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Leia o Prefácio de Roberto Causo à Antologia “Vislumbres de um Futuro Amargo”

Em 15 de fevereiro de 2020 foi lançada em São Paulo a antologia de histórias originais Vislumbres de um Futuro Amargo, organizada por Gabriela Colicigno & Damaris Barradas, para a Agência Magh. A antologia, muito bem ilustrada, reúne autores novos e resultou de um projeto de financiamento coletivo. Leia abaixo o prefácio escrito por Roberto Causo para a antologia.

Seis Vozes para o Futuro

 

Arte de capa de Túlio Cerquize.

A ficção científica é um gênero literário que evolui por meio de uma constante renovação de autores, temas e abordagens do seu fabuloso leque de possibilidades. Com esta antologia de histórias originais, Vislumbres de um Futuro Amargo, a Agência Magh faz o seu primeiro gesto de apoio a essa renovação. Gabriela Colicigno, a fundadora da Magh, ao lado de Damaris Barradas, recorreu às autoras e autores representados pela agência, além de uma convidada externa, pedindo que escrevessem histórias de FC com uma atitude crítica e dentro do clima que o título expressa. A maioria desses autores e autoras é relativamente jovem, e nova no campo da FC, e este livro não registra apenas as suas primeiras pegadas deixadas nesse campo, como as atitudes e ansiedades da sua geração.

Na história de abertura, “Antônio do Outro Continente”, Anna Fagundes Martino se mostra muito habilidosa na criação de uma expressão brasileira daquela ficção científica mais literária, que incorpora a observação social ao gênero. Essa estratégia existe há muito tempo na FC em língua inglesa, tornando-se a tônica de importantes revistas americanas como The Magazine of Fantasy & Science Fiction e Galaxy, ambas surgidas em fins da década de 1940 e início da de 1950. Mais modernamente, a tendência ganhou grande reconhecimento nas páginas da importante Asimov’s Science Fiction — que teve inclusive uma edição brasileira, a Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica (1990-1993), publicada aqui pela Editora Record. No Brasil, a tensão entre a literatura de costumes e a ficção científica de aventura se estabelece muito cedo, com, por exemplo, o pioneiro romance feminista de Emília Freitas, A Rainha do Ignoto (1899).

Nesse tipo de narrativa próprio da Asimov’s, firma-se uma discreta tensão ou ironia em torno da exploração de costumes que podem não parecer muito diverso dos nossos, e o pano de fundo que descreve mudanças radicais trazidas pelo futuro, por alienígenas ou por invenções transformadoras. Anna Martino trabalha essa ironia com graça e percepção, ao tratar da visita de um casal vindo de uma colônia espacial agrícola aos seus parentes suburbanos na Terra.

Lady Sybylla contribui com a segunda história, “Corra, Alícia, Corra”, narrativa que mergulha na ação e na agitação mental da sua personagem-título, uma jovem que foge pelas entranhas das instalações onde é mantida prisioneira, tendo por companhia apenas uma outra mulher. Ela é caçada por todo o caminho, enfrentando as armas poderosas e a superioridade numérica dos perseguidores. Como se não bastasse, a intensa narrativa guarda a aparição intrigante de um robô, perto de sua conclusão. Lady Sybylla já provou que sabe lidar com uma ficção científica centrada na ação, por sua história “Cão 1 Está Desaparecido” (2014), incluída na premiadíssima antologia Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira (2018), organizada por Nelson de Oliveira. Apesar de toda ação, o que marca a história é justamente os sentimentos da heroína.

Em “Eletricidade em suas Veias”, de Waldson Sousa, também um robô aparece, mas de modo bem mais ostensivo. Mais que isso, a narrativa panorâmica apresenta uma força oculta, composta de pós-humanos imortais, dentro da nossa sociedade. Quem narra é uma cientista que criou um robô asimoviano — um “homem bicentenário” capaz de sonhar e sangrar — que ela solta para vagar pelo mundo, em séculos passados e em situação desvantajosa: assim como ela e os seus semelhantes, o seu androide tem pele negra, e logo é transformado em escravo e levado ao continente americano. Por meio desse personagem, a história nos conta algo da experiência da diáspora africana ao longo do tempo, já que ele também é imortal. O centro da narrativa, porém, está na experiência existencial de criadora e criatura, em uma espécie de metáfora cibernética da reencarnação.

Neste ponto, vale questionar: por que um futuro sombrio? A maioria destes autores e autoras são jovens, e sentem a pressão de um mundo em crise ambiental e climática, e de práticas autoritárias que resistem, com cada vez mais empáfia e agressividade, aos avanços sociais. Não são, porém, apenas a questão ambiental e o autoritarismo que nos ameaçam, mas igualmente a sombra da revolução industrial 4.0, uma incógnita que já está transformando o comportamento, a política e o trabalho.

Mesmo assim, a maioria das narrativas reunidas em Vislumbres de um Futuro Sombrio hesita em abraçar o futurismo que especula coerentemente sobre o amanhã a partir das condições do presente. Historicamente, dentro da nossa ficção científica a imaginação do Brasil do futuro próximo é muito rara e inconstante. É como se o país fosse um grande enigma, impossível de resolver e prognosticar, que frustra não apenas as especulações do gênero mas também a nossa própria capacidade de planejamento e de organização social e política. Entre dar guinadas e adquirir um rumo existe uma grande diferença. E esse Garrincha do processo histórico vai driblando tanto os escritores de ficção científica quanto os cientistas políticos…

A narrativa de Lu Ain-Zala, “Eu, Algoritmo”, trata justamente da revolução 4.0. Parodiando o título da famosa coletânea de histórias de robôs de Asimov, troca o ícone do autômato por aquele da inteligência artificial. Neste acaso, uma IA surgida de algoritmos de reconhecimento de padrões na internet e nas redes sociais, e pelo acompanhamento das mídias móveis. O assunto a coloca junto com nomes internacionais importantes, como a americana Connie Willis, e o australiano Greg Egan. Combinando elementos de ensaio e de narrativa, a história pinta um quadro bastante coerente da problemática, tornando o conto o mais próximo que o livro tem a oferecer, do enfoque futurista, mesmo que com poucos traços Brasil. A narrativa, por sua vez, cresce até o ponto de grandes revelações — e indagações — se instalarem, com um toque de Jogos Vorazes se apresentando.

O robô retorna em “O Pingente”, de Cláudia Fusco, escritora, conhecedora da ficção científica e palestrante ubíqua em eventos em São Paulo. Aqui, ela produziu um conto que também poderia figurar nas páginas da Asimov’s, envolvendo uma robô-babá que testemunha os azares humanos e cresce com a menina que é objeto dos seus cuidados. O lado futurista está presente na sugestão de como os sistemas da robô analisam as situações e produzem respostas coerentes. Há ainda o toque delicado e espirituoso que já nos acostumamos a esperar da autora, como no anterior “A Guerra das Máquinas” (2019), na edição especial do Estadão QR.

Vale assinalar que Fusco e os demais autores estão sintonizados com a nova sensibilidade abraçada pela ficção científica internacional, valorizando a diversidade étnica e de gênero e as suas questões. Lembro que em 1997, Bruce Sterling e eu criamos, com o tradutor Carlos Angelo, a lista Rede Global Paraliterária, voltada à promoção da dimensão internacional da FC. Em 1999, nas páginas da Locus—The Magazine of the Science Fiction & Fantasy Field, publiquei o texto de opinião “The Next Wave”, antecipando que a próxima onda na FC seria uma abertura para nacionalidades e sensibilidades étnicas pouco representadas no gênero. Eu estava errado, é claro, já que logo o New Weird entrou em evidência, assim como a new space opera, tendências que mantiveram o domínio anglo-americano ao revisitarem formas antigas de FC e fantasia com novos pendores políticos.

Mas em 2015, durante o evento “Encontro Irradiativo” ocorrido em São Paulo, os escritores Jim Anotsu e Vic alertaram que em breve a questão da diversidade e da representatividade viriam a dominar a fantasia e a FC, especialmente nos livros voltados para os jovens. Na minha cabeça, o continuum aí é o da representação de identidades e subjetividades. Já na avaliação do ano de 2016 na Locus de fevereiro de 2017, o crítico Gary K. Wolfe observou que a “FC e a fantasia internacional continuaram a ganhar uma bem-vinda visibilidade”, enquanto a crítica Colleen Mondor proclamou: “Foi um ano no qual a diversidade, finalmente, arriscou ser a regra e não a exceção.” Nas histórias discutidas até aqui em Vislumbres de um Futuro Amargo, temos personagens afro e casais homoafetivos, e a crítica ao bullying e à atitude retrógrada.

Fecha o livro a aventura espacial “SIA Está Esperando”, de Roberto Fideli, autor que estreou na antologia anterior da Magh, Histórias (Mais ou Menos) Assustadoras (2019), um e-book. Fideli se apoia no repertório de ficção científica adquirido quando ele mantinha o canal Clássicos da Ficção Científica no YouTube, para narrar com eficiência os percalços de uma nave perdida em um pequeno planeta inóspito e inabitado, e os tropeços dos tripulantes, distraídos da tarefa de reparar a nave pelo surgimento de um mistério que realmente vale a pena investigar.

Grande parte da história envolve a interação entre a capitã de origem asiática e a inteligência artificial que monitora os sistemas e os tripulantes. Na antologia, as narrativas em primeira pessoa imperam, e “SIA Está Esperando” é narrada por mais esta inteligência artificial feminina e protetora. Todas as decisões tomadas pela capitã e por seus oficiais são compreensíveis, assim como as da inteligência artificial. A premissa torna o conto uma espécie de “problem story”, tradição que encontrou um lar privilegiado na longeva revista Analog (que comemora seus 90 anos de existência em 2020). Nesse tipo de FC, um problema (em geral de engenharia) é posto, para ser resolvido com engenhosidade, sob pena dos personagens não escaparem com vida. Mas Fideli conduz a narrativa de modo a subverter a estrutura da problem story, levando-a não a um fecho apenas mecânico, mas sim emocional e profundo, sublinhando a vontade humana (ou pós-humana, no caso) de sobreviver aos infortúnios da vida, presente em outras histórias da antologia.

Louva-se não apenas o talento e a sensibilidade das escritoras e escritores, mas também da organizadora, que encadeou os contos de modo que um repercutisse sobre o outro, tanto no que diz respeito ao tema, quando ao tom.

Meu pai costumava dizer — quando aparecia alguém afirmando que o fim do mundo estava próximo — que o mundo não acaba, o que acaba são as nossas vidas. (Na verdade, o mundo acabará, mas em um evento cosmológico tão distante de nós no tempo, que a questão é irrelevante.) De modo semelhante, os autores de Vislumbres de um Futuro Amargo parecem afirmar que não haverá um inevitável futuro negativo nos aguardando, mas sim a possibilidade de vidas individuais com um futuro ruim. Pela mesma lógica, podemos fazer algo para que nossas vidas individuais não sejam ruins, sem sentido ou oprimidas — e coletivamente, agir para que outras vidas também tenham a oportunidade de serem positivas.

O amanhã é uma página aberta, e neste showcase da Agência Magh temos seis autores para o futuro, capazes de preenchê-la com narrativas instigantes e visões muito pessoais do que a ficção científica pode ser.

 

Roberto Causo

São Paulo, janeiro de 2020.

Com arte de capa de Túlio Cerquize, Vislumbres de um Futuro Amargo conta com ilustrações internas de Renata Aguiar, Deoxy Diamond, Estevão Ribeiro, Roberta Nunes, Stephanie Marino e Roberto de Sousa Causo, distribuídas ao longo das suas 200 páginas. As minhas duas ilustrações foram feitas para a noveleta do meu filho Roberto Fideli, “SIA Está Esperando”, e colorizadas por Stephanie Marino. Foi uma experiência estimulante, ilustrar a história do meu filho.

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Leituras de Julho de 2019

Ficção científica brasileira e traduzida foram a tônica em um mês de leituras não muito numerosas. Mas o horror e a não ficção também tiveram o seu espaço, assim como as histórias em quadrinhos de fantasia e de Star Wars, com destaque para o álbum francês Aurora.

 

Arte de capa de Jim Burns.

Armor, de John Steakley. Nova York: DAW Books, 1984, 426 páginas. Arte de capa de Jim Burns. Paperback. Tropas Estelares (Starship Troopers; 1959), de Robert A. Heinlein, é um marco da ficção científica militar que influenciou outros romances de peso que vieram dialogar com ele. Disponíveis no Brasil estão, por exemplo: A Guerra Eterna (The Forever War; 1974), de Joe Haldeman, e O Jogo do Exterminador (Ender’s Game; 1985), de Orson Scott Card. Armor, do texano Steakley, é outro exemplo, inédito aqui. Seu autor parece ter rejeitado o lado filosófico e político de Tropas Estelares, buscando os seus opostos: o lado visceral, naturalizado e aleatório do combate.

A narrativa acompanha o soldado Felix, que, misteriosamente e sem explicações, sobrevive vez após vez aos combates contra alienígenas insetoides, em um planeta de geografia e atmosfera hostis. Felix tem um comportamento quase psicótico, nutrindo um estado mental que chama de “o motor” — mecanismo que o isola emocionalmente dos companheiros em torno, das mortes e mutilações, e o faz reagir prontamente às exigências do combate. O comportamento bate com crônicas de guerra em que soldados sobreviventes de ações muito intensas reportam terem se comportado com grande eficiência ao sentirem que não havia saída e que já estavam praticamente mortos. Aos poucos, porém, a sombra da “culpa do sobrevivente” vai se instalando dentro de Felix.

A certa altura, Felix sai de cena e entra uma narrativa em primeira pessoa que segue as ações de Jack Crow, famoso pirata espacial e assassino por conveniência. Ele foge de uma prisão de trabalhos forçados, mata o tripulante de uma nave pirata e o substitui, ganha as graças do cruel capitão — que o seleciona para a tarefa de conseguir combustível em um planeta privado, onde está instalada uma base científica. Ele se mete entre os cientistas e ganha a confiança do genial cientista-chefe. Para isso, leva com ele a armadura (daí o título) negra de combate propulsado (conceito apresentado no romance de Heinlein) que era usada como enfeite pelo capitão da nave pirata. Quando o cientista imagina um método para reaver os registros da armadura, ele e Crow descobrem que ela pertencera a Felix, e revivem as suas experiências de combate emocionalmente excruciantes. Com isso, o leitor também descobre que o soldado fizera parte da elite da guarda palaciana de uma rica monarquia, e que havia se alistado no impulso suicida de livrar-se do tormento de um amor proibido: um toque de space opera exótica — e de Beau Geste (1924), o famoso romance de ficção militar de P. C. Wren sobre a Legião Estrangeira, que trata dos horrores do combate de maneira semelhante: a guerra contra um inimigo indistinto, e uma escalada de mortes até o afunilamento final levando ao drama dos sobreviventes.

Quando os piratas enfim descem para realizar o seu ataque e, mais do que obterem combustível, conquistarem o planeta, Crow já havia conhecido o criminoso chefe local, o bêbado “dono” do planeta, e a mulher que se tornaria a sua amante. Quando ele escolhe apoiar os habitantes locais, há algo do faroeste Shane (1949), de Jack Schaefer. Outros momentos também são situações de western adaptadas para o gênero, algo que às vezes a FC americana exagera. Um exemplo está em Santiago: A Myth of the Far Future (1986), de Mike Resnick, e quando Felix ressurte no final do romance de Steakley com proporções mitológicas para salvar o dia, fica claro que o autor também forçou a mão em tais referências. Outro ponto que me incomodou especialmente na linha narrativa de Crow foram os seus encontros com mulheres dispostas a ter sexo com ele depois de espancadas. Se Tropas Estelares é um romance juvenil e idealizado, Armor quer ser adulto, perverso e cínico, mas perde o equilíbrio e às vezes soa forçado. Apesar disso, a intensidade da narrativa e a disposição do autor em firmar seus efeitos não importando o quê, tornam a leitura memorável. A bela arte de capa do inglês Jim Burns investe na textura e no protagonismo da armadura, alcançando com poucos elementos composicionais, a sugestão mítica.

 

Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira, de Nelson de Oliveira, ed. São Paulo: Editora SESI-SP, 2018, 496 páginas. Brochura. Ganhadora de três prêmios (até o momento em que escrevo estas anotações), Fractais Tropicais é uma realização de Nelson de Oliveira no nível de suas antologias da Geração 90. É a mais importante antologia retrospectiva da ficção científica brasileira. Fez mais pela ideia, muitas vezes rejeitada por fãs e pesquisadores, da divisão dos períodos da nossa FC em “ondas”, do que anos de discussões e polêmicas. Nelson dá a sua inclinação pessoal na organização e estruturação do livro de várias maneiras, a começar pela contagem regressiva em termos das ondas: a primeira seção do livro apresenta autores da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira (2004 ao presente), e a Primeira é a que encerra o livro. Só por aí, a antologia garante fechar em grande estilo. Ficaram de fora outros períodos da nossa história: o Período Pioneiro (1857 a 1957) e o Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982). A seleção priorizou histórias com efeitos surrealistas, experimentais e irônicos, e de estilos pouco convencionais, dentro das preferências estéticas do organizador. No conto de abertura, “Além do Invisível”, de Cristina Lasaitis, os protagonistas transitam pela paisagem abstrata da realidade virtual, enquanto “O Templo do Amor”, de Ana Cristina Rodrigues, um assassino contratado avança pelo cenário indefinido do lugar do título, para matar a sacerdotisa. “Cão 1 Está Desaparecido”, de Lady Sybylla, é uma movimentada FC militar com imagens que lembram videogames e animes, e que partilha com Rodrigues o mergulho na ação.

A história seguinte, “Menina Bonita Bordada de Entropia”, de Cirilo Lemos, muda o tom e leva o leitor ao terreno da inquietação, da violência explosiva e do bizarro, talvez dentro do foco do New Weird. Já “Metanfetaedro”, de Alliah, trata de um experimento de arte e geometria que leva o leitor a uma paisagem surrealista. Me fez lembrar a engenhosidade conceitual de Ted Chiang. “Da Astúcia dos Amigos Improváveis”, de Santiago Santos, é uma space opera desenvolvida em segmentos curtos, em narrativa ao mesmo tempo exótica e introspectiva. Assim como o texto de Santos, “O Apanhador do Tempo”, de Márcia Olivieri, é um longo depoimento — aqui, prestado em tribunal por um homem que descobriu um processo de retardo de envelhecimento. “Aníbal”, de Andréa del Fuego, é narrado por um alienígena que recebe um humano para desenvolver no interior do seu corpo. No conto, muitas ideias de FC como consumo de informações e nanotecnologia são encadeadas pelo seu poder sugestivo, em uma prosa quase poética, levemente irônica. “A Última Árvore”, de Luiz Bras, dá título a um livro de contos do autor, e se desenvolve como linhas de diálogo, apresenta crime e favelas com muita ironia e índices claros de tupinipunk (cyberpunk tupiniquim). Nisso, lembra o admirável romance do autor, Distrito Federal (2014), um dos marcos da Terceira Onda. Segue-se “Quinze Minutos”, de Ademir Assunção, num texto fragmentado, enigmático e com parágrafos de prosa poética. Outro conto com uma aura surrealista é “Cibermetarrealidade”, de Tibor Moricz, originalmente publicado na minha antologia Contos Imediatos (Terracota Editorial, 2009), e que mergulha, com um estilo inventivo, no ponto de vista da máquina e de uma hipertrofia da sua presença em uma monstruosa megalópole. “Los Cibermonos de Locombia”, de Ronaldo Bressane, reproduz um sarcástico depoimento em espanhol (e em primeira pessoa) sobre cibermacacos criados para a indústria pornô. É o último texto da seção dedicada à Terceira Onda.

Braulio Tavares, um dos melhores autores da Segunda Onda (1982 a 2015), abre a nova seção com a noveleta “O Molusco e o Transatlântico”, que começa com um pique de thriller de FC e se torna mais uma história de um prisioneiro narrando por experiências estranhas. “Paradoxo de Narciso”, de Ivanir Calado, é um conto de viagem no tempo em que o viajante se dedica ao sexo com ele próprio — interessantemente, escrito em terceira pessoa. A noveleta “Visitante”, de Carlos Orsi, retorna à primeira pessoa e racionaliza elementos espirituais em termos tecnocientíficos. Outra história longa, “Ostraniene”, de Lucio Manfredi, em primeira pessoa, traz ação tensa numa versão do ciberespaço. “Galimatar”, de Fábio Fernandes, é uma noveleta que abre com uma espécie de ensaio sobre uma linguagem bioquímica na forma de alimentos, antes de seguir para a ação. Ataíde Tartari contribui com “A Máquina do Saudosismo”, conto em terceira pessoa incluído no seu livro 17 Histórias, sobre um homem que viaja por meios criogênicos ao mundo do século 23. Logo depois, Finisia Fideli contribui com dois contos curtos, o poético “Estrela Marinha no Céu” e o fluído e surreal “As Múltiplas Existências de Áries”. “A Coleira do Amor”, de Gerson Lodi-Ribeiro, é uma narrativa longa, em primeira pessoa, sobre um homem implantado com um “chip de amor eterno” que o leva a confundir a cunhada com sua esposa morta, com consequências trágicas. Jorge Luiz Calife, o Pai da FC Hard Brasileira, está no livro com “As Sereias do Espaço”, space opera que integra o seu famoso Universo da Tríade. A space opera também comparece com o meu “Tempestade Solar”, parte da série Shiroma, Matadora Ciborgue. Ivan Carlos Regina está na antologia com dois textos curtos marcados por gráficos e tabelas: “Acúmulo de Skinnot em Megamerc”, uma crítica ao consumismo, e “Quando Murgau A.M.A. Murgau”, alegórica defesa do amor livre. De Octávio Aragão, “O Dia em que Vesúvia Descobriu o Amor” narra em terceira pessoa o encontro amoroso de duas cidades imaginárias — uma heterotopia (termo do crítico Brian McHale) exuberante em estilo e com imagens e neologismos que homenageiam o colega Braulio Tavares. A torrente verbal tupinipunk em parágrafo único de Fausto Fawcett, “Caro Senhor Armageddon”, fecha a seção.

Fractais Tropicais é um ambicioso monumento à FC brasileira, contendo vários livros em um. O último, dedicado à Primeira Onda (1957 a 1972), abre com “O Grande Mistério”, de André Carneiro, parte da sua enigmática série Anarquia Sexual (com os romances Piscina Livre e Amorquia) mas de uma fase tardia (reunida no livro A Máquina de Hyerónimus e Outras Histórias, de 1997) que merece ser lembrada. A metaficcional noveleta “A Ficcionista”, de Dinah Silveira de Queiroz, é uma seleção importante — uma das primeiras narrativas metaficcionais da FC nacional que sustenta relação com a New Wave britânica (assim como vários contos de Carneiro). “Chamavam-me de Monstro”, de Fausto Cunha, saiu das páginas da sua sempre lembrada coletânea As Noites Marcianas (1960); narrativa de visita de um E.T. à Terra (obviamente, em primeira pessoa). “O Elo Perdido”, do pioneiro Jeronymo Monteiro, é noveleta que acompanha uma criança nascida com morfologia e comportamento recessivos, um mutante que responde por momentos cômicos e trágicos. A seção e a antologia fecham com o introspectivo “Morte no Palco”, de Rubens Teixeira Scavone, conto que deu título à terceira coletânea do autor (1979), um mestre da FC literária, psicológica e humanista.

Não há como enfatizar mais a importância da realização de Nelson de Oliveira com Fractais Tropicais, em como esse volume dá testemunho da diversidade, vigor e expressividade da nossa ficção científica, em sua jornada evolutiva desde a década de 1960. Imagino que a fama da antologia só fará crescer com os anos. Talvez daqui a cinco ou dez, ela reapareça, quem sabe dividida em três volumes com novas apresentações, para sublinhar ainda mais a sua importância. Fica a sugestão.

 

Prime Evil, de Douglas E. Winter, ed. Nova York: Signet Books, 1988, 382 páginas. Paperback. Não sei se os jovens fãs de Stranger Things se deram conta, mas a ficção de horror da década de 1980 foi especial. Basta atentar para os nomes presentes nesta antologia original montada por Douglas E. Winter só com gente graúda: Stephen King, Clive Barker, Peter Straub, Whitley Strieber, David Morrell, Ramsey Campbell, Thomas Tessier, M. John Harrison, Jack Cady, Charles L. Grant, Paul Hazel, Dennis Etchison e Thomas Ligotti. O livro é dividido em seções, com direito a epígrafes específicas, que agrupam histórias com algo em comum. A primeira é “In the Court of the Crimson King”, e é uma noveleta de Stephen King que a abre: “The Night Flyer”, que de algum modo e no ápice surpreendente, parece capturar algo da lustfulness do horror como gênero literário e cinematográfico naquela década. Foi visto aqui na coletânea Pesadelos e Paisagens Noturnas. “Having a Woman at Lunch”, de Hazel, é conto sobre um grupo de funcionários blasé de uma empresa de implementos domésticos envolvidos com uma jovem funcionária recém-contratada, que pode ou não ter sido devorada por eles, no final ambíguo. Em “The Blood Kiss”, Etchison emprega sua experiência como roteirista para criar uma intriga em torno de um roteiro sobre zumbis, prestes a ser roubado por um produtor de série de TV, e o esforço confuso de sua jovem assistente, de impedir essa injustiça. Metaficcional, combina a narrativa com trechos do script — em fusão mal diagramada mas sugestiva. O horror aqui é por associação, com a jovem se metendo em uma situação inesperada, perto do fim.

A seção seguinte se chama “Turn to Earth” e abre com “Coming to Grief”, do autor best-seller Clive Barker, que nos apresenta outra heroína, uma jovem que retorna à sua cidade natal para o funeral da mãe, e projeta suas inquietações psicológicas sobre uma trilha escura em uma pedreira abandonada, onde ela, quando criança, imaginava a presença do Bicho-Papão. Uma das joias do livro, a noveleta tem ótima cadência e imersão psicológico, brincando com a possibilidade de um terror estritamente subjetivo alcançando uma concretude arrepiante no final. Com um tom mais irônico, “Food”, de Tessier, acompanha um homem solitário e metódico que acompanha a sua amizade com uma jovem encantadora a seu modo, mas muito obesa. Ele aos poucos se dá conta de que a ama, e fantasia mudar seus hábitos pelo amor. O final, contudo, reserva a ela uma metamorfose em criatura quase lovecraftiana, sublinhando as tensões entre o seu conteúdo humano, irônico e politicamente incorreto. Certamente, o horror deve ser a última resistência ao politicamente correto, já que o gênero costuma crescer com essa tensão. “The Great God Pan”, de Harrison, um nome associado tanto à New Wave quando ao New Weird, faz o narrador se reencontrar com uma amiga peripatética, aparentemente porque ela é acompanhada de um casal de amantes homúnculos, vívida alucinação que é apenas uma de várias que acompanham um grupo de amigos que convergem para uma figura cínica que teria conduzido um experimento misterioso com eles, no passado.

“Orange is for Anguish, Blue for Insanity” abre a seção “Secrets”. O autor é David Morrell, um astro do dark suspense da época. Narrada em primeira pessoa, essa noveleta explora a história da arte: dois amigos discutem o trabalho de um obscuro pintor holandês do século 19, espécie de versão terrorífica de Van Gogh e cuja obra poderia contaminar os seus admiradores com a loucura que acometera o pintor. Narrativa densa, sólida e muito efetiva. A ela sucede “The Juniper Tree”, de Straub, novela que, à moda de um Harlan Ellison, enfoca a magia do cinema para apresentar o horror do flagelo da pedofilia. A figura do monstro aí é a do abusador. Uma narrativa ao mesmo tempo envolvente e incômoda, realista e assustadora, de boa lembrança no campo da ficção do horror, finalista do Prêmio Bram Stoker. Por si só, vale a leitura da antologia. “Spinning Tales” é a nova seção, iniciada com “Spinning Tales with the Dead”, de Grant: pai e filho se sentam à beira de um lago para contar lorotas e parodiar situações da cultura popular, enquanto uma mulher misteriosa, obviamente morta, faz movimentos na água, pontuando a narrativa. Uma discreta aura absurdista sublinha a sugestão de culpa e luto, pelo crime praticado pelo pai. O cultuado Thomas Ligotti, um autor sofisticado e marcante, comparece com “Alice’s Last Adventure” — a narradora, uma escritora de livros infantis sombrios, que recorda (a memória é uma das tônicas da antologia) seus pais, família, livros e estranhas aparições que a importunam ao longo da vida. O título e alguns pontos do enredo remetem a Alice no País das Maravilhas. Outra história sobre escrita e escritores é “Next Time You’ll Know Me”, de Ramsey Campbell, autor inglês que, assim como Ligotti, tem uma conexão com a aura da escrita de H. P. Lovecraft. Aqui, porém, apresenta texto humorístico sobre um pretensioso jovem aspirante a escritor, um tanto alienado, que vê partes de suas histórias inéditas aparecendo nas obras de outros autores. Ele sempre exige satisfações, em um crescendo que o coloca numa bela encrenca. “By Reason of Darkness” é a seção final, iniciada com o perturbador “The Pool”, do polêmico ficcionista e ufólogo “contactado” Whitley Strieber. A história mais curta da antologia, narra a angústia de um pai cujo filho pequeno assume um comportamento muito mais maduro do que a sua idade — e a disposição inamovível de terminar a própria existência. Fecha o livro a novela “By Reason of Darkness”, de Jack Cady (1932-2004), autor de boa reputação nos EUA, cuja narrativa trilha a linha tênue entre o realismo e o absurdismo, na tentativa de representar o absurdo da guerra do Vietnã. É o mesmo terreno de um Thomas Pynchon ou, mais especificamente, de Tim O’Brien e o seu premiado romance do Vietnã Going after Cacciatto (1978). Não obstante, a narrativa patina bastante e parece desconjuntada e sem foco. É pena que esta robusta antologia termine assim, mas sua leitura conserva muitos momentos especiais.

 

Arte de capa de Julio Zartos.

Nightflyers (Nightflyers), de George R. R. Martin. Rio de Janeiro: Suma, 2019 [1981, 2018], 140 páginas. Tradução de Alexandre Martins. Arte de capa de Julio Zartos. Ilustrações internas de David Palumbo. Capa dura. George Martin foi parar no colo da Suma, que, além de relançar os livros das Crônicas de Gelo e Fogo, publicou esta novela de ficção científica, ganhadora do Prêmio Locus 1981 de Melhor Novela, e transformada em filme em 1987. Ao ler, notei que a história não me era estranha, e me pergunto se não vi o filme em VHS ou algo assim. Mas pode ser a semelhança com Alien: O Oitavo Passageiro, que é de 1979 e pode ter inspirado Martin a escrever esta novela de suspense sobre um bando de cientistas sendo mortos um a um dentro de uma nave interestelar. Martin foi para Hollywood circa 1985 (ainda me lembro com afeto da série A Bela e a Fera, de 1989), mas a leitura de Nightflyers sugere que ele cortejava a Fábrica de Sonhos antes disso. Mais recentemente, a novela virou minissérie no SyFy.

O objetivo da expedição é localizar uma espécie alienígena mitológica, que existe apenas em naves espaciais subluz transitando cegamente no espaço interestelar. A espaçonave que os persegue tem apenas um tripulante, o capitão, que telecomanda tudo de algum lugar onde permanece incógnito. A heroína, presente na capa, é uma mulher negra, trans-humana e hiper-sexualizada, mas inteligente e capaz. Entre os cientistas há dois telepatas, e a telecinesia também possui uma participação importante. Não foi difícil prever quem é o vilão — e nisso Alien também dá uma pista ao leitor. Apesar da previsibilidade e dos personagens antipáticos e inconsistentes como cientistas, o suspense me fisgou e li a novela com prazer. Esta edição da Suma vai no rastro de uma edição de 2018 da Bantam Books, com ilustrações internas de David Palumbo, coloridas, realistas mas com uma mancha muito artística. A arte de capa do brasileiro Julio Zartos puxa um pouco para o juvenil, mas está dentro da história e apresenta um traje espacial de look mais moderno.

 

The Revenge of Gaia: Why the Earth Is Fighting Back – And How We Still Can Save Humanity, de James Lovelock. Londres: Penguin Books, 2007 [2006], 222 páginas. Prefácio de Sir Crispin Tickell. Fotos e gráficos. Paperback. O aquecimento global e o consequente agravamento do clima é uma realidade cientificamente irrefutável, que está aí há algum tempo, sendo denunciada por cientistas e ficcionistas (como Bruce Sterling, com Tempo Fechado, de 1994, publicado aqui pela Devir Brasil). Este livro de não ficção, com uma capa que lembra cartaz de filme de catástrofe, fez a denúncia em 2006, quando foi best-seller no Reino Unido. Seu autor é conhecido pelo conceito de Gaia (batizado assim pelo romancista inglês William Golding, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e autor do clássico da FC, O Senhor das Moscas), metáfora de uma “Terra viva”, usada para tratar do planeta como um sistema auto-sustentado, do qual a vida faz parte e dá caráter a fenômenos antes considerados independentes dela, como a atmosfera e a geografia.

O conceito é antigo (1979), e cruzei com ele ainda criança pelos jornais e revistas da época. Este livro bem posterior fornece uma infinidade de insights e dados sobre Gaia e o aquecimento global e suas consequências desastrosas. O capítulo “What Is Gaia?” descreve o conceito e como Lovelock chegou a ele, sua relação com teoria relativamente recente da emergência (de “emergir”) ou complexidade (e de como o entrelaçamento quântico pode fundamentá-la), assim como as reações do mundo científico a Gaia, além da importância da temperatura e da química necessária à vida, no sistema autorregulatório da Terra como sistema auto-sustentado. “The Life History of Gaia” fornece mais substância à teoria, a partir da evolução da vida e da geologia do planeta. A evidência mais recente estaria no ciclo de eras do gelo, que leva o autor a supor que a própria biodiversidade seria uma resposta da Terra aos desafios representados por essa ciclo. “Forescasts for the Twenty-First Century” argumenta contra a posição infame de Michael Crichton e outros questionadores dos modelos da mudança climática, e parece ter previsto o agravamento acelerado que temos visto nos últimos anos, no que já vem sendo chamado de crise climática. Já “Sources of Energy” faz uma polêmica defesa da energia nuclear para evitar as emissões a partir do carvão, petróleo e destruição de vegetação com as hidroelétricas. Para isso, Lovelock minimiza os efeitos danosos de acidentes nucleares como os de Chernobyl. Ele não confia em fontes alternativas nem na mudança de hábitos de consumo como solução. Só o que posso dizer sobre isso é que de lá (2007) para cá, as fontes eólica e solar aumentaram em muito a sua eficiência e difusão — como atesta o caso da Escócia. A partir daí e dos capítulos seguintes — “Chemicals, Food and Raw Materials” e “Technology for a Sustainable Energy” —, Lovelock deriva para uma crítica do ambientalismo, que para ele mais atrapalhava do que ajudava, ao interferir, com sua condenação da energia nuclear e da poluição de alimentos, com medidas de otimização que ajudariam a diminuir a derrubada de florestas e a emissão de gases de efeito estufa. A bronca dele culmina em “A Personal View of Environmentalism”.

Para um socialista verde como eu, os argumentos contra o ambientalismo parecem uma ação contra quem está próximo — ambientalistas e proponentes da alimentação orgânica — e portanto acessível, já que o verdadeiro problema se mostra inacessível ao autor: o negacionismo climático, a atividade industrial e agropecuária sem regulação, a ganância do sistema financeiro internacional. Ele não vê qualquer sinergia entre esses movimentos e a luta contra o aquecimento global, ao mesmo tempo em que não explora a sinergia presente e danosa, dos fatores adversários. É também culpado de dirigir-se em demasia ao público precípuo do seu livro, o leitor inglês, quando o problema exige uma visão bem mais global. Ainda assim, The Revenge of Gaia funciona  bem como advertência contra o terrível caminho suicida que tomamos como espécie.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Ken Kelly.

Star Wars: Boba Fett: Inimigo do Império (Star Wars: Boba Fett: Enemy of the Empire), de John Wagner (texto) e Ian Gibson & John Nadeau (arte), e Cam Kennedy (arte). Barueri-SP: Panini Comics, 2015, 146 páginas. Arte de capa de Ken Kelly. Brochura. Este livro reúne uma minissérie de quatro fascículos e uma história solo do caça-prêmios Boba Fett, sendo que na minissérie ele se confronta com Darth Vader. São dois dos maiores vilões de Star Wars, e Fett, que apareceu primeiro no desenho animado embutido no The Star Wars Holyday Special (1978). Depois vimos, no filme Star Wars Edição Especial (t.c.c. Star Wars Episode IV: A New Hope), que ele estivera em uma cena cortada do filme que inaugurou a franquia, em 1977.

Um relacionamento entre Vader e Fett certamente seria algo sombrio, e o escritor John Wagner o pinta mergulhando em situações que estariam bem situadas na revista Kripta ou na EC Comics. Wagner é um dos criadores do Juiz Dredd na saudosa revista 2000 A. D., e trouxe a Star Wars aquela inclinação para a violência mais explícita e para efeitos de humor negro. Na minissérie em questão, Vader procura Fett pessoalmente para que ele capture um oficial desertor do Império. Ao mesmo tempo, o vilão coloca um quarteto de assassinos na cola do caça-prêmios. A trilha leva a uma espécie de monastério localizado em um planeta remoto, ocupado por uma ordem de monges pessimistas, cruelmente explorados com fins humorísticos por Wagner. Diz respeito a um “artefato” capaz de prever o futuro. Vader quer esse objeto, e nesse local ele se defronta com Fett. Algo que ele descobre é que precisará do caça-prêmios no futuro (de O Império Contra-Ataca, certamente). A arte da dupla Ian Gibson & John Nadeau tenta encostar na de Cam Kennedy (que havia trabalhado com Wagner desenhando o Juiz Dredd), mas é caricata. Kennedy, que eu conhecia pela minissérie A Guerra de Luz e Trevas (1988) e por uma outra HQ de Star Wars, Dark Empire (1992 e 1994), comparece ele mesmo na última história, “Caça a Bar-Kooda”. Nela, Fett persegue, a mando dos Hutts, um criminoso espacial conhecido por devorar os artistas de entretenimento de cuja apresentação ele não gostou. A chave para chegar a Bar-Kooda é um mágico baixote e resignado. Também escrita por Wagner, a história é igualmente sombria e irônica, mas melhor desenhada e com uma virada “canibal”. O capista Ken Kelly deve ser familiar aos leitores de A Espada Selvagem de Conan.

 

Arte de capa de Kerascoët.

Aurora nas Sombras (Jolies ténêbres), de Fabien Vehlmann & Kerascoët (Marie Rommepuy & Sébastien Cosset). Rio de Janeiro: DarkSide, 2019 [2009], 96 páginas. Tradução de Maria Clara Carneiro. Arte de capa de Kerascoët. Álbum capa dura. Uma menina morre na floresta, a caminho da escola ou de um passeio solitário. Nesse instante, criaturas do seu mundo imaginário deixam o cadáver, para viverem uma existência liliputiana e esquálida nas vizinhanças do corpo em decomposição. São seres simplificados como bonecas e crianças, meninos e meninas, princesas e bailarinas de ilustração de livros infantis. Assim como os contos de fadas na origem, a fome e o choque das ilusões infantis com a essência bruta e implacável do mundo natural assombram as suas andanças e festejos pueris. Aurora, a protagonista, é a mocinha loira e de vestido de bolinhas que aparece na capa. Lembra tanto Alice quando Poliana, na sua solidariedade e positividade inicial. Esse espírito não sobrevive à dureza da vida no bosque e às mesquinharias que aparecem cada vez mais no comportamento dos seres imaginários. O que emerge é a crueldade, o egoísmo e o lado autocentrado da criança, que muitas vezes as brincadeiras e a fantasia infantis mascaram. Assustada e magoada com tudo, Aurora se refugia na cabana (como o povo pequeno das lendas sobre hobgoblins e lucharacháin) de um homem solitário, e na qual a presença de uma boneca quebrada parece sugerir que ele pode ter algo a ver com a morte da menina. A nêmesis de Aurora é a arrogante princesa Zélia, que, a certa altura, afirma que o problema de Aurora é que “ela nunca foi muito maligna… todo o problema está aí”. Mas Aurora já completou o seu processo de brutalização e resolve a rivalidade de um modo que faz o leitor recordar o fantasma das atrocidades nazistas na Europa. Só isso já bastaria como um final aterrorizante, mas a conclusão do livro escrito pelo francês Fabien Vehlmann e desenhado pelo casal Marie Rommepuy & Sébastien Cosset (que assinam “Kerascoët”) guarda para Aurora um traço de inocência e idealização que, no contexto, é ainda mais assustador.

O livro andou aqui em casa trazido por meu filho, Roberto Fideli, que o tomou emprestado de sua amiga Isabella Lubrano. (Mais tarde, adquirimos um exemplar.) Agradeço aos dois pela chance de ler o livro lançado pela DarkSide este ano, com um acabamento luxuoso. Meu filho me entregou o livro com o alerta de que era de causar pesadelos. E de fato, escrevo estas notas depois de despertar de um desses pesadelos. Fique avisado.

—Roberto Causo

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Marco Aqueiva (1966-2020)

Em 12 de fevereiro de 2020, o mundo da ficção científica paulistana, especialmente o grupo que se formou em torno de Luiz Bras (Nelson de Oliveira), do seu grupo de estudos de ficção científica — o Coletivo KriptoKaipora — e da sua coleção Futuro Infinito, foi sacudido pela notícia do falecimento de Marco Aqueiva, um dos autores da coleção.

 

Marco Aqueiva, no lançamento do seu livro de ficção científica, Amália atrás de Amália.

Marco Aqueiva” é o pen-name do acadêmico e poeta Marco Antonio Queiroz Silva, nascido em Bauru-SP, em 1966. Com graduação em Letras pela Universidade de São Paulo, em 1993, e Mestrado em Letras na área de Literatura Portuguesa, obtido em 2006 na mesma instituição, Marco dava aulas de Literatura na Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista desde 2002.

Em 2017, iniciou o doutorado também na USP, na área de Teoria Literária e Literatura Comparada, com o romance Distrito Federal (2015), de Nelson de Oliveira, como assunto da sua tese. Ano passado, em maio, tive o privilégio de participar do exame de qualificação do seu projeto de pesquisa. Certamente, o entusiasmo de Nelson pela ficção científica inspirou Marco a responder com a sua própria energia e dinamismo. O resultado imediato foi a novela distópica pós-modernista Amália Atrás de Amália (2019), parte da Futuro Infinito, da paulistana Patuá Editora, de Eduardo Lacerda.

Um militante da seara poética, com o Projeto Valise, iniciado em 2008 na Internet, e participante do coletivo literário Quatati, junto ao qual divulgava a ficção científica brasileira. Pela mesma Patuá, publicou o romance Sob os Próprios Pelos: Seres Extraordinários (2014), e os livros de poesia O Azul Versus o Cinza & o Cinza Versos o Azul (2012) e Germes entre Dias Brancos (2016).

Nelson de Oliveira reagiu à notícia do falecimento com a seguinte nota no Facebook: “Hoje partiu para uma grande aventura cósmica um escritor dos bons, além de um interlocutor inteligente e generoso.” Já o também acadêmico Ramiro Giroldo, autor do texto de orelha de Amália Atrás de Amália, nos disse: “Durante o tempo (infelizmente muito mais curto do que eu gostaria) em que mantive contato com o Marco, ele foi uma presença marcante. Inteligente, espirituoso, com uma conversa ao mesmo tempo gentilíssima e sincera, sem jogos de aparência — uma combinação que tornava impossível não simpatizar de imediato com ele. Claro que nosso assunto em comum era a literatura, que o Marco tão bem praticava — mantinha um ritmo de produção bom sem perder o cuidado com cada palavra. Marco Aqueiva deixou uma produção literária — inclusive com expressivas contribuições para a literatura fantástica e particularmente para a ficção científica —, uma produção que precisa ser conhecida. Amália atrás de Amália, sua última obra, recém-lançada, é exemplo: uma distopia formalmente organizada como nenhuma outra. Nossa literatura e nosso tempo estão em Marco Aqueiva.”

A FC brasileira perdeu um autor que entrou na cena com personalidade própria, e um interlocutor qualificado. Vítima de um infarto agudo do miocárdio, Marco deixa a esposa Fátima e os filhos Bruno e Igor.

—Roberto Causo

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Leituras de Junho de 2019

O mês de junho concentrou a leitura de ficção científica brasileira e japonesa recentes, além de fantasia celta e história em quadrinhos do Batman e de fantasia heroica.

 

Arte de capa de Patricia Highsmith.

Os Gatos, de Patricia Highsmith. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011, 120 páginas. Arte de capa de Patricia Highsmith. Tradução de Petrucia Finkler. Livro de bolso. Mês passado, terminei estas anotações com a leitura de uma história de bichos, a fábula O Lobo, de Joseph Smith, e neste mês começo com este livro centrado na figura do gato. O livrinho da famosa escritora de ficção de crime Patricia Highsmith (autora dos romances de Ripley), com três contos, três poemas e vários desenhos, tem todo o jeito de ter sido montado no Brasil, de material retirado de outra obra da autora. (Não tem nota de copyright de um título reunindo todos os textos, por exemplo.)

“Presentinho de Gato” é a primeira história, uma noveleta, em que, durante uma reunião social, um gato traz para casa um dedo humano, com uma aliança ainda presa nele. Isso leva o casal dono do gato a investigar o caso, chegando até o perpetrador — e a uma decisão surpreendente, sobre o que fazer com ele. A segunda história, “A Maior Presa de Ming”, é um conto de suspense que pode ser lido como horror e não ficaria mal em uma série de antologia como Galeria do Terror (1969-1973) ou em um filme do tipo antologia, como Creepshow: Arrepio de Medo (1982). Nessa noveleta, o gato do título, odiado pelo namorado fisicamente abusivo da sua dona, dá um jeito de “acidentalmente” (vai saber…) tirar o sujeito da vida dele e da moça. Finalmente, “A Casa de Passarinhos Vazia” mostra uma mulher que vislumbra um bichinho na propriedade rural em que vive, e cuja presença furtiva passa a incomodá-la acentuadamente. Ela passa a chamar o animal de “filhote de yuma”, e faz o marido emprestam uma gata da vizinha, para caçar o bicho, mas o conto revela que a criatura é símbolo de uma inquietação íntima, referente ao filho que ela abortou intencionalmente. Uma inquietação que pode ter se transferido ao marido, mesmo depois do “yuma” ter sido morto pela gata. É um suspense psicológico, portanto. Seguem-se então três poemas sobre a vida do gato: gatinho, gatão e velhão. O livro fecha com o ensaio “Sobre Gatos e Estilos de Vida”, observando como a beleza e a tranquilidade do gato combinam com a vida do escritor. O ensaio e os poemas, bem mais do que as histórias, que podem ser lidas pelo seu fator suspense ou crime, é que tornam este um livro para amantes de gatos, assim como, por exemplo, O Gato por Dentro (1986), de William Burroughs.

 

Arte de capa de George Amaral.

A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche. São Paulo: Monomito Editorial, Coleção Universo Insólito, 2019, 118 páginas. Apresentação de Enéias Tavares. Texto de Orelha de Jana Bianchi. Arte de capa e ilustrações internas de George Amaral. Livro de Bolso. Esta novela de Ana Rüsche abre a Coleção Universo Insólito da Editora Monomito, voltada para FC, fantasia e o fantástico. É uma excelente obra de abertura para uma coleção, considerando as suas qualidades literárias e representacionais. (Um embrião, sob a forma de conto, apareceu antes na revista eletrônica Mafagafo, de Jana Bianchi.) A narrativa acompanha a aventura de Irene, uma mulher brasileira, afro-descendente e de meia-idade que acaba no Chile, fazendo uma oficina de práticas de meditação. Lá, toma contato com uma beberragem capaz de induzir a comunicação telepática, e se une a uma comunidade que explora essa fabulosa habilidade.

A bebida já está na mira de um empresário americano que se infiltrou no grupo antes da brasileira chegar, e que pretende turbinar a internet com uma tecnologia bioquímica de transmissão do pensamento. A premissa lembra a intriga de fundo do romance Interferências (2018), de Connie Willis, no qual a telepatia poderia fundamentar uma revolucionária expansão da tecnologia de comunicação móvel. Ao mesmo tempo, o cenário translatino-americano coloca o livro junto com Na Eternidade Sempre é Domingo (2016), de Santiago Santos, e Escalpo (2017), de Ronaldo Bressane. É uma tendência bem-vinda, e eu mesmo expresso minhas ansiedades de contato com a América Latina na série As Lições do Matador. Mas, assim como no livro de Bressane, a novela de Ana Rüsche lembra a violência da ditadura militar brasileira, ao evocar a ditadura chilena. Rüsche faz bom uso de um recurso incomum na composição literária — o portento (um terremoto andino, no caso). Ela também compôs uma prosa literária discreta, muito próxima do estilo dominante na literatura mainstream brasileira e latino-americana, o que aproxima ainda mais forma e conteúdo. É um estilo sensível aos estados mentais da protagonista e a como ela se relaciona com a galeria de personagens que desfilam em A Telepatia São os Outros, uma das melhores novelas surgidas neste momento tardio da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira.

 

Capa de Teo Adorno.

Back in the USSR, de Fábio Fernandes. São Paulo: Editora Patuá, Coleção Futuro Infinito, 2019, 224 páginas. Brochura. Nunca fui um beatlemaníaco, embora amigos de infância como Devair Almeida e até a minha mulher sejam grandes fãs dos Beatles. Às vezes, só pra encher o saco da minha esposa, eu me refiro ao grupo como “Os Reis do Iê Iê Iê”, a ridícula alcunha dada pela imprensa brasileira a eles, quando do seu surgimento.

Começo assim o comentário deste que é o segundo romance de Fábio Fernandes porque John Lennon é o seu protagonista. O livro abre a Coleção Futuro Infinito, editada por Luiz Bras (Nelson de Oliveira) para a Editora Patuá, de São Paulo, e é uma história alternativa em que, em fins do século 18, um método de ressuscitação total, conhecido como “Método Frankenstein”, mudou a história do mundo. À revelia, Lennon sofre o procedimento depois de ser assassinado por Mark David Chapman em Nova York. Coagido pela empresa superpoderosa que controla o método, ele vai à Rússia para, a pretexto de fazer um show, contrabandear dados secretos para fora do país e sofrendo com várias reviravoltas, logo a seguir. A premissa relativamente simples é retrabalhada com uma infinidade de referências culturais, eruditas e pop, e especulações divertidas sobre um mundo que venceu (até certo ponto) a maior questão transcendental possível: a morte. O que chama mais a atenção é o quanto a questão da sobrevivência após a morte, transformada em ferramenta de controle e de diferenciação social e política, daria o tom do pensamento filosófico e ideológico ao longo dos séculos. De fato, a estratégia imprime ao livro todas as marcas da ficção pós-modernista, na estrutura fragmentada e com a sua aproximação do popular e da alta literatura. São citados, por exemplo, Mary Shelley, H. P. Lovecraft, Karl Marx, Yoko Ono, George Harrison, Michel Foucault e Erich Maria Remarque — com o trecho de um romance que apresenta Adolf Hitler reduzido a um personagem. Soma-se a ela a paródia de um gênero popular, o thriller internacional, para reforçar essa inserção. O romance surgiu do conto “Para Nunca Mais Ter Medo”, publicado na revista Dragão Brasil em 1995, e agrega como reaproveitamento outros textos em torno do Método Frankenstein. A Coleção Futuro Infinito vai trazer um mix de autores da Segunda e da Terceira Onda, como Braulio Tavares, Claudia Dugim e Marco Aqueiva.

 

Capa de Carol Russ.

The Book of Kells, de R. A. MacAvoy.  Nova York: Bantam Books, 1985, 340 páginas. Arte de capa de Carol Russ. Arte interna de Robert Hunt. Paperback. A escritora americana Roberta A. MacAvoy fez sucesso na década de 1980 e depois deu uma sumida. Uma pesquisa na internet revelou que ela desenvolveu uma doença crônica, controlada recentemente, quando ela voltou a escrever. Este é um romance solo (não fazer parte de uma série) ambientado na Irlanda. Foi por essa razão que eu o adquiri este ano em um sebo da região da Sé, em São Paulo. É que a escrita do romance “Archin” para o Desire entrou em uma fase ambientada na Irlanda do século 13. Dá para chamá-lo de “fantasia celta” e de “fantasia de portal”, já que ele começa na Irlanda contemporânea — para onde vai uma jovem adolescente do século 10, que tenta fugir do massacre da sua vila por um grupo de vikings. Ela surge na casa alugada de um artista canadense que foi levado à Irlanda por sua namorada, uma historiadora, feminista e mulher de ação. De algum modo, as filigranas celtas e uma certa canção que ele ouvia na vitrola criaram um portal que permite a viagem no tempo. A menina foi estuprada e está ferida. O casal contemporâneo cuida dela e, tendo matado a charada, resolve levá-la de volta ao século 10. Lá, descobrem um segundo sobrevivente, um poeta, e ficam sabendo que o portal de retorno foi fechado quando os vikings destruíram uma cruz ornamentada pelos mesmos padrões de filigrana. Os náufragos temporais se tornam os representantes do leitor numa jornada de descoberta da vida e da cultura celta de então — especialmente depois que o grupo determina que devem ir a Dublin exigir do rei uma compensação pelo massacre e pelo estupro da garota. Por todo o caminho eles são perseguidos pelos vikings, liderados por um sacerdote renegado do deus Odin, que escolheu aquela aldeia como sacrifício para o deus nórdico. O sincretismo tanto da cultura celta quanto da nórdica com o cristianismo é uma das marcas do romance, e daquela época. Não apenas o mecanismo de viagem temporal tem papel no enredo, mas também milagres que incluem um fabuloso encontro, ao mesmo tempo divertido e assustador, com a deusa Bridget. O clima é realista e noturno, com uma textura que sustenta a viagem temporal que o próprio leitor experimenta.

É especialmente interessante a caracterização dos personagens: o artista é atrapalhado, sexualmente inibido (o que irrita a sua liberada companheira o tempo todo) e estoico. A historiadora é altiva mas às vezes cede ao peso psicológico do estranhamento da situação, desmaiando ou explodindo com as pessoas. Seu relacionamento com o artista inclui momentos apaixonados, mas é de constante abuso verbal contra ele. Ela acaba se interessando mais pelo poeta local. Ailish, a garota resgatada, é vivaz e determinada — bastante encantadora, por essas e outras qualidades. MacAvoy lida com a caracterização de personagens e do ambiente com um senso quase teatral da dinâmica entre eles, com uma incisividade que admite momentos brutais ou detalhes pouco glamourosos, como pelos corporais nas mulheres, flatulência e uma sexualidade e nudez desinibidas que, o livro me revelou, era próprio da cultura irlandesa de então. Quando o grupo encontra a deusa Bridget, ela se revela como uma mulher idosa, nua e que, agressivamente, abre a vagina (é a figura folclórica de Sheila na Gig) para o incomodado artista — que desmaia! Outro aspecto interessante dele é que seus impulsos eróticos parecem atrelados a fatores estéticos (ele tem ereções persistentes quando desenha).

Um problema de MacAvoy é a adoção do narrador onisciente ilimitado, cujos saltos de um personagem para outro tornam difícil para o leitor saber quem pensa, sente ou mesmo fala o quê. O final do livro é meio que um deus ex-machina, mas funciona suficientemente bem para a conclusão de um romance rico, divertido e com muitos elementos subversivos da fantasia. The Book of Kells é o título de um folio do século 8, caracterizado por exuberantes iluminuras sincréticas. É considerado o maior tesouro medieval da Irlanda. O livro faz uma aparição no romance de MacAvoy, quando o grupo de amigos chega ao monastério onde ele está sendo restaurado por um grupo de monges escribas.

 

A sugestiva arte de Robert Hunt cobre a guarda da capa e a primeira página do livro. Estão nela os personagens e a mistura da cultura celta e a ameaça viking.

 

Arte de capa de Brigid Collins.

The Sleep of Stone, de Louise Cooper. Nova York: DAW Books, 1993 [1991], 174 páginas. Arte de capa de Brigid Collins. Paperback. Esta é uma novela ou romance curto com um ar de conto de fadas que disfarça bem a sua sensibilidade moderna voltada para apontar os desenganos do delírio amoroso. A incomum heroína é uma espécie de gremlin que se apaixona pelo príncipe de uma cidade pesqueira. Ela envolve o moço assumindo a forma de diversos animais (em especial uma foca ou leão-marinho) e oferecendo-lhe a sua amizade. Quando descobre que ele vai se casar com uma princesa de outra cidade, ela elabora o plano de tomar a forma da jovem e consumar o seu amor pelo rapaz. É bem provável que história se baseie em lendas das selkies, comum em ilhas do Mar do Norte, sobre um povo-foca que podia assumir a forma humana, ao trocar de pele. Uma estátua moderna, de Hans Pauli Olsen em Kalsoy, uma das Ilhas Faroe, marca a força dessas lendas.

Para a gremlin de Louise Cooper, as coisas acabam mal. No meio do caminho, Ghysla, a gremlin, acaba matando uma aia do castelo do príncipe, mas essa experiência traumática a leva a hesitar em matar a princesa que deseja substituir. Por isso, resolve apenas sequestrar a moça, levá-la a uma caverna e transformá-la em pedra com um encantamento. Bombasticamente, no final da cerimônia de casamento o noivo não confirma seus votos, dizendo que essa não era a sua noiva, o que é confirmado pela mãe da princesa. Aflita, Ghysla revela sua verdadeira forma, é caçada pelos homens, reage com sua força mágica e acaba encastelada em uma torre. O príncipe percebe que ela representa o único meio de resgatar sua amada, mas para desentocá-la, recorre ao último grande mago conhecido. Com grande relutância, o mago o acompanha de volta ao castelo, e, usando sua forma mágica, convoca Ghysla para uma conversa. Ele descobre que ela não apenas é a última da sua espécie no mundo, como que fez tudo por uma fantasia de amor, em que se convencera de que o príncipe também a amava. Enfim, o mago se revela como fazendo parte da espécie dela — ou uma parte dele, pois é filho do encontro entre uma mulher da raça mágica e um humano. Surpreendentemente, o príncipe ouve tudo e se compadece de Ghysla. Ele e o mago, porém, a convencem a colaborar. Mas existe um preço terrível a ser cobrado: o feitiço do sono da pedra pode apenas ser revertido se quem o lançou também se transformar em pedra. A autora lida muito bem com o mais neutro tom de fábula, e torna sua trágica heroína uma personagem atraente e cativante ao caracterizá-la como adolescente intensa, ingênua e atrapalhada. Cooper também antecipa a especulação mais ousada do leitor para um final diferente, escapando dela com a maior elegância. Há anos que me deparo com livros dessa autora inglesa nos sebos da vida, mas sempre pertencentes a alguma série multivolume, e nunca com o volume um. Livro solo, The Sleep of Stone foi uma ótima oportunidade de conhecer o seu trabalho. A arte de capa de Brigid Collins tem o ar e a composição dos quadros dos pintores pré-rafaelitas, mas parece ser aquarela e não pintura a óleo.

 

A escultura de Hans Pauli Olsen, na Ilha Kalsoy, retrata uma selkie se despindo da sua pele de leão-marinho. Com o dobro da altura de uma pessoa normal, ergue-se em uma extensão rochosa e é capaz de resistir a ondas de até treze metros de altura, interagindo com o mar. Nas lendas, a selkie é forçada a se tornar esposa do homem que tomou a pele de leão-marinho, a chave para a reversão da sua transformação em mulher. No romance de fantasia de Louise Cooper, a gremlin pode assumir muitas formas, e procura a todo custo ganhar o amor do humano que escolheu.

 

your name., de Makoto Shinkai. Rio de Janeiro/Campinas: Verus Editora, 2ª edição, 2019 [2016], 186 páginas. Tradução de Karen Kazumi Hayashida. Comentário de Genki Kawamura. Brochura. Há alguns anos eu me apaixonei pelo filme curto de Makoto Shinkai, O Jardim das Palavras (Kotonoha no Niwa; 2013). Outros filmes anteriores de Shinkai, como 5 Centimeters per Second (Byōsoku 5 Senchimētoru; 2007) e Viagem para Agartha (Hoshi o Ou Kodomo; 2011) não me impressionaram tanto. O comentário do produtor Genki Kawamura ao final da novelização your name., escrita pelo próprio Shinkai, dá a entender que um grupo de produtores se reuniu para dar a Shinkai as condições de produzir a obra-prima que se esperava dele. O anime longa-metragem Your Name foi o filme de animação mais visto na história do Japão, e ganhou prêmios em três continentes. É maravilhoso, já o vi várias vezes, e ele está passando direto na TV a cabo.

Narrado em primeira pessoa mas pelos dois personagens principais — dois colegiais, ele vivendo em Tóquio e ela em uma cidade interiorana ficcional —, o romance tem a ligeireza comum às “novelizações”, mas como é rico em situações e na subjetividade dos personagens, ele encanta e aproxima o leitor da dupla, ampliando a experiência do filme. Shinkai escreveu o livro enquanto dirigia o anime sobre os colegiais que trocam de corpo aleatoriamente, e, apaixonados um pelo outro, se procuram espiralando em torno do evento central, que é o choque do fragmento de um cometa que já havia atingido a mesma cidadezinha, séculos antes. Nessa coincidência e no impacto duplo há aquela sombra perpétua dos ataques atômicos americanos ao Japão na Segunda Guerra Mundial, presente em tanto da cultura popular japonesa. Em tudo isso (e também em uma engenhosa viagem no tempo), a história combina fantasia e ficção científica. O que impressiona é a costura intrincada, mas que parece despretensiosa ao mesmo tempo. No leitmotif da troca de corpos e de gênero sexual, têm-se um comentário sensível e bem-humorado de como o conhecimento do sexo oposto derrubaria barreiras e promoveria uma qualidade maior de relacionamento pessoal. Ao mesmo tempo, oferece a perspectiva de como o desconhecimento atrapalha. É difícil aparecer ficção científica japonesa por aqui, e este livro é uma oportunidade de se ter algum contato com dela. O que o filme e o livro realizam em grande parte é oferecer, com a inteligência e a sensibilidade de Makoto Shinkai, um testemunho da potência da cultura popular japonesa.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Andy Kubert.

Batman e Filho, de Grant Morrison (texto) & Andy Kubert (arte). Cajamar-SP: Planeta DeAgostini Brasil, 2019 [2006, 2007], páginas. Arte de capa de Andy Kubert. Capa dura. Este é o primeiro volume de uma coleção da Planeta DeAgostini dedicada exclusivamente ao Batman. Conta a história de como Bruce Wayne soube que teve um filho com a filha de Ra’s Al Ghul, Talia. Existe, inclusive, uma animação bastante divertida e interessante, com roteiro do escritor de FC e fantasia Joe R. Lansdale, baseada ou inspirada nesta HQ: O Filho do Batman, de 2014.

O Batfilhote é um pequeno assassino com problemas de autoridade, ciúmes do Robin (com quem trava uma luta épica), e a ideia fixa de que matar é a resposta para todo e qualquer problema. Além dos membros da Liga dos Assassinos, Batman e eventualmente também o seu filho, combatem homens-morcegos mutantes criados artificialmente pelo Dr. Kirk Langstrom. A intriga envolve o resgate da esposa do primeiro ministro britânico, raptada quando os homens morcegos entram em cena pela primeira vez — em uma exposição de arte em Londres, para arrecadar fundos para a África. Grant Morrison, um das estrelas dos quadrinhos do século 21, traz um toque metalinguístico interessante com o tema da exposição: a arte pop tipo Roy Lichtenstein, que deve muito à linguagem dos quadrinhos e que por sua vez deve ter influenciado o ângulo camp da série Batman e Robin (Batman), de 1966.

A tentativa de resgate da mulher do primeiro ministro também implica no reencontro da Batman com Talia — e o uso de um batfoguete suborbital. O volume se estende um pouco mais com o cruzado embuçado perseguindo um assassino em série que ataca prostitutas, revelando-se como um gigante mascarado que cobra um duro preço do herói, numa pancadaria em um beco. A arte de Andy Kubert, filho do lendário Joe Kubert, é competente em todos os aspectos da narrativa dos quadrinhos, com alguns momentos muito expressivos.

 

Arte de capa de Andy Kubert.

Batman: O que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? (Batman: Whatever Happened to the Cape Crusader), de Neil Gaiman (texto) & Andy Kubert (arte). Barueri-SP: Panini Books, 2013, 130 páginas. Arte de capa de Andy Kubert. Capa dura. O celebrado Neil Gaiman e o mesmo Andy Kubert criaram uma narrativa metaficcional em que Batman parece acompanhar em espírito vários testemunhos de amigos e inimigos, durante o seu velório. Como Batman morreu é a pergunta que paira, logo dividida com outra pergunta: Batman morreu mesmo? O velório acontece no Beco do Crime, onde a morte do casal Wayne dá início à formação do herói encapuçado que se tornaria o Batman.

Como sempre, o texto de Gaiman é falsamente simples, na verdade rico em situações e em movimentos. Há um componente crucial de dúvida sobre o que se passa na situação-base do velório e seus testemunhos. A Mulher-Gato é a primeira a falar, e conta um história estranha em que teria deixado de socorrer Batman de um ferimento eventual, depois que ele rejeitara construir uma vida com ela. Segue-se uma outra, em que o mordomo Alfred se apresenta como um ator farsante que assumia a identidade de vários supervilões da franquia, para motivar o patrão no seu suposto delírio heroico. A segunda parte da história abre mão do formato inicial de narrativas mais alongadas e contrastantes, para recorrer a uma rápida sucessão de testemunhos da Batgirl, do Coringa, de Robin, e até mesmo do Super-Homem. Num terceiro momento, toda essa pantomima de testemunhos funerários cede a um mergulho na subjetividade do próprio Batman. Memória e subjetividade estão no centro da abordagem literária de Neil Gaiman, e neste tratamento original e instigante da trajetória do herói a sua obsessão com a infância não deixaria de igualmente se manifestar — com direito a uma aparição de Martha Wayne, a mãe de Bruce, a identidade “civil” do Batman. A arte de Kubert dá conta e homenageia discretamente as várias fases do personagem, emprestando elementos de estilo do criador Bob Kane e de desenhistas do passado como Jack Burnley e Jerry Robinson, reforçando o caráter metaficcional da HQ. A história de Gaiman é uma linda homenagem ao imortal cruzado embuçado, tratando-o com admirável verve e sensibilidade. O volume é completado por cinco histórias mais curtas, também de épocas diferentes, incluindo uma em preto e branco por Simon Bisley, esta totalmente metaficção.

 

Arte de capa de Giuseppe Matteoni.

Dragonero: O Caçador de Dragões Nº 1, de Luca Enoch & Stefano Vietti (texto) e Giuseppe Matteoni (arte). São Paulo: Mythos Editora, fevereiro de 2019, 292 páginas. Tradução de Júlio Schneider. Arte de capa de Giuseppe Matteoni. Brochura. Dragonero é uma série mensal de quadrinhos de alta fantasia, publicada originalmente pela Sergio Bonelli Editore em preto e branco, criada na Itália em 2009, pela dupla Enoch & Vietti. Chegou aqui num livrão distribuído em bancas. Traz todos os elementos tradicionais da alta fantasia pós-Tolkien: mapas e glossário de línguas ficcionais; uma cuidadosa e rica construção de mundo bem amparada pelo traço preciso de Giuseppe Matteoni; ameaças que atingem o mundo secundário globalmente, e a formação de uma irmandade que, depois de identificar a natureza completa da ameaça, parte para obter os itens mágicos necessários. O enredo prevê a separação eventual da irmandade em pontos-chave da narrativa, e o sacrifício de algum dos seus membros. O centro da dinâmica entre os personagens é o relacionamento do herói de queixo quadrado Ian Aranill com seu amigo orc, Gmor (que contribui com o alívio cômico), e de Ian com a irmã, Myrva. Há uma ênfase especial nas guildas de magos, aviadores e técnicos, já que a série tem um lado steampunk. Inclusive, Myrva faz parte da ordem dos tecnocratas e integra a irmandade. O desenho claro, de traço robusto e de claro-escuro discreto de Matteoni dá conta de tudo.

O enredo leva o leitor a conhecer paulatinamente os membros da irmandade, o seu mundo secundário e a problemática que eles precisam resolver: um poderoso mago-vilão libera hordas de demônios antes confinados na zona proibida da “Antiga Interdição”. Para reerguer a interdição, é preciso plantar no coração do seu território uma planta mágica que viaja sob a custódia de uma pequena elfa reclamona e relutante, que é o último membro da irmandade a ser recrutado. Na premissa, há algo de J. R. R. Tolkien e de Terry Goodkind. No caminho dos heróis, viagens a terras distantes pela terra e pelo ar, duelos contra velhos desafetos e reencontros com velhos amigos, luta contra demônios cada vez mais numerosos, sacrifícios pessoais, um duelo de magos e, finalmente, um dragão redivivo. O ritmo é excelente, no desdobramento do enredo que pontua o maravilhamento da descoberta desse mundo mágico pelo leitor, e o conteúdo épico da narrativa, com momentos sombrios crescentes. Peter Jackson transformaria isso tudo em um blockbuster definitivo.

 

Príncipe Valente 1940, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. Após escapar da tentativa de assassinato do usurpador Piscaro, e de libertar o nobre Cesario, o Príncipe Valente parte, acompanhado de Sir Gawain e de Sir Tristão e com recursos renovados, na missão de deter quatro mil hunos que se aproximam. Logo no início, tem-se uma página com um violento choque de cavalaria. Com a ajuda do seu novo escudeiro, o malandro Slith, Valente bola um plano para derrotar o chefe dos hunos, Karnak, com mais ação clássica de cavalaria pouco adiante na narrativa. No aftermath, Valete socorre um mensageiro ferido, e descobre se tratar de uma garota disfarçada de rapaz. Ela tem origem nobre e, com o disfarce, busca continuar a liderança paterna na resistência aos invasores. Enquanto rola esse pequeno arco romântico, que recupera o leitmotif da moça que assume papel masculino em homenagem à autoridade paterna (que vemos desde Grande Sertão: Veredas, a Mulan), Valente vai pescar sozinho e retorna para se defrontar com uma delegação de nobres de várias regiões demandando que ele os lidere, como um Alexandre, para a vitória sobre um “mar de sangue huno”. Já apontei aqui como o volume anterior apresentou o início do ciclo sobre as guerras dos hunos, marcado pela uma crueldade. Aqui, quando Valente recebe os nobre e generais, ele se nega a liderá-los, indicando um livro com a “história do mundo” (de Plutarco?):

“Aqui, sob a minha mão, está a história do mundo. Jamais encontrarei uma conquista à força que seja duradoura. Alexandre e César, cada um a seu tempo, dominaram o mundo. Mas onde estão suas conquistas agora? O que aconteceu com a Babilônia, a Pérsia e Cartago? Os frutos da conquista são apenas inimizadas amargas. Não, meus nobres senhores, eu empenhei minha espada apenas às causas da justiça e da liberdade!” —Hal Foster. Príncipe Valente.

O trecho não apenas reafirma a mística arturiana de ideais civilizadores, como tempera as aventuras do herói com uma reflexão pacifista a partir da leitura e da ponderação. Assinalando os novos ares da saga, Valente e seus amigos Gawain e Tristão partem para Roma, com o primeiro cavaleiro se metendo em uma série de situações cômicas e desastradas, e com Valente partindo, mais adiante, para livrar uma região do arbítrio de um gigante. Começa um dos arcos que conheci na infância e que é dos mais nostálgicos para mim, pela sua mensagem contra o preconceito. Aí também temos um retorno ao espaço menos histórico e mais mítico da fantasia, embora a figura do gigante seja racionalizada, como outros ícones da fantasia, na crianção de Foster. Quanto ao ciclo dos hunos, ele só termina algumas páginas adiante, quando Valente e seus companheiros conseguem levar a ação até o acampamento principal dos invasores. Mais adiante ainda, Valente resgata um mercador árabe que lhe dá, em reconhecimento, um colar especial que vai tirar o herói de alguns apuros, no futuro. Uma vez, em Roma, mais encrencas aguardam os companheiros, com Valente sendo apanhado no meio de uma intriga do imperador contra o popular General Aécio. Os três são aprisionados, e escapam quando o imperador é alvo de uma revolta. Perseguido pelas montanhas, Valente margeia uma erupção do Vesúvio, e fecha o volume tomando um barco do seu capitão pirata.

 

Príncipe Valente 1941, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. Neste ano da publicação da página dominical de Príncipe Valente, importantes personagens secundários aparecem pela primeira vez: o pirata Angor Wrack e o mercador viking Boltar (que chegou a aparecer no filme de 1954). Principalmente, Aleta, a rainha das Ilhas da Bruma e futura esposa de Valente e mãe dos seus filhos. Eu me lembro de ter lido esta sequência há muito tempo, quando era menino, nas edições de capa amarela da Editora Paladino e em formato de livro (N.º 11, 1972).

Resistindo à tentação dos seus tripulantes de se aplicarem à pirataria, Valente termina ironicamente prisioneiro do escravagista Angor Wrack. Ao escapar, ele acaba em um bote à deriva durante dias, até ir parar em uma praia deserta, onde é socorrido momentaneamente por um anjo louro, que se torna sua obsessão. Esse anjo é Aleta, que deixa com o moço um bilhete que afirma que ninguém pode viver, depois de aportar na suas ilhas no Mar Egeu, mas que ele é jovem demais para morrer. Após curtas peripécias, ele vai parar na cidade litorânea de um velho rei que o toma como refém para pedir resgate. Valente encanta as duas filhas do rei, enquanto reúne recursos para a fuga, mas os cede a uma das filhas, para que ela possa fugir com um marinheiro que conquistara o seu coração. É um episódio bonito, e um refresco necessário a todo o sangue e cinismo do ciclo dos hunos. Mas quando Angor Wrack surge no palácio do rei para uma visita, o irritável herói puxa a espada. Nesse ponto, Foster produziu o fabuloso painel com o polvo gigante no fosso em que Valente é atirado, por ter agredido o convidado do rei. Após nova fuga, Wrack, que havia se apoderado da Espada Cantante de Valente, se torna a sua nova obsessão. Mas é no deserto e não no Mediterrâneo, que os dois se reencontram, aprisionados por ladrões enquanto duelam. Valente acaba escravizado na propriedade de um mercador árabe, ganhando parte das suas graças quando sua cultura o torna valioso como escriba. O plano de fuga de Valente envolve seduzir a morena filha do mercador, um padrão que se repete ao longo da saga, e que o herói deve ter emprestado do seu companheiro Gawain, o galanteador. Livre, ele vai parar em outra situação fantástica, desta vez não racionalizada, envolvendo um mago e a sua firme e bocuda esposa — outro momento divertido de observação psicológica, lastreado pela fantasia, do qual eu me recordava com muita afeição. O volume acelera com novo reencontro com Wrack. Agora, a cooperação anterior entre os dois teria funcionado como prova mútua de valor, e eles se tornam amigos — quando a narrativa é forçada a abafar o passado escravista de Wrack, algo pouco harmonizado com os valores da cavalaria e da Távola Redonda do Rei Artur. De novo de posse da Espada Cantante, Valente combate piratas, mas em nova circunstância moralmente ambígua, termina se associando ao pirata viking Boltar, para seguir com novas aventuras.

—Roberto Causo

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Leituras de Março de 2019

Em março, leituras de ficção científica, ficção literária e ficção militar brasileiras, além de ensaios de C. S. Lewis, um thriller de Justin Scott, e histórias em quadrinhos de Star Wars e do Superman.

 

17 Histórias: Alternativas, Cômicas e Futuristas, de Ataíde Tartari. Pará de Minas-MG: VirtualBooks, 2013, 172 páginas. Brochura. O paulistano Ataíde Tartari ingressou na Segunda Onda da FC Brasileira com o romance curto EEUU 2076: Um Repórter no Espaço (1988). Colaborou com muitas antologias, publicou no exterior pela Amazon e em inglês. Escreveu contos para o Jornal da Tarde e participou do Projeto Portal, de Nelson de Oliveira. É um nome de relevo da Segunda Onda, e boa parte da sua produção de contos está reunida neste volume.

Depois de publicar o conto “Meio que Abduzidos” na minha antologia Estranhos Contatos: Um Panorama da Ufologia em 15 Narrativas Extraordinárias (1998), histórias de Tartari narradas com uma espécie de registro sociolínguistico paulistano e cheio de gírias se tornaram uma das suas marcas registradas. Abrindo o livro, “Sacos de Lixo” (1999) expressa essa tendência. Sobre relacionamentos jovens em Sampa, é uma das histórias publicadas primeiro no Jornal da Tarde. Não há elementos fantásticos nela, ao contrário da seguinte, “Folha Imperial” (1996), uma história alternativa cômica, na qual a monarquia não foi deposta e a bandalheira da década de 1990 persiste com uma cultura de celebridades que envolve a nobreza tupiniquim. “Veja seu Futuro” (2009) apareceu na revista Portal Fundação, de Nelson de Oliveira, e na antologia Páginas do Futuro (2011), de Braulio Tavares. É uma história tipo Além da Imaginação sobre um objeto cotidiano que permite uma visão do futuro — dispositivo literário que está na FCB desde O Presidente Negro (1926), de Monteiro Lobato. Em “A Máquina do Saudosismo” (2009), um homem que descobre ter uma doença fatal recorre a uma empresa que o põe em criogenia, para despertá-lo no século 23, que ele passa a conhecer. “Diário de Marte” (1999) é um conto muito divertido, narrado em primeira pessoa (como num diário) por uma enfermeira que trabalha em um hospital da FAB, onde se apaixona por um alienígena capturado, ajudando-o a fugir e transando com esse Starman. O título se refere ao Campo de Marte, base aérea onde o E.T. ficou internado. Também humorístico e em primeira pessoa, “Ricardo Edgar, Detetive Particular” (2009) narra com dinamismo o caso do tal detetive seguindo uma mulher em Xangai, no futuro próximo.”Um FDP Blindado” (2012) volta para um contexto mais paulistano em texto cheio de gíria, sobre um dispositivo digital portátil que acompanha um rapaz encrenqueiro, comprada pelo seu pai e que conduz a história a outro final tipo Além da Imaginação. “A Sonda” (2010) é conto publicado em e-book em Portugal, sobre uma sonda alienígena descoberta nas escavações de uma construção, abrindo a porta para a invasão do nosso planeta. Em “O Bunker Cretáceo” (2010) é uma construção que arqueólogos encontram em escavação na Antártida, dando acesso a dinossauros inteligentes que passam a habitar a nossa época. A narrativa aqui é mais longa e, como em tudo o que Tartari escreve, desenvolvida com competência e sem tropeços. “Lenda Mineira” (2006) tem um grupo de garotos paulistanos caindo na peça de um velho mineiro que diz que consegue falar com os bichos, e armar uma lição escatológica para os moleques. “Irmão” (2006) é conto curto mainstream, provavelmente inspirado pelo movimento Literatura Marginal. “Craque na Família” apareceu na histórica antologia Outras Copas, Outros Mundos (1998), editada por Marcello Simão Branco. Nesse conto mais longo, um gadget japonês melhora o desempenho de um garoto que faz teste perante um olheiro de futebol. A história é FC, mas a função do dispositivo desconhecido é semelhante ao da fantasia “Veja seu Futuro”. “Saara Gardens” apareceu em outra antologia de Marcello Branco, Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (2011), e trata de um futuro em que a humanidade se uniu sob um único governo, e um mega empreendimento imobiliário sofre oposição de ambientalistas. “O Triângulo de Einstein” (2008) aborda uma nave espacial e sua tripulação sendo atingidas pela dilatação temporal causada pelo voo próximo ao limite da velocidade da luz.

A noveleta “A Grande Virada do Vitinho” (2013) é o texto mais longo do livro, tendo aparecido antes como e-book. É uma história de costumes sobre um escritor e tradutor, contemplando suas frustrações e infortúnios do passado, e discorrendo sobre novo emprego e seu relacionamento com uma mulher madura, conhecida da sua juventude. Escrito na segunda pessoa, “Você” (2000) fecha o livro com uma reflexão metaficcional. 17 Histórias propicia uma vista panorâmica da carreira de Ataíde Tartari e das suas virtudes: ótimos diálogos, atenção à vida miúda de São Paulo, e grande controle narrativo. Assim como Ademir Pascale projeta nos seus livros um ethos paulistano de classe média baixa com uma textura dura e detalhada, Tartari projeta um ethos paulistano de classe média jovem e irreverente. Ele se diferencia, porém, por conhecer ficção científica e ciência, e todas essas qualidades funcionariam muito bem com um projeto mais sofisticado de novela ou romance misturando FC e observação social, do tipo Connie Willis ou outros autores da Asimov’s. Eu ficaria feliz em ler.

 

Arte de capa de Adams Carvalho.

Escalpo, de Ronaldo Bressane. São Paulo: Editora Reformatório, 2017, 256 páginas. Arte de capa de Adams Carvalho. Brochura. Adquiri este exemplar direto do autor, em um encontro com Santiago Santos, autor de Na Eternidade Sempre é Domingo, no Centro Cultural São Paulo. No romance, acompanhamos um artista de quadrinhos afro-brasileiro chamado Ian Negromonte, original do Rio Grande do Sul mas radicado na cidade de São Paulo. Ele machuca a mão durante um protesto nas ruas da capital em 2015, passa por uma separação, e acaba aceitando fazer uma investigação particular para um chileno que vive no Brasil mas que procura uma filha de cuja existência ele não sabia previamente. O chileno, Miguel Ángel Flores, veio ao Brasil fugindo da ditadura no seu país, e se tornou aqui um bem-sucedido autor de ficção pulp de banca de revistas — tipo um Ryoki Inoue. Assim como Ataíde Tartari, Bressane explora bem a paisagem física e humana de São Paulo, com um estilo mais rico e visual. Mas o seu herói viaja, mergulhando no passado violento e cruel da ditadura do General Augusto Pinochet no Chile, e encontrando lá um lugar na cama de duas mulheres bissexuais. Como Negromonte não abre mão do seu estilo de vida dispersivo e de sexualidade aberta, para além da violência histórica o romance mergulha na textura daquilo que se costumava tratar, nas décadas de 1970 e 1980, como “mundo cão”. De algum modo, isso reforça o retorno literário à atmosfera das ditaduras chilena e brasileira daquela época.

Bressane escreve com energia, foge do minimalismo tão presente na Geração 90 a qual pertence, e faz um uso muito bom de momentos de hiper-realismo. O romance contém, por exemplo, a cena de sexo mais que deve ser a mais incômoda para o leitor, na literatura brasileira recente — por misturar justamente sexo e evocações de tortura. A tendência onipresente da ficção contemporânea pela metaficção é bastante refrescada em Escalpo, justamente pela seu foco na paraliteratura: história em quadrinhos, ficção de banca, ficção de crime e ficção científica. Nesse último aspecto, por explorar algo da contracultura dos anos das ditaduras, com a ufologia mística como uma das suas pedras de toque. Há traços de fabulation também, em como o herói se encontra, em um barco, com um artista estrangeiro que o acusava de plágio. É um intenso romance mainstream que, como costuma ocorrer com a literatura brasileira contemporânea e também na literatura pop das décadas de 1970 e 1980, arrasta o seu protagonista já estanhado com a sociedade e a vida, a uma desagregação crescente. O toque de FC fica realmente no plano da evocação.

 

Sobre Histórias (On Stories and Other Essays on Literature), de C. S Lewis. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018, 252 páginas. Tradução de Francisco Nunes. Capa dura. O ramo brasileiro da editora editora escocesa Thomas Nelson, de assuntos cristãos, tem investido na publicação entre nós da obra de C. S. Lewis, o divulgador cristão que também escreveu fantasia e ficção científica, como a série As Crônicas de Nárnia e o clássico Além do Planeta Silencioso. Os livros aparecem em capa dura e bom tratamento editorial, embora aqui a tradução de Francisco Nunes pareça um pouco rígida. É especialmente bacana para o interessado em fantasia e ficção científica que a Thomas Nelson tenha incluído Sobre Histórias na sua coleção de livros de Lewis. Já adianto que o recomendo enfaticamente.

Além de ser um autor importante para a fantasia e a FC britânica, Lewis foi um comentador privilegiado, tendo convivido com os fantasistas J. R. R. Tolkien, E. R. Eddison e Charles Williams, na famosa sociedade literária Inklings, em Oxford. Em Sobre Histórias há um ensaio sobre Williams e outro sobre Eddison, além de uma resenha de O Senhor dos Anéis, de Tolkien, e um segundo texto sobre o seu O Hobbit. A ficção científica tem um ensaio dedicado a ela, e há ainda um outro sobre George Orwell e a sua distopia maior. H. Rider Haggard também é contemplado, e o livro fecha com uma nova discussão, tripla, da FC na transcrição de uma conversa entre Lewis, Kingsley Amis e Brian W. Aldiss. Confesso que a voz ensaística de Lewis me fascina. Também me parece fabuloso “ouvi-la” sabendo que ele comenta a fantasia no momento em que ela se formava como gênero, e a FC quando ela ganhava atenção literária “séria”. Lewis, em Um Experimento em Crítica Literária (1961) e em outros ensaios, tenta investigar como o leitor pode extrair uma experiência profunda lendo uma literatura considerada superficial ou infantil (sobre isso, vale ler, por exemplo, “Sobre Três Modos de Escrever para Crianças” e “Sobre Gostos Juvenis”, neste Sobre Histórias). Entendo que ele observava a literatura em uma época em que o “elitismo edificante” do influente F. R. Leavis (1895-1978) pautava as discussões literárias, e a sua própria religiosidade coloria suas opiniões sobre a função da literatura. Apesar disso, não consigo ver Lewis como algo diferente de um anti-modernista que via relevância na ficção popular — ao contrário da visão que Stableford expressa na introdução de The Jungle Mushroom A History of Postwar Paperback Publishing (1993), de Steve Holland, enxergando Lewis como um elitista e esnobe social. Mas como ver ma afirmação como a seguinte, no ensaio “Sobre Ficção Científica”, como algo além de aberta e democrática?

“Não consigo compreender como alguém pode pensar que essa forma [a FC] é ilegítima ou desprezível Pode muito bem ser conveniente não chamar coisas assim de romance. Se preferir, chame-as de uma forma de romance específico. De qualquer [modo], a conclusão será a mesma: elas devem ser julgadas por suas próprias regras. […] Sem dúvida determinado leitor pode estar interessado […] em nada mais no mundo a não ser estudos detalhados de personalidades humanas complexas. Se assim for, ele tem uma boa razão para não ler livros [de FC], que não exigem nem admitem isso. Ele não tem motivo para condená-los e, de fato, nenhuma qualificação para deles falar. Não devemos permitir que o romance de costumes estabeleça leis pra toda a literatura: deixe-a governar-se em seus próprios termos. Não devemos ouvir a máxima de Alexander Pope sobre o estudo adequado da humanidade. O estudo apropriado do homem é tudo. O estudo apropriado do homem como artista é tudo o que dá um ponto de apoio à imaginação e às paixões.” —C. S. Lewis. “Sobre Ficção Científica”. In Sobre Histórias.

 

Pelotão de Fronteira, de Moacyr Barcellos Potyguara. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2003, 192 páginas. Brochura. Ficção militar é ocorrência rara no Brasil. Em algum momento da década de 1950 ou 60, o intelectual literário Boris Shneiderman, ele mesmo autor de um romance sobre o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Guerra em Surdina (1964), reclamou da ausência de mais ficção sobre o assunto. Nem toda ficção militar é romance de guerra, porém. Parte dela é drama de academia, ou, no caso deste romance curto do Coronel Moacyr Barcellos Potyguara, retrato da vida de soldados em postos militares afastados. Os pelotões especiais de fronteira combinam base de patrulha de fronteira e aglutinador de populações nas áreas da Amazônia. Meu amigo da adolescência Carlos Palla comandou um desses, junto ao qual organizava a primeira linha de defesa e era sucedâneo de embaixador junto a militares dos países fronteiriços, atuando também como delegado de polícia e fiscal de crimes ambientais, além de ser, com a esposa Vanda, pilar da comunidade.

O tenente que comanda o PEF no livro de Potyguara tem atuação semelhante, mas em meados de 1966, na localidade de Curi-Curi, fronteira com a Colômbia. O médico do pelotão também é um homem dedicado e bem visto pelos locais. Tudo muda quando ele é chamado a um esforço para debelar uma epidemia na região, sendo substituído por um tenente dentista, de vocação oposta. Muitos médicos e dentistas fazem sua residência nas forças armadas, passam um tempo, qualificam-se e vão ganhar a vida no meio civil. Esse do livro mal pode esperar para montar seu consultório e fazer dinheiro. Não quer a responsabilidade de cuidar do povo local, e logo se revela corrupto. Bebe em serviço, cobra por vitaminas que seriam distribuídas gratuitamente, e abusa sexualmente de uma ex-prostituta que contratou como cozinheira. Tudo isso depois de o comandante do PEF ser transferido para fazer um curso, e o dentista assumir o comando do lugar. O caso dessa moça é um dos centros emocionais do livro, assim como a quase facilitação, por parte do dentista, de tráfico de indígenas brasileiros para a Colômbia, onde seriam vítimas de trabalho escravo. A população local se une para proteger a moça, e os sargentos para deter o mascate fluvial que levava os índios. Não há muitos finais felizes, porém. A vida é dura na fronteira. A vida é dura na selva amazônica. O dentista foi punido, mas certamente não como merecia. O livro tem personagens muito interessantes, mas trabalhados sem grandes aprofundamentos, e a técnica narrativa é crua. Compensa apenas pela veracidade que a experiência do autor comunica, inclusive pelos seus comentários simpáticos mas politicamente incorretos. Tenho tratado de livros de não-ficção da Biblioteca do Exército Editora. Geralmente são bem editados, mas este aqui é do começo do século e carece de uma revisão verdadeira. O romance curto de Potyguara encerra, como nas telenovelas, com um casamento triplo.

Interessante reconhecer que o militar é um dos poucos tipos sobreviventes do período glorioso da aventura como um grande campo literário popular, indo de meados do século 19 a meados do século 20, com o caubói, o explorador, o pirata, o grande caçador branco e outros tipos indo se despetalando pelo caminho. Na mesma chave, Pelotão de Fronteira é menos romance de aventura do que de observação social, de costumes. Quanto ao casamento triplo, ele é observado por um novo tenente, que diz a si mesmo:

“É… isso é que faz a grandeza deste país. Um crioulo, baiano, casa com uma cabocla, um caboclo com uma índia e um branco com uma cabocla. Todos ficarão aqui e terão filhos. Assim vai-se construindo uma pátria…” —Moacyr Barcellos Potyguara. Pelotão de Fronteira.

É uma observação bonita em si mesma, e o conteúdo do romance consegue reforçá-la tanto com emoção quanto com elementos de crítica social. Mas ela incorpora aquele argumento conservador brasileiro, muito repetido pelos militares, da formação racial tripla e harmoniosa do nosso povo. Um argumento que desautoriza a reivindicação de grupos étnicos e sociais atingidos pelo arbítrio dos poderosos. Nem por isso a experiência de leitura de Pelotão de Fronteira deixa de marcar uma interpretação diferente da sina dos seus personagens: a de pessoas de recursos espirituais limitados, que enfrentam, por meio da solidariedade e do afeto, as dificuldades da vida e o abuso imposto sobre elas.

 

The Nine Dragons, de Justin Scott. Nova York: Bantam Books, 1992 [1991], 456 páginas. Paperback. Confesso que sinto falta de um certo internacionalidade na minha vida, que na década de 1990 e no começo do século era suprida pela CNN, pela BBC e pelo C-Span. Mas a nossa operadora de cabo decidiu, sem nos consultar, que não merecíamos esses canais em nosso pacote básico, oferecendo, no lugar, a mal-afamada FoxNews… Justin Scott me trouxe de volta um pouco desse sentimento de internacionalismo neste Interessante thriller ambientado em Hong Kong no momento da entrega da cidade à República Popular da China, em 1997. Envolve crime, comércio internacional e especulação imobiliária, com uma antecipação tensa do tipo de distúrbios civis que 2019 acabou trazendo à cidade.

Scott trata de uma família de escoceses que possui empreendimentos comerciais de mais de um século em Hong Kong. As possíveis mudanças adversas que a entrega da cidade à China trariam levam o patriarca da família, Duncan Mackintosh, a fazer um acordo secreto com um militar aspirante ao controle do Partido Comunista chinês. Passando por uma crise de meia-idade e tendo assumido uma amante chinesa bem mais jovem do que ele e funcionária do conglomerado, Mackintosh acaba entrando na mira do vilânico empresário local e gangster Two-Way Wong. Wong tem planos para lançar a cidade em convulsão e obter apoio da Main China para se tornar o governador de Hong Kong (como a atual governadora Carrie Lam?). A protagonista do romance é, na verdade, a ambiciosa filha de Duncan, Vicky, mas quando ele é eliminado em um falso acidente de escuna e desaparece do enredo, The Nine Dragons perde um centro emocional insuspeito, e vai minguando até o seu pálido fim, apesar de toda a agitação em torno dos distúrbios civis e das manobras derradeiras do vilão. O que imagino que salvaria o romance seria uma aliança entre a explosiva Vicky e a serena amante do seu pai, Vivian Loh, para salvar a empresa e resistir às investidas de Wong, com toda a tensão que viria dessa associação entre duas mulheres fortes e ambiciosas divididas pelas suas versões do amor pelo mesmo homem. Mas Scott preferiu investir na vida sexual/amorosa de Vicky com dois rapazes chineses, alternadamente, e que não acrescentam muita coisa.

 

Arte de capa de Júlio Vanzeler.

Laura e Lucas Descobrem Michelangelo, de Isabel Zambujal. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha Pintores para Crianças 5, 2019, 26 páginas. Arte de capa e ilustrações internas de Júlio Vanzeler. Capa dura. As anotações sobre a leitura deste livro para crianças vêm acompanhadas de uma anedota sobre situações editoriais: há uns dois anos, revisei para um estúdio de São Paulo cinco livros de uma série dirigida ao público infantil, em que um garoto viaja no tempo e convive com grandes pintores do passado. Texto e arte eram do mesmo autor (cujo nome não vou revelar). Tinham grande qualidade, especialmente as ilustrações pintadas, algumas reproduzindo as obras originais dos pintores e escultores clássicos. O autor nos contou que havia procurado a editora da Folha de S. Paulo para oferecer o projeto, mas foi dito a ele que precisavam de mais de 12 livros para compor uma coleção. Como ele fazia tudo sozinho (pesquisa, texto e arte), ficaria inviável. O tempo passou e obviamente os seus livros não saíram pela Folha, e também não saíram com o trabalho feito pelo estúdio junto ao qual trabalhei.

Surge então esta coleção vista nas bancas de todo o Brasil, aparentemente realizada por um estúdio português. Ela pode ou não ter sido inspirada pelo projeto do qual escrevi acima. O livro é simpático, mas a arte é mais esquemática, incluindo até fotografias compondo com o desenho, e o tratamento da situação da viagem no tempo é ligeiro, assim como a didática. De qualquer modo, a coleção cumpre o papel de educar nossas crianças  quanto ao mundo da pintura clássica.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Mathieu Lauffrey.

Star Wars O Último Comando: Trilogia Thrawn Livro Três (Star Wars The Last Command: Thrawn Trilogy ), de Mike Baron (texto) e Edvin Biukovic (arte). Barueri-SP: Panini Books, 2018, 148 páginas. Arte de capa de Mathieu Lauffray. Capa dura. Edvin Biukovic assumiu o desenho do terceiro e final livro da adaptação da trilogia de Timothy Zan para os quadrinhos, trazendo de volta um ar de HQ européia com o seu traço fluido e de linhas quase sempre completas delimitando as formas. Há competência na quadrinização sem extravagâncias, desenvolvida conforme o roteiro de Baron narra o confronto final entre os heróis da primeira trilogia de Star Wars (1977 a 1983) e o astuto Almirante Thrawn e o seu aliado incerto, o jedi louco C’Baoth. Os bebês gêmeos de Leia e Han Solo aparecem pela primeira vez, enquanto Mara Jade, a ex-aliada do Imperador Palpatine, passa a se aproximar cada vez mais do seu futuro marido, Luke Skywalker.

Uma galeria de coadjuvantes customizados por Timothy Zahn contribuem para enriquecer e intensificar a trama. Entre eles estão o contrabandista Talon Karrde e o traficante de armas Niles Ferrier acompanhado do seu trunfo: um alienígena que consegue ficar invisível. O enredo inclui Leia desmascarando um espião no seio da Aliança, e Luke, Mara, Han, Chewbacca e Lando Calrissian encarando, como a irmandade do Senhor dos Anéis, uma paisagem florestal e seus nativos, para alcançarem uma instalação ocupada por C’Baoth e reservada para o clímax da trilogia. Esse clímax, em que Luke duela com um clone de si mesmo diante dos olhos arregalados do jedi louco, parece ser um pouco da “redundância Skywalker” que aflige a franquia, mas gostei do truque e a sequência é excelente. Vale mencionar que a cor no livro começa esmaecida, aguada, e vai perdendo essa qualidade — provavelmente por razões de prazos. Mantém-se harmonizada com o desenho, embora perdendo um pouco do seu charme europeu e antigo. Depois de ler os quadrinhos e sentir a solidez e o interesse da criação de Zahn, estou disposto agora a ler os romances, publicados aqui há alguns anos pela Editora Aleph. Como de hábito neste tipo de livro, há reproduções de capas da primeira edição do seu conteúdo, como minissérie em revistas distribuídas em bancas e lojas especializadas. Feitas por Mathieu Lauffrey, estão entre as artes de Star Wars mais expressivas encontradas por aí, embora muitas vezes incorretas em termos de fisionomias e proporções anatômicas.

 

Arte de capa de Shane Davis.

Superman: Terra Um Volume Dois (Superman: Terra One Volume 2), de J. Michael Straczynksi (texto) & Shane Davis (arte) e Sandra Hope (arte-final). Barueri-SP: Panini Books, 2014, 132 páginas. Arte de capa de Shane Davis. Capa dura. Este volume eu encontrei em promoção na loja Geek.etc.br, no Conjunto Nacional, em São Paulo. Foi só abrir, e me fisgou. Nesta aventura, Clark Kent enfrenta as situações da redação do Planeta Diário, que incluem Lois Lane investigando o seu passado. Por sua vez, sua identidade como Super-Homem se envolve com a questão do poder absoluto e poder limitado — muito viva ainda nos nossos tempos turbulentos. Ao socorrer a população do país fictício Borada de um tsunami, o herói se depara com um cruel dilema: o ditador do país o proíbe de atuar, já que o maremoto atingiu a parte do país que apoia rebeldes que querem derrubá-lo. Para coagir o Superman, o ditador afirma que vai amputar o braço de uma pessoa, a cada minuto que ele permanecer no país. Mais tarde, o herói retorna a Borada para dar acesso a armas, por parte dos revolucionários, colocando o ditador contra a parede. Já vimos aqui que, na origem, o Super-Homem era um guerreiro da justiça social, durão e implacável contra quem cruzava a sua linha do certo e do errado. Em situação semelhante, jogou um torturador dezenas de metros no ar e obrigou os líderes de dois exércitos em guerra a lutarem entre si, em combate singular, até desistirem do conflito. Aqui, ele dá aos revolucionários acesso a armas, colocando o ditador contra a parede. Com essa ironia feroz, Straczynski recupera um traço do personagem, segundo Joe Shuster & Jerry Siegel o conceberam.

Mas o centro da aventura é outro: nos EUA, um serial killer, ao tentar apagar seus rastros, acaba se enfiando nos laboratórios Star, onde recebe uma carga de neutrinos que o transforma no supervilão Parasita (aparentemente, um vampiro energético primeiro apresentado em um desenho animado). A sede de poder do Parasita, voltada para a realização de sua predisposição para a tortura e o assassinato, encontra no Superman uma fonte, é claro, supra-humana. Enquanto isso, Clark arruma outro apartamento e, com ele, uma vizinha bonitona, que só não falta se jogar sobre ele porque ela efetivamente se joga sobre ele. O dilema aí é que danos ele, sendo um super-homem e supermacho, pode causar na garota se ele perder o autocontrole. Clark ainda busca encontrar os limites do seu papel como Superman. Certamente, ameaças como a o Parasita tornam clara a necessidade de ele se assumir como super-herói. O volume fecha, porém, com a reflexão de que o super-herói não consegue salvar todo mundo — neste caso, um jovem músico viciado em drogas, cuja amizade Clark passou a apreciar.

—Roberto Causo

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