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Leituras de Novembro de 2018

Em novembro de 2019 aconteceu o IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional, nas dependências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Fui convidado pelo organizador Flavio García para apresentar uma conferência, e na preparação dessa conferência pouco tempo sobrou para as leituras habituais. Mesmo assim, o mês trouxe alguma leitura de ficção científica e, especialmente, da pioneira antologia das melhores histórias brasileiras de horror, organizada por Marcello Branco & Cesar Silva.

 

Home from the Shore, de Gordon R. Dickson. Nova York: Ace Books, 1.ª edição, 1979 [1978], 122 páginas. Ilustrações de James R. Odbert. Posfácio de Sandra Miesel. Paperback. Assim como na série Dorsai, em Home from the Shore o escritor canadense-americano Gordon R. Dickson (1923-2011) apresenta uma espécie de proto-divisão da humanidade entre conservadores e progressistas — estes determinados a encararem o futuro no espaço e em outros planetas. Neste romance curto, após duas gerações apenas, humanos que colonizaram os mares do nosso mundo começam a se diferenciar daqueles que ficaram em terra. Jovens são selecionados para se tornarem cadetes espaciais, mas a empreitada se transforma em um revés para toda a comunidade dos humanos do mar. Isso acontece depois que eles realizam um protesto, involuntariamente coletivo, contra a “caça para propósitos científicos” de uma espécie alienígena volante que vaga pelo Sistema Solar. De algum modo, o ambiente aquático desses jovens nutre uma sensibilidade incompreensível para os outros, e que permitiu uma empatia com tais seres, percebendo-os como sencientes. Vindos de uma sociedade libertária, quando passam a ser perseguidos pelas autoridades a deserção é a solução imediata.

O líder desse grupo é o jovem Johnny Joya, que, quando volta para a sua comunidade subaquática, descobre ser pai de um menino esperto e um tanto ressentido. Nesse ponto, a história muda substancialmente de tom, que se torna mais introspectivo e literário. A comunidade tem a habilidade de se desfazer em habitats autônomos chamados Lares, e por algum tempo é como um jogo de gato e rato, até que a trama se dirija a uma operação de resgate aos prisioneiros, enfiados numa instalação de Nova York. A missão é sabotada por um traidor muito próximo de Johnny, que, depois de perder a esposa, desiste do conflito e parte com o filho pequeno, Timo, para viver, sem os Lares high-tech, diretamente do mar como as gerações anteriores. Ele sugere o mesmo aos outros, em uma dispersão que vai dificultar que os humanos da terra continuem a persegui-los. No posfácio, Sandra Miesel, uma estudiosa da obra de Dickson, explica que Home from the Shore é parte de uma sequência completada com The Space Swimmers, protagonizada por Timo. Segundo ela, Dickson apresenta uma dicotomia entre inconsciente/conservadorismo e consciente/progressismo. Para além desse aspecto filosófico, o livro é uma aventura movimentada e colorida no espaço e no oceano, envolvendo golfinhos e orcas, e um ode à juventude e à simplicidade na vida.

Home from the Shore foi concebido como um livro ilustrado com elegantes desenhos em autocontraste de James R. Odbert, bem fundidos com o texto. Eles formam uma fusão equilibrada do conhecido e do futurista, e de linhas retas e formas ovoides e onduladas. Muitas vezes, Dickson soava bastante hiperbólico com respeito ao próprio trabalho e projetos, e neste caso ele afirma que a cooperação de texto e arte aqui seria única, não só no campo da FC quanto no âmbito editorial. Provavelmente, não é tanto assim, mas ele tem uma observação no prefácio que vale ser reproduzida:

“A ilustração sempre foi considerada como uma parte dos livros, até o começo deste século, quando ela começou a ser expulsa da maior parte da ficção por razões de custo editorial. A única exceção a essa tendência estava na ficção escrita para os jovens; e mesmo nesse tipo de material de litura elas foram severamente limitadas. Uma concepção errônea do editor cresceu para uma aceitação generalizada de que eram as palavras, e apenas as palavras, que os leitores adultos queriam, e não imagens.

“Como ocorre frequentemente no campo literário, essa concepção errônea foi gerada e aceita sem qualquer referendo real daqueles mais interessados — os próprios leitores. O resultado é que ela existia até bem perto do momento histórico presente, com uma exceção. A exceção era a ficção científica, a única área da literatura em que se tinha a oportunidade de responder diretamente aos autores tanto em pessoa quando por carta; e na qual, apropriadamente, eles expressavam sua preferência não apenas por ilustrações nos livros que leem, como por boas ilustrações — ilustrações não expressas apenas nas cores tipo poster da moda do momento e nos padrões frívolos da publicidade, sem qualquer preocupação real com a história na qual é aplicada. A ilustração que os leitores demonstravam desejar era aquela que verdadeiramente espelhava a história ilustrada; e que tentasse trazer para um foco agudo e artístico as imagens gerais dos personagens e cenas formadas na mente conforme a história fosse lida.” —Gordon R. Dickson.

Oneironautas, de Fábio Fernandes & Nelson de Oliveira. São Paulo: Editora Patuá, 2018, 90 páginas. Texto de orelha de Santiago Santos. Livro de bolso. Este livro é uma incomum colaboração entre dois nomes de peso dentro da ficção científica brasuca moderna — Fábio Fernandes, acadêmico e ficcionista da Segunda Onda da FC Brasileira, e parte do Grupo da Renovação que fez a ponte com a Terceira; e Nelson de Oliveira, autor consagrado no mainstream literário que, como o heterônimo “Luiz Bras”, é um dos autores mais interessantes da Terceira Onda e uma das suas melhores lideranças e cabeças pensantes. Uma nota no fim do livro observa que ele deveria ter saído em 2016, quando os dois escritores completariam 50 anos de idade. As eventualidades da escrita e da edição determinaram que sairia apenas em 2018. Eu o li enquanto aguardava meu voo para o Rio de Janeiro, onde ia participar, por obra e graça do Prof. Flavio García e da CAPES, do IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional.

A história enfoca uma dupla de viajantes do tempo que participam de uma festa eterna na qual encontram não apenas alienígenas mas também várias versões deles mesmos. No capítulo 3, porém, surge uma ex de Fábio, uma mulher negra que tentou matá-los em um outro contínuo do espaço-tempo. Além disso, os outros foliões estão atrás deles por terem espalhado um vírus de insônia entre os “oneironautas” — sendo que os saltos entre os mundos paralelos se dá por meio de sonhos. A narrativa, cheia de referências culturais pop e surrealistas, se desenvolve em capítulos curtos, com diálogos exaltados e sempre apresentando um gancho no final. Cada capítulo é narrado em primeira pessoa, mas sob o ponto de vista alternado de um Nelson ou um Fábio (e vice-versa). Difícil saber, mas me parece que a narrativa foi construída como uma espécie de round-robin, sem planejamento, com um escritor pegando de onde o outro parou. Oneironautas é divertidíssimo, especialmente para quem conhece a dupla e consegue visualizar os dois trilhando o seu caminho entre as dimensões da Festa Eterna.

 

Arte de capa de Flávio Correia Lima.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror, de Marcello Simão Branco & Cesar Silva, eds. São Paulo: Devir Livraria, 2018, 272 páginas. Arte de capa de Flávio Correia Lima. Brochura. Há décadas que Cesar Silva e Marcello Simão Branco vêm contribuindo, individualmente ou em dupla, para o avanço da ficção científica e fantasia no Brasil. Os criadores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica (encerrado em 2014) retornaram em 2018 com um trabalho fabuloso, esta antologia que se associa a outras que têm surgido em tempos recentes valorizando a ficção de horror e, em particular, o horror no Brasil. Entre elas estão a internacional Contos Clássicos de Terror, de Julio Jeha, ed. (Cia das Letras; 2018); e a anterior Páginas Perversas: Narrativas Brasileiras Esquecidas (Appris Editora; 2017), de Maria Cristina Batalha, Júlio França & Daniel Augusto P. Silva, eds.

As Melhores Histórias Brasileiras de Horror é um dos projetos deixados por Douglas Quinta Reis, no inventário de projetos que ele conduzia na Devir Brasil. É maravilhoso que tenha sido completado. A seleção de histórias começa lá no século 19 e vem até o início do nosso século 21. Inclui “A Vida Eterna” (1870, de Machado de Assis; “Acauã” (1892), de Inglês de Sousa; e o mais antologizado “Demônios” (1893), de Aluísio Azevedo. O destaque do período para mim, porém, é “Assombramento (História do Sertão)” (1898), de Afonso Arinos, conto mais longo e com fortes marcas regionalistas, que pinta um quadro bastante expressivo da casa mal-assombrada — uma casa-grande de fazenda, no caso, e que o corajoso vaqueiro Manuel decide enfrentar sozinho, passando a noite lá dentro. No que pode ou não ser um episódio sobrenatural, ele sai machucado mas de coragem intacta, em uma narrativa de força incomum — que encontra um estranho paralelo na bela ilustração de capa de Flávio Correia Lima.

A atmosfera tétrica, carregada de impressões de medo e de perturbações mentais, é a tônica das narrativas selecionadas do começo do século 20 — “O Defunto” (1907), de Thomaz Lopes; “A Peste” (1910), de João do Rio; e “Rag” (1922), de M. Deabreu —, até encontrarem o equilíbrio perfeito em uma obra-prima de Gastão Cruls, autor do clássico da FC de mundo perdido A Amazônia Misteriosa (1925): “O Espelho” (1938), em que a influência de Edgar Allan Poe se faz sentir da melhor maneira, numa história de obsessão sexual. Daí em diante, já na segunda metade do século 20, as histórias ganham variedade de enfoque, tom e tema, a partir de “Tuj” (1968), tentativa de uma espécie de impressionismo New Wave do autor da Primeira Onda da FC Brasileira Walter Martins, também publicada na França (na revista Antarès). Muito vista no campo da literatura infanto-juvenil, Márcia Kupstas está no livro com uma releitura de terror e erotismo da história de Pinocchio, com o conto “Geppeto” (1987). A década de 1990 é representada por “Bença, Mãe” (1992), de Júlio Emílio Braz; “Solo Sagrado” (1995), uma história de fanatismo religioso de Carlos Orsi; o meu “Trem de Consequências” (1995), uma história de trato com o diabo; até alcançar seu ápice na fusão da imaginação gótica e da exploração da herança histórica de violência brasileira, na novela de Tabajara Ruas, “O Fascínio” (1997). “Os Internos” (2007), de Gustavo Faraon, representa o século 21, mas é o conto de horror folclórico “Bradador” (2014), de Braulio Tavares, que fecha esta histórica antologia com chave de ouro. Um livro necessário, e uma realização importante de Branco & Silva, que aqui fornecem uma moldura para a produção de ficção de horror no Brasil, frisada pelo seu ensaio panorâmico e aprofundado, “Trajetória e Caracterização de uma Ficção de Horror Brasileira”, que serve de introdução ao livro.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Thomas Campi.

A História de Joe Shuster: O Artista por Trás do Superman (The Joe Shuster Story), de Julian Voloj (texto) & Thomas Campi (arte). São Paulo: Editora Aleph, 2018, 192 páginas. Capa de Thomas Campi. Tradução de Marcia Men. Há alguns anos, resenhei o livro Homens do Amanhã: Geeks, Gângsteres e o Nascimento dos Gibis (Men of Tomorrow; 2004), de Gerard Jones, para o Terra Magazine. Foi uma leitura fascinante, centrada na presença de artistas e empresários judeus na indústria dos quadrinhos, com muita interface com a ficção pulp de FC, detetive e aventura — e com a história da criação do super-homem pela dupla Jerry Siegel & Joe Shuster como principal estudo de caso. Afinal, a criação do homem de aço resultou no subgênero dos super-heróis nos quadrinhos. Depois de ler o livro de Jones, fica fácil de entender um romance como As Incríveis Aventuras de Cavalier & Clay (2000), de Michael Chabon, que explora a trajetória dos judeus-americanos no campo dos quadrinhos. Eu ainda adquiri, anos mais tarde em uma liquidação na loja Terramédia (hoje, Ominiverse), Man of Two Worlds: My Life in Science Fiction and Comics, de Julius Schwartz com Brian M. Thomsen, autobiografia de um agente literário e roteirista de quadrinhos que também atuou com Super-Homem.

Este romance gráfico de Voloj & Campi é uma biografia panorâmica, contada a partir de um artifício interessante: idoso e empobrecido, Shuster é retirado de um banco de praça por um policial na década de 1970. O tira paga a ele uma sopa num diner, e ali, depois de se apresentar como um dos criadores do Super-Homem, ele narra a própria história. Nesse ponto, o estilo da arte muda de traço e cor para mancha e cor, até o momento em que a narrativa se reencontra com o personagem novamente na década de 1970. Os avós de Shuster eram judeus russos que saíram do país fugindo dos pogroms, indo primeiro para a Holanda. Seus pais se conheceram em um hotel de Roterdã e migraram para o Canadá, e então para Cleveland, nos EUA, onde seu pai foi trabalhar como alfaiate. O primeiro contato do pequeno Joe com os quadrinhos foi com as tiras e páginas dominicais das HQs “sindicalizadas” (distribuídos a diversos periódicos país afora) que seu pai lia para ele. Campi brinda o leitor com um lindo painel em que Joe folheia os jornais que continham histórias dos Sobrinhos do Capitão e de Little Nemo in Slumberland, sua tira favorita. Joe conhece Jerry Siegel no high-school e o interesse dos dois pela ficção científica das pulp magazines e pelos quadrinhos fortalece a amizade. A obra de Voloj & Campi mostra os dois editando fanzines e colaborando com jornais locais, e criando personagens juntos, seguindo o modelo da aventura — o campo literário mais forte nas pulps. No processo, a narrativa passa pela morte do pai de Siegel, um comerciante, de ataque cardíaco ao sofrer um assalto a mão armada. E também pelo instante em que Siegel antecipa o surgimento das revistas em quadrinhos ao produzir o projeto do que chamou de “revista pulp em quadrinhos” (na época, as HQs apareciam como anexos em revistas pulp normais), mas que não conseguiu realizar antes do lançamento de Detective Dan, a primeira revista em quadrinhos. A dupla muda seu foco para oferecer material à editora dessa publicação, controlada pelo escritor pulp Major Malcolm Wheeler-Nicholson. O Super-Homem, enquanto isso, já vinha sendo gestado na cabeça de Siegel — primeiro como um vilão de FC pulp no fanzine dos dois, Ficção Científica: A Vanguarda da Civilização Futura (pelo qual Siegel levou um puxão de orelha da sua professora de inglês). Siegel chegou a pensar que o Super-Homem viria do futuro, mas achou que um alienígena chamaria mais a atenção. O personagem só sairia na revista Action Comics em 1938, depois que o Major já havia passado adiante a sua editora, fazendo a dupla de criadores cair nas mãos de empresários de caráter duvidoso como o ex-pornógrafo Harry Donenfeld e Julius Liebowitz. Os pilantras compraram não apenas os direitos de reprodução do personagem, mas o próprio personagem, por US$ 412,00. Por mais que fosse uma graninha em 1938, toda vez que a dupla via um programa de rádio, um seriado ou um anúncio empregando o herói, ele percebiam que tinham sido engabelados. A luta por uma compensação justa pelo personagem ocupa grande parte do romance gráfico, tudo narrado com grande habilidade e brilho artístico que tornam este livro uma joia para o fã de quadrinhos e também desse momento pujante do capitalismo literário da era pulp americana. Há detalhes interessantes como o interesse romântico de Joe pela modelo Jolan/Joanne que posou para ele mas que acabou se casando com o amigo; o fato de ninguém menos que Stan Lee ter escrito contos de Super-Homem para que as revistas tivessem um benefício dos correios americanos; a vergonha que Joe sentia por ter desenhado fetiche e bondage para revistinhas do submundo da pornografia, nos tempos das vacas magras; e a possível morte violenta de Donenfeld (que tinha conexões com a máfia).

Quando digo que esta é uma biografia panorâmica, em parte é por detalhes que falam também da época e de como os quadrinhos sofreram com campanhas moralizadoras, com a caça às bruxas do macartismo e também da situação dos judeus na sociedade americana. Esta é a história de dois nerds que abriram um campo que hoje é bilionário — o dos super-heróis — e que criaram um dos personagens mais icônicos da cultura popular. Meu fascínio pelo contínuo pulp da FC e dos quadrinhos é igualado e recompensado por Voloj & Campi quando eles incluem notas ilustradas no final do livro, uma leitura tão deliciosa quanto a HQ propriamente dita. Apesar da tradutora ter sido presa de falsos cognatos aqui e ali, e da narrativa não ter mencionado algumas fontes conhecidas na inspiração para o herói, recomendo o livro com grande ênfase e alegria. Muito grato à Aleph, que tem abordado muitos produtos cult como Watchmen e a FC clássica, e que acertou na mosca com A História de Joe Shuster.

—Roberto Causo

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Leituras de Agosto de 2018

 

Em agosto, dobradinhas de livros de Braulio Tavares e Nelson de Oliveira, mas de leitura variada entre eles. Gostei especialmente da biografia de Raymond Chandler, por Tom Williams.

 

Histórias para Lembrar Dormindo, de Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 1.ª edição, 2013, 176 páginas. Ilustrações internas de Christiano Menezes. Brochura. Na minha modesta opinião, o miniconto ou flash fiction desfruta de um interesse injustificado no Brasil. A prática se comunica com a crônica, formato de produção de ficção ou não-ficção que também tem aqui prestígio desmedido, chegando a exportar o seu tom, em geral subjetivo, para o conto e até o romance. Além disso, muita gente que vai trás do miniconto carece da habilidade necessária para o acúmulo de efeitos que ele precisa ter pra valer a pena. Sua escrita é mais afinada com a precisão cuidadosa que o poema precisa, do que com os recursos de ambientação, caracterização, narração e diálogos, do conto. Mas aí temos Braulio Tavares, um escritor que possui exatamente essas habilidades. 

Todos os textos deste Histórias para Lembrar Dormindo foram publicados na coluna diária que ele mantém no Jornal da Paraíba e vão de 2.900 a 3.000 toques. São 40 deles distribuídos em duas partes, todos com duas páginas de ilustração feitas por Christiano Menezes, remetendo à ilustração científica. Em quase todos, a prosa precisa requerida, num estilo brilhante e finais surpreendentes sempre bem casados com o curto desenvolvimento. A ponto de o leitor ficar antecipando a rasteira elegante, brutal, inquietante ou irônica que, muitas vezes, revela o fantástico dentro do fantástico. Muitas das histórias possuem um tom mitológico próprio do Nordeste, formando um conjunto particularmente saboroso, enquanto outras são ambientadas em diferentes países. Algumas nos levam a outros universos — e as letras intercaladas na capa sugerem esse elemento dominante, filosófico, da interpenetração do real com o irreal. No limite de três mil toques, Braulio Tavares muitas vezes cria heterotopias que exploram, de modo sugestivo, as incertezas pós-modernistas. Já falei de um outro livro de Braulio Tavares aqui, Sete Monstros Brasileiros, e enxergo esse autor como um dos principais nomes da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, e um dos melhores escritores em atividade que temos. Eu pessoalmente gostaria de vê-lo escrevendo novelas e romances, mas em Histórias para Lembrar Dormindo você e eu temos 40 exemplos do seu talento inigualável no quadro nacional da ficção especulativa.

 

Arte de capa de Maercio Siqueira.

Peleja de Braulio Tavares com Marco Haurélio, de Braulio Tavares & Marco Haurélio. Fortaleza: Tupynanquim Editora, 2017, 32 páginas. Capa de Maercio Siqueira. Brochura. A vida é muito estranha. Um dia depois de acabar a leitura de Histórias para Lembrar Dormindo, minha esposa Finisia Fideli e eu encontramos Braulio “Brown Leo” Tavares diante do estande da Editora Draco, na 25.º Bienal do Livro de São Paulo. Por pura coincidência. Ele nos levou ao maravilhoso estande da Editora IMEPH e da Câmara Cearense do Livro, dominado por um enorme caminhão que transporta o seu acervo e, no local, transformou-se em um palco para cantadores e artesãos. Braulio, um dos melhores autores brasileiros de ficção científica de todos os tempos, foi nosso guia nesse mundo paralelo que ele habita — o da poesia de cordel e do repente. Conhecemos o novo livro do Braulio, o romance Bandeira Sobrinho: Uma Vida e Alguns Versos (IMEPH, 2017). Fomos apresentados por ele aos poetas Evaristo Geraldo, Rouxinol do Rinaré e Marco Haurélio — este último, seu parceiro num duelo de repentista feito no Facebook e compilado neste livro. “Você que apanhou do Braulio, então?” brinquei com ele. É claro, a prática é menos de disputa e mais de colaboração, e dependendo do intervalo das respostas em verso, feitas nos comentários do Facebook, pode ter sido mais como um round-robin, em que um escritor se compromete a levar adiante um trecho escrito pelo anterior, respeitando suas soluções, antes de repassá-lo a outro ou ao mesmo para uma nova rodada.

A “peleja” começa com os poetas saudando um ao outro e Marco Haurélio perguntando a Braulio o que é o cordel. Segue-se, em sextilhas, definições e elogios à poesia de cordel. Há, nesse ponto, um elemento de saudosismo rural que me agradou, tendo crescido no interior de São Paulo. Segue-se uma alternância de formatos. Na seção em “martelo galopado” (dez versos por estrofe), Ésio Rafael forneceu o mote repetido nos dois versos finais. Em “gemedeira”, as sextilhas têm mote de Rouxinol do Rinaré e se desenvolvem em torno do gemer como padecer ou reclamar, e o conteúdo foi mais de crítica política e social (sobre o Brasil, claro). Em “galope à beira-mar”, os poetas expressam maior erudição e inventividade nas imagens, em dez versos de mais fôlego. No “mote de sete sílabas” também são dez versos, e num mote que celebra o sertanejo. Em “oito pés a quadrão”, oito versos discutem a arte — e aí também evoca-se o clássico e o contemporâneo, tendência de muito cordel por aí. No “martelo alagoano”, os poetas reafirmam a tradição e suas influências individuais. Não há como não admirar essa dupla de artistas da palavra. Na xilogravura de Maercio Siqueira, Braulio é o da esquerda e Marco o da direita.

 

Arte de capa de Maercio Siqueira.

Os Curumins e as Estrelas, de Evaristo Geraldo. Alto Santo, CE: Edição do autor, abril de 2018, 8 páginas. Capa de Maercio Siqueira. Folheto. Braulio nos recomendou os folhetos de Os Domínios do Rei Peste (2015), de Evaristo Geraldo, e A Sombra do Corvo (2017), de Rouxinol do Rinaré, por adaptarem para o estilo poético do cordel dois contos de Edgar Allan Poe. Mas também adquiri A Árvore de Todos os Frutos (Lenda Indígena), de Geraldo, e este Os Curumins e as Estrelas, de Rouxinol, pelo meu interesse pelo tema indígena brasileiro. Há um cruzamento temático aí, não, um que também cheira a colaboração entre dois poetas diferentes? Afinal, quais são as chances?…

O texto é bem curto e declaradamente adapta uma lenda indígena, em que um bando de curumins roubam o fubá que as índias tinham preparado pra receber seus maridos de volta da pesca. Na hora de enfrentar o castigo, eles fogem e são perseguidos por homens e mulheres, até que um bando de tuiuiús fica com dó dos safados e os leva para o céu, onde se instalam em bases permanentes. Lá, eles só têm olhos para a Terra, talvez de saudade… Os olhos brilhantes se transformam, com o tempo, no céu estrelado, de modo que se trata de um mito de criação. A narrativa versificada de Evaristo é a tradicional sextilha e ela se realiza de modo muito objetivo e escorreito, com um padrão de três rimas por estrofe, bem marcado em cima de uma mesma sílaba.

 

Raymond Chandler: Uma Vida (A Mysterious Something in the Light: The Life of Raymond Chandler), de Tom Williams. São Paulo: Editora Benvirá, 2014 (2012), 456 páginas. Tradução de Fabio Storino. Brochura. Eu não leio muitas biografias literárias, embora tenha adquirido há anos uma de John Steinbeck e outra de Joyce Carol Oates. A exceção são biografias ou livros de memórias que abordam dois autores em particular: Ernest Hemingway e Raymond Chandler. Quanto a Chandler, já li aquela escrita por Tom Hiney, Raymond Chandler: A Biography, e todos os volumes de cartas e anotações que consegui adquirir: Raymond Chandler Speaking, editado por Dorothy Gardiner & Kathrine Sorley Walker, e The Raymond Chandler Papers: Selected Letters and Nonfiction, 1909-1959, editado por Tom Hiney & Frank McShane.

Para mim, Chandler é uma fonte muito arguta, divertida e incisiva, especialmente em suas cartas, de comentários sobre a relação entre a ficção de gênero e o mainstream literário. Seu credo literário é único, ao combinar com muita personalidade o ethos do escritor pulp e do escritor mainstream. É claro, antes de mais nada sou um fã dos seus romances e contos de ficção de detetive, que descobri durante a adolescência.

Pouca gente sabe ou lembra que Chandler escreveu histórias de fantasia, uma delas publicada na revista Unknown do editor John W. Campbell, Jr. Uma das coisas que este livro sedimenta é que o escritor considerou se voltar para o gênero com mais constância. Além disso, a ansiedade em obter reconhecimento literário teria sido mais forte na vida do escritor, do que as outras biografias deram a entender. A outra contribuição do inglês Williams é se focar mais na relação dele com a Inglaterra (Chandler nasceu nos EUA mas migrou com a mãe para a Inglaterra ainda criança, antes de retornar definitivamente aos EUA para trabalhar). A situação do escritor nos Estados Unidos também é muito bem tratada por ele, incluindo alguns pontos que Hiney aborda pouco, como o background familiar e pessoal da esposa de Chandler, Cissy. E se a memória não falha, ele também discorre mais sobre os anos de velhice e viuvez de Chandler, com o ápice do alcoolismo e do comportamento presunçoso e patético. Também se a memória não falha, em Hiney Chandler emerge como alguém que tentava elevar a ficção de crime e que, se por um lado tem preocupações de estilo e ansiedades que o aproximam do modernismo, por outro faz uma crítica do modernismo literário e do seu intelectualismo. Já em Williams, Chandler surge, em traços trágicos, como presa do desejo de reconhecimento literário. Adivinha com qual versão eu me identifico mais.

 

Conjurações & Terra Seca, de Paola Siviero. São Paulo: Edição de autor, 1.ª edição, 2015, 20 páginas. Folheto. Ainda investigando a relação entre a fantasia e a matéria sertaneja expressa também na poesia de cordel, eu retornei a este conto publicado como um folheto, escrito por Paola Siviero. Mesmo porque a autora encontrou um novo lar na jovem editora Dame Blanche, de São Paulo, de modo que, felizmente, o seu projeto Agreste Fantástico terá continuidade — com o livro O Auto da Maga Josefa. Este primeiro episódio é uma fantasia heroica com uma ambientação historicamente indeterminada, com uma dupla de heróis: a feiticeira Josefa, filha do Dito Cujo, e o esgrimista da peixeira, Toninho. O texto é em prosa e a autora habilmente combina um bom conhecimento dos leitmotifs da fantasia, com um humor centrado na adaptação deles aos tipos, ambientes e modos de expressão sertanejos. Certamente, o cordel deve ter um papel de intermediação desses aspectos regionais, e no final do livreto Toninho ensaia um repente.

É bom lembrar (tudo tem história!), que esse veio de fusões de conteúdos e tradições literárias tem precedente nas novelas A Tisana (1989) e O Pão de Cará (1995), de Roberto de Mello e Souza, que levam as narrativas arturianas de Tristão e Isolda e Percival para o sertão, e no conto “O Lugar do Mundo” (1984), de Daniel Fresnot, em que um duelo de repentistas se transmuta em duelo de magos. Paola Siviero tem nos seus heróis uma dupla de matadores de monstros e demônios, assim como Gerard van Oost & Oludara, da série A Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt, ou da dupla Adoulla Makhslood & Raseed, de Saladin Ahmed no romance Throne of Crescent Moon (2012). Mas quem Josefa & Toninho perseguem é um cigano (o feiticeiro da história) que invocara um chupa-cabras, e depois

“um zumbi cangaceiro, um demônio d’água no São Francisco e uma assombração de corno — dos fantasmas, os mais ferozes — que castrou dois Don Juans logo na saída do forró.” —Paola Siviero, Conjurações & Terra Seca.

Daí se vê que o humor é uma das delícias da narrativa, escrita com precisão e simultânea desenvoltura. Além disso, há uma certa tensão entre a dupla de heróis, com ele a fim dela, mas sem achar brecha na casca grossa de perigo e independência, da filha do demo. Eu não sei como O Auto da Maga Josefa vai sair (por enquanto, só vi o folhetinho com um excerto), mas vou atrás. É muito bom saber que Paola Siviero continua mantendo a essa vereda aberta dentro da fantasia brasileira.

 


Sabixões & Sabixinhos: Philosophus Brasilis
, de Sofia Soft & Teo Adorno. São Paulo: Alink Editora, outono de 2018, 104 páginas. Livro de bolso.
Nelson de Oliveira faz dois dos seus heteronômios dançarem um tango neste livro. “Sofia Soft” cuida dos textos aforísticos e irônicos, enquanto “Teo Adorno” faz os desenhos muito estilizados de animais humanizados e outras figuras como as flechas que aparecem na capa. Esse mesmo material tem aparecido há alguns anos no perfil “Paisagem Personas” no Facebook, e é reunido aqui pela primeira vez numa bonita edição, pra você colocar ao lado de livros das criações do Henfil, de Quino ou de Charles Schultz. Tá nesse nível. Há muitos aforismos e opiniões jocosas sobre o brasileiro, o amor, a política, a justiça, a ciência e a ignorância — ainda que não de um modo específico ou contextualizado. Jogos de palavras iluminam sentidos presentes e ausentes, em lugares-comuns bem brasileiros. Os meus favoritos são os momentos mais filosóficos, em que os sentidos surgem de interações surpreendentes. Algumas falas e figuras aparecem de ponta cabeça na página, reforçando o caráter inquietante, heterodoxo e divertido do livro. Embora a ironia impere, há espaço para algum lirismo, como no exemplo abaixo:

Olhai os delírios do campo:

a vertigem da vida

— o amor —

é uma estrela maciça

incrustada

no breve intervalo

entre a genialidade

e a loucura dos olhos

de um bem-te-vi.

—Sofia Soft & Teo Adorno. Sabixões & Sabixinhos.

 

Às Moscas, Armas! de Nelson de Oliveira. São Paulo: Alink Editora, 2.ª edição, 2018 [2000], 118 páginas. Livro de bolso. Comecei com contos curtos, e termino com contos curtos… Se bem que algumas das histórias deste livro de Nelson de Oliveira têm uma extensão maior. De qualquer modo, este é a segunda leitura do mês que agride minha prevenção contra o miniconto ou a flash fiction.

Às Moscas, Armas! já havia aparecido no ano 2000 como e-book, mas com uma tiragem de 50 exemplares em papel — que hoje deve ser item de colecionador. Em 118 páginas, apresenta 24 textos diferentes, de modo que aí já se tem uma ideia de como predominam as narrativas breves. Assim como Braulio Tavares, Nelson de Oliveira encontra espaço para expressar a sua erudição e inteligência. A maioria dos textos, porém, afasta-se do tom da crônica e fazem da perspectiva, da reiteração e do diálogo ríspido as ferramentas de um texto mais cortante e incisivo. Nem todos são exatamente curtos. “Ah!” usa oito páginas e diálogos não marcados para narrar uma bizarra “contaminação” que transforma pessoas em bolhas luminosas flutuantes, um recurso típico do realismo mágico. A maior parte dos contos de fato pertence ao realismo mágico ou ao conto fantástico, tendências que marcam o autor, e até mesmo a sua persona voltada para a FC e a literatura juvenil, “Luis Bras”. Com três páginas, “Jacqueline in the Box” oferece uma metáfora da alienação da mulher causada pela violência sexual masculina, em torno da figura banal da caixa de papelão. Do mesmo tamanho, “Górgona” ousadamente se realiza pela linguagem chula masculina. “Ninfas”, uma narrativa de parágrafo único, centra-se nas impressões confusas de um casal em fuga, num cenário urbano e de motivações desconhecidas. “Inveja”, um dos meus favoritos, é um vertiginoso exposé dos bastidores da vida literária, entre o Escritor Que Tinha ou Que Não Tinha Boas Ideias (tudo assim, em iniciais maiúsculas), o Crítico Literário do Jornal do Momento, e outras figuras orbitantes dessa dinâmica. Já “O Homem Só”, de nove páginas, belisca os homens da minha faixa etária e formação, na sua sexualidade. Desenvolvido só com diálogos, “Quinze Minutos” brinca com o ir e vir das pessoas nos seus trabalhos de escritório. Na maioria das situações, tem-se no livro o desejo modernista de expor os azares da modernidade — presentes também na obra dos contistas experimentais Braulio Tavares e Ivan Carlos Regina. Ainda sobre Às Moscas, Armas!, Nelson aponta o conto “Lua, 1969”, como o momento em que a persona de Luis Bras começa a emergir. Com dez páginas e narrado em primeira pessoa no tempo presente, seu tom é mais solene e a situação enigmática é surpreendentemente rica: o narrador faz parte de uma dupla de seres invisíveis que assiste a certo grupo de pessoas velando uma menina moribunda em uma mansão decaída. Da TV que, supostamente, exibe a chegada da Apollo 11 à Lua, uma luz estranha, primal e mítica surge como um raio transportador que permite a visita de uma segunda categoria de seres não humanos, associados à Lua. Aqui, há uma espécie de caminho inverso, muito trilhado pela FC e pela fantasia contemporânea, de iluminar o cotidiano com uma luz fantástica, maravilhosa. Há até mesmo um traço de New Wave, em que eventos subjetivos ou culturais transformam-se em fatos concretos. Sob o livro e esse conto em particular, Nelson me escreveu:

“São contos do final do século passado, mas em pelo menos um deles, ‘Lua, 1969’, hoje eu já consigo notar a iminência de minha guinada pra FC. Esse continho de realismo mágico tem algo de FC esotérica, na linha do Shikasta [de Doris Lessing], por exemplo.” —Nelson de Oliveira.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Daryl Mandryk.

Mass Effect Omnibus Volume 1, de Mac Walters, Patrick Weekes, John Dombrow & Sylvia Feketekuty. Milwalkie, OR: Dark Horse Books, novembro de 2016, 400 páginas. Arte de capa de Daryl Mandryk. Trade paperback. Omnibus” é uma reunião de vários livros em um único volume — no Brasil, Turno da Noite, de André Vianco, e Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife, são exemplos. Este aqui eu comprei num bota-fora da Saraiva do Shopping Eldorado, em São Paulo. Nele, estão quatro minisséries do universo expandido, em quadrinhos, do videogame Mass Effect, produzido pela empresa canadense BioWare. Tanta gente trabalhou nessas minisséries, que só mencionei aí em cima os caras que bolaram as histórias. Mesmo porque, na hora de montarem o omnibus, a Dark Horse deixou alguns créditos de fora. As HQs são: Redemption, Evolution, Invasion e Homeworlds.

Não jogo videogames de console (atualmente, só jogo o Tadaroids, criado por Vagner Vargas aqui no GalAxis!) mas tento acompanhar alguma coisa desses que são space operas: Mass Effect, Halo, Destiny. Deste game em particular, há alguns anos li um paperback chamado Mass Effect: Ascension, de Drew Karpyshyn. Este compêndio de HQs da franquia estão sob a premissa de que o Comandante Shepard, o principal protagonista do game, está morto e diversos grupos lutam para se apoderar do seu corpo. A telecineta Liara T’Soni, a alienígena mais atraente da franquia (na bela capa de Mandryk, ao lado), chega ao asteroide/habitat espacial Omega para impedir que o Colecionador fique com os restos do herói. O sidekick de Liara é o malandro E.T. Feron, de outra espécie. Aria, a implacável comandante de Omega, é da mesma espécie de Liara, e não quer saber de encrenca na sua estação. O núcleo da história é a tensão entre Liara e Feron, de qualquer modo. A segunda história é interessante não apenas por apresentar uma arte superior, mas por oferecer uma narrativa de origem do “Illusive Man”, um chauvinista humano e um dos principais antagonistas do universo de Mass Effect. É narrativa mais dramática e moralmente ambígua, mas na qual não falta o impertinente clichê da space opera atual, a figura do zumbi. Aria e Omega retornam na história seguinte, quando o asteroide/estação espacial é invadida por uma força militar ou para-, comandada pelo erudito Oleg Petrovsky e enviada pela Cerberus, a organização secreta do Illusive Man, sob pretexto de defendê-la de um contingente de reapers, a ameaça à galáxia que a franquia apresenta. Centrada na relação entre Aria e Petrovsky, o episódio traz alianças momentâneas, traições, capturas, fugas e até batalhas espaciais. E, no todo, a melhor arte do livro todo. O fuzileiro fisiculturista James Vega é o centro da narrativa seguinte, e a alienígena Tali’Zorah nar Rayya no da próxima. Garrus Vakarian, outro E.T., e Liara T’soni fecham essa galeria presente em Homeworlds. Enfim, o omnibus é fechado por duas histórias relativamente fracas e avulsas, protagonizadas por Aria e o investigador Capitão Bailey. No geral, gostei do mergulho no universo de Mass Effect que o livro faculta. As HQs atendem ao visual determinado pela pré-produção do game, de modo que sua coerência sacrifica algo da variação e inventividade, de uma HQ para a outra. A arte de Daryl Mandryk na capa tem todas as virtudes das artes digitais da atualidade, vinculadas aos videogames, e as capas das minisséries, reproduzidas no interior, via de regra também expressam o encanto e o exotismo da space opera.

—Roberto Causo

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O Prefácio de Roberto Causo ao eBook “Sobre a Imortalidade de Rui de Leão”

Roberto Causo foi abordado pelo editor André Caniato, da Plutão Livros, para escrever o prefácio do e-book Sobre a Imortalidade de Rui de Leão (Pontes Gestal, SP: Plutão Livros, 1.ª edição eletrônica, 2018, 2784KB. Capa e ilustrações internas de Paula Cruz), que você pode conferir abaixo, na versão do autor.

 

O Imortal e o Imortal

Machado de Assis e a Ficção Científica

 

Arte de capa de Paula Cruz.

A ficção científica brasileira existe desde meados do século XIX. Essa é uma afirmativa que, ao mesmo tempo que é incontestável, exige explicações e qualificativos. Especialmente porque essa ocorrência de FC no país é bastante esporádica. Esse quadro de inconstância se dá, curiosamente, entre os anos de 1857 a 1957. Um lapso de 100 anos que formam o que chamei de Período Pioneiro da Ficção Científica Brasileira — e de saída admito que 100 anos são de fato muito tempo para se agrupar uma determinada circunstância literária.

Esse período, é claro, possui momentos e situações bastante variadas, mas é justo levantar dois pontos que circunscrevem muito da sua identidade: primeiro, a maior parte daquela produção ficcional aderia aos modelos narrativos e convenções literárias do século XIX, especialmente o romance de aventura e de capa e espada, o conto de subjetividade romântica, a narrativa de mundo perdido, a sátira social e o panfleto utópico; segundo, a falta do entendimento, crítico ou popular, de tal produção como parte de um gênero literário específico.

O segundo aspecto citado começa a se alterar muito rapidamente a partir de 1957, ano em que os cientistas soviéticos colocaram o Sputnik em órbita, e em que a ameaça de conflito nuclear entre as superpotências vencedoras da Segunda Guerra Mundial, e o advento de inovações tecnológicas como o computador, o aparelho de televisão, o voo supersônico e o míssil teleguiado entram na consciência popular. São fatores que aproximam a realidade imediata, das ideias da ficção científica. A FC é então redescoberta como um gênero literário com algo a dizer de concreto, profundo e urgente sobre o mundo. Nos Estados Unidos, a grande produção antes dirigida às revistas populares (chamadas de pulp magazines) já havia se decantado em um número de romances e antologias publicadas em livro — edições em capa dura destinadas ao mercado de bibliotecas públicas e clubes de livro; e edições em brochura e formato de bolso, em grandes tiragens, na assim chamada “revolução dos paperbacks” surgida durante a guerra.

No Brasil, dois livros lançados em 1958 marcam a “chegada” da FC como gênero no país: a antologia Maravilhas da Ficção Científica, editada por Fernando Correia da Silva & Wilma Pupo Nogueira Brito; e O Homem que Viu o Disco-Voador, um hábil romance de Rubens Teixeira Scavone ambientado em São Paulo e na Ilha da Trindade. A antologia não trouxe nenhuma história brasileira, mas apresentou uma brilhante e erudita introdução do crítico Mário da Silva Brito, que, por si só, disparou um debate envolvendo a intelectualidade de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sobre a relevância ou irrelevância da FC para a literatura e a modernidade. O gongo soou e no ringue dessa questão literária subiram figuras de peso como Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins, Antonio Olinto, Maria de Lourdes Teixeira, João Camilo de Oliveira Tôrres, Clóvis Garcia, Alcântara Machado, Frederico Branco, Willy Lewin, Fausto Cunha, Laís Corrêa de Araújo, André Carneiro, e o editor Gumercindo Rocha Dorea. Algo semelhante só viria a acontecer com os esforços de Luiz Bras (pseudônimo de Nelson de Oliveira), seguidos ao seu ensaio-manifesto “Convite ao Mainstream” (2009), de aproximar a ficção científica da ficção literária brasileira — mas em menor escala e com menor polêmica.

Quase nesse mesmo instante, Gumercindo Rocha Dorea publica a coletânea de histórias de Dinah Silveira de Queiroz, Eles Herdarão a Terra (1960), e Antologia Brasileira de Ficção Científica (1961), editada por ele — a primeira antologia de FC brasileira da história da literatura. Os livros saíram na Coleção Ficção Científica GRD, que a partir daí abrigou diversos outros autores nacionais: Olinto, Carneiro, Cunha, Zora Seljan, Levy Menezes, Guido Wilmar Sassi, Álvaro Malheiros e o veterano Jeronymo Monteiro — que fundou a Associação Brasileira de Ficção Científica (o primeiro fã clube de FC do país) e foi o editor do Magazine de Ficção Científica (1970-1972), a nossa versão da importante revista americana The Magazine of Fantasy & Science Fiction.

Seguindo as Edições GRD, de Dorea, vieram a EdArt, publicando Carneiro, Nilson D. Martello, Walter Martins, Domingos Carvalho da Silva e vários outros. O Clube do Livro também participou desse momento, publicando Scavone e Luiz Armando Braga. A atuação de Dorea foi impactante o suficiente para que Fausto Cunha, então um dos críticos mais relevantes do Brasil, chamasse de “Geração GRD” o elenco de escritores brasileiros que escreveram FC naquela década.

Surge aí, entre 1957 e 1972, a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira. Sem dúvida, a ditadura militar (1964 a 1985) teve um papel tanto na descontinuidade da Primeira Onda, quanto na reorientação do que seria a tônica da FC nacional na década de 1970. Esse momento seguinte — que pode ser chamado de Ciclo ou Onda de Utopias e Distopias (1972 a 1982) — empurrou os autores da Primeira Onda para o fundo do palco, como as figuras que tiveram uma sobrevida nessa década, Carneiro, Cunha, Queiroz e Scavone. Para a frente veio uma FC que, muitas vezes de maneira alegórica e absurdista, fazia a crítica ao regime militar, à tecnocracia e à impertinência do Estado tentando gerenciar a sexualidade e os costumes. Foram autores como Ruth Bueno, Mauro Chaves, Chico Buarque, Maria Alice Barroso, Herberto Sales, Márcio Souza e, especialmente, Ignácio e Loyola Brandão, cujo romance Não Verás País Nenhum (1981) se tornou o marco daquele momento. Essa tendência, porém, dissipou-se com a Abertura e a posterior redemocratização, sublimando-se na literatura pop brasileira e, mais tarde, na ficção auto-reflexiva ou metaficcional brasileira.

O que veio na década de 1980 foi a Segunda Onda (1982 a 2015), marcada pelos fanzines e por um número de autores que, ao contrário dos momentos anteriores, eram majoritariamente leitores de FC, cientes das suas convenções e características como gênero literário. Por isso mesmo, desenvolveram tendências mais variadas, incluindo a FC hard, a história alternativa, a FC feminista, a sociológica e a experimental. Braulio Tavares, Jorge Luiz Calife, Ivan Carlos Regina, Finisia Fideli, Roberto Schima, Simone Saueressig, Ivanir Calado, Guilherme Kujawski, Gerson Lodi-Ribeiro, Fábio Fernandes, Daniel Fresnot, Marien Calixte, João Batista Melo, Miguel Carqueija, Cesar Silva e Carlos Orsi são alguns dos autores do período, que também viu surgir o primeiro movimento literário da FC nacional, em torno do “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira” (1988) de Regina, que propunha mais brasilidade e antropofagia cultural.

Um núcleo desses autores — Lodi-Ribeiro, Orsi, Silva, Octávio Aragão e o pesquisador Marcello Simão Branco — uniram-se em uma editora cooperativada, a Ano-Luz, e mais tarde formou (com Fernandes, Max Mallmann e outros) o que chamei de Grupo da Renovação. O grupo se tornou influente junto à Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira (2004 ao presente), momento em a FC se aproxima da fantasia e do público jovem e passa por um esforço editorial de atualização de tendências — o cyberpunk e o steampunk, o New Weird e a FC queer, por exemplo. Seus autores propagam a importância da internet em suas posições literárias e se apresentam pela primeira vez como uma novidade no campo, própria do século XXI. Eles assumiram blogs, videologs e revistas eletrônicas, e advogam a popularização da literatura fantástica, levantando a ficção pulp e a busca direta do público leitor como bandeiras. Entre seus nomes de maior relevo e importância estão Jacques Barcia, Cirilo S. Lemos, Ana Cristina Rodrigues, Tibor Moricz, Flávio Medeiros Jr., Cristina Lasaitis, Enéias Tavares, Christopher Kastensmidt, Mustafá ibn Ali Kanso, Felipe Castilho, Aline Valek e Samir Machado de Machado. Um destaque importante é Luiz Bras — pseudônimo de Nelson de Oliveira, que se volta à FC brasileira nesse momento, impondo uma perspectiva mais literária e experimental.

Os dois textos de Machado de Assis reunidos aqui fazem parte, evidentemente, do Período Pioneiro da FC Brasileira. “Rui de Leão” foi publicado originalmente em 1872 no Jornal das Famílias, e “O Imortal” dez anos depois, em partes na revista A Estação.

O fato de Machado ter escrito alguma forma de ficção científica — e essa é outra ressalva que se deve fazer sobre o Período Pioneiro — não deve causar estranhamento. Os dois contos em questão, por exemplo, foram precedidos por “O Fim do Mundo em 1857” (1857), de Joaquim Manuel de Macedo, autor daquele que é considerado o primeiro romance brasileiro, A Moreninha (1844). O próprio Macedo mesmo retornaria ao fantástico posteriormente com A Luneta Mágica (1869). A historiografia da FC brasileira também registra Páginas da História do Brasil, Escrita no Ano de 2000 (1868-1872), de Joaquim Felício dos Santos. E, entre os dois textos de Machado, têm-se o marco da publicação de O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emilio Zaluar, o melhor candidato, até o momento, a primeiro romance brasileiro de ficção científica. Vinte e poucos anos depois, Emília Freitas publicaria o seu também pioneiro romance feminista de aventura e espiritualismo, A Rainha do Ignoto (1899). Enfim, o próprio Machado também é autor da fantasia orientalista “As Academias de Sião”, que propõe a troca temporária de corpos entre o monarca da antiga Tailândia e uma de suas concubinas.

A partir desse primeiro momento, muitos grandes nomes da literatura nacional escreveram algum tipo de FC: Lima Barreto, Monteiro Lobato, Menotti Del Picchia, Erico Verissimo, Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa. No caso de Machado, seu posicionamento na linha evolutiva dos movimentos literários é complicada pela sua produção variada e prolífica, sinal da disposição de ocupar os espaços literários disponíveis na sua época. José Luiz Passos, autor de Romance com Pessoas: A Imaginação em Machado de Assis (2007), reconhece: “Há grande ambição num escritor que, na sequência dos primeiros livros, tenta todos os [formatos] que a literatura do seu tempo lhe punha à disposição.”

A relação aqui é menos ideária — isto é, obedecendo a um receituário como o do Realismo, por exemplo — e mais uma relação de aproveitamento pessoal de práticas literárias em circulação na época, coloridas com a personalidade do escritor. Neste caso, aquilo que viria a compor a nossa imagem do que é a FC como gênero estava, no século XIX, difuso na narrativa de aventura a terras estranhas, ou no conto gótico, ou na sátira social e política. Machado pescou esses e outros elementos, e incidentalmente fez aquilo que nosso olhar retrospectivo identifica como FC. Cabe lembrar que Machado demonstrou em vários contos da década de 1880, o seu interesse por Edgar Allan Poe, autor de gótico americano, pioneiro da literatura de horror e de ficção científica.

“Rui de Leão” (ou “Ruy de Leão”) abre com o personagem título, um fidalgo português, vivendo entre os tamoios. A história narra com ironia a sua aculturação entre os nativos, com direito a nudez e antropofagia, guiada pelo mui filosófico pajé da aldeia, seu sogro. Moribundo, o pajé lega ao genro um frasco contendo uma poção que traz a imortalidade. Rui hesita em beber, e mais tarde conhece um padre em missão na área, e nega-se a batizar seu filho com a filha do pajé. Como que reagindo à praga do padre, ele adoece na sequência e recorre à poção.

Depois disso ele tem seu vigor redobrado, não envelhece mais e não perece de agressões de outro modo fatais. Vai parar na Europa, onde apavora alguns com sua situação inédita. Aos poucos, é a condição de imortal e menos as peripécias advindas dela que assume o centro da narrativa.

A versão que Machado realizou com “O Imortal” tem estrutura mais sofisticada, com as aventuras de Rui de Leão narradas entre uma espécie de “parênteses”, já que a abertura e a conclusão estão a cargo de um filho do personagem, médico homeopata vivendo no século XIX, narrando os fatos a um grupo de amigos em uma noite chuvosa. É um detalhe que sublinha inspiração do conto gótico sobre a história machadiana.

A ironia tem uma presença mais discreta, assim como o percurso do personagem pela história brasileira e europeia ganha sofisticação e interesse. Mais do que isso, para a perspectiva da FC, o escritor nos dá um argumento de grande interesse, dada a sua raridade dentro do gênero, na época: “A ciência de um século não sabia tudo; outro século vem e passa adiante. Quem sabe se os homens não descobrirão um dia a imortalidade, e se o elixir científico não será esta mesma droga selvática?” Surge aí uma hipótese científica para fundamentar a premissa, mesmo que não problematizada. Além disso, Machado foi presciente ao antever uma iniciativa que se fixa em fins do século XX até o presente, da busca científica na floresta tropical e ao conhecimento dos povos nativos e tradicionais, por novos medicamentos e terapêuticas.

O tema da imortalidade igualmente integra-se à ficção científica por via da tradição gótica, levando o crítico inglês Brian Stableford a afirmar: “A imortalidade é um dos leitmotifs básicos do pensamento especulativo; o elixir da vida e a fonte da juventude são objetivos hipotéticos das buscas intelectuais e exploratórias clássicas.” Stableford também observa: “Uma coisa imediatamente perceptível sobre essa rica tradição literária é que a imortalidade é frequentemente tratada como um falso objetivo, algo como uma maldição” — bem dentro das aflições de Rui de Leão, nos dois textos reproduzidos aqui. Por outro lado, a biografia do próprio Machado de Assis nos sugere um outro nível de ironia, já que ele alcançou um tipo de imortalidade, talvez menos vão, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras — que ele ajudou a fundar — em 1897.

As peripécias de Rui de Leão, por sua vez, estão dentro do leque de aventuras físicas e sentimentais da literatura da época, e em uma análise bastante sofisticada de “O Imortal”, o Prof. João Adolfo Hansen, da Universidade de São Paulo, observa que enredo de Machado incorpora os clichês do Romantismo sobre o homem que ascende socialmente e conquista a mulher aristocrática, ou que se envolve em revoltas libertárias, e combate invasores ou indígenas, de modo que o seu agrupamento em uma única narrativa — e vividos por um único personagem, como um Forrest Gump do século XVII[1] — formaria uma crítica irônica dos excessos daquele movimento. Algo, inclusive, que Machado fez em vários outros momentos, como nos contos “Aurora sem Dia” e “A Chinela Turca”.

Não obstante essa hipótese de uma postura satírica, os contos não deixam de pertencer à ficção científica. Assim como o autor da sátira política não deixa de pertencer à sociedade ou ao país que ele ou ela satirizam.

A Plutão Livros presta um grande serviço ao pesquisador e ao leitor de FC, ao disponibilizar esta edição com as duas histórias lado a lado. Certamente, a ficção científica no Brasil é um gênero importante e rico demais, para que suas obras de interesse caiam no esquecimento.

 

Roberto de Sousa Causo

São Paulo, maio de 2018.

 

[1] Algo que Erico Verissimo também fez com a sua novela juvenil As Aventuras de Tibiquera (1937), eu tem como personagem título um indígena imortal que assiste aos eventos do Brasil desde o Descobrimento até a década de 1930. Verissimo escreveu também o romance Viagem à Aurora do Mundo (1939), em que há um visor temporal que guia o leitor por uma excursão pela origem da vida na Terra.

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Leituras de Abril de 2018

A ficção científica, nacional e estrangeira, em livro e em revista, na literatura e na arte, teve a sua vez no mês de abril. O destaque foi o segundo livro de Charles Sheffield lido este ano.

 

Steven Holl, de Valerio Paolo Mosco. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha Grandes Arquitetos Vol. 10, 2011, 80 páginas. Capa dura. Tradução de Gustavo Hitzschky. O arquiteto americano Steven Holl, atuante desde a década de 1980, combina reflexões artísticas e filosóficas, na concepção das suas obras, apoiando-se nas reflexões da fenomenologia. Seus projetos se encontram em alguns dos principais centros arquitetônicos do mundo: Nova York, Milão, Pequim, e até no MIT, em Cambridge. Interessante que, na década de 1980, ele toma contato com as ideias da fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo francês, e a incorpora aos projetos que começaria a executar a partir da década de 1990. Condizentemente com essa filosofia da percepção das formas, sua primeira fase, naquela década, apresenta construções de pouca monumentalidade, com fachadas geométricas sem grandes rupturas, mas com interiores tomados por curvas ou com a geometria dos planos quebrada por janelões ou iluminação em fitas e retângulos, e também por mezaninos. A partir do começo do século, essa desordem e violação de expectativas passa também para o exterior, como a Escola de Arte e de Historia da Arte de Iowa, o Centro de Visitantes e Hotel Loisium, e, principalmente, o curioso conjunto Linked Hybrid de Pequim. Também é interessante notar que, ao contrário de Oscar Niemeyer, por exemplo, o desenho de Holl é elaborado, artístico, em aquarelas em que se destacam o estudo da forma e dos volumes, de luzes e sombras. Na seção “O Pensamento”, ele, assim como Jean Nouvel, insere a sua arquitetura a partir de uma leitura do quadro humano atual:

“O caos da incerteza das economias flutuantes, combinado com a sobrecarga de informação advinda das novas tecnologias, contribui para o afastamento dos fenômenos naturais, incrementando atitudes niilistas.

“A arquitetura, com sua espacialidade silenciosa e sua materialidade táctil, pode reintroduzir significados e valores essenciais, intrínsecos à experiência humana.” —Steven Hall, Intertwining (1996).

 

Arte de capa de Peter Jones.

Second Contact, de Mike Resnick. Londres: Legend, 1991 [1990], 278 páginas. Capa de Peter Jones. PaperbackO americano Mike Resnick já foi publicado no Brasil, na Isaac Asimov Magazine, com suas histórias de Kiriniaga, sobre um planeta colonizado por africanos, muitas delas premiadas. Resnick é um dos autores mais indicados e premiados da FC americana. O primeiro romance de sua autoria que li foi Santiago, a Myth of the Far Future (1986), space opera sobre um famoso fora da lei que se torna um símbolo de resistência e individualidade. Na minha leitura, a sua adesão aos modos narrativos do western e a pouca exploração de ideias de ficção científica propriamente, me decepcionou um pouco.

Algo semelhante acontece com Second Contact, que é basicamente uma história de hard boiled e um thriller de conspiração, ambientada num futuro próximo (2065) no qual EUA, China e Brasil são apresentados como potências espaciais. Ela começa com o herói, um advogado militar da força espacial americana desse futuro, designado para defender um oficial que, em uma nave interestelar, matou dois tripulantes que ele entendeu serem alienígenas. No passado, um primeiro contato com os E.T.s conhecidos como chebottis resultou na destruição de uma nave humana, com a sua tripulação. Todo mundo acha que a solução para o caso é o oficial se dizer temporariamente insano quando das mortes, mas ele está determinado a usar o julgamento para alertar a humanidade quanto à infiltração alien. O advogado não acredita nele, mas sai a cata de relatórios e testemunhas, e só o que descobre é que elas estão fora do seu alcance. Ao insistir na sua investigação, ele acaba sendo alvo de tentativas de assassinato. A essa altura ele já tem como aliada (e única aliada) uma hacker afro-americana que ele conhecia de um caso anterior. A história então se move como uma aventura de detetive hard boiled em que o casal de heróis precisa não só usar pesquisas de TI para descobrir quem são seus inimigos, mas também encontrar os meios para entrar em prédios fortemente guardados, seguir suspeitos perigosos e escapar de assassinos. O argumento é relativamente previsível — há de fato uma conspiração envolvendo alienígenas e a substituição de um número de militares mortos em um acidente aéreo. A reviravolta é uma versão da solução brilhante da noveleta “Primeiro Contato” (1945), de Murray Leinster (1896-1975) , em que uma nave humana e outra alienígena se encontram no espaço e trocam suas tripulações, para se livrarem do impasse de denunciarem a localização dos seus respectivos planetas. A versão de Resnick parece incoerente e artificial. Além disso, a conclusão do romance sugere aquele conformismo bem americano, em que o herói ganha o direito de continuar vivendo, concedido por manipuladores convictos e assassinos frios, apenas porque ele se provou se um homem de recursos. A conspiração não é arranhada e a bastardia institucional persiste agora com o herói a seu serviço. Yey!

A capa desta edição inglesa é do veteraníssimo Peter Jones, muito ativo desde as décadas de 1970 e 80, quando se destacou da batelada de artistas inglesas que veio no rastro de Chris Foss. O que o destacava era justamente fugir da tendência firmada por Foss, de inundar as capas dos livros de FC com naves espaciais aerografadas, estruturas mastodônticas e paisagens espaciais mínimas. Jones executava imagens estilizadas, em paisagens exóticas e com figuras humanas românticas e sofisticadas. Aqui ele faz o contrário e produz uma nave genérica, com efeito geral positivo, mas algumas soluções de arte final meio toscas.

 

Arte de capa de Marco Cena.

Padrão 20: A Ameaça do Espaço-Tempo, de Simone Saureressig. Porto Alegre: Editora Besouro Box, 2014, 160 páginas. Capa e ilustrações de Marco Cena. Brochura. Tendo publicado pela primeira vez na década de 1980, Simone Saueressig é minha colega na Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015). Na orelha da contra capa ela se lembra dos tempos em que publicava em fanzines como o Boletim Antares. Publicou antes da maioria dos autores do período, e logo se firmou no campo da literatura infantil e juvenil, ganhou prêmios e se mantém em atividade até hoje. É uma pioneira da fantasia folclórica nacional, hoje uma tendência bem-sucedida, exercitada por escritores como Christopher Kastensmidt e Felipe Castilho.

Esta é uma movimentada ficção científica ambientada na Europa e protagonizada por uma garota brasileira em férias na França, Maria do Céu Andrade, que se envolve em um distúrbio em Paris, que muda sua vida. Ela acha que é a produção de um filme envolvendo um dinossauro, mas é levada a contragosto, por uma espécie de grupo de intervenção, até o CERN, lar do maior acelerador de partículas do mundo. Lá ela descobre que os cientistas conseguiram reproduzir buracos negros isolados por campos magnéticos, e que, sempre que o isolamento sofre uma oscilação, a singularidade desmorona e é consumida por si mesma. Mas no processo surgem fissuras no tecido do espaço-tempo, por onde surgem fenômenos temporais como dinossauros, romanos antigos e parisienses do século 18 invadindo as ruas para causar a Revolução Francesa. O pano de fundo inclui uma situação de thriller, envolvendo ações de sabotagem e terrorismo por parte de uma organização fundamentalista cristã. A autora lida muito bem com as peripécias e com a dinâmica entre os jovens personagens, algo central para o clima jovem-adulto do texto. Sua heroína é caracterizada com economia, sem deixar de ser encantadora. O lado romântico também não é esquecido — entre Maria do Céu e o jovem filho do chefe de pesquisa do projeto. Além disso, Saueressig apresenta um estilo límpido e, perto do fim, conduz a narrativa num crescendo, que, numa surpresa positiva, leva a uma conclusão metafísica. Trata-se de um voo pela evolução do universo, com direito a duas criativas páginas em que texto, ilustração e soluções tipográficas se misturam para marcar essa transição. O resultado é uma novela redonda e, em muitos momentos, cintilante. Eu gostei da arte interna de Marco Cena, em tons de cinza e com imagens digitais fundidas com habilidade, mas sua arte de capa ficou estranha e fora do clima da novela.

 

Arte de capa de Vincent Di Fate.

One Man’s Universe: The Continuing Chronicles of Arthur Morton McAndrew, de Charles Sheffield. Nova York: Tor Books, 1.ª edição, 1993, 308 páginas. Capa de Vincent Di Fate. Trade paperback. O livro reúne uma série de histórias escritas por Charles Sheffield, publicadas em revistas como Analog, tendo como protagonista o cientista que aparece no título. É um físico teórico e prático que acumula, ao longo dos episódios, um impressionante número de descobertas científicas e desenvolvimentos tecnológicos no futuro em que vive. A história é narrada pela sua companheira de aventuras, Jeanie Roker, uma piloto espacial. Mac é um cabeçudo — uma espécie de Sheldon Cooper (da série The Big Bang Theory), um pouco menos de impertinência —, enquanto Jeanie é uma mulher de ação, prática, sexual e intrépida. Um esquema semelhante está na série Alex Benedict, de Jack McDevitt. Desde a primeira crônica de Arthur Morton McAndrew, o padrão que se estabelece é o de Jeanie resgatando Mac de situações potencialmente fatais.

“Killing Vector” abre o livro. McAndrew faz pesquisas com um miniburaco negro a bordo de uma nave de cruzeiro pilotada por Jeanie, quando são atacados por piratas espaciais que vieram libertar um genocida do futuro superpovoado, transportado por ela. O cientista é ferido mas Jeanie consegue salvá-lo. No momento em que os criminosos estão partindo, são vaporizados quando a singularidade nua cultivada tão cuidadosamente por McAndrew perde a estabilidade. Em “Moment of Inertia”, McAndrew testa, acompanhado de uma jornalista que força sua presença junto a ele, um mecanismo engenhoso (e segundo o autor, matematicamente viável) de compensar por via mecânica os efeitos da aceleração sobre equipamento e tripulantes. A experiência é patrocinada pelo Instituto Penrose, que, quando Mac desaparece, chama Jeanie para pilotar uma segunda nave. Houve um problema mecânico na nave do cientista, de modo que ele e a passageira só podem sobreviver se continuarem acelerando constantemente. Um planeta supermassivo é a solução para que ele consiga estabilizar o voo pelo tempo necessário para ser alcançado por Jeanie. Para colocar a nave de Mac nos eixos, Jeanie precisa aplicar-lhe uma pancada lateral com a nave dela. É tudo muito científico e calculado, embora provavelmente a jornalista discorde. É claro, a história tem um componente humorístico, assim como “All the Colors of the Vacuum”, a mais hilariante do livro. Nela, a dupla vai interceptar um asteroide transformado em nave de gerações, porque ela transporta um supergênio matemático — pior que “Ramanujan” — juvenil, Sven Wicklund. Mas a sociedade viajando no asteroide é uma utopia doida, cujas autoridades logo convidam Jeanie e Mac para se reproduzirem, e ele a integrar o seu Conselho de Intelectos. O cientista fica muito lisonjeado — até que Jeanie descobre que o conselho é composto de cérebros, globos oculares e espinhas dorsais flutuantes em tanques líquidos. Totalmente filme-B da década de 1950. O resto da história são os dois tirando o jovem Wicklund do lugar, com direito aos três flutuando brevemente no vácuo, sem trajes espaciais. O título se refere ao fato do rapaz ter descoberto como extrair energia do vácuo. Por sua vez, “The Manna Hunt” dá ao leitor um pouco mais sobre o futuro superpovoado da série, com um projeto para encontrar planetesimais da Nuvem de Oort contendo compostos orgânicos complexos, que possam ser processados como alimento para alimentar os bilhões famintos da Terra. A aventura acontece em um desses corpos subplanetários, Manna, onde um outro grupo de pesquisa desapareceu. Ha uma outra mulher passageira, nessa história, uma espécie de Ministra da Alimentação, que resolve acompanhar Mac em uma expedição ao oceano encapsulado de Manna, contendo estranhas formas de vida. O cientista, ao contrário de Jeanie, acha que não há perigo, e coloca os dois em perigo, mobilizando Jeanie para resgatá-los. Fica claro que a neurodivergência de Mac pode levar a situações de perigo de morte, algo que o autor não problematiza e que me deixou irritado: ele merecia uns bons tapas de Jeanie. “Shadow World” traz a burocrata de volta, como vilã. Ela perdeu um braço ao cutucar uma das criaturas subaquáticas da história anterior, e manobrou para ter a dupla de heróis com dois capangas em uma mesma nave, com destino aos limites do Sistema Solar. Um dos caras tenta abusar sexualmente de Jeanie, e leva a pior. A situação engrossa e Mac continua sem cair a ficha, de modo que novamente conduz a intriga até o perigo mortal. Eles encontram um tipo de matéria escura formado no Big Bang, bem quando os capangas se movem para dar cabo dos heróis. Basta dizer que esse “objeto” da física acaba tendo um papel na neutralização de um dos bandidos e na captura do segundo. “The Invariants of Nature” resolve o arco envolvendo a burocrata e o seu rancor, com Jeanie e Mac sendo convidados para uma estação submarina na Terra, sob o controle do tal Ministério da Alimentação. Jeanie só escapa de outro tipo bastante pulp de morte por ser uma mulher alerta e de recursos. Como fecho desse ciclo de aventuras, “Rogueworld” começa com o encontro da jovem filha de Jeanie e o supergênio Wicklund, ambos partindo para investigar um planeta voando livre no espaço interestelar (como aquele “herdado” por Shiroma na minha noveleta “Renegada”, em Shiroma, Matadora Ciborgue). O casalzinho sofre um imprevisto e lá vão Mac e Jeanie resgatá-los, com direito a uma catastrófica aventura na superfície gelada no planeta interestelar, que, com um impacto causado pelo módulo de pouso, rompe-se em um trilhão de pedacinhos por causa da repercussão vibracional sobre a sua matéria congelada. O livro fecha com um substancial artigo de Sheffield tratando da correção científica de cada uma das muitas ideias intrigantes que encontramos nas histórias. Essa qualidade de FC hard combina bem com o lado burlesco das aventuras desse odd couple da FC, que acumula um currículo enorme de descobertas inéditas e marcantes, e mesmo assim continua sofrendo com a burocracia científica. Lendo essas histórias, fica claro que a física e a matemática são a chave para abrir o espaço à humanidade.

A arte do veterano Vincent Di Fate na capa parece um reaproveitamento, mas é típica desse artista prolífico e longevo, combinando uma paisagem espacial sugestiva com uma nave que apresenta soluções tecnológicas de futuro próximo, que parecem estar virando a esquina.

 

Science Fiction Poster Art, de Tony Nourmand & Graham Marsh, eds. Londres: Aurum Press, 2003, 192 páginas. Prefácio do Prof. Sir Christopher Frayling. Álbum. Encontrei um exemplar em boas condições deste livro no Sebo do Messias, na Praça João Mendes, centrão de São Paulo. E por R$ 30,00. Veio bem a calhar para as minhas pesquisas de iconografia de ficção científica, sendo um livro que cobre a arte de posters de cinema desde os primórdios do gênero na telona — o que vale dizer, desde os primórdios da própria arte cinematográfica. O prefácio de Frayling, então Reitor da London’s Royal College of Art, aborda a importância da arte dos posters de cinema, e demonstra conhecer bem a expressão da FC nessa área.

O fato da dupla Nourmand & Marsh estarem na Inglaterra a coloca entre a produção americana e a europeia, de modo que o livro possui uma rica representatividade de artistas e de tradições de arte de poster. Ainda no começo do século 20, há algumas joias de Albert Robida (nome importante para o visual steampunk), Boris Bilinsky e Heinz Schulz-Neudamm (para Metropolis). Eu não sabia, por exemplo, que Robida tinha feito poster de cinema (para L’Avventure extraordinaire di Saturnino Farandola, de 1914). O boom do cinema-B hollywoodiano é representado no livro pelo prolífico e prolífico Reynold Brown, mas é interessante confrontá-lo com o trabalho dos italianos Carlantonio Longi, Alfredo Capitani, Luigi Martinati, Sandro Simeoni, Renato Fratini (cujo poster de Invasores de Marte lembra a arte do ilustrador editorial Richard Powers) e, especialmente, do dinâmico Anselbo Ballester. Algumas páginas fazem um perfil rápido de um artista em particular — como o americano Bob Peake (Rollerball; Jornada nas Estrelas) ou o inglês Philip Castle (Laranja Mecânica) — outras agrupam vários posters diferentes de um mesmo filme, incluindo versões japonesas ou alemãs de um filme americano, ou de produções originais desses países de outros como Zemsta Kosmosul, um filme polonês. Muitos países da Europa do Leste tinham reserva de mercado para artistas locais, algo que foi muito discutido no Brasil, e a distância política (estavam sob a esfera soviética na época) em relação à Hollywood resultava em interpretações muito singulares e às vezes estranhas, de filmes de imagética conhecida como E.T.: O Extraterrestre, WestworldO Planeta dos Macacos (os posters romeno e checo-eslovaco apostaram no psicodélico), Robocop, O Exterminador do Futuro, Star Trek e Star Wars. Ao mesmo tempo, o poster francês de Stalker apela para o abstracionismo geométrico em cima do Quadrado Vermelho, um importante quadro de Kazimir Malevich. Há uma seção sobre seriados, que deixa claro que a adaptação de histórias em quadrinhos de super-heróis é algo bem antigo, virtualmente contemporâneo ao próprio surgimento desse campo editorial. A qualidade internacional da cobertura de Science Fiction Poster Art e o conhecimento profundo da área que o seu texto esparso expressa, são os pontos fortes que tornam este livro uma joia.

 

Outras Leituras

Arte de capa de Eldar Zakirov.

Asimov’s Science Fiction Vol. 41, N.ºs 11 & 12, November/December 2017. Durante todo o ano de 2017, a Asimov’s Science Fiction esteve comemorando os seus 40 anos de existência. A revista começou sua vida em 1977 como Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. Na época, era comum revistas de ficção de gênero terem títulos com nomes de personalidades que eram sinônimos daqueles gêneros — como Ellery Queen’s Mystery Magazine e Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine. E de fato, o autor Isaac Asimov virou sinônimo de ficção científica para gente, no mundo todo.

A história de capa desta edição de fim de ano é “I Met a Traveller in an Antique Land”, de Connie Willis, autora que nos últimos dois anos se tornou uma presença marcante aqui no Brasil. A história, mais seca do que a autora costuma produzir e com um humor bastante abafado pela exposição do assunto, acompanha um blogueiro convicto que acredita que é apenas natural que o e-book substitua o livro de papel. Num dia de chuva em Nova York, ele se abriga em um estranho sebo que o leva a um depósito gigantesco, subterrâneo, de livros antigos. Uma gerente surge e ele se cola a ela para receber a explicação de que o lugar guarda os últimos livros, livros destruídos pelo tempo, por catástrofes, pelo descuido e pelas ações políticas de censura, até desaparecerem. São livros extintos para sempre, nunca digitalizados ou conservados em outra tecnologia. É uma novela impactante pelo que sugere — os livros são a baliza do processo civilizatório, e seu desaparecimento ou fragilização por essa postura pró-digital é algo a se considerar com atenção. Na minha cabeça, a história se conecta fortemente com o premiado livro The Swerve: How the World Became Modern (2011), de Stephen Greenblatt, que trata do livro Da Natureza, de Lucrécio. Para chegar a esse assunto, ele fala do bibliófilo humanista Poggio Bracciolini, o sujeito que trouxe à luz Da Natureza, depois de encontrá-lo em um monastério. Greenblatt também conta o que foi a perda de incontáveis livros da antiguidade clássica até o Renascimento. Segundo Greenblatt, o resgate da obra de Lucrécio resultou numa guinada (swerve) no caminho da sociedade ocidental. O que está implícito é que outros livros, perdidos para sempre, poderiam ter tido um impacto semelhante.

Outra leitura interessante dessa edição foi a noveleta de Greg Egan, “The Discret Charm of the Turing Machine”, mais sutil e equilibrada que outras histórias dele que li. E engenhosa, já que acompanha um homem despedido porque seu trabalho foi absorvido por um software de inteligência artificial e que, aos poucos, vai concluindo que os programas de reconhecimentos de padrões não apenas determinam padrões de consumo e de estilo de vida, mas passam também a organizar um sistema de compensação legal e moral para as vítimas da automação. É como se, para não enfrentarem a revolta dos homens, as máquinas precisassem usar o sistema para dar aos descontentes o consolo que sua personalidade e hábitos humanos exigem — como em uma espécie de estado de bem-estar social gerenciado pelas máquinas para dar o mínimo aos cidadãos. Mas talvez seja essa a tendência da maioria das instâncias de estado de bem-estar social que já temos. Afinal, gerenciar (maliciosamente, inclusive) os descontentamentos, é algo próprio das democracias. Já o conto “The Last Dance”, de Jack McDevitt, sobre um homem que usa os serviços de uma empresa que alimenta um robô com a personalidade de sua esposa falecida, eu achei amadorístico, sem brilho e inconsistente.

—Roberto Causo

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Leituras de Janeiro de 2018

O ano começa como o ano anterior havia terminado com um livro de Ana Cristina Rodrigues, e começo este com outro livro da mesma autora. A fantasia foi bem representada nas minhas leituras de janeiro, que também incluíram, porém, FC cyberpunk e feminista.

 

Arte de capa de Frede Tizzot.

Fábulas Ferais: Histórias dos Animais de Shangri-lá, Conforme Relatadas no Atlas Ageográfico dos Lugares Imaginários, de Ana Cristina Rodrigues. Curitiba: Arte & Letra Editora, 2017, 86 páginas. Capa de Frede Tizzot. Capa dura artesanal. O último livro que li em dezembro do ano passado foi Minicontos de Fadas (Aquário, 2017), de Ana Cristina Rodrigues, e o mês de dezembro foi substancialmente dedicado à leitura de livros da Arte & Letra Editora, de Curitiba. Então eu começo 2018 lendo outro livro de Ana Cristina, e um lançado pela Arte & Letra. Trata-se de um livro particularmente bem cuidado nos seus aspectos gráficos, com uma maravilhosa capa dura artesanal de Dani Shuster & Patricia Jaremtchuk.

O título já nos diz que se trata de uma montagem de fábulas de animais, mas o reino de Shangri-lá, por agrupar bichos de todos os cantos e de espécies de continentes diversos, tem  uma qualidade própria de Nárnia, a imortal criação de C. S. Lewis. Inclusive, apresenta animais fabulosos como quimeras e minotauros. O livro é o primeiro título de um universo maior, o do “Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados”, que já tem página no Facebook. A estrutura de Fábulas Ferais é episódica (valendo aí um índice, algo que o livro deixou de fora) e envolve as encrencas políticas e guerreiras dos bichos na cidade fortificada, de como a quimera Gilgamesh chegou ao poder e como foram as primeiras lutas contra os seres humanos. Ao final de cada episódio tem-se excertos de verbetes do atlas em questão (existe uma disparidade, atribuída não sei ao que, no título do atlas, entre o que aparece no livro e o que vemos no Facebook). A sugestiva capa de Frede Tizzot, feita sobre a arte “The Haunt of the Troll” (1910), de Reginald L. Knowles (1879-1951), tem movimentos sutis e foge do óbvio. Tizzot também assina o elegante projeto gráfico, que valoriza muito o livro.

 

Arte de capa de Steve Gilberts.

The Long Look, de Richard Parks. Detroit: Five Stars, 1.ª edição, setembro de 2008, 298 páginas. Capa de Steve Gilberts. Hardcover. Há alguns anos, contei a Christopher Kastensmidt que gostava muito das histórias de fantasia do escritor americano Richard Parks, e encontramos nisso algo em comum. Eu até havia tentado, sem sucesso, selecionar uma história de Parks para aparecer na série Asas do Vento, a coleção de livros de bolso da Devir Brasil. Christopher me presenteou, então, com dois livros de Parks. Este romance de alta fantasia, The Long Look, e a coletânea de histórias The Ogre’s Wife (2002).

O romance é o primeiro de uma trilogia apresentando Tymon the Black, um mago adepto da ilusão, do uso de golens e de uma vidência precognitiva conhecida como “long look“. Conhecer o futuro faz com que ele se mexa para minimizar a dor e a miséria da guerra, e corrigir injustiças (quando possível). É acompanhado pelo anão e aspirante a cronista Seb — um tipo inteligente e que, pelas indicações respingadas no texto, é tão bom de briga quanto Bruce Lee. A eles se agrega, lá pelo meio do livro, um aprendiz de feiticeiro que a dupla salva de um matador de aluguel. Outros personagens secundários também aparecem e têm um bom tratamento — especialmente as mulheres: a Princesa Ashesa em particular. As mulheres são retratadas como firmes em suas posições e o feminismo que projetam não soa estridente, parecendo pessoal e natural a elas. Ao contrário de muita fantasia por aí, os personagens de Parks, heróis ou vilões, têm motivações compreensíveis e ancoradas nas circunstâncias sociais e políticas que, embora apenas esboçadas, parecem bastante concretas ao leitor. A ficção de Parks se caracteriza pela inteligência, sutileza, simpatia pelos personagens e eficiência enganadora em todos os fundamentos da composição literária. De fato, o romance tem uma aura tanto de alta fantasia tolkieniana quanto de contos de fadas, o que em si já uma realização. Mas há traços subversivos costurados em cada elemento — a começar pelo herói, Tymon, que, para ser efetivo dentro da política palaciana do seu mundo, precisa se apresentar como vilão.

 

Arte de capa de John Everett Millais.

Pré-Rafaelismo (Pre-Raphaelites), de Robert de la Sizeranne. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha O Mundo da Arte volume 27, 68 páginas. Capa de John Everett Millais. Tradução de Gil Reyes. Capa dura. Existiu uma arte de fantasia, antes da fantasia como gênero literário existir — ou enquanto os elementos que viriam a dar forma à fantasia ainda eram peneirados nos agitos do século 19. Essa arte, especialmente na Inglaterra, foi a pintura Pré-Rafaelita, surgida a partir de 1846 e galvanizada em torno da Irmandade Pré-Rafaelita, um grupo de jovens artistas descontentes com o academicismo e o Neo-Classismo da época. Pregavam a atenção ao detalhe e à natureza, a recuperação de temas da Idade Média e do Renascimento (anteriores a Rafael), da cultura clássica e do folclore, e a pintura in loco — uma prática que chegou a render imagens de precisão fotográfica. É fácil reconhecer sua influência na ilustração realista de fantasia feita por Kinuko Y. Craft, Janny Wurts, Stephen Youll, Donato Giancolla e dúzias de outros artistas.

Uma disposição interessante dos pré-rafaelitas — especialmente no seu agitador, Ford Madox Brown (1821-1893) — estava no interesse de popularizar a arte, em um país eminentemente elitista. É adequado, portanto, que tenham tido impacto na ilustração de um gênero popular como a fantasia. O movimento Arts & Crafts, do qual alguns pré-rafaelitas foram fundadores (como William Morris) ou membros, também deve se conectar com essa postura. (O Arts & Crafts também tem suas digitais na arte de fantasia, como no trabalho muito romântico de Thomas Canty.) O autor, de la Sizeranne, lista outros três nomes além de Brown, como importantes para a primeira hora do movimento: Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Milais. Mas ele também aponta o trabalho do crítico John Ruskin, como essencial para o estabelecimento da nova escola. Os livros dessa série tem uma seção que discorre sobre os principais artistas de cada escola ou movimento, e aqui os selecionados são Hunt, Millais, Rossetti, Brown, Edward Burne-Jones, e William Morris. Certos nomes da segunda hora do movimento acabaram ficando de fora, embora tenham pintado algumas das obras mais conhecidas e influentes do pré-rafaelismo: John William Waterhouse e Edmund Blair Leighton (que aparecem em outras partes do volume). De qualquer modo, este é um livro acessível e bem interessante para o fã de fantasia e de sua ilustração editorial. Para sublinhar ainda mais a conexão do seu assunto com a arte de fantasia, veja este ótimo artigo no blog de Terri Windling (em inglês), que enfatiza a vinculação da escola com o Romantismo.

Lady of Shallot, baseado no poema arturiano de Alfred, Lord Tennyson, é uma adorável pintura de John William Waterhouse, ausente do livro.

 

The Peripheral, de William Gibson. Nova York: Putnam’s, 1.ª edição, 2014, 486 páginas. Hardcover. Aqui no Brasil, a Editora Aleph, de São Paulo, retomou a sua publicação de ficção científica no século 21 com a obra de William Gibson, que se tornou um dos seus carros-chefes. Mas este romance de FC de futuro próximo e viagem no tempo (tema novo para Gibson) ainda não apareceu por aqui. Estava comigo há algum tempo e o que me fez tirá-lo da estante foi uma entrevista feita com Gibson, publicada por Elizabeth Hand na edição de ressurgimento da revista OMNI. O que me chamou a atenção foi a hipótese de se tratar da primeira narrativa de viagem no tempo, escrita por Gibson. Não é bem, mas chega perto.

Apenas dois personagens detêm o ponto de vista narrativo, cada um se ocupando de um linha do livro: Flynne Fisher, uma jovem americana do futuro próximo; e Wilf Netherton, um inglês do futuro não tão próximo. Os dois começam a se aproximar depois que Flynne é recrutada por seu irmão, Burton, um veterano de guerra, para substituí-la naquilo que ela acredita ser o beta-teste de um game de realidade virtual. Isso enquanto Burton vai dar um pau num grupo fundamentalista cristão numa cidade vizinha. Ele é preso e demora para voltar. No ínterim, a garota testemunha uma espécie de assassinato usando agentes nanitas, numa Londres estilizada do futuro. Acaba sendo que não era um game, mas o modo que os aristocratas das cleptocracias europeias frequentadas por Wilf encontraram para se divertirem “viajando no tempo”. O rationale científico é de que se a viagem no tempo é impossível, o fluxo de dados do passado para o futuro não o é (uma noção que Gibson tirou do colega cyberpunk Rudy Rucker, um matemático). A consciência de Flynne é levada ao futuro para atuar lá tripulando uma espécie de robô ou androide chamado de periférico (daí o título). Esse futuro é descrito como o resultado das agressões ambientais e sociais que estamos armando agora, após um evento conhecido ironicamente como “Jackpot” (o grande prêmio do caça-niqueis). É mais ou menos o que Bruce Sterling chamou de “heavy weather” no romance Tempo Fechado: condição de vida global, marcada pelas consequências da crise climática. Pode ser que o objetivo dos aristocratas com o truque temporal fosse inicialmente só a recreação exclusivista, mas ao longo do romance vai surgindo a hipótese de intervenções seletivas no passado (o nosso futuro próximo) que tornem o Jackpot menos grave. Para isso, manipulações financeiras e de compra e venda de empresas coloca Flynne e seus associados sentados na grana, mas tendo que se defender do crime organizado e de policiais e federais (chamados lá de “Homers”: de Homeland Security) corruptos. Obedecendo a um certo padrão estabelecido desde Neuromancer, em 1984, The Peripheral firma logo cedo algumas encrencas para os protagonistas e alguns mistérios, colocando-os em movimento lento até revelações que assustam pelo seu retrato tanto de uma aristocracia que parece monstruosa, quanto de desenvolvimentos tecnológicos que nos fazem encolher em nossa condição humana. No caminho, toma-se contato com uma plêiade de personagens estranhos, excêntricos, bizarros mas quase sempre camaradas. A construção do futuro (ou futu-ros, aqui) é, como de hábito, um ponto forte de Gibson. Tanto o degradado futuro próximo de Flynne, que vive em uma América rural meio desértica e sem perspectiva, quanto o futuro pós-humano de Wilf. Mas as descrições muitas vezes brilhantes são alternadas com uma exposição por meio de diálogos rápidos que acabam recorrendo ao cacoete de um personagem sempre dizendo algo do tipo, “Hã, o quê?”, para se tornarem mais claros. A prosa de Gibson está mais minimalista neste romance, e algo da densidade e das suas marcas de estilo foi perdido com isso. Existe um papo de que The Peripheral vai virar uma série de TV, com o envolvimento do diretor Christopher Nolan.

 

Arte de capa de Qiu Ying.

Arte Chinesa (Chinese Art), de Stephen W. Bushell & Pierre Emmanuel Klingbeil. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção O Mundo da Arte vol. 30, 2017, 68 páginas. Arte de capa de Qiu Ying. Tradução de Gil Reyes. Capa dura. O primeiro romance de Shiroma, Matadora Ciborgue tem como título provisório “Cerco em Ulaambaatar”, e nele a heroína se envolve com uma organização criminosa interestelar semelhante às tríades chinesas: a T’ien-Ti-Hwey da Era Galáctica. Para explorar alguma coisa da cultura chinesa no romance, comecei a minha pesquisa com este livro. A primeira coisa que se pode dizer sobre ele é que não se fixa em um movimento, estilo ou escola, como a maioria dos títulos da coleção. Isso provavelmente é inevitável, e o aspecto panorâmico se destaca.

A introdução abre com a interessante afirmativa de que a China não é um país tão fechado quanto se imagina. Não obstante, o livro parece ser composto tanto do material selecionado para o passeio panorâmico, quanto de ausências, já que é uma adaptação, por Klingbeil, do trabalho de Bushell — que morreu em 1908. Mesmo assim, o livro, belamente ilustrado com fotografias de primeira categoria, fornece uma visão geral das direções que a arte chinesa tomou desde a antiguidade, com seções sobre arquitetura, entalhes e artes de lapidação, materiais manufaturados e arte pictórica. A característica da “geomancia” (ou feng-shui) na arquitetura é das mais interessantes. Por outro lado, o único artista chinês nomeado contando com reprodução de obra de sua autoria na seção de arte pictórica é Qiu Ying, que aparece na capa. A atualização mais óbvia é a inclusão dos Guerreiros de Xian, do Exército de Terracota descoberto em 1974, bem depois da morte de Bushell.

 

A Destruição do Mundo, de Vero de Lima. São Paulo: Editora Cacique, s.d. [1955?], 182 páginas. Brochura. Mais uma leitura de ficção científica brasileira do Período Pioneiro (1857-1957), visando a versão “revista e ampliada” de Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil. Trata-se de um romance curto ambientado nos Estados Unidos em futuro próximo, escrito originalmente em 1936. Na nota inicial, Vero de Lima conta que o apresentou inicialmente a Monteiro Lobato. (O próprio Lobato havia ambientado um romance nos EUA, o infame O Presidente Negro ou O Choque das Raças, de 1925.) A primeira parte do romance apareceu como uma novela, no jornal A Época, sob o pseudônimo de “J. Allan Patrick”.

O protagonista é o jovem herdeiro milionário Richard Write, que, depois de voltar da guerra, abandona a vida loca e resolve empregar seu capital e interesse científico para o avanço da humanidade. O arrazoado científico é confuso: a princípio, fala-se de que o segredo da “desintegração nuclear” trará uma revolução à humanidade. Mais tarde, fala-se de um “raio condutor” e de uma placa com propriedades energéticas capaz de ser usada tanto como arma quanto como promotora da fertilidade do solo e das plantas. Depois que suas intenções vazam para a imprensa, ele é convidado para falar em um evento da elite novaiorquina, na sede da Liga Anti-Guerreira, organização que remete aos movimentos pacifistas do entre-guerras), mas seus discurso evita o comentário científico, para assumir uma retórica pacifista e moralizante, e se dedicar à defesa do direito natural, uma escola jurídica que, no Brasil, alimentou o pensamento do Movimento Integralista. Ao final do discurso, White diz:

“Esperavam ouvir de minha boca alvíssaras novas, anunciando-lhes maravilhosas descobertas científicas para salvar o mundo. Mas a salvação do mundo não será obra da ciência. A ciência, quando muito, descobre e utiliza o conteúdo da natureza, mas a salvação da humanidade pertence ao domínio do espírito. Convençamo-nos do seguinte: As elites são como as plantas pujantes e úteis; se porém o solo em que medrarem fôr inculto e sáfaro, seus frutos serão, por isso mesmo, raquíticos e até nulos. Cultivemos, portanto, o solo, se desejamos que as elites produzam bons frutos. E, na vida social de uma nação, o povo é o solo. Humanizemos o mundo, dando-lhe o direito humano e mínimo natural, e que garanta uma existência decente a todos […]” —Vero de Lima, A Destruição do Mundo.

É um artifício do herói para sair da mira de Mr. Ember, “a maior força político-industrial da América”, que pretende fazer dinheiro com qualquer inovação high-tech que possa usar na próxima guerra. Mas também expressa a desconfiança da FC brasileira quanto à ciência e a tecnologia, e adesão a um humanismo moralizante e católico. Essa desconfiança foi uma das marcas locais dominantes no gênero até a eclosão da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982 a 2015), e continua vigente. O discurso e o anúncio do novo conflito encerram a primeira parte do livro, que também expressa outra tensão característica da FC brasileira do Período Pioneiro (1857 a 1957), aquela entre a narrativa de aventura e a de observação social ou de costumes, presente desde, por exemplo, A Rainha do Ignoto (1899), de Emília Freitas. Assim, a intriga alterna traições de funcionários, assassinatos, ações de gangsters à mando do industrial vilão, e militares invasores asiáticos (perigo amarelo!), com observações sobre o amigo poeta do herói, sobre seus empregados, namorada e familiares. Obviamente, Vero de Lima tem familiaridade com as convenções da ficção pulp da década de 1930, e com algo da realidade americana de então. Mas não em profundidade, e os desvios e subterfúgios que adota para se esquivar do detalhe específico são evidentes. A certa altura, e de modo interessante, o texto denso do autor parece adotar essa sinuosidade como marca de estilo, aproximando-o do understatement sofisticado característicos da ficção americana da época. Mas o fato é que a qualidade da sua imaginação tropeça seguidamente, e em especial no denouemant, no qual White é capturado pelos invasores asiáticos e obrigado a construir seu raio da morte e visor remoto (recurso visto tanto em Monteiro Lobato quanto nos contos de Berilo Neves, nas décadas de 1920 e ’30). O pacifista White, assim como o pacifista Campos, no romance de Jeronymo Monteiro 3 Meses no Século 81 (1947), resolve que o único meio de dar fim à guerra é o extermínio dos povos conflitantes ou da humanidade como um todo. Aí a narrativa se encontra com o título do livro, e o romance com o seu conteúdo católico, com missionários sobreviventes vindo redimir White na ilha solitária, depois que ele realizou o Armagedom.

Vero de Lima — eu me toquei depois de ler o livro — tornou-se em 1956 o editor (ou “redator-chefe”) da versão brasileira da lembrada revista americana de FC Fantastic. Publicou nela, inclusive, pelo menos um conto. No Brasil, a revista durou de 1955 a 1960, sendo a revista nacional de FC que circulou por mais tempo. O autor foi, portanto, um daqueles raros nomes brasileiros que teve uma atuação relativamente dedicada ao campo da FC, antes da inserção da Geração GRD a partir de 1960.

 

The James Tiptree Award Anthology 3, de Karen Joy Fowler, Pat Murphy, Debbie Notkin & Jeffrey D. Smith, eds. San Francisco, CA: Tachyon Publications, 2007, 274 páginas. Trade paperback. O Prêmio James Tiptree é  voltado para o reconhecimento de obras que desafiam os papeis sexuais. E já há um tempinho. Um dos lados mais divertidos da iniciativa é a venda de bolos pelas moças do comitê em convenções de ficção científica, para levantar fundos para o prêmio. Esta antologia dedicada a ele e aos seus vencedores e destaques me foi presenteada pelo Prof. Alfredo Suppia, autor de Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro (Devir Brasil), que a trouxe de um dos congressos de que participou, nos EUA.

O livro combina histórias de ficção científica e fantasia, textos de não-ficção e listas com os resultados do prêmio, ao longo dos anos (ele foi fundado em 1991). As histórias são ganhadoras ou finalistas do prêmio. Mas um dos textos que mais me tocou foi justamente um ensaio: “Shame”, de Pam Noles, sobre a questão da representação na FC e fantasia, escrito antes da questão se tornar determinante, nos últimos anos. Noles, uma afro-americana, recorda com muita graça, como foi finalmente encontrar personagens de cor na série de fantasia Terramar, de Ursula K. Le Guin. A própria Le Guin, falecida agora em 2018, está no livro com a bela novela “Mountain Ways”, sobre uma idílica comunidade poli-amorosa que tem os seus próprios desajustados. “Have not Have”, de Geoff Ryman, é excerto do seu elogiado romance Air (2006), e trata de uma mulher que vive em uma vila no “Karzistão” e que tem como negócio guiar visitas a centros comerciais com outras mulheres, para organizar casamentos. No processo, ela funciona como um pilar da comunidade, cuidando do povo da vila de diversas maneiras. Mas tudo está ameaçado por uma inovação tecnológica que fará com as pessoas possam receber a internet diretamente em suas cabeças. Ryman é o líder do movimento Mundane-SF, e o texto dele aqui é um bom exemplo dessa corrente. Uma das narrativas mais longas da antologia é “Little Faces”, de Vonda N. McIntyre: uma utopia feminina do futuro distante e composta por mulheres aristocráticas e fashionistas vivendo solitárias em naves vivas e se reproduzindo com o concurso de pequenos alienígenas que vivem como parasitas em seus corpos — uma ideia que emana quase que diretamente da noveleta “Bloodchild” (1984), de Octavia E. Butler. A história de McIntyre, que vai na direção oposta à Mundane-SF de Ryman, me alienou na sua maior parte, soando artificial e sem enredo. Butler mereceu um ensaio muito interessante sobre a sua obra, “The Future of Female: Octavia Butler’s Mother Lode”, de Dorothy Allison.

Outras histórias no livro são “The Glass Bottle Trick”, da afro-canadense Nalo Hopkinson; “Wooden Bridge”, da australiana Margo Lanagan; “Dearth”, da americana Aimee Bender; e “Liking What You See: A Documentary”, de Ted Chiang — história que já discuti aqui ao resenhar o livro de Chiang, Story of your Life and Others. Como o prêmio homenageia o pseudônimo de Alice B. Sheldon, “James Tiptree, Jr.”, a antologia traz “Dear Alice Sheldon”, de L. Timmel Duchamp, um texto de não-ficção que explora, numa estrutura epistolar, as características da ficção da autora. E também a pioneira e premiada noveleta pré-cyberpunk “The Girl Who Was Plugged In” (1973), intrigante e violenta narrativa meio beatnik sobre uma jovem fisicamente deformada mas de coração romântico que recebe um extreme makeover pela ciência de uma empresa de publicidade, que a fabrica como figura do jet-set internacional que promova os seus produtos e tendências. A narrativa, muito irônica e às vezes nonsense, ao mesmo tempo que denuncia a fabricação de imagens femininas, descreve a heroína como sem noção e entregue aos seus devaneios, telecomandada por computadores. Cabe assim numa postura feminista que se firma pela crítica do estereótipo e do comportamento feminino frívolo e não-esclarecido, muito presente, inclusive, na ficção pós-modernista americana. Eu me pergunto se essa perspectiva teria algum futuro no Brasil em tempos de demanda por retratos positivos da mulher, e com um público leitor com grandes dificuldades para entender ironia.

—Roberto Causo

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