Tag Arquivo para Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira

Leituras de Novembro de 2019

Mais ficção científica sobre Marte neste mês, e também ficção de detetive, de horror brasileiro e história em quadrinhos.

 

The Galton Case, de Ross MacDonald. Nova York: Vintage Crime/Black Lizard, 1987 [1959], 242 páginas. Trade paperback. Uma visita ao blog Killer Covers, de J. Kingston Pierce, me lembrou o quanto gosto de ficção de crime hard-boiled. Um link que leva a um artigo dele sobre Ross MacDonald (nome verdadeiro: Kenneth Millar) no site Crime Reads me recordou que eu tinha uns livros do escritor guardados em algum lugar. Uma busca rápida revelou este The Galton Case. O exemplar que pertenceu a Walter Martins, autor da Primeira Onda da FC Brasileira que, pelos livros que ganhei dele, leu muita ficção de crime nas décadas de 1980 e 1990. O selo Vintage Crime/Black Lizard dava uma cara mais sofisticada aos clássicos do hard-boiled, mas perdia ótimas oportunidades de presentear o leitor com capas de arte pulp de qualidade.

The Galton Case é um romance da série protagonizada pelo detetive Lew Archer, que eu conhecia dos filmes de Paul Newman da década de 1960 (nos quais o detetive se chamava “Harper”). Aqui, ele é contratado por advogado para atender à vontade da sua adoentada cliente, uma multimilionária do petróleo que deseja reatar os laços com o filho, Anthony Galton. O rapaz abandonou a família e a sua riqueza alienante para perseguir o sonho romântico de se tornar um poeta e romancista proletário em San Francisco. Archer vai para lá e segue as pegadas tênues do personagem até uma cidadezinha, onde uma ossada humana é encontrada. Teria a esposa de classe baixa de Galton vendido o marido pelo dinheiro que ele havia deixado para trás? Ou o assassinato teria sido cometido por outros extorsionistas, saindo de controle? Quando a pista parece estar esquentando, uma tremenda reviravolta abala Archer: aparece um filho de Anthony Galton para encerrar o caso. Algo estranho em tudo leva o determinado detetive a continuar a investigação, levando-a até o Canadá (onde Millar nasceu). Trata-se de um daqueles enredos em que as mentiras se empilham e a verdade se embaralha. A trilha leva a um complô muito mais próximo da família Galton — e do próprio Archer — do que as primeiras pistas davam a entender.

Contudo, mais do que reviravoltas no enredo, que em MacDonald soa mais bem encaixado do que os de Raymond Chandler, a quem ele é comparado, o romance oferece complexidade moral e uma premissa que de início soa como uma espécie de “McGuffin” superficial (o espírito livre que abandona a fortuna), mas que ganha profundidade porque a caracterização indireta de Anthony Galton o torna uma espécie de fantasma que assombra a textura do romance. E que acaba de contaminar também a premissa igualmente superficial de início, do seu filho. Grande parte do efeito vem da noção subjacente de que na verdade é a riqueza que assombra os personagens, como uma espécie de atrator do mal.

 

The Martian Race, de Gregory Benford. Nova York: Aspect, 2001 [1999], 448 páginas. Arte de capa de Don Dixon. Paperback. Com este livro eu dou continuidade à minha leitura do ciclo de Marte na FC hard da década de 1990, iniciada mês passado com Mars, de Ben BovaThe Martian Race deixa explícito o contexto que inspirou o ciclo, e que inclui a declaração do presidente americano George Bush (pai) de patrocinar uma missão a Marte. Ele logo esqueceu o assunto, depois que a NASA, em um momento especialmente megalomaníaco, apresentou um orçamento de 450 bilhões de dólares. A solução de Gregory Benford espelha o concurso X Prize (hoje, Ansari X Prize) que, em 1996, instituiu um prêmio de 10 milhões de dólares a quem conseguisse, na iniciativa privada, lançar um veículo espacial de construção própria. No romance, o prêmio é de 30 bilhões a quem conseguir montar uma operação que leve seres humanos a Marte, realize pesquisa científica lá, e os traga de volta em segurança.

O magnata John Axelrod entra na corrida, mas o romance segue basicamente a astronauta americana Julia (erroneamente chamada de “Julie” na contracapa) no processo de formação da tripulação (com percalços), promoção da empreita de Axelrod, casamento com o cosmonauta Viktor, a jornada até Marte e o que acontece lá evolvendo a esquipe adversária. Assim como no romance de Bova, aqui muito é dito sobre as encrencas com a mídia, especialmente a popular. A equipe concorrente é patrocinada por europeus e chineses, daí o romance antecipar algo das atuais tensões entre EUA e China. Interessante que a nave desse consórcio tenha um propulsor atômico. Por conta disso, e embora tendo partido antes da nave de Axelrod (lançada com o apoio da NASA), ela não precisa de uma janela  tão estreita quanto esta, e se não chegar primeiro, voltará primeiro.

O romance tem uma narrativa leve, sem grandes mergulhos ou momentos diferenciados. Mas surge muito de suspense e da tensão da aposta de Julia, uma bióloga, de que conseguirá descobrir vida no planeta se dispor de um pouco mais de tempo. Também assim como em Mars, há muito sobre a questão de existência de vida em Marte, mas enquanto Bova apostou no fundo dos cânions marcianos e sua suposta condição de preservação da umidade, Benford aposta em túneis de lava e fumarolas vulcânicas. Martian Race vai além, apresentando uma rica especulação sobre formas de vida subterrâneas do tipo conglomerado vegetal ou bacteriano. Sendo um cientista praticante (físico), Benford é extremamente competente no manuseio de conceitos científicos e tecnológicos. (O lobista Robert Zubrin também aparece aqui como figurante.) Além disso, as necessidades da pesquisa científica são afirmadas acima das necessidades comerciais e políticas, e, para o meu prazer, mesmo no contexto da corrida espacial, a importância da cooperação é afirmada acima da competição. O destino de Julia e Viktor ficou para ser definido em uma sequência, The Sunborn (2005), os dois livros compondo a série The Aventures of Viktor and Julia.

 

Moving Mars, de Greg Bear. Norwalk, Connecticut: The Easton Press, Masterpieces of Science Fiction, 2001 [1993], 408 páginas. Introdução de George Zebrowski. Arte de frontispício de Marc Fishman. Encadernação Especial. Junto com Gregory Benford e David Brin, Greg Bear forma o assim chamado “Killer B” dentro da FC hard americana. Este romance premiado com o Nebula 1994, na época em que esse e outros dos grandes prêmios ainda significavam alguma coisa. O Prêmio Hugo e o Locus ele perdeu para Green Mars, de Kim Stanley Robinson, outro romance do ciclo de Marte da década de 1990. Li nesta edição da coleção Masterpieces of Science Fiction, mas tenho também exemplar da primeira edição em capa dura, autografada, que adquiri no sebo Livraria Papagalis, quando ele ainda existia aqui no meu bairro. Na interessante introdução, George Zebrowski faz uma análise positiva do romance, defendendo a mal-afamada técnica de exposição conhecida como “infodump“, e destacando a protagonista de Moving Mars, primeiro uma estudante revolucionária e mais tarde administradora e governante Casseia Mojundar.

De narrativa escorreita e ocasionalmente empolgante, o romance aborda um Marte já colonizado, e as tensões do Planeta Vermelho com a ainda centralizadora Terra. Acompanha principalmente os encontros de Casseia com um colega universitário, o mais tarde físico quântico Charles Franklin, cujas pesquisas irão alterar para sempre as relações Terra-Marte e, ao final do livro, as possibilidades de presença humana no restante da galáxia. Só por aí dá para perceber o quanto Moving Mars se afasta dos romances de Marte de que já tratei antes: chegar a Marte e colonizá-lo são questões já resolvidas; e de maneira típica de Bear, o realismo das circunstâncias iniciais vai apoiando a entrada subsequente de conceitos científicos muito mais radicais, como no seu cyberpunk Blood Music (1985). Neste caso, uma possibilidade de tecnologia computacional que acessa a matriz quântica do universo, possibilitando a movimentação instantânea de grandes massas de um lugar para outros. Não há nenhuma celebração de cooperação no livro, porém — a descoberta também significa a existência de uma arma definitiva, cuja posse deve ser neutralizada por ataques furtivos em uma guerra de extermínio, que leva os dirigentes e cientistas de Marte a realizaram uma fuga planetária para outras regiões da galáxia. Assim como em Blood Music, é uma insistência determinista do cientista visionário que leva a um estado de coisas súbito e potencialmente apocalíptico para a humanidade.

Casseia Mojundar é uma rara personagem redonda dentro da FC, cujas falhas pessoais (que incluem arrogância e impertinência, covardia e inabilidade) a tornam mais próxima do real e valorizam os momentos de superação e de aprendizado. Se o romance tem uma “barriga”, é quando Casseia visita à Terra pela primeira vez, em seus primeiros passos como burocrata — um “passeio no zoológico” que certamente é pior do que qualquer infodump, e que descreve uma Terra exótica, repleta de restrições nascidas do nosso passado humano de guerras e conflitos, e extensões virtuais de sexualidade e comportamento, de lastro pós-cyberpunk evidente. Porém, no todo Moving Mars fornece uma grande leitura, sólida, intrigante e plena de sentido do maravilhoso.

 

Arte de capa de Wayne Barlowe.

 

 

Arte de capa de Gilber Mirândola.

O Cântico do Súcubo, de Georgette Silen. Paracatu-MG, Buritu Editora, 2013, 68 páginas. Arte de capa de Gilber Mirândola. Livro de bolso. A escritora paulistana e diretora de teatro Georgette Silen está em atividade desde a primeira fase da Terceira Onda da FC Brasileira (iniciada em 2004). Seu trabalho dentro da literatura especulativa se volta em geral para o horror, como é o caso evidente de O Cântico do Súcubo que adquiri da autora em um evento de fãs em São Paulo. Trata-se de uma noveleta que acompanha Giacomo, um frei bonitão em épocas medievais, que se envolve com um súcubo (demônio sexual) ao encontrar ruínas romanas em um bosque mal-afamado. Ele prossegue até o mosteiro ao qual se dirigia, e lá os membros do lugar passam a ser assediados e mortos pelo súcubo — que se comporta basicamente como uma vampira, bem representada em sua forma humana pela arte bastante atmosférica de Gilber Mirândola na capa.

Mais conhecida pela série Lázarus de romances de horror, publicados pela Giz Editorial, Silen constrói muito bem as cenas e a atmosfera de horror, não se esquiva dos aspectos eróticos nem do sangue e vísceras. Inclusive, leva o clímax da história a um momento do tipo “eros e tânatos”, depois que Giacomo consegue superar sua passividade e consegue enfrentar o monstro. Apesar do excesso de adjetivos no início, e de uma cena meio que pendurada na história envolvendo um outro religioso, O Cântico do Súcubo tem boas qualidades narrativas. Acena com o nascimento do herói de uma nova série, no final.

 

Arte de capa de São Pedro.

Crianças na Escuridão, de Júlio Emílio Braz. São Paulo: Editora Moderna, Coleção Veredas, 3.ª edição, 1993 [1991], 56 páginas. Arte de capa e ilustrações internas de São Pedro. Falei de Braz nas minhas leituras de fevereiro, intrigado com a crueldade que aparece nos seus livros, mesmo nos dirigidos ao público infantil. Resolvi conferir, pegando este livro curto, voltado para o assunto das crianças de rua e comprado há anos no Sebo do Messias, na região da Praça da Sé. É narrado em primeira pessoa por uma menina abandonada pela mãe em um supermercado, e que logo se une a uma gangue formada por outras meninas que catam papelão e cometem pequenos roubos pela cidade de São Paulo. A paisagem da metrópole paulistana é muito bem explorada por Braz, que a contamina com toda a violência que as meninas sofrem: violência policial, abuso sexual em casa, assédio de cafetões, estupro, falta de solidariedade da população e de assistência do Estado. Finalmente, também o assassinato. As frases curtas e os episódios montados pela voz infantil da menina Rolinha vão costurando este relato do abandono e da aspereza das ruas. A arte despojada de São Pedro, a traço rasgado e de certa ironia igualmente cortante, sublinha esse conteúdo mesmo quando não o retrata. O final não é feliz, só o que ele afirma é sobrevivência e continuidade. Apesar da brevidade do livro, ele costura uma complexidade emocional entre as meninas e entre as figuras que as orbitam, como um traficante de drogas, um mendigo intelectual e um violento pivete que anda armado. A prosa minimalista alcança momentos poéticos. Na nota biográfica escrita pelo próprio Braz, ele responde com clareza cortante à minha questão:

Crianças na escuridão fala da dor e do cotidiano. É propositadamente impiedoso com a fantasia e a dissimulação — não há nenhuma delas em suas páginas. Procurei falar de verdades que conheço, de injustiças que testemunhei, de dores que me contaram. Suas personagens podem ser encontradas em qualquer grande cidade do Brasil. A Praça da Sé é apenas um universo limitado, onde coloco todas as dores de crianças que conheci.

“Se apenas um coração jovem se indignar diante de tanto sofrimento e desesperança, terá valido a pena escrevê-lo.” —Júlio Emílio Braz. Crianças na Escuridão.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Dustin Nguyen.

Descender, de Jeff Lemire (texto) e Dustin Nguyen (arte). Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 1.ª edição, novembro de 2019 [2015], 144 páginas. Tradução de Fernando Scheibe. Arte de capa de Dustin Nguyen. Brochura. Este livro de quadrinhos é mais um que apareceu aqui em casa pelas mãos do meu filho Roberto Fideli e sua namorada, Gabriela Colicigno. É uma space opera de um futuro distante em que a galáxia está unificada sob uma única autoridade federativa, com um alto nível de robotização — até que gigantescas máquinas humanoides surgem com um poder bélico destruidor semelhante ao do Galactus da mitologia da Marvel. São chamados de ceifadores, em número de nove, e depois de levar à morte a centenas de milhões dos cidadãos da galáxia eles desaparecem sem razão aparente, do jeito que surgiram. Os robôs, porém, foram poupados — por que ou como, a HQ não explica (muito é contado e não mostrado). Isso leva os sobreviventes do massacre a se voltarem contra os seus antigos servos mecânicos.

Em uma lua distante, em que uma operação mineradora foi devastada,, por um vazamento de gás, antes do surgimento dos ceifadores, alguns robôs locais foram poupados. Entre eles o pequeno Tim-21, que tem a aparência de um garoto de dez anos, muito bonzinho, criado e programado para ser o companheiro de uma criança humana de idade compatível. Mas aparentemente Tim guarda um segredo importantíssimo, que o conecta aos ceifadores, e uma força tarefa é montada para recuperá-lo nesse local abandonado. A partir daí existe muita aventura e reviravoltas, com a formação de uma equipe de heróis. Interessante que a metade dela seja composta de robôs. Um dos humanos é o cientista responsável por uma revolução da robótica na galáxia, e outro é a filha de uma figura importante da sua liderança.

A história, porém, não tem um desenho especialmente interessante e a revelação final, de que o cientista não seria tão hábil e genial quanto se declara, parece incongruente. De fato, muita coisa tem esse aspecto, levantando a possibilidade de alguma influência da série Saga, de Brian K. Vaughan, e sua abordagem nonsense da space opera. A derivação do filme I.A.: Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg a partir de um projeto de Stanley Kubrick e inspirado em conto de Brian W. Aldiss, é evidente na figura de Tim e de detalhes como uma arena em que robôs são sacrificados. Também em momentos de melodrama pós-modernista, no qual o autor parece não acreditar muito nas emoções que desafia o leitor a ter. Dustin Nguyen é um artista celebrado, que já trabalhou com Batman e The Authority, tendo recebido o Prêmio Eisner 2016 de Melhor Pintor por seu trabalho aquarelado em Descender. Mas eu achei que a arte cai às vezes ao nível de esboço, e se apoia demais no espaço negativo. A história tem aspectos intrigantes e um final surpreendente, além do gancho montado na arena dos robôs, que devem garantir o interesse na leitura do próximo volume.

—Roberto Causo

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Leituras de Setembro de 2019

Na cesta de setembro, western, ficção militar e mainstream, não ficção sobre psicologia militar, poesia, livro para crianças e jovens, ficção científica de space opera em literatura e em quadrinhos. E mais…

 

The Bounty Hunters, de Elmore Leonard. Nova York: HarperTorch, abril de 2002 [1953], 324 páginas. Paperback. Antes de se tornar um consagrado escritor de ficção de crime, admirado por gente do mainstream literário por conta da sua excepcional habilidade com diálogos, Elmore Leonard começou escrevendo westerns. Oito desses livros foram publicados no Brasil, pela Editora Rocco. Tive chance de ler antes os ótimos Valdez Vem aí (Valdez Is Coming), adaptado para o cinema num filme com Burt Lancaster, e o meu favorito, Hombre, um filme com Paul Newman. O primeiro é um livro muito duro sobre um guarda civil veterano das escaramuças contra os apaches, que descarrilha as pretensões de ascensão de um rancheiro arrogante e violento. O segundo é uma joia a respeito da incomensurabilidade do Outro cultural (o herói anglo foi sequestrado e criado como apache), e que deveria ser ensinado nas faculdades de Letras. O crítico americano B. R. Myers afirmou que os westerns de Leonard estavam entre os seus melhores escritos, e lamenta a transição para uma ficção de crime supostamente sem a mesma força ou honestidade intelectual. Este The Bounty Hunters foi o romance de estreia de Leonard, e também está na coleção da Rocco, como Os Caçadores de Recompensas.

Os caça-prêmios aí são na verdade americanos caçadores de escalpos atacando apaches no México — e camponeses mexicanos morenos, na falta dos primeiros. O romance nos conta que o governo mexicano pagava 100 pesos por indígena morto, o escalpo sendo usado como prova. Um terrível relato da violência histórica da América Latina. O agenciador dessa canalhada é um oficial mexicano dos rurales, uma polícia militar dos rincões. Ele tem o nome sugestivo de Lama Duro — autoridade militar corrupta, de pés de barro. Os heróis, por sua vez, são o batedor Daniel Flynn e o Tenente Bowman, da cavalaria. Os dois deram azar de estarem servindo sob um coronel que se comportou de maneira covarde durante a Guerra da Secessão. São enviados pelo comandante ao território índio no México, oficialmente para encontrar um líder apache chamado Soldado Viejo — na verdade, para saírem do caminho do coronel, preferivelmente sendo mortos. O romance tem as qualidades que esperamos de Leonard, a prosa dura, a simpatia direta ou indireta pela cultura mexicana, os diálogos ríspidos e brilhantes. Mas o enredo e as situações parecem um pouco titubeantes. Sem dúvida, Hombre e Valdez Is Coming são narrativas mais fortes e seguras. Nos momentos finais, há uma correria para amarrar as pontas, trazendo o coronel cagão para o enfrentamento duplo entre apaches e caçadores de escalpos. Moralmente, o romance tem que se equilibrar na corda bamba para apresentar algum efeito conciliatório possível, diante das atrocidades que enumera. Leonard faleceu em 2013.

 

Arte de capa de Cathie Bleck.

A Farewell to Arms, de Ernest Hemingway. Nova York: Scribner, 1.ª edição, 1995 [1929], 332 páginas. Arte de capa de Cathie Bleck. Trade paperback. É notável que Hemingway tenha escrito este que é o seu segundo romance, seguindo a O Sol Também se Levanta (The Sun Also Rises), aos 30 anos de idade. Ele havia testemunhado a Primeira Guerra Mundial como tenente chefe de equipe de padioleiros, junto ao exército italiano. Foi ferido, passou tempo em hospitais. Muito dessa experiência ele explora no romance, assim como a de conhecidos e companheiros de armas. O tema do americano expatriado, convivendo com tipos diferentes de pessoas em territórios distantes, é uma constante em seus romances e contos. Em A Farewell to Arms, que existe no Brasil em várias edições como Adeus às Armas, Frederick Henry, um comandante de ambulância junto ao exército italiano durante aquele conflito convive com um padre e um oficial médico na retaguarda do front. As coisas começam a crescer na direção do fio principal do romance quando Henry conhece uma enfermeira inglesa, Catherine, por quem se apaixona e conquista, embora um dos seus amigos estivesse interessado nela.

Ferido enquanto aguardava entrar em ação no front, Henry vai parar em um hospital italiano e, em seguida, num recém-montado hospital inglês. É o primeiro paciente a chegar, e logo se instala como se fosse dono do seu quarto, onde recebe amigos e a amante, e onde esconde uma variedade de garrafas de bebida. Hemingway dá atenção à operação que ele sofre para curar o ferimento em seu joelho. Também à “vida de casado” com Catherine. Recuperado, Henry é mobilizado novamente, mas não chega ao front. Ele e sua ambulância são pegos em meio a uma retirada. A prosa esparsa de Hemingway mal disfarça a atmosfera pesada, de “tudo pode acontecer”. Em um episódio especialmente dramático, o herói, ainda em território italiano, é capturado por uma espécie de “milícia da vergonha”, que seleciona, interroga e julga sumariamente suspeitos de covardia perante o combate, executando-os ali mesmo. Situação que certifica Hemingway como influência sobre autores premiados como Cormac McCarthy e Charles Frazier (que tem milícia e episódios semelhantes em Montanha Gelada, ambientado na Guerra da Secessão). Depois do incidente, Henry consegue se evadir do conflito e reencontrar-se com Catherine, agora grávida dele, em um local neutro. A narrativa assume então aspectos mais costumeiro das narrativas de expatriados, como a de O Sol Também se Levanta (1926). Nesse ponto, o suspense surge em torno do parto eminente de Catherine.

A Farewell to Arms não fornecesse um panorama do conflito, pouco da suas peculiaridades, quase nada da vida da caserna ou da psicologia do militar. Também oferece poucas reflexões de um cunho mais filosófico. É o projeto literário do autor, de fazer recuar ou embutir aspectos emocionais ou reflexivos na ação e na descrição. O efeito retentivo explode com uma força cumulativa, quando reflexões como a seguinte surgem:

“Se as pessoas trazem coragem demais a este mundo o mundo tem que matá-las pra quebrá-las, então é claro que ele as mata. O mundo quebra a todos e depois disso muitos ficam fortes nos lugares partidos. Mas aqueles que não de deixam quebrar ele mata. Mata os muito bons e os muitos gentis e os muito corajosos imparcialmente. Se você não é nenhum desses pode ter certeza de que ele vai te matar também mas sem nenhuma pressa em especial.” —Ernest Hemingway, A Farewell to Arms.

Apesar das questões acima, com respeito à sua representação do conflito bélico, o romance é considerado um dos melhores a tratar da Primeira Guerra Mundial. Acredito que isso se deve mais às suas qualidades literárias e trágicas. Se o romance é uma tragédia e Frederick Henry um herói trágico, o leitor é convidado a imaginar onde está a sua “falha trágica”. Supor que esteja no fato de ele ter engravidado Catherine quando obviamente não devia parece fácil demais. Ele ter atirado em um desertor durante a retirada soa como uma complicação mais interessante. Por essa lógica, o herói trágico convidou a vida a quebrá-lo não por um excesso de coragem ou de bondade, mas por ter assumido a morte como trivial demais, mesmo no contexto da guerra.

 

Ernest Hemingway em Milão (1918).

 

Psicologia Militar: Aplicações Clínicas e Operacionais (Military Psychology: Clinical and Operational Applications), de Carrie H. Kennedy & Eric A. Zillmer. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, Coleção General Benício, 2009 [2006], 472 páginas. Tradução de Geraldo Alves Portilho Junior. Brochura. O estande da Biblioteca do Exército Editora é uma parada obrigatória para mim, sempre que vou à Bienal do Livro. Esta antologia de ensaios acadêmicos é resultado de uma dessas visitas, feita em 2018. “Psicologia militar” aqui não se trata da psicologia do militar, mas do exercício da psicologia no meio militar, e ainda, do know-how da psicologia militar em outras esferas. Um livro fascinante, mais ainda considerando o quanto a psicologia moderna deve ao conhecimento reunido e acumulado ao longo daquela cadeia de grandes conflitos bélicos que vão da Primeira Guerra Mundial até a Guerra do Golfo e a “guerra contra o terror”, passando pela Guerra da Coreia e a do Vietnã. Reiteradamente, os editores e os colaboradores assinalam a importância da psicologia militar para a prática da psicologia moderna, especialmente a dos Estados Unidos. Adquiri o livro porque me pareceu grande oportunidade para fundamentar melhor esse lado da vida militar, inevitável considerando o quanto o conflito armado produz resultados psicológicos adversos, nas minhas histórias das Lições do Matador. Por exemplo, em “Anjos do Abismo” (o inédito terceiro romance da série) há dois incidentes definidos como de saúde mental.

O subtítulo de Psicologia Militar menciona aplicações clínicas, que visam melhorar a vida do militar que apresenta problema de saúde mental, curá-lo, prevenir suicídio ou abuso de substâncias e de jogo; e aplicações operacionais, que visam manter o militar capacitado a realizar a missão. O livro traz um esboço histórico da psicologia militar, seguido dos ensaios, agrupados em duas partes: “Prática Clínica no Meio Militar” e “Psicologia Operacional”. Na primeira, abre o artigo “Introdução à Psicologia Militar Clínica”, que acentua como aspectos desse serviço se diferenciam da prática civil da psicologia:

“Há características únicas e específicas na prática da psicologia clínica em ambiente militar e que diferem das posturas tradicionais. Elas incluem diferenças distintivas no treinamento de residentes e membros, oficiais em funções provedoras, na influência do posto ou graduação no relacionamento terapêutico, em limites distintivos da confidencialidade, no inevitável dilema ético dos relacionamentos múltiplos e nas específicas necessidades de treinamento multicultural.” —Frank C. Budd & Carrie H. Kennedy, “Introdução à Psicologia Militar”.

O artigo seguinte traz histórico e características das avaliações de aptidão para o serviço militar, uma questão que vai além do momento do recrutamento, e sobre a qual a saúde mental tem implicações diretas — no Ciclo Pós-Retração Tadai, das Lições do Matador, por exemplo, o Almirante Túlio Ferreira não permite que Jonas Peregrino passe por uma avaliação psicológica, que poderia levar ao seu afastamento ou transferência. O serviço militar, especialmente num império como o americano, é uma atividade peripatética, que leva o profissional a diferentes localidades, e prevê a mobilização (o entrar em ação) como possibilidade constante. O artigo “A Psicoterapia Breve no Meio Militar nos Estados Unidos” explora como essas circunstâncias moldaram a necessidade de terapias de curta duração, enquanto “Psicologia de Saúde Clínica e Medicina Comportamental em Organizações Militares de Saúde” explora questões como o fumo, o controle de peso, e o gerenciamento de dor crônica e insônia. “A Prática Neuropsicológica no Meio Militar” nos lembra que o combate (e o treinamento para o combate) incorre no risco de traumas cerebrais, mas um dos seus tópicos é a neuropsicologia aeroespacial militar, que trata de pilotos de aeronaves de alto desempenho e sua seleção. Outros pontos de interesse discutem o uso de estimulantes e o mistério da Síndrome da Guerra do Golfo. Central no contexto de hoje, “Prevenção do Suicídio no Meio Militar” mostra como esse meio passou a se preocupar com o problema do suicídio — embora não mencione que entre 18 e 22 militares veteranos se suicide todos os dias nos EUA, mortalidade maior do que as baixas de combate incorridas durante as intervenções americanas no Afeganistão e Iraque e outros pontos quentes da “guerra contra o terror”. A teoria do “ferimento moral” também não é abordada no livro. O artigo seguinte aprofunda a questão da luta contra o abuso de substâncias e jogos de azar. É o último da primeira seção.

Aquela destinada à psicologia operacional inicia com um artigo introdutório específico, cuja abertura já nos conduz ao assunto das operações psicológicas (psyops) e da psicologia como amparo às ações e mobilizações de grande alcance:

“A global war on terrorism — GWOT (guerra global ao terrorismo) oferece à psicologia militar um tremendo desafio e a oportunidade de demonstrar a significativa contribuição que é prestada pelos psicólogos operacionais. … Isso ressalta a natureza variável do que é denominado ‘guerra assimétrica’, e o desafio que ela proporciona ao comandante e aos que vão liderar em combate … É na esfera desse desafio que psicólogos operacionais podem oferecer seu conhecimento e entendimento do comportamento humano a fim de auxiliar o comandante a ‘penetrar no círculo do sistema decisório do inimigo’ … Isso se torna ainda mais evidente na guerra assimétrica, na qual a tomada de decisão militar e as atividades de psicologia operacional podem ocorrer a centenas de quilômetros de distância, de forma semelhante, em certos aspectos, à época [sic] em que nossas Forças Armadas conduziam veículos pilotados remotamente para cumprir suas missões.” —Thomas J. Williams, James J. Picano, Robert R. Roland & L. Morgan Banks, “Introdução à Psicologia Operacional”.

Toca-se na questão dos interrogatórios e treinamento para prisioneiro de guerra, temor de armas de destruição em massa, e os autores não se esquivam de tocar na tortura e dos casos de Abu Ghraib e Guantánamo, embora rapidamente. É muito interessante o capítulo sobre “Estresse de Combate” e a história da terminologia. Não é brincadeira, e pode levar a baixas substanciais (incapacitação para o combate), até de uma baixa para cada cinco feridos em ação. Muito se recorda da guerra do Vietnã nesse capítulo, mas também se discute o choque cultural com civis no teatro de ação. Novamente, é conspícua a ausência do conceito do ferimento moral. O próximo capítulo, sobre treinamento de sobrevivência e evasão, recorda o célebre “Experimento de Stanford”, enquanto o seguinte, muito interessante, trata da psicologia dos terroristas, tratando-os sem pátina de condenação moral, lembrando que sua determinação os transforma em “um formidável inimigo”. O terrorismo de estado é lembrado, com o nazismo como estudo de caso (Hannah Arendt é mencionada). É interessante que o grupo Baader-Meinhof ainda seja o paradigma do terrorismo político, nesse artigo, enquanto o seguinte, “A Psicologia dos Terroristas da Al-Qaeda”, contextualiza muito bem as bases histórico-ideológicas desse grupo tão determinante no século 21. Também são interessantes os capítulos “Os Efeitos Psicológicos das Armas de Destruição em Massa”, “Crises e Negociações de Reféns” e “Intervenções Psicológicas Depois de Desastres ou Traumas”, com muito material a substanciar thrillers de ficção científica, histórias de fim de mundo e de pós-apocalipse. Para a FC, porém, o penúltimo capítulo, “Avaliação e Seleção de Pessoal Operacional de Alto Risco”, é especialmente interessante: trata de pilotos de caça e soldados de forças especiais. Vale lembrar que as operações especiais se tornaram a espinha dorsal da estratégia americana na guerra contra o terror, daí o capítulo figurar nesta seção do livro. Como as FE são secretas, o modo que os articulistas encontraram de se aproximar do perfil desses militares de elite foi recorrer aos perfis de astronautas.

“[Q]ualidades como inteligência, independência, adaptabilidade, flexibilidade, motivação, estabilidade emocional e falta de impulsividade eram necessárias para o sucesso. Mais tarde [identificou-se] 10 atributos necessários par ao sucesso em missões longas ou curtas: questões familiares (habilidade para lidar com longas separações da família), desempenho sobre condições estressantes, habilidade de viver com grupo (adaptabilidade multicultural e humor), habilidade de trabalho em equipe, autorregulação (estabilidade emocional), motivação, julgamento e tomada de decisões, consciência (realização, ordem e integridade), habilidades comunicativas (interpessoais, de apresentação e diplomáticas) e capacidade de liderança (determinação, flexibilidade e habilidade de motivar outros).” —James J. Picano, Thomas J. Williams & Robert R. Roland, “Avaliação e Seleção de Pessoal Operacional de Alto Risco”.

É só uma lista de qualidades, mas pode alertar o escritor brasileiro de FC a fugir daquele clichê dos “babacas no espaço” (dorks in space) tão típico de filmes e livros americanos, mais extrapolação das relações entre rapazes do high-school ou do college, do que expressão das exigências reais dos astronautas. Um dos ápices dessa tendência é o romance de Larry Niven, World of Ptaavs (1966), com um protagonista que é um piadista de fraternidade universitária… Em resumo, Psicologia Militar é um livro que cobre um terreno vasto e que pode embasar um tratamento psicológico mais sólido do soldado ou do astronauta, além de informar o leitor da complexa problemática do ambiente militar.

 

O Livro do Cemitério (The Cemetery Book), de Neil Gaiman. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010 [2008], 346 páginas. Ilustrações internas de Dave McKean. Tradução de Ryta Vinagre. Brochura. Eu certamente não leio Neil Gaiman tanto quanto gostaria — e deveria. Afinal, fui muito influenciado nos primeiros momentos da minha atividade como escritor pelo tipo de fantasia contemporânea que chamo de “Além da Imaginação”, evidenciado por essa série de TV criada por Rod Serling, e Gaiman é um dos nomes principais da fantasia contemporânea hoje. Sinto muita falta de tornar a escrever esse tipo de narrativa, e ler Gaiman e alguns outros poderia muito bem me inspirar. Seus romances e livros de contos vão se empilhando aqui, esperando a hora e a vez.

Aqui, tem-se uma fantasia sombria para crianças e jovens. Como Gaiman costuma fazer, ele nos engana sutilmente quanto ao formato e a estrutura das suas narrativas. Inicia com um crime bárbaro, em que um assassino chamado “Jack” mata quase toda uma família. “Quase” porque o membro mais improvável da família é o sobrevivente: um bebê de um ano e meio, que, sem a supervisão dos pais mortos, foge do berço, do quarto e da casa, até chegar ao cemitério vizinho. Lá, é adotado por um casal de fantasmas — e pela comunidade de fantasmas, com a bênção, inclusive, da Morte (definida como uma bela mulher montada em um cavalo). O menino cresce ali, recebendo cuidados e instrução da população do lugar, e tendo como mentor um sujeito sombrio, entre vivo e morto, chamado Silas. O menino também vive como alguém entre essas condições. Tanto que é chamado de Ninguém Owens (“Nobody Owens”, que soa muito como “ninguém possui”) e assume poderes normalmente associados aos fantasmas, como desaparecer e atravessar matéria sólida. Muitos dos “habitantes do lugar” são tipos ingleses, como um poeta romântico, uma bruxa morta pela peste no século XIII, e até mesmo o guardião de uma tumba celta. Gaiman costura a caracterização do povo do cemitério e do romance como um conjunto de citações da história e da mitologia britânicas — desde a mística de Jack, o Estripador, à evocação de entidades imemoriais, a deusa celta do submundo (Epona? Rhiannon?) e sociedades secretas de esoteristas malévolos em luta contra uma equipe de justiceiros sobrenaturais. Com uns cinco anos, Ninguém faz amizade com uma menina próxima a ele em idade, e que, ao crescer, se convence de que ele fora um “amigo imaginário”. Adolescente, ela volta ao lugar e se reencontra com ele, para viver as aventuras finais do livro. Há um twist amargo no final, que tem muito a dizer sobre a natureza humana. O que parecia uma narrativa basicamente episódica adquire uma estrutura mais sólida, com o seu aspecto biográfico sendo o motivo da confusão inicial. Ao mesmo tempo, o horror parece ceder ao divertido e ao maravilhoso, para então retornar no final.

A infância melancólica é uma constante na obra de Neil Gaiman, desde sua estreia com o romance gráfico de 1987 Violent Cases (publicado no Brasil pela Editora Aleph), e alcançando um certo ápice criativo e atmosférico com O Oceano no Fim do Caminho (2013). Neste livro, ele trilha caminhos antes traçados por Ray Bradbury, mas onde Bradbury fazia uma releitura poética da imagética dos filmes B de Hollywood, Gaiman o faz em cima da cultura britânica. E onde a linguagem de Bradbury voava, Gaiman permanece mais sombrio e melancólico. De qualquer modo, temos em O Livro do Cemitério uma bonita celebração da solidariedade e da vida, por meio do tema da morte.

 

Cem Sonetos de Amor (Cien sonetos de amor), de Pablo Neruda. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2019 [1959], 122 páginas. Tradução de Carlos Nejar. Livro de Bolso. Meu filho Roberto Fideli me fez comprar este livro para ele quando fomos pegar o autógrafo de Fábio Kabral para o seu romance A Cientista Guerreira do Facão Furioso (2019). Leu e o deixou aqui em casa, e eu o peguei, disposto a conhecer mais da literatura latino-americana, com a finalidade de reforçar os aspectos culturais da minha série As Lições do Matador. O chileno Pablo Neruda (1904-1973) ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971.

O livro e o seu conteúdo são dedicados a sua esposa Matilde Urrutia, e é dividido em períodos do dia: manhã, meio-dia, tarde e noite. Os sonetos aqui não são rimados e têm, todos, duas estrofes de quatro versos, seguidas de duas estrofes de três versos (tercetos). Evocam um clima litorâneo de Isla Negra, onde o casal viveu, e mencionam muitas vezes o sul do Chile. As imagens muitas vezes parecem opostas, mas se fundem com habilidade e engenhosidade, reforçando a relação de amor e ausência de amor que parece ter existido. As imagens que aparecem com maior frequência são mel, farinha, sinos, frio, Sul, mar, amor, pelos, mulher, cabelos negros. Por trás do enigmático e da evocação complexa, muitas vezes surgem imagens especialmente límpidas.

 

Arte de capa de Paul Lehr.

Trader to the Stars, de Poul Anderson. Nova York: Berkley Medallion, 1966 [1964], 160 páginas. Arte de capa de Paul Lehr. Paperback. O escritor americano de origem escandinava Poul Anderson criou na Technic Civilization Saga uma história do futuro com vários heróis, entre eles o militar e agente secreto Dominic Flandry, e o comerciante interestelar Nicholas van Rijn — protagonista deste livro que reúne três histórias em uma espécie de romance fix-up. A primeira, “Hiding Place”, o mercador do espaço é perseguido por piratas até uma região pouco conhecida do espaço, onde encontra uma nave desconhecida. Com avarias na sua própria nave, van Rijn precisa da ajuda dos tripulantes alienígenas para retornar em segurança. Mas eles se esconderam em meio à carga — um verdadeiro zoológico de animais alienígenas. É portanto de uma espécie de problem story em que o enigma é descobrir os tripulantes em meio à bicharada. O outro componente de interesse é a interação entre o patrão e os seus próprios tripulantes humanos, que inclui uma jovem curvilínea.

Van Rijn é descrito como um homem grande, obeso, glutão, beberrão e que fala um inglês macarrônico cheio de expressões coloridas e de erros criativos, que vê as mulheres como seres apenas decorativos, e nutrindo outras opiniões politicamente incorretas. É quase o contrário do aristocrático, atlético e artístico Flandry. Van Rijn é também um capitalista convicto, e na segunda história, “Territory”, tem chance de expressar o seu desprezo pelos governos e, especialmente, pelo altruísmo promovido pelos governos, em situação em que ele, sozinho, resgata uma cientista (também curvilínea) presa no choque entre bandos de nativos em conflito, enquanto ela dirigia uma empreitada de terraformação para prevenir que o planeta em que vivem passe por uma era glacial destruidora. Van Rijn emprega a sua astúcia, ajustada para um senso comum rasteiro e darwinista social, para garantir que os dois saiam vivos e que ele tenha lucros substanciais tirando os nativos da sua cultura original e jogando-os num capitalismo industrial e de troca de bens básicos.

Arte de capa de Antonio Jeremias, para a edição brasileira pela Livraria Francisco Alves Editora (1981).

O excerto de um livro fictício chamado “Margem de Lucro”, que explica como a liga dos mercadores se tornou a principal força de desenvolvimento da Technic Civilization, dentro de um ponto de vista estritamente libertariano. Na última história, “A Chave Mestra”, o mise-en-scène é asimoviano: van Rijn e um grupo de personagens conversam enquanto bebem, e dois deles narram suas aventuras em um planeta dominado por duas espécies inteligentes existindo em estranha cooperação. A noveleta se desenrola portanto como uma sequência de diálogos, com a questão central sendo a razão do ataque traiçoeiro aos humanos. Aqui, van Rijn (e provavelmente Poul Anderson) ventilam o seu darwinismo social libertariano, já que o mercador divide os dois povos alienígenas entre “animais selvagens” e “animais domesticados”. E também a humanidade, com os únicos humanos verdadeiramente livres sendo os comparados aos animais selvagens, e o resto a escravos/animais domesticados. Salgado demais para o meu gosto, que rejeita o darwinismo social.

Comecei a ler este livro na edição brasileira de 1981, pela Francisco Alves e a sua saudosa coleção Mundos da Ficção Científica, coordenada pelo escritor e crítico Fausto Cunha. Desisti porque cansei da pontuação excessiva do tradutor José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. A capa de Antonio Jeremias feita para O Viajante das Estrelas (ao lado) é uma das com mais cara de ficção científica que o prolífico capista fez, mas tem mais de FC hard do que de space opera. Já a fabulosa arte original de Paul Lehr ilustra especificamente a primeira história, “Hiding Place”, evocando o exotismo do gênero sem representar nenhum elemento tecnológico, centrando-se na distorção da forma de animais conhecidos. O paperback que li pertenceu à biblioteca de Clóvis Garcia, um autor da Primeira Onda da FC Brasileira.

 

Arte de capa de Walter Ono.

The Big Debate, de Walter Ono (texto & arte). São Paulo: Edições da Lua, 2018, 32 páginas. Arte de capa de Walter Ono. Traduzido para o inglês por Helena Soares Hungria. Capa dura. Taira Yuji me passou este simpático livro do seu amigo Walter Ono, um conhecido ilustrador e escritor nipo-brasileiro de livros infantis, que já trabalhou com Flávia Muniz, Ruth Rocha e Ana Maria Machado. Traduzido para o inglês, foi produzido aqui no Brasil. Baseia-se em uma fábula zen sobre a personalidade dos debatedores influenciando a qualidade da comunicação. O protagonista é um leão que, como ocorre no mundo natural, cedeu o seu reino a um leão mais jovem e é forçado a vagar pelo mundo como um pensador solitário, de modos de aristocrata britânico, até que se instala em uma pousada na qual só podem entrar quem vencer um debate com ele.

O homem que aparece na capa é o caçador do leão, que o perseguia e que acabou contratado por ele para ser o gerente da pousada. O ratinho com o cajado é o Viajante de Terras Distantes. São eles os debatedores da história, já que, cansado, o Rei Leão deixou seu gerente debater por ele. Sua única condição era que debatessem em silêncio, para não perturbar seu repouso. Um se prova filosófico, e o outro, ignorante por trazer o debate para o próprio ego. O desenho de Ono, puxado para o cartoon, tem personalidade, é divertido, moderno, colorido e expressivo. Suas cores combinam o esmaecido e tons mais fortes, quando contribuem para o delineamento da forma. Eu achei o inglês aquém do desejado.

 

Looking Out for Alice, de Walter Ono. São Paulo: Edições da Lua, 2018, 32 páginas. Arte de capa de Walter Ono. Capa dura. Mais um livro em inglês de Walter Ono, este mais interessante para o leitor adulto e conceitualmente mais rico. Apoiado em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland; 1865) e Alice do Outro Lado do Espelho (Alice through the Looking Glass; 1871), de Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodson; 1832-1898), Ono convoca a Alice histórica, a morena Alice Pleasance Liddell (1852-1934), inspiradora da loura Alice das histórias, para protagonizar o seu inventivo livro. Alice Liddell é a mocinha que aparece na capa… Na criação de Ono, ao invés de ir para atrás do espelho, a moleca vai parar no mundo digital da internet. É desenhada a grafite, representando a inocência e ingenuidade do mundo real ao qual a personagem pertenceu. Já tudo o mais no mundo imaginário em que se encontra é produzido digitalmente, com grandes cabeçalhos pixelizados, diálogos em ziguezague conforme Charles Dodson tenta fazer contato com ela, e blocos de texto em scrolling. Tem algo da estética visual cyberpunk de primeira geração…

Há no livro elementos concretistas, jogos de palavras usando o jargão de internet, fotos, QR-code e clip-art tratadas para se harmonizar com a estética colorida das páginas, fechando com o famoso poema acróstico escrito por Carroll para a Srta. Liddell, e reproduzido, é claro, em inglês. Há alguns probleminhas com essa língua, que não deviam ter passado na revisão, já que o livro depende tanto das palavras. No todo, porém, Looking Out for Alice é um grande exercício de criatividade metalinguística, inteligente e divertido, do qual gostei muito.

 

Quadrinhos

Arte de capa e Frank Cirocco.

Série Graphic Novel 15: Legião Alien (Alien Legion), de Alan Zelenetz (texto) e Frank Cirocco & Terry Austin (arte). São Paulo: Abril Cultural, setembro de 1989, 66 páginas. Arte de Capa de Frank Cirocco. Álbum. Space opera! Space opera! Space opera! O sucesso da primeira trilogia de Star Wars (1977, 1980 e 1983) transformou esse subgênero da ficção científica em uma constante no cinema, na TV, nos games e nos quadrinhos. Esquadrão Atari, por exemplo, foi uma HQ que me cativou por um momento, lá mesmo na longínqua década de 1980. Outro exemplo é este Legião Alien, criado por Carl Potts e escrito por Alan Zelenetz.

O objetivo da criação de Potts é mais uma vez empregar à mística da Legião Estrangeira da França. Na ficção científica literária, o americano William C. Dietz buscou o mesmo filão na série Legion of the Damned, como já vimos aqui. A Legião Estrangeira é uma força de infantaria de elite, que aceita gente de toda parte, com ou sem passado e sem fazer perguntas. É fácil entender, portanto, o apelo visual e narrativo em se projetar a mesma lógica para um contexto galáctico com uma tropa composta de alienígenas de todo tipo. A história “Um Dia para Morrer” abre com um prólogo em que novos recrutas visitam o museu da Legião para celebrar as suas velhas glórias. A história propriamente começa com uma simulação virtual de combate que explicita uma relação de mentor e discípulo entre o Capitão Sarigar, um alienígena dotado de uma cauda enorme e nenhum membro inferior, e o Tenente Torie Montroc III, de família aristocrática forçado por seu pai a ingressar na Legião para “virar homem”. Sarigar é um implacável líder de combate, enquanto Montroc ainda tem escrúpulos morais a serem esmagados pela dura realidade da guerra. O restante a equipe de Montroc inclui um telepata de quatro braços, um ex-gladiador, um ladrão e trapaceiro, e um magoado E.T. que perdeu a namorada para outro. Depois de uma pancadaria num bar, essa turma se oferece como voluntária para uma missão que incomoda Montroc na sua moralidade — assassinar o líder dos tecnoides, um grupo que abdica da condição biológica  para assumir corpos robóticos. Uma vez no planeta dos tecnoides, Montroc fica sem sua equipe, capturada por esses pós-humanos. Enquanto seus homens são torturados e lutam para escapar, o oficial precisa decidir se fará o atentado sozinho ou não. O clímax está não apenas na fuga dos legionários, mas no confronto entre Sarigar e o seu antigo mestre, transformado no líder do inimigo. Claramente, a situação da Legião é a de ser usada cinicamente pelas autoridades, e enquanto Sarigar se conforma e dedica toda a sua lealdade à Legião, o seu antigo mestre revoltou-se. A única coisa que resta aos legionários é cuidarem apenas da honra e da mística da sua corporação, no plano miúdo da honra entre os companheiros, e no plano maior, do comprometimento da própria Legião. A arte de Cirocco é muito boa, ágil e arejada. Os trajes da Legião devem algo ao traje de assalto de Cody Starbuck, de Howard Chaykin, e às armaduras dos stormtroopers de Star Wars. Tanto na estética quanto na dureza da história, Legião Alien lembra as HQs inglesas da revista Ano 2000, que também foi vista no Brasil na década de 1980.

Mês passado eu já havia falado da Série Graphic Novel da Abril. Este número 15 eu adquiri em bom estado em um sebo na Rua Riachuelo, Centro Velho de São Paulo e perto de onde minha esposa Finisia Fideli trabalha.

 

Arte de capa de Mathieu Bablet.

Shangri-La, de Mathieu Bablet. São Paulo: SESI-SP Editora, 2018 [2016], 224 páginas. Tradução de Fernando Paz. Arte de capa de Mathieu Bablet. Formato grande. Meu filho adquiriu com desconto este livrão de quadrinhos, do tamanho de um livro de arte, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, e o deixou largado aqui em casa. Como se trata de uma ficção científica europeia, eu o peguei por curiosidade, já que não tinha referência alguma a respeito. Acabou sendo uma das minhas leituras de quadrinhos mais interessantes, em anos recentes.

A narrativa acontece em um futuro relativamente distante. A humanidade abandonou uma Terra devastada pela guerra e pela degradação climática. A população se aglomera em uma gigantesca estação espacial, a USS Tianzhu — nome da empresa que controla a vida de todos a bordo, atrelando trabalho a consumo e consumo a lazer. É portanto de uma distopia, com a sociedade arregimentada em níveis profundos, vigilância dos cidadãos e formas de extravasamento violento integradas à sua estrutura. Nossos animais domésticos, cães e gatos, foram elevados e formam uma subclasse, os “animaloides”, que concentra o ressentimento e a agressividade social humana. John, um cão animaloide, é o principal símbolo desse estado de coisas. Um dos heróis, Scott Peón, é símbolo da arregimentação do trabalho: é um engenheiro e astronauta que se contenta em realizar os desígnios do regime, um convicto “peão” que rejeita os questionamentos do seu irmão Virgílio, de quem está estranhado. O líder rebelde Sunshine representa a revolta ajustada ao sistema, e ele mesmo (ou ela mesma) sabe disso. Um dos pontos mais interessantes está na economia baseada no comércio de smartphones e tablets, de modo que esta FC me pareceu ser uma das primeiras a tratar dessa terrível combinação que vivemos hoje, de alienação por via da tecnologia de redes sociais, e da exploração internacional do trabalho marcada pela “economia híbrida” da China deste nosso século 21. Daí, certamente, o nome Tianzhu Enterprises, da empresa controladora da humanidade. Conforme Scott vai derivando na direção dos rebeldes e da reconciliação com Virgílio, ele se depara com uma encrenca em particular: a utilização de antimatéria pelos cientistas do projeto Homo stellaris, que se empenha em criar um ser humano capaz de começar do zero na superfície de Titã, a lua de Saturno. “Tianzhu” significa “Senhor dos Céus” ou “Deus” em chinês, e o que temos aí é o ser humano, frustrado com o seu destino até aqui, bancando Deus. Bablet tem um desenho que se esmera nas representações de ambientes tecnológicos, máquinas, robôs e naves, ao mesmo tempo em que sua figura humana é altamente estilizada. Daí as comparações com o mangá, os quadrinhos japoneses, embora a estilização dos personagens cause mais estranhamento do que se vê no mangá. A denúncia do hubris em torno da criação da vida pela ciência lembra aquela de Akira de Katsuhiro Otomo. Também como os japoneses — e eu penso especificamente em Tsutomu Nihei —, Bablet não tem problemas em deixar muitos quadros e até páginas sem balões, em uma ação muda. Ao mesmo tempo e ao contrário da maioria das HQs americanas, seus personagens às vezes se dedicam a longos monólogos e se mostram capazes de filosofar. O enredo certamente é rico e interessante, mas a parte científica, que colocaria Shangri-La mais próximo da FC hard, me soou problemática: não entendi a necessidade da exploração da antimatéria, para o projeto do Homo stellaris. Física de partículas e engenharia genética não se casam muito bem aqui, embora a questão da antimatéria seja essencial para o sub-enredo envolvendo Scott e Virgílio. Conforme a ação segue acelerada rumo à catástrofe, o destino dos humanos criados para viver em Titã sugere que a humanidade, mesmo a artificial, criada para ser perfeita, nunca será capaz de lidar com a questão da vida e da morte, os limites da condição humana. Shangri-Lá é uma ficção científica dura e pessimista, mas que fornece uma experiência de leitura forte e envolvente, e muita matéria para reflexão.

 

Príncipe Valente 1943, de Hal Foster. Editora Planeta deAgostini, 2019, 62 páginas. Tradução de Carlos Henrique Rutz. Introdução de Pablo Kurt Rettschalg Guerrero. Capa dura. Neste volume, o tempo que Valente passou combatendo os hunos com táticas de guerrilha lhe serve bem nas ações contra os vikings no norte do reino, acompanhados dos cavaleiros do Rei Arthur. Vitorioso, ele troca o sorriso sarcástico de faca  nos dentes pelo seu lado romântico, saudoso do fantasma que assombra o seu coração — a visão da loura princesa Aleta. Novamente em busca de orientação, ele retorna aos pântanos de sua infância, e consulta-se uma vez mais com a bruxa que o havia amaldiçoado com aventuras sem descanso e sem amor amor ou felicidade. A tentativa subsequente de visitar o Mago Merlin resulta nele sendo presa de várias armadilhas do conselheiro do rei — humilhação que devolve em dobro em um episódio cômico e explosivo. Em Camelot, encontra um Sir Gawain entregue ao mau comportamento, o que o faz se afastar rumo a Thule, o reino do seu pai. Nas páginas seguintes, ele livra o countryside bretão de um bando de ladrões liderados por um falso frei. A violência desse trecho dá lugar a um episódio terno em que Val e seu escudeiro elevam o moral de um menino camponês e de um cachorro de três patas. Valente chega ao litoral e, após alguns encontros resolvidos na ponta da espada, embarca em um navio e conhece novos companheiros, entre eles um mercador tunisiano, um bocudo guerreiro saxão, e uma donzela assediada por um nobre arrogante. Na viagem, flertes, um duelo, mar revolto, um incêndio a bordo e o naufrágio. A catástrofe revela pontos fracos e fortes dos passageiros, e a aventura desvela emoções um pouco mais profundas e situações dramáticas mais sinceras.

Algo que este volume evoca é uma elegância artística e narrativa. Ela só tropeça lá pelo meio do volume, pouco antes do encontro com uma lula gigante. Mais tarde, ao chegar a Thule, Val traz notícias das más intenções de Valgrind, que se dirige ao reino sob o falso pretexto de realizar um acordo de paz. É a astúcia do rapaz que remove a pele de carneiro do vilão. O restante do volume se dedica a descrever como a jovem aristocrática Ingrid tortura emocionalmente o companheiro saxão que Val conheceu no navio, Eric — o casal se mostrando como personagens especialmente humanos nessa sequência. Enfim, o volume fecha com novas encrencas se avizinhando, e Valente sofrendo um acidente de caça, que o coloca, ferido, nas mãos de uma loura e alta caçadora.

—Roberto Causo

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Leituras de Julho de 2019

Ficção científica brasileira e traduzida foram a tônica em um mês de leituras não muito numerosas. Mas o horror e a não ficção também tiveram o seu espaço, assim como as histórias em quadrinhos de fantasia e de Star Wars, com destaque para o álbum francês Aurora.

 

Arte de capa de Jim Burns.

Armor, de John Steakley. Nova York: DAW Books, 1984, 426 páginas. Arte de capa de Jim Burns. Paperback. Tropas Estelares (Starship Troopers; 1959), de Robert A. Heinlein, é um marco da ficção científica militar que influenciou outros romances de peso que vieram dialogar com ele. Disponíveis no Brasil estão, por exemplo: A Guerra Eterna (The Forever War; 1974), de Joe Haldeman, e O Jogo do Exterminador (Ender’s Game; 1985), de Orson Scott Card. Armor, do texano Steakley, é outro exemplo, inédito aqui. Seu autor parece ter rejeitado o lado filosófico e político de Tropas Estelares, buscando os seus opostos: o lado visceral, naturalizado e aleatório do combate.

A narrativa acompanha o soldado Felix, que, misteriosamente e sem explicações, sobrevive vez após vez aos combates contra alienígenas insetoides, em um planeta de geografia e atmosfera hostis. Felix tem um comportamento quase psicótico, nutrindo um estado mental que chama de “o motor” — mecanismo que o isola emocionalmente dos companheiros em torno, das mortes e mutilações, e o faz reagir prontamente às exigências do combate. O comportamento bate com crônicas de guerra em que soldados sobreviventes de ações muito intensas reportam terem se comportado com grande eficiência ao sentirem que não havia saída e que já estavam praticamente mortos. Aos poucos, porém, a sombra da “culpa do sobrevivente” vai se instalando dentro de Felix.

A certa altura, Felix sai de cena e entra uma narrativa em primeira pessoa que segue as ações de Jack Crow, famoso pirata espacial e assassino por conveniência. Ele foge de uma prisão de trabalhos forçados, mata o tripulante de uma nave pirata e o substitui, ganha as graças do cruel capitão — que o seleciona para a tarefa de conseguir combustível em um planeta privado, onde está instalada uma base científica. Ele se mete entre os cientistas e ganha a confiança do genial cientista-chefe. Para isso, leva com ele a armadura (daí o título) negra de combate propulsado (conceito apresentado no romance de Heinlein) que era usada como enfeite pelo capitão da nave pirata. Quando o cientista imagina um método para reaver os registros da armadura, ele e Crow descobrem que ela pertencera a Felix, e revivem as suas experiências de combate emocionalmente excruciantes. Com isso, o leitor também descobre que o soldado fizera parte da elite da guarda palaciana de uma rica monarquia, e que havia se alistado no impulso suicida de livrar-se do tormento de um amor proibido: um toque de space opera exótica — e de Beau Geste (1924), o famoso romance de ficção militar de P. C. Wren sobre a Legião Estrangeira, que trata dos horrores do combate de maneira semelhante: a guerra contra um inimigo indistinto, e uma escalada de mortes até o afunilamento final levando ao drama dos sobreviventes.

Quando os piratas enfim descem para realizar o seu ataque e, mais do que obterem combustível, conquistarem o planeta, Crow já havia conhecido o criminoso chefe local, o bêbado “dono” do planeta, e a mulher que se tornaria a sua amante. Quando ele escolhe apoiar os habitantes locais, há algo do faroeste Shane (1949), de Jack Schaefer. Outros momentos também são situações de western adaptadas para o gênero, algo que às vezes a FC americana exagera. Um exemplo está em Santiago: A Myth of the Far Future (1986), de Mike Resnick, e quando Felix ressurte no final do romance de Steakley com proporções mitológicas para salvar o dia, fica claro que o autor também forçou a mão em tais referências. Outro ponto que me incomodou especialmente na linha narrativa de Crow foram os seus encontros com mulheres dispostas a ter sexo com ele depois de espancadas. Se Tropas Estelares é um romance juvenil e idealizado, Armor quer ser adulto, perverso e cínico, mas perde o equilíbrio e às vezes soa forçado. Apesar disso, a intensidade da narrativa e a disposição do autor em firmar seus efeitos não importando o quê, tornam a leitura memorável. A bela arte de capa do inglês Jim Burns investe na textura e no protagonismo da armadura, alcançando com poucos elementos composicionais, a sugestão mítica.

 

Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira, de Nelson de Oliveira, ed. São Paulo: Editora SESI-SP, 2018, 496 páginas. Brochura. Ganhadora de três prêmios (até o momento em que escrevo estas anotações), Fractais Tropicais é uma realização de Nelson de Oliveira no nível de suas antologias da Geração 90. É a mais importante antologia retrospectiva da ficção científica brasileira. Fez mais pela ideia, muitas vezes rejeitada por fãs e pesquisadores, da divisão dos períodos da nossa FC em “ondas”, do que anos de discussões e polêmicas. Nelson dá a sua inclinação pessoal na organização e estruturação do livro de várias maneiras, a começar pela contagem regressiva em termos das ondas: a primeira seção do livro apresenta autores da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira (2004 ao presente), e a Primeira é a que encerra o livro. Só por aí, a antologia garante fechar em grande estilo. Ficaram de fora outros períodos da nossa história: o Período Pioneiro (1857 a 1957) e o Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982). A seleção priorizou histórias com efeitos surrealistas, experimentais e irônicos, e de estilos pouco convencionais, dentro das preferências estéticas do organizador. No conto de abertura, “Além do Invisível”, de Cristina Lasaitis, os protagonistas transitam pela paisagem abstrata da realidade virtual, enquanto “O Templo do Amor”, de Ana Cristina Rodrigues, um assassino contratado avança pelo cenário indefinido do lugar do título, para matar a sacerdotisa. “Cão 1 Está Desaparecido”, de Lady Sybylla, é uma movimentada FC militar com imagens que lembram videogames e animes, e que partilha com Rodrigues o mergulho na ação.

A história seguinte, “Menina Bonita Bordada de Entropia”, de Cirilo Lemos, muda o tom e leva o leitor ao terreno da inquietação, da violência explosiva e do bizarro, talvez dentro do foco do New Weird. Já “Metanfetaedro”, de Alliah, trata de um experimento de arte e geometria que leva o leitor a uma paisagem surrealista. Me fez lembrar a engenhosidade conceitual de Ted Chiang. “Da Astúcia dos Amigos Improváveis”, de Santiago Santos, é uma space opera desenvolvida em segmentos curtos, em narrativa ao mesmo tempo exótica e introspectiva. Assim como o texto de Santos, “O Apanhador do Tempo”, de Márcia Olivieri, é um longo depoimento — aqui, prestado em tribunal por um homem que descobriu um processo de retardo de envelhecimento. “Aníbal”, de Andréa del Fuego, é narrado por um alienígena que recebe um humano para desenvolver no interior do seu corpo. No conto, muitas ideias de FC como consumo de informações e nanotecnologia são encadeadas pelo seu poder sugestivo, em uma prosa quase poética, levemente irônica. “A Última Árvore”, de Luiz Bras, dá título a um livro de contos do autor, e se desenvolve como linhas de diálogo, apresenta crime e favelas com muita ironia e índices claros de tupinipunk (cyberpunk tupiniquim). Nisso, lembra o admirável romance do autor, Distrito Federal (2014), um dos marcos da Terceira Onda. Segue-se “Quinze Minutos”, de Ademir Assunção, num texto fragmentado, enigmático e com parágrafos de prosa poética. Outro conto com uma aura surrealista é “Cibermetarrealidade”, de Tibor Moricz, originalmente publicado na minha antologia Contos Imediatos (Terracota Editorial, 2009), e que mergulha, com um estilo inventivo, no ponto de vista da máquina e de uma hipertrofia da sua presença em uma monstruosa megalópole. “Los Cibermonos de Locombia”, de Ronaldo Bressane, reproduz um sarcástico depoimento em espanhol (e em primeira pessoa) sobre cibermacacos criados para a indústria pornô. É o último texto da seção dedicada à Terceira Onda.

Braulio Tavares, um dos melhores autores da Segunda Onda (1982 a 2015), abre a nova seção com a noveleta “O Molusco e o Transatlântico”, que começa com um pique de thriller de FC e se torna mais uma história de um prisioneiro narrando por experiências estranhas. “Paradoxo de Narciso”, de Ivanir Calado, é um conto de viagem no tempo em que o viajante se dedica ao sexo com ele próprio — interessantemente, escrito em terceira pessoa. A noveleta “Visitante”, de Carlos Orsi, retorna à primeira pessoa e racionaliza elementos espirituais em termos tecnocientíficos. Outra história longa, “Ostraniene”, de Lucio Manfredi, em primeira pessoa, traz ação tensa numa versão do ciberespaço. “Galimatar”, de Fábio Fernandes, é uma noveleta que abre com uma espécie de ensaio sobre uma linguagem bioquímica na forma de alimentos, antes de seguir para a ação. Ataíde Tartari contribui com “A Máquina do Saudosismo”, conto em terceira pessoa incluído no seu livro 17 Histórias, sobre um homem que viaja por meios criogênicos ao mundo do século 23. Logo depois, Finisia Fideli contribui com dois contos curtos, o poético “Estrela Marinha no Céu” e o fluído e surreal “As Múltiplas Existências de Áries”. “A Coleira do Amor”, de Gerson Lodi-Ribeiro, é uma narrativa longa, em primeira pessoa, sobre um homem implantado com um “chip de amor eterno” que o leva a confundir a cunhada com sua esposa morta, com consequências trágicas. Jorge Luiz Calife, o Pai da FC Hard Brasileira, está no livro com “As Sereias do Espaço”, space opera que integra o seu famoso Universo da Tríade. A space opera também comparece com o meu “Tempestade Solar”, parte da série Shiroma, Matadora Ciborgue. Ivan Carlos Regina está na antologia com dois textos curtos marcados por gráficos e tabelas: “Acúmulo de Skinnot em Megamerc”, uma crítica ao consumismo, e “Quando Murgau A.M.A. Murgau”, alegórica defesa do amor livre. De Octávio Aragão, “O Dia em que Vesúvia Descobriu o Amor” narra em terceira pessoa o encontro amoroso de duas cidades imaginárias — uma heterotopia (termo do crítico Brian McHale) exuberante em estilo e com imagens e neologismos que homenageiam o colega Braulio Tavares. A torrente verbal tupinipunk em parágrafo único de Fausto Fawcett, “Caro Senhor Armageddon”, fecha a seção.

Fractais Tropicais é um ambicioso monumento à FC brasileira, contendo vários livros em um. O último, dedicado à Primeira Onda (1957 a 1972), abre com “O Grande Mistério”, de André Carneiro, parte da sua enigmática série Anarquia Sexual (com os romances Piscina Livre e Amorquia) mas de uma fase tardia (reunida no livro A Máquina de Hyerónimus e Outras Histórias, de 1997) que merece ser lembrada. A metaficcional noveleta “A Ficcionista”, de Dinah Silveira de Queiroz, é uma seleção importante — uma das primeiras narrativas metaficcionais da FC nacional que sustenta relação com a New Wave britânica (assim como vários contos de Carneiro). “Chamavam-me de Monstro”, de Fausto Cunha, saiu das páginas da sua sempre lembrada coletânea As Noites Marcianas (1960); narrativa de visita de um E.T. à Terra (obviamente, em primeira pessoa). “O Elo Perdido”, do pioneiro Jeronymo Monteiro, é noveleta que acompanha uma criança nascida com morfologia e comportamento recessivos, um mutante que responde por momentos cômicos e trágicos. A seção e a antologia fecham com o introspectivo “Morte no Palco”, de Rubens Teixeira Scavone, conto que deu título à terceira coletânea do autor (1979), um mestre da FC literária, psicológica e humanista.

Não há como enfatizar mais a importância da realização de Nelson de Oliveira com Fractais Tropicais, em como esse volume dá testemunho da diversidade, vigor e expressividade da nossa ficção científica, em sua jornada evolutiva desde a década de 1960. Imagino que a fama da antologia só fará crescer com os anos. Talvez daqui a cinco ou dez, ela reapareça, quem sabe dividida em três volumes com novas apresentações, para sublinhar ainda mais a sua importância. Fica a sugestão.

 

Prime Evil, de Douglas E. Winter, ed. Nova York: Signet Books, 1988, 382 páginas. Paperback. Não sei se os jovens fãs de Stranger Things se deram conta, mas a ficção de horror da década de 1980 foi especial. Basta atentar para os nomes presentes nesta antologia original montada por Douglas E. Winter só com gente graúda: Stephen King, Clive Barker, Peter Straub, Whitley Strieber, David Morrell, Ramsey Campbell, Thomas Tessier, M. John Harrison, Jack Cady, Charles L. Grant, Paul Hazel, Dennis Etchison e Thomas Ligotti. O livro é dividido em seções, com direito a epígrafes específicas, que agrupam histórias com algo em comum. A primeira é “In the Court of the Crimson King”, e é uma noveleta de Stephen King que a abre: “The Night Flyer”, que de algum modo e no ápice surpreendente, parece capturar algo da lustfulness do horror como gênero literário e cinematográfico naquela década. Foi visto aqui na coletânea Pesadelos e Paisagens Noturnas. “Having a Woman at Lunch”, de Hazel, é conto sobre um grupo de funcionários blasé de uma empresa de implementos domésticos envolvidos com uma jovem funcionária recém-contratada, que pode ou não ter sido devorada por eles, no final ambíguo. Em “The Blood Kiss”, Etchison emprega sua experiência como roteirista para criar uma intriga em torno de um roteiro sobre zumbis, prestes a ser roubado por um produtor de série de TV, e o esforço confuso de sua jovem assistente, de impedir essa injustiça. Metaficcional, combina a narrativa com trechos do script — em fusão mal diagramada mas sugestiva. O horror aqui é por associação, com a jovem se metendo em uma situação inesperada, perto do fim.

A seção seguinte se chama “Turn to Earth” e abre com “Coming to Grief”, do autor best-seller Clive Barker, que nos apresenta outra heroína, uma jovem que retorna à sua cidade natal para o funeral da mãe, e projeta suas inquietações psicológicas sobre uma trilha escura em uma pedreira abandonada, onde ela, quando criança, imaginava a presença do Bicho-Papão. Uma das joias do livro, a noveleta tem ótima cadência e imersão psicológico, brincando com a possibilidade de um terror estritamente subjetivo alcançando uma concretude arrepiante no final. Com um tom mais irônico, “Food”, de Tessier, acompanha um homem solitário e metódico que acompanha a sua amizade com uma jovem encantadora a seu modo, mas muito obesa. Ele aos poucos se dá conta de que a ama, e fantasia mudar seus hábitos pelo amor. O final, contudo, reserva a ela uma metamorfose em criatura quase lovecraftiana, sublinhando as tensões entre o seu conteúdo humano, irônico e politicamente incorreto. Certamente, o horror deve ser a última resistência ao politicamente correto, já que o gênero costuma crescer com essa tensão. “The Great God Pan”, de Harrison, um nome associado tanto à New Wave quando ao New Weird, faz o narrador se reencontrar com uma amiga peripatética, aparentemente porque ela é acompanhada de um casal de amantes homúnculos, vívida alucinação que é apenas uma de várias que acompanham um grupo de amigos que convergem para uma figura cínica que teria conduzido um experimento misterioso com eles, no passado.

“Orange is for Anguish, Blue for Insanity” abre a seção “Secrets”. O autor é David Morrell, um astro do dark suspense da época. Narrada em primeira pessoa, essa noveleta explora a história da arte: dois amigos discutem o trabalho de um obscuro pintor holandês do século 19, espécie de versão terrorífica de Van Gogh e cuja obra poderia contaminar os seus admiradores com a loucura que acometera o pintor. Narrativa densa, sólida e muito efetiva. A ela sucede “The Juniper Tree”, de Straub, novela que, à moda de um Harlan Ellison, enfoca a magia do cinema para apresentar o horror do flagelo da pedofilia. A figura do monstro aí é a do abusador. Uma narrativa ao mesmo tempo envolvente e incômoda, realista e assustadora, de boa lembrança no campo da ficção do horror, finalista do Prêmio Bram Stoker. Por si só, vale a leitura da antologia. “Spinning Tales” é a nova seção, iniciada com “Spinning Tales with the Dead”, de Grant: pai e filho se sentam à beira de um lago para contar lorotas e parodiar situações da cultura popular, enquanto uma mulher misteriosa, obviamente morta, faz movimentos na água, pontuando a narrativa. Uma discreta aura absurdista sublinha a sugestão de culpa e luto, pelo crime praticado pelo pai. O cultuado Thomas Ligotti, um autor sofisticado e marcante, comparece com “Alice’s Last Adventure” — a narradora, uma escritora de livros infantis sombrios, que recorda (a memória é uma das tônicas da antologia) seus pais, família, livros e estranhas aparições que a importunam ao longo da vida. O título e alguns pontos do enredo remetem a Alice no País das Maravilhas. Outra história sobre escrita e escritores é “Next Time You’ll Know Me”, de Ramsey Campbell, autor inglês que, assim como Ligotti, tem uma conexão com a aura da escrita de H. P. Lovecraft. Aqui, porém, apresenta texto humorístico sobre um pretensioso jovem aspirante a escritor, um tanto alienado, que vê partes de suas histórias inéditas aparecendo nas obras de outros autores. Ele sempre exige satisfações, em um crescendo que o coloca numa bela encrenca. “By Reason of Darkness” é a seção final, iniciada com o perturbador “The Pool”, do polêmico ficcionista e ufólogo “contactado” Whitley Strieber. A história mais curta da antologia, narra a angústia de um pai cujo filho pequeno assume um comportamento muito mais maduro do que a sua idade — e a disposição inamovível de terminar a própria existência. Fecha o livro a novela “By Reason of Darkness”, de Jack Cady (1932-2004), autor de boa reputação nos EUA, cuja narrativa trilha a linha tênue entre o realismo e o absurdismo, na tentativa de representar o absurdo da guerra do Vietnã. É o mesmo terreno de um Thomas Pynchon ou, mais especificamente, de Tim O’Brien e o seu premiado romance do Vietnã Going after Cacciatto (1978). Não obstante, a narrativa patina bastante e parece desconjuntada e sem foco. É pena que esta robusta antologia termine assim, mas sua leitura conserva muitos momentos especiais.

 

Arte de capa de Julio Zartos.

Nightflyers (Nightflyers), de George R. R. Martin. Rio de Janeiro: Suma, 2019 [1981, 2018], 140 páginas. Tradução de Alexandre Martins. Arte de capa de Julio Zartos. Ilustrações internas de David Palumbo. Capa dura. George Martin foi parar no colo da Suma, que, além de relançar os livros das Crônicas de Gelo e Fogo, publicou esta novela de ficção científica, ganhadora do Prêmio Locus 1981 de Melhor Novela, e transformada em filme em 1987. Ao ler, notei que a história não me era estranha, e me pergunto se não vi o filme em VHS ou algo assim. Mas pode ser a semelhança com Alien: O Oitavo Passageiro, que é de 1979 e pode ter inspirado Martin a escrever esta novela de suspense sobre um bando de cientistas sendo mortos um a um dentro de uma nave interestelar. Martin foi para Hollywood circa 1985 (ainda me lembro com afeto da série A Bela e a Fera, de 1989), mas a leitura de Nightflyers sugere que ele cortejava a Fábrica de Sonhos antes disso. Mais recentemente, a novela virou minissérie no SyFy.

O objetivo da expedição é localizar uma espécie alienígena mitológica, que existe apenas em naves espaciais subluz transitando cegamente no espaço interestelar. A espaçonave que os persegue tem apenas um tripulante, o capitão, que telecomanda tudo de algum lugar onde permanece incógnito. A heroína, presente na capa, é uma mulher negra, trans-humana e hiper-sexualizada, mas inteligente e capaz. Entre os cientistas há dois telepatas, e a telecinesia também possui uma participação importante. Não foi difícil prever quem é o vilão — e nisso Alien também dá uma pista ao leitor. Apesar da previsibilidade e dos personagens antipáticos e inconsistentes como cientistas, o suspense me fisgou e li a novela com prazer. Esta edição da Suma vai no rastro de uma edição de 2018 da Bantam Books, com ilustrações internas de David Palumbo, coloridas, realistas mas com uma mancha muito artística. A arte de capa do brasileiro Julio Zartos puxa um pouco para o juvenil, mas está dentro da história e apresenta um traje espacial de look mais moderno.

 

The Revenge of Gaia: Why the Earth Is Fighting Back – And How We Still Can Save Humanity, de James Lovelock. Londres: Penguin Books, 2007 [2006], 222 páginas. Prefácio de Sir Crispin Tickell. Fotos e gráficos. Paperback. O aquecimento global e o consequente agravamento do clima é uma realidade cientificamente irrefutável, que está aí há algum tempo, sendo denunciada por cientistas e ficcionistas (como Bruce Sterling, com Tempo Fechado, de 1994, publicado aqui pela Devir Brasil). Este livro de não ficção, com uma capa que lembra cartaz de filme de catástrofe, fez a denúncia em 2006, quando foi best-seller no Reino Unido. Seu autor é conhecido pelo conceito de Gaia (batizado assim pelo romancista inglês William Golding, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e autor do clássico da FC, O Senhor das Moscas), metáfora de uma “Terra viva”, usada para tratar do planeta como um sistema auto-sustentado, do qual a vida faz parte e dá caráter a fenômenos antes considerados independentes dela, como a atmosfera e a geografia.

O conceito é antigo (1979), e cruzei com ele ainda criança pelos jornais e revistas da época. Este livro bem posterior fornece uma infinidade de insights e dados sobre Gaia e o aquecimento global e suas consequências desastrosas. O capítulo “What Is Gaia?” descreve o conceito e como Lovelock chegou a ele, sua relação com teoria relativamente recente da emergência (de “emergir”) ou complexidade (e de como o entrelaçamento quântico pode fundamentá-la), assim como as reações do mundo científico a Gaia, além da importância da temperatura e da química necessária à vida, no sistema autorregulatório da Terra como sistema auto-sustentado. “The Life History of Gaia” fornece mais substância à teoria, a partir da evolução da vida e da geologia do planeta. A evidência mais recente estaria no ciclo de eras do gelo, que leva o autor a supor que a própria biodiversidade seria uma resposta da Terra aos desafios representados por essa ciclo. “Forescasts for the Twenty-First Century” argumenta contra a posição infame de Michael Crichton e outros questionadores dos modelos da mudança climática, e parece ter previsto o agravamento acelerado que temos visto nos últimos anos, no que já vem sendo chamado de crise climática. Já “Sources of Energy” faz uma polêmica defesa da energia nuclear para evitar as emissões a partir do carvão, petróleo e destruição de vegetação com as hidroelétricas. Para isso, Lovelock minimiza os efeitos danosos de acidentes nucleares como os de Chernobyl. Ele não confia em fontes alternativas nem na mudança de hábitos de consumo como solução. Só o que posso dizer sobre isso é que de lá (2007) para cá, as fontes eólica e solar aumentaram em muito a sua eficiência e difusão — como atesta o caso da Escócia. A partir daí e dos capítulos seguintes — “Chemicals, Food and Raw Materials” e “Technology for a Sustainable Energy” —, Lovelock deriva para uma crítica do ambientalismo, que para ele mais atrapalhava do que ajudava, ao interferir, com sua condenação da energia nuclear e da poluição de alimentos, com medidas de otimização que ajudariam a diminuir a derrubada de florestas e a emissão de gases de efeito estufa. A bronca dele culmina em “A Personal View of Environmentalism”.

Para um socialista verde como eu, os argumentos contra o ambientalismo parecem uma ação contra quem está próximo — ambientalistas e proponentes da alimentação orgânica — e portanto acessível, já que o verdadeiro problema se mostra inacessível ao autor: o negacionismo climático, a atividade industrial e agropecuária sem regulação, a ganância do sistema financeiro internacional. Ele não vê qualquer sinergia entre esses movimentos e a luta contra o aquecimento global, ao mesmo tempo em que não explora a sinergia presente e danosa, dos fatores adversários. É também culpado de dirigir-se em demasia ao público precípuo do seu livro, o leitor inglês, quando o problema exige uma visão bem mais global. Ainda assim, The Revenge of Gaia funciona  bem como advertência contra o terrível caminho suicida que tomamos como espécie.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Ken Kelly.

Star Wars: Boba Fett: Inimigo do Império (Star Wars: Boba Fett: Enemy of the Empire), de John Wagner (texto) e Ian Gibson & John Nadeau (arte), e Cam Kennedy (arte). Barueri-SP: Panini Comics, 2015, 146 páginas. Arte de capa de Ken Kelly. Brochura. Este livro reúne uma minissérie de quatro fascículos e uma história solo do caça-prêmios Boba Fett, sendo que na minissérie ele se confronta com Darth Vader. São dois dos maiores vilões de Star Wars, e Fett, que apareceu primeiro no desenho animado embutido no The Star Wars Holyday Special (1978). Depois vimos, no filme Star Wars Edição Especial (t.c.c. Star Wars Episode IV: A New Hope), que ele estivera em uma cena cortada do filme que inaugurou a franquia, em 1977.

Um relacionamento entre Vader e Fett certamente seria algo sombrio, e o escritor John Wagner o pinta mergulhando em situações que estariam bem situadas na revista Kripta ou na EC Comics. Wagner é um dos criadores do Juiz Dredd na saudosa revista 2000 A. D., e trouxe a Star Wars aquela inclinação para a violência mais explícita e para efeitos de humor negro. Na minissérie em questão, Vader procura Fett pessoalmente para que ele capture um oficial desertor do Império. Ao mesmo tempo, o vilão coloca um quarteto de assassinos na cola do caça-prêmios. A trilha leva a uma espécie de monastério localizado em um planeta remoto, ocupado por uma ordem de monges pessimistas, cruelmente explorados com fins humorísticos por Wagner. Diz respeito a um “artefato” capaz de prever o futuro. Vader quer esse objeto, e nesse local ele se defronta com Fett. Algo que ele descobre é que precisará do caça-prêmios no futuro (de O Império Contra-Ataca, certamente). A arte da dupla Ian Gibson & John Nadeau tenta encostar na de Cam Kennedy (que havia trabalhado com Wagner desenhando o Juiz Dredd), mas é caricata. Kennedy, que eu conhecia pela minissérie A Guerra de Luz e Trevas (1988) e por uma outra HQ de Star Wars, Dark Empire (1992 e 1994), comparece ele mesmo na última história, “Caça a Bar-Kooda”. Nela, Fett persegue, a mando dos Hutts, um criminoso espacial conhecido por devorar os artistas de entretenimento de cuja apresentação ele não gostou. A chave para chegar a Bar-Kooda é um mágico baixote e resignado. Também escrita por Wagner, a história é igualmente sombria e irônica, mas melhor desenhada e com uma virada “canibal”. O capista Ken Kelly deve ser familiar aos leitores de A Espada Selvagem de Conan.

 

Arte de capa de Kerascoët.

Aurora nas Sombras (Jolies ténêbres), de Fabien Vehlmann & Kerascoët (Marie Rommepuy & Sébastien Cosset). Rio de Janeiro: DarkSide, 2019 [2009], 96 páginas. Tradução de Maria Clara Carneiro. Arte de capa de Kerascoët. Álbum capa dura. Uma menina morre na floresta, a caminho da escola ou de um passeio solitário. Nesse instante, criaturas do seu mundo imaginário deixam o cadáver, para viverem uma existência liliputiana e esquálida nas vizinhanças do corpo em decomposição. São seres simplificados como bonecas e crianças, meninos e meninas, princesas e bailarinas de ilustração de livros infantis. Assim como os contos de fadas na origem, a fome e o choque das ilusões infantis com a essência bruta e implacável do mundo natural assombram as suas andanças e festejos pueris. Aurora, a protagonista, é a mocinha loira e de vestido de bolinhas que aparece na capa. Lembra tanto Alice quando Poliana, na sua solidariedade e positividade inicial. Esse espírito não sobrevive à dureza da vida no bosque e às mesquinharias que aparecem cada vez mais no comportamento dos seres imaginários. O que emerge é a crueldade, o egoísmo e o lado autocentrado da criança, que muitas vezes as brincadeiras e a fantasia infantis mascaram. Assustada e magoada com tudo, Aurora se refugia na cabana (como o povo pequeno das lendas sobre hobgoblins e lucharacháin) de um homem solitário, e na qual a presença de uma boneca quebrada parece sugerir que ele pode ter algo a ver com a morte da menina. A nêmesis de Aurora é a arrogante princesa Zélia, que, a certa altura, afirma que o problema de Aurora é que “ela nunca foi muito maligna… todo o problema está aí”. Mas Aurora já completou o seu processo de brutalização e resolve a rivalidade de um modo que faz o leitor recordar o fantasma das atrocidades nazistas na Europa. Só isso já bastaria como um final aterrorizante, mas a conclusão do livro escrito pelo francês Fabien Vehlmann e desenhado pelo casal Marie Rommepuy & Sébastien Cosset (que assinam “Kerascoët”) guarda para Aurora um traço de inocência e idealização que, no contexto, é ainda mais assustador.

O livro andou aqui em casa trazido por meu filho, Roberto Fideli, que o tomou emprestado de sua amiga Isabella Lubrano. (Mais tarde, adquirimos um exemplar.) Agradeço aos dois pela chance de ler o livro lançado pela DarkSide este ano, com um acabamento luxuoso. Meu filho me entregou o livro com o alerta de que era de causar pesadelos. E de fato, escrevo estas notas depois de despertar de um desses pesadelos. Fique avisado.

—Roberto Causo

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Plutão Livros Publica Finisia Fideli e Roberto Causo

A Plutão Livros de André Caniato, uma editora especializada em e-books de ficção científica, publicou em fins de dezembro de 2019 uma série de títulos incluídos na Coleção Ziguezague, voltada para a publicação de FC brasileira sem fronteiras, isto é, obras pertencentes a todos os períodos da evolução da FC no Brasil.

 

A Ziguezague engrossa um outro diferencial que também se afigura como tendência bastante interessante para 2020: a republicação de obras significativas da ficção científica brasileira. Em 2019 nós vimos, por exemplo, duas coletâneas importantes reaparecendo: As Baleias do Saguenay, de João Batista Melo, e O Fruto Maduro da Civilização, de Ivan Carlos Regina.

Esse processo sublinha um fato novo — a aceitação de que o gênero tem história no país. A Ziguezague publica obras de todos os períodos da nossa FC: o Período Pioneiro (1857 a 1957), a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1957 a 1972), o Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982), a Segunda Onda (1982 a 2015) e a Terceira Onda (a partir de 2004). Os seus primeiros títulos foram lançados, em rápida sucessão, nos meses finais de 2019: Três Meses no Século 81 (antes publicado como 3 Meses no Século 81), um clássico da FC nacional escrito por Jeronymo Monteiro e publicado anteriormente apenas em 1947; Eles Herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz, uma coletânea de histórias publicada primeiro pelas Edições GRD em 1960; O Ovo do Tempo, noveleta de Finisia Fideli publicada pelas Edições GRD em 1994, na antologia Dinossauria Tropicália; e a noveleta Patrulha para o Desconhecido, de Roberto Causo, publicada primeiro na Isaac Asimov Magazine em 1991, quando foi uma das três finalistas do primeiro concurso nacional de contos brasileiros de FC, o Prêmio Jeronymo Monteiro.

A dinâmica ensaísta e ficcionista Ana Rüsche fez o prefácio da coleção: “A Coleção Ziguezague faz um convite entusiasmado: celebrar a ficção científica brasileira. Esse movimento corajoso inaugura a nova década do século XXI, ressaltando uma literatura que enfatiza os usos possíveis da tecnologia e reflete a respeito das decorrências de alterações técnicas em nosso cotidiano, promovendo uma análise sobre questões éticas, morais e sociais.” Rüsche também acredita que o acesso a alguns desses títulos poderá auxiliar a crescente pesquisa de FC brasileira.

Escrito com vivacidade e humor, O Ovo do Tempo apresenta uma discreta heroína paulistana, a bióloga Mariana. Cercada de sensatez — como outras personagens da autora —, mas sem por isso se esquivar de ir ao fundo de um fenômeno estranho iniciado com a compra de um geodo em particular, em uma loja de cristais apresentada por uma amiga esotérica. A sua busca a conduz a uma viagem até o Sul do Brasil, à procura de uma caverna explorada por empresários inescrupulosos que contrabandeiam itens minerais para fora do país. A preocupação com essa questão contemporâneas é temperada pelo maravilhamento e pela descoberta de fatos fabulosos, incluindo o encontro com um viajante do tempo. A antologia Dinossauria Tropicalia, na qual a noveleta foi primeiro publicado, apareceu no auge da “dinomania” provocada pelo filme de Steven Spielberg, O Parque dos Dinossauros.

A Plutão Livros guarda outra noveleta de Fideli para publicação oportuna, A nós o Vosso Reino, de 1998.

 

 

Narrada em primeira pessoa, a noveleta Patrulha para o Desconhecido apareceu primeiro na Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica N.º 14, em 1991, e é uma FC militar em que pracinhas brasileiros metidos na Segunda Guerra Mundial, durante uma patrulha de reconhecimento se deparam com estranhos habitantes isolados em uma vila entranhada nos Montes Apeninos, na Itália. Foi a terceira colocada no Prêmio Jeronymo Monteiro. O posfácio do autor, também presente no livro, traz reminiscências da FC brasileira da época e dos bastidores do concurso.

Roberto Schima foi o primeiro colocado, com o conto “Como a Neve de Maio”, e Cid Fernandez o segundo, com a noveleta de space opera “Lost”. O concurso atraiu a quantidade impressionante de 444 submissões por escritores de 17 estados brasileiros. Os escritores Jorge Luiz CalifeJosé dos Santos Fernandes, com Luiz Marcos da Fonseca, na época presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, foram os jurados. A publicação dos vencedores marcou o início da participação de textos nacionais de ficção na Isaac Asimov Magazine.

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Leituras de Abril de 2019

As leituras de abril incluíram tipos bem diferentes de ficção científica, e também suspense, fantasia contemporânea e horror, além de space opera em quadrinhos.

 

O Veterano e Outros Contos de Suspense (The Veteran), de Frederick Forstyth. Rio de Janeiro: Editora Record, 2009 [2001], 278 páginas. Tradução de Ruy Jungmann. Livro de bolso. Do inglês Forsyth eu li O Pastor (1971), uma novela com tema natalino, envolvendo um caça a jato que, perdido e sem instrumentos, encontra um avião-fantasma da II Guerra Mundial que o ajuda a encontrar o caminho de casa. É um favorito meu — assim como o thriller O Dossiê Odessa, cujo herói é um jornalista às voltas com nazistas que fugiram para a América do Sul. O próprio Forsyth foi tanto piloto de caça na RAF quanto jornalista. Este livrinho, da investida da Record ao campo do livro de bolso, reúne quatro noveletas de suspense e ficção de crime. A história-título abre o livro. Nela, o mistério se estabelece em torno de um homem de meia-idade violentamente atacado por dois assaltantes na rua, e cuja identidade se mostra difícil de determinar. A história segue investigação dos culpados e da identidade da vítima, e quando parece que os investigadores estão fechando as duas questões, a história se complica com a entrada de um grande advogado que resolve defender os criminosos — levando a história a um final insuspeito. Em “O Veterano”, o drama de identificar a vítima prepara o suspense do desfecho. Usando de um narrador onisciente, ficamos sabendo que o homem agredido era um veterano de combates no Iêmen porque o narrador de Forsyth mergulha em sua mente em coma, revivendo as situações de combate. Na sequência, vem a segunda melhor história do livro, “A Arte do Essencial”, sobre a malandragem no mundo da arte — tema que explorei em minha noveleta “Phoenix Terra”, parte da série Shiroma, Matadora Ciborgue. É pena que esta história não feche o livro. A terceira, “O Milagre”, é uma feroz brincadeira com religião e as expectativas do leitor. A história final, “O Cidadão”, ambientada em um avião de carreira vindo de Bangcoc (portanto, é a história representada na capa), funciona muito bem como suspense mas não tem a força de textura e de enredo dessas duas que eu aponto como favoritas. Ruy Jungmann é um autor da Geração GRD que se tornou um prolífico tradutor profissional. Infelizmente, a preparação de texto de O Veterano deixa a desejar.

 

Arte de capa de Anna Maeda.

Interferências (Crosstalk), de Connie Willis. Rio de Janeiro: Suma, 2018 [2016], 464 páginas. tradução de Viviane Diniz Lopes. Arte de capa de Anna Maeda. Brochura. A Suma já tinha investido em Willis, a escritora número 1 do movimento humanista na ficção científica pós-modernista americana, com o admirável O Livro do Juízo Final (Doomsday Book), que anotei aqui em julho de 2017. Desta vez, a editora traz o romance mais recente da autora, primeiro publicado em 2016. Nele, a autora exercita a sua verve humorística e o seu talento para os diálogos e a comédia de erros, em uma narrativa de futuro próximo envolvendo telepatia, dispositivos móveis e redes sociais.

No futuro próximo, a heroína Briddey (“noivinha”) trabalha em uma empresa de aparelhos celulares em busca de um novo super-aplicativo, e está para realizar um procedimento cirúrgico que promete criar uma ligação empática entre ela e seu namorado, o ambicioso zé bonitinho Trent Worth. A notícia vira a fofoca número 1 da empresa, atraindo a atenção do supernerd C. B. Schwartz, a mente criativa da empresa. C. B. sai da sua toca nos porões da firma para alertar a moça a não fazer o procedimento, mas não tem jeito. Ela vai em frente e desenvolve a telepatia como efeito colateral. A partir daí, surge uma quantidade de situações cômicas e grotescas, enquanto ela é treinada por C. B., também ele um telepata, a administrar o “dom” sem enlouquecer no processo, e se esquiva de Trent, que a jogou na fogueira e está de butuca na esperança de utilizar comercialmente a telepatia. Aí está o centro intelectual, por assim dizer, do romance: a sugestão do quão insana é a busca insana por conexão que está por trás dos celulares e redes sociais, com suas implicações desastrosas sobre a privacidade. Para sublinhar esse sentido, Willis convoca uma série de delirantes personagens secundários, a maioria pertencente à família de Briddey, como a irmã neurótica e a sua aventurosa filha, ma garotinha que tem um papel central reservado a ela. O tempo todo, Briddey é afligida por telefonemas dos familiares, desviando-a da tarefa de sobreviver. Há ainda uma brincadeira étnica, na sugestão de que a telepatia seria um recessivo genético dos irlandeses, lastreada no folclore celta e a sua coisa de outro mundo, fadas e espíritos. É claro, no final ou no meio do caminho, Briddey descobre o seu verdadeiro amor e aprende algo sobre si mesma, já que o romance também possui um fundo feminista discreto. Apesar do tom leve e da capa de Anna Maeda que indicam que a história pode agradar ao público feminino jovem, Interferências é um romance completo, com ótimos diálogos, tensão e suspense, dramaticidade e uma inteligência brilhante que transparece em quase todas as páginas. Um dos bons lançamentos de 2018.

 

Arte de capa de Alex CF/Adrian Wood.

Extraordinary Engines: The Definitive Steampunk Anthology, de Nick Gevers, ed. Nothingham: Solaris, 2008, 444 páginas. Arte de capa de Alex CF/Adrian Wood. Paperback. É hora de eu voltar a encarar a leitura de histórias steampunk, já que um dos objetivos para o ano que vem é terminar o primeiro ciclo das Aventuras de Ulisses Brasileiro, o personagem que estreou na minha noveleta “O Plano de Robida: un voyage extraordinaire” (2009). O editor desta antologia, o sul-africano Nick Gevers, foi um resenhador muito ativo na revista Locus, antes de se graduar a compilador de antologias. O steampunk é um subgênero da FC ou da fantasia que remete aos caminhos já tomados pelo gênero na segunda metade do século 19 e no início do século 20, e reimagina uma tecnologia de FC semelhante ao que se pensava então. Extraordinary Engines é uma antologia original, quer dizer, todas as histórias reunidas foram escritas para o livro, e não captadas de outros veículos. Os autores são James Lovegrove, Marly Youmans, Kage Baker, Ian R. MacLeod, Margo Lanagan, James Morrow, Adam Roberts, Jeff VanderMeer, Jay Lake e Jeffrey Ford.

É interessante que quase todos os autores obedeceram a uma regra não explicitada: não criar uma textura steampunk com muitos elementos icônicos do subgênero, como balões dirigíveis, sociedades secretas, autômatos elétricos, a vapor ou de dar corda… Ao invés, trabalharam com um número restrito de elementos. A história que mais comunica o clima cômico-satírico da fase do subgênero dominada pelos pioneiros K. W. Jeter, James P. Blaylock e Tim Powers na década de 1980 é “Steampunch”, de James Lovegrove. A outras parecem calculadas para expressar a distância que o steampunk teria percorrido de lá pra cá. Os demais participantes são Marly Youmans, Kage Baker, Ian R. MacLeod, Margo Lanagan, James Morrow, Keith Brooke, Adam Roberts, Robert Reed, Jeff VanderMeer, Jay Lake e Jeffrey Ford. Autores que estão aí e que têm claramente um compromisso com o steampunk são MacLeod, VanderMeer e Lake. O primeiro, sempre com um texto elegante e enigmático, está lá com “Elementals”; o segundo, com o melancólico “Fixing Hanover”; e o último com “The Lollygang Save the World on Accident”. O Adam Roberts listado é o acadêmico que escreveu o recente A Verdadeira História da Ficção Científica (2016), e conhecido dos brasileiros pelo seu mui citado livro introdutório Science Fiction (2000).

Admito que a única história do livro que me impressionou, e muito, foi “Machine Maid”, da elogiada Margo Lanagan. Ambientado na Austrália, a história narra as explorações da pudica e reprimida esposa de um senhor de terras, que descobre a utilização sexual que seu marido faz de uma empregada doméstica robótica. É uma história complexa, na qual pulsam de maneira ora velada, ora explícita, elementos de fetiche, autodescoberta sexual, crítica ao patriarcalismo rural e ao autocerceamento feminino, e comunica um erotismo palpável e perturbador. É também uma história de vingança, com a esposa armando uma armadilha castradora no autômato. A capa apresenta um dispositivo criado pelo artista inglês Alex CF, fotografado por Adrian Wood, lembrando que o steampunk também é um movimento estético que envolve design de roupas, adereços e outros objetos.

 

The Man Who Folded Himself, de David Gerrold. New York: Random House, 1973, 148 páginas. Hardcover. O primeiro livro de Gerrold que li, ainda na adolescência, foi O Diabólico Cérebro Eletrônico (When Harlie Was One), romance sobre inteligência artificial indicado aos principais prêmios da FC e publicado na saudosa coleção de FC da Editora Hemus. Mais tarde, ele voltou ao Brasil pelo menos mais uma vez, com a “novelização” de Star Trek A Nova Geração: Encontro em Farpoint. Sua ligação com Star Trek é bem antiga, inclusive. Ele foi o autor do famoso episódio com os “pingos”.

Este é um romance de ficção científica sobre viagem no tempo. Seu centro é o dilema existencial do viajante, um adolescente americano criado como órfão e elevado a herói de FC por seu tio, que ao morrer deixa a ele um cinto que faculta a viagem temporal. O dilema é interessante em si, mas se realiza na forma de uma espécie de delírio narcisista em que o jovem envelhece apaixonado por si mesmo e realiza mil alterações no passado (particularmente dos EUA) por, basicamente, diversão e correção da sua própria personalidade, criando inúmeras variações de si mesmo. A narrativa é em primeira pessoa, é claro, em muitos momentos fazendo a mímica das anotações, às vezes altamente emotivas, das diversas variações do personagem. Algumas dessas variações são do sexo feminino, e ele chega a ter um filho com uma delas. O centro do romance, porém, está na paixão homossexual do herói pelas variações dele mesmo. Incomoda não apenas o gritante narcisismo, que tem um aspecto estrutural importante, já que ele se esquiva completamente da viagem no tempo como um encontro com uma alteridade disposta no tempo, ficando só na vida boêmia de festança e orgias, restritas a um único participante multiplicado. Mas também os comentários sobre a relação heterossexual como complicada demais para o homem, que tem que se colocar como dominante para satisfazer as expectativas da mulher. Gerrold é um autor abertamente gay, mas mesmo dando um desconto para o quanto o pensamento queer avançou da década de 1970 pra cá, não dá para deixar de sentir que ele se enroscou muito neste romance, reafirmando o clichê psicanalítico da relação entre homossexualismo e narcisismo. Uma das armadilhas do freudismo, eu imagino, é justamente dar uma legitimidade intelectual que às vezes mascara categorias de pensamento que já foram confrontadas ou relativizadas.

 

Arte de capa de Carolina Mylius.

Encruzilhada, de Ademir Pascale. Praia Grande: Literata, 2011, 104 páginas. Texto de orelha de Álvaro Domingues. Arte de capa de Carolina Mylius. Brochura. Algo que fica claro sobre o dinâmico agitador e escritor Ademir Pascale, pela leitura desta novela (e antes, do romance O Desejo de Lilith, de 2010), é a representação de um ethos de classe média baixa e a ambientação paulistana como o seu palco. Encruzilhada é uma história de pacto(s) com o Diabo, como a bonita ilustração de capa de Carolina Mylius deixa claro (assim como o título). Ambientada no Centro Velho e suas galerias, e também nas ruas dos bairros de Pinheiros e Vila Madalena, acompanha por um lado o jovem Allan, que está numa pior em termos profissionais e românticos. As outras linhas seguem um padre com um passado safado e misterioso, e um lutador brasileiro campeão mundial de boxe. A esses dois personagens faltam elementos de contextualização mais sólidos, mas nem por isso a narrativa deixa de se conduzir com textura e suspense, até o clímax revelador.

É interessante que o infame O Livro Negro de São Cipriano, criação do decano dos escritores pulp brasileiros, R. F. Lucchetti, tenha um papel no ritual de invocação demoníaca descrito por Pascale.

 

Arte de capa de Matt Stawicki.

Margaret Weis’ Testament of the Dragon, de Margaret Weis & David Baldwin, eds. Nova York: HarperPrism, 1997, 106 páginas. Arte de capa de Matt Stawicki. Hardcover. Em fins da década de 1990, a HarperCollins, via selo HarperPrism, investiu no que chamou de “illustrated novel” (romance ilustrado), embora fosse, claramente uma antologias curtas de textos ilustrados, em cima de um novo universo criado por um grande nome da fantasia — dentro da lógica do “universo de aluguel” — aqui, Margaret Weis (com David Baldwin). Tenho em casa, dentro dessa linha de livros, Anne McCaffrey’s The Unicorn Girl (1997), Tad Williams’ Mirror World (1998), e este Margaret Weis’ Testament of the Dragon — adquirido em uma das minhas garimpagens na loja Terramédia, hoje Omniverse.

O livro é composto de uma curta introdução, seguida da primeira história, mais longa: “Brother to Dragons”, de Jeff Grubb com ilustrações de Steve Lieber. A história é escrita com muito charme, e desenvolve a premissa do livro, a história do assistente humano de um wyrm, um tipo de dragão, em guerra contra uma sociedade secreta que, supostamente, quer destruir o mundo. A história é violenta e cabe bem na definição de horror, e abre com o anti-herói humano, Justin, atacando um grupo de universitários reunidos em um celeiro, para sacrificar um gato e invocar um dragão. Há muitos detalhes sobre as mutilações e mortes, antes que a história se estabilize para contar o background de Justin, um lorde escocês do século 14, cooptado e tornado imortal pelo monstro. Hoje, ele tem uma loja de fanzines em uma metrópole americana. Como erudito medievalista, torna-se consultor da polícia — após a morte de um professor universitário, a mando do dragão. A bela policial que investiga o caso traz a tensão sexual para a história, e acaba sendo reencarnação da esposa de Sir Justinian, e com isso, leva o protagonista a confrontar seu compromisso com o dragão. Algo da composição da história lembra séries da década de 1990 que empregavam o horror no formato de ficção de crime, como Brimstone (1998-1999). A conclusão da noveleta, após uma violenta confrontação, mostra que Justin havia sido enganado pelo monstro, desde o início. A narrativa é assentada e detalhista, com bom uso do ponto de vista narrativo, fazendo o leitor curtir a história e os personagens. Os desenhos de Lieber, a bico de pena, são ótimos, e suas pinturas não ficam atrás. A segunda e última história é de Janet Pack, com arte de Rag Morales, narra como Justin foi arregimentado pelo wyrm, e portanto se passa nas margens do Lago Ness, no século 14. Interessantemente, ela reserva uma terrível ironia dirigida a um menino camponês que se meteu no caminho do dragão. O modelo dos “romances ilustrados” incluía um texto sobre detalhes iconográficos da história, colocado entre as histórias, e um texto final que imita um diário.

O que fica claro, examinando o livro em questão, é o quanto ele deve a um estado editorial e cultural de coisas que vem da difusão do role playing game como um espaço de narrativa e de arte. O livro ilustrado acaba sendo mesmo uma forma ideal para essa evocação, mas ela também está em detalhes como a loja de zines do herói. Weis, a popular criadora (com Tracy Hickman) do RPG Dragonlance, tem uma grande importância na promoção desse contexto. Matt Stawicki é um ilustrador que trabalhou com ela em Dragonlance (e portanto conhecido do leitor e jogador brasileiro), e aqui produziu uma arte de capa que representa com perfeição a invasão do ambiente urbano pela fantasia e pelo horror.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Olivier Coipel.

Star Wars: Han Solo, de Marjorie Liu (texto) & Mark Brooks (arte). Nova York: Marvel Worldwide, 2017, 114 páginas. Arte de capa de Olivier Coipel. Brochura. A Panini lançou este livro com uma minissérie protagonizada pelo contrabandista mais famoso da Galáxia Distante, mas eu encontrei a edição original em promoção da Livraria Cultura do Bourbon Shopping em São Paulo, e não resisti. Dei sorte, porque traduções e legendagem são fatos incertos, e lendo em inglês pude apreciar como a escritora Marjorie Liu captou a dicção do personagem e os seus trejeitos. Liu certamente sabe escrever, e o brilho dos diálogos é só um lado dos talentos exibidos aqui. A história traz Han Solo e Chewbacca entre os eventos narrados em Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977) e Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca (1980). Han tem dúvidas sobre continuar ou não no contrabando, ou unir-se à nobre causa da Aliança Rebelde. No ínterim, recusa vários trabalhos, obviamente dividido num plano pessoal. As coisas se precipitam quando aparece um dupla querendo emprestar o Millennium Falcon para cumprir uma missão em nome da Aliança. É claro que Han, impulsionado por Chewbacca e por Leia, lá longe nos bastidores, aceita ele mesmo cumprir a missão de resgatar três informantes das garras do Império. Cada informante está convenientemente aguardando em cada uma das três paradas de uma perigosa corrida interestelar, na qual Han inscreve o seu cargueiro coreliano transformado no hot rod mais rápido da galáxia. É como ter um Dodge Charger envenenado correndo contra Porches e Ferraris.

Na corrida, o herói convive com uma malta diferente dos criminosos comuns das suas relações: os aristocráticos pilotos esportivos. O mais interessante deles é uma alienígena muito alta, supostamente a última de sua espécie e lendária entre os pilotos, e que tem acesso a estranhas criaturas luminosas que a rodeiam. Aos poucos, as habilidades e o caráter do herói vão conquistando a admiração e a solidariedade, dos seus rivais esportivos. O Império Interfere, é claro, e há peripécias como a presença de uma alienígena de outros carnavais de Chewie, e de um traidor entre os espiões resgatados. A arte e a quadrinização têm um grande dinamismo e exotismo combinados, tornando Han Solo um grande exemplo do charme próprio da space opera. Mais importante, assim como na trilogia original, a aventura combina muito bem a luta contra o Império e aspectos mais pessoais dos heróis, resolvendo coisas que pouco tem a ver com o Império e a Aliança Rebelde, mas que não parem ser menos importantes. O casamento entre a escrita de Liu e a arte de Mark Brooks parece ser perfeita. O artista é talhado para lidar com Star Wars, sendo um bom fisionomista e lidando bem com o hardware, igualmente (a colorização de Sonia Oback & Matt Milla contribuem com muitos efeitos visuais). Juntos, os dois deram a Han Solo um caráter não apenas cínico, cômico, determinado e aventureiro, mas também melancólico e filosófico, muito enriquecedor, e humanizador também. Ótimo que Marjorie Liu o tenha idealizado de uma maneira romântica sem a presença explícita do fator amoroso (já que Leia está longe dele). Uma das melhores HQs de Star Wars que já li. Teria dado, de longe, uma “História Star Wars” muito superior ao tosco e descerebrado filme de origem do herói, dirigido por Ron Howard.

 

Arte de capa de Lorenzo de Felici.

Oblivion Song Volume Um: Canção do Silêncio (Oblivion Song: Volume One), de Robert Kirkman (texto) & Lorenzo de Felici (arte). Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019, 144 páginas. Tradução de Fernando Scheibe. Arte de capa de Lorenzo de Felici. Brochura. Este livro chegou aqui em casa enviado pela editora a Gabriela Colicigno, namorada do meu filho, mas eu fui mais rápido (estou aprendendo). Em Oblivion Song, o filme O Nevoeiro (The Mist, 2007), de Frank Darabont, se encontra com a situação básica de várias séries recentes como Taken, Les Revenants e The Leftovers — um fenômeno desconhecido causou o desaparecimento de um certo número de pessoas, deixando famílias desorientadas e governos apalermados. Neste caso, há dez anos, 300 mil moradores da cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos, desapareceram. Foram para o selvático planeta Oblivion, onde existe uma cidade semelhante, mas tomada por uma ecologia alienígena. Envolvido desde o início com a investigação do fenômeno, o cientista Nathan Cole se dedica a visitar sozinho o mundo paralelo e resgatar os desaparecidos, atirando neles com uma espécie de ampola com substância capaz de ajustar a “vibração celular” da pessoa ao padrão do nosso mundo, trazendo-a de volta. Ele mesmo usa um cinturão que produz esse efeito. A narrativa conta como Cole não possui a simpatia dos seus superiores, nem de sua mulher; como antes ele contava com toda uma equipe de aventureiros treinados para acompanhá-lo no outro mundo; e finalmente, que as pessoas do outro lado podem muito bem não estarem convencidas de que voltar para o nosso é a melhor pedida. Há ecos de Eu Sou a Lenda (I Am Legend), de Richard Matheson, na imagem desse agente solitário que, na visão dos habitantes de Oblivion, apenas leva embora as pessoas. É claro que se formou em Oblivion uma comunidade independente e orgulhosa, marcada pela sugestão de que as dificuldades moldam o caráter dos colonos — tema que a ficção científica americana incorporou há muito tempo, a partir da história revolucionária dos EUA. A tônica do volume um, para além da apresentação das circunstância do seu mundo ficcional, é o fundo muito pessoal e atormentado, por trás da dedicação de Cole. Embora não faça tanto mistério sobre o que aconteceu com os seus 300 mil desaparecidos, quanto as séries citadas acima, Oblivion Song evoca os sentimentos de perda, culpa e desassossego que marcam essas produções.

A arte de Lorenzo de Felici atrapalha um pouco essas preocupações, porém. Seus personagens têm quase todos a mesma aparência esquálida e olhar faminto, perdendo a sugestão de profundidade ou variedade de sentimentos. Ele dá a impressão o tempo todo de que preferia estar desenhando uma HQ de zumbis. Mas, em conjunto com a colorista Annalisa Leoni, faz um trabalho muito bom de luz e sombra.

 

Arte de capa de Marco Checchetto.

Star Wars: Obi-Wan & Anakin, de Charles Soule (texto) & Marco Checchetto (arte). Barueri-SP: Panini Books, 2019, 120 páginas. Arte de capa de Marco Checchetto. Brochura. Esta aventura se passa entre os episódios I e II de Star Wars, com Anakin Skywalker aparentando ter uns 12 ou 13 anos de idade. A dupla mestre jedi e padawan aparecem em um planeta que, desprezado pela Velha República e vitimado pela guerra total, regrediu a uma tecnologia meio steampunk com armas de pólvora, dirigíveis e ornitópteros. Desse planeta partiu um pedido de socorro dirigido aos jedi. Assim que chegam, os heróis são atacados por ambas as partes em conflito, os abertos e os fechados. Acabam náufragos, acompanhados de mãe e filha (de um lado) e um guerreiros solitário (do outro), vagando por um mundo povoado por feras de aparência demoníaca ou draconiana. Fica claro que as pessoas do lugar estão trancadas em uma visão de mundo marcada pela guerra. Só o que enxergam como objetivo é a destruição do inimigo. O grupo é forçado momentaneamente a cooperar pela força superior dos jedi, mas Obi-Wan Kenobi e Anakin erram ao confiarem nessas pessoas. Acabam separados, com o menino aprisionado pelas duas mulheres que descobriram que ele é capaz de consertar o pouco de equipamento high-tech a que têm acesso (habilidade que os episódios II e III esqueceram).

Obi-Wan chega até a pessoa que pediu socorro aos jedi — uma mulher idosa auto-intitulada Coletora, que de algum modo não especificado amealhou um tesouro de arte e tecnologia antiga, que fazia cair sobre os grupos em guerra como “presentes dos céu” lançados de pipas. Essa mulher tem esperança de que a juventude do planeta esteja cansada da guerra, e que os jedi consigam terminar o conflito. Mas a imagem que ela faz dos jedi como guerreiros invencíveis está mais próxima dos sith, e é uma reviravolta interessante que o objetivo maior dela seja fazer os jedi exterminarem os agressores, permitindo que ela domine o mundo, com as crianças. Claramente, este é um mundo que apenas engendra violência e desejo de extermínio. Por outro lado, a interação de Anakin com os garotos que o têm como refém parece ser mais ingênua. No fundo da aventura da dupla de heróis está um momento da vida do pequeno Anakin em que ele hesita em continuar seu treinamento jedi. Essa situação é explorada mais fortemente em flashbacks que envolvem um passeio pelos intestinos de Coruscant, tendo o Senador Palpatine como guia. Yoda também faz uma aparição.

Infelizmente, toda a coisa do Conselho Jedi é para mim um desenvolvimento catastrófico da mística dos jedi. A partir do momento em que seus membros deixaram de ser chamados de “cavaleiros” para serem chamados de “mestres” e fizeram um conselho marcado pela miopia e pelo espírito burocrático, perderam a autonomia que vem com o termo “cavaleiro”. Mas a HQ escrita por Soule conserva uma interessante dimensão irônica, já que conhecemos a trajetória derradeira de Anakin Skywalker e podemos apreciar como as lições desta aventura em um mundo dividido pelo desejo genocida não calaram nele. A arte de Checchetto, sempre sensível e melancólica, sublinha esse efeito.

—Roberto Causo

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