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Leituras de Maio de 2019

Maio foi um mês marcado pela leitura de alguma ficção científica (também em não ficção de grande interesse), com destaque para Philip K. Dick, e muita fantasia (inclusive em quadrinhos nacionais e estrangeiros), com destaque para George R. R. Martin e álbuns do Príncipe Valente.

 

Sonhos Elétricos (Electric Dreams), de anônimo, ed. São Paulo: Editora Aleph, 2018, 236 páginas. Tradução de Daniel Lühmann. Brochura. Alguém pegou dez contos de Philip K. Dick que foram adaptados para uma série de TV por streaming e colocou em um livro. Esse alguém não foi Philip K. Dick (morto em 1982) nem qualquer um dos seus simulacros conhecidos. A série em questão, do tipo antologia, chamou-se Electric Dreams e foi criada pela Sony Pictures Television, indo ao ar em 2018. O relacionamento com a série é sublinhado no livro pelas apresentações dos contos, escritas por quem realizou a adaptação de cada história para o meio audiovisual — um formato bastante incomum. Muitos desses comentários são inteligentes e cheios de insight interessantes. É claro, o projeto em si reforça o relacionamento do escritor com esse meio. Hoje, Dick é um dos escritores de FC mais adaptados.

A seleção de contos é boa, e contém títulos muito antologizados como “A Coisa-Pai” (1954) e “O Planeta Impossível” (1953). Todas as histórias estão agrupadas na primeira fase da carreira de Dick. Vão de 1953, quando ele estreou, a 1955, e trazem as marcas da FC da época — uma delícia para quem absorveu os protocolos da ficção pulp ou cresceu vendo filmes B em preto e branco. A julgar pelas histórias, Dick já sentia que a década de 1950 se tornaria uma espécie de paradigma da vida americana para as décadas seguintes. Em “Peça de Exposição” (1954), por exemplo, um historiador do futuro, especializado no século 20, ao criar um diorama de demonstração do American way of life descobre que o mergulho cognitivo naquele contexto permite uma espécie de experiência direta, uma viagem temporal ou interdimensional — e uma alienação do sujeito quanto ao seu próprio tempo. O tema da alienação é explícito em “O Enforcado Desconhecido” (1953), com a paranoia escancarada de um homem comum que acredita estar rodeado de pseudo-homens que substituíram as pessoas da sua comunidade. É impressionante a semelhança dessa história com o romance posterior de Jack Finney, Os Invasores de Corpos (The Body Snatchers, 1955), adaptado pra o cinema em 1956 por Don Siegel. “A Coisa-Pai” está dentro do mesmo clima — semelhante ao filme Os Invasores de Marte (Invaders from Mars, 1953), de William Cameron Menzies: um menino descobre que seu pai foi substituído e é telecomandado por uma criatura alienígena que ele e seus amiguinhos perseguem no quintal de casa. O principal efeito está em como a credulidade infantil parece sustentar a forma implacável com que eles se voltam contra a imagem paterna, numa alegoria surda mas violenta do conflito das gerações. Em “Foster, Você já Morreu” (1955), o autor denuncia o consumismo americano e a ansiedade causada por ele, num contexto de guerra global em que toda família precisa de um abrigo anti-bombas de última geração. Novamente, um menino está no centro da narrativa. Dick também levou seus questionamentos sobre a percepção do real para o tema da robótica, representada no livro pela noveleta “Autofab” (1955), em que fábricas automatizadas ameaçam os recursos da Terra e são combatidas por um movimento de resistência; e pelo cômico “Argumento de Venda” (1954), história mais ligeira sobre um robô impertinente, tipo operador de telemarketing, que leva um piloto espacial à loucura.

Ao longo dos anos, vimos a reputação de Philip K. Dick crescer ao ponto de ele se tornar não apenas um nome fundamental da ficção científica na segunda metade do século 20, mas também um autor fundamental para questões ontológicas que seriam exploradas dentro e fora do gênero, pela corrente pós-modernista da literatura americana. Sonhos Elétricos, apesar do oportunismo em torno da série de streaming, é uma ótima introdução à sua FC.

 

A Vida de Philip K. Dick: O Homem que Lembrava o Futuro (A Life of Philip K. Dick: The Man Who Remembered the Future), de Anthony Peake. São Paulo: Editora Seoman, 2015, 312 páginas. Fotos. Tradução de Ludimila Hashimoto. Brochura. Este é um dos livros da Seoman que ganhei de Adilson Silva Ramachandra ano passado. Um leitura interessante com pontos muito instigantes sobre a vida e as atitudes de Dick, com o diferencial de que o autor, Anthony Peake, está disposto a analisar o seu lado místico — fundamental, a propósito, para o seu projeto literário. Esta é a primeira biografia de autor de FC que eu leio. Existe uma outra “biografia” de Dick disponível no Brasil, Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick, de Emmanuel Carrère, pela Editora Aleph (na verdade, um romance centrado na vida de Dick).

O livro de Peake investiga, em sua primeira parte (ele é dividido em três), a infância e juventude do escritor, a família, seus primeiros empregos e relacionamentos, e os primeiros escritos. Mais tarde, os casamentos, os seus momentos místicos, o sucesso relativo e seus anos finais até a morte em 1982, pouco antes que o sucesso de Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), baseado no seu romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), o consagrasse como uma referência quase universal na cultura do século 20. É interessante mencionar especialmente o fato de que Peake combina a biografia de Dick com uma série de boxes com informações sobre os principais romances de Dick. Desse modo relativamente discreto, o livro combina biografia com referência. O tempo todo, Peake pontua a sua discussão da vida de Dick com a tese de que de algum modo o escritor americano enxergaria cenas e situações do futuro — daí o subtítulo, O Homem que Lembrava o Futuro, certamente devendo algo a histórias de Dick como “We can Remember it for You Wholesale” (1966). Ele ampara a sua especulação com trechos de histórias, de entrevistas e da correspondência de Dick, além de depoimentos de gente que o conheceu. Seus argumentos são intrigantes, mas ele não os força sobre o leitor.

A segunda parte se concentra justamente em imaginar uma explicação mística para as experiências transcendentes que Dick afirmava ter vivido. Mas equilibrando a questão, e com ainda mais firmeza, Peake busca na terceira parte uma explicação neurológica — e portanto materialista — dessas experiências, indo de enxaqueca a overdose de vitaminas e AVCs isquêmicos. O assunto é fascinante em si mesmo, mas há o suficiente em A Vida de Philip K. Dick fora dessas especulações, para cativar também quem não se interessa por elas e busca apenas insights sobre a vida e a obra de um grande escritor que a FC apresentou ao mundo.

 

O Cavaleiro dos Sete Reinos (Knight of the Seven Kingdoms), de George R. R. Martin. São Paulo: LeYa Editora, 2016 [2015], 504 páginas. Tradução de Márcia Blasques. Ilustrações internas de Gary Gianni. Capa dura. Ainda sobre o impacto da última temporada de Game of Thrones, peguei esta reunião de três novelas ambientadas no mesmo universo, adquirida em uma promoção nas Lojas Americanas há pouco tempo. Eu já tinha comprado, no mesmo lugar, outra edição do mesmo livro, sem as belas ilustrações internas de Gary Gianni, mas com uma capa colorida do ubíquo Marc Simonetti. Foram justamente as ilustrações de Gianni que me atraíram para esta edição especial. Os outros dois livros com ilustrações desse artista de destacada passagem pelas páginas dominicais do Príncipe Valente que li foram The Bloody Crown of Conan (2003), de Robert E. Howard, e Gentlemen of the Road, de Michael Chabon — ambos com um excelente trabalho de Gianni. Sem dúvida, o  envolvimento com Príncipe Valente e as suas habilidades o tornaram um requisitado ilustrador de miolo. Por outro lado, não sou muito fã dessa capa dura com efeito metalizado. É uma adaptação local, e com ela perdemos uma arte colorida de Gianni…

As novelas reunidas são “O Cavaleiro Andante”, “A Espada Juramentada” e “O Cavaleiro Misterioso”. Na introdução, Martin esboça a história de Westeros e informa que a primeira narrativa ocorre uns 100 anos antes do início das Crônicas de Gelo e Fogo, base para a série Game of Thrones. A primeira novela conta como Duncan, ou “Dunk”, um escudeiro elevado a cavaleiro andante pelo cavaleiro a quem servia (e que morre e o deixa livre para cair na estrada), encontra seu futuro escudeiro: um menino pequeno, de cabeça raspada, que se banha em um regato e passa a ser chamado de Egg. Dunk é um tipo grandão com algumas habilidades de guerreiro, e logo fica claro que o moleque conhece mais da heráldica e de quem é quem no mundo da aristocracia de Westeros, do que ele. O objetivo dos dois é inscrever Dunk em um torneio, na esperança de que ele vença algumas justas e possa renovar o seu equipamento depauperado e ganhar uns cobres. No processo, Dunk salva uma moça marionetista que era assediada por um aristocrata. O ato o torna popular entre os camponeses, que se recordam de que a obrigação do cavaleiro é proteger os fracos, mas coloca o cavaleiro pobre e trapalhão na mira de um castigo aleijante. Com a ajuda de Egg (cuja origem surpreendente é revelada), cavaleiros de importância são recrutados para defender Dunk — e nesse ponto a ironia característica de Martin faz sua primeira aparição, com a morte inesperada de uma figura importante para Westeros. Toda a coisa do torneio é muito rica e lembra o episódio de Príncipe Valente (veja abaixo) em que o herói se inscreve secretamente em um, na tentativa de conquistar a glória que a sua condição de escudeiro não permitia.

A segunda história mostra a dupla defendendo as terras de um senhor feudal decaído, e vítima da injustiça da senhora que controla a rica propriedade vizinha. A princípio, Dunk tem que treinar, os camponeses do seu senhor como soldados. A situação é cômica e potencialmente trágica. Para evitar um massacre, Dunk vai parlar com a senhora vizinha, que se interessa romanticamente (ou sexualmente) por ele. Depois de uma série de incidentes, o herói descobre que não há uma recompensa reservada a ele. A narrativa final tem a dupla novamente envolvida com a realeza traiçoeira de Westeros, quando eles se apresentam num torneio organizado para honrar um casamento, com um ovo de dragão como prêmio ao vencedor. No processo, descobrem uma intriga de traidores para agitar uma nova revolta contra os monarcas que estão no poder naquela época do mundo de fantasia de Martin, os Targaryens. Livre dos truques usuais de Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo, a narrativa de O Cavaleiro dos Sete Reinos é mais leve e dá mais espaço à contemplação de como ele pinta a sua fantasia medieval e os seus habitantes. Acaba sendo nostálgico e realista ao mesmo tempo, rico em enredo e textura. A dinâmica entre Dunk & Egg é divertida e os toques sobre o tecido social e a economia medievalesca de Westeros dão mais consistência às Crônicas. Adorei o livro, e viajei com o casamento perfeito de textos e ilustrações.

 

Arte de capa de Keith Parkinson.

Debt of Bones, de Terry Goodkind. New York: Tor Books, 1.ª edição, 2004 [1998, 2001], 160 páginas. Arte de capa e ilustrações internas de Keith Parkinson. Paperback. Goodkind é um best-seller da alta fantasia nos Estados Unidos e em vários cantos do mundo, com a série The Sword of Truth, cujos livros aparentemente nunca foram publicados no Brasil, mas que estão parcialmente disponíveis em Portugal pela Porto Editora. Assim como o livro de Martin discutido acima, este apresenta uma aventura ocorrida bem antes dos eventos principais da série — e também é um livro com ilustrações. Nessa novela, a camponesa filha de feiticeira Abby vai até a cidade grande em busca de ajuda do grão-mago Zedd Zorander — que está muito ocupado defendendo o seu país da invasão mágica de tropas do tirânico Império de D’Hara. Em um fabuloso mise-en-scène, Zedd fala com Abby enquanto atende simultaneamente dezenas de outras demandas táticas do conflito. A princípio ele rejeita a demanda da moça, cujo marido e filha foram tomados pelos invasores, mas cede quando ela exige que ele cumpra uma dívida de ossos (como no título): um antepassado de Zedd (um dos personagens principais da série) foi beneficiado pela mãe de Abby, e o osso examinado por ele certifica a dívida.

Quando Abby retorna à sua vila invadida, fica claro que a moça é sendo chantageada pelas forças inimigas. Também fica claro que a concordância de Zedd acaba sendo uma situação do tipo O Resgate do Soldado Ryan, em que aquilo que parece uma exceção pessoal inserida em um vasto conflito acaba confluindo para uma situação estratégica ou tática legítima. A narrativa é bem equilibrada e bem construída, reservando duras lições a Abby. A ilustração de Keith Parkinson tem composição simples mas uma execução brilhante em termos de luz, sombra e atmosfera. Suas artes internas (apenas meia dúzia) são mais simples, feitas a grafite e portanto com um nível de acabamento menor que as de Gary Gianni, mas mesmo assim encantam e iluminam o texto. Desencarnado muito cedo, aos 47 anos, Parkinson foi um artista rico e sofisticado, de quem os jogadores brasileiros de RPG devem se recordar (artes dele apareceram na capa da revista Dragon).

 

O Guia Geek de Cinema (The Geek’s Guide to SF Cinema), de Ryan Lambie. São Paulo: Editora Seoman, 2019 [2018]. Apresentação de Cláudia Fusco. Prefácio de Roberto Causo. Posfácio de Adilson Silva Ramachandra. Capa dura. Depois da publicação de A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts, a Seoman volta a contribuir com a pesquisa e a contextualização crítica da ficção científica com este livro de um dos editores do site Den of Geek. Tive a honra de ser convidado, por Adilson Ramachandra, para escrever o prefácio que se segue à ótima apresentação de Cláudia Fusco. Também fiquei muito feliz de sugerir a contribuição de Alfredo Suppia, um especialista em FC no cinema brasileiro, que contribuiu com uma lista de produções de interesse que merecem atenção. Com isso, o cinema brasileiro não ficou de fora do livro, que conta ainda com várias listas dos melhores filmes, agregadas por Ramachandra ao posfácio escrito por ele.

O livro de Lambie, propriamente, é engenhosamente dividido em capítulos temáticos que se dispõe cronologicamente, discutindo assim a evolução da FC no cinema a partir dos seus grandes marcos, indo de Viagem à Lua (1902) até A Origem (2010). Desse modo, o livro também é uma grande lista. Mas com o diferencial de discutir uma série de outras produções a cada capítulo, identificando semelhanças sob uma mesma chave dentro de cada período. Uma ficha com os títulos “suplementares”, por assim dizer, fecha os capítulo. Lambie não é elitista, e por isso comenta filmes pouco babados pela crítica e mais populares, como Godzilla (1954) e Independence Day (1996), ao lado de grandes títulos como Metrópolis (1927), Dr. Fantástico (1964), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), Blade Runner (1982) e Matrix (1999). O texto de Lambie é fluido, animado e com grande poder de síntese. Ele foge da superficialidade que encontramos em muitos sites e blogs, por meio de uma abordagem que destaca o modo como os filmes e os temas que aborda expressam o espírito da época e suas questões políticas e sociais, sem, obviamente, ser “pesado”. Desse modo, o guia valoriza o seu assunto e favorece tanto a leitura completa do volume quanto a consulta constante dos filmes e temas que Lambie elegeu. Recomendo com entusiasmo.

 

As Aventuras de Honey Bel, de Miguel Carqueija. São Bernardo do Campo: Edições Electron/Edições Hiperespaço, 2017, 64 páginas. Artesanal. Assim como eu, Braulio Tavares, Cid Fernandez, Finisia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Henrique Flory, Ivan Carlos Regina, Ivanir Calado, Jorge Luiz Calife, Roberto Schima e Simone Saueressig, Miguel Carqueija é um escritor da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015). Apareceu em muitas antologias ao longo dos anos (Possessão Alienígena sendo a mais recente) e seu trabalho marcou a fase dos fanzines desse período. O desktop publishing e a era dos blogs e e-books forneceram a ele um espaço análogo ao dos fanzines, para a sua produção de FC e fantasia em geral leve e descompromissada, voltada para os jovens mas provavelmente sem alcançar esse público específico. Os seus trabalhos mais conhecidos devem ser o conto “Camarões do Espaço” (2009) e a novela juvenil Farei meu Destino (2008).

Esta é uma edição amadora de novela de ficção científica humorística. Honey Bell é uma garota  desmiolada que só pensa em arrumar casamento, mas acaba recrutada para agir como agente secreta. A premissa é estranha e exige que o leitor confie na narrativa até que os fatos esclareçam que quem entrou pelo cano foi o malandro que a recrutou. O humor vem da oposição entre o que a heroína enfrenta e o mundo emocional açucarado que ela projeta o tempo todo. É um recurso que a gente vê com frequência nos animes, uma das áreas de interesse do autor. Mas como Carqueija conhece FC a fundo, ele enriquece o enredo e a caracterização da garota com um truque interessante — ela consegue reconhecer meio que por instinto os pontos de estresse e de fratura de inimigos e de estruturas, de modo que, apesar da falta de juízo, termina sempre sendo eficiente. Carqueija só não explica de onde vem essa habilidade (de um implante cibernético, de uma mutação?), talvez guardando a explicação para uma nova aventura da personagem.

 

Arte de capa de John Spencer.

O Lobo (The Wolf), de Joseph Smith. Rio de Janeiro: Objetiva, Alfaguara, 2009, 136 páginas. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Capa e ilustrações internas de John Spencer. Brochura. O selo Alfaguara da Objetiva, no qual este livro foi publicado, é um dos espaços privilegiados da publicação de ficção mainstream no Brasil. Causa certa estranheza encontrar uma fábula nesse espaço, o que me fez adquirir este romance de estreia do inglês Joseph Smith, em uma feira de descontos num dos saguões do Shopping Cidade de São Paulo, em Sampa. Já anotei aqui outras fábulas: Fábulas Ferais (2017), de Ana Cristina Rodrigues, e O Chamado dos Bisões (2017), de Paola Giometti.

Na fábula de Joseph Smith, o lobo, fera que vive no topo da cadeia alimentar dos bosques europeus, é vítima, por isso mesmo, do seu próprio húbris: ele desafia o homem, na sua indefectível cabana isolada na mata, presente em tantos contos de fadas. O resultado é vexatório, o que leva o predador a descontar a frustração em uma raposa. Esta, sempre implorando pela vida com os olhos, promete levá-lo a uma refeição especial.

“Implorar com os olhos” é mais do que uma expressão, já que o contato visual, nesta fábula, conduz a uma forma de comunicação não verbal — um dispositivo literário muito inventivo, que supre a necessidade de diálogos sem que a narrativa necessariamente caia no truque tão próprio da fábula, que é o animal falante. A refeição especial é um cisne preso em uma poça d’água, no fundo de um poço natural entre os interstícios de uma caverna. Neste momento, os sentidos de O Lobo se aprofundam. De repente, a atmosfera torna-se quase metafísica, e aos poucos o leitor se vê tentado a enxergar o livro menos em termos de eventos estranhos vividos pelo imaginário ponto de vista de animais, e mais como alegoria de algo maior. As raposas passam a ser mais que bichos espertos tentando enganar o predador estúpido. Elas representam tudo o que há de mesquinho e que precisa do monstruoso e do brutal para destruir a beleza. Ilustrado com xilogravuras de John Spencer, O Lobo é um livro belo e perturbador, escrito ao mesmo tempo com sensibilidade e a qualidade cortante de uma faca.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Fred Rubim.

Contos do Cão Negro Volume II: A Canção do Cão Negro, de Cesar Alcázar & Fred Rubim (arte). Porto Alegre: AVEC Editora, 2017, 64 páginas. Álbum. O personagem de fantasia heroica Cão Negro é uma criação do escritor gaúcho Cesar Alcázar, desenvolvido em contos e em histórias em quadrinhos. Já tive chance discutir aqui a sua novela A Fúria do Cão Negro (2014). O primeiro álbum desta série de quadrinhos, O Coração do Cão Negro, saiu em 2016.

Este segundo volume traz o violento e melancólico mercenário Anrath, vulgo “Cão Negro”, em meio ao resgate de uma mulher irlandesa sequestrada por vikings da Islândia. Anrath é o capitão de um barco que, depois que ele e seus homens são pagos, passa a ser seguido por um antigo companheiro de armas em busca de vingança, Ulf Gunnarson. Ulf arma uma eficiente emboscada, e Anrath e seu colega Rorik são feridos e acabam náufragos em uma ilhota. Anrath se separa do amigo e vai parar em uma caverna onde encontra comida, bebida e os braços de uma misteriosa mulher — que se revela de origem sobrenatural.

O verdadeiro arco desta narrativa se inicia, porém, quando Anrath se despede da bela Aella, uma companheira de aventuras, negando-se a abandonar a violência pelo amor. E o amor acaba sendo o tema da HQ, já que é esse sentimento o que a morena misteriosa da caverna oferece como letal ferramenta de sedução. A parceria de Alcázar com o artista Fred Rubim torna a render bons frutos neste segundo álbum, embora me pareça que de um para o outro a arte tenha se tornado ainda mais áspera a irregular.

 

Príncipe Valente 1937, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Álvaro Pons. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. Este é o primeiro volume da Coleção Príncipe Valente, nas bancas brasileiras importada de Portugal, onde é produzida. A coleção vai do primeiro ano de produção da página dominical do imortal herói criado por Hal Foster (em 1937) até 2018. O acabamento é bonito sem ser ostensivo, o papel é de boa qualidade sem ser couché, e a reconstituição das cores originais é bonita, embora, a julgar pela comparação com a edição reconstituída pela americana Fantagraphics (2009), sem a mesma qualidade esmaecida e aquarelada. O que eu mais temia era que a tradução para o português europeu apresentasse o tipo grave de problema que a Coleção Star Wars Classics apresentou. Felizmente, isso não acontece, embora haja uma “gralha” aqui e ali — inclusive na edição que não segue exatamente o original e as suas sinopses e chamadas para a página dominical da semana seguinte.

De qualquer modo, a magia da criação de Foster está presente no livro, que é agradável de se manusear. O formato da narrativa de Valente sempre foi biográfico, e no ano 1 ele e sua família chegam da terra mítica de Thule à Bretanha, como uma família real destituída e em exílio. Depois de choques com os bretões, instalam-se em uma ilha solitária no meio de um vasto pântano rondado por criaturas antediluvianas que trazem os primeiros maravilhamentos à aventura do príncipe. Valente se torna o derradeiro escoteiro, metendo-se na charneca com um garoto local da sua idade (11, 12 anos) e aprendendo a viver da abundância da terra, mas se metendo com figuras monstruosas que também usam o lugar como refúgio. Entre elas, uma bruxa e seu filho deformado que o garoto, já mais velho, quase mata de pancada. Depois de devolvê-lo à mãe, o rapaz ouve como castigo o vaticínio da vidente. Na profecia, o resumo das aventuras futuras do herói, e da dimensão existencial das andanças e triunfos que não lhe trarão felicidade. Daí não apenas a afirmação da face existencial equilibrando a aventura incansável, mas também testemunho da ambição de Foster, que já teria o rascunho da evolução da sua HQ ao iniciá-la.

Abalado pela profecia e pela subsequente morte de sua mãe (agourada pela bruxa), o sinal mais claro do caráter do rapaz é ele ter partido em busca do seu destino. No processo, encontra cavaleiros da Távola Redonda e se torna escudeiro de Sir Gawain, em Camelot. As várias aventuras posteriores em que luta contra um dragão (racionalizado como um crocodilo marinho gigante), ajuda a aprisionar salteadores, liberta um ferido Gawain do cativeiro e encontra seu primeiro amor ao liberar o castelo da moça de usurpadores funcionam mais para demonstrar a sagacidade e os recursos do herói. Os próximos volumes trarão arcos mais intensos e representativos da arte e da imaginação de Hal Foster. Cada livro terá um ensaio a título de introdução, tratando da obra do artista canadense. Álvaro Pons responde pelo primeiro ensaio, no qual enfatiza a qualidade adulta da obra de Foster (uma novidade na época), e como ele racionaliza os elementos mágicos costumeiros da fantasia arturiana.

 

Príncipe Valente 1938, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. O segundo livro da Coleção Príncipe Valente abre com o jovem herói usando o feitiço contra o feiticeiro, na sugestiva sequência em que o boato sobre um ogro horrível atacando os viajantes se revela como um bando de ladrões fantasiados. Capturado por eles, Valente escapa usando a sua engenhosidade ímpar de escoteiro. Ele retorna com a sua própria fantasia, para “assombrar” como um demônio alado, o castelo dos salteadores. De fato, constantemente o herói racionaliza a magia e o sobrenatural, mas logo depois se mete entre um duelo de feitiços entre a fada Morgana e o mago Merlin, numa situação fantástica em que nada é racionalizado.

Poster da adaptação de Príncipe Valente para o cinema, por Henry Hathaway.

O jovem príncipe desterrado não tem descanso. De volta a Camelot, tem notícia de que sua paixão, Lady Ilene, vai se casar com o Príncipe Arn. Ele logo parte, disposto a confrontar Arn pela mão da garota, mas no caminho se depara com evidências de uma invasão viking. Antes de encontrar os invasores, encontra o próprio Arn, com quem se bate e resgata de um azarado tombo em águas revoltas. O surgimento dos vikings obriga os dois a uma trégua. Arn vai proteger Ilene, instado por Valente, que fica com a famosa Espada Cantante do seu rival, para ganhar tempo segurando o inimigo em uma ponte de pedra. Esse é um dos momentos antológicos da saga do herói, com um dos painéis mais inspirados de Hal Foster. Exausto, Valente é capturado e levado à presença do chefe viking Thagnar, enfrenta o seu gigantesco carrasco em uma peleja de luta olímpica, e revê Ilene. Nem ele nem Arn, porém, terão a mão da jovem. Esse arco narrativo termina com os dois príncipes antes rivais e agora amigos como náufragos em Thule, firmando aí o primeiro retorno de Valente à sua terra natal, desde o exílio de sua família nas charnecas da Bretanha.

De volta a Camelot, temos aquele delicioso arco em que Valente se inscreve no grande torneio como o incógnito cavaleiro sem brasão e destituído de armas, mas que não obstante desafia ninguém menos que Tristão, o segundo melhor cavaleiro de Arthur. A sequência, se a memória não falha, entrou no filme de 1954 (acima). Mas o herói acaba humilhado e volta para as terras de seu pai nas charnecas. O retorno é um movimento esperto da parte de Foster — esse mundo selvagem é belo e repleto de significados místicos, que o artista torna a explorar. Mais importante, dá a chance de Valente se deparar com uma nova invasão, início do arco mais dinâmico e significativo da primeira fase das aventuras do jovem herói.

 

Príncipe Valente 1939, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. A sagração de Valente como cavaleiro fecha o notável arco narrativo iniciado no volume anterior, depois que o rapaz alerta o Rei Arthur de que a esquadra invasora dos saxões oculta-se nos pântanos, e elabora um plano astuto para entregar o inimigo de bandeja ao rei. Basicamente, termina aí a fase arturiana dos primeiros anos das páginas dominicais do herói. Logo depois, Foster o lança na empreitada de recuperar o reino do seu pai em Thule — um arco talvez abreviado demais e livre de grandes complicações, seguido de uma situação cômica em que a filha do rei deposto tenta seduzir Valente, mas acaba se apaixonando pelo melhor amigo do herói. A partir daí, minha memória das aventuras de Valente ficou mais nebulosa, talvez porque toda a trama da invasão dos hunos não tenha me parecido tão interessante quanto deveria. Há uma força cruel nessas passagens, porém, em especial quando Valente se une aos defensores de um castelo liderado por um galante lorde que enfrenta os hunos com um sorriso nos lábios. A noção de que o combate contra os invasores asiáticos é um esporte pulsa de maneira incômoda em vários momentos, mas é o terrível estoicismo hedonista do Lorde Camoran que marca o arco como um episódio digno da crueldade de um George R. R. Martin. Comoran e os seus vassalos e damas vivem como se não houvesse amanhã, até que não há, e todos se conformam à morte sem que cedessem aos invasores.

A partir daí, Valente, de maneira talvez pouco característica em relação aos episódios anteriores da sua saga, comanda uma guerrilha contra os hunos, até que sua fama cresce e ele reúne um exército vitorioso na Europa central. Reencontra-se com Gawain e Tristão, que se unem à sua causa. Já perto do final do volume, Valente se infiltra na cidade controlada pelo Conde Piscaro, um colaboracionista dos hunos, e é capturado e torturado por ele, escapando com truques de capa e espada. A maior parte do volume me pareceu divergir do espírito da série. Apenas o episódio em que Valente tem um vaticínio místico com um feiticeiro que vive em uma caverna traz uma aura mais próxima desse espírito. É como se Foster, sentindo que realmente realizara algo de especial até o ponto da sagração de Valente, meteu-se a elaborar fiadas aventurescas menos características, talvez por influência das suas pesquisas. Mas a questão dos hunos é intrigante e vale outro grau de considerações: em 1939 a Segunda Guerra Mundial já rolava na Europa. Sendo canadense, Foster provavelmente era mais sensível à questão de como a Inglaterra e a Europa continental sofriam nas mãos dos alemães — alcunhados de “hunos” desde a Primeira Guerra. A hipótese não é doideira da minha cabeça, tendo entrado no livro Arthurian Writers: A Biographical Encyclopedia (2008), editada por Laura Lambdin & Robert Thomas Lambdin. Assim, a luta do herói contra o terror huno pode muito bem ter expressado o  desejo de uma vitória das democracias contra o nazi-fascismo.

—Roberto Causo

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Comentando “Planeta Proibido” no Cine Clube Sci-Fi do SESC

Os pesquisadores Cláudia Fusco e Roberto Causo vão comentar uma exibição do filme clássico da era de ouro da ficção científica no cinema americano, Planeta Proibido (1956), no dia 18 de janeiro de 2020, um sábado. A exibição acontece no Cine Clube Sci-Fi do Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo.

 

 

Dirigido por Fred M. Wilcox e estrelado por Walter Pidgeon, Anne Francis e Leslie Nielsen, Planeta Proibido (Forbidden Planet) é um marco da ficção científica da década de 1950, tendo apresentado recursos visuais e música experimental inéditos, e pela seriedade do seu assunto, além de trazer para o mundo o robô Robby.

Planeta Proibido é tido como uma inspiração da posterior franquia Star Trek, criada por Gene Roddenberry, e trouxe para o jargão da FC o conceito do “Monstro do Id“, uma poderosa metáfora da ambição excessiva da humanidade. O filme também resultou em uma interessante adaptação literária por W. J. Stuart.

A exibição desse clássico acontece no sábado dia 18 de janeiro de 2020, no Cine Clube Sci-Fi do Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo. O endereço é Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – 4.º andar, Bela Vista – São Paulo-SP. Horário: das 10h00 às 13h00. A entrada é franca. Mais informações no site do cine clube, por meio do qual é possível fazer a inscrição antecipada.

 

Abaixo, informações do site:

Cláudia Fusco é jornalista e mestre em Science Fiction Studies pela Universidade de Liverpool, Inglaterra. É pesquisadora de mitos, folclore, contos de fadas e literatura especulativa. Colaborou para o especial de ficção científica da revista Mundo Estranho e foi colunista do site Contraversão, escrevendo semanalmente. Já participou de conferências internacionais. Ministrou aulas na USP, Casa do Saber.

Roberto Causo é doutor em Letras pela USP, tradutor, editor, escritor. Tem contos publicados em 12 países. É ganhador do Projeto Nascente e finalista do primeiro concurso nacional de ficão científica, o Prêmio Jeronymo Monteiro. Escreve ficção científica, fantasia e horror, e já organizou sete antologias, dentre elas Dinossauria Tropicalia e Estranhos Contatos.

 

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Shazam, Diacho!

Mais uma vez, a aventura da DC Comics no cinema acerta ao investir em um filme despretensioso e divertido, com algo a dizer sobre a infância: Shazam para todos nós!

Shazam! Diretor: David F. Sandberg. Escritor: Henry Gayden. Personagem criado por Bill Parker e C. C. Beck. Estados Unidos, 2019, 132 minutos. Warner Bros. Com Zachary Levi, Djimon Hounsou, Mark Strong, Asher Angel, Jack Dylan Grazer, Grace Fulton, Marta Milans, Cooper Andrews.

 

Eu tive a minha fase de fã do Capitão Marvel, ainda criança. Que ele era uma espécie de rival do Super-Homem era algo bastante claro nos seus poderes. Mais tarde eu soube que o personagem criado por Bill Parker & C. C. Beck vendia mais do que o Homem de Aço, e bateu o super-herói criado por Jerry Siegel & Joe Shuster como seriado nas telas das matinés: chegou às telas em 1941, enquanto o Super-Homem só estreou em 1948. Tamanho sucesso levou a DC a processar a Fawcett Comics, que publicava o Capitão Marvel, por plágio em 1953, alegando que o herói de malha vermelha era cópia da criação de Siegel & Shuster. Em 1972, a própria DC adquiriu os direitos do personagem que ela havia calado, trazendo-o de volta aos gibis.

Uma das suas histórias mais bacanas do herói, que ficou comigo ao longo dos anos, tratava de um menino tão pouco especial que era praticamente invisível. O próprio Capitão Marvel tinha dificuldade para trazê-lo para o seu foco da atenção. Um traço desse argumento entrou no filme de David F. Sandberg, na queixa do personagem Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), um órfão de muleta que em um momento se afirma invisível. Uma das qualidades mais interessantes das histórias do herói era ter algo a dizer sobre a infância e sobre questões sociais.

O filme abre ousadamente contando a origem do supervilão Dr. Silvana (Sivana, no original). Ele foi convocado pelo guardião dos Sete Pecados Capitais, em busca de uma criança de coração puro que pudesse se transformar no seu campeão e impedir que os demônios grassem soltos na Terra. Silvana (o ator-mirim Ethan Pugiotto) é rejeitado pela entidade, e, sem entender nem aceitar, acaba sofrendo um acidente de carro com a família. Tanto as páginas dos quadrinhos quanto na vida real, frustração, ressentimento e culpa são a receita infalível para a formação de um sociopata sedento de poder — dão testemunho as biografias de Adolf Hitler e de dezenas de outros tiranos ao longo da história.

Billy Batson (Asher Angel), a identidade secreta do Capitão Marvel, entra em cena logo a seguir. O tom sombrio da abertura cede ao humorístico, quando testemunhamos a molecagem do garoto órfão que usa sem autorização a rede de informação policial para encontrar o endereço de uma mulher que ele acredita ser sua mãe. Mas ela é apenas um homônimo, e aos poucos o espectador fica sabendo que encontrar a mãe é a obsessão de Billy, desde que ele se separou dela num parque de diversões, quando tinha uns 5 anos ou menos.

Por ora ele é colocado pela assistência social aos cuidados de uma foster family (pais adotivos temporários) composta do zeloso casal Rosa (Marta Milans) e Victor Vasquez (Cooper Andrews) e mais meia dúzia de outros órfãos de várias etnias. Entre eles está Freddy, nerd de plantão e especialista em super-heróis. Embora todos recebam Billy muito bem, o rapaz de 14 anos só tem uma coisa em mente: fugir assim que tiver pista de uma nova candidata à sua mãe. No ínterim, porém, o guardião o convoca e encontra nele a sua opção, contra as evidências, para se tornar o Capitão Marvel — materializado na figura de 1,93 m do ator Zachary Levi em um traje com leves enchimentos.

Billy tem um longo caminho a percorrer, “auxiliado” pelo deslumbrado Freddy, até se tornar um super-herói de fato. A sequência é de pura comédia: o arsenal de superpoderes é testado com combustíveis, pancadas e tombos, tudo gravado e jogado nas redes sociais — uma atualização interessante e divertida. Voar parece ser um problema. O caráter do “herói” também, já que ele usa suas habilidades basicamente para cobrar por selfies com os fãs e para entrar em lugares proibidos para menores, incluindo uma casa de go-go-girls.

Se a memória não falha, um dos aspectos mais interessantes das HQs do Capitão Marvel estava no fato de Billy Batson ser mesmo uma criança, enquanto a sua versão super-herói ser adulta e compenetrada. O contra-intuitivo aí era intrigante e talvez sugerisse que ser “infantil” e “adulto” pode ser algo performativo, ou que um traz o potencial intrínseco do outro, se as condições forem certas, ou mágicas. No filme, provavelmente inspirado pelo mesmo recurso empregado no relançamento do Universo DC com os Novos 52, o super-herói conserva a personalidade de sua versão adolescente. O ator Jack Dylan Grazer notou, porém, que o binômio herói e identidade secreta conserva uma dissociação no fato de que, aparentemente mais liberado pelos superpoderes, a versão mágica é mais moleque ainda do que o muitas vezes sorumbático Billy. Entre pré-adolescente e adolescente de fato, talvez… Desse modo, o diretor tirou o melhor tanto do lado charmoso e vulnerável de Asher Angel, quanto do tino cômico de Levi.

A trajetória tropeçante do herói nos quadrinhos inclui a DC ser forçada a abandonar o nome e a marca “Capitão Marvel” por causa da Capitã Marvel da Marvel Comics — coincidentemente com a sua estreia no cinema sendo lançada mundialmente poucas semanas antes de Shazam! Esse, inclusive, é o nome pelo qual o herói passou a aparecer, Shazam. O roteirista Henry Gayden e o diretor Sandberg brincaram bastante com essa circunstância, nos momentos em que Billy e Freddy tentam imaginar nomes para o super-herói invulnerável e que lança raios das mãos. Capitão Thunder (o primeiro nome que o personagem teve, temporariamente, até que os criadores Parker & Beck descobrissem que alguém já havia registrado o nome) e principalmente Capitão Sparkle Fingers (“Dedos Faiscantes”) são aventados, sendo que esse último parece ter alguma alusão pornográfica embutida… Eu mesmo nunca assinei nada e vou continuar chamando-o de Capitão Marvel, em homenagem às minhas lembranças de infância. Quem é que aguenta essas aporrinhações corporativas e legais, diacho! (A praga característica do Capitão Marvel nos quadrinhos.)

Quem traz a dupla desmiolada para a dura realidade é o Dr. Silvana, transmutado no versátil Mark Strong, que aqui parece satisfeito em reprisar o vilão soturno e sádico de Kick-Ass. O Silvana adulto é um ocultista que pesquisa eventos semelhantes ao sofrido por ele na infância (e por Billy Batson, sem que ele saiba), em busca dos símbolos esotéricos que o levarão novamente ao salão do mago guardião (Djimon Hounsou). Incorporando os demônios capitais, ele identifica no Capitão Marvel o obstáculo derradeiro para cumprir a profecia e adquirir poder absoluto.

No meio do caminho para enfrentar o vilão nos céus da Filadélfia, onde o filme se passa, há espaço para decepções infantis sofridas tanto por Billy quando por Freddy, a descoberta da realidade sobre a mãe que Batson busca com tanta força, e a realidade sobre o que é de fato uma família, para além dos laços de sangue. Tudo isso mantendo um clima acolhedor de filme das décadas de 1980 ou 90, com uma qualidade quotidiana que faz falta na maioria dos filmes da Marvel, por exemplo. Com certeza, a invernal paisagem canadense em que o filme foi rodado ajuda, assim como o mínimo de imagens geradas por computador e cenários inseridos via tela azul.

O charme de Shazam! resiste até mesmo ao humor enfiado entre as situações de ação nas sequências climáticas, e à transformação das outras crianças da foster family na Família Marvel dos gibis, um lance que divide muito a ação e parece queimar um cartucho importante na já anunciada sequência. Assim como aconteceu com Mulher-Maravilha (2017) e com Aquaman (2018), seu forte é a falta de pretensão e a leveza da narrativa e da abordagem dos assuntos. Além da personalidade vibrante de Zachary Levi, a produção traz ótimos atores adolescentes, o espirituoso Angel e o divertido Grazer (que vimos no ótimo It, de 2017, como o hipocondríaco garoto Eddie Kaspbrak), além da bela Grace Fulton, que faz a garota mais velha abrigada pelos Vasquez, Mary Bromfield.

O charme de Shazam! cresce por parecer um filme da década de 1980 lançado com os recursos técnicos do século 21. Além disso, parece um filme natalino lançado fora da época natalina; um filme “família” que não se esquiva de uma piada sobre pedofilia nem se curva a qualquer traço de patriarcalismo (que ele ataca, na figura do pai magnata do Dr. Silvana); um filme sobre bullying que não traz adultos para a discussão; e um filme com elenco multiétnico que não soa nada politicamente correto. O que poderia ser visto como um anacronismo em vários níveis, soa como uma afirmação de independência e personalidade própria. Finalmente, um filme que tem algo a dizer sobre as encrencas da infância, a serviço de celebrar a imaginação heroica da criança. Uma imaginação antes plasmada nas histórias em quadrinhos que o inspiraram.

—Roberto Causo

 

A sobreposição do Capitão Marvel e de sua identidade “civil”, o superpentelho Billy Batson.

 

Roberto Causo agradece a Gabriela Colicigno & Roberto Fideli, do Who’s Geek, pela oportunidade de ver a cabine de Shazam! em 26 de março de 2018, no Shopping Cidade de São Paulo.

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Aquaman

O arrasa-quarteirão surpresa da DC Comics encanta pela entrega total a um raro ritmo narrativo e à força de imagens deslumbrantes.

 

Aquaman. Diretor: James Wan. Escritores: David Leslie Johnson-McGoldrick & Will Beal (Aquaman é uma criação de Mort Weisinger & Paul Norris). Estados Unidos e Austrália, 2018, 143 minutos. Com Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Nicole Kidman, Dolph Lundgren.

 

 

Convicção é tudo.

O diretor James Wan sabe disso e empregou seu virtuosismo em cenas de luta e na criação de ricas imagens com grande convicção em Aquaman, a última aventura da DC Comics no cinema.

O universo dos super-heróis da DC vinha capengando na telona há alguns anos. Firmava-se meio como uma alternativa subprime do estilo e do vitorioso universo Marvel. Mulher-Maravilha (2016), por exemplo, é um filme de roteiro inconsistente e desempenhos fracos, que vence pela convicção ingênua dos astros Gal Gadot e Chris Pine e pelo subtexto feminista que avança apesar das falhas.

Claramente, Aquaman desfrutou de um investimento financeiro substancial. Isso é curioso, considerando o quanto, dentre os suspeitos usuais da Liga da Justiça, ele é visto como secundário — a ponto de virar piada na série The Big Bang Theory. Mas assim como Mulher-Maravilha, é um filme que funciona apesar das suas deficiências, e, em alguns momentos, por causa delas.

Aquaman abre com a narrativa de origem de Aquaman, filho da rainha atlante Atlanna (Nicole Kidman) com o faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison, o homem por trás da máscara de Jango Fett, de Star Wars). Essa narrativa saiu direto do cânone do Aquaman da Era de Prata, em 1959. Mais tarde, o herói, ao salvar a tripulação de um submarino russo de uma equipe de impiedosos piratas high-tech, faz um inimigo para o resto da vida: o supervilão Black Manta (Yahya Abdul-Mateen II).

O dilema do filme surge quando o meio-irmão do herói, o príncipe Orm (Patrick Wilson), decide declarar guerra contra a humanidade da superfície, e Aquaman é forçado pela a desafiá-lo como herdeiro legítimo de Atlântida. Uma sábia decisão foi trazer o tema da mestiçagem mais para perto do espectador, na medida em que Aquaman (Jason Momoa) é apresentado como filho da princesa com um nativo-americano. Desse modo, a aparência étnica de Momoa contrasta claramente com a aparência nórdica de Orm e do seu futuro sogro, o Rei Nereus (Dolph Lundgreen), e da bela princesa Mera (interpretada pela linda Amber Heard). O próprio Momoa é meio havaiano, meio teuto-americano — enquanto a sua versão dos quadrinhos é originalmente tão loura e nórdica quanto os outros.

A intriga exige que Arthur Curry, a identidade secreta de Aquaman, se assuma como pretendente ao trono da Atlântida e enfrente Orm, que busca se tornar o Mestre dos Oceanos e liderar todas as várias nações submarinas contra a humanidade da superfície. Para isso, não apenas o seu mentor secreto, o conselheiro de Atlântida Vulko (Willem Dafoe), mas também a princesa Mera apelam a Arthur. Mas é a força dos eventos que o arrasta rumo ao seu destino — recuperar o tridente do Rei Atlan e impedir a guerra. Tomar posse do tridente equivale ao Rei Arthur (coincidência?) arrancar a espada Excalibur da pedra e se provar como o verdadeiro rei. Outras referências presentes no filme incluem Pinocchio e Lovecraft.

A estrada até lá é na verdade uma montanha russa. Assim como em um gibi há uma cena de ação ou um painel deslumbrante a cada duas ou três páginas, James Wan faz com que a cada dois ou três minutos haja uma explosão, uma luta intensa ou um panorama de destruição ou maravilhamento com sua paisagem marinha fantástica. A quantidade de cidades e mundos perdidos vistos durante o filme acentua o desejo de deslumbrar, culminando com o tema antigo de um mundo selvático com dinossauros e tudo, situado no interior da Terra. E em toda parte, relíquias incríveis (algumas do nosso mundo), que fariam Indiana Jones salivar, são lascadas ou destruídas por completo.

As lutas coreografadas são mais tridimensionais do que em outros filmes da DC, assim como são superiores o apuro visual, a fotografia e o emprego de CGI. Mesmo tendo custado basicamente o mesmo que Mulher-Maravilha, Aquaman parece estar em uma classe superior. Wan subordina tudo ao ritmo narrativo alucinante. Uma decisão positiva nesse sentido foi explorar o caráter palhaço do Aquaman de Jason Momoa, que acaba sendo mais divertido do que o lado bufão de Benedict Cumberbatch em Doutor Estranho (2016), por exemplo. Em alguns momentos, Aquaman forma com Mera uma descarada dupla cômica — que disfarça bem a total falta de química do casal improvisado.

Os personagens certamente não são tridimensionais, mas é interessante como Wan extrai de todos interpretações exaltadas, canastronas, que nivelam o filme no seu espírito brincalhão focado em arrastar o espectador com ele, cena após cena — e clichê após clichê.

Às vezes, uma obra se entrega ao mundo paralelo do pulp, dos quadrinhos ou da fantasia a ponto de criarem uma realidade desapegada do real, dos ditames da qualidade e dos valores canônicos do seu veículo, e mesmo assim se firma por sua delirante personalidade própria. Aquaman pode ser uma dessas.

—Roberto Causo

 

 

 

Roberto Causo agradece a Gabriela Colicigno & Roberto Fideli, do Who’s Geek, pela oportunidade de ver a cabine de Aquaman em 11 de dezembro de 2018, no JK Shopping, em São Paulo.

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Os Melhores de 2017

Veja aqui a lista dos melhores livros e melhores filmes lidos e vistos por Roberto Causo, em 2017.

 

Livros

1. Doomsday Book, de Connie Willis. Por boa margem, este foi o melhor romance de ficção científica que li este ano, uma história de viagem no tempo originalmente publicada em 1992, com edição brasileira pela Suma de Letras, em capa dura, lançada em 2017 — a tradução é de Braulio Tavares. Pouco publicada no Brasil, Willis é um dos grandes nomes da corrente humanista da FC pós-modernista americana.

Arte de capa de Kevin Murphy

2. Adiamante, de L. E. Modesitt, Jr. Um romance compacto de ficção científica do futuro distante que, sozinho, oferece alternativa à enxurrada perpétua de ficção científica que propõe o genocídio preventivo como a estratégia básica das civilizações galácticas, no máximo imaginável de darwinismo social. A solidez do suspense está a par com a filosófica.

3. South of Broad, de Pat Conroy. O último romance do recentemente falecido Conroy, é um drama de várias décadas envolvendo um fiel e traumatizado grupo de amigos na charmosa capital sulista Charleston. Mistura ficção de crime, crônica social, reflexões sobre diversidade sexual, abuso e AIDS, da maneira ao mesmo tempo sentimental e incisiva que caracteriza a obras de Conroy.

4. The Divine Comedy, de Dante Alighieri. Edição em inglês da Divina Comédia, clássico poema épico de Dante, uma das maiores construções poéticas do Renascimento. A tradução do italiano é de outro poeta mestre, Henry Wadsworth Longfellow.

5. Teoria do Drone, de Grégoire Chamayou. O mais importante livro de não-ficção que li em 2017, amarra e explicita todas as relações insidiosas de poder, guerra e alienação da opinião pública, em torno de um dos temas mais candentes do século 21: o uso de drones de ataque em “guerras” por atacado, conduzidas “contra o terror” pelos Estados Unidos. Certamente, um assunto que também tem tudo a ver com a ficção científica.

6. The Underground Railroad, de Colson Whitehead. Premiadíssimo romance afro-americano que toca o realismo mágico e a ficção científica, enquanto acompanha uma jovem que fugiu da escravidão em uma fazenda no Sul dos Estados Unidos, para descobrir outras dimensões da opressão racista conforme ela passa por outros estados e encontra extremos de organização social voltada para o controle da população negra.

7. Dragon Haven: Volume Two of the Rain Wilds Trilogy, de Robin Hobb. Segundo volume de uma tetralogia de alta fantasia ambientada no mesmo universo da Trilogia do Assassino e da Trilogia dos Mercadores de Navios Vivos. Hobb lida como ninguém com textura, caracterização, enredo e passo narrativo. Este não é o seu melhor, mas ainda acima da maioria.

8. Os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater. Primeiro de uma tetralogia de fantasia contemporânea para jovens, ambientada na Virgina e envolvendo o resgate, por um grupo de garotos esoteristas, de um rei celta sepultado no lugar, e incógnito há séculos. A prosa de Stiefvater tem uma vivacidade única e uma complexidade enganadora.

9. Beowulf’s Children Larry Niven, Jerry Pournelle & Steven Barnes. Um bojudo romance de colonização planetária escrito a seis mãos, que fiz questão de ler no ano em que Pournelle faleceu. Elabora e problematiza de modo engenhoso uma série de questões sobre liberdade, comunidade, sexo e ecologia.

10. Hunter’s Run George R R Martin, Gardner Dozois & Daniel Abraham. Outro romance de FC de colonização planetária — e outro escrito a seis mãos! Mas Hunter’s Run, que saiu no Brasil pela LeYa este ano como Caçador em Fuga, concentra-se no retrato psicológico de um único personagem, com muita aventura das antigas costurada no meio.

11. O Esplendor, de Alexey Dodsworth. Um dos romances brasileiros de FC mais ambiciosos dos últimos anos, este que é o segundo livro de Dodsworth compõe um diálogo com uma das obras-primas de Isaac Asimov, a noveleta “O Cair da Noite”. Rendeu ao autor o seu segundo Prêmio Argos (do Clube de Leitores de Ficção Científica) de Melhor Romance.

12. American Fascists: The Christian Right and the War on America, de Chris Hedges. Um necessário livro reportagem que disseca a direita cristã americana, por tabela lançando luz sobre a atual situação política os EUA — e a potencial situação política brasileira, já que também aqui essa corrente reacionária tem crescido.

13. Não Chore, de Luiz Bras. Uma novela de ficção científica tupinipunk, certamente o destaque de Luiz Bras em um ano no qual ele publicou três livros. Faz par com o seu notável romance rapsódico Distrito Federal, de 2015, embora os dois livros possam ser lidos separadamente.

14. O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis. Clássico da ficção científica americana da década de 1960, virou filme e foi lançado no Brasil apenas em 2017, pela DarkSide. Uma FC sobre alienígena infiltrado na Terra, com um expressivo conteúdo existencialista.

15. Stories of Your Life and Others, de Ted Chiang. A primeira coletânea do multipremiado contista americano, incluindo a história título que foi base do filme A Chegada. Narrativas complexas, fabulation pós-modernista e especulação científica de alta qualidade.

 

Cinema

1. Logan, dirigido por James Mangold. A Marvel entra no terreno de Cormac McCarthy, neste que é um sério candidato a melhor filme de super-heróis da história. Filme duro, tecnicamente impecável e surpreendentemente emocional, estrelado por Wolverine e o Prof. Xavier num diálogo com os westerns do passado.

2. Fragmentado (Split), dirigido por M. Night Shyamalan. Outro incomum filme de super-herói (de supervilão, na verdade) conduzido de modo diferenciado — como um admirável filme de suspense, com ótimas interpretações e uma reflexão importante sobre trauma psicológico. Só não digo que com ele Shyamalan recuperou a sua glória passada, por que de fato ele nunca a perdeu — as críticas constantes dirigidas a ele são só implicância dos críticos.

3. Blade Runner 2049, dirigido por Denis Villeneuve. A sequência do clássico de Ridley Scott é um banquete visual e uma introspectiva viagem a um plausível mundo futuro dominado por uma megacorporação obcecada em recriar e controlar a vida. Mais forte em enredo e mais fraco em sugestões de transformação social do que o proto-cyberpunk de 1982. Ainda sim, celebração de uma FC séria e cinematicamente hábil.

4. 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey), dirigido por Stanley Kubrick. Minha esposa Finisia Fideli e eu tivemos a chance de ver uma reprise deste clássico do cinema de ficção científica, com roteiro de Kubrick e Arthur C. Clarke, em uma sessão no Shopping Pátio Higienópolis, em maio de 2017. A tela grande faz toda a diferença para a linguagem visual desse filme ainda inquietante.

5. Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars Episode VIII: The Last Jedi), dirigido por Rian Johnson. O diretor Johnson devolveu a esperança ao prato principal da franquia agora dominada pela Disney, com uma história que prende a atenção, inverte construtivamente algumas expectativas, e mostra uma atuação dos jedi que vai além do usual kung-fu aéreo. Algumas premissas não estão em sintonia com o universo de Star Wars, e o roteiro insiste que devemos deixar para trás o que já sabemos sobre ele e aceitar como boas ovelhas o que será apresentado dali em diante. Esperem sentados.

6. Assassinato no Expresso do Oriente (Murder at the Orient Express), dirigido por Kenneth Branagh. O clássico de mistério de Agatha Christie tem uma adaptação engenhosa e criativa por parte de Brannagh, que usou o tom exaltado do teatro, movimentos de câmera e enquadramentos incomuns para arejar um romance em que a mãe desse subgênero de ficção de crime reflete, subverte e dignifica as próprias artimanhas.

7. A Vigilante do Amanhã (Ghost in the Shell), dirigido por Rupert Sanders. A primeira adaptação live action do anime cyberpunk original de 1995, dirigido por Mamoru Oshi, é um imbróglio pós-modernista de fluxos de capitais transnacionais plasmados em franquias e percepções étnicas em fluxo — ah, teorias pós-modernistas à parte, o filme é um triunfo da pré-produção, grande expressão do que a arte digital e as IGCs consegue realizar hoje em dia, e pouco mais do que isso.

O cinema é um grande prazer. Mas por algumas dificuldades sofridas em 2017, que incluíram falta de tempo, não vi tantos filmes quanto gostaria. Acima estão todos os que vi durante o ano.

—Roberto Causo

 

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