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Leituras de Junho de 2020

Neste mês, mais um mergulho na space opera, na literatura de ficção científica e nos quadrinhos, mas com espaço para uma FC ufológica brasileira muito especial.

 

Arte de capa de Teo Adorno.

Brasa 2000 e Mais Ficção Científica, de Roberto de Sousa Causo. São Paulo: Editora Patuá, Coleção Futuro Infinito, junho de 2020, 204 páginas. Texto de orelha de Marcello Simão Branco. Arte de capa de Teo Adorno. Brochura. Graças ao empenho de Luiz Bras, coordenador da Coleção Futuro Infinito, e de Eduardo Lacerda, editor da Editora Patuá de São Paulo, foram distribuídos os primeiros exemplares daquilo que é estritamente o meu segundo livro de contos, àqueles que fizeram a compra antecipada na loja da editora. Faço esse agradecimento porque a publicação do livro acabou acontecendo em meio à pandemia da covid-19, que trouxe os problemas e distrações que todos podemos imaginar. Digo que é meu segundo livro de contos porque o primeiro foi A Dança das Sombras (1999), publicado em Portugal na saudosa coleção Caminho Ficção Científica, apresentando onze histórias e prefácio do escritor português de FC e fantástico António de Macedo. Meus outros livros de contos — A Sombra dos Homens (2004) e Shiroma, Matadora Ciborgue (2015) — reúnem histórias interligadas e podem ser lidos como romances fix-up, embora eu não faça questão.

O novo livro traz onze histórias e é dividido em quatro seções: “Aqui, Agora e Futuro Próximo”, “Tupinipunk”, “Steampunk” e “Space Opera”. A primeira tem 5 histórias, a segunda 3, a terceira 2 e a última, apenas uma — a noveleta das Lições do Matador, “Tengu e os Assassinos”. A seção de tupinipunk contém toda a minha produção de “cyberpunk tupiniquim”: “Vale-Tudo”, “Para Viver na Barriga do Monstro” e “O Cangaceiro Jedi”. Na primeira seção estão algumas histórias bastante republicadas: “A Mulher Mais Bela do Mundo” e “Brasa 2000”, este segundo uma história de guerra futura às vezes também associada ao cyberpunk, que já apareceu em duas antologias internacionais representativas da ficção científica latino-americana — daí também estar no título da minha coletânea.

 

Dune, de Frank Herbert. Norwalk, Connecticut: The Easton Press, The Masterpieces of Science Fiction, 1987 [1964], 520 páginas. Ilustrações internas de John Schoenherr. Encadernação especial. Existem duas edições recentes deste livro pela Editora Aleph, a segunda em capa dura com arte de Marc Simonetti e ambas com elogiada tradução de Maria do Carmo Zanini. Reli o romance porque desejava ter contato com esta obra-prima da ficção científica no original em inglês. A edição da Easton também traz parte das fabulosas ilustrações, coloridas e em preto e branco, feitas por John Schoenherr (1935-2010) para a The Illustrated Dune (1978), com um caráter ao mesmo tempo monumental, exótico e sombrio. Schoenherr ainda deve ser o artista mais associado a esse romance de Herbert.

Primeiro serializado nas páginas da revista Analog em 1964, Duna é uma mistura singular de space opera e planetary romance. É ambientado em um futuro distante em que a humanidade se espalhou pela galáxia, e, depois de uma revolta das máquinas, adquiriu cores medievais. A estrutura de poder imperial é dividida entre o imperador e os seus duques, que controlam planetas e suas populações e economias. O elemento de coesão entre essas forças é o voo mais rápido que a luz controlado por uma liga de pilotos, que se apoia no consumo da “especiaria”. Esta é uma droga que também possui o poder de atrasar o envelhecimento, minerada diretamente das areias do planeta desértico Arrakis. Quem controlar o fluxo da especiaria, controla efetivamente a base de poder do império galáctico. Uma manobra arquitetada pelo Imperador e pelo Barão Harkonnen tenta enredar o Duque Leto Atreides, famoso por ser um homem justo e popular entre as outras Casas. A aventura da Casa Atreides em Arrakis é marcada pelo choque cultural e pela descrição do exótico ambiente do planeta desértico. O herói de fato é o filho bastardo do duque, Paul Atreides, que, após uma série de peripécias de capa e espada, traições e fugas, se vê sozinho com a mãe Jessica, fundo nos sertões desse mundo. Ali, travam contato com os fremen, os duros e independentes nativos do lugar.

Paul é o ápice de um processo de seleção artificial secreto, procedente de uma ordem místico-científico-religiosa aderida à aristocracia imperial: a ordem das Bene Gesserit. O objetivo é produzir um ser capaz de conter em sua mente uma consciência racial de passado, presente e futuro — ou seja, alguém capaz de prever o futuro e conter um largo conhecimento e experiência acumulados. Por uma espécie de acidente sentimental de Jessica, Paul se torna essa criatura, o Kwisatz Haderach. Está fora das manipulações das Bene Gesserit, embora se apoie em uma mitologia semeada entre os fremen gerações antes. Ele mesmo é, portanto, um grande manipulador, conduzindo as coisas de modo a triunfar sobre forças que não possuem todas as informações e perspectivas que ele controla. Em tudo, há a grande sombra de um determinismo racial. Ao reler o romance, também me pareceu sentir nele a sombra da série Fundação (1942-1950), já que o banimento de computadores e robôs, instaurado depois da Guerra das Máquinas, funciona como uma autolimitação estruturante, como o esquecimento da energia atômica na série de Isaac Asimov.

Para desenvolver a narrativa, Herbert apoiou-se brilhantemente em análise (um personagem imaginando o que outros, aliados e antagonistas, farão ou pensarão) e cálculo (o personagem imaginando o que ele mesmo deve ou precisa fazer), o seu narrador onisciente saltando de personagem e personagem em um efeito que amplia a sensação de complexidade e profundidade do romance. Epígrafes ficcionais de textos de história do império galáctico ajudam a passar a impressão de “universo expandido”, vasto entroncamento de fatores sincréticos arraigados — algo que o glossário no final do volume também faz. Em tudo, a textura e a fluência, o suspense e a caracterização dos personagens são conduzido com enorme desenvoltura e habilidade, produzindo uma textura marcante para a space opera. Ao invés de uma introdução por um especialista, como costumam ser as edições da série The Masterpieces of Science Fiction, esta traz uma série de depoimentos de grandes nomes da FC, por ocasião da morte de Herbert em 1986. São eles: Poul Anderson, Isaac Asimov, Ben Bova, Ray Bradbury, Charles N. Brown (o fundador da revista Locus), F. M. Busby, Harlan Ellison, Philip José Farmer, James Gunn, Joe Haldeman, David G. Hartwell (editor e pesquisador), Peter Israel, Willis E. McNelly, Frederik Pohl e Jack Vance.

 

Arte de capa de Chris McGrath.

The Battle for Commitment Planet: Helfort’s War: Book IV, de Graham Sharp Paul. Nova York: Del Rey, 2010, 374 páginas. Arte de capa de Chris McGrath. Paperback. Admito sem qualquer problema ter comprado este romance de space opera militar pela capa, com arte do ilustrador hiper-realista Chris McGrath. Começando a leitura, achei o texto meio travado e enrijecido, e o pus de lado. É curioso que, retomando agora, a impressão negativa inicial não foi tão forte. Talvez ela tenha surgido mais do fato de este ser o quarto livro de uma série, sem muita informação sobre o que veio antes.

O herói é o Tenente Michael Helfort, protagonista da série Helfort’s War. O livro o encontra em uma tremenda sinuca: sua namorada, a também militar Anna Cheung, foi capturada pela tirânica ditadura teocrática (muito em voga na space opera militar depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001) dos Mundos Hammer. Se Helfort não se entregar, ela será estuprada por um bando de soldados e assassinada. Daí se vê que, nos volumes anteriores, o herói deve ter incomodado muito o inimigo. A sua solução é incomum: ele convence seus companheiros a se amotinarem e a levar um par de veículos de assalto de tecnologia superior ao planeta Commitment, sede dos Mundos Hammer. O plano é entregar os veículos aos guerrilheiros que tentam derrubar o governo, e alistar as suas tropas na mesma luta. O autor é convincente na descrição do planejamento e execução do plano. É claro, as verdadeiras complicações estão nas ações em Commitment, e quando o livro as aborda, ele passa a apresentar pouco além de ação tática contínua, dentro de uma guerrilha high tech — o que não deixa de cativar e estimular, certamente.

Graham Sharp Paul nasceu no Sri Lanka e serviu na Marinha Real Britânica como oficial e mergulhador de combate, chegando a tenente comandante (o equivalente a capitão de fragata ou tenente coronel), transferindo-se depois para a marinha da Austrália. Estudou em Cambridge. Certamente, sabe do que fala, em termos militares e tecnológicos, e sua escolha de personagens expressa algo do ambiente multicultural em que cresceu.

 

Arte de capa de Marc Simonetti.

Messias de Duna (Dune Messiah), de Frank Herbert. São Paulo: Editora Aleph, 2017 [1969], 270 páginas. Tradução de Maria do Carmo Zanini. Arte de capa de Marc Simonetti. Capa dura. A primeira sequência de Duna se afasta mais da ficção científica da Golden Age e mergulha na New Wave com uma narrativa de maior imersão psicológica e análise e reflexão sobre os processos formadores de mitologias — característica central para a New Wave americana —, já que o protagonista Paul Atreides é agora uma figura de poder tanto político quanto religioso. Este é o outro livro da série Duna que eu havia lido antes, em tradução de Jorge Luiz Calife (edição da Nova Fronteira).

No romance, Paul é o imperador da galáxia, posição conquistada no desfecho dramático de Duna. Doze anos se passaram entre um livro e o outro, e uma jihad espacial se deu, com Paul assumindo o papel de um tirano absoluto, que se compara favoravelmente a Adolf Hitler. Tudo é válido, diante da sua visão profética, darwinista social, de que suas atrocidades combatem a estagnação da humanidade. Essa visão do destino da humanidade, o “Caminho Dourado”, é a versão que Herbert dá do determinismo histórico embutido no conceito da psico-história (ainda buscando a semelhança com Fundação, de Asimov), mas expresso como determinismo biológico ou racial. Paul, o imperador, admite o esmagamento da oposição e a destruição de vários planetas — um exagero típico de space opera que meio que desfaz o discurso ecológico tão presente no primeiro romance —, embora com um traço de amargura e auto-ironia:

“— Muito bem, Stil. — Paul olhou para os rolos nas mãos de Korba, que os segurava como se quisesse deixá-los cair e sair correndo. — Números: fazendo uma estimativa conservadora, matei sessenta e um bilhões, esterilizei noventa planetas, desmoralizei completamente outros quinhentos. Eliminei os seguidores de quarenta religiões que existiam havia…” —Frank Herbert. Messias de Duna.

Muito do romance diz respeito a um presente recebido por ele da casta de engenharia genética tleilaxu: uma espécie de clone (um ghola, na lingo da série Duna) do seu amigo, Duncan Idaho, um dos homens mais leais ao seu pai, o Duque Leto Atreides, e um dos seus maiores guerreiros. Agora, retorna como um sofista zen, e as reflexões desse personagem são um dos pontos altos do romance.

O Duncan Idaho que é um ghola é um sujeito que sofre um grave isolamento moral e que passeia por uma estranha paisagem, uma interzona entre o que existia antes e que era sólido e conhecido (o planeta desértico Arrakis e a estoica sociedade fremen) e o que poderá existir no futuro (um Arrakis transformado em jardim e os fremen transformados em corte imperial). Essa interzona talvez funcione como expressão física de uma paisagem mental estranha, como na New Wave britânica. Mas é a premissa de que uma versão atualizada do tarô estaria criando um ruído que interfere com a capacidade do imperador de prever o futuro que é a ideia mais New Wave do livro.

O novo Idaho pode ou não ser um assassino colocado ao lado de Paul pelos seus criadores. Mas o que não faltam são opositores velados ao imperador, entre eles os membros da Guilda dos Pilotos e as Bene Gesserit, talvez até mesmo sua irmã, a moralmente lesada Alia. Um assassino certamente implantado em Arrakis é Scytale, um dançarino facial capaz de alterar a própria fisionomia — outra criação dos tleilaxu. As ameaças são muitas, mas o que parece mais ominoso é a degradação do herói como messias transformado em tirano. O terror é a norma, após qualquer revolução. Uma com bases religiosas parece ser a mais cruel, na concepção de Herbert. No contexto do império interestelar, o poder galáctico leva a uma corrupção de proporções galácticas. A edição da Aleph tem deslumbrante ilustração de capa de Marc Simonetti e tradução fluida e segura de Maria do Carmo Zanini.

 

Arte de capa de Fernando Pacheco.

A Luz Paralela, de Branca Maria de Paula. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2020 [2017], 146 páginas. Introdução de João Batista Melo. Texto de orelha de Cristina Agostinho. Arte de capa de Fernando Pacheco. Brochura. A ficção científica de tema ufológico atesta o quanto a cultura brasileira é distante da ciência formal. Nem por isso deve ser encarada como algo menor ou de possibilidades diminuídas. Ela representa bem essa realidade, o que por si só um papel válido da literatura — e com um corpus de alto nível que inclui o “Eles Herdarão a Terra” (1960), conto de Dinah Silveira de Queiroz; “O Começo do Fim” (1960), conto de André Carneiro; o inquietante “Um Moço Muito Branco” (1962), conto de João Guimarães Rosa; e “Dea Mayor Sperientiae” (1965), de Nilson D. Martello, conto curto sobre alienígenas no passado da Terra. Todos estes só na Primeira Onda da FC Brasileira (1957 a 1972). Em especial, lembramos do romance de estreia de Rubens Teixeira Scavone, O Homem que Viu o Disco Voador (1958), e várias narrativas desse autor tão literário, como “Número Transcendental” (1965), e a sua obra-prima, a noveleta O 31.º Peregrino (1993). Há ainda o delicado “O Visitante” (1977), de Marien Calixte, com sua ousadia de tratar com ternura de um tema tabu; o áspero e claustrofóbico “Engaiolado” (1998), de Cid Fernandez; e uma série de contos e noveletas de Renato A. Azevedo, iniciada em 2008 com De Roswell a Varginha.

Publicada primeiro como e-book em 2017, a novela A Luz Paralela, da escritora e fotógrafa mineira Branca Maria de Paula, vem se juntar a essa ilustre companhia. Acompanha a também fotógrafa Clarice de Assis Magon, personagem que vive em Belo Horizonte mas que vai com o companheiro Matheus, um engenheiro, passar as férias na reserva ecológica da Serra do Cipó. Esse é o locus de aparições, avistamentos, mutilação de animais e abduções que vão se infiltrando na vida de Clarice. A autora, porém, foge de um trilho único e rijo, ao longo da narrativa em tempo presente e desenvolvida em capítulos curtos. Nos capítulos iniciais, por exemplo, empresta recursos da crônica, com um narrador onisciente mencionando fatos fantásticos, distantes do nosso conhecimento e ocorridos universo afora (como as “gigantescas tempestades de água e gelo que assolaram Marte no último mês de maio”), apontando-os para o caminho da sua protagonista. Logo adiante, os capítulos regulares são pontuados por outros, em primeira pessoa e em itálico, narrando episódios do passado, do presente e do futuro, possivelmente de versões alternativas ou paralelas (hipótese reforçada pelo título)…

Ao mesmo tempo, a ufologia se infiltra na vida de Clarice também pelo rádio, pela TV, pelas conversas dos locais da Serra do Cipó (especialmente o veterinário Thiago, por quem ela sente uma estranha atração). Em BH, ela chega a frequentar a sessão pública de um místico “contatado”, possível charlatão. São os nuances da cultura ufológica, que expressa a tendência de muitos autores que buscaram a FC ufológica (Scavone, Azevedo, e mesmo o americano Martin Caidin, no seu romance Encounter Three, de1969). Mesmo aí, porém, Branca Maria de Paula evita soar didática ou indutiva — as situações e imagens da sua admirável novela são embaçadas, desfocadas, distorcidas e recompostas na sua composição, de modo a subordinar tudo à subjetividade de Clarice, personagem de rara vivacidade e encanto. O efeito derradeiro é o de um turbilhão psicológico de uma condição feminina encurralada, sitiada pela hipótese da abdução e da inseminação artificial pelos ufonautas, e pelo distanciamento do companheiro, medo da gravidez, temor do próprio desejo. Com a influência de Ray Bradbury registrada por Cristina Agostinho na orelha e por João Batista Melo na introdução, Branca Maria de Paula vai além dessa importante influência para a FC brasileira desde a década de 1960. Ela posiciona A Luz Paralela no ponto focal da FC ufológica nacional. Nela estão a feminilidade aterrorizada de O 31.° Peregrino, de Scavone; a angústia claustrofóbica de “Encurralado”, de Cid Fernandez; a ambientação de colônia de férias rural de Brasil: Aventura Interior (2016), de Eliana Machado — e em tudo, especialmente na força da sua protagonista, foi além. Uma das melhores novelas do período atual (as Terceira Onda da FC Brasileira), a par com a premiada A Telepatia São os Outros (2019), de Ana Rüsche.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Terry & Rachel Dodson.

Star Wars: Princesa Leia (Star Wars: Princess Leia), de Frank Waid (texto) e Terry & Rachel Dodson (arte). Barueri-SP: Panini Comics, 2017, 112 páginas. Arte de capa de Terry & Rachel Dodson. Brochura. Em mais esta investida nas lacunas existentes entre os filmes Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca, recriando o universo expandido da franquia, Leia Organa é a principal personagem. A história começa com o fim da cerimônia da vitória no final do primeiro filme, com Leia tendo de lidar com sentimentos contraditórios que incluem o luto pela perda de sua família e do seu planeta, Alderaan. Ao invés de ficar em segurança com os rebeldes e curtir o luto, como recomendam os seus superiores, ela se evade para reunir seus compatriotas sobreviventes e encontrar um lar para eles. Vai acompanhada de RD-D2 e Evaan, uma piloto rebelde, alderaaniana loura e alta como uma top model.

Depois de escaparem de caças asa-X enviados para interceptá-las (com Luke Skywalker e Wedge Antilles entre os pilotos), elas conseguem uma nave maior com um contrabandista, e rumam para Sullust, onde os alderaanianos tiveram um povoamento. Leia tem a cabeça colocada a prêmio pelo império, mas algumas das dificuldades maiores da heroína são lidar com uma aristocrática líder local e com a traição inadvertida de uma jovem cuja irmã mais velha está nas fileiras imperiais. Nos episódios finais (o livro reúne o conteúdo da série Princesa Leia, números 1 ao 5), a tentativa de engrossar as fileiras dos refugiados com os colonos do planeta Espirion esbarra em preconceito racial, já que eles haviam se misturado com os locais.

Há muita ação em que Leia e Evaan têm de resolver as coisas na porrada, mas Leia ainda é uma diplomata habilidosa que fornece um contraponto moral e ético ao naturalismo que fundamenta a franquia, e que muitas vezes fica só no plano do cinismo e da violência naturalizadas — como nas aventuras de Boba Fett, por exemplo. O roteiro de Waid, sem contar com os coprotagonistas Luke, Han, C3P0 e Chewie, é habilidoso ao empregar bem os vários personagens secundários que nos são apresentados, dando a impressão de que ninguém está ali apenas como engrenagem fria para o funcionamento do enredo. Já a arte do casal Dodson tem personalidade própria, charme, graça e elegância, mas às vezes parece juvenil e cômica, e o hardware divergente do look de Star Wars. Isso não acontece nas ilustrações de capa, por isso vale um olhar mais demorado sobre elas, reproduzidas antes de cada episódio ou capítulo.

 

Arte de capa de Terry & Rachel Dodson.

Star Wars: Prisão Rebelde, de Jason Aaron & Kieron Gillen (texto) e Leinil Francis Yu (arte). Barueri-SP: Panini Comics, 2018, 144 páginas. Arte de capa de Terry & Rachel Dodson. Brochura. Esta aventura começa com um de prólogo protagonizado por Eneb Rey, um espião rebelde metido no planeta Coruscant, a metrópole do império já regido por Palpatine. É desenhada por Angel Unzueta, artista hábil tanto com figura humana quanto com o hardware. Pena que, como costuma acontecer com frequência, a cor digital (de Paul Mounts) meio que matou a expressividade da arte.

A sequência principal tem Leia Organa se aliando à Dra. Aphra, uma das personagens mais destacadas desse re-take do universo expandido. Aphra é uma agente do império, forçada a colaborar, relutantemente, com os rebeldes. Usando a nave de Sana, outra mulher forte, contrabandista velha conhecida de Han Solo, elas vão até Mancha Solar, uma prisão espacial em que os rebeldes encerram criminosos de guerra. Lá, elas se deparam com um ressentido e meio insano Eneb Rey, em missão de extermínio. Enquanto as garotas enfrentam situações realmente cabeludas, Luke e Han vivem situações cômicas: Han perdeu uma grana da Aliança no jogo, e precisa aceitar uma carga de nerfs (daí a fala de Leia em O Império Contra-Ataca, chamando Han de “arrebanhador de nerfs”) para recuperar uma parte e salvar colonos da fome.

A estrela aqui é o artista filipino Leinil Francis Yu, desenhista de estilo próprio, traço fino e realista e que se dá muito bem com o hardware. Assim como outro mestre hábil no design, o também filipino Jerome Opeña, ele abafa algo daquela expressividade explosiva tão própria do passado da Marvel, em favor de uma estaticidade mais característica da ilustração. O livro fecha com uma história em que, em Tatooine, um ainda jovem Obi-Wan acompanha e protege um Luke ainda garotinho e sorridente, com arte hiper-realista de Mike Mayhew.

Roberto Causo

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Leituras de Agosto de 2017

Este foi um mês de novas leituras de fantasia e de ficção científica, mas com espaço para não-ficção, quadrinhos e ficção literária.

 

Arte de capa de Kevin Murphy.

Adiamante, de L. E. Modesitt, Jr. Nova York: Tor Books,1998 [1996], 312 páginas. Capa de Kevin Murphy. Paperback. Assim como Jack McDevitt, comentado mês passado, Modesitt é um escritor que se repete muito mas sempre entrega um trabalho consistente, despretensioso e, muitas vezes, instigante. É o caso deste Adiamante, obra de impacto que se expressa como exercício de filosofia moral numa ficção científica de futuro distante. Nesse futuro, a humanidade se dividiu em três grupos: os demi[gods], os cyb[orgs] e os draffs. Num passado indeterminado, o cybs se insurgiram e foram expulsos da Terra. No tempo do romance, eles retornam com uma esquadra de naves superpoderosas feitas com a substância mais resistente que a tecnologia humana é capaz de produzir: o “adiamante” do título.

Uma das características do autor é narrar na primeira e na terceira pessoas. Aqui o livro acompanha, na maior parte, a narrativa do protagonista, Ecktor. Ele é o Coordenador planetário da Velha Terra, indicado quando os cybs ressurgem. A sociedade que representa e fundada no respeito ao indivíduo, no aproveitamento energético (até a classe dirigente tem que prestar serviços à comunidade, quando consome energia com caprichos) e na recuperação ambiental. Ecologia é um tema de Modesitt — o primeiro livro dele que li foi um ecothrillerThe Green Progression, escrito com Bruce Scott Levinson. Em Adiamante, a humanidade, escolada em guerras e poluição em escala planetária, aprendeu as lições da história. Os demis adotaram um código estrito de conduta ética e integraram a própria ideia da resistência pacífica aos seus genes — exatamente dentro da conclusão de Reinhold Niebuhr em Moral Man and Immoral Society (1930), que discuti aqui em julho. A maior parte do intenso suspense que surge do romance vem de sabermos o tempo todo que os demis têm poder para destruir os cybs (Ecktor tem um pedaço de adiamante como peso de papel), mas evitam fazê-lo até que as intenções dos invasores, por seus próprios atos, fiquem claras. A única coisa que eles jamais farão, é um ataque preventivo, coisa que virou doutrina oficial americana durante a administração George W. Bush.

“Poder sem moralidade é o desastre; moralidade sem poder é inútil.” —L. E. Modesitt, Jr. Adiamante.

Além disso, a impossibilidade de comunicação quando os sistemas de valores são opostos também é marcada ao longo da narrativa, com Ecktor padecendo de um isolamento moral em relação aos cybs, que é partilhado por toda a coletividade de demis. Esse grupo escolhe o sacrifício de grande dos seus quadros, para que não cometessem um ato que iria corromper e destruir as bases da sua sociedade — eles têm sua própria versão da “psico-história” de Asimov, com previsões de alta percentagem indicando isso. Uma escolha tão singular, que só encontrei exemplos semelhantes em duas outras ocasiões, nas minhas leituras: na novela “Zanzalá” (1938), do brasileiro Afonso Schmidt (mas em tom farsesco), e no romance Pastwatch: The Redemption of Cristopher Columbus (1996), de Orson Scott Card. A FC costumava ser assim… romances compactos que dramatizavam com engenhosidade conceitos éticos e sociais caros à civilização. Esta foi uma das minhas melhores leituras neste ano, até aqui. A capa de Kevin Murphy é simples mas busca o tipo de textura de materiais que o mestre inglês Jim Burns costuma realizar.

“Apesar de todas as nossas redes, de todas as nossas comunicações, os humanos — cybs ou demis — são alienígenas, alienígenas uns para os outros, e para o universo, e é por isso que devemos ter confiança.” —L. E. Modesitt, Jr. Adiamante.

 

Arte de capa de Paola Giometti.

O Chamado dos Bisões, de Paola Giometti. São Paulo: Andross Editora, 2017, 144 páginas. Capa e ilustrações internas de Paola Giometti. Brochura. Ramo talvez recursivo da fantasia — hipótese enfatizada pela série Redwall do escritor inglês Brian Jacques (1939-2011) —, a fábula de animais é um pouco rara no Brasil. Eu gosto de bichos, e desse tipo de fábula desde que li uma num livro da Disney, quando era menino. Por sorte, tenho feito a preparação de texto da série de fábulas sobre animais norte-americanos escrita por Paola Giometti, e que inclui O Destino do Lobo (2014) e O Código das Águias (2016). Todos têm a mesma moldura: um jovem que viaja da cidade para zonas mais ermas, florestas e montanhas, onde ouve fábulas de animais importantes para a cultura nativo-americana, pela boca do seu sábio bisavô. O bicho deste terceiro volume é o bisão americano, e o tema é a migração como rito de passagem na formação de uma pequena bisonte que se separou da mãe e do rebanho. Quem conhece os volumes anteriores é premiado com aparições de personagens que viveram as aventuras precedentes. Todos os livros da trilogia tratam dos atritos muito ambíguos entre os animais e os seres humanos. Há um leve toque místico, no culto aos antepassados, pelas várias espécies. Parte da diversão desse tipo de fábula é como os animais são humanizados — aqui, com a inclusão de atitudes e modos de falar dos jovens. A função moralizante da fábula é explicitada pelas reações do jovem que ouve a história contada pelo avô. Com este livro, lançado em 12 de agosto na Biblioteca Viriato Corrêa, a série Fábulas da Terra se completa como uma trilogia. O lançamento contou com convidados muito especiais, duas corujas e uma águia-chilena mantidas pelo grupo de criadores Turma do Gavião, sendo que a águia Ragnar e a coruja Sansão aparecem como personagens no livro. (Minha esposa Finisia Fideli adorou ver os bichos e conversar com os criadores.) Giometti, que escreve com graça e vivacidade, e ilustra os próprios livros, pretende escrever agora narrativas de realismo mágico.

 

Arte de capa de Steve Stone

Dragon Haven: Volume Two of the Rain Wilds Trilogy, de Robin Hobb. Nova York: EOS, 1.ª edição, 2010, 508 páginas. Capa de Steve Stone. HardcoverEste é o segundo livro da tetralogia Rain Wild Chronicles, de Robin Hobb. E parte de uma longa série muito maior, iniciada com a Trilogia Farseer, conhecida no Brasil como Trilogia do Assassino. Hobb é o pseudônimo de Megan Lindholm, que apareceu na Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica com esse nome. Hobb/Lindholm é uma das melhores autoras de fantasia que conheço. Seu vasto mundo secundário é complexo e humano. A Trilogia Liveship Traders termina com o retorno de um dragão aos céus desse mundo. Um número de serpentes marinhas consegue se instalar no Rio Rain Wilds, onde criam casulos que vão chocar os dragões. Na Trilogia Tawny Man, dois personagens marcantes da Trilogia Farseer, Fitz e o Bobo, integram expedição a terras distantes e geladas, em busca de um dragão congelado. O Bobo diz que o seu objetivo na vida é trazer os dragões de volta ao mundo — uma loucura, na visão de Fitz. Para quê trazer feras destruidoras, famintas e arrogantes de volta? Para equilibrar a arrogância humana. Um projeto que tem a minha simpatia, e é a razão não religiosa mais abstrata possível para o preservacionismo ambiental.

No primeiro livro das Rain Wilds Chronicles, Dragon Keeper (2010), um grupo de dragões mal-formados emerge dos casulos. Eles não se viram sozinhos, e o Conselho de Comerciantes da cidade de Trehaug não quer pagar pelo seu sustento. Para se livrar dos dragões, montam uma expedição à cidade perdida de Kelsingra, em algum lugar subindo o rio. Jovens indesejados de Trehaug são convertidos em tratadores de dragões, e enviados com os bichos. A garota Thymara é um deles, e a expedição conta ainda com a aristocrata de Bingtown (a cidade da Trilogia Liveship Traders) Alise Kincarron, uma erudita no estudo dos dragões, que vai acompanhada de seu amigo de infância Sedric Meldar — o amante secreto do marido de Alise, Hest Finbok. Dragon Haven discute o quanto o secretismo em torno da homossexualidade leva a comportamentos esquivos: Sedric deseja comercializar partes de dragão, de alto valor de junto aos salcedeanos, uma das nações mais canalhas do mundo secundário criado por Hobb. Seu objetivo é enriquecer o bastante para viver com Hest sem precisar esconder o relacionamento. O livro também enfoca o sexo e os custos da gravidez adolescente, considerando que, por viverem no Rio Rain Wilds, os tratadores sofrem de deformidades que limitam sua chances de reprodução. Nem sempre eles entendem isso, e Thymara, em particular, é pressionada a escolher um parceiro para evitar atritos entre os rapazes. De personalidade forte, ela resiste. Os percalços do enredo incluem uma cabeça d’água que causa baixas na expedição; as ideias utópicas do tratador Greft, de criar sua própria sociedade livre em Kelsingra, fazendo uma guinada na direção de O Senhor das Moscas, de William Golding; o conflito entre os expedicionários, fomentado por traficantes de partes de dragões, infiltrados entre eles; e a maturação violenta dos próprios dragões, que começam a transformar fisicamente seus tratadores, como fizeram no passado na civilização desaparecida dos elderlings. Hobb é mestre em encontrar o timing preciso entre os diversos pontos do enredo, e quando o seu discurso sobre sexo e gravidez adolescente parece estar enchendo a paciência, ela põe em cena os mais terríveis argumentos. Sua sensibilidade a faz também relativizar o papel desagregador de Greft, e o retrato da homossexualidade que vinha construindo — achando um namorado honesto e dedicado para Sedric. Os elementos do gênero romance, combinados com a fantasia, estão mais claros no relacionamento apimentado de Alise com Leftrin, capitão da barcaça que acompanha a expedição. Um homem rude, mas que a aprecia mais do que o arrogante Hest jamais o faria.

Os dragões são um interesse à parte, na sua arrogância e pomposidade, e na interação com os jovens tratadores. Ao contrário daqueles de Game of Thrones, eles falam e também se comunicam telepaticamente. A ilustração de capa de Steve Stone tem uma bonita tonalidade, mas qualquer fã de fantasia vai dizer que seus dragões são um completo engano.

 

Arte de capa de Carlos Chagas.

Céu Vermelho, de Júlio Emílio Braz. Rio de Janeiro: Editora Ao Livro Técnico, 1995, 56 páginas. Capa e ilustrações internas de Carlos Chagas. O ano de 1995 foi aquele em que as coleções Novos Mundos da Ficção Científica (Francisco Alves) e Ficção Científica GRD (Edições GRD) deixaram de circular. A publicação de FC no Brasil, que já era esporádica, minguou ainda mais — situação que só se reverteu oito ou dez anos depois. A área juvenil sempre foi mais rica, mas nela também a FC tinha uma presença incerta. O colega Júlio Emílio Braz, um dos poucos afro-brasileiros trabalhando no campo da FC, foi roteirista de quadrinhos e escritor de livros de western para a Editora Escala, sob pseudônimo e vendidos em banca de jornal. Quando se instalou no campo infantojuvenil, ganhou fama e foi publicado no exterior. Imagino o quanto este Céu Vermelho — que encontrei outro dia numa arrumação — não representa um momento de transição do Júlio Emílio. Tem muito de faroeste, com perseguição a ladrões de cavalos, circo de horrores, duelo em saloom e confronto final entre herói e vilão. A palavra “xerife” conseguiu se enfiar no texto, inclusive…

Mas é ficção científica. Do tipo ufológica com direito a OVNIs e “ufonautas tipo 1”: um alienígena sinistrado na Terra acaba se integrando à família do militar que o abriga. Isso, num canto do Sul do Brasil chamado Cerros Bravos, na segunda metade do século 19. Lembra aí “Um Moço Muito Branco” (1962), de Guimarães Rosa, passado em Minas Gerais em 1872, com um alien abandonado acidentalmente nos rincões do lugarejo Serro Frio… O E.T. de Céu Vermelho conquista as crianças do lugar, manipulando a matéria e curando um guri com poliomielite, mesmo enquanto o padre local (que tem um não explicado neto) quer organizar um grupo de linchamento contra ele. Mas é um bando de bandoleiros que o ameaça de fato, capturando-o para a dona de um mafuá de passagem pela região. Li outros livros juvenis de Júlio Emílio (que li quando meu filho estudava no Colégio Notre Dame aqui perto de casa, onde conhecemos o escritor numa feira de livros dentro da escola). Neles, nota-se que o autor não é fã de finais felizes. Este não é exceção. O conto de Rosa tem no “estilo roseano” a marca maior, a novela de Júlio Emílio, também ela com um léxico rico, talvez devedor de Erico Verissimo, é marcada pelos elementos de aventura que ele combinou.

A Editora Ao Livro Técnico é responsável pela publicação do primeiro livro de arte de FC lançado no Brasil, Naves Espaciais: 2000 a 2100. Sua edição de Céu Vermelho deixou a desejar na revisão, mas a capa e as cinco ilustrações internas (em preto e branco) de Carlos Chagas são um plus. Chagas está lá com Manuel Victor como um dos grandes da ilustração de livros para crianças no Brasil, e embora aqui ele não explore muito os elementos de FC, suas artes remetem à pintura brasileira dos tipos regionais (tipo José de Ferraz Almeida Junior), reforçando a mistura sugestiva que o escritor criou. Há pelo menos mais um livro de FC juvenil pela editora, Os Semeadores da Via Láctea, de Paulo Rangel. Também com arte de Chagas.

 

Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis, de José Luiz Passos. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014 [2007], 400 páginas. Brochura. Ainda envolvido com Machado de Assis, desta vez peguei um estudo a respeito dele, pelo professor universitário e romancista José Luiz Passos. Seu O Sonâmbulo Amador ganhou o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013. O foco deste estudo está em como Machado busca na psicologia dos seus protagonistas a exploração da moralidade e das máscaras que usamos para transitar dentro da sociedade. Passos afirma que o nível de penetração psicológica que Machado alcançou seria uma contribuição dele para o romance latino-americano (embora não forneça contra-exemplos).

Um dado interessante é o quanto Machado teria bebido de William Shakespeare. Isso parece óbvio para quem conhece seus contos e romances, mas Passos foi além e fez um levantamento das ocorrências de Shakespeare, menções e citações, na obra toda de Machado. Há uma listagem no final do livro, com ocorrências majoritárias de peças como Otelo e Hamlet. Muito menos das que tratam da história da Inglaterra, e menos ainda, não pude deixar de notar, daquelas com elementos fantásticos como A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão. A tradução de um romance de Vitor Hugo também pode ter influenciado Machado na adoção das suas estratégias literárias mais características, assim como a obra do russo Ivan Turgueniev. Passos revela que o interesse de Machado pelo realismo teria surgido da sua apreciação do teatro da época, já que foi crítico de teatro e já que o realismo chegou antes às artes brasileiras via teatro, e não pela prosa literária. Aí também tem-se uma pista do privilégio do adultério como tema na sua obra, já que foi um assunto muito visitado por esse teatro pioneiro. O livro tem um estilo acessível e apresenta capítulos relativamente curtos, escritos com leveza e uma certa autonomia. Assim, os argumentos de um reforçam os de outros, mas sem que haja uma lógica de tese universitária amarrando-os — o que é muito positivo. O foco está nos romances de Machado, embora o autor também mencione alguns contos e novelas. Cita muito Antonio Candido e Roberto Schwarz, como seria de se esperar, mas também alguns estrangeiros, e trata ainda da polêmica entre Machado e um dos seus primeiros críticos, Sílvio Romero. Em tudo, expressa a admiração pelo modo como Machado de Assis deu a seus personagens o caráter de pessoas.

“Será que ganhamos algo de fundamental quando consideramos os protagonistas de um romance pessoas, e não meras instanciações simbólicas de qualidades mais abstratas?” —José Luiz Passos. Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis.

 

Dicionário de Pequenas Solidões, de Ronaldo Cagiano. Rio de Janeiro: Língua Geral, Coleção Ponta-de-Lança, 2006, 136 páginas. Texto de orelha de Ignácio de Loyola Brandão. Brochura.  Conheci Ronaldo Cagiano por intermédio do escritor mineiro João Batista Melo, que, como contista, às vezes explora a ficção científica e a fantasia. Quando João Batista vem a São Paulo, costumamos nos reunir os três (às vezes quatro, quando a esposa de Cagiano, a escritora Eltania André, o acompanha) para um papo. Cagiano e eu temos algumas coisas em comum: somos fãs de João Batista; costumamos reclamar muito da situação do mercado editorial; somos os dois oriundos de cidades pequenas, ele de Cataguases-MG, e eu de Sumaré-SP — duas cidades que contribuíram incidentalmente para a ficção científica. Mas ele escreve ficção literária e eu, ficção de gênero.

Alguns dos 14 contos do livro se passam em Cataguases, outros em Brasília, por onde Cagiano também passou. Um deles, “Encontros”, narra a passagem de Franz Kafka (1883-1924) por Cataguases nos idos de 1910, instigado pelo cineasta pioneiro Humberto Mauro (1897-1983) e acompanhado de Max Brod. Por isso talvez possamos classificar o conto como história alternativa… Outros contos falam das angústias da vida brasileira, focados em personalidades constrangidas por experiências de infância ou juventude, como a menina violentada em “O Abuso”, a prostituta assassinada em “Solidão”, o jovem frívolo que herda responsabilidades inesperadas com a morte do irmão em “Juízo Final”, a solidão de uma imigrante georgiana entre seus cachorros em “Pavlov”… Uma coisa que me agrada em Cagiano é o fato de ele se esquivar da prosa minimalista que veio a dominar a literatura brasileira com a Geração 90. Seu estilo é mais rico e remissivo dos momentos da literatura e da cultura brasileira que compõem sua formação como escritor, imagino que aqueles estabelecidos especialmente na década de 1970, bastante críticos da urbanização e desumanização da sociedade brasileira. Esse tipo de enfoque e a prosa literária que advém dele tendem ao mergulho psicológico e a um tom introspectivo, reflexivo, que para ser bem marcado costuma limitar a voz dos personagens ou embuti-la num discurso indireto livre. Dos 14 contos, nenhum deles apresenta situações de diálogos — o que não deixa de ser um tipo de redução… A edição da Língua Geral é muito bonita, com uma capa mais rígida do que o costumeiro, uma cinta emborrachada que a abraça (não aparece no scan acima) e apenas uma orelha, assinada por ninguém menos que Ignácio de Loyola Brandão.

“Quando você abre o livro e começa pelos contos da mulher violentada e a visita de Kafka percebe que está diante de um escritor que sabe o que fazer, sabe para onde vai, como se vai, as conduções que deve tomar … Cagiano é um autor que te prende na primeira página.” —Ignácio de Loyola Brandão.

 

Half Life, de Hal Clement. Nova York: Tor Books, 2000 [1999]. Paperback. Hal Clement (Harry Clement Stubs; 1922-2003) escreveu o clássico da ficção científica Mission of Gravity (1953), importante para a retomada da FC hard americana na década de 1970, com Larry Niven et alii. Ainda na primeira metade da década de 1990, a Editora Aleph contratou esse romance, produziu uma tradução e encomendou uma linda capa feita por Vagner Vargas. Mas o livro acabou não saindo. Assim como Mission of Gravity, este Half Life foi primeiro publicado em partes em uma revista, a Absolute Magnitude, mas como histórias interligadas — um fix-up, portanto.

A aventura se passa em um futuro em que a humanidade e a vida na Terra parecem ter seus dias contados. Uma profusão de doenças degenerativas jogou a expectativa de vida para metade da atual. As ciências exatas foram arregimentadas e militarizadas para concentrar o esforço de salvação da humanidade. Uma nave com uma tripulação de doentes terminais é enviada a Titã, a lua de Saturno. Vai em busca de traços de substâncias ou compostos pré-bióticos (constituintes químicos da vida biológica) que possam lançar luz sobre a formação da vida e, indiretamente, sobre a atual ameaça à vida na Terra. Uma FC hard baseada em microbiologia ou bioquímica, portanto (Clement foi professor da área). Há muita ironia tanto na premissa quanto no modo como o romance é narrado. O narrador onisciente salta de personagem em personagem e levantando os pontos científicos, mesmo que muito se desenvolva por meio de diálogos entre os tripulantes que, de tão doentes, não se comunicam fisicamente. Mais ainda em como as mortes dos homens e mulheres bombardeados da tripulação pontuam os passos e as descobertas da expedição, envolvendo uma substância de aparência betuminosa que corrói superfícies metálicas e trajes espaciais. Daí surge, aliás, um estranho senso de estoicismo que é uma das marcas da narrativa. As mortes e a investigação científica mantêm o suspense até o finzinho. O desfecho, ironicamente nada retumbante, sugere a descoberta de uma pista promissora em torno de enzimas perturbadas pelos metais pesados acumulados na biologia humana e animal. A verve de Clement torna Titã um mundo fascinante, e o destino que ele dá aos adoentados tripulantes é uma saudação à persistência da vontade humana. A arte de capa anônima tem Titã, os anéis de Saturno e um “código de barras genético” (atrás do título), mas não comunica muita coisa e parece indistinta e improvisada.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Chris Bachalos & Tim Towsend.

Star Wars Infinitos: O Império Contra-Ataca (Star Wars Infinities: The Empire Strikes Back), de Dave Land (texto) e Davidé Fabbri (desenho). Barueri-SP: Panini Comics, 2017, 108 páginas. Capa de Chris Bachalos & Tim Towsend. Brochura. Em abril, li o primeiro desta série Infinitos, de narrativas alternativas de Star Wars. O Império Contra-Ataca é o meu favorito dentro da franquia no cinema, e fiquei curioso com este livro de quadrinhos. Infelizmente, tanto o roteiro de Dave Land quanto a arte de Davidé Fabbri são inferiores àquelas de Star Wars Infinitos: Uma Nova Esperança, embora com uns pontos interessantes. Começa que a arte de Fabbri e a colorização de Dan Jackson puxam muito para o infantil.

A história abre com Luke Skywalker sendo morto por dois monstros da neve (e não apenas um, como no filme) no planeta Hoth. Mesmo com o pupilo mortalmente ferido, Ben Kenobi aparece e faz um apelo idiota para que ele vá ao planeta Dagobah instruir-se com Yoda. Depois da escaramuça abreviada com destroiers do Império, Han Solo vai parar em Bespin, onde, na cidade das nuvens e já reunido ao amigo Lando Calrissian, troca sopapos com o caça-prêmio Boba Fett. Quando Han finalmente chega a Dagobah, acompanhado da Princesa Leia, descobre que ela é o Skywalker que pode recolocar a força em equilíbrio. É bom ver Leia valorizada e Yoda outra vez no centro das ações (em O Retorno do Jedi ele morre de velho!), mas faltou desenvolvimento. Esta versão tem como ápice uma longa sequência em Dagobah, muito interessante por ter Yoda usando um recurso da força que eu nunca tinha visto antes: uma memory trip que faz Darth Vader rever seus crimes, desde os tempos de padawan. Tendo acesso aos seis filmes canônicos, Land também convoca para essa sequência Kenobi, Mace Windu e Qui-Gon Jinn, que esfregam sal nas feridas morais de Anakin Skywalker. Ao contrário de Star Wars Infinitos: Uma Nova Esperança, esta versão alternativa de O Império Contra-Ataca deixa o imperador fora da ação — e derradeiramente não faz jus ao ótimo filme de Irvin Kershner. (Que, aliás, não precisa de versões alternativas.) Estranhamente, a Panini deixou de dar crédito aos artistas das outras três capas da edição em partes, que aparecem no miolo do livro.

 

Star Wars: Império Despedaçado (Star Wars: Shattered Empire), de Greg Rucka (texto) e Marco Checchetto, Angel Unzueta e Emilio Laiso (arte). Barueri-SP: Panini Comics, 2016, 108 páginas. Capa de Phil Noto. Capa dura. Este livro surgiu ano passado com o selo Jornada para Star Wars: O Despertar da Força; ou seja, vem pavimentar o terreno entre o episódio VI, O Retorno de Jedi, e o VII. Devo dizer antes de mais nada que a arte do italiano Marco Checchetto chama muito a atenção. Ele também está na revista Star Wars nas bancas, edições 016, 017, 018 e 019, com uma aventura de Obi-Wan Kenobi & Anakin Skywalker num mundo meio steampunk. Pena que Checchetto não pôde desenhar o livro inteiro, mesmo porque a oscilação da arte incomoda.

A história começa na Batalha de Endor, quando Luke Skywalker foge da Estrela da Morte II com o seu moribundo pai. Um caça asa-A dos rebeldes intercepta o shuttle Tyridium que Luke pilota, e o poupa quando ele se identifica, passando a escoltá-lo até a lua de Endor. Quem pilota o caça é uma jovem morena chamada Shara Bey. O leitor passa a segui-la numa sucessão de episódios em que ela acompanha Han Solo, Leia Organa e Luke Skywalker em missões do tipo limpeza ou mop-up, enquanto o Império balança com a notícia do fim de Palpatine. A sequência inicial é bem feita, e não apenas as naves são perfeitamente reproduzidas, como traz as marcas da estrutura narrativa vista os filmes, com muitas comunicações em off e naves se cruzando no espaço. Checchetto também é um bom fisionomista, captando bem as caras dos heróis principais, mesmo enquanto mantém seu estilo. Shara, em especial, é encantadora por ter um rosto jovem de expressão ao mesmo tempo alerta e melancólica. Durante a comemoração triunfal em Endor, ela dá uma escapada com o marido, parte de uma tropa de operações especiais de infantaria. Quando Han chama essa grupo de combate, ela vai junto como piloto. Ao saber que o nome do marido é Kes Dameron, fica evidente que ela é mãe de Poe Dameron. A principal linha trata de como Shara, Leia e uma terceira garota salvam um mundo importante para o passado tanto de Leia quanto de Anakin Skywalker, de uma nova arma destruidora de planetas — via manipulação meteorológica. Esse segmento é ilustrado por outro artista, o espanhol Ángel Unzueta, que carece do charme de Checchetto. Numa espécie de epílogo, Shara reencontra Luke, pilotando para ele numa missão para recuperar duas mudas de uma árvore que antes existira dentro do templo jedi em Corusant (deve constar de algum romance ou HQ do universo expandido, imagino). Muitas aventuras, para uma moça que queria mais que tudo liquidar sua fatura com a Aliança Rebelde e se recolher em um planeta pacífico, com o marido e o filho.

A narrativa de Greg Rucka me pareceu mais complexa do que costumamos ver nessas HQs de Star Wars, mais episódica também. Mas a alternância de artistas acaba prejudicando o fluir do roteiro. A galeria de capas alternativas das revistas que forneceram o material para o livro inclui uma arte do brasileiro Mike Deodato. Essa que aparece na capa da versão em livro, tipo foto de família e  sem muito brilho, é de Phil Noto e não casa bem com o título.

 

Outras Leituras

O ícone do tumbler Brude’s World

Brude’s World, um tumblr de ilustrações. Eu visito muitos tumblrs de ilustração e imagem, em geral meio que sem sistema e normalmente abrindo direto o arquivo e escolhendo de lá as imagens que quero baixar. Mas recentemente encontrei este Brude’s World que me impressionou com uma curadoria sólida que bate bem com o meu gosto: lida com ficção científica, fantasia e horror na literatura, cinema e quadrinhos e a presenta uma boa continuidade entre esse gêneros e campos. Também entre o ontem e o hoje, recuando até imagens da antiguidade clássica e da ilustração e pintura do século 19 (incluindo os pintores pré-rafaelitas), com alguma coisa de erótico aqui e ali. Acho que tem uma das melhores curadorias dos tumblrs que estão por aí. Quem quer que seja o dono ou donos do tumblr, ele(s) conhece(m) a história desses gêneros e sabe(m) quem são os grandes nomes e o que é um desenho e uma arte-final de qualidade. Tem material lá de Frank Frazetta, Virgil Finlay, Frank R. Paul, Ed Emshwiller, Chesley Bonestell, Jack Kirby, Edward Burne-Jones, J. Allen St. John, N. C. Wyeth, Gustave Doré, Barry Windsor-Smith, Bernie Wrightson, Boris Vallejo, Jeffrey Catherine Jones, Drew Struzan, Moebius e Arthur Rackham. De vez em quando aparece algum brasileiro como Henrique Alvim Corrêa, Benício ou Mike Deodato. As postagens são frequentes e incluem ocasionalmente gifs e vídeos, e muitos daqueles posters alternativos — um tipo de arte de fã ou cartão de visitas de artistas ou estúdios, que virou moda nos tumblrs. Seu slogan é: “Poder, paixão, pin-ups e posters. Quadrinhos, belezuras, criaturas e calafrios.”

 

O banner com o logotipo do site Pulp International

Pulp International. Este é um site baseado em San Jose City, nas Filipinas, e quando diz que é internacional, é internacional mesmo. Traz muito material americano, mas também inglês, alemão, francês, australiano, japonês, mexicano, espanhol, indiano e até brasileiro — como esta postagem sobre a série ZZ7 de ficção de espionagem protagonizada por Brigitte Montfort e ilustrada pelo rei das pin-ups brasileiras, Benício. A definição de pulp que o site adota também é muito ampla, compreendendo a literatura e a indústria editorial centrada nela, e revistas pulp de todo tipo, não apenas de ficção mas de crime da vida real, pornografia (soft, na maior parte), cobertura de Hollywood, e os filmes, séries de TV e quadrinhos derivados. As postagens se agrupam em dez por páginas, o motor de busca funciona bem e os comentários muitas vezes são extensos e interessantes. A maior parte do conteúdo é vintage, mas às vezes aparece alguma postagem sobre algo moderno ou contemporâneo. Em agosto, estive lá baixando uma quantidade de capas de paperbacks de ficção de crime hardboiled com ilustrações de automóveis (vá entender…). Fiquem avisados: nesse site às vezes a gente tropeça em alguma coisa realmente de mau gosto. Mas pulp também é isso, não é verdade?

Roberto Causo

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