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Leituras de Setembro de 2019

Na cesta de setembro, western, ficção militar e mainstream, não ficção sobre psicologia militar, poesia, livro para crianças e jovens, ficção científica de space opera em literatura e em quadrinhos. E mais…

 

The Bounty Hunters, de Elmore Leonard. Nova York: HarperTorch, abril de 2002 [1953], 324 páginas. Paperback. Antes de se tornar um consagrado escritor de ficção de crime, admirado por gente do mainstream literário por conta da sua excepcional habilidade com diálogos, Elmore Leonard começou escrevendo westerns. Oito desses livros foram publicados no Brasil, pela Editora Rocco. Tive chance de ler antes os ótimos Valdez Vem aí (Valdez Is Coming), adaptado para o cinema num filme com Burt Lancaster, e o meu favorito, Hombre, um filme com Paul Newman. O primeiro é um livro muito duro sobre um guarda civil veterano das escaramuças contra os apaches, que descarrilha as pretensões de ascensão de um rancheiro arrogante e violento. O segundo é uma joia a respeito da incomensurabilidade do Outro cultural (o herói anglo foi sequestrado e criado como apache), e que deveria ser ensinado nas faculdades de Letras. O crítico americano B. R. Myers afirmou que os westerns de Leonard estavam entre os seus melhores escritos, e lamenta a transição para uma ficção de crime supostamente sem a mesma força ou honestidade intelectual. Este The Bounty Hunters foi o romance de estreia de Leonard, e também está na coleção da Rocco, como Os Caçadores de Recompensas.

Os caça-prêmios aí são na verdade americanos caçadores de escalpos atacando apaches no México — e camponeses mexicanos morenos, na falta dos primeiros. O romance nos conta que o governo mexicano pagava 100 pesos por indígena morto, o escalpo sendo usado como prova. Um terrível relato da violência histórica da América Latina. O agenciador dessa canalhada é um oficial mexicano dos rurales, uma polícia militar dos rincões. Ele tem o nome sugestivo de Lama Duro — autoridade militar corrupta, de pés de barro. Os heróis, por sua vez, são o batedor Daniel Flynn e o Tenente Bowman, da cavalaria. Os dois deram azar de estarem servindo sob um coronel que se comportou de maneira covarde durante a Guerra da Secessão. São enviados pelo comandante ao território índio no México, oficialmente para encontrar um líder apache chamado Soldado Viejo — na verdade, para saírem do caminho do coronel, preferivelmente sendo mortos. O romance tem as qualidades que esperamos de Leonard, a prosa dura, a simpatia direta ou indireta pela cultura mexicana, os diálogos ríspidos e brilhantes. Mas o enredo e as situações parecem um pouco titubeantes. Sem dúvida, Hombre e Valdez Is Coming são narrativas mais fortes e seguras. Nos momentos finais, há uma correria para amarrar as pontas, trazendo o coronel cagão para o enfrentamento duplo entre apaches e caçadores de escalpos. Moralmente, o romance tem que se equilibrar na corda bamba para apresentar algum efeito conciliatório possível, diante das atrocidades que enumera. Leonard faleceu em 2013.

 

Arte de capa de Cathie Bleck.

A Farewell to Arms, de Ernest Hemingway. Nova York: Scribner, 1.ª edição, 1995 [1929], 332 páginas. Arte de capa de Cathie Bleck. Trade paperback. É notável que Hemingway tenha escrito este que é o seu segundo romance, seguindo a O Sol Também se Levanta (The Sun Also Rises), aos 30 anos de idade. Ele havia testemunhado a Primeira Guerra Mundial como tenente chefe de equipe de padioleiros, junto ao exército italiano. Foi ferido, passou tempo em hospitais. Muito dessa experiência ele explora no romance, assim como a de conhecidos e companheiros de armas. O tema do americano expatriado, convivendo com tipos diferentes de pessoas em territórios distantes, é uma constante em seus romances e contos. Em A Farewell to Arms, que existe no Brasil em várias edições como Adeus às Armas, Frederick Henry, um comandante de ambulância junto ao exército italiano durante aquele conflito convive com um padre e um oficial médico na retaguarda do front. As coisas começam a crescer na direção do fio principal do romance quando Henry conhece uma enfermeira inglesa, Catherine, por quem se apaixona e conquista, embora um dos seus amigos estivesse interessado nela.

Ferido enquanto aguardava entrar em ação no front, Henry vai parar em um hospital italiano e, em seguida, num recém-montado hospital inglês. É o primeiro paciente a chegar, e logo se instala como se fosse dono do seu quarto, onde recebe amigos e a amante, e onde esconde uma variedade de garrafas de bebida. Hemingway dá atenção à operação que ele sofre para curar o ferimento em seu joelho. Também à “vida de casado” com Catherine. Recuperado, Henry é mobilizado novamente, mas não chega ao front. Ele e sua ambulância são pegos em meio a uma retirada. A prosa esparsa de Hemingway mal disfarça a atmosfera pesada, de “tudo pode acontecer”. Em um episódio especialmente dramático, o herói, ainda em território italiano, é capturado por uma espécie de “milícia da vergonha”, que seleciona, interroga e julga sumariamente suspeitos de covardia perante o combate, executando-os ali mesmo. Situação que certifica Hemingway como influência sobre autores premiados como Cormac McCarthy e Charles Frazier (que tem milícia e episódios semelhantes em Montanha Gelada, ambientado na Guerra da Secessão). Depois do incidente, Henry consegue se evadir do conflito e reencontrar-se com Catherine, agora grávida dele, em um local neutro. A narrativa assume então aspectos mais costumeiro das narrativas de expatriados, como a de O Sol Também se Levanta (1926). Nesse ponto, o suspense surge em torno do parto eminente de Catherine.

A Farewell to Arms não fornecesse um panorama do conflito, pouco da suas peculiaridades, quase nada da vida da caserna ou da psicologia do militar. Também oferece poucas reflexões de um cunho mais filosófico. É o projeto literário do autor, de fazer recuar ou embutir aspectos emocionais ou reflexivos na ação e na descrição. O efeito retentivo explode com uma força cumulativa, quando reflexões como a seguinte surgem:

“Se as pessoas trazem coragem demais a este mundo o mundo tem que matá-las pra quebrá-las, então é claro que ele as mata. O mundo quebra a todos e depois disso muitos ficam fortes nos lugares partidos. Mas aqueles que não de deixam quebrar ele mata. Mata os muito bons e os muitos gentis e os muito corajosos imparcialmente. Se você não é nenhum desses pode ter certeza de que ele vai te matar também mas sem nenhuma pressa em especial.” —Ernest Hemingway, A Farewell to Arms.

Apesar das questões acima, com respeito à sua representação do conflito bélico, o romance é considerado um dos melhores a tratar da Primeira Guerra Mundial. Acredito que isso se deve mais às suas qualidades literárias e trágicas. Se o romance é uma tragédia e Frederick Henry um herói trágico, o leitor é convidado a imaginar onde está a sua “falha trágica”. Supor que esteja no fato de ele ter engravidado Catherine quando obviamente não devia parece fácil demais. Ele ter atirado em um desertor durante a retirada soa como uma complicação mais interessante. Por essa lógica, o herói trágico convidou a vida a quebrá-lo não por um excesso de coragem ou de bondade, mas por ter assumido a morte como trivial demais, mesmo no contexto da guerra.

 

Ernest Hemingway em Milão (1918).

 

Psicologia Militar: Aplicações Clínicas e Operacionais (Military Psychology: Clinical and Operational Applications), de Carrie H. Kennedy & Eric A. Zillmer. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, Coleção General Benício, 2009 [2006], 472 páginas. Tradução de Geraldo Alves Portilho Junior. Brochura. O estande da Biblioteca do Exército Editora é uma parada obrigatória para mim, sempre que vou à Bienal do Livro. Esta antologia de ensaios acadêmicos é resultado de uma dessas visitas, feita em 2018. “Psicologia militar” aqui não se trata da psicologia do militar, mas do exercício da psicologia no meio militar, e ainda, do know-how da psicologia militar em outras esferas. Um livro fascinante, mais ainda considerando o quanto a psicologia moderna deve ao conhecimento reunido e acumulado ao longo daquela cadeia de grandes conflitos bélicos que vão da Primeira Guerra Mundial até a Guerra do Golfo e a “guerra contra o terror”, passando pela Guerra da Coreia e a do Vietnã. Reiteradamente, os editores e os colaboradores assinalam a importância da psicologia militar para a prática da psicologia moderna, especialmente a dos Estados Unidos. Adquiri o livro porque me pareceu grande oportunidade para fundamentar melhor esse lado da vida militar, inevitável considerando o quanto o conflito armado produz resultados psicológicos adversos, nas minhas histórias das Lições do Matador. Por exemplo, em “Anjos do Abismo” (o inédito terceiro romance da série) há dois incidentes definidos como de saúde mental.

O subtítulo de Psicologia Militar menciona aplicações clínicas, que visam melhorar a vida do militar que apresenta problema de saúde mental, curá-lo, prevenir suicídio ou abuso de substâncias e de jogo; e aplicações operacionais, que visam manter o militar capacitado a realizar a missão. O livro traz um esboço histórico da psicologia militar, seguido dos ensaios, agrupados em duas partes: “Prática Clínica no Meio Militar” e “Psicologia Operacional”. Na primeira, abre o artigo “Introdução à Psicologia Militar Clínica”, que acentua como aspectos desse serviço se diferenciam da prática civil da psicologia:

“Há características únicas e específicas na prática da psicologia clínica em ambiente militar e que diferem das posturas tradicionais. Elas incluem diferenças distintivas no treinamento de residentes e membros, oficiais em funções provedoras, na influência do posto ou graduação no relacionamento terapêutico, em limites distintivos da confidencialidade, no inevitável dilema ético dos relacionamentos múltiplos e nas específicas necessidades de treinamento multicultural.” —Frank C. Budd & Carrie H. Kennedy, “Introdução à Psicologia Militar”.

O artigo seguinte traz histórico e características das avaliações de aptidão para o serviço militar, uma questão que vai além do momento do recrutamento, e sobre a qual a saúde mental tem implicações diretas — no Ciclo Pós-Retração Tadai, das Lições do Matador, por exemplo, o Almirante Túlio Ferreira não permite que Jonas Peregrino passe por uma avaliação psicológica, que poderia levar ao seu afastamento ou transferência. O serviço militar, especialmente num império como o americano, é uma atividade peripatética, que leva o profissional a diferentes localidades, e prevê a mobilização (o entrar em ação) como possibilidade constante. O artigo “A Psicoterapia Breve no Meio Militar nos Estados Unidos” explora como essas circunstâncias moldaram a necessidade de terapias de curta duração, enquanto “Psicologia de Saúde Clínica e Medicina Comportamental em Organizações Militares de Saúde” explora questões como o fumo, o controle de peso, e o gerenciamento de dor crônica e insônia. “A Prática Neuropsicológica no Meio Militar” nos lembra que o combate (e o treinamento para o combate) incorre no risco de traumas cerebrais, mas um dos seus tópicos é a neuropsicologia aeroespacial militar, que trata de pilotos de aeronaves de alto desempenho e sua seleção. Outros pontos de interesse discutem o uso de estimulantes e o mistério da Síndrome da Guerra do Golfo. Central no contexto de hoje, “Prevenção do Suicídio no Meio Militar” mostra como esse meio passou a se preocupar com o problema do suicídio — embora não mencione que entre 18 e 22 militares veteranos se suicide todos os dias nos EUA, mortalidade maior do que as baixas de combate incorridas durante as intervenções americanas no Afeganistão e Iraque e outros pontos quentes da “guerra contra o terror”. A teoria do “ferimento moral” também não é abordada no livro. O artigo seguinte aprofunda a questão da luta contra o abuso de substâncias e jogos de azar. É o último da primeira seção.

Aquela destinada à psicologia operacional inicia com um artigo introdutório específico, cuja abertura já nos conduz ao assunto das operações psicológicas (psyops) e da psicologia como amparo às ações e mobilizações de grande alcance:

“A global war on terrorism — GWOT (guerra global ao terrorismo) oferece à psicologia militar um tremendo desafio e a oportunidade de demonstrar a significativa contribuição que é prestada pelos psicólogos operacionais. … Isso ressalta a natureza variável do que é denominado ‘guerra assimétrica’, e o desafio que ela proporciona ao comandante e aos que vão liderar em combate … É na esfera desse desafio que psicólogos operacionais podem oferecer seu conhecimento e entendimento do comportamento humano a fim de auxiliar o comandante a ‘penetrar no círculo do sistema decisório do inimigo’ … Isso se torna ainda mais evidente na guerra assimétrica, na qual a tomada de decisão militar e as atividades de psicologia operacional podem ocorrer a centenas de quilômetros de distância, de forma semelhante, em certos aspectos, à época [sic] em que nossas Forças Armadas conduziam veículos pilotados remotamente para cumprir suas missões.” —Thomas J. Williams, James J. Picano, Robert R. Roland & L. Morgan Banks, “Introdução à Psicologia Operacional”.

Toca-se na questão dos interrogatórios e treinamento para prisioneiro de guerra, temor de armas de destruição em massa, e os autores não se esquivam de tocar na tortura e dos casos de Abu Ghraib e Guantánamo, embora rapidamente. É muito interessante o capítulo sobre “Estresse de Combate” e a história da terminologia. Não é brincadeira, e pode levar a baixas substanciais (incapacitação para o combate), até de uma baixa para cada cinco feridos em ação. Muito se recorda da guerra do Vietnã nesse capítulo, mas também se discute o choque cultural com civis no teatro de ação. Novamente, é conspícua a ausência do conceito do ferimento moral. O próximo capítulo, sobre treinamento de sobrevivência e evasão, recorda o célebre “Experimento de Stanford”, enquanto o seguinte, muito interessante, trata da psicologia dos terroristas, tratando-os sem pátina de condenação moral, lembrando que sua determinação os transforma em “um formidável inimigo”. O terrorismo de estado é lembrado, com o nazismo como estudo de caso (Hannah Arendt é mencionada). É interessante que o grupo Baader-Meinhof ainda seja o paradigma do terrorismo político, nesse artigo, enquanto o seguinte, “A Psicologia dos Terroristas da Al-Qaeda”, contextualiza muito bem as bases histórico-ideológicas desse grupo tão determinante no século 21. Também são interessantes os capítulos “Os Efeitos Psicológicos das Armas de Destruição em Massa”, “Crises e Negociações de Reféns” e “Intervenções Psicológicas Depois de Desastres ou Traumas”, com muito material a substanciar thrillers de ficção científica, histórias de fim de mundo e de pós-apocalipse. Para a FC, porém, o penúltimo capítulo, “Avaliação e Seleção de Pessoal Operacional de Alto Risco”, é especialmente interessante: trata de pilotos de caça e soldados de forças especiais. Vale lembrar que as operações especiais se tornaram a espinha dorsal da estratégia americana na guerra contra o terror, daí o capítulo figurar nesta seção do livro. Como as FE são secretas, o modo que os articulistas encontraram de se aproximar do perfil desses militares de elite foi recorrer aos perfis de astronautas.

“[Q]ualidades como inteligência, independência, adaptabilidade, flexibilidade, motivação, estabilidade emocional e falta de impulsividade eram necessárias para o sucesso. Mais tarde [identificou-se] 10 atributos necessários par ao sucesso em missões longas ou curtas: questões familiares (habilidade para lidar com longas separações da família), desempenho sobre condições estressantes, habilidade de viver com grupo (adaptabilidade multicultural e humor), habilidade de trabalho em equipe, autorregulação (estabilidade emocional), motivação, julgamento e tomada de decisões, consciência (realização, ordem e integridade), habilidades comunicativas (interpessoais, de apresentação e diplomáticas) e capacidade de liderança (determinação, flexibilidade e habilidade de motivar outros).” —James J. Picano, Thomas J. Williams & Robert R. Roland, “Avaliação e Seleção de Pessoal Operacional de Alto Risco”.

É só uma lista de qualidades, mas pode alertar o escritor brasileiro de FC a fugir daquele clichê dos “babacas no espaço” (dorks in space) tão típico de filmes e livros americanos, mais extrapolação das relações entre rapazes do high-school ou do college, do que expressão das exigências reais dos astronautas. Um dos ápices dessa tendência é o romance de Larry Niven, World of Ptaavs (1966), com um protagonista que é um piadista de fraternidade universitária… Em resumo, Psicologia Militar é um livro que cobre um terreno vasto e que pode embasar um tratamento psicológico mais sólido do soldado ou do astronauta, além de informar o leitor da complexa problemática do ambiente militar.

 

O Livro do Cemitério (The Cemetery Book), de Neil Gaiman. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010 [2008], 346 páginas. Ilustrações internas de Dave McKean. Tradução de Ryta Vinagre. Brochura. Eu certamente não leio Neil Gaiman tanto quanto gostaria — e deveria. Afinal, fui muito influenciado nos primeiros momentos da minha atividade como escritor pelo tipo de fantasia contemporânea que chamo de “Além da Imaginação”, evidenciado por essa série de TV criada por Rod Serling, e Gaiman é um dos nomes principais da fantasia contemporânea hoje. Sinto muita falta de tornar a escrever esse tipo de narrativa, e ler Gaiman e alguns outros poderia muito bem me inspirar. Seus romances e livros de contos vão se empilhando aqui, esperando a hora e a vez.

Aqui, tem-se uma fantasia sombria para crianças e jovens. Como Gaiman costuma fazer, ele nos engana sutilmente quanto ao formato e a estrutura das suas narrativas. Inicia com um crime bárbaro, em que um assassino chamado “Jack” mata quase toda uma família. “Quase” porque o membro mais improvável da família é o sobrevivente: um bebê de um ano e meio, que, sem a supervisão dos pais mortos, foge do berço, do quarto e da casa, até chegar ao cemitério vizinho. Lá, é adotado por um casal de fantasmas — e pela comunidade de fantasmas, com a bênção, inclusive, da Morte (definida como uma bela mulher montada em um cavalo). O menino cresce ali, recebendo cuidados e instrução da população do lugar, e tendo como mentor um sujeito sombrio, entre vivo e morto, chamado Silas. O menino também vive como alguém entre essas condições. Tanto que é chamado de Ninguém Owens (“Nobody Owens”, que soa muito como “ninguém possui”) e assume poderes normalmente associados aos fantasmas, como desaparecer e atravessar matéria sólida. Muitos dos “habitantes do lugar” são tipos ingleses, como um poeta romântico, uma bruxa morta pela peste no século XIII, e até mesmo o guardião de uma tumba celta. Gaiman costura a caracterização do povo do cemitério e do romance como um conjunto de citações da história e da mitologia britânicas — desde a mística de Jack, o Estripador, à evocação de entidades imemoriais, a deusa celta do submundo (Epona? Rhiannon?) e sociedades secretas de esoteristas malévolos em luta contra uma equipe de justiceiros sobrenaturais. Com uns cinco anos, Ninguém faz amizade com uma menina próxima a ele em idade, e que, ao crescer, se convence de que ele fora um “amigo imaginário”. Adolescente, ela volta ao lugar e se reencontra com ele, para viver as aventuras finais do livro. Há um twist amargo no final, que tem muito a dizer sobre a natureza humana. O que parecia uma narrativa basicamente episódica adquire uma estrutura mais sólida, com o seu aspecto biográfico sendo o motivo da confusão inicial. Ao mesmo tempo, o horror parece ceder ao divertido e ao maravilhoso, para então retornar no final.

A infância melancólica é uma constante na obra de Neil Gaiman, desde sua estreia com o romance gráfico de 1987 Violent Cases (publicado no Brasil pela Editora Aleph), e alcançando um certo ápice criativo e atmosférico com O Oceano no Fim do Caminho (2013). Neste livro, ele trilha caminhos antes traçados por Ray Bradbury, mas onde Bradbury fazia uma releitura poética da imagética dos filmes B de Hollywood, Gaiman o faz em cima da cultura britânica. E onde a linguagem de Bradbury voava, Gaiman permanece mais sombrio e melancólico. De qualquer modo, temos em O Livro do Cemitério uma bonita celebração da solidariedade e da vida, por meio do tema da morte.

 

Cem Sonetos de Amor (Cien sonetos de amor), de Pablo Neruda. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2019 [1959], 122 páginas. Tradução de Carlos Nejar. Livro de Bolso. Meu filho Roberto Fideli me fez comprar este livro para ele quando fomos pegar o autógrafo de Fábio Kabral para o seu romance A Cientista Guerreira do Facão Furioso (2019). Leu e o deixou aqui em casa, e eu o peguei, disposto a conhecer mais da literatura latino-americana, com a finalidade de reforçar os aspectos culturais da minha série As Lições do Matador. O chileno Pablo Neruda (1904-1973) ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971.

O livro e o seu conteúdo são dedicados a sua esposa Matilde Urrutia, e é dividido em períodos do dia: manhã, meio-dia, tarde e noite. Os sonetos aqui não são rimados e têm, todos, duas estrofes de quatro versos, seguidas de duas estrofes de três versos (tercetos). Evocam um clima litorâneo de Isla Negra, onde o casal viveu, e mencionam muitas vezes o sul do Chile. As imagens muitas vezes parecem opostas, mas se fundem com habilidade e engenhosidade, reforçando a relação de amor e ausência de amor que parece ter existido. As imagens que aparecem com maior frequência são mel, farinha, sinos, frio, Sul, mar, amor, pelos, mulher, cabelos negros. Por trás do enigmático e da evocação complexa, muitas vezes surgem imagens especialmente límpidas.

 

Arte de capa de Paul Lehr.

Trader to the Stars, de Poul Anderson. Nova York: Berkley Medallion, 1966 [1964], 160 páginas. Arte de capa de Paul Lehr. Paperback. O escritor americano de origem escandinava Poul Anderson criou na Technic Civilization Saga uma história do futuro com vários heróis, entre eles o militar e agente secreto Dominic Flandry, e o comerciante interestelar Nicholas van Rijn — protagonista deste livro que reúne três histórias em uma espécie de romance fix-up. A primeira, “Hiding Place”, o mercador do espaço é perseguido por piratas até uma região pouco conhecida do espaço, onde encontra uma nave desconhecida. Com avarias na sua própria nave, van Rijn precisa da ajuda dos tripulantes alienígenas para retornar em segurança. Mas eles se esconderam em meio à carga — um verdadeiro zoológico de animais alienígenas. É portanto de uma espécie de problem story em que o enigma é descobrir os tripulantes em meio à bicharada. O outro componente de interesse é a interação entre o patrão e os seus próprios tripulantes humanos, que inclui uma jovem curvilínea.

Van Rijn é descrito como um homem grande, obeso, glutão, beberrão e que fala um inglês macarrônico cheio de expressões coloridas e de erros criativos, que vê as mulheres como seres apenas decorativos, e nutrindo outras opiniões politicamente incorretas. É quase o contrário do aristocrático, atlético e artístico Flandry. Van Rijn é também um capitalista convicto, e na segunda história, “Territory”, tem chance de expressar o seu desprezo pelos governos e, especialmente, pelo altruísmo promovido pelos governos, em situação em que ele, sozinho, resgata uma cientista (também curvilínea) presa no choque entre bandos de nativos em conflito, enquanto ela dirigia uma empreitada de terraformação para prevenir que o planeta em que vivem passe por uma era glacial destruidora. Van Rijn emprega a sua astúcia, ajustada para um senso comum rasteiro e darwinista social, para garantir que os dois saiam vivos e que ele tenha lucros substanciais tirando os nativos da sua cultura original e jogando-os num capitalismo industrial e de troca de bens básicos.

Arte de capa de Antonio Jeremias, para a edição brasileira pela Livraria Francisco Alves Editora (1981).

O excerto de um livro fictício chamado “Margem de Lucro”, que explica como a liga dos mercadores se tornou a principal força de desenvolvimento da Technic Civilization, dentro de um ponto de vista estritamente libertariano. Na última história, “A Chave Mestra”, o mise-en-scène é asimoviano: van Rijn e um grupo de personagens conversam enquanto bebem, e dois deles narram suas aventuras em um planeta dominado por duas espécies inteligentes existindo em estranha cooperação. A noveleta se desenrola portanto como uma sequência de diálogos, com a questão central sendo a razão do ataque traiçoeiro aos humanos. Aqui, van Rijn (e provavelmente Poul Anderson) ventilam o seu darwinismo social libertariano, já que o mercador divide os dois povos alienígenas entre “animais selvagens” e “animais domesticados”. E também a humanidade, com os únicos humanos verdadeiramente livres sendo os comparados aos animais selvagens, e o resto a escravos/animais domesticados. Salgado demais para o meu gosto, que rejeita o darwinismo social.

Comecei a ler este livro na edição brasileira de 1981, pela Francisco Alves e a sua saudosa coleção Mundos da Ficção Científica, coordenada pelo escritor e crítico Fausto Cunha. Desisti porque cansei da pontuação excessiva do tradutor José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. A capa de Antonio Jeremias feita para O Viajante das Estrelas (ao lado) é uma das com mais cara de ficção científica que o prolífico capista fez, mas tem mais de FC hard do que de space opera. Já a fabulosa arte original de Paul Lehr ilustra especificamente a primeira história, “Hiding Place”, evocando o exotismo do gênero sem representar nenhum elemento tecnológico, centrando-se na distorção da forma de animais conhecidos. O paperback que li pertenceu à biblioteca de Clóvis Garcia, um autor da Primeira Onda da FC Brasileira.

 

Arte de capa de Walter Ono.

The Big Debate, de Walter Ono (texto & arte). São Paulo: Edições da Lua, 2018, 32 páginas. Arte de capa de Walter Ono. Traduzido para o inglês por Helena Soares Hungria. Capa dura. Taira Yuji me passou este simpático livro do seu amigo Walter Ono, um conhecido ilustrador e escritor nipo-brasileiro de livros infantis, que já trabalhou com Flávia Muniz, Ruth Rocha e Ana Maria Machado. Traduzido para o inglês, foi produzido aqui no Brasil. Baseia-se em uma fábula zen sobre a personalidade dos debatedores influenciando a qualidade da comunicação. O protagonista é um leão que, como ocorre no mundo natural, cedeu o seu reino a um leão mais jovem e é forçado a vagar pelo mundo como um pensador solitário, de modos de aristocrata britânico, até que se instala em uma pousada na qual só podem entrar quem vencer um debate com ele.

O homem que aparece na capa é o caçador do leão, que o perseguia e que acabou contratado por ele para ser o gerente da pousada. O ratinho com o cajado é o Viajante de Terras Distantes. São eles os debatedores da história, já que, cansado, o Rei Leão deixou seu gerente debater por ele. Sua única condição era que debatessem em silêncio, para não perturbar seu repouso. Um se prova filosófico, e o outro, ignorante por trazer o debate para o próprio ego. O desenho de Ono, puxado para o cartoon, tem personalidade, é divertido, moderno, colorido e expressivo. Suas cores combinam o esmaecido e tons mais fortes, quando contribuem para o delineamento da forma. Eu achei o inglês aquém do desejado.

 

Looking Out for Alice, de Walter Ono. São Paulo: Edições da Lua, 2018, 32 páginas. Arte de capa de Walter Ono. Capa dura. Mais um livro em inglês de Walter Ono, este mais interessante para o leitor adulto e conceitualmente mais rico. Apoiado em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland; 1865) e Alice do Outro Lado do Espelho (Alice through the Looking Glass; 1871), de Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodson; 1832-1898), Ono convoca a Alice histórica, a morena Alice Pleasance Liddell (1852-1934), inspiradora da loura Alice das histórias, para protagonizar o seu inventivo livro. Alice Liddell é a mocinha que aparece na capa… Na criação de Ono, ao invés de ir para atrás do espelho, a moleca vai parar no mundo digital da internet. É desenhada a grafite, representando a inocência e ingenuidade do mundo real ao qual a personagem pertenceu. Já tudo o mais no mundo imaginário em que se encontra é produzido digitalmente, com grandes cabeçalhos pixelizados, diálogos em ziguezague conforme Charles Dodson tenta fazer contato com ela, e blocos de texto em scrolling. Tem algo da estética visual cyberpunk de primeira geração…

Há no livro elementos concretistas, jogos de palavras usando o jargão de internet, fotos, QR-code e clip-art tratadas para se harmonizar com a estética colorida das páginas, fechando com o famoso poema acróstico escrito por Carroll para a Srta. Liddell, e reproduzido, é claro, em inglês. Há alguns probleminhas com essa língua, que não deviam ter passado na revisão, já que o livro depende tanto das palavras. No todo, porém, Looking Out for Alice é um grande exercício de criatividade metalinguística, inteligente e divertido, do qual gostei muito.

 

Quadrinhos

Arte de capa e Frank Cirocco.

Série Graphic Novel 15: Legião Alien (Alien Legion), de Alan Zelenetz (texto) e Frank Cirocco & Terry Austin (arte). São Paulo: Abril Cultural, setembro de 1989, 66 páginas. Arte de Capa de Frank Cirocco. Álbum. Space opera! Space opera! Space opera! O sucesso da primeira trilogia de Star Wars (1977, 1980 e 1983) transformou esse subgênero da ficção científica em uma constante no cinema, na TV, nos games e nos quadrinhos. Esquadrão Atari, por exemplo, foi uma HQ que me cativou por um momento, lá mesmo na longínqua década de 1980. Outro exemplo é este Legião Alien, criado por Carl Potts e escrito por Alan Zelenetz.

O objetivo da criação de Potts é mais uma vez empregar à mística da Legião Estrangeira da França. Na ficção científica literária, o americano William C. Dietz buscou o mesmo filão na série Legion of the Damned, como já vimos aqui. A Legião Estrangeira é uma força de infantaria de elite, que aceita gente de toda parte, com ou sem passado e sem fazer perguntas. É fácil entender, portanto, o apelo visual e narrativo em se projetar a mesma lógica para um contexto galáctico com uma tropa composta de alienígenas de todo tipo. A história “Um Dia para Morrer” abre com um prólogo em que novos recrutas visitam o museu da Legião para celebrar as suas velhas glórias. A história propriamente começa com uma simulação virtual de combate que explicita uma relação de mentor e discípulo entre o Capitão Sarigar, um alienígena dotado de uma cauda enorme e nenhum membro inferior, e o Tenente Torie Montroc III, de família aristocrática forçado por seu pai a ingressar na Legião para “virar homem”. Sarigar é um implacável líder de combate, enquanto Montroc ainda tem escrúpulos morais a serem esmagados pela dura realidade da guerra. O restante a equipe de Montroc inclui um telepata de quatro braços, um ex-gladiador, um ladrão e trapaceiro, e um magoado E.T. que perdeu a namorada para outro. Depois de uma pancadaria num bar, essa turma se oferece como voluntária para uma missão que incomoda Montroc na sua moralidade — assassinar o líder dos tecnoides, um grupo que abdica da condição biológica  para assumir corpos robóticos. Uma vez no planeta dos tecnoides, Montroc fica sem sua equipe, capturada por esses pós-humanos. Enquanto seus homens são torturados e lutam para escapar, o oficial precisa decidir se fará o atentado sozinho ou não. O clímax está não apenas na fuga dos legionários, mas no confronto entre Sarigar e o seu antigo mestre, transformado no líder do inimigo. Claramente, a situação da Legião é a de ser usada cinicamente pelas autoridades, e enquanto Sarigar se conforma e dedica toda a sua lealdade à Legião, o seu antigo mestre revoltou-se. A única coisa que resta aos legionários é cuidarem apenas da honra e da mística da sua corporação, no plano miúdo da honra entre os companheiros, e no plano maior, do comprometimento da própria Legião. A arte de Cirocco é muito boa, ágil e arejada. Os trajes da Legião devem algo ao traje de assalto de Cody Starbuck, de Howard Chaykin, e às armaduras dos stormtroopers de Star Wars. Tanto na estética quanto na dureza da história, Legião Alien lembra as HQs inglesas da revista Ano 2000, que também foi vista no Brasil na década de 1980.

Mês passado eu já havia falado da Série Graphic Novel da Abril. Este número 15 eu adquiri em bom estado em um sebo na Rua Riachuelo, Centro Velho de São Paulo e perto de onde minha esposa Finisia Fideli trabalha.

 

Arte de capa de Mathieu Bablet.

Shangri-La, de Mathieu Bablet. São Paulo: SESI-SP Editora, 2018 [2016], 224 páginas. Tradução de Fernando Paz. Arte de capa de Mathieu Bablet. Formato grande. Meu filho adquiriu com desconto este livrão de quadrinhos, do tamanho de um livro de arte, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e o deixou largado aqui em casa. Como se trata de uma ficção científica europeia, eu o peguei por curiosidade, já que não tinha referência alguma a respeito. Acabou sendo uma das minhas leituras de quadrinhos mais interessantes, em anos recentes.

A narrativa acontece em um futuro relativamente distante. A humanidade abandonou uma Terra devastada pela guerra e pela degradação climática. A população se aglomera em uma gigantesca estação espacial, a USS Tianzhu — nome da empresa que controla a vida de todos a bordo, atrelando trabalho a consumo e consumo a lazer. É portanto de uma distopia, com a sociedade arregimentada em níveis profundos, vigilância dos cidadãos e formas de extravasamento violento integradas à sua estrutura. Nossos animais domésticos, cães e gatos, foram elevados e formam uma subclasse, os “animaloides”, que concentra o ressentimento e a agressividade social humana. John, um cão animaloide, é o principal símbolo desse estado de coisas. Um dos heróis, Scott Peón, é símbolo da arregimentação do trabalho: é um engenheiro e astronauta que se contenta em realizar os desígnios do regime, um convicto “peão” que rejeita os questionamentos do seu irmão Virgílio, de quem está estranhado. O líder rebelde Sunshine representa a revolta ajustada ao sistema, e ele mesmo (ou ela mesma) sabe disso. Um dos pontos mais interessantes está na economia baseada no comércio de smartphones e tablets, de modo que esta FC me pareceu ser uma das primeiras a tratar dessa terrível combinação que vivemos hoje, de alienação por via da tecnologia de redes sociais, e da exploração internacional do trabalho marcada pela “economia híbrida” da China deste nosso século 21. Daí, certamente, o nome Tianzhu Enterprises, da empresa controladora da humanidade. Conforme Scott vai derivando na direção dos rebeldes e da reconciliação com Virgílio, ele se depara com uma encrenca em particular: a utilização de antimatéria pelos cientistas do projeto Homo stellaris, que se empenha em criar um ser humano capaz de começar do zero na superfície de Titã, a lua de Saturno. “Tianzhu” significa “Senhor dos Céus” ou “Deus” em chinês, e o que temos aí é o ser humano, frustrado com o seu destino até aqui, bancando Deus. Bablet tem um desenho que se esmera nas representações de ambientes tecnológicos, máquinas, robôs e naves, ao mesmo tempo em que sua figura humana é altamente estilizada. Daí as comparações com o mangá, os quadrinhos japoneses, embora a estilização dos personagens cause mais estranhamento do que se vê no mangá. A denúncia do hubris em torno da criação da vida pela ciência lembra aquela de Akira de Katsuhiro Otomo. Também como os japoneses — e eu penso especificamente em Tsutomu Nihei —, Bablet não tem problemas em deixar muitos quadros e até páginas sem balões, em uma ação muda. Ao mesmo tempo e ao contrário da maioria das HQs americanas, seus personagens às vezes se dedicam a longos monólogos e se mostram capazes de filosofar. O enredo certamente é rico e interessante, mas a parte científica, que colocaria Shangri-La mais próximo da FC hard, me soou problemática: não entendi a necessidade da exploração da antimatéria, para o projeto do Homo stellaris. Física de partículas e engenharia genética não se casam muito bem aqui, embora a questão da antimatéria seja essencial para o sub-enredo envolvendo Scott e Virgílio. Conforme a ação segue acelerada rumo à catástrofe, o destino dos humanos criados para viver em Titã sugere que a humanidade, mesmo a artificial, criada para ser perfeita, nunca será capaz de lidar com a questão da vida e da morte, os limites da condição humana. Shangri-Lá é uma ficção científica dura e pessimista, mas que fornece uma experiência de leitura forte e envolvente, e muita matéria para reflexão.

 

Príncipe Valente 1943, de Hal Foster. Editora Planeta deAgostini, 2019, 62 páginas. Tradução de Carlos Henrique Rutz. Introdução de Pablo Kurt Rettschalg Guerrero. Capa dura. Neste volume, o tempo que Valente passou combatendo os hunos com táticas de guerrilha lhe serve bem nas ações contra os vikings no norte do reino, acompanhados dos cavaleiros do Rei Arthur. Vitorioso, ele troca o sorriso sarcástico de faca  nos dentes pelo seu lado romântico, saudoso do fantasma que assombra o seu coração — a visão da loura princesa Aleta. Novamente em busca de orientação, ele retorna aos pântanos de sua infância, e consulta-se uma vez mais com a bruxa que o havia amaldiçoado com aventuras sem descanso e sem amor amor ou felicidade. A tentativa subsequente de visitar o Mago Merlin resulta nele sendo presa de várias armadilhas do conselheiro do rei — humilhação que devolve em dobro em um episódio cômico e explosivo. Em Camelot, encontra um Sir Gawain entregue ao mau comportamento, o que o faz se afastar rumo a Thule, o reino do seu pai. Nas páginas seguintes, ele livra o countryside bretão de um bando de ladrões liderados por um falso frei. A violência desse trecho dá lugar a um episódio terno em que Val e seu escudeiro elevam o moral de um menino camponês e de um cachorro de três patas. Valente chega ao litoral e, após alguns encontros resolvidos na ponta da espada, embarca em um navio e conhece novos companheiros, entre eles um mercador tunisiano, um bocudo guerreiro saxão, e uma donzela assediada por um nobre arrogante. Na viagem, flertes, um duelo, mar revolto, um incêndio a bordo e o naufrágio. A catástrofe revela pontos fracos e fortes dos passageiros, e a aventura desvela emoções um pouco mais profundas e situações dramáticas mais sinceras.

Algo que este volume evoca é uma elegância artística e narrativa. Ela só tropeça lá pelo meio do volume, pouco antes do encontro com uma lula gigante. Mais tarde, ao chegar a Thule, Val traz notícias das más intenções de Valgrind, que se dirige ao reino sob o falso pretexto de realizar um acordo de paz. É a astúcia do rapaz que remove a pele de carneiro do vilão. O restante do volume se dedica a descrever como a jovem aristocrática Ingrid tortura emocionalmente o companheiro saxão que Val conheceu no navio, Eric — o casal se mostrando como personagens especialmente humanos nessa sequência. Enfim, o volume fecha com novas encrencas se avizinhando, e Valente sofrendo um acidente de caça, que o coloca, ferido, nas mãos de uma loura e alta caçadora.

—Roberto Causo

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Leituras de Junho de 2019

O mês de junho concentrou a leitura de ficção científica brasileira e japonesa recentes, além de fantasia celta e história em quadrinhos do Batman e de fantasia heroica.

 

Arte de capa de Patricia Highsmith.

Os Gatos, de Patricia Highsmith. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011, 120 páginas. Arte de capa de Patricia Highsmith. Tradução de Petrucia Finkler. Livro de bolso. Mês passado, terminei estas anotações com a leitura de uma história de bichos, a fábula O Lobo, de Joseph Smith, e neste mês começo com este livro centrado na figura do gato. O livrinho da famosa escritora de ficção de crime Patricia Highsmith (autora dos romances de Ripley), com três contos, três poemas e vários desenhos, tem todo o jeito de ter sido montado no Brasil, de material retirado de outra obra da autora. (Não tem nota de copyright de um título reunindo todos os textos, por exemplo.)

“Presentinho de Gato” é a primeira história, uma noveleta, em que, durante uma reunião social, um gato traz para casa um dedo humano, com uma aliança ainda presa nele. Isso leva o casal dono do gato a investigar o caso, chegando até o perpetrador — e a uma decisão surpreendente, sobre o que fazer com ele. A segunda história, “A Maior Presa de Ming”, é um conto de suspense que pode ser lido como horror e não ficaria mal em uma série de antologia como Galeria do Terror (1969-1973) ou em um filme do tipo antologia, como Creepshow: Arrepio de Medo (1982). Nessa noveleta, o gato do título, odiado pelo namorado fisicamente abusivo da sua dona, dá um jeito de “acidentalmente” (vai saber…) tirar o sujeito da vida dele e da moça. Finalmente, “A Casa de Passarinhos Vazia” mostra uma mulher que vislumbra um bichinho na propriedade rural em que vive, e cuja presença furtiva passa a incomodá-la acentuadamente. Ela passa a chamar o animal de “filhote de yuma”, e faz o marido emprestam uma gata da vizinha, para caçar o bicho, mas o conto revela que a criatura é símbolo de uma inquietação íntima, referente ao filho que ela abortou intencionalmente. Uma inquietação que pode ter se transferido ao marido, mesmo depois do “yuma” ter sido morto pela gata. É um suspense psicológico, portanto. Seguem-se então três poemas sobre a vida do gato: gatinho, gatão e velhão. O livro fecha com o ensaio “Sobre Gatos e Estilos de Vida”, observando como a beleza e a tranquilidade do gato combinam com a vida do escritor. O ensaio e os poemas, bem mais do que as histórias, que podem ser lidas pelo seu fator suspense ou crime, é que tornam este um livro para amantes de gatos, assim como, por exemplo, O Gato por Dentro (1986), de William Burroughs.

 

Arte de capa de George Amaral.

A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche. São Paulo: Monomito Editorial, Coleção Universo Insólito, 2019, 118 páginas. Apresentação de Enéias Tavares. Texto de Orelha de Jana Bianchi. Arte de capa e ilustrações internas de George Amaral. Livro de Bolso. Esta novela de Ana Rüsche abre a Coleção Universo Insólito da Editora Monomito, voltada para FC, fantasia e o fantástico. É uma excelente obra de abertura para uma coleção, considerando as suas qualidades literárias e representacionais. (Um embrião, sob a forma de conto, apareceu antes na revista eletrônica Mafagafo, de Jana Bianchi.) A narrativa acompanha a aventura de Irene, uma mulher brasileira, afro-descendente e de meia-idade que acaba no Chile, fazendo uma oficina de práticas de meditação. Lá, toma contato com uma beberragem capaz de induzir ao comunicação telepática, e se une a uma comunidade que explora essa fabulosa habilidade.

A bebida já está na mira de um empresário americano que se infiltrou no grupo antes da brasileira chegar, e que pretende turbinar a internet com uma tecnologia bioquímica de transmissão do pensamento. A premissa lembra a intriga de fundo do romance Interferências (2018), de Connie Willis, no qual a telepatia poderia fundamentar uma revolucionária expansão da tecnologia de comunicação móvel. Ao mesmo tempo, o cenário translatino-americano coloca o livro junto com Na Eternidade Sempre é Domingo (2016), de Santiago Santos, e Escalpo (2017), de Ronaldo Bressane. É uma tendência bem-vinda, e eu mesmo expresso minhas ansiedades de contato com a América Latina na série As Lições do Matador. Mas, assim como no livro de Bressane, a novela de Ana Rüsche lembra a violência da ditadura militar brasileira, ao evocar a ditadura chilena. Rüsche faz bom uso de um recurso incomum na composição literária — o portento (um terremoto andino, no caso). Ela também compôs uma prosa literária discreta, muito próxima do estilo dominante na literatura mainstream brasileira e latino-americana, o que aproxima ainda mais forma e conteúdo. É um estilo sensível aos estados mentais da protagonista e a como ela se relaciona com a galeria de personagens que desfilam em A Telepatia São os Outros, uma das melhores novelas surgidas neste momento tardio da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira.

 

Capa de Teo Adorno.

Back in the USSR, de Fábio Fernandes. São Paulo: Editora Patuá, Coleção Futuro Infinito, 2019, 224 páginas. Brochura. Nunca fui um beatlemaníaco, embora amigos de infância como Devair Almeida e até a minha mulher sejam grandes fãs dos Beatles. Às vezes, só pra encher o saco da minha esposa, eu me refiro ao grupo como “Os Reis do Iê Iê Iê”, a ridícula alcunha dada pela imprensa brasileira a eles, quando do seu surgimento.

Começo assim o comentário deste que é o segundo romance de Fábio Fernandes porque John Lennon é o seu protagonista. O livro abre a Coleção Futuro Infinito, editada por Luiz Bras (Nelson de Oliveira) para a Editora Patuá, de São Paulo, e é uma história alternativa em que, em fins do século 18, um método de ressuscitação total, conhecido como “Método Frankenstein”, mudou a história do mundo. À revelia, Lennon sofre o procedimento depois de ser assassinado por Mark David Chapman em Nova York. Coagido pela empresa superpoderosa que controla o método, ele vai à Rússia para, a pretexto de fazer um show, contrabandear dados secretos para fora do país e sofrendo com várias reviravoltas, logo a seguir. A premissa relativamente simples é retrabalhada com uma infinidade de referências culturais, eruditas e pop, e especulações divertidas sobre um mundo que venceu (até certo ponto) a maior questão transcendental possível: a morte. O que chama mais a atenção é o quanto a questão da sobrevivência após a morte, transformada em ferramenta de controle e de diferenciação social e política, daria o tom do pensamento filosófico e ideológico ao longo dos séculos. De fato, a estratégia imprime ao livro todas as marcas da ficção pós-modernista, na estrutura fragmentada e com a sua aproximação do popular e da alta literatura. São citados, por exemplo, Mary Shelley, H. P. Lovecraft, Karl Marx, Yoko Ono, George Harrison, Michel Foucault e Erich Maria Remarque — com o trecho de um romance que apresenta Adolf Hitler reduzido a um personagem. Soma-se a ela a paródia de um gênero popular, o thriller internacional, para reforçar essa inserção. O romance surgiu do conto “Para Nunca Mais Ter Medo”, publicado na revista Dragão Brasil em 1995, e agrega como reaproveitamento outros textos em torno do Método Frankenstein. A Coleção Futuro Infinito vai trazer um mix de autores da Segunda e da Terceira Onda, como Braulio Tavares, Claudia Dugim e Marco Aqueiva.

 

Capa de Carol Russ.

The Book of Kells, de R. A. MacAvoy.  Nova York: Bantam Books, 1985, 340 páginas. Arte de capa de Carol Russ. Arte interna de Robert Hunt. Paperback. A escritora americana Roberta A. MacAvoy fez sucesso na década de 1980 e depois deu uma sumida. Uma pesquisa na internet revelou que ela desenvolveu uma doença crônica, controlada recentemente, quando ela voltou a escrever. Este é um romance solo (não fazer parte de uma série) ambientado na Irlanda. Foi por essa razão que eu o adquiri este ano em um sebo da região da Sé, em São Paulo. É que a escrita do romance “Archin” para o Desire entrou em uma fase ambientada na Irlanda do século 13. Dá para chamá-lo de “fantasia celta” e de “fantasia de portal”, já que ele começa na Irlanda contemporânea — para onde vai uma jovem adolescente do século 10, que tenta fugir do massacre da sua vila por um grupo de vikings. Ela surge na casa alugada de um artista canadense que foi levado à Irlanda por sua namorada, uma historiadora, feminista e mulher de ação. De algum modo, as filigranas celtas e uma certa canção que ele ouvia na vitrola criaram um portal que permite a viagem no tempo. A menina foi estuprada e está ferida. O casal contemporâneo cuida dela e, tendo matado a charada, resolve levá-la de volta ao século 10. Lá, descobrem um segundo sobrevivente, um poeta, e ficam sabendo que o portal de retorno foi fechado quando os vikings destruíram uma cruz ornamentada pelos mesmos padrões de filigrana. Os náufragos temporais se tornam os representantes do leitor numa jornada de descoberta da vida e da cultura celta de então — especialmente depois que o grupo determina que devem ir a Dublin exigir do rei uma compensação pelo massacre e pelo estupro da garota. Por todo o caminho eles são perseguidos pelos vikings, liderados por um sacerdote renegado do deus Odin, que escolheu aquela aldeia como sacrifício para o deus nórdico. O sincretismo tanto da cultura celta quanto da nórdica com o cristianismo é uma das marcas do romance, e daquela época. Não apenas o mecanismo de viagem temporal tem papel no enredo, mas também milagres que incluem um fabuloso encontro, ao mesmo tempo divertido e assustador, com a deusa Bridget. O clima é realista e noturno, com uma textura que sustenta a viagem temporal que o próprio leitor experimenta.

É especialmente interessante a caracterização dos personagens: o artista é atrapalhado, sexualmente inibido (o que irrita a sua liberada companheira o tempo todo) e estoico. A historiadora é altiva mas às vezes cede ao peso psicológico do estranhamento da situação, desmaiando ou explodindo com as pessoas. Seu relacionamento com o artista inclui momentos apaixonados, mas é de constante abuso verbal contra ele. Ela acaba se interessando mais pelo poeta local. Ailish, a garota resgatada, é vivaz e determinada — bastante encantadora, por essas e outras qualidades. MacAvoy lida com a caracterização de personagens e do ambiente com um senso quase teatral da dinâmica entre eles, com uma incisividade que admite momentos brutais ou detalhes pouco glamourosos, como pelos corporais nas mulheres, flatulência e uma sexualidade e nudez desinibidas que, o livro me revelou, era próprio da cultura irlandesa de então. Quando o grupo encontra a deusa Bridget, ela se revela como uma mulher idosa, nua e que, agressivamente, abre a vagina (é a figura folclórica de Sheila na Gig) para o incomodado artista — que desmaia! Outro aspecto interessante dele é que seus impulsos eróticos parecem atrelados a fatores estéticos (ele tem ereções persistentes quando desenha).

Um problema de MacAvoy é a adoção do narrador onisciente ilimitado, cujos saltos de um personagem para outro tornam difícil para o leitor saber quem pensa, sente ou mesmo fala o quê. O final do livro é meio que um deus ex-machina, mas funciona suficientemente bem para a conclusão de um romance rico, divertido e com muitos elementos subversivos da fantasia. The Book of Kells é o título de um folio do século 8, caracterizado por exuberantes iluminuras sincréticas. É considerado o maior tesouro medieval da Irlanda. O livro faz uma aparição no romance de MacAvoy, quando o grupo de amigos chega ao monastério onde ele está sendo restaurado por um grupo de monges escribas.

 

A sugestiva arte de Robert Hunt cobre a guarda da capa e a primeira página do livro. Estão nela os personagens e a mistura da cultura celta e a ameaça viking.

 

Arte de capa de Brigid Collins.

The Sleep of Stone, de Louise Cooper. Nova York: DAW Books, 1993 [1991], 174 páginas. Arte de capa de Brigid Collins. Paperback. Esta é uma novela ou romance curto com um ar de conto de fadas que disfarça bem a sua sensibilidade moderna voltada para apontar os desenganos do delírio amoroso. A incomum heroína é uma espécie de gremlin que se apaixona pelo príncipe de uma cidade pesqueira. Ela envolve o moço assumindo a forma de diversos animais (em especial uma foca ou leão-marinho) e oferecendo-lhe a sua amizade. Quando descobre que ele vai se casar com uma princesa de outra cidade, ela elabora o plano de tomar a forma da jovem e consumar o seu amor pelo rapaz. É bem provável que história se baseie em lendas das selkies, comum em ilhas do Mar do Norte, sobre um povo-foca que podia assumir a forma humana, ao trocar de pele. Uma estátua moderna, de Hans Pauli Olsen em Kalsoy, uma das Ilhas Faroe, marca a força dessas lendas.

Para a gremlin de Louise Cooper, as coisas acabam mal. No meio do caminho, Ghysla, a gremlin, acaba matando uma aia do castelo do príncipe, mas essa experiência traumática a leva a hesitar em matar a princesa que deseja substituir. Por isso, resolve apenas sequestrar a moça, levá-la a uma caverna e transformá-la em pedra com um encantamento. Bombasticamente, no final da cerimônia de casamento o noivo não confirma seus votos, dizendo que essa não era a sua noiva, o que é confirmado pela mãe da princesa. Aflita, Ghysla revela sua verdadeira forma, é caçada pelos homens, reage com sua força mágica e acaba encastelada em uma torre. O príncipe percebe que ela representa o único meio de resgatar sua amada, mas para desentocá-la, recorre ao último grande mago conhecido. Com grande relutância, o mago o acompanha de volta ao castelo, e, usando sua forma mágica, convoca Ghysla para uma conversa. Ele descobre que ela não apenas é a última da sua espécie no mundo, como que fez tudo por uma fantasia de amor, em que se convencera de que o príncipe também a amava. Enfim, o mago se revela como fazendo parte da espécie dela — ou uma parte dele, pois é filho do encontro entre uma mulher da raça mágica e um humano. Surpreendentemente, o príncipe ouve tudo e se compadece de Ghysla. Ele e o mago, porém, a convencem a colaborar. Mas existe um preço terrível a ser cobrado: o feitiço do sono da pedra pode apenas ser revertido se quem o lançou também se transformar em pedra. A autora lida muito bem com o mais neutro tom de fábula, e torna sua trágica heroína uma personagem atraente e cativante ao caracterizá-la como adolescente intensa, ingênua e atrapalhada. Cooper também antecipa a especulação mais ousada do leitor para um final diferente, escapando dela com a maior elegância. Há anos que me deparo com livros dessa autora inglesa nos sebos da vida, mas sempre pertencentes a alguma série multivolume, e nunca com o volume um. Livro solo, The Sleep of Stone foi uma ótima oportunidade de conhecer o seu trabalho. A arte de capa de Brigid Collins tem o ar e a composição dos quadros dos pintores pré-rafaelitas, mas parece ser aquarela e não pintura a óleo.

 

A escultura de Hans Pauli Olsen, na Ilha Kalsoy, retrata uma selkie se despindo da sua pele de leão-marinho. Com o dobro da altura de uma pessoa normal, ergue-se em uma extensão rochosa e é capaz de resistir a ondas de até treze metros de altura, interagindo com o mar. Nas lendas, a selkie é forçada a se tornar esposa do homem que tomou a pele de leão-marinho, a chave para a reversão da sua transformação em mulher. No romance de fantasia de Louise Cooper, a gremlin pode assumir muitas formas, e procura a todo custo ganhar o amor do humano que escolheu.

 

your name., de Makoto Shinkai. Rio de Janeiro/Campinas: Verus Editora, 2ª edição, 2019 [2016], 186 páginas. Tradução de Karen Kazumi Hayashida. Comentário de Genki Kawamura. Brochura. Há alguns anos eu me apaixonei pelo filme curto de Makoto Shinkai, O Jardim das Palavras (Kotonoha no Niwa; 2013). Outros filmes anteriores de Shinkai, como 5 Centimeters per Second (Byōsoku 5 Senchimētoru; 2007) e Viagem para Agartha (Hoshi o Ou Kodomo; 2011) não me impressionaram tanto. O comentário do produtor Genki Kawamura ao final da novelização your name., escrita pelo próprio Shinkai, dá a entender que um grupo de produtores se reuniu para dar a Shinkai as condições de produzir a obra-prima que se esperava dele. O anime longa-metragem Your Name foi o filme de animação mais visto na história do Japão, e ganhou prêmios em três continentes. É maravilhoso, já o vi várias vezes, e ele está passando direto na TV a cabo.

Narrado em primeira pessoa mas pelos dois personagens principais — dois colegiais, ele vivendo em Tóquio e ela em uma cidade interiorana ficcional —, o romance tem a ligeireza comum às “novelizações”, mas como é rico em situações e na subjetividade dos personagens, ele encanta e aproxima o leitor da dupla, ampliando a experiência do filme. Shinkai escreveu o livro enquanto dirigia o anime sobre os colegiais que trocam de corpo aleatoriamente, e, apaixonados um pelo outro, se procuram espiralando em torno do evento central, que é o choque do fragmento de um cometa que já havia atingido a mesma cidadezinha, séculos antes. Nessa coincidência e no impacto duplo há aquela sombra perpétua dos ataques atômicos americanos ao Japão na Segunda Guerra Mundial, presente em tanto da cultura popular japonesa. Em tudo isso (e também em uma engenhosa viagem no tempo), a história combina fantasia e ficção científica. O que impressiona é a costura intrincada, mas que parece despretensiosa ao mesmo tempo. No leitmotif da troca de corpos e de gênero sexual, têm-se um comentário sensível e bem-humorado de como o conhecimento do sexo oposto derrubaria barreiras e promoveria uma qualidade maior de relacionamento pessoal. Ao mesmo tempo, oferece a perspectiva de como o desconhecimento atrapalha. É difícil aparecer ficção científica japonesa por aqui, e este livro é uma oportunidade de se ter algum contato com dela. O que o filme e o livro realizam em grande parte é oferecer, com a inteligência e a sensibilidade de Makoto Shinkai, um testemunho da potência da cultura popular japonesa.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Andy Kubert.

Batman e Filho, de Grant Morrison (texto) & Andy Kubert (arte). Cajamar-SP: Planeta DeAgostini Brasil, 2019 [2006, 2007], páginas. Arte de capa de Andy Kubert. Capa dura. Este é o primeiro volume de uma coleção da Planeta DeAgostini dedicada exclusivamente ao Batman. Conta a história de como Bruce Wayne soube que teve um filho com a filha de Ra’s Al Ghul, Talia. Existe, inclusive, uma animação bastante divertida e interessante, com roteiro do escritor de FC e fantasia Joe R. Lansdale, baseada ou inspirada nesta HQ: O Filho do Batman, de 2014.

O Batfilhote é um pequeno assassino com problemas de autoridade, ciúmes do Robin (com quem trava uma luta épica), e a ideia fixa de que matar é a resposta para todo e qualquer problema. Além dos membros da Liga dos Assassinos, Batman e eventualmente também o seu filho, combatem homens-morcegos mutantes criados artificialmente pelo Dr. Kirk Langstrom. A intriga envolve o resgate da esposa do primeiro ministro britânico, raptada quando os homens morcegos entram em cena pela primeira vez — em uma exposição de arte em Londres, para arrecadar fundos para a África. Grant Morrison, um das estrelas dos quadrinhos do século 21, traz um toque metalinguístico interessante com o tema da exposição: a arte pop tipo Roy Lichtenstein, que deve muito à linguagem dos quadrinhos e que por sua vez deve ter influenciado o ângulo camp da série Batman e Robin (Batman), de 1966.

A tentativa de resgate da mulher do primeiro ministro também implica no reencontro da Batman com Talia — e o uso de um batfoguete suborbital. O volume se estende um pouco mais com o cruzado embuçado perseguindo um assassino em série que ataca prostitutas, revelando-se como um gigante mascarado que cobra um duro preço do herói, numa pancadaria em um beco. A arte de Andy Kubert, filho do lendário Joe Kubert, é competente em todos os aspectos da narrativa dos quadrinhos, com alguns momentos muito expressivos.

 

Arte de capa de Andy Kubert.

Batman: O que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? (Batman: Whatever Happened to the Cape Crusader), de Neil Gaiman (texto) & Andy Kubert (arte). Barueri-SP: Panini Books, 2013, 130 páginas. Arte de capa de Andy Kubert. Capa dura. O celebrado Neil Gaiman e o mesmo Andy Kubert criaram uma narrativa metaficcional em que Batman parece acompanhar em espírito vários testemunhos de amigos e inimigos, durante o seu velório. Como Batman morreu é a pergunta que paira, logo dividida com outra pergunta: Batman morreu mesmo? O velório acontece no Beco do Crime, onde a morte do casal Wayne dá início à formação do herói encapuçado que se tornaria o Batman.

Como sempre, o texto de Gaiman é falsamente simples, na verdade rico em situações e em movimentos. Há um componente crucial de dúvida sobre o que se passa na situação-base do velório e seus testemunhos. A Mulher-Gato é a primeira a falar, e conta um história estranha em que teria deixado de socorrer Batman de um ferimento eventual, depois que ele rejeitara construir uma vida com ela. Segue-se uma outra, em que o mordomo Alfred se apresenta como um ator farsante que assumia a identidade de vários supervilões da franquia, para motivar o patrão no seu suposto delírio heroico. A segunda parte da história abre mão do formato inicial de narrativas mais alongadas e contrastantes, para recorrer a uma rápida sucessão de testemunhos da Batgirl, do Coringa, de Robin, e até mesmo do Super-Homem. Num terceiro momento, toda essa pantomima de testemunhos funerários cede a um mergulho na subjetividade do próprio Batman. Memória e subjetividade estão no centro da abordagem literária de Neil Gaiman, e neste tratamento original e instigante da trajetória do herói a sua obsessão com a infância não deixaria de igualmente se manifestar — com direito a uma aparição de Martha Wayne, a mãe de Bruce, a identidade “civil” do Batman. A arte de Kubert dá conta e homenageia discretamente as várias fases do personagem, emprestando elementos de estilo do criador Bob Kane e de desenhistas do passado como Jack Burnley e Jerry Robinson, reforçando o caráter metaficcional da HQ. A história de Gaiman é uma linda homenagem ao imortal cruzado embuçado, tratando-o com admirável verve e sensibilidade. O volume é completado por cinco histórias mais curtas, também de épocas diferentes, incluindo uma em preto e branco por Simon Bisley, esta totalmente metaficção.

 

Arte de capa de Giuseppe Matteoni.

Dragonero: O Caçador de Dragões Nº 1, de Luca Enoch & Stefano Vietti (texto) e Giuseppe Matteoni (arte). São Paulo: Mythos Editora, fevereiro de 2019, 292 páginas. Tradução de Júlio Schneider. Arte de capa de Giuseppe Matteoni. Brochura. Dragonero é uma série mensal de quadrinhos de alta fantasia, publicada originalmente pela Sergio Bonelli Editore em preto e branco, criada na Itália em 2009, pela dupla Enoch & Vietti. Chegou aqui num livrão distribuído em bancas. Traz todos os elementos tradicionais da alta fantasia pós-Tolkien: mapas e glossário de línguas ficcionais; uma cuidadosa e rica construção de mundo bem amparada pelo traço preciso de Giuseppe Matteoni; ameaças que atingem o mundo secundário globalmente, e a formação de uma irmandade que, depois de identificar a natureza completa da ameaça, parte para obter os itens mágicos necessários. O enredo prevê a separação eventual da irmandade em pontos-chave da narrativa, e o sacrifício de algum dos seus membros. O centro da dinâmica entre os personagens é o relacionamento do herói de queixo quadrado Ian Aranill com seu amigo orc, Gmor (que contribui com o alívio cômico), e de Ian com a irmã, Myrva. Há uma ênfase especial nas guildas de magos, aviadores e técnicos, já que a série tem um lado steampunk. Inclusive, Myrva faz parte da ordem dos tecnocratas e integra a irmandade. O desenho claro, de traço robusto e de claro-escuro discreto de Matteoni dá conta de tudo.

O enredo leva o leitor a conhecer paulatinamente os membros da irmandade, o seu mundo secundário e a problemática que eles precisam resolver: um poderoso mago-vilão libera hordas de demônios antes confinados na zona proibida da “Antiga Interdição”. Para reerguer a interdição, é preciso plantar no coração do seu território uma planta mágica que viaja sob a custódia de uma pequena elfa reclamona e relutante, que é o último membro da irmandade a ser recrutado. Na premissa, há algo de J. R. R. Tolkien e de Terry Goodkind. No caminho dos heróis, viagens a terras distantes pela terra e pelo ar, duelos contra velhos desafetos e reencontros com velhos amigos, luta contra demônios cada vez mais numerosos, sacrifícios pessoais, um duelo de magos e, finalmente, um dragão redivivo. O ritmo é excelente, no desdobramento do enredo que pontua o maravilhamento da descoberta desse mundo mágico pelo leitor, e o conteúdo épico da narrativa, com momentos sombrios crescentes. Peter Jackson transformaria isso tudo em um blockbuster definitivo.

 

Príncipe Valente 1940, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. Após escapar da tentativa de assassinato do usurpador Piscaro, e de libertar o nobre Cesario, o Príncipe Valente parte, acompanhado de Sir Gawain e de Sir Tristão e com recursos renovados, na missão de deter quatro mil hunos que se aproximam. Logo no início, tem-se uma página com um violento choque de cavalaria. Com a ajuda do seu novo escudeiro, o malandro Slith, Valente bola um plano para derrotar o chefe dos hunos, Karnak, com mais ação clássica de cavalaria pouco adiante na narrativa. No aftermath, Valete socorre um mensageiro ferido, e descobre se tratar de uma garota disfarçada de rapaz. Ela tem origem nobre e, com o disfarce, busca continuar a liderança paterna na resistência aos invasores. Enquanto rola esse pequeno arco romântico, que recupera o leitmotif da moça que assume papel masculino em homenagem à autoridade paterna (que vemos desde Grande Sertão: Veredas, a Mulan), Valente vai pescar sozinho e retorna para se defrontar com uma delegação de nobres de várias regiões demandando que ele os lidere, como um Alexandre, para a vitória sobre um “mar de sangue huno”. Já apontei aqui como o volume anterior apresentou o início do ciclo sobre as guerras dos hunos, marcado pela uma crueldade. Aqui, quando Valente recebe os nobre e generais, ele se nega a liderá-los, indicando um livro com a “história do mundo” (de Plutarco?):

“Aqui, sob a minha mão, está a história do mundo. Jamais encontrarei uma conquista à força que seja duradoura. Alexandre e César, cada um a seu tempo, dominaram o mundo. Mas onde estão suas conquistas agora? O que aconteceu com a Babilônia, a Pérsia e Cartago? Os frutos da conquista são apenas inimizadas amargas. Não, meus nobres senhores, eu empenhei minha espada apenas às causas da justiça e da liberdade!” —Hal Foster. Príncipe Valente.

O trecho não apenas reafirma a mística arturiana de ideais civilizadores, como tempera as aventuras do herói com uma reflexão pacifista a partir da leitura e da ponderação. Assinalando os novos ares da saga, Valente e seus amigos Gawain e Tristão partem para Roma, com o primeiro cavaleiro se metendo em uma série de situações cômicas e desastradas, e com Valente partindo, mais adiante, para livrar uma região do arbítrio de um gigante. Começa um dos arcos que conheci na infância e que é dos mais nostálgicos para mim, pela sua mensagem contra o preconceito. Aí também temos um retorno ao espaço menos histórico e mais mítico da fantasia, embora a figura do gigante seja racionalizada, como outros ícones da fantasia, na crianção de Foster. Quanto ao ciclo dos hunos, ele só termina algumas páginas adiante, quando Valente e seus companheiros conseguem levar a ação até o acampamento principal dos invasores. Mais adiante ainda, Valente resgata um mercador árabe que lhe dá, em reconhecimento, um colar especial que vai tirar o herói de alguns apuros, no futuro. Uma vez, em Roma, mais encrencas aguardam os companheiros, com Valente sendo apanhado no meio de uma intriga do imperador contra o popular General Aécio. Os três são aprisionados, e escapam quando o imperador é alvo de uma revolta. Perseguido pelas montanhas, Valente margeia uma erupção do Vesúvio, e fecha o volume tomando um barco do seu capitão pirata.

 

Príncipe Valente 1941, de Hal Foster. Planeta DeAgostini, 2019, 64 páginas. Introdução de Beatriz C. Montes. Tradução de Carlos Henrique Rutz/Estação Q. Capa dura. Neste ano da publicação da página dominical de Príncipe Valente, importantes personagens secundários aparecem pela primeira vez: o pirata Angor Wrack e o mercador viking Boltar (que chegou a aparecer no filme de 1954). Principalmente, Aleta, a rainha das Ilhas da Bruma e futura esposa de Valente e mãe dos seus filhos. Eu me lembro de ter lido esta sequência há muito tempo, quando era menino, nas edições de capa amarela da Editora Paladino e em formato de livro (N.º 11, 1972).

Resistindo à tentação dos seus tripulantes de se aplicarem à pirataria, Valente termina ironicamente prisioneiro do escravagista Angor Wrack. Ao escapar, ele acaba em um bote à deriva durante dias, até ir parar em uma praia deserta, onde é socorrido momentaneamente por um anjo louro, que se torna sua obsessão. Esse anjo é Aleta, que deixa com o moço um bilhete que afirma que ninguém pode viver, depois de aportar na suas ilhas no Mar Egeu, mas que ele é jovem demais para morrer. Após curtas peripécias, ele vai parar na cidade litorânea de um velho rei que o toma como refém para pedir resgate. Valente encanta as duas filhas do rei, enquanto reúne recursos para a fuga, mas os cede a uma das filhas, para que ela possa fugir com um marinheiro que conquistara o seu coração. É um episódio bonito, e um refresco necessário a todo o sangue e cinismo do ciclo dos hunos. Mas quando Angor Wrack surge no palácio do rei para uma visita, o irritável herói puxa a espada. Nesse ponto, Foster produziu o fabuloso painel com o polvo gigante no fosso em que Valente é atirado, por ter agredido o convidado do rei. Após nova fuga, Wrack, que havia se apoderado da Espada Cantante de Valente, se torna a sua nova obsessão. Mas é no deserto e não no Mediterrâneo, que os dois se reencontram, aprisionados por ladrões enquanto duelam. Valente acaba escravizado na propriedade de um mercador árabe, ganhando parte das suas graças quando sua cultura o torna valioso como escriba. O plano de fuga de Valente envolve seduzir a morena filha do mercador, um padrão que se repete ao longo da saga, e que o herói deve ter emprestado do seu companheiro Gawain, o galanteador. Livre, ele vai parar em outra situação fantástica, desta vez não racionalizada, envolvendo um mago e a sua firme e bocuda esposa — outro momento divertido de observação psicológica, lastreado pela fantasia, do qual eu me recordava com muita afeição. O volume acelera com novo reencontro com Wrack. Agora, a cooperação anterior entre os dois teria funcionado como prova mútua de valor, e eles se tornam amigos — quando a narrativa é forçada a abafar o passado escravista de Wrack, algo pouco harmonizado com os valores da cavalaria e da Távola Redonda do Rei Artur. De novo de posse da Espada Cantante, Valente combate piratas, mas em nova circunstância moralmente ambígua, termina se associando ao pirata viking Boltar, para seguir com novas aventuras.

—Roberto Causo

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Leituras de Outubro de 2017

Em outubro, resolvi explorar o meu relacionamento com a loja Terramédia, em São Paulo, lendo vários livros de tipos e gêneros diversos, adquiridos nela. Hoje, a loja, que passou a se chamar Omniverse, está sob nova direção, de Luís Mauro Gonçalves Batista, a quem desejo boa sorte.

Quando ingressei no fandom de ficção científica em meados da década de 1980, as lojas especializadas em assuntos nerds/geeks era raríssimas. Eu conhecia apenas a Muito Prazer, na Av. São João em São Paulo, loja que eu visita quando vinha a São Paulo para as reuniões mensais do Clube de Leitores de Ficção Científica. Essa loja era basicamente um corredor amplo como uma garagem, abarrotado de gibis, revistas, fanzines, alguns livros e posters. Lá, comprei muitos exemplares originais da saudosa revista em quadrinhos The Nam, e as primeiras edições da Locus com que tive contato. As lojas geeks de hoje são voltadas para um público de classe média alta, com decoração temática e  atendentes hipsters. Bem diferente da aura alternativa da Muito Prazer.

A loja Omniverse tem justamente essa aura de classe trabalhadora, o tipo de estabelecimento no qual você dá uma passada depois da escola ou do trabalho em busca das novidades em quadrinhos, ou espera o fim de semana para se encontrar lá com seus amigos ou grupo de RPG e cardgame. Mais do que buscar o material de venda certa, vício comum das lojas geeks atuais, a agora Omniverse está abarrotada de material raro, antigo ou alternativo. Meu amigo Christopher Kastensmidt diz que essa loja é que é o real deal. Luís Mauro explica a mudança do nome da loja:

“Assim como eu, o Douglas e o Yano acharam importante mudar o nome, para deixar explícito a desvinculação com a Devir. Essa desvinculação é oficial e formal, porém o trabalho é de continuidade e o espírito é o mesmo que a Devir sempre cultivou.” —Luís Mauro Gonçalves Batista.

 

Em 13 de outubro, o mundo da literatura especulativa brasileira e da nossa cultura nerd/geek perdeu o editor Douglas Quinta Reis, um dos fundadores da Devir Brasil e da Terramédia. Douglas, além de ser meu editor na Devir, era um bom amigo, que me deu inúmeras oportunidades e me ajudou a explorar a loja, junto à qual cedo me incluiu como um “parceiro” com direito a descontos especiais. Douglas tinha apenas 63 anos. Durante seus 30 anos de atividade junto à Devir, teve atuação importante na formação do mercado nacional para RPGs e jogos de tabuleiro, livros de quadrinhos nas livrarias e literatura de ficção científica, fantasia e horror. Vai deixar saudades, e dificilmente será substituído na sua generosidade e abertura para autores nacionais e estrangeiros de várias tendências. Fica aqui a minha homenagem.

—Roberto Causo

 

Arte de capa de Gahan Wilson.

Now We Are Sick, de Neil Gaiman & Stephen Jones, eds. Minneapollis: DreamHaven Books, 1994 [1991], 94 páginas. Capa de Gahan Wilson. Ilustrações de Andrew Smith. Trade paperback. Onde mais, senão na Omniverse, você poderia encontrar, por exemplo, esta antologia de poemas de horror e humor, editada por ninguém menos que Neil Gaiman (com Stephen Jones), de quando ele ainda não era um superastro da literatura de fantasia?

Montado originalmente em 1991 a partir de uma sugestão de Clive Barker, o livro reúne poemas rimados, irônicos, safados e nojentos de um time de astros das décadas de 1980 e 1990 nos Estados Unidos e, principalmente, Reino Unido. Diana Wynne Jones, autora da série os Mundos de Crestomanci e de O Castelo Animado, e mentora de Gaiman, abre a antologia. Atrás dela vêm Kim Newman, Allan Moore, Stephen Gallagher (um tremendo escritor de dark suspense), Terry Pratchett, John Grant, Brian Aldiss (o mestre inglês da FC, falecido este ano), Colin Greenland, Ramsey Campbell, Garry Killworth, John M. Ford, James Herbert (autor de ficção de horror mais vendido que Stephen King, na Inglaterra), Storm Constantine, Jo Fletcher, Samantha Lee, R. A. Lafferty, Gene Wolfe, Robert Bloch (autor do romance Psicose), e outros. O tema acaba sendo a infância, seus medos e as reações das crianças a essas criaturas ameaçadoras: os adultos. Há muito humor no meio do nojo, da malícia e do horror. Há também algo de mais sério em vários poemas, especialmente na seção “Adults Only” na qual o sexo e o abuso entram na discussão. É difícil imaginar este estranho livro sendo lido para crianças — é para adultos com uma lembrança crítica, sombria e irônica da infância. As ilustrações de Andrew Smith funcionam muito bem nesse contexto, e a capa é do famoso chargista de humor negro Gahan Wilson, muito visto na revista Playboy. Este é o livro de Gaiman mais estranho que já li? Muito provavelmente.

This book is CLIVE BARKER’s fault—blame him.” —Neil Gaiman & Stephen Jones, Now We Are Sick.

 

Arte de capa de Bill Willingham.

The Monster Maker, de Bill Willingham. Austin, TX: Clockwork Storybook, 2002, 108 páginas. Capa de Bill Willigham. Trade Paperback. Este é um livro com uma novela e um conto, que estendem o universo de Coventry, um estado americano imaginário, antes explorado em histórias em quadrinhos escritas por Willingham. Daí eu encontrar o livro naquilo que é basicamente uma loja de gibis, como a Omniverse. 

Willingham escreve uma variante cínica e violenta da tradição dos heróis pulps. No caso, seu herói é Beowulf, aquele mesmo do poema homônimo em inglês antigo, traduzido ou modernizado por nomes importantes como J. R. R. Tolkien ou Sheamus Heaney (ganhador do Nobel em 1995). E explorado na ficção popular em obras como Devoradores de Mortos (1976), de Michael Crichton. Este Beowulf tornou-se imortal quando matou o dragão da narrativa original, cobrindo-se com o sangue mágico da criatura. No momento ele é um “herói particular” sem licença. É procurado por uma elegante investigador a serviço de um instituto dedicado à destruição de monstros. Nesse universo, o sobrenatural é reconhecido e estudado, de modo que  empresta algo da moda das fantasias urbanas. O contraste está no lado pulp seco e masculino, sem qualquer romance, e no contexto rural. Uma cidade de menos de 100 habitantes é vítima de uma onda de suicídios, e o tal instituto quer que a garota e Beowulf investiguem o ocorrido, juntamente com as autoridades federais. Na sua primeira saída, o herói é atacado por um monstro aparentemente invencível. Eviscerado, ele leva dias para se recuperar — como o Wolverine do filme Logan. Mais algumas encrencas se seguem depois, até que ele tenha o confronto final com o vilão, ele mesmo sobrenatural e parente do herói. A narrativa rápida tem um ritmo seguro e é cheia de detalhes interessantes ou divertidos, e de diálogos cortantes. A novela é seguida de uma seção de agradecimentos que comenta muito do conteúdo dos capítulos, com detalhes autobiográficos do autor (que estudou o Beowulf original em profundidade). Fecha o livro o conto “Green Grow the Rushes Oh”, também estrelado pelo herói. Willingham claramente conhece a história dos heróis pulp, e criou um atualizando as suas características ao mesmo tempo em que mantém suas raízes.

 

Poems for the Dead, de Hart D. Fisher. Scottsdale, AZ: Chaos! Comics, July 1997, 134 páginas. Introdução de Wayne Allen Sallee. Prefácio de Brian Patrick Pulido. Ilustrado. Trade paperbackMais um livro singular, que você provavelmente só conseguiria adquirir na Omniverse: um livro de poesia escrito por uma personalidade da área do horror nos quadrinhos e no cinema, publicado por uma editora de HQs. Mais do que esse aspecto associativo, o livro sugere uma terrível confusão entre horror e um momento brutal da vida pessoal de Fisher. Ele, que causou escândalo ao publicar uma série de HQs baseada nos crimes do serial killer conhecido como “Canibal de Millwalkee” (curiosamente, figura presente no romance de estreia do brasileiro Alexey Dodsworth, Dezoito de Escorpião). Além disso, Fisher daria o primeiro trabalho ao músico e quadrinista Gerald Way (que já apareceu por aqui pela Devir Brasil), e escreveu e produziu o filme independente The Garbage Man (2008), sobre um serial killer afro-americano. Esse filme marca uma das bordas de uma situação de terrível ironia e enorme tragédia na vida de Fisher: enquanto a produção acontecia em 1993, a namorada de Fisher, Michelle Davis, de apenas 20 anos, foi assassinada por um serial killer da vida real. Este livro é dedicado a ela, e seus poemas de verso livre são um mergulho nu e brutal em sentimentos de depressão, culpa, raiva, desespero e desejo de suicídio. Parte do relacionamento turbulento entre Fisher e Davis é descrito nos poemas, mas alguns transbordam para um contexto que parece ser externo e geral. Certamente, um ethos urbano, artístico e bem americano transpira dos poemas — muitos dos quais sem título, aparecendo apenas como “Poem #1” a “Poem #60”. Um aspecto interessante da poesia visceral de Fisher são as transições rápidas e ásperas, entre as imagens. O crédito dos 10 artistas que ilustram o livro aparece apenas no índice. Essas ilustrações, ao contrário da maioria dos poemas, remetem de diversas maneiras, ao horror como expressão artística.

A vinculação desse livro com o horror é uma questão para se pensar. Dentre os três gêneros da literatura imaginativa (a ficção científica, a fantasia e horror), ele é aquele que mais se confunde com estados de espírito, opções existenciais e estilos de vida relacionados ao seu assunto — como o movimento gótico. O livro certamente se remete ao gênero pela editora que o publicou e pelas ilustrações. Mas a poesia de Fisher se insere no horror de um modo mais do que associativo — imagens e atmosfera do horror contemporâneo, urbano, violento e desesperançado costuram os seus poemas e parecem informar a expressão dos seus sentimentos obsessivos, numa atitude que iria além de qualquer noção de oportunismo. Uma lembrança terrível e impactante, de que os gêneros populares podem ser mais do que entretenimento comercial.

 

Arte de capa de John Bolton.

Dragon Moon, Chris Claremont & Beth Fleisher. Nova York: Bantam Books, 1994, 124 páginas. Capa e ilustrações internas de John Bolton. Brochura. Como a maioria das pessoas, conheço o trabalho de Chris Claremont pelas HQs de X-Men, que cheguei a acompanhar na década de 1980. Mas ele já andou escrevendo romances de ficção científica e fantasia (uma trilogia escrita para George Lucas continuando as aventuras de Willow). Aqui ele se aliou à sua esposa Beth Fleisher para produzir uma novela de fantasia contemporânea como um livro ilustrado. O artista é o capista de quadrinhos John Bolton.

Assim com outros livros neste mês, este tem uma associação com o mundo dos quadrinhos. Cass Dunreith é herdeira de uma propriedade senhorial na Escócia, mas depois de perder a família, torno-se escritora de quadrinhos de fantasia em Nova York. Todo ano ela participa de um festival de medievalismo com combates simulados e tudo. Um detalhe interessante, porque esse tipo de revival foi uma tendência da década de 1990. Lá, aos poucos Cass descobre que um grupo de guerreiros mitológicos celta foi convocado, com resultados possivelmente desastrosos aos frequentadores do festival. Descrita como uma mulher forte e determinada, Cass leva algum tempo para entender que cabe a ela impedir o massacre. Para isso ela precisa admitir a herança mágica que faz parte da sua família. O foco da novela é colocar o leitor em um espaço de estilo de vida que é invadido pela magia, mas exclusivamente pela consciência da heroína. Embora tenha sua atividade profissional, passado e amizades apenas rascunhadas, Cass é interessante o suficiente. O único problema está no modo como os autores desenvolveram a dinâmica dos diálogos, com Cass sempre insolente e respondona. Toda vez que ela discute com as pessoas ao seu redor, perde interesse como personagem. A arte de Bolton para este livro é bem variada mas consistente. As pranchas coloridas são robustas e vívidas, com efeitos de aerógrafo. Mas também há desenhos a bico de pena, ilustrações monotonais e detalhes de armas e objetos, não apenas de personagens. Imagens de Cass dominam, e ele a representou como uma mulher pernuda e robusta, traços finos e um corte de cabelo mohawk. Gosto muito das capas que Bolton fez para os quadrinhos da franquia Aliens, da Dark Horse Comics.

 

Come in Alone, de Warren Ellis. San Francisco: AIT/Planet Lar, 2001, 246 páginas. Trade paperback. Hesitei muito em adquirir este livro, já que a escrita do roteirista de quadrinhos Warren Ellis ainda não havia me conquistado. Enfim, quando meu filho propôs um curso de extensão sobre jornalismo nerd/geek na Faculdade Cásper Líbero, achei interessante ele e eu termos acesso ao que essa personalidade de destaque dos quadrinhos atuais disse sobre o campo, em uma coluna no site Comic Book Resources, entre dezembro de 1999 e dezembro de 2000. Como são 52 colunas reunidas neste livro, deve ter tido periodicidade semanal. Como muitos livros de ficção e de não ficção publicados por editoras de quadrinhos (inclusive estes anotados acima), este é um volume muito mal diagramado e editado. O que importa é o conteúdo.

Ellis faz parte de um grupo muito inovador de criadores britânicos de quadrinhos que inclui Garth Ennis e Grant Morrison. Sua postura neste livro é atacar o modo como as grandes corporações — do tipo Marvel e DC — tratam os quadrinistas, e defender a independência criativa e profissional. A Marvel é a empresa que ele mais acompanha, porque enxergava na época a HQ de super-herói como um beco sem saída e um negócio ameaçado, e a Marvel andava em dificuldades. Seu foco então é o graphic novel entendido como um livro com uma HQ completa e autocontida; o oposto dos gibis de super-heróis, é claro. Além das colunas opinativas e editorais, ele entrevista colegas ou descreve suas andanças como um astro da área, viajando à Finlândia e aos Estados Unidos. Não tem muito de positivo a dizer sobre o fandom de super-heróis nem o de FC no cinema e televisão (na Comic Con de San Diego, por exemplo), mas faz apelos frequentes aos leitores de quadrinhos para realizar ações de lobby em favor das HQs independentes. Outro foco das suas reflexões são as lojas especializadas, de venda direta ao consumidor (que pré-encomenda os quadrinhos, livros ou brinquedos do seu interesse), que, segundo ele, deveriam se abrir para uma diversidade maior. No Brasil, a rede de lojas especializadas está se formando apenas atualmente, e sua articulação como algo mais do que revistarias foi um dos projetos da Devir Brasil, seguindo a batuta do editor Douglas Quinta Reis. Ellis também via a Internet como um novo veículo para os quadrinhos, com um potencial que começava a ser explorado na época. Assim como Ennis e Morrison, Ellis tem uma irreverência e iconoclastia boca suja meio punk, meio beatnik, e isso transparece também nestes textos. Tudo se insere dentro da problemática de ter os quadrinhos distanciados das suas origens juvenis, e assumidos como uma forma de arte adulta. Muita coisa mudou no mundo nerd/geek nestes 17 anos desde que ele se meteu a escrever a coluna. Mas muita coisa também não mudou, e aqui o leitor encontra um retrato da situação e das ansiedades em torno da indústria anglo-americana das histórias em quadrinhos.

“Os quadrinhos são um meio pequeno, hoje em dia. Cinquenta e poucos anos atrás, uma revista em quadrinhos venderia cinco milhões, sem esforço. Enquanto eu escrevi isso hoje, seriam necessários todos os recursos de marketing de uma das duas maiores editoras americanas para fazer a sua revista principal vender perto de cento e cinquenta mil exemplares. Quer dizer, não é bem o mercado para a poesia, mas está chegando lá. Esses são números tristes para o que seria uma mídia de narrativa visual de baixo custo, relativamente não corrompida. Há uma razão desse material costumar vender cinco milhões de exemplares num estalo. A mesma razão da indústria do filme agora buscar o impulso criativo dessa mídia. A mesma razão do Pulitzer reconhecer os quadrinhos A mesma razão dos escritores e artistas dos quadrinhos serem contratados constantemente por outras mídias.” —Warren Ellis, Come in Alone.

 

Arte de capa de Erick Sama.

Mistérios do Mal: Contos de Horror, de Carlos Orsi. São Paulo: Editora Draco, 2016, 234 páginas. Capa de Erick Sama. Brochura. Carlos Orsi é um contemporâneo meu, da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015). No começo da década de 1990, ele publicou o conto “Aprendizado” no Somnium, o fanzine do Clube dos Leitores de Ficção Científica. Eu me lembro de ter sugerido a ele que o ampliasse e submetesse à Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica. Dito e feito: estreia profissional. Seu primeiro livro de contos apareceu em 1996, Medo, Mistério e Morte. O segundo, O Mal de um Homem, é de 2001; e o terceiro, Tempos de Fúria, foi lançado em 2015. Fiquei feliz em ver este que é o quarto à venda na Omniverse — que dá espaço à Draco, à Argonautas, à Jambô e outras pequenas da literatura brasileira de fantasia e ficção científica.

“Aprendizado” é uma fantasia científica com clima de horror, e está em Mistérios do Mal. O livro reúne algumas histórias saídas das duas coletâneas anteriores, mais duas outras ainda não colecionadas. Está aqui a excepcional “A Fábrica”, que usa arquitetura e geometria para evocar o seu “horror cósmico”. Essa é uma forma de horror explorada pelo americano H. P. Lovecraft (1890-1937), de longe o autor mais influente sobre a ficção de Orsi, um autor brasileiro que conscientemente emprega os recursos da weird fiction de Lovecraft e outros autores da era das revistas pulp. Há, é claro, atualizações e adaptações. Especialmente aquelas que trazem o horror para o contexto brasileiro, invocando locações exóticas, magia indígena e heresias do Brasil Colônia. Uma das histórias, porém, busca o horror cósmico de Lovecraft e dos seus Mitos de Cthulhu nas planícies vermelhas de Marte. Das duas narrativas não vistas previamente nas coletâneas do autor, “Rex Ex Machina” é a mais longa e interessante, sendo homenagem à famosa novela de horror de Robert W. Chambers, O Rei de Amarelo (The Yellow King, 1895), celebrizado recentemente por ter sido uma das fontes da primeira temporada de True Detective, e disponível no Brasil em tradução pela Intrínseca. Orsi imagina um hipponga tentando encenar uma versão teatral da obra, durante a ditadura militar. A história faz transparecer o interesse do autor pelo registro oral, que ele explora em diálogos e também na estrutura narrativa (que aqui é um depoimento). A segunda história colecionada, “Criaturas da Noite”, é mais curta e exemplifica outra vertente do autor — a sobreposição do horror de rituais e de monstruosidades arcanas, aos horrores quotidianos da nossa sociedade. A ilustração de capa de Erick Sama, o titular número um da Editora Draco, captura a atmosfera bizarra e monstruosa da weird fiction tropical de Carlos Orsi.

 

Arte de capa de Dean Williams.

Tarzan: The Lost Adventure, de Edgar Rice Burroughs & Joe R. Lansdale. Milwalkie, OR: Dark Horse Books, Edição Limitada, dezembro de 1995, 212 páginas. Capa de Dean Williams. Ilustrações de Studly O. Burroughs, Gary Gianni, Michael Kaluta, Monty Sheldon, Charles Vess e Thomas Yeates. Prefácio e George T. McWhorter. Hardcover. Quando contei ao editor Gumercindo Rocha Dorea que eu havia ficado com este exemplar, único de uma liquidação da loja Omniverse, ele me fuzilou com os olhos e disse: “Que amigo russo que você é!” Sorry, Guga, mas o mundo é uma selva. O livro é edição limitada do romance resultante de um rascunho perdido de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), o criador de Tarzã, John Carter e outros heróis e mundos da fantasia e ficção científica, realizado pelo escritor texano Joe R. Lansdale. Além dessa edição, a Dark Horse Comics colocou na praça, naquele ano, o mesmo romance serializado no formato de revista pulp, em quatro edições ilustradas por esse time de supercraques dos quadrinhos. Também acompanhava a serialização, tiras escritas pelo filho de Burroughs, John Coleman Burroughs, com aventuras de John Carter em Marte. Essas quatro revistas eu consegui para o Gumercindo, um grande fã de Tarzã, e free of charge.

A primeira metade do livro apresenta vários choques entre duas equipes de uma expedição exploratória com um grupo de desertores da Legião Estrangeira, e o próprio Tarzã e seus amigos animais, o macaco Nkima e o leão Jad-Bal-Ja. A segunda metade leva os personagens até a cidade perdida de Ur (o objetivo da expedição) e a um confronto com o seu deus oriundo de Pellucidar, o mundo selvático da Terra oca. Existe aí um crossover de Tarzã com a série iniciada com At the Earth’s Core (1914), Pellucidar (1924) e Tanar of Pellucidar (1928), sendo que o próprio homem macaco andou por lá em Tarzan at the Earth’s Core (1929). Outras aventuras de Tarzã envolvem cidades ou raças perdidas, logo com o segundo livro da série: The Return of Tarzan (1915). Os capítulos curtos são repletos de ação e movimento constante, de um grupo ou outro e do herói e seus assistentes. Em Ur, monarca é um sádico maior do que Calígula. Há um crescendo de tensão, ação violenta e exotismo, culminando com o confronto do herói com uma espécie de louva-a-deus gigante vindo de Pellucidar, em uma arena de gladiadores. Pelas minhas outras leituras de Lansdale, especialmente a novela de steampunk Zeppelins West (2001), ele é adepto de uma ultraviolência pós-modernista de fazer inveja a Quentin Tarantino. Um pouco dessa tendência aparece em The Lost Adventure, mas muita gente apontou o fato de que originalmente Tarzã era uma série de livros muito violenta, distante das incarnações juvenis vistas na TV, nos quadrinhos e no cinema. Considerando que o romance aqui é uma colaboração com um dos colaboradores in absentia, resta a questão da prosa mais ágil e moderna de Lansdale. Alguns especialistas em Burroughs, incluindo o prefaciador George T. McWhorter, afirmam que os últimos livros de Burroughs já tomavam esse rumo.

 

De Volta…

Arte de capa de Teo Adorno.

Anacrônicos/Anacrónicos, de Luiz Bras. São Paulo: Alink Editora, 2017, 80 páginas. Capa de Teo Adorno. Tradução de Alejandro Mansilla. Livro de bolso. Eu já tratei aqui, em junho, da versão e-book da noveleta de ficção científica e realismo mágico Anacrônicos, de Luiz Bras (a identidade de Nelson de Oliveira voltada para a ficção científica e a literatura para o leitor jovem). Naquela ocasião, apontei a fusão das duas tradições literárias e comparei a noveleta às histórias do pioneiro André Carneiro (1922-2014). Em setembro, o autor lançou esta mui simpática versão bilíngue português/espanhol pela Alink Editora, com uma tradução competente para o espanhol, pelo escritor, tradutor e diretor argentino Alejandro Mansilla. O livro é pequeno, com um bom tratamento editorial e agradável de manusear. Espero que a história de Luiz Bras ganhe, com essa publicação, muitos leitores brasileiros e internacionais.

Nas minhas leituras de junho de 2017, escrevi sobre a noveleta de Luiz Bras:

 A noveleta segue o ponto de vista de uma jovem que vive os dias de uma estranha invasão: redivivos, feitos de borracha industrial, com a exata aparência e parte da personalidade e comportamento de pessoas falecidas, do conhecimento dela e dos demais habitantes da Terra… Bras coloca a sua própria variação e personalidade no conceito, ao torná-lo global e explicitando a artificialidade dos redivivos. A prosa tem uma qualidade muito intimista, para equilibrar o conteúdo panorâmico, e elegante.

 

Blade Runner: Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick. São Paulo: Editora Aleph, outubro de 2017, 336 páginas. Tradução de Ronaldo Bressane. Prefácio de Rodrigo Fresán. Ilustrações de Dave McKean, Liniers, Peter Kuper, Rebecca Hendin, Elena Gumeniuk, Antonello Silverini, Gustavo Duarte, Guilherme Petreca, Danilo Beyruth e Bianca Pinheiro. Capa dura. A Editora Aleph produziu uma tremenda edição especial do romance clássico de Philip K. Dick, seguindo a onda promocional em torno do filme novo de Denis Villeneuve, Blade Runner 2049. Além da tradução do autor da Geração 90 Ronaldo Bressane, a edição traz muitos “extras” de interesse, incluindo uma carta do próprio Dick ao divulgador do Blade Runner original, de 1982, no ano de lançamento do filme. Em capa dura com sobrecapa, a edição tem design gráfico do celebrado designer Pedro Inoue. Apresenta não apenas uma bela jaqueta de proteção, mas também uma “capa oculta” na encadernação capa dura. O look geral do livro é muito moderno e agradável, e o time de ilustradores de primeira linha, composto de brasileiros e estrangeiros, produziu uma coleção de imagens que parece ter uma coerência estética maior do que aquela do projeto anterior da Aleph, criado com premissa semelhante: a edição especial de Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Achei que o resultado foi superior. Preciso agradecer à fotógrafa e youtuber Gabriela Colicigno, e a Luciana Fracchetta, divulgadora da Aleph, pelo exemplar que recebi — uma edição obrigatória para os fãs de Dick e do filme seminal de Ridley Scott. Sobre o romance propriamente, lembro que eu o discuti nas minhas leituras de setembro, afirmando: 

Um romance consistente e realizado dentro de um clima próprio e engenhoso, que faz o leitor coçar a cabeça do começo ao fim. De fato, torna o ato de coçar a cabeça uma experiência de leitura essencial. A ficção científica e as questões de cognição, sobre o que percebemos da realidade, têm uma longa história juntos, desde o século 19. Mas Philip K. Dick foi o autor da FC moderna que mais sistematicamente explorou essa relação.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Fiona Staples.

Saga Volume 2, de Brian K. Vaughan & Fiona Staples. São Paulo: Devir Brasil, 2015 [2013], 164 páginas. Capa de Fiona Staples. Tradução de Marquito Maia. Capa dura. Saga é uma ficção científica satírica, uma space opera pós-modernista, totalmente nonsense, que brinca com chavões e enfia situações adultas e às vezes sombrias no meio da sua narrativa. Publicada nos States pela Image, ganhou um caminhão de prêmios. Meu exemplar eu adquiri na Virada Nerd, promoção da Devir Brasil com vários parceiros, inclusive a própria loja Omniverse, onde eu o comprei.

O casal multi-espécie Alana e Marko, cujos planetas estão em guerra e que são caçados pelas autoridades, pela família e por assassinos profissionais das duas partes em conflito, continuam em fuga na espaçonave viva de que se assenhoraram no volume anterior. Fogem acompanhados da filhinha recém-nascida (que também é a narradora da história) e sua babá fantasma, além dos pais de Marko, que chegaram a eles por via mágica. Enquanto isso, o caça-prêmios Querer passa a ser acompanhado pela ex-noiva de Marko, Gwendolyn (que, apesar do nome anglo, é uma mulata). Flashbacks contam como o casal se apaixonou, enquanto ela era carcereira dele em um planeta campo de concentração. O destino dos fugitivos é a casa do escritor D. Oswald Heist, cujo livro de bolso inspirou não só o romance do casal, quanto a sua suposta disposição “revolucionária”. Trata-se de um romance de love story açucarada, e seu papel nesta HQ pós-modernista parece ser o de sugerir, mesmo com ironia, que a cultura popular guarda sentidos e funções interessantes e que escapam aos incautos. Mas não ao Príncipe Robô IV, ele mesmo na cola do casal. O príncipe, que tem um velho monitor de TV no lugar da cabeça (e que, quando ele está confuso, exibe cenas de um filme pornô gay), chegou primeiro até Heist. O livro, que parece apresentar uma arte um pouco mais sólida da parte de Fiona Staples e uma colorização mais sutil, termina com esse gancho. O volume 3 já saiu, e pretendo lê-lo em breve.

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