendo experiências estranhas, após serem capturados por inimigos alienígenas. Há duas delas na antologia Fractais Tropicais (2018), editada por Nelson de Oliveira: “Da Astúcia dos Amigos Improváveis”, de Santiago Santos; e “O Molusco e o Transatlântico”, do veterano Braulio Tavares (em Fanfic). O abordagem de A Bicicleta é formalmente engenhosa, desenvolvida com segurança (certamente superior à minha, quando comecei) até a conclusão comovente e com uma surpresa real e orgânica. Na sua exploração das eventualidades trágicas da vida, traduz o desejo de abraçar plenamente a experiência humana de morte, vida e superação.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Phil Noto.

Star Wars: Chewbacca, de Gerry Duggan (texto) & Phil Noto (arte). Barueri-SP: Panini Brasil, 2019, 112 páginas. Arte de capa de Phil Noto. Brochura. Muitas vezes, parece que Star Wars precisa espremer ao máximo a criação de George Lucas. Aquela situação doméstica da família de Chewbacca no às vezes infame Star Wars Holiday Special (1978) parece fornecer um irônico ponto de partida para esta HQ de Duggan & Noto.

Chewie é náufrago em um planeta dominado pelo Império, logo após a Batalha de Yavin (em Uma Nova Esperança). Uma garota sapeca, humana, de uns 10 ou 11 anos com cara de latina, o ajuda a evitar as tropas imperiais e encontrar transporte para fora do planeta. A garota se chama Zarro e tem Arrax, seu pai, endividado com agiotas locais. Para protegê-la, ele a manda embora. As autoridades não lhe dão bola e tudo parece que vai de mal a pior, até que ela encontra Chewie em um bar jogando sabbac. Zarro o convence a ajudá-la, falando muito enquanto ele grunhe de vez em quando. A ideia é invadir as instalações subterrâneas em que o pai dela trabalha como prisioneiro, coletando substâncias químicas de valor comercial, excretadas por larvas luminescentes. Para libertá-lo, Chewie enfrenta bandidos, droids militares e stormtroopers. A narrativa divertida e cheia de ação busca nos lembrar que o alienígena peludo é um herói por direito próprio, e não apenas por acompanhar Han Solo, Leia Organa e Luke Skywalker. Um toque especial da parte de Duggan está em também nos lembrar do que o cachorrão perde, ao ser o sidekick dessa gente toda. Heróis não descansam… A arte de Noto tem uma cor digital quente mas de manchas suaves, combinada com linhas de contorno bem delineadas e às vezes de valor elevado (são grossas), e que nem sempre me agrada. Mas ele é versátil e expressivo, e a sua interpretação de Zarro a torna uma pentelha cativante.

 

Arte de capa de Juan Giménez.

The Fourth Power (Le Quatrième Pouvoir), de Juan Giménez. Nova York/Hollywood: Humanoids/DC Comics, 2005, 136 páginas. Tradução de Justin Kelly & Jonathan Tanner. Arte de capa de Juan Giménez. Trade paperbackMês passado eu li The True Tales of Leo Roa, space opera autoral do admirável artista argentino Juan Giménez (1943-2020). Este The Fourth Power está na mesma categoria, embora com uma narrativa de menor teor cômico. Na verdade, são duas histórias interligadas — e de conexão faltosa, tanto em termos de estilo, quanto de lógica narrativa.

Na primeira, várias garotas em um distante futuro high-tech são sequestradas. Uma delas é uma piloto de caça em um conflito bélico futuro, e logo fica-se sabendo que os militares e políticos de uma das partes em conflito buscam criar uma super-arma humana, dotada de poderes quase divinos, que permita a eles alcançar o poder absoluto. Esse segmento é dos mais dinâmicos e estimulantes. É onde a garota conhece alguém que pode ser um interesse amoroso no futuro. Na segunda, ela ressurge em um habitat gigantesco como uma performer que realiza grandes feitos de “prestidigitação”. Na verdade, são atos paranormais de fato. A paranormalidade ou o sobrenatural são parte da space opera exótica, e Giménez investe nesse elemento. Ao invés da guerra, tem-se uma situação criminal de thriller de FC, com um terrorista realizando atentados contra o império de uma cafetina do lugar. Se a primeira história apresentava diversos ambientes, culminando em uma ação submarina, a segunda explora o mesmo espaço, com uma perseguição mais concentrada, e muita surpresas quanto à identidade verdadeira do terrorista. Nessa narrativa, a mais característica da revista Heavy Metal, no álbum, a arte de Giménez fica mais grosseira e as implicações da história descem um tom. Ainda assim, sempre uma arte e uma criação de mundo deslumbrantes.

Roberto Causo

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“O Par: Uma Novela Amazônia”, de Roberto Causo, Ganha Nova Edição

A ficção científica O Par: Uma Novela Amazônica, de Roberto Causo, tem a sua primeira edição como e-book publicada pela Agência Magh, de Gabriela Colicigno e Sol Coelho.

A nova edição traz prefácio do Prof. Osvaldo Ceschin e posfácio do autor.

 

Isolamento e violência: é o que toda invasão costuma invocar. OVNIs se apropriam do espaço aéreo brasileiro, trazendo consigo estranhos fenômenos. Oscar Feitosa é só mais um entre os vários homens do Exército Brasileiro destacados para isolar as fronteiras amazônicas contra tropas estrangeiras. Quando se vê exilado da sua tropa, sozinho no coração do Amazonas, Oscar vai reencontrar muitas coisas: velhos pesadelos e um antigo amor, agora tão estranhamente parecido com ele próprio. Esse estranho par peregrina em busca de algo…

O Par foi vencedor do concurso Projeto Nascente 11, da pró-Reitoria de Cultura da Universidade de São Paulo, e segue vivo na atualidade de suas questões.

 

Capa de Stephanie Marino

 

“Muito bom. Ótima fabulação, português seguro, madura técnica narrativa.”
Roberto Pompeu de Toledo, colunista da revista Veja (jurado do Projeto Nascente 11)

“Uma narrativa que envolve amor e aventura sem lugar-comum, sem atenuação. Com naturalidade e energia a história enreda situações e ações que não deixam antever os desfechos. O resultado final é imprevisível.”
Osvaldo Ceschin, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

O Par cumpre, de forma brilhante, um dos fundamentos da ficção científica, ao levantar uma das mais delicadas polêmicas nacionais e, ainda que não tenha a pretensão de apontar as soluções, apresentar uma visão crua das várias forças envolvidas nessa questão, que não deve, nem pode, ser preterida pelos brasileiros.”

Cesar Silva, Almanaque de Arte Fantástica Brasileira

“Uma aula de escrita e narrativa. Imergi na floresta. E entendi — antes do posfácio e muito claramente — a ‘instrumentalização’ de Lem e Conrad. Muito contemporâneo.”

Ricardo Labuto Gondim, autor premiado do romance Corrosão

[Ao ler O Par] me rendi às evidências e a um critério que oblitera qualquer outro: a excelência da história.”

Marcello Simão Branco, Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica

 

Disponível agora na Amazon.

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Leituras de Dezembro de 2019

O ano fechou com muita leitura de ficção científica ecológica e de outros tipos, e de obras que aproximam ficção mainstream e ficção de gênero, além de um interessante livro de não ficção sobre cinema de FC.

 

Arte de capa de Marty Blake.

A Friend of the Earth, de T. Coraghessan Boyle. Nova York: Viking, 1.ª edição, 2000, 272 páginas. Arte de capa de Marty Blake. Hardcover. Conheço o respeitado autor mainstream T. Coraghessan Boyle da revista The New Yorker. Ele já apareceu no Brasil com o romance América (The Tortilla Curtain; 1995). Este A Friend of the Earth é uma ficção científica, por ser ambientado em futuro próximo no qual o crise climática vai com ventos de furacão. Um militante conservacionista rememora as encrencas do passado, enquanto administra o zoológico particular bancado por um astro da música pop. Há algo de Bruce Sterling — autor de Tempo Fechado (1994), romance cyberpunk sobre o agravamento do clima — na premissa, na linguagem elaborada e no protagonista idiossincrático. De fato, Boyle tem um texto que, felizmente, escapa da tendência ao minimalismo. Mas foi a primeira vez que me recordo de ter encontrado tantos momentos de hiper-realismo que terminam sendo chatos.

O presente da narrativa é o ano 2025, em plena crise climática, mas o romance frequentemente retorna aos anos 1980 e 1990, quando o herói, Tyrone Tierwater, era um militante ambientalista radical, envolvendo a filha Sierra nas suas aventuras. Os capítulos do presente são narrados na primeira pessoa, os do passado, na terceira, reforçando a noção subjacente de que Tierwater reavalia a sua vida a partir de uma distância temporal e existencial, já que ele agora tem mais de setenta anos de idade e se depara com o ressurgimento de sua ex-esposa e ex-colega militante, Andrea. De fato, nas duas vozes o romance acaba sendo mais um exame da personalidade irascível do herói, do que um mergulho multifacetado ou aprofundado do ambientalismo e conservacionismo americanos (que ele pouco detalha), com muitos momentos patéticos e outros ferozmente irônicos. Chamado pela imprensa de “Homem Hiena” por ter colocado a filha em risco, Tierwater é tratado como um cara irado e confuso, que encontrou na causa uma válvula para a raiva indefinida que sente contra a sociedade. Não é dos protagonistas mais instigantes e seus traços de personalidade pouco ressoam com o assunto ambiental. Mais que isso, a abordagem do romance se ressente da sugestão implícita de que apenas alguém profundamente ressentido teria tamanha dedicação a uma causa que se revela, na própria lógica do romance, a mais importante em um mundo que afunda rapidamente num estado ainda mais deplorável de existência.

 

Arte de capa de Fernando Costa.

Os Filhos do Rio, de Paulo Condini. São Paulo: Carthago & Forte Editoras Associadas, 1994, 240 páginas. Arte de capa de Fernando Costa. Brochura. Acho que foi Gilberto Schoereder, autor do guia Ficção Científica (1987), que me indicou este livro do jornalista e editor Paulo Condini, com passagens pela Folha de S. Paulo, pelo Diário Popular e pela Editora Melhoramentos. Eu o peguei no Dia da Ficção Científica Brasileira (11 de dezembro, data de nascimento do prolífico pioneiro da FC nacional, Jeronymo Monteiro), exaltado por uma postagem de Nelson de Oliveira no Facebook. Ganhador do prêmio de ficção da Associação Paulista dos Críticos de Arte de 1994, o livro de Condini é um romance curto que lembra em tom e em tema a FC do nosso Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982). Imagina, em denúncia adequada também ao momento atual, a Amazônia transformada, no século 25, em deserto. Essa imagem também dá o tom de A Porta de Chifres, de Herberto Salles, um romance de 1986. A população sobrevivente de índios e caboclos, chamada de “remanescentes” pela burocracia do futuro, concentra-se em reservas ou “núcleos”. Um homem caminha sozinho, partindo do seu núcleo, em direção ao mar. Chama-se Mucura e é movido por um impulso pessoal misterioso, fato estranho que chama a atenção da liderança de um outro núcleo, cuja fronteira ele atravessa inadvertidamente. Também alerta uma dupla de burocratas localizados em um centro urbano moderno. Nesse segundo núcleo, Mucura conhece Anaí, uma jovem com cheiro de mel com quem forma um relacionamento.

Uma outra linha narrativa acompanha um dos burocratas localizado bem longe dali, Rodrigues, metido em uma intriga com um colega rival, e que passa a se interessar pelo destino daqueles remanescentes esquecidos. Em uma ação acelerada perto do fim, ele descobre a verdade sobre eles e a conjuntura do mundo — o que resta das elites e do seu aparelho de estado está pronto para abandonar a Terra e seguir para mundos ainda saudáveis localizados em um sistema planetário a seis anos-luz do nosso. Semelhante ao que acontece, digamos, em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep?; 1968), de Philip K. Dick. É claro, os sempre dispensáveis remanescentes serão deixados para trás, sem auxílio ou supervisão.

A investigação de Rodrigues levanta fatos histórico-jornalísticos colados no texto, bastante contemporâneos e com algum foco na problemática brasileira da devastação ambiental. De maneira um tanto confusa, ajudam o leitor a entender como fomos do início da década de 1990 até o século 25. Os Filhos do Rio flerta com a solução incomum de transformar o burocrata em herói, também ele envolvido em uma situação de descoberta do amor romântico, assim como a de Mucura e a bela Anaí no deserto amazônico. Mas Condini se esquiva dessa solução, com a tônica dos paralelismos indo para a impotência melancólica, os dois casais tropeçando em mesquinharias políticas e sociais, conservando um mínimo de impulso utópico nos seus destinos.

 

O Ovo do Tempo, de Finisia Fideli. Pontes Gestal, SP: Plutão Livros, Coleção Ziguezague, 1.ª edição eletrônica, dezembro de 2019 [1994], 477kb. Prefácio à coleção por Ana Rüsche. Finisia Fideli, minha esposa, começou a publicar contos de ficção científica em 1983, com o clássico “Exercícios de Silêncio”, um dos finalistas do concurso Conto Paulista da Editora Escrita. No fim da década ela fez uma pausa, vindo a retornar apenas em 1991, com o gozador “Quando É Preciso Ser Homem”, na Isaac Asimov Magazine N.º 21 e na antologia O Atlântico Tem Duas Margens: Antologia da Novíssima Ficção Científica Portuguesa e Brasileira (1993), organizada por José Manuel Morais para a coleção portuguesa Caminho Ficção Científica. Esta noveleta de viagem no tempo/dinossauros apareceu na antologia Dinossauria Tropicália (1994), que organizei para as Edições GRD de Gumercindo Rocha Dorea.

Uma das marcas da Finisia como autora dessa fase, conforme assinalado inclusive por M. Elizabeth Ginway, é a protagonista feminina ponderada, firme de caráter e de uma certa espirituosidade e disposição aventureira dirigida ao enfrentamento de mistérios e fatos insólitos — como a heroína do mais sombrio “A nós o Vosso Reino” (1998). A protagonista de O Ovo do Tempo, Mariana, adquire um geodo muito especial, que parece se comunicar exclusivamente com ela. O objeto a leva a uma aventura na zona rural do Rio Grande do Sul, com direito à entrada em uma caverna misteriosa e um momento de viagem no tempo. Uma outra das marcas de Finisia é uma certa jovialidade feminina, bem marcada no final da noveleta, que reaparece agora como parte da notável iniciativa da Plutão Livros do editor André Caniato, a Coleção Ziguezague, que publica em e-book tanto novidades quanto obras significativas do passado da FC brasileira, contando com um inspirado e informativo prefácio para a coleção como um todo, escrito por Ana Rüsche. Entre os títulos já publicados estão novas edições do romance clássico de Jeronymo Monteiro, 3 Meses no Século 81 (1947), e da coletânea pioneira de Dinah Silveira de Queiroz, Eles Herdarão a Terra (1960).

 

Forbidden Planet, W. J. Stuart (Philip MacDonald). Nova York: Bantam Books, 1956, 184 páginas. Paperback. Este é o romance tie-in do filme do mesmo título, Planeta Proibido em português, que eu li em preparo para a minha participação no Cine Clube Sci-Fi do Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo. Foi uma leitura prazerosa e surpreendente, considerando que W. J. Stuart, pseudônimo do roteirista e escritor de ficção de crime Philip MacDonald, foi engenhoso no modo como estruturou o romance. As situações são acompanhadas por três personagens diferentes, que narram, cada um, em primeira pessoa: o Major C. X. Ostrow, médico de bordo da nave exploradora C-57-D; o Comandante J. J. Adams; e o Dr. Edward Morbius.

A astronave  é desviada para o planeta Altair-4, onde deve fazer contato com os remanescentes de uma malograda expedição científica. É lá que se encontram Morbius e sua filha, Altaira. O cientista recebe os seus salvadores com frieza e os alerta de que não devem pousar. Quando os homens insistem, ele envia Robby, um poderoso robô, para recebê-los. Os motivos do alerta e das reticências de Morbius são um mistério que vai sendo desvelado aos poucos. A revelação inclui o fato de ele ser detentor de uma tecnologia superior à conhecida. Uma parte mais dramática está nos ataques fatais promovidos por uma espécie de monstro invisível. Enfim, Morbius revela ter acesso à tecnologia dos Krells, alienígenas que uma vez controlaram Altair-4, mas que agora estão desaparecidos.

Tanto filme quanto livro desenvolvem por meio de ícones da FC um argumento evolucionário, preocupação muito própria do gênero: o disco voador e o robô apontam imediatamente para uma tecnologia superior à nossa, assim como conceitos radicais como a viagem e a comunicação mais rápidas que a luz. Quando a tecnologia dos Krells, capaz de multiplicar a inteligência e criar matéria complexa pela força do pensamento, é visualizada, ela imediatamente se mostra ainda mais distante em uma linha de evolução civilizatória. A escala é, talvez, “stapledoniana” (referência ao autor britânico Olaf Stapledon), e inteiramente fascinante. Assim como a conclusão e as revelações em torno do “Monstro do ID”, em uma “mensagem” que se casa perfeitamente com a era das maravilhas sombrias do pós-guerra, que incluíam grandes avanços nos transportes, na medicina e na computação, mas também a ameaça das armas nucleares. A sabedoria científica e o poder técnico avançam de maneira desigual, em relação ao avanço moral da espécie. Os Krells fatalmente carregaram com eles, na sua utopia técnica, um inconsciente tão primitivo e violento quanto o Dr. Morbius — e nós mesmos. Algo do mise-en-scène e dos McGuffins lembra Jornada nas Estrelas, e é sabido que Planeta Proibido foi uma influência sobre a criação de Gene Roddenberry. O filme foi consideravelmente além daquilo que o cinema de FC de então era capaz de realizar. A par com isso, o livro de Stuart vai, tanto na estrutura quanto na atenção aos detalhes, além do que se esperaria de um simples romance atrelado ao filme.

 

Patrulha para o Desconhecido, de Roberto de Sousa Causo. Pontes Gestal, SP: Plutão Livros, Coleção Ziguezague, 1.ª edição eletrônica, dezembro de 2019 [1991], 519kb. Prefácio da coleção por Ana Rüsche. Posfácio do autor. No posfácio deste e-book da Plutão Livros, recordo as situações em torno do Prêmio Jeronimo Monteiro, realizado em 1990-91 pela Isaac Asimov Magazine, e que resultou na minha colocação em terceiro lugar e a publicação desta noveleta de ficção científica no número 14 da revista. Esse foi o primeiro concurso nacional de histórias de FC, recebendo 444 trabalhos de 17 estados brasileiros. Roberto Schima ficou em primeiro lugar, com o conto “Como a Neve de Maio”, e Cid Fernandez em segundo, com a noveleta “Lost”, uma space opera. Outros trabalhos que foram submetidos ao Prêmio Jeronymo Monteiro acabaram aparecendo nas páginas da revista, embora como submissão direta, sem vinculação com o concurso. Os jurados foram Jorge Luiz Calife, José dos Santos Fernandes e Luiz Marcos da Fonseca, então presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica.

Em Patrulha para o Desconhecido, que tem aqui a sua primeira publicação em livro — e a sua primeira republicação desde que apareceu na IAM — uma patrulha de pracinhas brasileiros se depara com uma aldeia isolada nos Apeninos, durante as operações da Força Expedicionária Brasileira na Itália, como parte dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. É um lugar habitado por uma estranha população silenciosa, que os brasileiros resolvem proteger quando, na mesma ocasião, surge ali uma força de soldados alemães. A noveleta ganhou o Prêmio Nova de Melhor Ficção Curta Nacional no ano seguinte.

 

Arte de capa de Charles Andres.

The Bruiser, de Jim Tully. Nova York: Bantam Books, 1946 [1936], 294 páginas. Arte de capa de Charles Andres. Paperback. É duro de acreditar, mas os esportes já foram um gênero literário, com revistas pulp próprias, de contos e romances serializados. Mais tarde, acabou reabsorvido pelo mainstream — mas sobrevive como gênero no mundo vibrante da cultura popular japonesa, aparecendo em mangás e animes. Essa tensão entre o mainstream e a percepção de gênero já estava presente na era das pulp magazines. Ernest Hemingway, por exemplo, conta que foi convidado para aparecer nas revistas especializadas depois de publicar contos sobre esportes, mas recusou pra não ficar marcado. Na lógica da ficção de gênero, é fácil ver nas diversas modalidades desportivas os subgêneros desse gênero maior.

O boxe é o meu esporte favorito, e ao longo dos anos li histórias sobre ele escritas por Hemingway, Jack London, Arthur Conan Doyle, John O’Hara, Thom Jones, Joyce Carol Oates, Ignácio de Loyola Brandão, Henrique Matteucci, Lucius Shepard e vários outros, tendo até publicado o meu próprio: “O Bêbado de Pancada” (na revista Playboy N.º 255, com o título de “A Moça que Veio Depois do Último Round”, 1993). Mas como seria ler um romance de boxe da época das revistas pulp? A resposta veio quando achei num sebo da vida este The Bruiser, cuja edição de 1946 coloca o livro bem no início da paperback revolution, mas que teve edição em capa dura de 1936. Tudo indica que não foi serializado antes disso, fato que me pareceu raro até eu descobrir que Tully já era um nome importante da literatura americana, quando o livro saiu pela primeira vez. Sua vida é a de um homem de origem pobre, filho de emigrantes, com passagem por orfanato e pela vagabundagem pelas estradas de ferro — situações que dramatizou em seus romances —, até se tornar um respeitado colunista de Hollywood (coisa rara) e um romancista de sucesso.

Arte de capa de Fred Rodewald.

A competente arte de capa de Charles Andres não tem uma técnica apurada, mas tem boa atmosfera e uma composição de movimento contido que casa bem com o conteúdo do livro: o louro troncudo avança dentro do golpe desferido pelo adversário para aplicar um “direto de oito polegadas”. Técnica perfeita. A arte da edição original em hardcover, feita por Fred Rodewald (1905-1955 — artistas pulp morriam cedo…), também é básica e bonita, extraindo sua força da angulação das figuras.

Na abertura do livro, um rapaz branco e um negro enfrentam um dia chuvoso, numa série de pequenas situações que hoje seriam vistas  politicamente incorretas — talvez até abafando junto a um leitor judicioso demais, a profunda solidariedade existente entre eles. Ambos vivem na estrada, pegando carona em trens de carga, uma atividade sempre reprimida com violência (quem se lembra do filme de Robert Aldrich, O Imperador do Norte, com Lee Marvin e Ernest Borgnine?). O jovem negro é um lutador chamado Torpedo Jones, mas a história acompanha o outro, Shane Rory e como ele foi construindo uma carreira usando um truque ou outro — como forjar clippings de jornais sobre suas “vitórias” — para conseguir lutas em diversos pontos dos EUA. Chama a atenção de um treinador veterano que o prepara, em termos técnicos e empresariais, para ser um pugilista de melhores oportunidades.

Sua escalada inclui uma refrega especialmente dura com Torpedo Jones, também transformado em lutador de classe mundial. A certa altura Rory sofre uma derrota e uma mandíbula quebrada, e conhece um lutador que esteve no topo mas hoje sofre sequelas cognitivas. Isso assusta Rory mais do que tudo. Meio que atordoado, volta para a estrada e para as suas origens, reencontrando-se com a filha do homem que lhe deu uma primeira chance de trabalho, antes de ele cair na estrada. O amor se infiltra em sua vida, e é duramente reprimido pelo empresário. Retornando ao camp em que treinava, Rory se dedica à retomada e à luta pelo título, sem saber que, tendo acompanhado o seu dilema, um jornalista especializado arranjou o reencontro com a garota. Essa é a principal reviravolta do romance, seguida de uma segunda — Rory declara imediatamente que vai pendurar as luvas. Cede o título ao amigo dos tempos de vagabundagem, o negro Torpedo Jones. Nem sei se as regras do boxe da época permitiam ao campeão abdicar em nome de um colega específico, mas Jones devia estar no topo do ranking da categoria. De qualquer modo, o mito da “grande esperança branca” (expressão criada anos antes por Jack London) é atenuado em Bruiser, assim como o do sonho americano e do self-made man. Rory conseguiu o que queria mas preza a sua massa cinzenta e o trabalho honesto o suficiente para voltar à fazenda da amada. Jim Tully lutou boxe como peso leve, mas eu suspeito que o jornalista sentimental (outro clichê enfraquecido: o jornalista cínico) é mais o seu alter ego do que o vitorioso Rory. Parte do encanto do boxe vem de possuir uma história que os fãs costumam conhecer, das suas vinculações proletárias, e de uma espécie de autodisciplina de constituição do corpo e da mente que não tem formulação filosófica, mas que está lá. Tudo isso Tully evoca com um estilo despretensioso que alterna, num ritmo todo próprio, uma prosa telegráfica de jornalismo esportivo com diálogos extensos ou descrições elaboradas, quase poéticas, que surpreendem pela emoção que despertam. Os poucos especialistas em sua vida e obra veem em Tully o precursor do estilo hard-boiled, antes dos suspeitos usuais: Dashiell Hammett e Hemingway. Uma descoberta.

 

Campeão mundial dos pesados, Jack Dempsey teve revista com o seu nome, aqui publicando Robert E. Howard, que teve uma série de histórias sobre boxe centrada no Marinheiro Costigan. A capa mostra a versatilidade do artista Earle K. Bergey (1901-1952) que pintou pin-ups e fez muita arte de ficção científica.

 

Art de capa de Ron Manoney.

Tad Williams’ Mirror World, anônimo, ed. Nova York: HarperPrism, 1.ª edição, 1998, 170 páginas. Arte de capa de Ron Mahoney. Hardcover. Mais um livro da linha “Illustrated Novel” (romance ilustrado) da HarperPrism, que soava mais como pitching para conceitos que pudessem se tornar properties substanciais no cinema, TV ou jogos. Nem por isso deixou de trazer resultados interessantes e sugestivos. Tad Williams é o autor de O Trono de Dragobone (The Dragonbone Throne), romance de alta fantasia publicado no Brasil pela Editora Siciliano em 1989 — bem antes da fantasia alavancar o mercado editorial. Este Mirror World é baseado em uma série de quadrinhos escrita por ele e publicada nos States pela TechnoComics. Talvez por isso muitas das situações pareçam remeter a fatos anteriores. O livro foi adquirido na saudosa Terramédia, antes de ela se tornar a Omniverse.

A premissa é a da descoberta de um mundo que se comunica com o nosso através de portais transpostos por indivíduos especialmente selecionados por suas capacidades físicas, mentais e paranormais induzidas por uma tecnologia biológica. A seção “Biotrooper Dossier” traz a descrição daqueles que figuram no livro, sob forma de fichas que convidam a imaginar esse universo ficcional desenvolvido como videogame ou RPG. Como acontece no outro “romance ilustrado” que já comentei, Margaret Weis’ Testament of the Dragon, há no livro uma novela, uma noveleta e um conto, intercalado com seções explicativas, tudo bem ilustrado. Escrita por Mark Craighbaum, “Mirror in Time” abre o livro, ilustrada por Ron Mahoney, artista cujos desenhos têm, em geral, mais força que suas pinturas. A novela coloca o herói Dancer contra um colega biotrooper de outros carnavais, alguém que perdeu o controle dos seus dons paranormais e se tornou um tirano, com o interesse amoroso de ambos imprensada entre eles. A força da narrativa de Craighbaum está no seu poder descritivo e na dinâmica dos relacionamentos.

“Serpent in the Garden” foi escrito por John Helfers e ilustrado por Robin Cline, um virtuoso do grafite que produziu artes monocromáticas consistentes e sedutoras. A história começa com um jovem sendo resgatado da tortura do regime, para, aos poucos, reencontrar-se com sua condição de biotrooper e ajudar a comunidade que o abrigou a livrar-se de um colega animalizado e homicida. A cadência narrativa é mais lenta e o foco está na comunidade. Também ilustrado por Cline, “Childhood’s End”, escrito por Michelle West, parece se nutrir do mesmo foco da história anterior, para tratar, com mais sentimento, de uma figura estranha em outra comunidade. É obviamente um biotrooper que também perdeu seu sentido de missão, e precisa controlar seus impulsos violentos a fim de proteger as crianças que o encantaram e que representam sua inocência perdida, e o seu lugar na comunidade. “Pilgrim’s Progress”, a seção final, finge ser um diário de explorações, com direito a anotações e desenhos de naturalista (não creditados). Como nada que é tecnológico ou artificial pode passar pelos portais (até mesmo obturações e implantes odontológicos), o que temos efetivamente em Mirror World é uma fantasia de transferência ou de portal.

 

Screening Space: The American Science Fiction Film, de Vivian Sobchack. New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 3.ª edição, 1999 [1997, 1980], 346 palavras. Trade paperback. M. Elizabeth Ginway inspirou-se muito neste livro da estudiosa de cinema Vivian Sobchack, então na University of California em LA, para escrever o seu Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (2004). Publicado o seu livro, Libby me presenteou com o seu exemplar do livro de Sobchack. É, na verdade, a edição aumentada de The Limits of Infinity: The American Science Fiction Film (1980), reescrito depois que a autora entrou em contato com o trabalho do crítico marxista Fredric Jameson. Eu já o vinha consultando ao longo dos anos, mas agora resolvi ler tudo, para me preparar para a conversa no Cine Clube Sci-Fi do Centro de Pesquisa e Formação do SESC, coordenado por Sabrina Paixão. Forbidden Planet, o assunto da atividade, está até na capa do livro.

No primeiro capítulo, Sobchack traça as fronteiras do gênero a partir de definições propostas por escritores, editores e críticos do cinema de FC. Também discute a aproximação, tão própria do cinema americano, entre os gêneros horror e ficção científica, vistos por ela como expressão de uma perturbação da ordem natural (o horror) e de uma perturbação da ordem social (a FC). O insight é interessante e a autora o explora com consistência admirável, ao discutir um rol impressionante de produções e argumentar que muitos filmes de monstro são mais propriamente filmes de FC. O segundo capítulo trata do que as imagens da FC expressam, ângulo que oferece muito da crítica específica de cinema, com ideias que Libby Ginway certamente explorou na sua argumentação sobre a iconografia da FC. Na mesma linha, o capítulo seguinte explora o fator som nos filmes. Extenso, o último capítulo é um adendo a esta edição. O título, “Postfuturism” (pós-futurismo), e o texto exploram o embricamento entre a projeção ficcional do futuro da tecnologia, a presença da tecnologia na realização dessa projeção nos filmes, e a presença da tecnologia nas nossas vidas. É o capítulo mais influenciado por Jameson, e há de se lamentar que Sobchack sentiu a necessidade de imitar o estilo retorcido dele. O livro foi um intenso regresso a muita coisa que vi na infância e adolescência (os últimos filmes que ela aborda estão na era de ouro dos anos 1980), estimulado pelas muitas fotos em preto e branco com comentários agudos e pertinentes, e iluminado por um conhecimento erudito e arguto sobre a sétima arte.

—Roberto Causo

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Publicado o Conto que Inicia novo Ciclo da Série As Lições do Matador

A AVEC Editora, de Porto Alegre, colocou em 12 de maio de 2020 a antologia Multiverso Pulp Volume 02: Ópera Espacial à venda na Amazon.br. A antologia original de de space opera organizada pelo escritor Duda Falcão traz o conto de Roberto Causo, “Garimpeiros“, que inicia o Ciclo Serviço Colonial da série As Lições do Matador.

 

Arte de capa de Fred Macêdo.

Em “Garimpeiros”, o protagonista das Lições do Matador, Jonas Peregrino, é um jovem segundo tenente de apenas 23 anos, sob o comando da Margarida Bonadeo, a capitã do destróier Noronha. Sua missão é tirar um grupo de mineradores espaciais de uma região excessivamente bombardeada por vento solar, ao mesmo tempo em que forças da Aliança Transtatlântico-Pacífico bloqueiam os seus movimentos. Na superfície do asteroide em que estão os mineradores, Peregrino não apenas tem de organizar as ações de resgate, mas também impedir que o pânico os roube da única chance que têm de sair dali com vida.

Os demais escritores presente na antologia original são Caliel AlvesDiego MendonçaMélani Sant’AnaOtávio DefinskiRafael Da Silva FontouraTarcisio Lucas Hernandes PereiraTassi ViebrantzTiago Rech e o próprio Duda Falcão. A ilustração de capa é do artista exclusivo dessa série de antologias Multiverso Pulp, Fred Macêdo. Roberto Causo ficou muito feliz em ter sido aceito, e com a oportunidade de aparecer junto com um grupo de autores jovens. Antes desta antologia dedicada à space opera, a AVEC publicou Multiverso Pulp Volume 01: Espada & Feitiçaria, também em 2020.

A editora anuncia: “Caro leitor, neste volume, você encontrará muita aventura no espaço sideral e em outros planetas. Expedições científicas, alienígenas, passados alternativos, piratas, naves e tecnologias fantásticas, monstros bizarros e viajantes espaciais estão presentes em um único livro. Escritores brasileiros também exploram os confins do universo e as relações humanas na literatura conhecida como ópera espacial. Conheça o trabalho destes autores. Antes de decolar lembre-se de fazer uma revisão em sua nave espacial e nos seus trajes de astronauta. E não deixe de se preparar também para a diplomacia.”

Você encontra aqui a antologia, como e-book Kindle.

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