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Leituras de Outubro de 2019

O planeta Marte é um dos focos das minhas leituras de outubro de 2019, que também incluíram ficção científica experimental brasileira e um raro thriller nacional. Faltou a leitura de história em quadrinhos, neste mês…

 

Arte de capa de Tony Greco & Associates.

Perish Twice, de Robert B. Parker. Nova York: Berkley Books, 2001 [2000], 334 páginas. Arte de capa de Tony Greco. Paperback. A história por trás da série Sunny Randall de romances de ficção de crime é a de que, depois de ter ganho o Oscar de melhor atriz por Melhor É Impossível (As Good as It Gets; 1997), Helen Hunt quis que o escritor de ficção de detetive Robert B. Parker criasse uma heroína que ela pudesse interpretar no cinema. O filme e a possível franquia baseada na personagem não aconteceram, mas Parker, o criador do detetive Spenser (cuja série de TV passou por aqui na década de 1990), foi em frente e escreveu uma série de seis romances com a jovem detetive particular. Mais tarde, a moça foi integrada ao contexto da segunda série de Parker, Jesse Stone — esta sim, resultante em uma sequência de oito ótimos telefilmes estrelados por Tom Selleck.

O primeiro livro da série Sunny Randall foi Family Honor (1999). Este Perish Twice (título extraído de um verso de Robert Frost) é o segundo. Nele, a heroína é apresentada como uma jovem de trinta e poucos anos, com um tempo de serviço no departamento de polícia de Boston, agora dedicada a investigações particulares e à faculdade de artes plásticas. Essas características lembram muito Spenser, um ex-investigador da promotoria da mesma cidade e que virou detetive particular; embora seja um ex-soldado e ex-pugilista profissional, Spenser é uma alma sensível que cita poesia e o teatro de Shakespeare. Os dois, Spenser e Sunny, têm cachorros e parceiros amorosos problemáticos e com quem não dividem o mesmo teto. Nas duas séries, Parker faz uma forte defesa da psicanálise.

Perish Twice começa com Sunny sendo contratada para proteger uma “feminista profissional” (tem uma firma de consultoria de questões de gênero) que vem sendo seguida por um intimidador. Logo, porém, uma de suas funcionárias aparece morta no trabalho, e o homem que perseguia a patroa aparece morto na sequência, acompanhado de uma mensagem de suicídio. Sunny não se convence de que a mulher foi morta por engano, por se parecer com a outra (toda feminista lésbica é igual?); nem que o sujeito teria se suicidado. A sua investigação particular (no sentido de ser ela mesma tentando chegar ao fundo da questão) a leva a uma proximidade perigosa com o submundo do crime, e o romance até o assunto da prostituição — algo que Parker já havia feito com Taming a Sea-Horse (1982) e outros livros de Spenser. O seu sidekick é outra figura de interesse: Spike, um homem gay que não leva desaforo pra casa e se defende bem com as mãos. A nova heroína tem algo de uma fragilidade bem-vinda, que com Spenser vinha a muito custo. Vinha, infelizmente, com algum desequilíbrio, improdutivo, da consistência moral do personagem. Algo semelhante se dá com Sunny em Perish Twice.

 

Arte de capa de Teo Adorno.

Amália atrás de Amália, de Marco Aqueiva. São Paulo: Patuá Editora, Coleção Futuro Infinito, 2019, 88 páginas. Texto de orelha de Ramiro Giroldo. Arte de capa de Teo Adorno. Brochura. A coleção Futuro Infinito, coordenada por Luiz Bras, lança com esta novela de Marco Aqueiva o seu quarto título em 2019, o ano da estreia da coleção — uma das mais interessantes em evolução no momento. Antes vieram títulos de Braulio Tavares, Fábio Fernandes e Claudia Dugim. Esta é basicamente a primeira investida na ficção científica por Aqueiva, autor de Sob os Próprios Pelos: Seres Extraordinários (novela, 2014), Germes entre Dias Brancos (poesia, 2016) e 1917-2017: O Século sem Fim (contos, 2017) — todos pela Patuá, de São Paulo.

Na orelha do livro, o pesquisador Ramiro Giroldo, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, define esta novela como uma distopia; i.e., ambientada em um futuro opressivo. A narrativa sem enredo, na qual a personagem título busca a sua filha desaparecida, é fragmentada e evoca temas da ficção científica tão variados quanto realidade sintética e jogos de identidade, tecnologia indutora de sonhos, alienígenas ocultos entre nós, sexualidade estranha e duplicação de seres humanos. Os temas se alternam nos capítulos curtos, assim como a pessoa narrativa, e são empregados com a liberdade característica de um William S. Burroughs. Amália atrás de Amália é um texto pós-modernista ousado, que confirma a prosa experimental como a tendência dominante da Coleção Futuro Infinito, seguindo a personalidade do seu coordenador. O próximo lançamento deverá ser a coletânea dupla de histórias do experimentalista Ivan Carlos Regina, O Fruto Maduro da Civilização/O Éter Inconsútil.

 

Arte de capa de Angelo Allevato Bottino.

Missão Pré-Sal 2025, de Vivianne Geber. Rio de Janeiro: Editora Record, 2015, 252 páginas. Arte de capa de Angelo Allevato Bottino. Brochura. Thriller internacional e ficção militar escritos por mulher é coisa rara, senão inédita, no Brasil. Mas aqui está Vivianne Geber, que faz parte do quadro auxiliar da Marinha do Brasil, na área jurídica, com seu romance de estreia — um thriller internacional e ficção militar. Como cabe à literatura de gênero (que é mais do que FC, fantasia e horror, diga-se de passagem), o livro mede o pulso da época em que foi escrito. Trata da questão da defesa dos campos do pré-sal, problemática muito discutida nos anos Lula-Dilma, e da corrupção (idem). Mas nas duas questões, há um ângulo diferenciado.

O Capitão de Corveta Rodolfo Ruppel está em Londres com a esposa Carla, para a apresentação de sistemas de guerra submarina de uma empresa multinacional do setor. Ele tem a esperança de que seu casamento balançado se beneficie com a viagem. Mas Ruppel é um agente secreto da Marinha, e deve manter sigilo da sua verdadeira missão. Ele se encontra com um contato em Londres, que lhe explica qual é a missão: recuperar dados de um projeto secreto da MB de construir um submarino híbrido diesel/nuclear, tecnologia revolucionária que projetaria a força num plano estratégico, de modo a proteger pela dissuasão as reservas de pré-sal do Brasil. O projeto teria sua conclusão em 2025, daí o título. Tudo isso está dentro das discussões da época em que o romance foi escrito, e é assunto do livro de não-ficção As Garras do Cisne: O Ambicioso Plano da Marinha Brasileira de se Transformar na Nona Frota mais Poderosa do Mundo (2014), de Roberto Lopes. O contato de Ruppel em Londres é uma mulher: Victoria Borges, ex-oficial engenheira da Marinha, agora trabalhando em uma empresa de defesa na Alemanha, e casada com um estudante de pós-graduação com bipolaridade. Aos poucos, os dois agentes secretos vão sendo isolados pelos seus respectivos superiores e controladores, precisando aprender a confiar um no outro, enquanto a intriga se retorce sobre ele, com traições, ameaça de homens armados e famílias intimidadas. A atração entre os dois é palpável. É interessante que, por exemplo nos romances de Tom Clancy, às vezes parece que todos os personagens de caráter são ou foram militares, o que é uma proposição problemática. No livro de Geber, todo militar é casado, e a autora sempre discute algo da situação de cada casamento — o que fornece uma perspectiva talvez mais feminina e certamente refrescante nesse gênero. Geber conduz a narrativa com firmeza, marcada por toques leves, atenção ao detalhe específico e frases curtas e objetivas. Ela claramente conhece o assunto. Em termos de técnica de escrita, às vezes é um pouco difícil diferenciar quem diz o quê. Também em termos de técnica narrativa, a autora retém muita informação para gerar suspense, e o romance ganha força justamente quando ela começa a fornecer mais informação sobre o que se passa de fato e o que está em jogo. Também acredito que mais textura nas descrições tornaria o romance mais encorpado e a sua leitura ainda mais estimulante. Do jeito que está, as frases curtas e a ligeireza da narrativa dão algo de juvenil ao livro.

As Forças Armadas gozam da simpatia de grande parte da população brasileira, em parte, eu imagino, por terem uma certa opacidade em relação à política e ao empresariado corruptos. Geber tem a coragem de nos lembrar que existe corrupção também nas Forças Armadas. No fim, esse é o assunto do romance, que reserva outras reviravoltas genuinamente surpreendentes. É como se Geber não acreditasse muito no ambicioso projeto da Marinha do pré-sal, estando dentro da força e conhecendo os empecilhos orçamentários e políticos muito concretos que o plano enfrentava. Missão Pré-Sal 2025 é o primeiro de uma série, que deve ser prosseguida com o ainda inédito Missão Terra Firme, também com Rodolfo Ruppel. O site da autora informa que há um e-book estrelado por Victoria Borges, em uma narrativa mais curta. Virei fã de Vivianne Geber, e com certeza pretendo ler o novo romance.

 

Mars, de Stuart Murray. Nova York: DK Publishing, Eyewitness, 2004, 72 páginas. Hardcover. Eu havia adquirido este livro da série Eyewitness há muitos anos, porque ele, ao tratar do planeta Marte em seus aspectos astronômicos e astronáuticos e também culturais, reproduz duas ilustrações do brasileiro Henrique Alvim-Corrêa para a sua edição ilustrada de 1906 de A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Reproduz, mas o editor Edward S. Barnard não o credita, assim como não credita várias outras ilustrações que aparecem no livro.

Quando eu soube que o Somnium, o clubzine do Clube de Leitores de Ficção Científica, preparava uma edição com o tema da colonização de Marte e de inteligência artificial, peguei-o para me inspirar na composição de uma história das Lições do Matador, Ciclo Serviço Colonial, ambientada no Planeta Vermelho. O livro é um guia visual, com texto frugal mas cheio de informações, totalmente ilustrado. Começa com Marte na mitologia e na observação das primeiras civilizações, e vai até as explorações via sensoriamento remoto por satélite e in loco por sondas veículos telecomandados de superfície, sem se esquecer de mencionar não só as hipóteses erradas da astronomia do passado quanto às condições do planeta, mas também das inúmeras missões espaciais fracassadas. Especialmente interessante são as seções que falam das tempestades globais de areia, da formação de crateras de impacto, e os principais acidentes geográficos do planeta. A conexão do planeta Marte com a minha série As Lições do Matador está no fato de o seu protagonista, o Capitão Jonas Peregrino, ter estudado na “Academia Militar de Olympus Mons”, referência ao mais alto vulcão do Sistema Solar, situado em Marte.

 

Arte de capa de Pamela Lee.

Mars, de Ben Bova. Nova York: Bantam Books, 1992, 502 páginas. Arte de capa de Pamela Lee. Hardcover. O planeta Marte foi o foco de um ciclo de romances que cobriu boa parte da década de 1990 e conquistou alguns dos principais prêmios da FC em língua inglesa. Além deste romance de Ben Bova, o ciclo incluiu a Trilogia Marte, de Kim Stanley Robinson (que, se a memória não falha, a editora brasileira Meia Sete aventou publicar por aqui), Moving Mars (1993), de Greg Bear, Red Planet Run (1995), de Dana Stabenow, e The Martian Race (1999), de Gregory Benford. Muitos desses livros imaginam como seria a primeira missão espacial ao planeta vermelho, seguindo a fala de George Bush (pai) aventando essa empreitada pelos Estados Unidos, embalados também pela fortuna em dados levantados pelas sondas científicas enviadas a planeta vizinho. Bova foi editor da revista Analog e da famosa Omni. Sua área é justamente a FC hard e espacial.

O Mars de Bova é interessante para o leitor do Brasil porque toda a agitação para a missão espacial teria sido feita, no futuro próximo, por uma figura brasileira chamada Brumado. O que se tem aí não é apenas um brasileiro influente e interessado em ciência, mas essa figura tão ausente da nossa FC e das nossas discussões políticas e culturais: um brasileiro visionário. A filha de Brumado, a tímida bióloga Joanna, vai na missão marciana. O protagonista do livro, porém, é o geólogo nativo-americano (navajo) Jamie Waterman. Ele é competente e motivado, mas vive em uma espécie de limbo político que o torna pouco utilizável pelas potências que montam a expedição a Marte. Aí também, o romance é interessante para o nosso momento de consciência da representatividade de minorias e nos recorda que a FC busca, em diversos graus, essa perspectiva já há algum tempo. Waterman é inicialmente preterido, ainda na fase das triagens e treinamentos na Antártida (o continente mais próximo das condições ambientais de Marte), mas acaba entrando na tripulação final porque um outro geólogo, europeu, acabou sendo rejeitado pelos colegas por questões de assédio (mais uma questão de gênero sexual e representatividade) e de personalidade. Uma situação política se forma quando, ao pisar no Planeta Vermelho pela primeira vez, Waterman ignora a fala aprovada pelo controle da missão e exclama algo obscuro em navajo, despertando a ira da vice-presidente americana (lá, tradicionalmente é o vice que lida com o programa espacial). Desse modo, Bova vai costurando as questões científicas, interpessoais, midiáticas e políticas envolvidas em uma possível missão a Marte, e recorrendo constantemente a flashbacks. É tudo feito com competência e tendo por base projetos aventados, estudados e até financiados em alguma metida, em estágios de teste e de pesquisa. Robert Zubrin, cabeça da The Mars Society, um importante instituto e grupo de lobby pela exploração de Marte, aparece como figurante no romance. Com esse formato, o leitor demora um pouco a entrar na narrativa, também porque Waterman demora a ganhar contornos concretos. Ele parece muito passivo — até que chega a Marte e começa a definir as suas próprias prioridades de pesquisa científica. Nessa altura, a narrativa abandona os flashbacks e assume os contornos de uma problem story, com os astronautas em campo ameaçados por uma doença misteriosa que acaba se revelando como tendo uma origem (e solução) muito simples. A competente arte de capa de Pamela Lee ilustra um das principais questões e um dos momentos cruciais do romance — o empenho para decifrar um mistério vislumbrado por Waterman, no maior cânion marciano.

Com o que Bova acena, para contrabalançar as questões científicas, interpessoais, midiáticas e políticas que pesam na missão a Marte? Com um pouco de aventura, certamente, mas, principalmente, com os mistérios científicos do planeta — em especial, a presença de vida em Marte. O que torna o ambicioso romance de Ben Bova realmente memorável, contudo, é um toque da espiritualidade indígena que Waterman conservou, e que foi capaz de projetar sobre o desértico Marte.

—Roberto Causo

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Chernobyl

Roberto Causo discute a minissérie da HBO Chernobyl, grande ganhadora do Emmy 2019

 

CHERNOBYL

 

 

Eu tinha 20 anos, quando aconteceu o desastre nuclear de Chernobyl, uma palavra que entrou para a história do mundo. Me lembro do quanto ele foi discutido na imprensa, e de que até no Brasil houve repercussões, como o bloqueio da importação de leite em pó de países escandinavos, e a venda recomentada de iodo nas farmácias. Uma ninhada de gatos que foi parar lá em casa um ou dois anos depois foi batizada de “filhotes de Chernoby“, todos frágeis e estranhos, tendo sobrevivido apenas o Pirata, que nasceu sem o olho direito mas cresceu como um bicho extremamente determinado e agressivo, a ponto de espalhar os seus genes lesados por algumas gerações de gatinhos.

O assunto “desastre nuclear” já havia surgido no meu horizonte de interesses porque eu era fã de ficção científica há algum tempo em 1986, quando explodiu o gerador de Chernobyl, e o filme Síndrome da China (The China Syndrome) — ele mesmo inspirado em um acidente anterior na usina de Three Mile Island, nos Estados Unidos — havia chamado a atenção dos fãs de FC. Dirigido por James Bridge, o filme é de 1979. Mais tarde eu me corresponderia com o escritor americano de ficção científica Gene Stewart, cujo pai, segundo ele, teria morrido em consequência dos efeitos da radiação que escapou da usina americana.

Em Síndrome da China, uma dupla de jornalistas (Jane Fonda e Michael Douglas) investiga um incidente ocorrido na usina nuclear que eles visitavam, e com a ajuda de um funcionário da empresa que administrava a usina (Jack Lemmon), escancara o acobertamento do incidente. Em parte, portanto, a corrupção é o tema do filme.

Logo depois do desastre nuclear soviético, o escritor americano de ficção científica Frederik Pohl publicou o seu romance mainstream Chernobyl, em 1987, dramatizando os trágicos eventos.

Lembro que o Brasil possui usinas nucleares: Angra 1, 2 e 3 (esta, ainda em instalação). O país produz o complicado lixo nuclear, sempre difícil de dispor e acondicionar. Obviamente, considerando que desastres nucleares já aconteceram nos EUA, Ucrânia e Japão (Fukushima, em 2011), a presença dessas usinas inspira preocupação.

De fato, nós também já tivemos o nosso desastre nuclear — o do Acidente Radiológico de Goiânia em 1987, em que uma cápsula de césio-137 foi rompida a marretadas e o conteúdo brilhante usado como brinquedo por crianças e adultos. O nosso desastre é, desse modo, apropriadamente tupinipunk, quer dizer, redutor do glamour da alta tecnologia e expressão da ignorância do povão e da irresponsabilidade empresarial e governamental. Não é à toa que apareceu como datação do “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira” do colega Ivan Carlos Regina, primeiro publicado no fanzine Somnium, em 1988.

É bem possível que um outro acidente tenha ocorrido ainda antes desse, pois eu soube por uma fonte próxima, que, quando ela era estudante de medicina, um dos seus professores, ele mesmo um dos nossos poucos especialistas nos efeitos da radiação no organismo humano, teria confidenciado que tratara um técnico atingido por vazamento em Angra.

Levei algum tempo para entender que as preocupações ambientais da minha juventude haviam evoluído para me tornar um socialista verde não-marxista. A “parte verde” faz de mim um opositor ao uso da energia nuclear, algo que tem sido a plataforma do Partido Verde mundo afora. No Brasil, o jornalista, ex-guerrilheiro e político fundador do Partido Verde no país, Alfredo Sirkis, satirizou o fetiche de potência sexual em torno da energia nuclear no seu romance tupinipunk Silicone XXI (1985).

Arte de capa de Benson Chin.

Eu mesmo, em minha noveleta tupinipunk “Vale-Tudo” (2010), tratei de uma sabotagem da Central Nuclear de Angra levando a uma crise ecológica e ao caos social no Sudeste Brasileiro, dando espaço para manobras políticas especialmente cruéis. Não é preciso, porém, apelar para uma  sabotagem de Angra para se apontar o quanto a energia nuclear é uma ideia ruim. Basta lembrar que este é um país que contingencia recursos da saúde, da educação, da defesa e da infraestrutura sempre que é conveniente. Onde estão as garantias de que os recursos para a manutenção das usinas e para a evacuação em caso de acidente não serão contingenciados? Além disso, lembrando do tema da corrupção em Síndrome da China, também aponto que a Eletrobras Eletronuclear já foi vítima da corrupção corriqueira entre agentes públicos e empreiteiras e fornecedores (como a Lava Jato explicitou). E ninguém se preocupou em garantir à opinião pública que a corrupção na empresa “criada em 1997 com a finalidade de operar e construir usinas termonucleares no Brasil” não afetou a segurança da operação das usinas existentes, nem se avaliou que riscos a corrupção pode ter trazido à sua manutenção.

 

 

A minissérie Chernobyl, criada por Craig Mazin e exibida pela HBO foi um gol de placa. Trouxe a polêmica de volta em uma produção com elementos estéticos de documentário e filme independente, com uma sólida atmosfera de horror que também parece  crua e naturalista. A produção foi elogiada pela crítica e há pouco, conquistou 10 Prêmios Emmy, inclusive o de Melhor Minissérie.

O primeiro episódio abre com um cientista russo cometendo suicídio no aniversário do desastre. A minissérie então mergulha num longo flashback que explica como esse cientista, Valery Legasov — interpretado pelo brilhante ator inglês Jared Harris —, foi parar no controle de danos do desastre de Chernobyl. Ao abrir a boca com alarme, durante uma reunião com o dirigente máximo da União Soviética de então, Mikhail Gorbachev (David Dencik), ele é selecionado para ir até a Ucrânia e avaliar in loco o tamanho da merda. A ordem improvisada dada por Gorbachev equivale a uma pena de morte. Depois de grudar no burocrata Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård, em outra atuação primorosa), durante uma discussão, Legasov diz que ele próprio e Shcherbina estarão mortos em cinco anos. A grande questão naquele ponto era evacuar ou não a cidade ucraniana de Pripyat. A hesitação teria sido motivada pela intenção de evitar o pânico e a propaganda negativa que cairia sobre a União Soviética.

Várias falas, proferidas com espantosa ausência de cerimônia, proclamam a necessidade de manter a imagem do poderio tecnológico soviético, e o papel inerte da população. Para além da necessidade de promover a aura utópica da URSS, a produção investe no clima de paranoia estabelecido pelo regime. A todo instante, os envolvidos pesam suas falas perante a possibilidade de prisão e até mesmo de execução pelas autoridades acima deles na cadeia alimentar. O serviço secreto soviético, a KGB, é mencionada, e, já perto do final, Legasov é conduzido a uma entrevista com o chefe da KGB — em uma sala com paredes cobertas de ladrilhos e um ralo no centro, para, presumivelmente, escoar o sangue dos torturados.

Salta aos olhos, em primeiro lugar, as atuações mínimas e secas, extremamente competentes dos principais atores. E em segundo lugar, o tratamento naturalista da cinematografia e do estilo de direção. Em uma era dominada pelas supercâmeras digitais HD e por efeitos especiais gerados por computador que dão a tudo aquela pátina própria da estética dos videogames, é bom saber que o naturalismo ainda tem lugar, demonstrando a sua força expressiva. Em Chernobyl, essa qualidade sublinha a angústia das situações e ampara a cuidadosa reconstituição de época, meio ambiente e arquitetura da época. A série foi filmada majoritariamente na Lituânia, o que valorizou, com certeza, o tom documental da série, muito amparado pelo naturalismo.

Desse modo, o espectador observa primeiro o drama do combate ao incêndio que se seguiu à explosão do reator nuclear RBMK durante um teste. Mais tarde, à evacuação dos moradores da zona de exclusão estabelecida depois que a liderança soviética aceitou as dimensões do desastre. É especialmente interessante que um dos episódios mais escruciantes tenha sido aquele que acompanha uma pequena equipe de reservistas designados para exterminar animais domésticos deixados para trás com a evacuação. Mais uma vez, o naturalismo não apenas evita qualquer pieguismo de uma situação que o senso comum sugeriria ser tão menor do que o drama da perda do lar e do modo de vida dos cidadãos do lugar, como torna o episódio um dos pontos fulcrais da agressão nuclear à natureza e à vida. O ator irlandês Barry Keoghan — destacado antes por sua atuação no filme de guerra de Christopher Nolan, Dunkirk (2016) —, está ótimo em sua interpretação contida do jovem reservista Pavel, equilibrado pela performance mais expansiva do libanês Fares Fares, fazendo o veterano Bacho.

Quando a narrativa desemboca em um drama de tribunal, acompanhamos uma reconstituição factual e científica — outro fato espantoso, considerando o quanto as explicações científicas são evitadas pelo audiovisual mundo afora, mesmo em produções de ficção científica. Nesse ponto, com a reprodução das situações na sala de controle da usina, a dinâmica entre os técnicos se destaca tremendamente. Aí a série perdeu uma grande oportunidade de apresentar ao espectador mais dessa dinâmica, também científica em sua natureza. É claro, ela não poderia repetir as mesmas situações, mas ficamos sabendo que a personagem de Emily Watson, Ulana Khomyuk, é na verdade composição de vários cientistas que acompanharam o controle de danos da usina. Haveria aí espaço para mais dessa dinâmica instigante. A opção dos produtores deve ter buscado diminuir custos e tempo de exibição. Afinal, Chernoby foi exibido semanalmente entre os dias 6 de maio e 3 de junho de 2019, totalizando apenas cinco episódios.

Quanto ao drama de tribunal, ele atribui culpas e papéis individuais no desastre. O supervisor Anatoly Dyatlov (Paul Ritter) conduziu o teste forçando a barra para além dos limites de segurança e contra os alertas dos técnicos. Ele queria realizar o teste sem interromper o fornecimento de energia para indústrias locais, tendo em mente a promoção que receberia, se fosse bem sucedido. Mais tarde, segundo a minissérie nos conta, Dyatlov e seus superiores também subestimaram a quantidade de radiação que escapava do reator para a atmosfera. Burocratas manipulando dados para garantir objetivos pessoais e institucionais, sem muita consideração pelo povo ou pelo meio ambiente.

No seu depoimento final, durante o julgamento, o personagem Valery Legasov arrisca a vida para denunciar, perante as autoridades do regime, um fato simples: são as mentiras que levam ao desastre e às mortes. Além das maquinações dos burocratas, os problemas do reator RBMK já eram conhecidos previamente, mas os responsáveis pelo seu exame crítico temiam serem punidos pelo regime, e o abafaram. Certamente, o regime totalitário soviético era muito adepto da mentira. Afinal, aqueles ainda eram os tempos da guerra fria e sua intensa disputa ideológica entre comunismo e capitalismo. O desastre nuclear de Chernobyl e os custos empenhados no seu enfrentamento (cerca de 36 bilhões de dólares, na época), agregados aos custos da Guerra do Afeganistão (1979-1989), ajudaram a acelerar o fim da União Soviética em 1991.

 

 

A mentira como recurso de estado é uma constante e provavelmente nunca irá desaparecer. Nem por isso certas mentiras deixam de ser contraproducentes e lesivas em uma escala que determina a necessidade de serem combatidas, dentro e fora dos governos. Para além, portanto, do caráter histórico da minissérie Chernobyl, para quais questões contemporâneas podemos direcionar a sua mensagem contra a mentira sistemática das burocracias e dos governos, nesta nossa era da pós-verdade?

O desastre de Chernobyl foi uma catástrofe potencialmente global. A catástrofe global que já se apresenta em nosso momento é o aquecimento do planeta e o consequente agravamento do clima. O fenômeno tem sido negado por burocratas, cientistas e políticos. No Brasil, os meteorologistas mais ligados ao negacionismo do aquecimento global são os professores Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício — um a serviço de interesses escusos do agronegócio, tendo aparecido várias vezes na BandNews afirmando saber mais que o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas; o outro, a serviço de uma visão desenvolvimentista apressada e irresponsável, afirmando não apenas saber mais, mas também que as conclusões do painel seriam um complô dos países desenvolvidos contra aqueles em desenvolvimento, como o Brasil, para mantê-los subordinados um argumento levantado também por Molion. É claro, eles não mencionam que o próprio Brasil faz parte do painel, assim como dezenas de outros países subdesenvolvidos — nem como, até hoje (o painel foi criado em 1988), ainda não apareceu ninguém de dentro denunciando o tal complô.

Tais impertinências foram extremamente turbinadas pelo governo americano sob a presidência de Donald Trump, ganhando muita força entre a nova direita internacional — segundo matéria recente da revista The Economist, por exemplo. Essa é outra prova de que os resultados do IPCC não são uma conspiração dos ricos contra os pobres, já que os Estados Unidos, que têm a negação do aquecimento global praticamente como política oficial do Partido Republicano, estão na linha de frente do negacionismo.

Por aqui, as mentiras são do tipo “o Brasil é o país que mais protege as suas florestas” e “o problema do meio ambiente no Brasil não é o meio ambiente rural, é o meio ambiente urbano”. No desastre de Chernobyl, cientistas suecos foram os primeiros não-soviéticos a detectar a precipitação de partículas radioativas jogadas na atmosfera pela explosão do reator, e forçando as autoridades soviéticas a admitir o acidente. Aqui, o governo brasileiro, falando contra a ciência brasileira, negou os dados levantados por sensoriamento orbital, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais a respeito do aumento das queimadas na Amazônia.

São mentiras que vão pavimentar a destruição e as mortes que virão inevitavelmente com o agravamento do clima. Relatórios do IPCC avaliam que o mundo sofrerá prejuízos de 54 trilhões de dólares até 2040. Os gastos com o desastre de Chernobyl, muito menores em ordem de grandeza, ajudaram a levar a União Soviética à banca rota e à sua queda. Os gastos mundiais com o aquecimento global podem muito bem derrubar o capitalismo internacional e as democracias que se beneficiam dele. Todos, não importando a ideologia, têm interesse em enxergar a verdade e combater a mentira.

—Roberto Causo

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Shiroma no Somnium 112, do Clube de Leitores de Ficção Científica

“A Extração”, noveleta da série Shiroma, Matadora Ciborgue, foi publicada no Somnium N.º 112, especial de space opera, editado por Ricardo Miranda para o Clube de Leitores de Ficção Científica e lançado em dezembro de 2015.

 

Uma criação de R. C. Nascimento, o Somnium surgiu em dezembro de 1985, como o Boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica. Mais tarde, um concurso interno mudou seu nome para Somnium, de acordo com a sugestão vencedora, feita pelo escritor de FC José dos Santos Fernandes. Somnium é o título de uma proto ficção científica escrita pelo famoso astrônomo Johannes Kepler (1571-1630) e publicada postumamente em 1634. A nova edição do Somnium, editada por Ricardo Miranda, traz textos de Clinton Davisson (atual presidente do CLFC), Flávio Medeiros Jr., Ricardo França, Santiago Santos e Simone Saueressig.

Em “A Extração”, um experiente embaixador negocia com uma casta guerreira ciborgue o contato com um general que perpetrou de atrocidades internacionais no passado, quando, no meio das negociações, esse homem é assassinado. O embaixador não sabe, mas a aventura lhe reserva um misterioso encontro com Shiroma. A noveleta também está no primeiro livro da heroína do Universo GalAxis, Shiroma, Matadora Ciborgue (Devir Brasil; 2015).

 

Somnium 112

Somnium 112

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