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Leituras de Maio de 2019

Maio foi um mês marcado pela leitura de alguma ficção científica (também em não ficção de grande interesse), com destaque para Philip K. Dick, e muita fantasia (inclusive em quadrinhos nacionais e estrangeiros), com destaque para George R. R. Martin e álbuns do Príncipe Valente.

 

Sonhos Elétricos (Electric Dreams), de anônimo, ed. São Paulo: Editora Aleph, 2018, 236 páginas. Tradução de Daniel Lühmann. Brochura. Alguém pegou dez contos de Philip K. Dick que foram adaptados para uma série de TV por streaming e colocou em um livro. Esse alguém não foi Philip K. Dick (morto em 1982) nem qualquer um dos seus simulacros conhecidos. A série em questão, do tipo antologia, chamou-se Electric Dreams e foi criada pela Sony Pictures Television, indo ao ar em 2018. O relacionamento com a série é sublinhado no livro pelas apresentações dos contos, escritas por quem realizou a adaptação de cada história para o meio audiovisual — um formato bastante incomum. Muitos desses comentários são inteligentes e cheios de insight interessantes. É claro, o projeto em si reforça o relacionamento do escritor com esse meio. Hoje, Dick é um dos escritores de FC mais adaptados.

A seleção de contos é boa, e contém títulos muito antologizados como “A Coisa-Pai” (1954) e “O Planeta Impossível” (1953). Todas as histórias estão agrupadas na primeira fase da carreira de Dick. Vão de 1953, quando ele estreou, a 1955, e trazem as marcas da FC da época — uma delícia para quem absorveu os protocolos da ficção pulp ou cresceu vendo filmes B em preto e branco. A julgar pelas histórias, Dick já sentia que a década de 1950 se tornaria uma espécie de paradigma da vida americana para as décadas seguintes. Em “Peça de Exposição” (1954), por exemplo, um historiador do futuro, especializado no século 20, ao criar um diorama de demonstração do American way of life descobre que o mergulho cognitivo naquele contexto permite uma espécie de experiência direta, uma viagem temporal ou interdimensional — e uma alienação do sujeito quanto ao seu próprio tempo. O tema da alienação é explícito em “O Enforcado Desconhecido” (1953), com a paranoia escancarada de um homem comum que acredita estar rodeado de pseudo-homens que substituíram as pessoas da sua comunidade. É impressionante a semelhança dessa história com o romance posterior de Jack Finney, Os Invasores de Corpos (The Body Snatchers, 1955), adaptado pra o cinema em 1956 por Don Siegel. “A Coisa-Pai” está dentro do mesmo clima — semelhante ao filme Os Invasores de Marte (Invaders from Mars, 1953), de William Cameron Menzies: um menino descobre que seu pai foi substituído e é telecomandado por uma criatura alienígena que ele e seus amiguinhos perseguem no quintal de casa. O principal efeito está em como a credulidade infantil parece sustentar a forma implacável com que eles se voltam contra a imagem paterna, numa alegoria surda mas violenta do conflito das gerações. Em “Foster, Você já Morreu” (1955), o autor denuncia o consumismo americano e a ansiedade causada por ele, num contexto de guerra global em que toda família precisa de um abrigo anti-bombas de última geração. Novamente, um menino está no centro da narrativa. Dick também levou seus questionamentos sobre a percepção do real para o tema da robótica, representada no livro pela noveleta “Autofab” (1955), em que fábricas automatizadas ameaçam os recursos da Terra e são combatidas por um movimento de resistência; e pelo cômico “Argumento de Venda” (1954), história mais ligeira sobre um robô impertinente, tipo operador de telemarketing, que leva um piloto espacial à loucura.

Ao longo dos anos, vimos a reputação de Philip K. Dick crescer ao ponto de ele se tornar não apenas um nome fundamental da ficção científica na segunda metade do século 20, mas também um autor fundamental para questões ontológicas que seriam exploradas dentro e fora do gênero, pela corrente pós-modernista da literatura americana. Sonhos Elétricos, apesar do oportunismo em torno da série de streaming, é uma ótima introdução à sua FC.

 

A Vida de Philip K. Dick: O Homem que Lembrava o Futuro (A Life of Philip K. Dick: The Man Who Remembered the Future), de Anthony Peake. São Paulo: Editora Seoman, 2015, 312 páginas. Fotos. Tradução de Ludimila Hashimoto. Brochura. Este é um dos livros da Seoman que ganhei de Adilson Silva Ramachandra ano passado. Um leitura interessante com pontos muito instigantes sobre a vida e as atitudes de Dick, com o diferencial de que o autor, Anthony Peake, está disposto a analisar o seu lado místico — fundamental, a propósito, para o seu projeto literário. Esta é a primeira biografia de autor de FC que eu leio. Existe uma outra “biografia” de Dick disponível no Brasil, Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos: A Vida de Philip K. Dick, de Emmanuel Carrère, pela Editora Aleph (na verdade, um romance centrado na vida de Dick).

O livro de Peake investiga, em sua primeira parte (ele é dividido em três), a infância e juventude do escritor, a família, seus primeiros empregos e relacionamentos, e os primeiros escritos. Mais tarde, os casamentos, os seus momentos místicos, o sucesso relativo e seus anos finais até a morte em 1982, pouco antes que o sucesso de Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), baseado no seu romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), o consagrasse como uma referência quase universal na cultura do século 20. É interessante mencionar especialmente o fato de que Peake combina a biografia de Dick com uma série de boxes com informações sobre os principais romances de Dick. Desse modo relativamente discreto, o livro combina biografia com referência. O tempo todo, Peake pontua a sua discussão da vida de Dick com a tese de que de algum modo o escritor americano enxergaria cenas e situações do futuro — daí o subtítulo, O Homem que Lembrava o Futuro, certamente devendo algo a histórias de Dick como “We can Remember it for You Wholesale” (1966). Ele ampara a sua especulação com trechos de histórias, de entrevistas e da correspondência de Dick, além de depoimentos de gente que o conheceu. Seus argumentos são intrigantes, mas ele não os força sobre o leitor.

A segunda parte se concentra justamente em imaginar uma explicação mística para as experiências transcendentes que Dick afirmava ter vivido. Mas equilibrando a questão, e com ainda mais firmeza, Peake busca na terceira parte uma explicação neurológica — e portanto materialista — dessas experiências, indo de enxaqueca a overdose de vitaminas e AVCs isquêmicos. O assunto é fascinante em si mesmo, mas há o suficiente em A Vida de Philip K. Dick fora dessas especulações, para cativar também quem não se interessa por elas e busca apenas insights sobre a vida e a obra de um grande escritor que a FC apresentou ao mundo.

 

O Cavaleiro dos Sete Reinos (Knight of the Seven Kingdoms), de George R. R. Martin. São Paulo: LeYa Editora, 2016 [2015], 504 páginas. Tradução de Márcia Blasques. Ilustrações internas de Gary Gianni. Capa dura. Ainda sobre o impacto da última temporada de Game of Thrones, peguei esta reunião de três novelas ambientadas no mesmo universo, adquirida em uma promoção nas Lojas Americanas há pouco tempo. Eu já tinha comprado, no mesmo lugar, outra edição do mesmo livro, sem as belas ilustrações internas de Gary Gianni, mas com uma capa colorida do ubíquo Marc Simonetti. Foram justamente as ilustrações de Gianni que me atraíram para esta edição especial. Os outros dois livros com ilustrações desse artista de destacada passagem pelas páginas dominicais do Príncipe Valente que li foram The Bloody Crown of Conan (2003), de Robert E. Howard, e Gentlemen of the Road, de Michael Chabon — ambos com um excelente trabalho de Gianni. Sem dúvida, o  envolvimento com Príncipe Valente e as suas habilidades o tornaram um requisitado ilustrador de miolo. Por outro lado, não sou muito fã dessa capa dura com efeito metalizado. É uma adaptação local, e com ela perdemos uma arte colorida de Gianni…

As novelas reunidas são “O Cavaleiro Andante”, “A Espada Juramentada” e “O Cavaleiro Misterioso”. Na introdução, Martin esboça a história de Westeros e informa que a primeira narrativa ocorre uns 100 anos antes do início das Crônicas de Gelo e Fogo, base para a série Game of Thrones. A primeira novela conta como Duncan, ou “Dunk”, um escudeiro elevado a cavaleiro andante pelo cavaleiro a quem servia (e que morre e o deixa livre para cair na estrada), encontra seu futuro escudeiro: um menino pequeno, de cabeça raspada, que se banha em um regato e passa a ser chamado de Egg. Dunk é um tipo grandão com algumas habilidades de guerreiro, e logo fica claro que o moleque conhece mais da heráldica e de quem é quem no mundo da aristocracia de Westeros, do que ele. O objetivo dos dois é inscrever Dunk em um torneio, na esperança de que ele vença algumas justas e possa renovar o seu equipamento depauperado e ganhar uns cobres. No processo, Dunk salva uma moça marionetista que era assediada por um aristocrata. O ato o torna popular entre os camponeses, que se recordam de que a obrigação do cavaleiro é proteger os fracos, mas coloca o cavaleiro pobre e trapalhão na mira de um castigo aleijante. Com a ajuda de Egg (cuja origem surpreendente é revelada), cavaleiros de importância são recrutados para defender Dunk — e nesse ponto a ironia característica de Martin faz sua primeira aparição, com a morte inesperada de uma figura importante para Westeros. Toda a coisa do torneio é muito rica e lembra o episódio de Príncipe Valente (veja abaixo) em que o herói se inscreve secretamente em um, na tentativa de conquistar a glória que a sua condição de escudeiro não permitia.

A segunda história mostra a dupla defendendo as terras de um senhor feudal decaído, e vítima da injustiça da senhora que controla a rica propriedade vizinha. A princípio, Dunk tem que treinar, os camponeses do seu senhor como soldados. A situação é cômica e potencialmente trágica. Para evitar um massacre, Dunk vai parlar com a senhora vizinha, que se interessa romanticamente (ou sexualmente) por ele. Depois de uma série de incidentes, o herói descobre que não há uma recompensa reservada a ele. A narrativa final tem a dupla novamente envolvida com a realeza traiçoeira de Westeros, quando eles se apresentam num torneio organizado para honrar um casamento, com um ovo de dragão como prêmio ao vencedor. No processo, descobrem uma intriga de traidores para agitar uma nova revolta contra os monarcas que estão no poder naquela época do mundo de fantasia de Martin, os Targaryens. Livre dos truques usuais de Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo, a narrativa de O Cavaleiro dos Sete Reinos é mais leve e dá mais espaço à contemplação de como ele pinta a sua fantasia medieval e os seus habitantes. Acaba sendo nostálgico e realista ao mesmo tempo, rico em enredo e textura. A dinâmica entre Dunk & Egg é divertida e os toques sobre o tecido social e a economia medievalesca de Westeros dão mais consistência às Crônicas. Adorei o livro, e viajei com o casamento perfeito de textos e ilustrações.

 

Arte de capa de Keith Parkinson.

Debt of Bones, de Terry Goodkind. New York: Tor Books, 1.ª edição, 2004 [1998, 2001], 160 páginas. Arte de capa e ilustrações internas de Keith Parkinson. Paperback. Goodkind é um best-seller da alta fantasia nos Estados Unidos e em vários cantos do mundo, com a série The Sword of Truth, cujos livros aparentemente nunca foram publicados no Brasil, mas que estão parcialmente disponíveis em Portugal pela Porto Editora. Assim como o livro de Martin discutido acima, este apresenta uma aventura ocorrida bem antes dos eventos principais da série — e também é um livro com ilustrações. Nessa novela, a camponesa filha de feiticeira Abby vai até a cidade grande em busca de ajuda do grão-mago Zedd Zorander — que está muito ocupado defendendo o seu país da invasão mágica de tropas do tirânico Império de D’Hara. Em um fabuloso mise-en-scène, Zedd fala com Abby enquanto atende simultaneamente dezenas de outras demandas táticas do conflito. A princípio ele rejeita a demanda da moça, cujo marido e filha foram tomados pelos invasores, mas cede quando ela exige que ele cumpra uma dívida de ossos (como no título): um antepassado de Zedd (um dos personagens principais da série) foi beneficiado pela mãe de Abby, e o osso examinado por ele certifica a dívida.

Quando Abby retorna à sua vila invadida, fica claro que a moça é sendo chantageada pelas forças inimigas. Também fica claro que a concordância de Zedd acaba sendo uma situação do tipo O Resgate do Soldado Ryan, em que aquilo que parece uma exceção pessoal inserida em um vasto conflito acaba confluindo para uma situação estratégica ou tática legítima. A narrativa é bem equilibrada e bem construída, reservando duras lições a Abby. A ilustração de Keith Parkinson tem composição simples mas uma execução brilhante em termos de luz, sombra e atmosfera. Suas artes internas (apenas meia dúzia) são mais simples, feitas a grafite e portanto com um nível de acabamento menor que as de Gary Gianni, mas mesmo assim encantam e iluminam o texto. Desencarnado muito cedo, aos 47 anos, Parkinson foi um artista rico e sofisticado, de quem os jogadores brasileiros de RPG devem se recordar (artes dele apareceram na capa da revista Dragon).

 

O Guia Geek de Cinema (The Geek’s Guide to SF Cinema), de Ryan Lambie. São Paulo: Editora Seoman, 2019 [2018]. Apresentação de Cláudia Fusco. Prefácio de Roberto Causo. Posfácio de Adilson Silva Ramachandra. Capa dura. Depois da publicação de A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts, a Seoman volta a contribuir com a pesquisa e a contextualização crítica da ficção científica com este livro de um dos editores do site Den of Geek. Tive a honra de ser convidado, por Adilson Ramachandra, para escrever o prefácio que se segue à ótima apresentação de Cláudia Fusco. Também fiquei muito feliz de sugerir a contribuição de Alfredo Suppia, um especialista em FC no cinema brasileiro, que contribuiu com uma lista de produções de interesse que merecem atenção. Com isso, o cinema brasileiro não ficou de fora do livro, que conta ainda com várias listas dos melhores filmes, agregadas por Ramachandra ao posfácio escrito por ele.

O livro de Lambie, propriamente, é engenhosamente dividido em capítulos temáticos que se dispõe cronologicamente, discutindo assim a evolução da FC no cinema a partir dos seus grandes marcos, indo de Viagem à Lua (1902) até A Origem (2010). Desse modo, o livro também é uma grande lista. Mas com o diferencial de discutir uma série de outras produções a cada capítulo, identificando semelhanças sob uma mesma chave dentro de cada período. Uma ficha com os títulos “suplementares”, por assim dizer, fecha os capítulo. Lambie não é elitista, e por isso comenta filmes pouco babados pela crítica e mais populares, como Godzilla (1954) e Independence Day (1996), ao lado de grandes títulos como Metrópolis (1927), Dr. Fantástico (1964), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), Blade Runner (1982) e Matrix (1999). O texto de Lambie é fluido, animado e com grande poder de síntese. Ele foge da superficialidade que encontramos em muitos sites e blogs, por meio de uma abordagem que destaca o modo como os filmes e os temas que aborda expressam o espírito da época e suas questões políticas e sociais, sem, obviamente, ser “pesado”. Desse modo, o guia valoriza o seu assunto e favorece tanto a leitura completa do volume quanto a consulta constante dos filmes e temas que Lambie elegeu. Recomendo com entusiasmo.

 

As Aventuras de Honey Bel, de Miguel Carqueija. São Bernardo do Campo: Edições Electron/Edições Hiperespaço, 2017, 64 páginas. Artesanal. Assim como eu, Braulio Tavares, Cid Fernandez, Finisia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Henrique Flory, Ivan Carlos Regina, Ivanir Calado, Jorge Luiz Calife, Roberto Schima e Simone Saueressig, Miguel Carqueija é um escritor da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015). Apareceu em muitas antologias ao longo dos anos (Possessão Alienígena sendo a mais recente) e seu trabalho marcou a fase dos fanzines desse período. O desktop publishing e a era dos blogs e e-books forneceram a ele um espaço análogo ao dos fanzines, para a sua produção de FC e fantasia em geral leve e descompromissada, voltada para os jovens mas provavelmente sem alcançar esse público específico. Os seus trabalhos mais conhecidos devem ser o conto “Camarões do Espaço” (2009) e a novela juvenil Farei meu Destino (2008).

Esta é uma edição amadora de novela de ficção científica humorística. Honey Bell é uma garota  desmiolada que só pensa em arrumar casamento, mas acaba recrutada para agir como agente secreta. A premissa é estranha e exige que o leitor confie na narrativa até que os fatos esclareçam que quem entrou pelo cano foi o malandro que a recrutou. O humor vem da oposição entre o que a heroína enfrenta e o mundo emocional açucarado que ela projeta o tempo todo. É um recurso que a gente vê com frequência nos animes, uma das áreas de interesse do autor. Mas como Carqueija conhece FC a fundo, ele enriquece o enredo e a caracterização da garota com um truque interessante — ela consegue reconhecer meio que por instinto os pontos de estresse e de fratura de inimigos e de estruturas, de modo que, apesar da falta de juízo, termina sempre sendo eficiente. Carqueija só não explica de onde vem essa habilidade (de um implante cibernético, de uma mutação?), talvez guardando a explicação para uma nova aventura da personagem.

 

Arte de capa de John Spencer.

O Lobo (The Wolf), de Joseph Smith. Rio de Janeiro: Objetiva, Alfaguara, 2009, 136 páginas. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Capa e ilustrações internas de John Spencer. Brochura. O selo Alfaguara da Objetiva, no qual este livro foi publicado, é um dos espaços privilegiados da publicação de ficção mainstream no Brasil. Causa certa estranheza encontrar uma fábula nesse espaço, o que me fez adquirir este romance de estreia do inglês Joseph Smith, em uma feira de descontos num dos saguões do Shopping Cidade de São Paulo, em Sampa. Já anotei aqui outras fábulas: Fábulas Ferais (2017), de Ana Cristina Rodrigues, e O Chamado dos Bisões (2017), de Paola Giometti.

Na fábula de Joseph Smith, o lobo, fera que vive no topo da cadeia alimentar dos bosques europeus, é vítima, por isso mesmo, do seu próprio húbris: ele desafia o homem, na sua indefectível cabana isolada na mata, presente em tantos contos de fadas. O resultado é vexatório, o que leva o predador a descontar a frustração em uma raposa. Esta, sempre implorando pela vida com os olhos, promete levá-lo a uma refeição especial.

“Implorar com os olhos” é mais do que uma expressão, já que o contato visual, nesta fábula, conduz a uma forma de comunicação não verbal — um dispositivo literário muito inventivo, que supre a necessidade de diálogos sem que a narrativa necessariamente caia no truque tão próprio da fábula, que é o animal falante. A refeição especial é um cisne preso em uma poça d’água, no fundo de um poço natural entre os interstícios de uma caverna. Neste momento, os sentidos de O Lobo se aprofundam. De repente, a atmosfera torna-se quase metafísica, e aos poucos o leitor se vê tentado a enxergar o livro menos em termos de eventos estranhos vividos pelo imaginário ponto de vista de animais, e mais como alegoria de algo maior. As raposas passam a ser mais que bichos espertos tentando enganar o predador estúpido. Elas representam tudo o que há de mesquinho e que precisa do monstruoso e do brutal para destruir a beleza. Ilustrado com xilogravuras de John Spencer, O Lobo é um livro belo e perturbador, escrito ao mesmo tempo com sensibilidade e a qualidade cortante de uma faca.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Fred Rubim.

Contos do Cão Negro Volume II: A Canção do Cão Negro, de Cesar Alcázar & Fred Rubim (arte). Porto Alegre: AVEC Editora, 2017, 64 páginas. Álbum. O personagem de fantasia heroica Cão Negro é uma criação do escritor gaúcho Cesar Alcázar, desenvolvido em contos e em histórias em quadrinhos. Já tive chance discutir aqui a sua novela A Fúria do Cão Negro (2014). O primeiro álbum desta série de quadrinhos, O Coração do Cão Negro, saiu em 2016.

Este segundo volume traz o violento e melancólico mercenário Anrath, vulgo “Cão Negro”, em meio ao resgate de uma mulher irlandesa sequestrada por vikings da Islândia. Anrath é o capitão de um barco que, depois que ele e seus homens são pagos, passa a ser seguido por um antigo companheiro de armas em busca de vingança, Ulf Gunnarson. Ulf arma uma eficiente emboscada, e Anrath e seu colega Rorik são feridos e acabam náufragos em uma ilhota. Anrath se separa do amigo e vai parar em uma caverna onde encontra comida, bebida e os braços de uma misteriosa mulher — que se revela de origem sobrenatural.

O verdadeiro arco desta narrativa se inicia, porém, quando Anrath se despede da bela Aella, uma companheira de aventuras, negando-se a abandonar a violência pelo amor. E o amor acaba sendo o tema da HQ, já que é esse sentimento o que a morena misteriosa da caverna oferece como letal ferramenta de sedução. A parceria de Alcázar com o artista Fred Rubim torna a render bons frutos neste segundo álbum, embora me pareça que de um para o outro a arte tenha se tornado ainda mais áspera a irregular.

 

Príncipe Valente 1937, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Álvaro Pons. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. Este é o primeiro volume da Coleção Príncipe Valente, nas bancas brasileiras importada de Portugal, onde é produzida. A coleção vai do primeiro ano de produção da página dominical do imortal herói criado por Hal Foster (em 1937) até 2018. O acabamento é bonito sem ser ostensivo, o papel é de boa qualidade sem ser couché, e a reconstituição das cores originais é bonita, embora, a julgar pela comparação com a edição reconstituída pela americana Fantagraphics (2009), sem a mesma qualidade esmaecida e aquarelada. O que eu mais temia era que a tradução para o português europeu apresentasse o tipo grave de problema que a Coleção Star Wars Classics apresentou. Felizmente, isso não acontece, embora haja uma “gralha” aqui e ali — inclusive na edição que não segue exatamente o original e as suas sinopses e chamadas para a página dominical da semana seguinte.

De qualquer modo, a magia da criação de Foster está presente no livro, que é agradável de se manusear. O formato da narrativa de Valente sempre foi biográfico, e no ano 1 ele e sua família chegam da terra mítica de Thule à Bretanha, como uma família real destituída e em exílio. Depois de choques com os bretões, instalam-se em uma ilha solitária no meio de um vasto pântano rondado por criaturas antediluvianas que trazem os primeiros maravilhamentos à aventura do príncipe. Valente se torna o derradeiro escoteiro, metendo-se na charneca com um garoto local da sua idade (11, 12 anos) e aprendendo a viver da abundância da terra, mas se metendo com figuras monstruosas que também usam o lugar como refúgio. Entre elas, uma bruxa e seu filho deformado que o garoto, já mais velho, quase mata de pancada. Depois de devolvê-lo à mãe, o rapaz ouve como castigo o vaticínio da vidente. Na profecia, o resumo das aventuras futuras do herói, e da dimensão existencial das andanças e triunfos que não lhe trarão felicidade. Daí não apenas a afirmação da face existencial equilibrando a aventura incansável, mas também testemunho da ambição de Foster, que já teria o rascunho da evolução da sua HQ ao iniciá-la.

Abalado pela profecia e pela subsequente morte de sua mãe (agourada pela bruxa), o sinal mais claro do caráter do rapaz é ele ter partido em busca do seu destino. No processo, encontra cavaleiros da Távola Redonda e se torna escudeiro de Sir Gawain, em Camelot. As várias aventuras posteriores em que luta contra um dragão (racionalizado como um crocodilo marinho gigante), ajuda a aprisionar salteadores, liberta um ferido Gawain do cativeiro e encontra seu primeiro amor ao liberar o castelo da moça de usurpadores funcionam mais para demonstrar a sagacidade e os recursos do herói. Os próximos volumes trarão arcos mais intensos e representativos da arte e da imaginação de Hal Foster. Cada livro terá um ensaio a título de introdução, tratando da obra do artista canadense. Álvaro Pons responde pelo primeiro ensaio, no qual enfatiza a qualidade adulta da obra de Foster (uma novidade na época), e como ele racionaliza os elementos mágicos costumeiros da fantasia arturiana.

 

Príncipe Valente 1938, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. O segundo livro da Coleção Príncipe Valente abre com o jovem herói usando o feitiço contra o feiticeiro, na sugestiva sequência em que o boato sobre um ogro horrível atacando os viajantes se revela como um bando de ladrões fantasiados. Capturado por eles, Valente escapa usando a sua engenhosidade ímpar de escoteiro. Ele retorna com a sua própria fantasia, para “assombrar” como um demônio alado, o castelo dos salteadores. De fato, constantemente o herói racionaliza a magia e o sobrenatural, mas logo depois se mete entre um duelo de feitiços entre a fada Morgana e o mago Merlin, numa situação fantástica em que nada é racionalizado.

Poster da adaptação de Príncipe Valente para o cinema, por Henry Hathaway.

O jovem príncipe desterrado não tem descanso. De volta a Camelot, tem notícia de que sua paixão, Lady Ilene, vai se casar com o Príncipe Arn. Ele logo parte, disposto a confrontar Arn pela mão da garota, mas no caminho se depara com evidências de uma invasão viking. Antes de encontrar os invasores, encontra o próprio Arn, com quem se bate e resgata de um azarado tombo em águas revoltas. O surgimento dos vikings obriga os dois a uma trégua. Arn vai proteger Ilene, instado por Valente, que fica com a famosa Espada Cantante do seu rival, para ganhar tempo segurando o inimigo em uma ponte de pedra. Esse é um dos momentos antológicos da saga do herói, com um dos painéis mais inspirados de Hal Foster. Exausto, Valente é capturado e levado à presença do chefe viking Thagnar, enfrenta o seu gigantesco carrasco em uma peleja de luta olímpica, e revê Ilene. Nem ele nem Arn, porém, terão a mão da jovem. Esse arco narrativo termina com os dois príncipes antes rivais e agora amigos como náufragos em Thule, firmando aí o primeiro retorno de Valente à sua terra natal, desde o exílio de sua família nas charnecas da Bretanha.

De volta a Camelot, temos aquele delicioso arco em que Valente se inscreve no grande torneio como o incógnito cavaleiro sem brasão e destituído de armas, mas que não obstante desafia ninguém menos que Tristão, o segundo melhor cavaleiro de Arthur. A sequência, se a memória não falha, entrou no filme de 1954 (acima). Mas o herói acaba humilhado e volta para as terras de seu pai nas charnecas. O retorno é um movimento esperto da parte de Foster — esse mundo selvagem é belo e repleto de significados místicos, que o artista torna a explorar. Mais importante, dá a chance de Valente se deparar com uma nova invasão, início do arco mais dinâmico e significativo da primeira fase das aventuras do jovem herói.

 

Príncipe Valente 1939, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. A sagração de Valente como cavaleiro fecha o notável arco narrativo iniciado no volume anterior, depois que o rapaz alerta o Rei Arthur de que a esquadra invasora dos saxões oculta-se nos pântanos, e elabora um plano astuto para entregar o inimigo de bandeja ao rei. Basicamente, termina aí a fase arturiana dos primeiros anos das páginas dominicais do herói. Logo depois, Foster o lança na empreitada de recuperar o reino do seu pai em Thule — um arco talvez abreviado demais e livre de grandes complicações, seguido de uma situação cômica em que a filha do rei deposto tenta seduzir Valente, mas acaba se apaixonando pelo melhor amigo do herói. A partir daí, minha memória das aventuras de Valente ficou mais nebulosa, talvez porque toda a trama da invasão dos hunos não tenha me parecido tão interessante quanto deveria. Há uma força cruel nessas passagens, porém, em especial quando Valente se une aos defensores de um castelo liderado por um galante lorde que enfrenta os hunos com um sorriso nos lábios. A noção de que o combate contra os invasores asiáticos é um esporte pulsa de maneira incômoda em vários momentos, mas é o terrível estoicismo hedonista do Lorde Camoran que marca o arco como um episódio digno da crueldade de um George R. R. Martin. Comoran e os seus vassalos e damas vivem como se não houvesse amanhã, até que não há, e todos se conformam à morte sem que cedessem aos invasores.

A partir daí, Valente, de maneira talvez pouco característica em relação aos episódios anteriores da sua saga, comanda uma guerrilha contra os hunos, até que sua fama cresce e ele reúne um exército vitorioso na Europa central. Reencontra-se com Gawain e Tristão, que se unem à sua causa. Já perto do final do volume, Valente se infiltra na cidade controlada pelo Conde Piscaro, um colaboracionista dos hunos, e é capturado e torturado por ele, escapando com truques de capa e espada. A maior parte do volume me pareceu divergir do espírito da série. Apenas o episódio em que Valente tem um vaticínio místico com um feiticeiro que vive em uma caverna traz uma aura mais próxima desse espírito. É como se Foster, sentindo que realmente realizara algo de especial até o ponto da sagração de Valente, meteu-se a elaborar fiadas aventurescas menos características, talvez por influência das suas pesquisas. Mas a questão dos hunos é intrigante e vale outro grau de considerações: em 1939 a Segunda Guerra Mundial já rolava na Europa. Sendo canadense, Foster provavelmente era mais sensível à questão de como a Inglaterra e a Europa continental sofriam nas mãos dos alemães — alcunhados de “hunos” desde a Primeira Guerra. A hipótese não é doideira da minha cabeça, tendo entrado no livro Arthurian Writers: A Biographical Encyclopedia (2008), editada por Laura Lambdin & Robert Thomas Lambdin. Assim, a luta do herói contra o terror huno pode muito bem ter expressado o  desejo de uma vitória das democracias contra o nazi-fascismo.

—Roberto Causo

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Leituras de Abril de 2019

As leituras de abril incluíram tipos bem diferentes de ficção científica, e também suspense, fantasia contemporânea e horror, além de space opera em quadrinhos.

 

O Veterano e Outros Contos de Suspense (The Veteran), de Frederick Forstyth. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009 [2001], 278 páginas. Tradução de Ruy Jungmann. Livro de bolso. Do inglês Forsyth eu li O Pastor (1971), uma novela com tema natalino, envolvendo um caça a jato que, perdido e sem instrumentos, encontra um avião-fantasma da II Guerra Mundial que o ajuda a encontrar o caminho de casa. É um favorito meu — assim como o thriller O Dossiê Odessa, cujo herói é um jornalista às voltas com nazistas que fugiram para a América do Sul. O próprio Forsyth foi tanto piloto de caça na RAF quanto jornalista. Este livrinho, da investida da Record ao campo do livro de bolso, reúne quatro noveletas de suspense e ficção de crime. A história-título abre o livro. Nela, o mistério se estabelece em torno de um homem de meia-idade violentamente atacado por dois assaltantes na rua, e cuja identidade se mostra difícil de determinar. A história segue investigação dos culpados e da identidade da vítima, e quando parece que os investigadores estão fechando as duas questões, a história se complica com a entrada de um grande advogado que resolve defender os criminosos — levando a história a um final insuspeito. Em “O Veterano”, o drama de identificar a vítima prepara o suspense do desfecho. Usando de um narrador onisciente, ficamos sabendo que o homem agredido era um veterano de combates no Iêmen porque o narrador de Forsyth mergulha em sua mente em coma, revivendo as situações de combate. Na sequência, vem a segunda melhor história do livro, “A Arte do Essencial”, sobre a malandragem no mundo da arte — tema que explorei em minha noveleta “Phoenix Terra”, parte da série Shiroma, Matadora Ciborgue. É pena que esta história não feche o livro. A terceira, “O Milagre”, é uma feroz brincadeira com religião e as expectativas do leitor. A história final, “O Cidadão”, ambientada em um avião de carreira vindo de Bangcoc (portanto, é a história representada na capa), funciona muito bem como suspense mas não tem a força de textura e de enredo dessas duas que eu aponto como favoritas. Ruy Jungmann é um autor da Geração GRD que se tornou um prolífico tradutor profissional. Infelizmente, a preparação de texto de O Veterano deixa a desejar.

 

Arte de capa de Anna Maeda.

Interferências (Crosstalk), de Connie Willis. Rio de Janeiro: Suma, 2018 [2016], 464 páginas. tradução de Viviane Diniz Lopes. Arte de capa de Anna Maeda. Brochura. A Suma já tinha investido em Willis, a escritora número 1 do movimento humanista na ficção científica pós-modernista americana, com o admirável O Livro do Juízo Final (Doomsday Book), que anotei aqui em julho de 2017. Desta vez, a editora traz o romance mais recente da autora, primeiro publicado em 2016. Nele, a autora exercita a sua verve humorística e o seu talento para os diálogos e a comédia de erros, em uma narrativa de futuro próximo envolvendo telepatia, dispositivos móveis e redes sociais.

No futuro próximo, a heroína Briddey (“noivinha”) trabalha em uma empresa de aparelhos celulares em busca de um novo super-aplicativo, e está para realizar um procedimento cirúrgico que promete criar uma ligação empática entre ela e seu namorado, o ambicioso zé bonitinho Trent Worth. A notícia vira a fofoca número 1 da empresa, atraindo a atenção do supernerd C. B. Schwartz, a mente criativa da empresa. C. B. sai da sua toca nos porões da firma para alertar a moça a não fazer o procedimento, mas não tem jeito. Ela vai em frente e desenvolve a telepatia como efeito colateral. A partir daí, surge uma quantidade de situações cômicas e grotescas, enquanto ela é treinada por C. B., também ele um telepata, a administrar o “dom” sem enlouquecer no processo, e se esquiva de Trent, que a jogou na fogueira e está de butuca na esperança de utilizar comercialmente a telepatia. Aí está o centro intelectual, por assim dizer, do romance: a sugestão do quão insana é a busca insana por conexão que está por trás dos celulares e redes sociais, com suas implicações desastrosas sobre a privacidade. Para sublinhar esse sentido, Willis convoca uma série de delirantes personagens secundários, a maioria pertencente à família de Briddey, como a irmã neurótica e a sua aventurosa filha, ma garotinha que tem um papel central reservado a ela. O tempo todo, Briddey é afligida por telefonemas dos familiares, desviando-a da tarefa de sobreviver. Há ainda uma brincadeira étnica, na sugestão de que a telepatia seria um recessivo genético dos irlandeses, lastreada no folclore celta e a sua coisa de outro mundo, fadas e espíritos. É claro, no final ou no meio do caminho, Briddey descobre o seu verdadeiro amor e aprende algo sobre si mesma, já que o romance também possui um fundo feminista discreto. Apesar do tom leve e da capa de Anna Maeda que indicam que a história pode agradar ao público feminino jovem, Interferências é um romance completo, com ótimos diálogos, tensão e suspense, dramaticidade e uma inteligência brilhante que transparece em quase todas as páginas. Um dos bons lançamentos de 2018.

 

Arte de capa de Alex CF/Adrian Wood.

Extraordinary Engines: The Definitive Steampunk Anthology, de Nick Gevers, ed. Nothingham: Solaris, 2008, 444 páginas. Arte de capa de Alex CF/Adrian Wood. Paperback. É hora de eu voltar a encarar a leitura de histórias steampunk, já que um dos objetivos para o ano que vem é terminar o primeiro ciclo das Aventuras de Ulisses Brasileiro, o personagem que estreou na minha noveleta “O Plano de Robida: un voyage extraordinaire” (2009). O editor desta antologia, o sul-africano Nick Gevers, foi um resenhador muito ativo na revista Locus, antes de se graduar a compilador de antologias. O steampunk é um subgênero da FC ou da fantasia que remete aos caminhos já tomados pelo gênero na segunda metade do século 19 e no início do século 20, e reimagina uma tecnologia de FC semelhante ao que se pensava então. Extraordinary Engines é uma antologia original, quer dizer, todas as histórias reunidas foram escritas para o livro, e não captadas de outros veículos. Os autores são James Lovegrove, Marly Youmans, Kage Baker, Ian R. MacLeod, Margo Lanagan, James Morrow, Adam Roberts, Jeff VanderMeer, Jay Lake e Jeffrey Ford.

É interessante que quase todos os autores obedeceram a uma regra não explicitada: não criar uma textura steampunk com muitos elementos icônicos do subgênero, como balões dirigíveis, sociedades secretas, autômatos elétricos, a vapor ou de dar corda… Ao invés, trabalharam com um número restrito de elementos. A história que mais comunica o clima cômico-satírico da fase do subgênero dominada pelos pioneiros K. W. Jeter, James P. Blaylock e Tim Powers na década de 1980 é “Steampunch”, de James Lovegrove. A outras parecem calculadas para expressar a distância que o steampunk teria percorrido de lá pra cá. Os demais participantes são Marly Youmans, Kage Baker, Ian R. MacLeod, Margo Lanagan, James Morrow, Keith Brooke, Adam Roberts, Robert Reed, Jeff VanderMeer, Jay Lake e Jeffrey Ford. Autores que estão aí e que têm claramente um compromisso com o steampunk são MacLeod, VanderMeer e Lake. O primeiro, sempre com um texto elegante e enigmático, está lá com “Elementals”; o segundo, com o melancólico “Fixing Hanover”; e o último com “The Lollygang Save the World on Accident”. O Adam Roberts listado é o acadêmico que escreveu o recente A Verdadeira História da Ficção Científica (2016), e conhecido dos brasileiros pelo seu mui citado livro introdutório Science Fiction (2000).

Admito que a única história do livro que me impressionou, e muito, foi “Machine Maid”, da elogiada Margo Lanagan. Ambientado na Austrália, a história narra as explorações da pudica e reprimida esposa de um senhor de terras, que descobre a utilização sexual que seu marido faz de uma empregada doméstica robótica. É uma história complexa, na qual pulsam de maneira ora velada, ora explícita, elementos de fetiche, autodescoberta sexual, crítica ao patriarcalismo rural e ao autocerceamento feminino, e comunica um erotismo palpável e perturbador. É também uma história de vingança, com a esposa armando uma armadilha castradora no autômato. A capa apresenta um dispositivo criado pelo artista inglês Alex CF, fotografado por Adrian Wood, lembrando que o steampunk também é um movimento estético que envolve design de roupas, adereços e outros objetos.

 

The Man Who Folded Himself, de David Gerrold. New York: Random House, 1973, 148 páginas. Hardcover. O primeiro livro de Gerrold que li, ainda na adolescência, foi O Diabólico Cérebro Eletrônico (When Harlie Was One), romance sobre inteligência artificial indicado aos principais prêmios da FC e publicado na saudosa coleção de FC da Editora Hemus. Mais tarde, ele voltou ao Brasil pelo menos mais uma vez, com a “novelização” de Star Trek A Nova Geração: Encontro em Farpoint. Sua ligação com Star Trek é bem antiga, inclusive. Ele foi o autor do famoso episódio com os “pingos”.

Este é um romance de ficção científica sobre viagem no tempo. Seu centro é o dilema existencial do viajante, um adolescente americano criado como órfão e elevado a herói de FC por seu tio, que ao morrer deixa a ele um cinto que faculta a viagem temporal. O dilema é interessante em si, mas se realiza na forma de uma espécie de delírio narcisista em que o jovem envelhece apaixonado por si mesmo e realiza mil alterações no passado (particularmente dos EUA) por, basicamente, diversão e correção da sua própria personalidade, criando inúmeras variações de si mesmo. A narrativa é em primeira pessoa, é claro, em muitos momentos fazendo a mímica das anotações, às vezes altamente emotivas, das diversas variações do personagem. Algumas dessas variações são do sexo feminino, e ele chega a ter um filho com uma delas. O centro do romance, porém, está na paixão homossexual do herói pelas variações dele mesmo. Incomoda não apenas o gritante narcisismo, que tem um aspecto estrutural importante, já que ele se esquiva completamente da viagem no tempo como um encontro com uma alteridade disposta no tempo, ficando só na vida boêmia de festança e orgias, restritas a um único participante multiplicado. Mas também os comentários sobre a relação heterossexual como complicada demais para o homem, que tem que se colocar como dominante para satisfazer as expectativas da mulher. Gerrold é um autor abertamente gay, mas mesmo dando um desconto para o quanto o pensamento queer avançou da década de 1970 pra cá, não dá para deixar de sentir que ele se enroscou muito neste romance, reafirmando o clichê psicanalítico da relação entre homossexualismo e narcisismo. Uma das armadilhas do freudismo, eu imagino, é justamente dar uma legitimidade intelectual que às vezes mascara categorias de pensamento que já foram confrontadas ou relativizadas.

 

Arte de capa de Carolina Mylius.

Encruzilhada, de Ademir Pascale. Praia Grande: Literata, 2011, 104 páginas. Texto de orelha de Álvaro Domingues. Arte de capa de Carolina Mylius. Brochura. Algo que fica claro sobre o dinâmico agitador e escritor Ademir Pascale, pela leitura desta novela (e antes, do romance O Desejo de Lilith, de 2010), é a representação de um ethos de classe média baixa e a ambientação paulistana como o seu palco. Encruzilhada é uma história de pacto(s) com o Diabo, como a bonita ilustração de capa de Carolina Mylius deixa claro (assim como o título). Ambientada no Centro Velho e suas galerias, e também nas ruas dos bairros de Pinheiros e Vila Madalena, acompanha por um lado o jovem Allan, que está numa pior em termos profissionais e românticos. As outras linhas seguem um padre com um passado safado e misterioso, e um lutador brasileiro campeão mundial de boxe. A esses dois personagens faltam elementos de contextualização mais sólidos, mas nem por isso a narrativa deixa de se conduzir com textura e suspense, até o clímax revelador.

É interessante que o infame O Livro Negro de São Cipriano, criação do decano dos escritores pulp brasileiros, R. F. Lucchetti, tenha um papel no ritual de invocação demoníaca descrito por Pascale.

 

Arte de capa de Matt Stawicki.

Margaret Weis’ Testament of the Dragon, de Margaret Weis & David Baldwin, eds. Nova York: HarperPrism, 1997, 106 páginas. Arte de capa de Matt Stawicki. Hardcover. Em fins da década de 1990, a HarperCollins, via selo HarperPrism, investiu no que chamou de “illustrated novel” (romance ilustrado), embora fosse, claramente uma antologias curtas de textos ilustrados, em cima de um novo universo criado por um grande nome da fantasia — dentro da lógica do “universo de aluguel” — aqui, Margaret Weis (com David Baldwin). Tenho em casa, dentro dessa linha de livros, Anne McCaffrey’s The Unicorn Girl (1997), Tad Williams’ Mirror World (1998), e este Margaret Weis’ Testament of the Dragon — adquirido em uma das minhas garimpagens na loja Terramédia, hoje Omniverse.

O livro é composto de uma curta introdução, seguida da primeira história, mais longa: “Brother to Dragons”, de Jeff Grubb com ilustrações de Steve Lieber. A história é escrita com muito charme, e desenvolve a premissa do livro, a história do assistente humano de um wyrm, um tipo de dragão, em guerra contra uma sociedade secreta que, supostamente, quer destruir o mundo. A história é violenta e cabe bem na definição de horror, e abre com o anti-herói humano, Justin, atacando um grupo de universitários reunidos em um celeiro, para sacrificar um gato e invocar um dragão. Há muitos detalhes sobre as mutilações e mortes, antes que a história se estabilize para contar o background de Justin, um lorde escocês do século 14, cooptado e tornado imortal pelo monstro. Hoje, ele tem uma loja de fanzines em uma metrópole americana. Como erudito medievalista, torna-se consultor da polícia — após a morte de um professor universitário, a mando do dragão. A bela policial que investiga o caso traz a tensão sexual para a história, e acaba sendo reencarnação da esposa de Sir Justinian, e com isso, leva o protagonista a confrontar seu compromisso com o dragão. Algo da composição da história lembra séries da década de 1990 que empregavam o horror no formato de ficção de crime, como Brimstone (1998-1999). A conclusão da noveleta, após uma violenta confrontação, mostra que Justin havia sido enganado pelo monstro, desde o início. A narrativa é assentada e detalhista, com bom uso do ponto de vista narrativo, fazendo o leitor curtir a história e os personagens. Os desenhos de Lieber, a bico de pena, são ótimos, e suas pinturas não ficam atrás. A segunda e última história é de Janet Pack, com arte de Rag Morales, narra como Justin foi arregimentado pelo wyrm, e portanto se passa nas margens do Lago Ness, no século 14. Interessantemente, ela reserva uma terrível ironia dirigida a um menino camponês que se meteu no caminho do dragão. O modelo dos “romances ilustrados” incluía um texto sobre detalhes iconográficos da história, colocado entre as histórias, e um texto final que imita um diário.

O que fica claro, examinando o livro em questão, é o quanto ele deve a um estado editorial e cultural de coisas que vem da difusão do role playing game como um espaço de narrativa e de arte. O livro ilustrado acaba sendo mesmo uma forma ideal para essa evocação, mas ela também está em detalhes como a loja de zines do herói. Weis, a popular criadora (com Tracy Hickman) do RPG Dragonlance, tem uma grande importância na promoção desse contexto. Matt Stawicki é um ilustrador que trabalhou com ela em Dragonlance (e portanto conhecido do leitor e jogador brasileiro), e aqui produziu uma arte de capa que representa com perfeição a invasão do ambiente urbano pela fantasia e pelo horror.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Olivier Coipel.

Star Wars: Han Solo, de Marjorie Liu (texto) & Mark Brooks (arte). Nova York: Marvel Worldwide, 2017, 114 páginas. Arte de capa de Olivier Coipel. Brochura. A Panini lançou este livro com uma minissérie protagonizada pelo contrabandista mais famoso da Galáxia Distante, mas eu encontrei a edição original em promoção da Livraria Cultura do Bourbon Shopping em São Paulo, e não resisti. Dei sorte, porque traduções e legendagem são fatos incertos, e lendo em inglês pude apreciar como a escritora Marjorie Liu captou a dicção do personagem e os seus trejeitos. Liu certamente sabe escrever, e o brilho dos diálogos é só um lado dos talentos exibidos aqui. A história traz Han Solo e Chewbacca entre os eventos narrados em Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977) e Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca (1980). Han tem dúvidas sobre continuar ou não no contrabando, ou unir-se à nobre causa da Aliança Rebelde. No ínterim, recusa vários trabalhos, obviamente dividido num plano pessoal. As coisas se precipitam quando aparece um dupla querendo emprestar o Millennium Falcon para cumprir uma missão em nome da Aliança. É claro que Han, impulsionado por Chewbacca e por Leia, lá longe nos bastidores, aceita ele mesmo cumprir a missão de resgatar três informantes das garras do Império. Cada informante está convenientemente aguardando em cada uma das três paradas de uma perigosa corrida interestelar, na qual Han inscreve o seu cargueiro coreliano transformado no hot rod mais rápido da galáxia. É como ter um Dodge Charger envenenado correndo contra Porches e Ferraris.

Na corrida, o herói convive com uma malta diferente dos criminosos comuns das suas relações: os aristocráticos pilotos esportivos. O mais interessante deles é uma alienígena muito alta, supostamente a última de sua espécie e lendária entre os pilotos, e que tem acesso a estranhas criaturas luminosas que a rodeiam. Aos poucos, as habilidades e o caráter do herói vão conquistando a admiração e a solidariedade, dos seus rivais esportivos. O Império Interfere, é claro, e há peripécias como a presença de uma alienígena de outros carnavais de Chewie, e de um traidor entre os espiões resgatados. A arte e a quadrinização têm um grande dinamismo e exotismo combinados, tornando Han Solo um grande exemplo do charme próprio da space opera. Mais importante, assim como na trilogia original, a aventura combina muito bem a luta contra o Império e aspectos mais pessoais dos heróis, resolvendo coisas que pouco tem a ver com o Império e a Aliança Rebelde, mas que não parem ser menos importantes. O casamento entre a escrita de Liu e a arte de Mark Brooks parece ser perfeita. O artista é talhado para lidar com Star Wars, sendo um bom fisionomista e lidando bem com o hardware, igualmente (a colorização de Sonia Oback & Matt Milla contribuem com muitos efeitos visuais). Juntos, os dois deram a Han Solo um caráter não apenas cínico, cômico, determinado e aventureiro, mas também melancólico e filosófico, muito enriquecedor, e humanizador também. Ótimo que Marjorie Liu o tenha idealizado de uma maneira romântica sem a presença explícita do fator amoroso (já que Leia está longe dele). Uma das melhores HQs de Star Wars que já li. Teria dado, de longe, uma “História Star Wars” muito superior ao tosco e descerebrado filme de origem do herói, dirigido por Ron Howard.

 

Arte de capa de Lorenzo de Felici.

Oblivion Song Volume Um: Canção do Silêncio (Oblivion Song: Volume One), de Robert Kirkman (texto) & Lorenzo de Felici (arte). Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019, 144 páginas. Tradução de Fernando Scheibe. Arte de capa de Lorenzo de Felici. Brochura. Este livro chegou aqui em casa enviado pela editora a Gabriela Colicigno, namorada do meu filho, mas eu fui mais rápido (estou aprendendo). Em Oblivion Song, o filme O Nevoeiro (The Mist, 2007), de Frank Darabont, se encontra com a situação básica de várias séries recentes como Taken, Les Revenants e The Leftovers — um fenômeno desconhecido causou o desaparecimento de um certo número de pessoas, deixando famílias desorientadas e governos apalermados. Neste caso, há dez anos, 300 mil moradores da cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos, desapareceram. Foram para o selvático planeta Oblivion, onde existe uma cidade semelhante, mas tomada por uma ecologia alienígena. Envolvido desde o início com a investigação do fenômeno, o cientista Nathan Cole se dedica a visitar sozinho o mundo paralelo e resgatar os desaparecidos, atirando neles com uma espécie de ampola com substância capaz de ajustar a “vibração celular” da pessoa ao padrão do nosso mundo, trazendo-a de volta. Ele mesmo usa um cinturão que produz esse efeito. A narrativa conta como Cole não possui a simpatia dos seus superiores, nem de sua mulher; como antes ele contava com toda uma equipe de aventureiros treinados para acompanhá-lo no outro mundo; e finalmente, que as pessoas do outro lado podem muito bem não estarem convencidas de que voltar para o nosso é a melhor pedida. Há ecos de Eu Sou a Lenda (I Am Legend), de Richard Matheson, na imagem desse agente solitário que, na visão dos habitantes de Oblivion, apenas leva embora as pessoas. É claro que se formou em Oblivion uma comunidade independente e orgulhosa, marcada pela sugestão de que as dificuldades moldam o caráter dos colonos — tema que a ficção científica americana incorporou há muito tempo, a partir da história revolucionária dos EUA. A tônica do volume um, para além da apresentação das circunstância do seu mundo ficcional, é o fundo muito pessoal e atormentado, por trás da dedicação de Cole. Embora não faça tanto mistério sobre o que aconteceu com os seus 300 mil desaparecidos, quanto as séries citadas acima, Oblivion Song evoca os sentimentos de perda, culpa e desassossego que marcam essas produções.

A arte de Lorenzo de Felici atrapalha um pouco essas preocupações, porém. Seus personagens têm quase todos a mesma aparência esquálida e olhar faminto, perdendo a sugestão de profundidade ou variedade de sentimentos. Ele dá a impressão o tempo todo de que preferia estar desenhando uma HQ de zumbis. Mas, em conjunto com a colorista Annalisa Leoni, faz um trabalho muito bom de luz e sombra.

 

Arte de capa de Marco Checchetto.

Star Wars: Obi-Wan & Anakin, de Charles Soule (texto) & Marco Checchetto (arte). Barueri-SP: Panini Books, 2019, 120 páginas. Arte de capa de Marco Checchetto. Brochura. Esta aventura se passa entre os episódios I e II de Star Wars, com Anakin Skywalker aparentando ter uns 12 ou 13 anos de idade. A dupla mestre jedi e padawan aparecem em um planeta que, desprezado pela Velha República e vitimado pela guerra total, regrediu a uma tecnologia meio steampunk com armas de pólvora, dirigíveis e ornitópteros. Desse planeta partiu um pedido de socorro dirigido aos jedi. Assim que chegam, os heróis são atacados por ambas as partes em conflito, os abertos e os fechados. Acabam náufragos, acompanhados de mãe e filha (de um lado) e um guerreiros solitário (do outro), vagando por um mundo povoado por feras de aparência demoníaca ou draconiana. Fica claro que as pessoas do lugar estão trancadas em uma visão de mundo marcada pela guerra. Só o que enxergam como objetivo é a destruição do inimigo. O grupo é forçado momentaneamente a cooperar pela força superior dos jedi, mas Obi-Wan Kenobi e Anakin erram ao confiarem nessas pessoas. Acabam separados, com o menino aprisionado pelas duas mulheres que descobriram que ele é capaz de consertar o pouco de equipamento high-tech a que têm acesso (habilidade que os episódios II e III esqueceram).

Obi-Wan chega até a pessoa que pediu socorro aos jedi — uma mulher idosa auto-intitulada Coletora, que de algum modo não especificado amealhou um tesouro de arte e tecnologia antiga, que fazia cair sobre os grupos em guerra como “presentes dos céu” lançados de pipas. Essa mulher tem esperança de que a juventude do planeta esteja cansada da guerra, e que os jedi consigam terminar o conflito. Mas a imagem que ela faz dos jedi como guerreiros invencíveis está mais próxima dos sith, e é uma reviravolta interessante que o objetivo maior dela seja fazer os jedi exterminarem os agressores, permitindo que ela domine o mundo, com as crianças. Claramente, este é um mundo que apenas engendra violência e desejo de extermínio. Por outro lado, a interação de Anakin com os garotos que o têm como refém parece ser mais ingênua. No fundo da aventura da dupla de heróis está um momento da vida do pequeno Anakin em que ele hesita em continuar seu treinamento jedi. Essa situação é explorada mais fortemente em flashbacks que envolvem um passeio pelos intestinos de Coruscant, tendo o Senador Palpatine como guia. Yoda também faz uma aparição.

Infelizmente, toda a coisa do Conselho Jedi é para mim um desenvolvimento catastrófico da mística dos jedi. A partir do momento em que seus membros deixaram de ser chamados de “cavaleiros” para serem chamados de “mestres” e fizeram um conselho marcado pela miopia e pelo espírito burocrático, perderam a autonomia que vem com o termo “cavaleiro”. Mas a HQ escrita por Soule conserva uma interessante dimensão irônica, já que conhecemos a trajetória derradeira de Anakin Skywalker e podemos apreciar como as lições desta aventura em um mundo dividido pelo desejo genocida não calaram nele. A arte de Checchetto, sempre sensível e melancólica, sublinha esse efeito.

—Roberto Causo

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Edição Brasileira de Perry Rhodan Lança Episódio 1000 da Série

 

PERRY RHODAN 1000

 

Arte de capa de Johnny Brück.

 

Sob a batuta do editor Rodrigo de Lélis, a Editora SSPG, de Belo Horizonte, continua o seu processo de renovação dos ciclos da série Perry Rhodan, trazendo ao leitor brasileiro marcos como a publicação recente do episódio 800 — e agora, o episódio 1000, O Terrano, que dá início ao ciclo “A Hansa Cósmica”. Tudo isso em um ano no qual a publicação original da série na Alemanha, realizada pela Pabel-Moewig Verlag, alcançou a marca assombrosa de 3000 episódios — fato de que já tratei aqui.

O Perry Rhodan japonês. Edição 500. A tradução é de Yooichi Shimada.

Certamente, as facilidades de produção e publicação de e-book contribuem para a condução simultânea dos diversos ciclos. Atualmente, a SSPG trabalha apenas com essa modalidade. Uma das marcas do projeto editorial de Perry Rhodan na Alemanha, seu país de origem, também inclui reedições da série e recapitulações agrupadas em volumes capa dura. Vale lembrar que o lançamento do episódio 1000 também ocorreu há pouco no Japão, por exemplo. Nesse país, o marco se deu em 2015, com a publicação do volume 500 pela Hayakawa (lá os volumes são duplos). No mundo globalizado, marcos do passado pipocam no espaço e no tempo, atestando a persistência da criação de K. H. Scheer e Walter Ernsting.

O fenômeno cult de Perry Rhodan investe não só na longevidade e nos números assombrosos, não igualados por nenhuma outra série de ficção científica onde quer que olhemos. Seus responsáveis também investem na sobrevivência e acessibilidade do conjunto todo da série — a SSPG participa desse empenho para mantê-la longe da pecha de perecível ou descartável.

Igualmente, é notável que essa gigantesca space opera criada em 1961 tenha abrigado autores de grande competência e talento como Scheer e William Voltz — este último, o autor deste episódio de número 1000. Voltz está ciente de que se trata de um momento muito especial, e dedica a edição “aos leitores de Perry Rhodan”, sem os quais e ao longo de décadas, a série não teria passado da sua previsão inicial de cerca de 15 episódios. A edição original, de 1980 (publicada na Alemanha Ocidental), mereceu capa dupla com arte de Johnny Brück, repleta de entonações épicas, evocações de 2001: Uma Odisseia no Espaço (dirigido por Stanley Kubrick, 1968) e capricho de execução incomum, mesmo mantendo a sua alma pulp.

 

A edição original do episódio 1000 original. Alemanha. Arte de capa de Johnny Brück.

 

O conceito do momento especial marca toda a estrutura de O Terrano. Em certo instante, passando da metade, há uma longa recapitulação de tudo ou quase tudo que aconteceu desde que o astronauta americano Perry Rhodan se deparou com uma nave alienígena oculta no lado escuro da Lua, no ano de 1971 (desse universo ficcional compartilhado). Contudo, uma dimensão cósmica ainda maior delineia os contornos do episódio. Ele abre com um alienígena chamado Carfesch, emissário do cosmocrata Tiryk, chegando ao mundo de Ambur, uma criação da superinteligência conhecida como Aquilo — personagem irônico e misterioso presente desde o primeiro ciclo (episódios 1 a 49). Carfesch traz com ele dois ativadores celulares especiais, fornecidos pelos cosmocratas, e uma tarefa para Aquilo: encontrar candidatos a portadores desses dispositivos que conferem imortalidade relativa. Os escolhidos se tornarão auxiliares na tarefa da superinteligência em preservar e estabilizar a “concentração de poder” aos seus cuidados, seguindo o interesse dos cosmocratas.

É assumidamente difícil compreender a natureza de Aquilo, inteligência formada, assim como aquela do clássico de Arthur C. Clarke O Fim da Infância (1953), por uma coletividade de consciências agregadas ao longo de muitas eras. Imagine então os cosmocratas, que se encontrariam em uma escala acima de Aquilo, subordinando-o à sua própria hierarquia de propósitos.

William Voltz (1938-1984), porém, é um escritor com inclinação muito forte para o intimismo, para o drama individual. É natural que ele corte, portanto, das figuras de de Aquilo e de Carfesch (logo absorvido pela coletividade do Imortal) para uma dupla de E.T.s em patrulha de reconhecimento em busca dos candidatos a portadores dos ativadores celulares especiais. Eles chegam ao que é claramente o Sistema Solar na época em que Atlan, o lorde arcônida que estabeleceu uma colônia alienígena na Terra da antiguidade pré-histórica (a Atlântida batizada em sua homenagem), luta contra os druufs, civilização invasora de uma dimensão temporal milhares de vezes mais lenta do que a do nosso universo. Atlan, sabemos pela leitura do segundo ciclo da série, foi o primeiro a receber um ativador celular na galáxia.

De modo semelhante ao que acontece em outro romance de Clarke, A Cidade e as Estrelas (1956), Carfesch pode sair da inteligência coletiva (ou de um grande computador, no caso do livro de Clarke) e reassumir sua individualidade — para examinar a tarefa destinada à superinteligência e realizada por seus povos auxiliares. Voltz logo se foca em mais uma figura individualizada: o explorador Rook, um alienígena representante da tendência dominante na escrita de Voltz: o solitário desesperado em luta contra forças muito superiores. A sua tarefa é sobreviver tempo suficiente, em sua nave sucateada e invadida por alienígenas hostis, para transmitir a mensagem de que um novo candidato foi encontrado no Sistema Solar, milhares de anos depois.

Desta vez, Carfesch vem examinar pessoalmente o candidato em questão, um menino americano de 9 anos de idade.

É uma delícia para um fã da série ter um vislumbre de Rhodan em sua infância. O ano é 1945 e os Aliados acabam de alcançar a paz no teatro europeu da Segunda Guerra Mundial. Perry visita a fazenda administrada pelo seu tio Karl no Meio Oeste americano, e é descrito como um menino melancólico, leitor de ficção científica. Carfesch fica horrorizado com o conflito e intrigado com a criança. Ele e Aquilo discutem o que fazer. Mais cauteloso, Aquilo planta uma semente para que no futuro o terrano venha até ele, provando que Perry e sua espécie belicosa mereceriam, respectivamente, o ativador celular e o destino superior possivelmente reservado a ela. Um toque sensível de Voltz está em caracterizar a semente como uma proteção contra as desilusões próprias do crescer:

“O mundo das crianças é um mundo de fantasia, maravilha e aventura. Tudo é possível nesse mundo. Se, um dia, os adultos deixassem de educar seus filhos para a vida em um mundo de processos causais, talvez a imaginação das crianças pudesse ser suficiente para levar algumas dessas maravilhas e aventuras para a vida adulta — e o mundo seria completamente diferente.”

Aquilo exclama: “Mas que tragédia, que as crianças sejam mais sábias que os adultos.” E em seguida, declara: “Vou trazer esta pequena criatura até mim — por um breve momento. Vou fazê-la olhar através da janela para o Cosmo e me certificar de que o fogo nunca se apague nela.

A dádiva da imaginação… O conceito singelo unifica os vários focos deste episódio, que tem estrutura fragmentada e opõe o individual e o mundano ao cósmico e ao maravilhoso, além do passado e do futuro distantes. Muito habilidoso, dentro da sua simplicidade habitual Voltz mantém um tom objetivo mas cintilante, que sustenta as abordagens diferenciadas dos vários segmentos. Se ele havia tratado do passado da série, sua evolução até o momento presente vivido por Rhodan, quando o personagem entra plenamente em cena o que o autor apresenta é um vislumbre do seu futuro.

Rhodan caracterizado como mais um dos solitários de Voltz. Disfarçado, ele, um imortal, visita bares e outros locais púbicos, em busca de uma reconexão com a base da condição humana. É capturado por uma dupla de robôs e levado pela segunda vez à presença de Carfesch. A cena lembra a perseguição nas esteiras transportadoras de As Cavernas de Aço (1953), de Isaac Asimov.

Agora, Rhodan vai até Aquilo, que lhe dá uma visão de como os cosmocratas organizam a evolução do universo. Também, dos conflitos existentes nesse nível, inclusive entre o próprio Aquilo e seu arqui-inimigo, a superinteligência Seth-Apophis. Uma visão repleta de sentido do maravilhoso, outro aspecto da FC e da space opera — aqui, dentro do escopo avassalador de evolução e de projeção da consciência que chamamos de “stapledoniano”, em referência ao inglês Olaf Stapledon (1886-1950), um dos primeiros a escrever nessa escala. Toda space opera com uma perspectiva teleológica semelhante — a sugestão de que tudo conduz a uma finalidade predeterminada e especial — fornece um contrapeso ao aventuresco e acena como algo mais do que o entretenimento superficial.

Nesse ponto, interessa notar que temos mais do personagem, do que se tem em geral na série. Conforme cresciam os ciclos e a origem de Rhodan foi ficando para trás, mais os escritores passaram a hesitar no emprego direto do personagem e em investir na sua subjetividade. O crítico inglês Adam Roberts, cada vez mais lido e citado no Brasil, traçou a interessante hipótese (no ensaio “Perry Rhodan’s ‘Electric Personality'”) de que a caracterização cada vez mais vaga do personagem representa uma desconstrução da figura do “grande líder das massas”. De qualquer modo, Voltz, ao contrário, não tem qualquer melindre e usa a subjetividade do herói para ancorar muito das novas informações que Aquilo apresenta.

Mais uma vez, Volts tempera o cósmico com o mundano e o pessoal. Usa vinhetas que singularizam personagens às voltas com opressão, racismo, crime, abuso e corrupção. Um panorama da condição humana no início da década de 1980, com sua dramática instância da guerra fria pós-guerra do Vietnã, mas toda vinheta termina com a afirmação de que o personagem é “um terrano”. O último deles é o próprio Rhodan, símbolo, desde sua criação em 1961, do melhor que a humanidade pode produzir.

O Terrano não apenas maravilha, mas comove. Recupera a atmosfera de confronto da humanidade com o cósmico, própria do primeiro ciclo, e ao mesmo tempo soa como um trabalho muito pessoal de Voltz. Uma pequena joia brilhante, que a SSPG presenteia aos seus leitores.

O Terrano (Der Terranen), de William Voltz. Tradução de Ernst Weissmann. Arte de capa de Johnny Brück.

 

—Roberto Causo

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Leituras de Julho de 2018

O destaque deste mês foram dois romances brasileiros recentes que se debruçaram sobre um momento da história no qual o Estado adotou medidas extremas motivadas pelo contexto da Segunda Guerra Mundial. O mês também trouxe espaço para não ficção, arte e quadrinhos.

 

Universo Alien: Se os Extraterrestres Existem… Cadê Eles? (Alien Universe), de Don Lincoln. São Paulo: Editora Cultrix, 2017 [20313], 320 páginas. Brochura. Tradução de Humberto Moura-Neto & Martha Argel. Em de 25 de maio, participei, com a pesquisadora Cláudia Fusco e o editor Adilson Silva Ramachandra, de uma mesa durante o laçamento do livro de não ficção de Adam Roberts, A Verdadeira História da Ficção Científica, pelo selo-irmão da Cultrix, Seoman. Fui presenteado com o titulo em lançamento, e com A Vida de Philip K. Dick: O Homem que Lembrava o Futuro (Philip K. Dick: The Man who Remembered the Future), de Anthony Peake — e também este Universo Alien. Seu autor, Don Lincoln, é um físico e divulgador, já tendo escrito para a famosa e longeva revista de ficção científica Analog. Presume-se de saída que ele conheça os assuntos do livro, a ciência da exobiologia e a própria FC — em como o gênero influencia a consciência coletiva no assunto OVNI e ufologia. E de fato, Lincoln demonstra grande conhecimento de todos os assuntos. Assim como Carl Sagan antes dele, sua preocupação é limpar um terreno científico do folclore, do misticismo e da má fé. A diferença é que ele é mais moderado em sua abordagem, e o resultado é um texto de grande clareza e precisão, leve e — ao mesmo tempo que dotado de uma medida exata dessa didática muito particular — respeitoso com as posições opostas. Mais um professor, portanto, e menos um cruzado fundamentalista científico. Note-se ainda, que se encontra em uma excelente tradução do casal Humberto Moura-Neto e Martha Argel.

A primeira obra de FC discutida é A Guerra dos Mundos (1897), mesmo porque esse romance de H. G. Wells fundamentava-se em ideias do século XIX acerca da possibilidade de vida em Marte. Lincoln também trata do Marte de Edgar Rice Burroughs, e, mais adiante, menciona nomes importantes da FC. As franquias Star Trek e Star Wars são igualmente mencionadas. A história da ufologia, a partir do relato de Kenneth Arnold em 1947, é explorada e logo o autor estabelece paralelos entre a questão dos discos voadores e a ficção científica popular da época, especialmente no cinema. Qualquer um que, como eu, tem interesse pela FC e pela ufologia, deve ter notado que tais paralelos existem — vejam, por exemplo, minha antologia Estranhos Contatos: Um Panorama da Ufologia em 15 Narrativas Extraordinárias (1998). Don Lincoln discute muito bem esse fato, até encerrar o livro com uma reflexão bem embasada sobre como seria a vida extraterrestre a partir do que se sabe sobre química, física e a vida na Terra. Universo Alien torna-se, portanto, uma obra de divulgação científica de interesse tanto para fãs e escritores de FC (que podem fundamentar melhor suas especulações sobre o assunto), quanto para quem deseja entender melhor a ufologia como fenômeno cultural dos nossos tempos.

 

Arte de capa de Paula Cruz.

Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, Anônimo, ed. Pontes Gestal, SP: Plutão Livros, 1.ª edição eletrônica, 2018, 2784KB. Capa e ilustrações internas de Paula Cruz. Prefácio de Roberto de Sousa Causo. Eu tive a honra de ser procurado pelo editor André Caniato, da Plutão Livros, para escrever o prefácio deste e-book — certamente por conta de ter incluído a história de Machado de Assis, “O Imortal”, na antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir Brasil, 2007), então uma indicação de Marcello Simão Branco.

O e-book reúne não apenas “O Imortal”, que é de 1882, mas também “Rui de Leão” (1872). Um conto deu origem ao outro; isto é, dez anos depois da primeira publicação, Machado viu impressa a segunda versão da história do aventureiro português Rui de Leão, que se torna imortal depois de beber uma poção indígena, entre os tamoios, durante o período colonial, e vive os eventos de séculos futuros. Ostensivamente, Machado afirmou que reescreveu o conto para “ganhar uns cobres”, mas entre uma e outra há uma evolução interessante. A segunda é mais sofisticada, de ironia mais fina e menor comicidade, com uma espécie de parêntese abraçando a narrativa do fidalgo — envolvendo seu filho a narrar as peripécias do pai, a um número de figuras da sociedade local, em noite de chuva. A edição da Plutão Livros tem uma capa marcante por Paula Cruz e um sólido tratamento editorial, que, salvo engano, a coloca um pouco acima dos e-books que eu andei vendo por aí. Chamou a atenção nas redes sociais. Note-se ainda que o livro saiu, oportunamente, no aniversário de 110 anos da morte do escritor. Você pode ler o prefácio, por cortesia de André Caniato, aqui.

 

 A Segunda Pátria, de Miguel Sanches Neto. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015, 318 páginas. Brochura. Este é um romance brasileiro de ficção científica de história alternativa, província de Gerson Lodi-Ribeiro, Roberval Barcellos e uns poucos outros, apesar do steampunk, mais popular, às vezes resvalar por essa modalidade de FC recursiva. O enredo aqui margeia um dos temas mais explorados do subgênero: a variação em torno da II Guerra Mundial. Provavelmente, A Segunda Pátria não existiria sem que antes fosse publicado Complô Contra a América (Plot Against America; 2004), do recentemente falecido Philip Roth, agora em maio. Por sua vez, acredito que o romance do importante escritor judeu-americano não teria sido escrito não fosse o clássico O Homem do Castelo Alto (The Man in the High Castle; 1962), de Philip K. Dick. Em todos os casos, temos uma visão distópica do home front, no aftermath (no caso de Dick) ou pouco antes e durante o conflito. No seu livro, Sanches Neto explora o fato de Getúlio Vargas ter nutrido simpatias fascistas para sugerir que ele teria, nessa linha temporal alternativa, facultado uma presença nazista mais ostensiva no território brasileiro.

A narrativa alterna seções vividas pelo ponto de vista de dois personagens diferentes. Um deles, o engenheiro Adolpho Ventura, é um germanista afro-brasileiro. O outro é uma jovem, Hertha, espécie de fêmea prototípica germânica, hipersexualizada como a posterior Laura de Dezoito de Escorpião (2014), de Alexey Dodsworth, e como a anterior Vera Blumenau de Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett. Adolpho aparece primeiro entregando seu filho bebê aos pais, antes de desaparecer após se apresentar a uma delegacia, como exigem as novas leias. Ele é encaminhado a uma fazenda para trabalhos forçados, enquanto seus pais fogem do Sul do Brasil, rumo ao Sudeste, como refugiados raciais — em andanças angustiadas e aflitivas como as da heroína de The Underground Railroad (2016), de Colson Whitehead. Enquanto isso, na fazenda modelo nazista tropical, seu filho tem a pele marcada como uma rês e trabalha como escravo, literalmente. Na outra linha narrativa, Hertha é contratada, como uma cortesã das antigas, para entreter um convidado especial vindo da Alemanha. Basta pensar no pior, dentro do contexto, para antecipar quem é essa figura misteriosa. A Segunda Pátria é modernista na estrutura e em boa parte da escrita — com diversas seções do romance tendo andamentos diferenciados —, mas flerta com a literatura pulp em vários momentos e situações. Na linha de Adolpho, que cai em si e abraça sua herança afro ao adotar o nome Trajano, há uma revolta dos negros escravizados e emboscadas nas florestas sulistas, com guerreiros despencando de árvores sobre a milícia nazista que os persegue. Mas é o frisson erótico politicamente incorreto em torno de Hertha nos primeiros momentos da sua linha narrativa, que se beneficia mais do pulp e se configura como o ponto mais interessante de se acompanhar, no romance. O encontro das duas linhas é intrigante, embora menos intenso, e reafirma justamente a qualidade mestiça da formação do brasileiro. A questão que o romance coloca acabou, pela superposição de fatos da vida real, política e social, do Brasil de hoje, ganhando uma relevância maior do que a denúncia velada do racismo presente na história do Sul. Afinal, o Brasil atual marcha cadenciado e convicto, rumo ao passado. A imagem da capa eu peguei na www. Aparentemente, no país a produção gráfica não é uma arte exata, e a imagem do mapa brasileiro, de ponta cabeça e apenas num tom mais escuro de vermelho, praticamente não aparece no exemplar que eu li.

 

Malditas Fronteiras, de João Batista Melo. São Paulo: Benvirá, 2014, 280 páginas. Texto de orelha de Luiz Bras. Brochura. A coincidência temática me fez pegar de novo este que é o segundo romance do multipremiado escritor mineiro João Batista Melo, também um festejado contista. O primeiro romance foi Patagônia, de 1998, uma espécie de western ambientado na América Latina de fins do século XIX, com um brasileiro que caça por vingança a famosa dupla de assaltantes Butch Cassidy e Sundance Kid no seu exílio sul-americano. Malditas Fronteiras é um romance mainstream de época, ambientado em Minas Gerais nos anos da eclosão da II Guerra Mundial. Ganhou o concurso Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte. É narrado pelo ponto de vista de uma família germânica envolvida com produção de cerveja artesanal, com agregados que incluem uma pintora judia que fugiu dos nazistas, e um menino brasileiro que tem ligação muito forte com Sophie, neta do cervejeiro Konrad Petersen. A condição de cegueira de Sophie a torna uma personagem que convoca a nossa ternura, e que simboliza a inocência de quem não enxerga divisões sociais.

Em Malditas Fronteiras, a situação é inversa à de A Segunda Pátria, e em mais de um sentido. A história aqui é aquela que conhecemos, e que insistimos em esquecer. Imigrantes alemães, italianos e japoneses sofreram a repressão do Estado e a desconfiança da sociedade brasileira, depois que o país entrou na guerra em 1943. Boa parte da tensão que a narrativa fomenta vem dos extremos que orbitam em torno dos Petersen, com um tio que vê oportunidades em aderir ao extremismo nazista, e com o pai do brasileirinho Valentino, que vê oportunidades em agredir a família alemã, fomentando o ódio popular contra ela e os alemães em geral. “Oportunidades” aqui é no sentido de sublinhar o oportunismo social e financeiro que surge nesses momentos de reorganização da sociedade. Se Miguel Sanches Neto misturou pulp e mainstream na narrativa do seu romance, João Batista Melo — que como contista já escreveu várias narrativas de ficção científica (inclusive a história alternativa “A Moça Triste de Berlim”), fantasia e realismo mágico — se mostra aberto para a ficção de gênero nas muitas epígrafes do seu. Nelas, J. R. R. Tolkien e Ray Bradbury aparecem juntos, por exemplo, com Clarice Lispector e Ian McEwan. E o tom que João Batista estabelece no livro é mais consistente do que o de Sanches Neto. Às vezes melancólico, às vezes pungente, sublinha com perfeição o sentimento trágico que sobrevém quando uma sociedade cede a posições extremistas. Ao mesmo tempo, esse tom é a marca de um estilo límpido e humano, um deleite para o leitor.

“Neste seu segundo romance, João Batista Melo prova mais uma vez que é um dos prosadores mais talentosos da geração 90.” —Luiz Bras (no texto de orelha de Malditas Fronteiras).

 

Arte de capa de Leo Pinheiro.

Sketchbook, Leo Pinheiro. São Paulo: edição do autor, s.d., 36 páginas. Capa de Leo Pinheiro. Brochura. Aqui está mais um sketchbook para a minha coleção, que inclui um material muito bacana de Gio Guimarães, Jeffrey Catherine Jones, Arthur Suydan (dois volumes) e Daniel HDR.

Eu comprei esse sketchbook do paulistano Leo Pinheiro no finzinho do mês na banca da Praça da Liberdade, o bairro oriental localizado aqui na região central de São Paulo. E o traço fino de Pinheiro de fato puxa para o mangá, o quadrinho japonês. Mesmo quando o artista faz, aparentemente, encomendas (requests) de super-heróis da Marvel ou da DC Comics. Inclusive, Leo Pinheiro dá aula na AreaE Escola de Arte, especializada em mangá e localizada lá mesmo na Liberdade. As suas figuras humanas são elegantes e bem proporcionadas, de rostos e poses expressivas, puxando para o juvenil. Há apenas uma página de quadrinhos no livro, porém. Alguns desenhos são bem infantis, expressando a versatilidade do artista. Gostei especialmente do desenho em que aparecem Groot e Rocky Racoon, inspirado no filme Guardiões da Galáxia. E este do dragão que a gente vê na capa, arte-finalizado a nanquim. Seu sketchbook acaba sendo, porém, uma edição bastante amadora e não traz muitas informações sobre o artista, mas cumpre a sua função. Pretendo, inclusive, acompanhar o trabalho de Leo Pinheiro no futuro.

 

Animais Fantásticos e Onde Habitam: Guia dos Personagens (Fantastic Beasts and Where to Find Them: Character Guide), de Michael Kogge. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2016, 144 páginas. Capa dura. Traduzido por Regiane Winarski. Já afirmei aqui que Animais Fantásticos e Onde Habitam foi meu filme favorito de 2016, e já tratei de um outro livro-guia do filme dirigido por David Yates. Este tem como foco os personagens, e também foi adquirido em uma unidade das Lojas Americanas aqui perto de casa, por um preço bem razoável.

O autor Michael Kogge estrutura o livro como fichas dos personagens, mas fornece alguma contextualização das situações do filme. Ele se esforça para não revelar demais, ao mesmo tempo em que menciona personagens que não entraram no corte final. Isso é interessante por alargar as relações dos heróis. Obviamente, o livro foi preparado antes do lançamento do filme. A tradução parece divergir um pouco do que eu me lembro de ter visto na telona, talvez também por isso. As fotos são o ponto forte do livro, assim como o material de design gráfico, já que a produção criou toda uma expansão do conteúdo do filme sob a forma de folhetos, cartazes, documentos e publicações. É um material muito rico, sugestivo — e também irônico, com uns trocadilhos bem sutis. Eu gostei especialmente da foto dos atores/personagens, cada um diante do seu painel personalizado no estilo art déco. O livro deixa de agregar uma ficha técnica do filme, justamente com os nomes dos atores e dos desenhistas de produção, provavelmente por ser dirigido a um público muito jovem que, supostamente, não se interessa por esses detalhes.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Gustavo Vícola.

Star Wars Infinitos: O Jetorno de Jedi (Star Wars Infinities: Return of the Jedi), de Adam Gallardo (texto) e Ryan Benjamin (arte). São Paulo: Panini Comics, 2018, 106 páginas. Capa de Rodolfo Migliari. Tradução de Gustavo Vícola. Brochura. Este é o livro que fecha uma exploração alternativa das situações da trilogia inicial de Star Wars (1977, 1980 e 1982) no cinema. A divergência é imediata: Leia Organa é desmascarada de saída, no palácio de Jabba the Hutt em Tatooine. O resgate de Han Solo é protelado, Boba Fett foge levando-o preso no bloco de carbonita para vendê-lo diretamente ao Império, e o retorno Luke a Dagobah também é adiado. Por conta disso, quando Han sai da carbonita, tempo demais se passou e ele acaba cego permanentemente. Ao mesmo tempo, Luke perde o adeus do moribundo Yoda — que depois aparece espiritualmente a ele junto com Ben Kenobi, para dar alertas mais extensos do que os do filme. Essa cena é um ganho, assim como a ação tática em Endor, que não envolve os heróis perdidos na superfície do planeta para fazer contato com os ewoks. Lando Calrissian tem mais tempo de cena e participa do resgate nos últimos instantes da Estrela da Morte 2.0. O ponto de reorganização mais importante do enredo é afastar Leia da sombra de Han e colocá-la no local do duelo entre Luke e Vader, de modo que os dois irmãos participem do virada moral do vilão de armadura negra. O imperador escapa, e a conclusão da trilogia fica em aberto — o que até pode ser interessante. A conversão de Vader é que soa absolutamente inverossímil e em desequilíbrio com os seus crimes anteriores.

A narrativa em quadrinhos de Ryan Benjamin é competente, mas ele não é um bom fisionomista nem lida particularmente bem com o conhecido hardware de Star Wars. Ainda assim, este episódio de Infinitos vale a leitura para aguçar o nosso senso crítico deste que é o pior dos filmes da primeira trilogia criada por George Lucas. O filme poderia ter sido muito melhor.

 

Arte de capa de Ricardo Delgado.

Age of Reptiles: Tribal Warfare, de Ricardo Delgado. Milwalkie, OR: Dark Horse Comics, 1996, 132 páginas. Introduções de Ray Harryhausen e John Landis. Capa de Ricardo Delgado. Brochura. Este é um livro de quadrinhos que eu vinha namorando há um bom tempo — desde que a loja Omniverse ainda se chamava Terramédia. Ele foi danificado por uma tempestade que se abateu há anos sobre o bairro do Cambuci, em São Paulo, daí a minha hesitação. Deu para ler sem problemas, de qualquer modo, e para apreciar o rico desenho do artista de storyboard Ricardo Delgado. Daí, inclusive, ele ter alguns grandes nomes da FC e da fantasia no cinema fazendo a apresentação deste que é o seu primeiro livro de quadrinhos: os diretores e produtores Ray Harryhausen e John Landis.

As tribos em guerra, que aparecem no subtítulo, são um bandos de velocirraptores e alguns tiranossauros. Seu conflito eterno é como aquele entre leões e hienas, nas savanas da África. A narrativa de Ricardo Delgado abre mão de balões com texto e de onomatopeias — é composta exclusivamente por imagens. Seu desenho é expressivo, de texturas precisas e dinamismo nas figuras. Lembra bastante o do famoso William Stout, que também se dedicou ao desenho de dinossauros, inclusive aparecendo no Brasil com o livro de contos de Ray Bradbury, Contos de Dinossauros. Delgado deu uma cara própria a cada um dos personagens animais, sem apelar para a sua humanização. Como artista de storyboards, ele sabe contar com precisão e competência uma história com imagens, buscando ângulos sugestivos e situações e atmosferas diversas. Obcecados com a sua luta constante, as duas tribos dão mole para uma terceira força: uma espécie de pró-símio pré-histórico, sublinhando aí, como foreshadowing engenhoso, a sucessão dos grandes lagartos  pelos mamíferos e pelo Homo sapiens. Há algo de bem pouco científico, porém, na descrição que Age of Reptiles faz dos dinossauros. A razão dos elefantes, o maior animal terrestre do planeta, não galoparem — a mesma razão de um tiranossauro, que tinha várias vezes o peso de um elefante, não poderia sobreviver a uma queda de sessenta metros.

—Roberto Causo

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Leituras de Maio de 2018

Maio foi um mês de muitas atividades, inclusive eventos que fui assistir ou participar. Fiquei meio que sem o tempo habitual de leitura, e acabei lendo poucos livros e mais histórias em quadrinhos.

 

Science Fiction, de Adam Roberts. Londres & Nova York: Routledge, The New Critical Idiom, 2003 [2000], 204 páginas. Trade paperback. Em maio, fui convidado pelo editor Adilson Silva Ramachandra, da Editora Jangada, para falar com Cláudia Fusco no lançamento de A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas, de Adam Roberts. Achei então este Science Fiction na pilha de livos que meu filho uso na sua pesquisa de mestrado, e que ele tinha deixado aqui em casa. Eu já havia consultado o livro para as minhas próprias pesquisas, mas era hora de terminar a leitura para me preparar para o bate papo. O livro saiu em uma série muito interessante, The New Critical Idiom, da qual eu já havia lido outros dois títulos, um sobre metaficção e outro sobre mito. Ela se dedica justamente a atualizar o ambiente universitário em língua inglesa, com introduções substanciais a diversos assuntos que vinham entrando nessa esfera, da década de 1980 em diante.

O enfoque de Roberts provavelmente surge da crítica pós-modernista e das questões de identidade que ela incorpora. Lembra especialmente Scott McCracken no seu Pulp: Reading Popular Fiction (1998), ótimo livro que tem a ficção científica como apenas um de seus assuntos — juntamente com a ficção de detetive e a de histórias de amor, e o horror gótico. Isso porque Roberts, a partir da discussão do teórico Darko Suvin do novum (os elementos na FC que parecem novos e dissonantes em relação ao entendimento convencionado da realidade) e do estranhamento cognitivo, reposiciona o encontro com a alteridade como aspecto central do gênero:

“Em outras palavras, a função simbólica-chave do novum da FC é precisamente a representação do encontro com a diferença, o Outro, a alteridade.” —Adam Roberts, Science Fiction (2000).

Novamente, algo semelhante está em McCracken, mas Roberts transforma a constatação em uma espécie de método crítico e de valoração, saudando alguns autores quando eles representam um encontro positivo com a alteridade, e condenando outros por sua deficiência em fazê-lo. Se por um lado, isso o leva a cometer alguns excessos interpretativos, por outro o coloca mais no centro, quinze ou dezoito anos depois, das ansiedades atuais em torno de celebração da diferença e da diversidade, e das qualidades subversivas que a FC pode desenvolver. É interessante ainda observar que neste livro Roberts não é muito simpático à ideia da proto ficção científica (ocorrências de precursores do gênero anteriores ao século 19), ou, na sua definição, pré-Romantismo:

“Eu considero a FC como sendo moderna, não antiga; e como ‘moderna’ eu quero dizer pós-romântica; o que é o mesmo que dizer que ela vem com a reavaliação da cultura e metafísica associada ao período romântico […]” —Adam Roberts, Science Fiction (2000).

O curioso aí é que a discussão da proto FC torna-se central justamente para a original hipótese seu novo livro, A Verdadeira História da Ficção Científica: a tese de que a reforma protestante teria sido essencial para o surgimento da mentalidade necessária à produção da ficção científica.

 

Ate de capa de Donato Giancola.

The Ordinary, de Jim Grimsley. Nova York: Tor Books, 1.ª edição, 2004, 368 páginas. Capa de Donato Giancola. Hardcover. Este é um romance de ficção científica e fantasia de um autor que já ganhou o Lambda Award, focado em assuntos LGBT. Traz uma linda capa do mestre da pintura a óleo Donato Giancola. O autor Jim Grimsley andou sendo publicado na Asimov’s Science Fiction e já foi comparado a Ursula K. Le Guin — comparação que, além da capa, me motivou a conferir este seu trabalho. Faz parte de um universo ficcional que Grimsley vem desenvolvendo, mas com aquela liberdade que caracterizou o universo Hainish de Le Guin.

The Ordinary segue, em sua maior parte, uma linguista chamada Jedda, que, parte de uma delegação diplomática/comercial de um mundo de alta tecnologia, vai a um outro, medievalesco e estranho por ser um mundo plano, Irion. O meio para a visita é um portal mágico que une os dois mundos. A delegação está lá sob falsos pretextos. Os falsos pretextos visam dar uma desculpa, tipo “Golfo de Tonquim” (que disparou a guerra do Vietnã), para a invasão do lugar. A sociedade tecnológica está em guerra, no espaço, com robôs, e precisa dos recursos que Irion possui. Mas o poder mágico desse mundo resulta em uma derrota avassaladora para eles, momento que é um dos melhores, do livro. Jedda fica para trás depois que a delegação é expulsa, e acaba sendo apresentada ao grande mago que controla Irion. Jedda é bissexual. Ela é atraída pelo mago, mas acaba gravitando na direção de uma mulher que irá herdar o poder mágico desse mundo. Até certo ponto, a heroína parece estar sendo treinada pelo homem para se aproximar da mulher, Malin. Salvo pelo tom sofisticado, interiorizado mas ao mesmo tempo descritivo da narrativa, o principal efeito do romance está na viagem no tempo que coloca uma no caminho da outra. E a mudança correspondente, do ponto de vista narrativo, que migra de Jedda para Malin. Aparentemente, Malin precisa de uma dimensão emocional mais profunda, para galvanizar os seus poderes mágicos e o seu caráter como dirigente. Falta ao livro, porém, uma pegada mais forte para a narrativa propriamente dita e mais situações de tensão envolvendo Jedda e Malin. Na ausência, acaba sendo menos do que memorável.

A exuberante arte de capa do ítalo-americano Donato Giancola é uma pintura a óleo de elementos sinuosos, sensuais, que expressam a fusão do orgânico como a super-ciência, própria  da mistura de FC e fantasia que o romance oferece. Giancola é um dos três ou quatro principais artistas de ficção científica da atualidade, com um sóbrio virtuosismo em todos os elementos da pintura clássica, com textura e luz renascentistas e detalhamento pré-rafaelita.

 

O Menino da Rosa, de Tony Monti. São Paulo: Editora Hedra, 2008, 48 páginas. Texto de orelha de Marcelino Freire. Brochura. Tony Monti é um colega de graduação em Letras na USP, e o ganhador do Projeto Nascente de Melhor Texto (realização da pró-Reitoria de Cultura da Universidade de São Paulo e do Grupo Abril de Comunicações) um ano depois que o meu O Par: Uma Novela Amazônica ganhou esse concurso. Tony se aproximou da Geração 90 em termos de estilo e abordagem literária, e participou da antologia de Nelson de Oliveira, Geração Zero Zero: Fricções em Rede (2011). De modo que é natural a presença de um dos grandes nomes da Geração 90, Marcelino Freire, assinando o texto da orelha. Li mais um livro dele, O Mentiroso, uma reunião de contos lançada pela 7 Letras, do Rio de Janeiro. Este O Menino da Rosa também é anunciado como livro de contos, mas imagino que o mais apropriado seria chamar seu conteúdo de crônicas.

O tema é a infância, desenvolvido em textos curtos de uma ou duas páginas cada. Como está implícito que se trata da infância do próprio autor, acho que é possível chamar o livro de “autoficção” — uma das tendências atuais do mainstream. Os textos são marcados pela delicadeza de situações de descoberta, perplexidade e confusão, encontros, desencontros e reencontros, com sutis toques de ironia. Nesse tipo de literatura, os efeitos precisam estar concentrados e aparecerem com precisão, que Tony parece alcançar com facilidade.

 

Arte de capa de Lais Dias.

O Ovo do Elefante, de Tiago de Melo Andrade. São Paulo: Melhoramentos, 2010, 128 páginas. Capa e ilustrações internas de Lais Dias. Brochura. Os assuntos afrofuturismo e cultura afro estão crescendo no ambiente da ficção científica e fantasia, mas esta novela de fantasia para crianças, que adquiri em um dos Fantasticons organizados por Silvio Alexandre, lembra a gente de que no Brasil a literatura infantil e juvenil já vinha trilhando essa estrada há algum tempo. Antes de Tiago de Melo Andrade, Simone Saueressig tem no seu O Palácio de Ifê (1989) um outro exemplo.

Em O Ovo do Elefante, a narrativa começa na África e termina no Brasil, ainda em tempos coloniais e portanto, durante a escravatura. Acompanha a menina Badu, uma princesa africana que vê a sua nação devastada pela cobiça despertada por um reino vizinho, quando se descobre que foi desenterrado lá um diamante do tamanho de um “ovo de elefante” (uma figura de linguagem: elefante não põe ovos, mas se pusesse você imagina o tamanho). Levada como escrava, ela encontra alguma simpatia da parte de uma senhora, que a trata bem. Mas os portugueses, que usavam esse reino como fornecedor de escravos, ficam sabendo da existência da pedra e atacam o lugar, capturando Badu uma segunda vez. Tá na cara que o diamante representa uma maldição. A heroína é embarcada em um navio negreiro e vai parar no Nordeste Brasileiro, escrava de uma senhora metida e cruel, casada com o dono de um engenho de açúcar. Lá, é castigada com frequência e chega a ser mutilada. Mas mesmo no Brasil, o diamante dá um jeito de entrar no caminho de Badu, trancado em um navio que acabou vindo encalhar em uma praia próxima, a tripulação comida por um casal de leões que também viajava nele, e que se soltou durante a jornada. Nessa altura da narrativa, a menina reencontra o guerreiro Kamau, que havia comandado o ataque ao povo dela. Por todo o trajeto até ali, Badu ouve a voz de seu pai, que lhe diz que ela precisa usar a riqueza que o diamante traria, para fundar um quilombo na região — com a ajuda de Kamau, mas tendo que enfrentar um implacável capitão do mato. As peripécias desta novela para crianças e jovens são interessantes, e ela parece ter uma pesquisa sólida sobre um assunto tão forte. É com respeito a isso que o livro faz o leitor pensar sobre o casamento entre assunto e narrativa, cujo tom quase-fofo soa leve demais para a gravidade da violência descrita em quase todo as suas páginas. Por outro lado, as ilustrações internas de Lais Dias são muito ricas e evocam com poesia a cultura afro, embora aconteça com ela o mesmo que se deu com a arte de capa de Marco Cena para o livro de Saueressig resenhado aqui mês passado: a arte da capa não tem a mesma força nem a clareza das ilustrações internas.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Bong Dazo e Dan Parsons.

Comics Star Wars 15: Cavaleiros da Antiga República 3, de John Jackson Miller (texto), Bong Dazo e Scott Hepburn (arte). Embu das Artes-SP: Planeta DeAgostini do Brasil, 2015, 232 páginas. Arte de capa de Bong Dazo & Dan Parsons. Capa dura. Há alguns anos que estou acompanhando esta série de quadrinhos de Star Wars desenvolvida a partir de um videogame da franquia, Knights of the Old Republic (2003), ambientada cerca de quatro mil anos antes dos eventos da série vista no cinema. Este é o terceiro volume encadernado que leio. No segundo, que resenhei para o site do Who’s Geek, a aventura termina com o grupo de heróis encontrando a obra de Lorde Adasca, um empreendedor megalomaníaco que armou com hiperpropulsores aqueles vermes gigantes que Han Solo e Leia Organa descobrem em um asteroide, enquanto fogem das naves imperiais, em O Império Contra-Ataca (1980). Uma praga de armas biológicas de destruição em massa. Neste volume aqui, o sujeito está oferecendo a sua obra tanto para os militares já fascistoides da Velha República quanto para invasores mandalorianos.

Os heróis da série são o atrapalhado padawan-ronin Zayne Carrick e a bela Jarael, uma jovem muita capaz, com jeito de elfa. Uma confusão na estação espacial é a chance que precisam para azedarem os planos grotescos de Adasca. Mas no processo acontece o sacrifício do cientista Camper, de que Jarael cuidava zelosamente. Esse trecho do livro é dramático mas o desenho de Bong Dazo tem uma arte-final muito dura e cenas atulhadas, que acabam diluindo a sua força. Dazo está de volta na história seguinte, mas a arte-final de Dan Parsons e as cores de Michael Atiyeh deixam a arte muito mais leve e com um atraente ar europeu. Zayne reencontra o seu sidekick Gryph, um alienígena, nos subterrâneos do planeta Taris, ocupado pelos mandalorianos. Os dois se envolvem com ações da resistência local. Como Zayne é acusado injustamente por uma camarilha jedi de ter assassinado seus colegas padawans, ele é quase morto por uma amiga, irmã de um desses colegas. Enquanto isso, Jarael está às voltas com Alek, o mandaloriano que eles recolheram pelo caminho no volume anterior, e que vem, compreensivelmente, desenvolvendo uma queda pela garota. De volta a Taris, Zayne cumpre uma missão na torre de instalações na superfície, onde é atacado pela jedi Raana Tey, escapando por pouco. Na história seguinte, os desenhos são de Scott Repburn, mais soltos e estilizados, nem sempre adequados para o detalhamento que o universo de Star Wars pede. Nela, Lucien, o chefe dos jedi que caçam Zayne, é informado pela vidente cega Q’anilia de uma visão em que aparecem Darth Vader e Luke Skywalker. Eles discutem pela primeira vez sobre um talismã sith chamado Muur — que se encontra justamente em Taris. Lucien envia uma jovem jedi chamada Celeste Morne para recuperar Muur e acabar com Zayne de uma vez por todas. O que os jedi temem é a profecia de que um padawan iria abrir as portas para o lado negro da força na galáxia, e agora lá está Zayne Carrick, o último sobrevivente dos padawans, no mesmo planeta em que se encontra o amuleto sith… No processo, porém, o objeto cai nas mãos dos mandalorianos, e para recuperá-lo o herói e Celeste enfrentam perigos o suficiente para ela duvidar da justeza da sua missão assassina. Os volumes da coleção não são muito “redondos” em termos de arco narrativo, e claramente nessa história se inicia um novo arco, que fica em suspenso até o próximo livro. Gosto muito do trabalho de John Jackson Miller nesta série, mas há alguns problemas que incluem a separação do núcleo de heróis, com a sempre encantadora Jarael retornando só no final, e uma subtrama com uma praga de zumbis — algo que, na minha opinião, dificilmente funciona bem com ficção científica. E a ideia de um maligno amuleto sith, indutor de loucura e centrando buscas de heróis e vilões parece pinçado diretamente de O Senhor dos Anéis… O final é dramático e contundente, de qualquer modo, e o interesse pelo próximo volume se mantém.

 

Arte de capa de Brent Anderson & John Starr.

Rising Stars: Visitations, de J. Michael Straczynski (texto). Los Angeles: Top Cow Publications, 2002, 64 páginas. Capa de Brent Anderson & John Starr. Brochura. Straczynski é o criador da série televisiva de space opera Babylon 5, uma favorita de minha esposa, Finisia Fideli. Depois do fim da série, Straczynski passou um tempo atuando como roteirista de quadrinhos. Nessa área, conheci seu trabalho para a Marvel, com Thor, Homem-Aranha e Doutor Estranho. Fique muito bem impressionado. Tanto que, quando trombo com algum material escrito por ele, minha tendência é adquirir. Foi o que aconteceu com Rising Stars Vol. 2 — que eu deixei pendurado enquanto buscava, na mesma loja em que o adquiri, a Omniverse, o volume 1 ou algum outro produto da mesma série, mas anterior. Há pouco, encontrei na Omniverse este Visitations, que é justamente uma introdução à série.

A premissa não tem muito ineditismo: um meteoro explode nas proximidades de uma cidadezinha americana, e todas as crianças em gestação ou geradas pouco depois, 113 delas, passam a desenvolver superpoderes. São os “Pederson Specials”, a partir do nome da cidade. Ecos aí do clássico britânico de John Wyndham, Aldeia dos Malditos (The Midwich Cuckoos), com a diferença de que as crianças são internadas, todas juntas, em instalações federais. A partir disso a narrativa acompanha, de modo episódico, algumas situações: um palhaço contratado para entreter as crianças no dia do seu internamento, e que mui obviamente está se borrando de medo delas; um menino com o impulso de ajudar outros e que finge ser uma das crianças afetadas, pagando um preço terrível por sua fantasia. Um dos diferenciais é um cientista das instalações, que é pessoa boa e paternal — contrário do clichê do cientista frio ou sádico, a lá Mengele. Esse cientista está no centro da última parte do gibi, em que uma das crianças, agora adulta e transformada em super-herói, faz uma visita para pedir conselhos. Sob a forma de diálogos e flashbacks, o episódio conta do ressentimento entre esse herói e um outro — lembrando que eles todos cresceram juntos e têm muita bagagem. Impressiona como a narrativa se esquiva com sutileza das situações padrão das HQs de super-heróis, que, se são super-humanos, têm nesta HQ uma pungente e acessível exploração do sentimento humano. A marca de Straczynski.

 

Arte de capa de Marco Soldi.

J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga N.º 17, de Giancarlo Berardi & Maurizio Mantero (texto), e Gustavo Trigo, Marco Soldi & Enio (arte). São Paulo: Mythos Editora, 130 páginas. Capa de Marco Soldi. Brochura. Encontrei este número antigo da série da criminóloga Júlia Kendall em uma das minhas visitas à loja Omniverse, em São Paulo. Luis Mauro, o proprietário, descobriu a série há pouco tempo, e disse que Berardi deveria escrever para a televisão. De fato, o roteiro é o destaque da série. O desta aventura é particularmente intrincado e interessante. Começa com Júlia (desenha com os traços de Audrey Hepburn) e um dos seus associados no Departamento de Polícia perseguindo um serial-killer que mata quarentonas e tinha sido posto pra correr por uma policial disfarçada. Capturado ao final de uma dinâmica perseguição, ele informa Júlia e as autoridades que, dos seis crimes atribuídos a ele, um não seria de sua responsabilidade. Depois de trombar com a burocracia jurídica da promotoria criminal, ela vai investigar sozinha, auxiliada por um detetive de seguros que é um dos personagens recorrentes da série: Leo (com a cara do ator Nick Nolte). Isso é central para a ficção de crime hard boiled americana — a figura do investigador solitário que vai além da prática policial e sua obsessão com o carimbo de “caso encerrado”. A investigação leva Júlia e Leo a um clube de sexo S&M e, a seguir, a um artista fracassado, como principal suspeito do assassinato de sua esposa. Há uma combinação interessante aí entre o assunto risqué do submundo do sexo tipo De Olhos bem Fechados, e um argumento, bem rascunhado pela mente arguta e erudita de Giancarlo Berardi, em torno da sublimação sexual na arte. Tudo isso em um gibi! Esta série do criador do western Ken Parker é uma das melhores coisas que podemos encontrar nas bancas, em termos de quadrinhos.

—Roberto Causo

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