Tag Arquivo para Simone Saueressig

Leituras de Maio de 2018

Maio foi um mês de muitas atividades, inclusive eventos que fui assistir ou participar. Fiquei meio que sem o tempo habitual de leitura, e acabei lendo poucos livros e mais histórias em quadrinhos.

 

Science Fiction, de Adam Roberts. Londres & Nova York: Routledge, The New Critical Idiom, 2003 [2000], 204 páginas. Trade paperback. Em maio, fui convidado pelo editor Adilson Silva Ramachandra, da Editora Jangada, para falar com Cláudia Fusco no lançamento de A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas, de Adam Roberts. Achei então este Science Fiction na pilha de livos que meu filho uso na sua pesquisa de mestrado, e que ele tinha deixado aqui em casa. Eu já havia consultado o livro para as minhas próprias pesquisas, mas era hora de terminar a leitura para me preparar para o bate papo. O livro saiu em uma série muito interessante, The New Critical Idiom, da qual eu já havia lido outros dois títulos, um sobre metaficção e outro sobre mito. Ela se dedica justamente a atualizar o ambiente universitário em língua inglesa, com introduções substanciais a diversos assuntos que vinham entrando nessa esfera, da década de 1980 em diante.

O enfoque de Roberts provavelmente surge da crítica pós-modernista e das questões de identidade que ela incorpora. Lembra especialmente Scott McCracken no seu Pulp: Reading Popular Fiction (1998), ótimo livro que tem a ficção científica como apenas um de seus assuntos — juntamente com a ficção de detetive e a de histórias de amor, e o horror gótico. Isso porque Roberts, a partir da discussão do teórico Darko Suvin do novum (os elementos na FC que parecem novos e dissonantes em relação ao entendimento convencionado da realidade) e do estranhamento cognitivo, reposiciona o encontro com a alteridade como aspecto central do gênero:

“Em outras palavras, a função simbólica-chave do novum da FC é precisamente a representação do encontro com a diferença, o Outro, a alteridade.” —Adam Roberts, Science Fiction (2000).

Novamente, algo semelhante está em McCracken, mas Roberts transforma a constatação em uma espécie de método crítico e de valoração, saudando alguns autores quando eles representam um encontro positivo com a alteridade, e condenando outros por sua deficiência em fazê-lo. Se por um lado, isso o leva a cometer alguns excessos interpretativos, por outro o coloca mais no centro, quinze ou dezoito anos depois, das ansiedades atuais em torno de celebração da diferença e da diversidade, e das qualidades subversivas que a FC pode desenvolver. É interessante ainda observar que neste livro Roberts não é muito simpático à ideia da proto ficção científica (ocorrências de precursores do gênero anteriores ao século 19), ou, na sua definição, pré-Romantismo:

“Eu considero a FC como sendo moderna, não antiga; e como ‘moderna’ eu quero dizer pós-romântica; o que é o mesmo que dizer que ela vem com a reavaliação da cultura e metafísica associada ao período romântico […]” —Adam Roberts, Science Fiction (2000).

O curioso aí é que a discussão da proto FC torna-se central justamente para a original hipótese seu novo livro, A Verdadeira História da Ficção Científica: a tese de que a reforma protestante teria sido essencial para o surgimento da mentalidade necessária à produção da ficção científica.

 

Ate de capa de Donato Giancola.

The Ordinary, de Jim Grimsley. Nova York: Tor Books, 1.ª edição, 2004, 368 páginas. Capa de Donato Giancola. Hardcover. Este é um romance de ficção científica e fantasia de um autor que já ganhou o Lambda Award, focado em assuntos LGBT. Traz uma linda capa do mestre da pintura a óleo Donato Giancola. O autor Jim Grimsley andou sendo publicado na Asimov’s Science Fiction e já foi comparado a Ursula K. Le Guin — comparação que, além da capa, me motivou a conferir este seu trabalho. Faz parte de um universo ficcional que Grimsley vem desenvolvendo, mas com aquela liberdade que caracterizou o universo Hainish de Le Guin.

The Ordinary segue, em sua maior parte, uma linguista chamada Jedda, que, parte de uma delegação diplomática/comercial de um mundo de alta tecnologia, vai a um outro, medievalesco e estranho por ser um mundo plano, Irion. O meio para a visita é um portal mágico que une os dois mundos. A delegação está lá sob falsos pretextos. Os falsos pretextos visam dar uma desculpa, tipo “Golfo de Tonquim” (que disparou a guerra do Vietnã), para a invasão do lugar. A sociedade tecnológica está em guerra, no espaço, com robôs, e precisa dos recursos que Irion possui. Mas o poder mágico desse mundo resulta em uma derrota avassaladora para eles, momento que é um dos melhores, do livro. Jedda fica para trás depois que a delegação é expulsa, e acaba sendo apresentada ao grande mago que controla Irion. Jedda é bissexual. Ela é atraída pelo mago, mas acaba gravitando na direção de uma mulher que irá herdar o poder mágico desse mundo. Até certo ponto, a heroína parece estar sendo treinada pelo homem para se aproximar da mulher, Malin. Salvo pelo tom sofisticado, interiorizado mas ao mesmo tempo descritivo da narrativa, o principal efeito do romance está na viagem no tempo que coloca uma no caminho da outra. E a mudança correspondente, do ponto de vista narrativo, que migra de Jedda para Malin. Aparentemente, Malin precisa de uma dimensão emocional mais profunda, para galvanizar os seus poderes mágicos e o seu caráter como dirigente. Falta ao livro, porém, uma pegada mais forte para a narrativa propriamente dita e mais situações de tensão envolvendo Jedda e Malin. Na ausência, acaba sendo menos do que memorável.

A exuberante arte de capa do ítalo-americano Donato Giancola é uma pintura a óleo de elementos sinuosos, sensuais, que expressam a fusão do orgânico como a super-ciência, própria  da mistura de FC e fantasia que o romance oferece. Giancola é um dos três ou quatro principais artistas de ficção científica da atualidade, com um sóbrio virtuosismo em todos os elementos da pintura clássica, com textura e luz renascentistas e detalhamento pré-rafaelita.

 

O Menino da Rosa, de Tony Monti. São Paulo: Editora Hedra, 2008, 48 páginas. Texto de orelha de Marcelino Freire. Brochura. Tony Monti é um colega de graduação em Letras na USP, e o ganhador do Projeto Nascente de Melhor Texto (realização da pró-Reitoria de Cultura da Universidade de São Paulo e do Grupo Abril de Comunicações) um ano depois que o meu O Par: Uma Novela Amazônica ganhou esse concurso. Tony se aproximou da Geração 90 em termos de estilo e abordagem literária, e participou da antologia de Nelson de Oliveira, Geração Zero Zero: Fricções em Rede (2011). De modo que é natural a presença de um dos grandes nomes da Geração 90, Marcelino Freire, assinando o texto da orelha. Li mais um livro dele, O Mentiroso, uma reunião de contos lançada pela 7 Letras, do Rio de Janeiro. Este O Menino da Rosa também é anunciado como livro de contos, mas imagino que o mais apropriado seria chamar seu conteúdo de crônicas.

O tema é a infância, desenvolvido em textos curtos de uma ou duas páginas cada. Como está implícito que se trata da infância do próprio autor, acho que é possível chamar o livro de “autoficção” — uma das tendências atuais do mainstream. Os textos são marcados pela delicadeza de situações de descoberta, perplexidade e confusão, encontros, desencontros e reencontros, com sutis toques de ironia. Nesse tipo de literatura, os efeitos precisam estar concentrados e aparecerem com precisão, que Tony parece alcançar com facilidade.

 

Arte de capa de Lais Dias.

O Ovo do Elefante, de Tiago de Melo Andrade. São Paulo: Melhoramentos, 2010, 128 páginas. Capa e ilustrações internas de Lais Dias. Brochura. Os assuntos afrofuturismo e cultura afro estão crescendo no ambiente da ficção científica e fantasia, mas esta novela de fantasia para crianças, que adquiri em um dos Fantasticons organizados por Silvio Alexandre, lembra a gente de que no Brasil a literatura infantil e juvenil já vinha trilhando essa estrada há algum tempo. Antes de Tiago de Melo Andrade, Simone Saueressig tem no seu O Palácio de Ifê (1989) um outro exemplo.

Em O Ovo do Elefante, a narrativa começa na África e termina no Brasil, ainda em tempos coloniais e portanto, durante a escravatura. Acompanha a menina Badu, uma princesa africana que vê a sua nação devastada pela cobiça despertada por um reino vizinho, quando se descobre que foi desenterrado lá um diamante do tamanho de um “ovo de elefante” (uma figura de linguagem: elefante não põe ovos, mas se pusesse você imagina o tamanho). Levada como escrava, ela encontra alguma simpatia da parte de uma senhora, que a trata bem. Mas os portugueses, que usavam esse reino como fornecedor de escravos, ficam sabendo da existência da pedra e atacam o lugar, capturando Badu uma segunda vez. Tá na cara que o diamante representa uma maldição. A heroína é embarcada em um navio negreiro e vai parar no Nordeste Brasileiro, escrava de uma senhora metida e cruel, casada com o dono de um engenho de açúcar. Lá, é castigada com frequência e chega a ser mutilada. Mas mesmo no Brasil, o diamante dá um jeito de entrar no caminho de Badu, trancado em um navio que acabou vindo encalhar em uma praia próxima, a tripulação comida por um casal de leões que também viajava nele, e que se soltou durante a jornada. Nessa altura da narrativa, a menina reencontra o guerreiro Kamau, que havia comandado o ataque ao povo dela. Por todo o trajeto até ali, Badu ouve a voz de seu pai, que lhe diz que ela precisa usar a riqueza que o diamante traria, para fundar um quilombo na região — com a ajuda de Kamau, mas tendo que enfrentar um implacável capitão do mato. As peripécias desta novela para crianças e jovens são interessantes, e ela parece ter uma pesquisa sólida sobre um assunto tão forte. É com respeito a isso que o livro faz o leitor pensar sobre o casamento entre assunto e narrativa, cujo tom quase-fofo soa leve demais para a gravidade da violência descrita em quase todo as suas páginas. Por outro lado, as ilustrações internas de Lais Dias são muito ricas e evocam com poesia a cultura afro, embora aconteça com ela o mesmo que se deu com a arte de capa de Marco Cena para o livro de Saueressig resenhado aqui mês passado: a arte da capa não tem a mesma força nem a clareza das ilustrações internas.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Bong Dazo e Dan Parsons.

Comics Star Wars 15: Cavaleiros da Antiga República 3, de John Jackson Miller (texto), Bong Dazo e Scott Hepburn (arte). Embu das Artes-SP: Planeta DeAgostini do Brasil, 2015, 232 páginas. Arte de capa de Bong Dazo & Dan Parsons. Capa dura. Há alguns anos que estou acompanhando esta série de quadrinhos de Star Wars desenvolvida a partir de um videogame da franquia, Knights of the Old Republic (2003), ambientada cerca de quatro mil anos antes dos eventos da série vista no cinema. Este é o terceiro volume encadernado que leio. No segundo, que resenhei para o site do Who’s Geek, a aventura termina com o grupo de heróis encontrando a obra de Lorde Adasca, um empreendedor megalomaníaco que armou com hiperpropulsores aqueles vermes gigantes que Han Solo e Leia Organa descobrem em um asteroide, enquanto fogem das naves imperiais, em O Império Contra-Ataca (1980). Uma praga de armas biológicas de destruição em massa. Neste volume aqui, o sujeito está oferecendo a sua obra tanto para os militares já fascistoides da Velha República quanto para invasores mandalorianos.

Os heróis da série são o atrapalhado padawan-ronin Zayne Carrick e a bela Jarael, uma jovem muita capaz, com jeito de elfa. Uma confusão na estação espacial é a chance que precisam para azedarem os planos grotescos de Adasca. Mas no processo acontece o sacrifício do cientista Camper, de que Jarael cuidava zelosamente. Esse trecho do livro é dramático mas o desenho de Bong Dazo tem uma arte-final muito dura e cenas atulhadas, que acabam diluindo a sua força. Dazo está de volta na história seguinte, mas a arte-final de Dan Parsons e as cores de Michael Atiyeh deixam a arte muito mais leve e com um atraente ar europeu. Zayne reencontra o seu sidekick Gryph, um alienígena, nos subterrâneos do planeta Taris, ocupado pelos mandalorianos. Os dois se envolvem com ações da resistência local. Como Zayne é acusado injustamente por uma camarilha jedi de ter assassinado seus colegas padawans, ele é quase morto por uma amiga, irmã de um desses colegas. Enquanto isso, Jarael está às voltas com Alek, o mandaloriano que eles recolheram pelo caminho no volume anterior, e que vem, compreensivelmente, desenvolvendo uma queda pela garota. De volta a Taris, Zayne cumpre uma missão na torre de instalações na superfície, onde é atacado pela jedi Raana Tey, escapando por pouco. Na história seguinte, os desenhos são de Scott Repburn, mais soltos e estilizados, nem sempre adequados para o detalhamento que o universo de Star Wars pede. Nela, Lucien, o chefe dos jedi que caçam Zayne, é informado pela vidente cega Q’anilia de uma visão em que aparecem Darth Vader e Luke Skywalker. Eles discutem pela primeira vez sobre um talismã sith chamado Muur — que se encontra justamente em Taris. Lucien envia uma jovem jedi chamada Celeste Morne para recuperar Muur e acabar com Zayne de uma vez por todas. O que os jedi temem é a profecia de que um padawan iria abrir as portas para o lado negro da força na galáxia, e agora lá está Zayne Carrick, o último sobrevivente dos padawans, no mesmo planeta em que se encontra o amuleto sith… No processo, porém, o objeto cai nas mãos dos mandalorianos, e para recuperá-lo o herói e Celeste enfrentam perigos o suficiente para ela duvidar da justeza da sua missão assassina. Os volumes da coleção não são muito “redondos” em termos de arco narrativo, e claramente nessa história se inicia um novo arco, que fica em suspenso até o próximo livro. Gosto muito do trabalho de John Jackson Miller nesta série, mas há alguns problemas que incluem a separação do núcleo de heróis, com a sempre encantadora Jarael retornando só no final, e uma subtrama com uma praga de zumbis — algo que, na minha opinião, dificilmente funciona bem com ficção científica. E a ideia de um maligno amuleto sith, indutor de loucura e centrando buscas de heróis e vilões parece pinçado diretamente de O Senhor dos Anéis… O final é dramático e contundente, de qualquer modo, e o interesse pelo próximo volume se mantém.

 

Arte de capa de Brent Anderson & John Starr.

Rising Stars: Visitations, de J. Michael Straczynski (texto). Los Angeles: Top Cow Publications, 2002, 64 páginas. Capa de Brent Anderson & John Starr. Brochura. Straczynski é o criador da série televisiva de space opera Babylon 5, uma favorita de minha esposa, Finisia Fideli. Depois do fim da série, Straczynski passou um tempo atuando como roteirista de quadrinhos. Nessa área, conheci seu trabalho para a Marvel, com Thor, Homem-Aranha e Doutor Estranho. Fique muito bem impressionado. Tanto que, quando trombo com algum material escrito por ele, minha tendência é adquirir. Foi o que aconteceu com Rising Stars Vol. 2 — que eu deixei pendurado enquanto buscava, na mesma loja em que o adquiri, a Omniverse, o volume 1 ou algum outro produto da mesma série, mas anterior. Há pouco, encontrei na Omniverse este Visitations, que é justamente uma introdução à série.

A premissa não tem muito ineditismo: um meteoro explode nas proximidades de uma cidadezinha americana, e todas as crianças em gestação ou geradas pouco depois, 113 delas, passam a desenvolver superpoderes. São os “Pederson Specials”, a partir do nome da cidade. Ecos aí do clássico britânico de John Wyndham, Aldeia dos Malditos (The Midwich Cuckoos), com a diferença de que as crianças são internadas, todas juntas, em instalações federais. A partir disso a narrativa acompanha, de modo episódico, algumas situações: um palhaço contratado para entreter as crianças no dia do seu internamento, e que mui obviamente está se borrando de medo delas; um menino com o impulso de ajudar outros e que finge ser uma das crianças afetadas, pagando um preço terrível por sua fantasia. Um dos diferenciais é um cientista das instalações, que é pessoa boa e paternal — contrário do clichê do cientista frio ou sádico, a lá Mengele. Esse cientista está no centro da última parte do gibi, em que uma das crianças, agora adulta e transformada em super-herói, faz uma visita para pedir conselhos. Sob a forma de diálogos e flashbacks, o episódio conta do ressentimento entre esse herói e um outro — lembrando que eles todos cresceram juntos e têm muita bagagem. Impressiona como a narrativa se esquiva com sutileza das situações padrão das HQs de super-heróis, que, se são super-humanos, têm nesta HQ uma pungente e acessível exploração do sentimento humano. A marca de Straczynski.

 

Arte de capa de Marco Soldi.

J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga N.º 17, de Giancarlo Berardi & Maurizio Mantero (texto), e Gustavo Trigo, Marco Soldi & Enio (arte). São Paulo: Mythos Editora, 130 páginas. Capa de Marco Soldi. Brochura. Encontrei este número antigo da série da criminóloga Júlia Kendall em uma das minhas visitas à loja Omniverse, em São Paulo. Luis Mauro, o proprietário, descobriu a série há pouco tempo, e disse que Berardi deveria escrever para a televisão. De fato, o roteiro é o destaque da série. O desta aventura é particularmente intrincado e interessante. Começa com Júlia (desenha com os traços de Audrey Hepburn) e um dos seus associados no Departamento de Polícia perseguindo um serial-killer que mata quarentonas e tinha sido posto pra correr por uma policial disfarçada. Capturado ao final de uma dinâmica perseguição, ele informa Júlia e as autoridades que, dos seis crimes atribuídos a ele, um não seria de sua responsabilidade. Depois de trombar com a burocracia jurídica da promotoria criminal, ela vai investigar sozinha, auxiliada por um detetive de seguros que é um dos personagens recorrentes da série: Leo (com a cara do ator Nick Nolte). Isso é central para a ficção de crime hard boiled americana — a figura do investigador solitário que vai além da prática policial e sua obsessão com o carimbo de “caso encerrado”. A investigação leva Júlia e Leo a um clube de sexo S&M e, a seguir, a um artista fracassado, como principal suspeito do assassinato de sua esposa. Há uma combinação interessante aí entre o assunto risqué do submundo do sexo tipo De Olhos bem Fechados, e um argumento, bem rascunhado pela mente arguta e erudita de Giancarlo Berardi, em torno da sublimação sexual na arte. Tudo isso em um gibi! Esta série do criador do western Ken Parker é uma das melhores coisas que podemos encontrar nas bancas, em termos de quadrinhos.

—Roberto Causo

Sem comentários até agora, comente aqui!

Leituras de Abril de 2018

A ficção científica, nacional e estrangeira, em livro e em revista, na literatura e na arte, teve a sua vez no mês de abril. O destaque foi o segundo livro de Charles Sheffield lido este ano.

 

Steven Holl, de Valerio Paolo Mosco. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha Grandes Arquitetos Vol. 10, 2011, 80 páginas. Capa dura. Tradução de Gustavo Hitzschky. O arquiteto americano Steven Holl, atuante desde a década de 1980, combina reflexões artísticas e filosóficas, na concepção das suas obras, apoiando-se nas reflexões da fenomenologia. Seus projetos se encontram em alguns dos principais centros arquitetônicos do mundo: Nova York, Milão, Pequim, e até no MIT, em Cambridge. Interessante que, na década de 1980, ele toma contato com as ideias da fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo francês, e a incorpora aos projetos que começaria a executar a partir da década de 1990. Condizentemente com essa filosofia da percepção das formas, sua primeira fase, naquela década, apresenta construções de pouca monumentalidade, com fachadas geométricas sem grandes rupturas, mas com interiores tomados por curvas ou com a geometria dos planos quebrada por janelões ou iluminação em fitas e retângulos, e também por mezaninos. A partir do começo do século, essa desordem e violação de expectativas passa também para o exterior, como a Escola de Arte e de Historia da Arte de Iowa, o Centro de Visitantes e Hotel Loisium, e, principalmente, o curioso conjunto Linked Hybrid de Pequim. Também é interessante notar que, ao contrário de Oscar Niemeyer, por exemplo, o desenho de Holl é elaborado, artístico, em aquarelas em que se destacam o estudo da forma e dos volumes, de luzes e sombras. Na seção “O Pensamento”, ele, assim como Jean Nouvel, insere a sua arquitetura a partir de uma leitura do quadro humano atual:

“O caos da incerteza das economias flutuantes, combinado com a sobrecarga de informação advinda das novas tecnologias, contribui para o afastamento dos fenômenos naturais, incrementando atitudes niilistas.

“A arquitetura, com sua espacialidade silenciosa e sua materialidade táctil, pode reintroduzir significados e valores essenciais, intrínsecos à experiência humana.” —Steven Hall, Intertwining (1996).

 

Arte de capa de Peter Jones.

Second Contact, de Mike Resnick. Londres: Legend, 1991 [1990], 278 páginas. Capa de Peter Jones. PaperbackO americano Mike Resnick já foi publicado no Brasil, na Isaac Asimov Magazine, com suas histórias de Kiriniaga, sobre um planeta colonizado por africanos, muitas delas premiadas. Resnick é um dos autores mais indicados e premiados da FC americana. O primeiro romance de sua autoria que li foi Santiago, a Myth of the Far Future (1986), space opera sobre um famoso fora da lei que se torna um símbolo de resistência e individualidade. Na minha leitura, a sua adesão aos modos narrativos do western e a pouca exploração de ideias de ficção científica propriamente, me decepcionou um pouco.

Algo semelhante acontece com Second Contact, que é basicamente uma história de hard boiled e um thriller de conspiração, ambientada num futuro próximo (2065) no qual EUA, China e Brasil são apresentados como potências espaciais. Ela começa com o herói, um advogado militar da força espacial americana desse futuro, designado para defender um oficial que, em uma nave interestelar, matou dois tripulantes que ele entendeu serem alienígenas. No passado, um primeiro contato com os E.T.s conhecidos como chebottis resultou na destruição de uma nave humana, com a sua tripulação. Todo mundo acha que a solução para o caso é o oficial se dizer temporariamente insano quando das mortes, mas ele está determinado a usar o julgamento para alertar a humanidade quanto à infiltração alien. O advogado não acredita nele, mas sai a cata de relatórios e testemunhas, e só o que descobre é que elas estão fora do seu alcance. Ao insistir na sua investigação, ele acaba sendo alvo de tentativas de assassinato. A essa altura ele já tem como aliada (e única aliada) uma hacker afro-americana que ele conhecia de um caso anterior. A história então se move como uma aventura de detetive hard boiled em que o casal de heróis precisa não só usar pesquisas de TI para descobrir quem são seus inimigos, mas também encontrar os meios para entrar em prédios fortemente guardados, seguir suspeitos perigosos e escapar de assassinos. O argumento é relativamente previsível — há de fato uma conspiração envolvendo alienígenas e a substituição de um número de militares mortos em um acidente aéreo. A reviravolta é uma versão da solução brilhante da noveleta “Primeiro Contato” (1945), de Murray Leinster (1896-1975) , em que uma nave humana e outra alienígena se encontram no espaço e trocam suas tripulações, para se livrarem do impasse de denunciarem a localização dos seus respectivos planetas. A versão de Resnick parece incoerente e artificial. Além disso, a conclusão do romance sugere aquele conformismo bem americano, em que o herói ganha o direito de continuar vivendo, concedido por manipuladores convictos e assassinos frios, apenas porque ele se provou se um homem de recursos. A conspiração não é arranhada e a bastardia institucional persiste agora com o herói a seu serviço. Yey!

A capa desta edição inglesa é do veteraníssimo Peter Jones, muito ativo desde as décadas de 1970 e 80, quando se destacou da batelada de artistas inglesas que veio no rastro de Chris Foss. O que o destacava era justamente fugir da tendência firmada por Foss, de inundar as capas dos livros de FC com naves espaciais aerografadas, estruturas mastodônticas e paisagens espaciais mínimas. Jones executava imagens estilizadas, em paisagens exóticas e com figuras humanas românticas e sofisticadas. Aqui ele faz o contrário e produz uma nave genérica, com efeito geral positivo, mas algumas soluções de arte final meio toscas.

 

Arte de capa de Marco Cena.

Padrão 20: A Ameaça do Espaço-Tempo, de Simone Saureressig. Porto Alegre: Editora Besouro Box, 2014, 160 páginas. Capa e ilustrações de Marco Cena. Brochura. Tendo publicado pela primeira vez na década de 1980, Simone Saueressig é minha colega na Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015). Na orelha da contra capa ela se lembra dos tempos em que publicava em fanzines como o Boletim Antares. Publicou antes da maioria dos autores do período, e logo se firmou no campo da literatura infantil e juvenil, ganhou prêmios e se mantém em atividade até hoje. É uma pioneira da fantasia folclórica nacional, hoje uma tendência bem-sucedida, exercitada por escritores como Christopher Kastensmidt e Felipe Castilho.

Esta é uma movimentada ficção científica ambientada na Europa e protagonizada por uma garota brasileira em férias na França, Maria do Céu Andrade, que se envolve em um distúrbio em Paris, que muda sua vida. Ela acha que é a produção de um filme envolvendo um dinossauro, mas é levada a contragosto, por uma espécie de grupo de intervenção, até o CERN, lar do maior acelerador de partículas do mundo. Lá ela descobre que os cientistas conseguiram reproduzir buracos negros isolados por campos magnéticos, e que, sempre que o isolamento sofre uma oscilação, a singularidade desmorona e é consumida por si mesma. Mas no processo surgem fissuras no tecido do espaço-tempo, por onde surgem fenômenos temporais como dinossauros, romanos antigos e parisienses do século 18 invadindo as ruas para causar a Revolução Francesa. O pano de fundo inclui uma situação de thriller, envolvendo ações de sabotagem e terrorismo por parte de uma organização fundamentalista cristã. A autora lida muito bem com as peripécias e com a dinâmica entre os jovens personagens, algo central para o clima jovem-adulto do texto. Sua heroína é caracterizada com economia, sem deixar de ser encantadora. O lado romântico também não é esquecido — entre Maria do Céu e o jovem filho do chefe de pesquisa do projeto. Além disso, Saueressig apresenta um estilo límpido e, perto do fim, conduz a narrativa num crescendo, que, numa surpresa positiva, leva a uma conclusão metafísica. Trata-se de um voo pela evolução do universo, com direito a duas criativas páginas em que texto, ilustração e soluções tipográficas se misturam para marcar essa transição. O resultado é uma novela redonda e, em muitos momentos, cintilante. Eu gostei da arte interna de Marco Cena, em tons de cinza e com imagens digitais fundidas com habilidade, mas sua arte de capa ficou estranha e fora do clima da novela.

 

Arte de capa de Vincent Di Fate.

One Man’s Universe: The Continuing Chronicles of Arthur Morton McAndrew, de Charles Sheffield. Nova York: Tor Books, 1.ª edição, 1993, 308 páginas. Capa de Vincent Di Fate. Trade paperback. O livro reúne uma série de histórias escritas por Charles Sheffield, publicadas em revistas como Analog, tendo como protagonista o cientista que aparece no título. É um físico teórico e prático que acumula, ao longo dos episódios, um impressionante número de descobertas científicas e desenvolvimentos tecnológicos no futuro em que vive. A história é narrada pela sua companheira de aventuras, Jeanie Roker, uma piloto espacial. Mac é um cabeçudo — uma espécie de Sheldon Cooper (da série The Big Bang Theory), um pouco menos de impertinência —, enquanto Jeanie é uma mulher de ação, prática, sexual e intrépida. Um esquema semelhante está na série Alex Benedict, de Jack McDevitt. Desde a primeira crônica de Arthur Morton McAndrew, o padrão que se estabelece é o de Jeanie resgatando Mac de situações potencialmente fatais.

“Killing Vector” abre o livro. McAndrew faz pesquisas com um miniburaco negro a bordo de uma nave de cruzeiro pilotada por Jeanie, quando são atacados por piratas espaciais que vieram libertar um genocida do futuro superpovoado, transportado por ela. O cientista é ferido mas Jeanie consegue salvá-lo. No momento em que os criminosos estão partindo, são vaporizados quando a singularidade nua cultivada tão cuidadosamente por McAndrew perde a estabilidade. Em “Moment of Inertia”, McAndrew testa, acompanhado de uma jornalista que força sua presença junto a ele, um mecanismo engenhoso (e segundo o autor, matematicamente viável) de compensar por via mecânica os efeitos da aceleração sobre equipamento e tripulantes. A experiência é patrocinada pelo Instituto Penrose, que, quando Mac desaparece, chama Jeanie para pilotar uma segunda nave. Houve um problema mecânico na nave do cientista, de modo que ele e a passageira só podem sobreviver se continuarem acelerando constantemente. Um planeta supermassivo é a solução para que ele consiga estabilizar o voo pelo tempo necessário para ser alcançado por Jeanie. Para colocar a nave de Mac nos eixos, Jeanie precisa aplicar-lhe uma pancada lateral com a nave dela. É tudo muito científico e calculado, embora provavelmente a jornalista discorde. É claro, a história tem um componente humorístico, assim como “All the Colors of the Vacuum”, a mais hilariante do livro. Nela, a dupla vai interceptar um asteroide transformado em nave de gerações, porque ela transporta um supergênio matemático — pior que “Ramanujan” — juvenil, Sven Wicklund. Mas a sociedade viajando no asteroide é uma utopia doida, cujas autoridades logo convidam Jeanie e Mac para se reproduzirem, e ele a integrar o seu Conselho de Intelectos. O cientista fica muito lisonjeado — até que Jeanie descobre que o conselho é composto de cérebros, globos oculares e espinhas dorsais flutuantes em tanques líquidos. Totalmente filme-B da década de 1950. O resto da história são os dois tirando o jovem Wicklund do lugar, com direito aos três flutuando brevemente no vácuo, sem trajes espaciais. O título se refere ao fato do rapaz ter descoberto como extrair energia do vácuo. Por sua vez, “The Manna Hunt” dá ao leitor um pouco mais sobre o futuro superpovoado da série, com um projeto para encontrar planetesimais da Nuvem de Oort contendo compostos orgânicos complexos, que possam ser processados como alimento para alimentar os bilhões famintos da Terra. A aventura acontece em um desses corpos subplanetários, Manna, onde um outro grupo de pesquisa desapareceu. Ha uma outra mulher passageira, nessa história, uma espécie de Ministra da Alimentação, que resolve acompanhar Mac em uma expedição ao oceano encapsulado de Manna, contendo estranhas formas de vida. O cientista, ao contrário de Jeanie, acha que não há perigo, e coloca os dois em perigo, mobilizando Jeanie para resgatá-los. Fica claro que a neurodivergência de Mac pode levar a situações de perigo de morte, algo que o autor não problematiza e que me deixou irritado: ele merecia uns bons tapas de Jeanie. “Shadow World” traz a burocrata de volta, como vilã. Ela perdeu um braço ao cutucar uma das criaturas subaquáticas da história anterior, e manobrou para ter a dupla de heróis com dois capangas em uma mesma nave, com destino aos limites do Sistema Solar. Um dos caras tenta abusar sexualmente de Jeanie, e leva a pior. A situação engrossa e Mac continua sem cair a ficha, de modo que novamente conduz a intriga até o perigo mortal. Eles encontram um tipo de matéria escura formado no Big Bang, bem quando os capangas se movem para dar cabo dos heróis. Basta dizer que esse “objeto” da física acaba tendo um papel na neutralização de um dos bandidos e na captura do segundo. “The Invariants of Nature” resolve o arco envolvendo a burocrata e o seu rancor, com Jeanie e Mac sendo convidados para uma estação submarina na Terra, sob o controle do tal Ministério da Alimentação. Jeanie só escapa de outro tipo bastante pulp de morte por ser uma mulher alerta e de recursos. Como fecho desse ciclo de aventuras, “Rogueworld” começa com o encontro da jovem filha de Jeanie e o supergênio Wicklund, ambos partindo para investigar um planeta voando livre no espaço interestelar (como aquele “herdado” por Shiroma na minha noveleta “Renegada”, em Shiroma, Matadora Ciborgue). O casalzinho sofre um imprevisto e lá vão Mac e Jeanie resgatá-los, com direito a uma catastrófica aventura na superfície gelada no planeta interestelar, que, com um impacto causado pelo módulo de pouso, rompe-se em um trilhão de pedacinhos por causa da repercussão vibracional sobre a sua matéria congelada. O livro fecha com um substancial artigo de Sheffield tratando da correção científica de cada uma das muitas ideias intrigantes que encontramos nas histórias. Essa qualidade de FC hard combina bem com o lado burlesco das aventuras desse odd couple da FC, que acumula um currículo enorme de descobertas inéditas e marcantes, e mesmo assim continua sofrendo com a burocracia científica. Lendo essas histórias, fica claro que a física e a matemática são a chave para abrir o espaço à humanidade.

A arte do veterano Vincent Di Fate na capa parece um reaproveitamento, mas é típica desse artista prolífico e longevo, combinando uma paisagem espacial sugestiva com uma nave que apresenta soluções tecnológicas de futuro próximo, que parecem estar virando a esquina.

 

Science Fiction Poster Art, de Tony Nourmand & Graham Marsh, eds. Londres: Aurum Press, 2003, 192 páginas. Prefácio do Prof. Sir Christopher Frayling. Álbum. Encontrei um exemplar em boas condições deste livro no Sebo do Messias, na Praça João Mendes, centrão de São Paulo. E por R$ 30,00. Veio bem a calhar para as minhas pesquisas de iconografia de ficção científica, sendo um livro que cobre a arte de posters de cinema desde os primórdios do gênero na telona — o que vale dizer, desde os primórdios da própria arte cinematográfica. O prefácio de Frayling, então Reitor da London’s Royal College of Art, aborda a importância da arte dos posters de cinema, e demonstra conhecer bem a expressão da FC nessa área.

O fato da dupla Nourmand & Marsh estarem na Inglaterra a coloca entre a produção americana e a europeia, de modo que o livro possui uma rica representatividade de artistas e de tradições de arte de poster. Ainda no começo do século 20, há algumas joias de Albert Robida (nome importante para o visual steampunk), Boris Bilinsky e Heinz Schulz-Neudamm (para Metropolis). Eu não sabia, por exemplo, que Robida tinha feito poster de cinema (para L’Avventure extraordinaire di Saturnino Farandola, de 1914). O boom do cinema-B hollywoodiano é representado no livro pelo prolífico e prolífico Reynold Brown, mas é interessante confrontá-lo com o trabalho dos italianos Carlantonio Longi, Alfredo Capitani, Luigi Martinati, Sandro Simeoni, Renato Fratini (cujo poster de Invasores de Marte lembra a arte do ilustrador editorial Richard Powers) e, especialmente, do dinâmico Anselbo Ballester. Algumas páginas fazem um perfil rápido de um artista em particular — como o americano Bob Peake (Rollerball; Jornada nas Estrelas) ou o inglês Philip Castle (Laranja Mecânica) — outras agrupam vários posters diferentes de um mesmo filme, incluindo versões japonesas ou alemãs de um filme americano, ou de produções originais desses países de outros como Zemsta Kosmosul, um filme polonês. Muitos países da Europa do Leste tinham reserva de mercado para artistas locais, algo que foi muito discutido no Brasil, e a distância política (estavam sob a esfera soviética na época) em relação à Hollywood resultava em interpretações muito singulares e às vezes estranhas, de filmes de imagética conhecida como E.T.: O Extraterrestre, WestworldO Planeta dos Macacos (os posters romeno e checo-eslovaco apostaram no psicodélico), Robocop, O Exterminador do Futuro, Star Trek e Star Wars. Ao mesmo tempo, o poster francês de Stalker apela para o abstracionismo geométrico em cima do Quadrado Vermelho, um importante quadro de Kazimir Malevich. Há uma seção sobre seriados, que deixa claro que a adaptação de histórias em quadrinhos de super-heróis é algo bem antigo, virtualmente contemporâneo ao próprio surgimento desse campo editorial. A qualidade internacional da cobertura de Science Fiction Poster Art e o conhecimento profundo da área que o seu texto esparso expressa, são os pontos fortes que tornam este livro uma joia.

 

Outras Leituras

Arte de capa de Eldar Zakirov.

Asimov’s Science Fiction Vol. 41, N.ºs 11 & 12, November/December 2017. Durante todo o ano de 2017, a Asimov’s Science Fiction esteve comemorando os seus 40 anos de existência. A revista começou sua vida em 1977 como Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine. Na época, era comum revistas de ficção de gênero terem títulos com nomes de personalidades que eram sinônimos daqueles gêneros — como Ellery Queen’s Mystery Magazine e Alfred Hitchcock’s Mystery Magazine. E de fato, o autor Isaac Asimov virou sinônimo de ficção científica para gente, no mundo todo.

A história de capa desta edição de fim de ano é “I Met a Traveller in an Antique Land”, de Connie Willis, autora que nos últimos dois anos se tornou uma presença marcante aqui no Brasil. A história, mais seca do que a autora costuma produzir e com um humor bastante abafado pela exposição do assunto, acompanha um blogueiro convicto que acredita que é apenas natural que o e-book substitua o livro de papel. Num dia de chuva em Nova York, ele se abriga em um estranho sebo que o leva a um depósito gigantesco, subterrâneo, de livros antigos. Uma gerente surge e ele se cola a ela para receber a explicação de que o lugar guarda os últimos livros, livros destruídos pelo tempo, por catástrofes, pelo descuido e pelas ações políticas de censura, até desaparecerem. São livros extintos para sempre, nunca digitalizados ou conservados em outra tecnologia. É uma novela impactante pelo que sugere — os livros são a baliza do processo civilizatório, e seu desaparecimento ou fragilização por essa postura pró-digital é algo a se considerar com atenção. Na minha cabeça, a história se conecta fortemente com o premiado livro The Swerve: How the World Became Modern (2011), de Stephen Greenblatt, que trata do livro Da Natureza, de Lucrécio. Para chegar a esse assunto, ele fala do bibliófilo humanista Poggio Bracciolini, o sujeito que trouxe à luz Da Natureza, depois de encontrá-lo em um monastério. Greenblatt também conta o que foi a perda de incontáveis livros da antiguidade clássica até o Renascimento. Segundo Greenblatt, o resgate da obra de Lucrécio resultou numa guinada (swerve) no caminho da sociedade ocidental. O que está implícito é que outros livros, perdidos para sempre, poderiam ter tido um impacto semelhante.

Outra leitura interessante dessa edição foi a noveleta de Greg Egan, “The Discret Charm of the Turing Machine”, mais sutil e equilibrada que outras histórias dele que li. E engenhosa, já que acompanha um homem despedido porque seu trabalho foi absorvido por um software de inteligência artificial e que, aos poucos, vai concluindo que os programas de reconhecimentos de padrões não apenas determinam padrões de consumo e de estilo de vida, mas passam também a organizar um sistema de compensação legal e moral para as vítimas da automação. É como se, para não enfrentarem a revolta dos homens, as máquinas precisassem usar o sistema para dar aos descontentes o consolo que sua personalidade e hábitos humanos exigem — como em uma espécie de estado de bem-estar social gerenciado pelas máquinas para dar o mínimo aos cidadãos. Mas talvez seja essa a tendência da maioria das instâncias de estado de bem-estar social que já temos. Afinal, gerenciar (maliciosamente, inclusive) os descontentamentos, é algo próprio das democracias. Já o conto “The Last Dance”, de Jack McDevitt, sobre um homem que usa os serviços de uma empresa que alimenta um robô com a personalidade de sua esposa falecida, eu achei amadorístico, sem brilho e inconsistente.

—Roberto Causo

Sem comentários até agora, comente aqui!

Douglas Quinta Reis (1954-2017)

O desencarne do editor Douglas Quinta Reis, da Devir Brasil, em 13 de outubro de 2017, representou uma aguda perda pessoal, mas também foi uma perda grave para o campo da ficção científica, fantasia e horror no Brasil.

 

Douglas Quinta Reis (1954-2017).

Devo ter conhecido Douglas Quinta Reis em alguma reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica em São Paulo, em fins da década de 1980. Só o associei à Devir quando o procurei em 2002, por intermédio do editor Silvio Alexandre, que na época trabalhava na Devir. Meu objetivo era sugerir a publicação dos livros de ficção científica e fantasia de Orson Scott Card — algo que eu já tinha feito junto a outras editoras. Silvio escreveu o seu próprio obituário para o site Publishnews, com muitas informações importantes e a sua própria avaliação pessoal do Douglas.

Para minha surpresa, Douglas era tão fã de Card quanto eu. Ele me disse, inclusive, que tinha o desejo de publicar toda a sua obra. Algumas semanas depois, eu submetia à ele o projeto de publicar a coletânea de histórias A Sombra dos Homens, com as primeiras histórias da Saga de Tajarê, de fantasia heroica, que eu havia iniciado anos antes nas páginas da revista de RPG Dragão Brasil.

Também para minha surpresa, o projeto foi aceito por Douglas sem grandes discussões. A decisão dele me trouxe um grande alento, pois naquela época eu vivia uma daquelas crises periódicas de dúvidas sobre a carreira e o ofício da escrita de FC e fantasia no Brasil, que costumam me acometer.

Escrevi mais duas histórias, além das duas que tinham saído na Dragão Brasil, e o livro apareceu em 2004 com introdução de Braulio Tavares e capa de Lourenço Mutarelli— na época um nome muito associado à Devir como artista de quadrinhos, mas que a editora, com o trabalho do Douglas, já havia revelado como romancista, para o mainstream literário brasileiro. Mais tarde, Douglas também publicaria o meu primeiro romance, A Corrida do Rinoceronte (2008).

Essa atitude leve com respeito à publicação de livros foi uma das características notáveis da atuação editorial de Douglas. Raramente eu o vi rejeitar um projeto — e quando isso ocorreu, foi em razão de alguma rigidez do autor ou autora, em relação às observações dele. Ou em momentos em que a editora estava se reorganizando e certas áreas de publicação estavam momentaneamente suspensas. Essa abertura vinha primeiro da sua qualidade de leitor polivalente, sem preconceitos e familiarizado com vários gêneros. Mas também pelo entendimento de que a escrita, a leitura e a publicação de livros são aventuras de descobrimento — não apenas de talentos literários, mas da receptividade  do leitor. Daí ele dispensar a obsessão de muitas editoras em perseguir tendências visando otimizar vendas, publicando mais do mesmo.

Em 2005, Douglas me convidou para atuar como editor free-lancer, e rapidamente criamos três linhas de livros: a Pulsar (ficção científica), que acolheu os livros de Card; a Quymera (fantasia) e a Pentagrama (horror). Mais tarde, desenvolvemos um projeto favorito dele, a coleção Asas do Vento de livros de bolso dentro de um formato inédito e nunca repetido posteriormente: em 9 x 15,5 centímetros, com capa semirrígida. E também e a Enciclopédia Galáctica, de estudos e referência na área da ficção especulativa.

A Pulsar e a Asas do Vento foram as coleções mais produtivas. A primeira conta hoje com 17 títulos, tendo publicado autores importantes para a FC internacional como Card, Bruce Sterling, Arthur C. Clarke e Ursula K. Le Guin (em uma antologia). Além de completar a Saga de Ender, de Card, a coleção demonstrou muita ousadia ao publicar a maior coletânea de histórias de um autor brasileiro de FC, Confissões do Inexplicável, de André Carneiro; o primeiro “omnibus” da FC brasileira, reunindo os três romances da Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife (que teve mais dois livros na coleção); a primeira antologia internacional de FC política montada no Brasil (organizada por Marcello Simão Branco); a primeira coletânea de Ivanir Calado, e a primeira série de antologias retrospectivas dos melhores da FC brasileira. Agora, em 2017, deve sair, fora da coleção, a primeira antologia retrospectiva do melhor do horror nacional, organizada por Branco & Silva. A Pulsar também incorporou os primeiros livros das minhas séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue. A Pulsar empregou muito o artista brasileiro de FC, Vagner Vargas, certamente impulsionando muito a sua carreira.

A Asas do Vento foi uma linha internacional que publicou Sterling, Card e o francês Jean-Pierre Laigle, além dos brasileiros Christopher Kastensmidt, Simone Saueressig, João Batista Melo e Carlos Orsi. Muitas vezes, combinava autores estrangeiros e nacionais num mesmo volume. Não foi adiante porque as questões de distribuição e exibição de livro de bolso são muito complicadas. A Enciclopédia Galáctica, por sua vez, publicou estudiosos importante como M. Elizabeth “Libby” Ginway (a brasilianista que é a maior especialista mundial em FC brasileira) e Alfredo Suppia (o especialista mundial em cinema brasileiro de FC), além de abrigar a última fase do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, de Cesar Silva & Marcello Simão Branco.

 

Douglas com o escritor e game designer Christopher Kastensmidt (à esquerda), com que estabeleceu uma relação muito produtiva em anos recentes.

Quando Douglas, Mauro Martinez dos PrazeresWalder Mitsiharu Yano, e de Deborah Fink, esposa do Mauro, fundaram a Devir Livraria em 1987 (há trinta anos), criaram uma importadora de histórias em quadrinhos e de jogos de cartas, eles provavelmente não tinham ideia do impacto que sua empresa iria ter. Aos poucos, a empresa cresceu e se internacionalizou, transformou-se também em editora. Com muita boa vontade e criando o  próprio trajeto na sua viagem de descobertas, ela foi fundamental para o boom do RPG na década de 1990, para os quadrinhos nacionais e para a entrada dos livros de HQs nas livrarias, e para o mercado local moderno de jogos de tabuleiro. Poucas empresas foram tão importantes para a face brasileira da cultura nerd/geek da atualidade. A ambição de Douglas para a ficção científica era semelhante — sedimentar sua presença nas livrarias e fomentar o autor brasileiro.

Por diversas questões comerciais, financeiras e conjunturais (as diversas crises políticas e econômicas que o país enfrentou e enfrenta), o impacto da atividade da Devir Brasil na área não foi tão grande quando poderia ter sido. Isso, porém, não diminui a importância, a originalidade e a ousadia do esforço que Douglas capitaneou nessa área.

Conviver com ele sempre foi um prazer que ia além da produção de livros. Douglas era um homem vivido e de cabeça aberta, gregário e conversador, que buscava conduzir o pensamento da gente com exemplos, metáforas e casos, em direções diferentes e incomuns. Sem afetações de intelectual ou de executivo, era sempre acessível e próximo no tratamento com autores ou leitores. Vai deixar saudades e fazer muita falta.

—Roberto Causo

 

Roberto Causo e Douglas Quinta Reis.

 

Temos 2 comentários, veja e comente aqui

Leituras de Setembro de 2017

Uma gripe forte e vários compromissos em setembro derrubaram o meu ritmo de leitura. Mesmo assim, o mês contou com alguns livros interessantes, incluindo o reencontro com um dos meus primeiros amores,  Pat Conroy, e com um dos meus contemporâneos mais reconhecidos, Braulio Tavares.

 

Arte de capa de Bruce Jensen

For Those Who Fell, de William C. Dietz. Nova York: Ace Books, 2005 [2004], 410 páginas. Capa de Bruce Jensen. Paperback. Este é o sexto romance da série Legion of the Damned, de Dietz, e o primeiro que li. A ficção científica militar tem muitas caras, boa parte delas pouco a ver com o futuro e mais com o passado. Especificamente, momentos históricos aos quais a composição de tecnologia, estrutura e comportamento militar remete, às vezes de modo bem ostensivo: batalhas navais napoleônicas, a guerra de independência ou a guerra civil americana, a guerra do Vietnã e conflitos coloniais. É o caso desta série, já que a tal legião dos desgraçados é a própria Legião Estrangeira da França, lançada a um futuro distante em que uma Confederação de Seres Sencientes usa seus serviços como um sucedâneo de forças armadas nacionais. A intriga diz respeito a uma potência rival coletivista, os ramanthianos, uma espécie insetoide, que descobre em um planeta remoto povoado por colonos humanos e uma espécie nativa, como construir um comunicador mais rápido que a luz. Isso dará uma vantagem determinante para a rainha que comanda os ramanthianos, em sua empreitada expansionista pela galáxia.

No tal planeta, um batalhão de legionários acaba se dividindo, precisa formar alianças com os colonos humanos para enfrentar tanto os nativos quanto os ramanthianos, e depois de ligar as duas forças separadas, pôr as mãos do tal hipercomunicador para que haja equilíbrio tecnológico entre as duas potências rivais em batalhas futuras. Boa parte da ação é descrita pelo ponto de vista do Tenente Antonio Santana, veterano de outros volumes da série. O elenco de personagens é grande e a ação se alterna consideravelmente, de personagem em personagem (apesar do narrador onisciente) e de lugar em lugar, incluindo outros mundos. Tudo é muito chão-chão, apesar disso, e o romance não explora muitas ideias científicas. Inclusive, a própria necessidade de capturar fisicamente o hipercomunidor é frágil — não bastaria capturar os dados do projeto? Os próprios romanthianos não precisariam enfrentar tantas perdas para defendê-lo, bastando usar o próprio aparelho para enviar o projeto a algum lugar seguro…

De fins do século 19 até meados do século 20 histórias da Legião Estrangeira foram uma febre na ficção militar e de aventura. Em grande parte, em razão do sucesso do romance inglês Beau Geste (1924), de P. C. Wren, que eu li quando era garoto depois de ver duas ou três versões para o cinema. Mais recentemente, li um conto de H. Bedford-Jones (1887-1949) na brasileira Contos Magazine. Até Mickey e Pateta foram legionários… A mística da Legião na literatura inclui a dinâmica entre soldados de várias origens nacionais e étnicas, as encrencas de criminosos que se escondem nela, e batalhas sangrentas contra inimigos tecnologicamente inferiores, que empilham cadáveres nos perímetros defendidos pelos legionários. Tudo isso a gente vê no livro de Dietz, temperado também pela experiência americana no Velho Oeste e no Vietnã. Essa distância histórica permite ao autor explorar uma ficção militar que seria contrária a sensibilidade atual, caso  escrita com elementos contemporâneos. A arte de Bruce Jensen é muito característica, fundindo elementos bi e tridimensionais — nesta capa apenas sugeridos pela escotilha que cerca a figura da mulher.

 

Arte de capa de Gio Guimarães

Sketchbook II, de Gio Guimarães. Rio de Janeiro: Bohemian Fox, 2016, 40 páginas. Capa de Gio Guimarães. Brochura. Comprei este sketchbook da artista brasileira Gio Guimarães no dia 23 de setembro, na convenção TrekkerCon, do Trekker Club, que aconteceu nas dependências do SENAC da Liberdade, aqui em São Paulo. O que me cativou foram as ilustrações digitais dela com tema de Star Trek — naves, planetas e personagens — em full color e muita atmosfera e iluminação dramática. O sketchbook, porém, traz uma amostra interessante do trabalho da artista, apenas a nanquim direto, sem qualquer intermediação digital. A qualidade técnica é muito boa, com uma hachura vivaz, uma linha de valores sempre corretos, e personagens que vão do mais acadêmico até o infantil, passando por muitos animais humanizados e situações de fantasia, com direito a dragões e evocações do Oriente Médio e do Japão. Você pode ter uma ideia da versatilidade de Gio Guimarães no blog dela (em português e inglês). Gio está baseada no Rio de Janeiro, mas toda a sua formação aconteceu na Universidade Federal de Minas Gerais, incluindo Belas Artes e Animação para o Cinema. Como este não é um livro que você vá encontrar nas livrarias, é pelo blog que poderá adquiri-lo, se tiver interesse.

Sketchbooks autografados e vendidos em eventos de fãs formam um tipo intrigante de investimento. Este é apenas o meu segundo — o primeiro foi Request (Editora Argonautas, 2014), de Daniel HDR, do qual tratei em um artigo para o site Who’s Geek. Eles certamente promovem e aproximam os artistas do seu público. E são mais pessoais e humanos do que conjuntos de pixels baixados da internet. Tenho alguns estrangeiros que apareceram por aqui na loja Terramédia, com os de Arthur Suydam, The Art of the Barbarian, em dois volumes autografados, e o meu favorito (mesmo sem autógrafo): Jeffrey Jones: Sketchbook. Legal saber que estão chegando a eventos de fãs de Star Trek e de ficção científica.

 

The Literary Mind, de Mark Turner. Nova York/Oxford: Oxford University Press, 1996, 188 páginas. HardcoverApareceu por aqui convite para falar em um painel sobre ficção científica e ciências da cognição. Isso me deu o empurrão para rever minha leitura deste elegante livro de divulgação de Mark Turner, cocriador, com Gilles Fauconnier, da Teoria dos Espaços Mentais e da Mesclagem Conceitual (conceptual blending). Nessa teoria, eles contestam a ideia prevalecente de que a propensão para o desenvolvimento da linguagem e da fala nos humanos se deveria a um órgão desconhecido presente no cérebro. Para eles, e paradoxalmente a princípio, a narrativa (story) vem antes da linguagem — isto é, a mente humana estaria fundamentalmente preparada para enxergar o mundo a partir de pequenas narrativas espaciais, antes mesmo de aprendermos a falar. Isso é contra-intuitivo, mas o argumento de Turner é sólido e soa correto e instigante para mim. Antes da linguagem, percebemos agentes e ações no espaço, no que Turner e outros teóricos chama de esquemas de imagens. Esses esquemas são recombinados constantemente com outros. Quando uma história se projeta sobre outra, tem-se uma parábola, conceito central para Turner, que enxerga nela o elemento cognitivo maior da mente, compondo nossa capacidade de atribuir sentidos. O espaço de percepção que permite a combinação de uma ou mais histórias com outras é o espaço de mesclagem conceitual. Não vou fingir que entendi todos os conceitos da teoria — e vou confessar que, na faculdade, Linguística para mim foi sempre uma tortura. Uma rápida pesquisa que fiz denotou que a teoria de Turner & Fauconnier não parece ter tido um impacto muito amplo, mas de qualquer modo chegou às universidades brasileiras. Soa mais consistente para mim, do que me pareceram as ideias de Noam Chomsky quando passei por elas na faculdade (há um capítulo em que Turner se opõe a Chomsky e outros da mesma linha).

Em literatura e em outras artes narrativas como o cinema e os quadrinhos, muitas vezes há uma posição entre estilo (linguagem) e enredo (narrativa). Estilo/linguagem possui muito mais reconhecimento intelectual. Isso foi reforçado com a chamada “virada linguística” nas ciências humanas, na década de 1960 ou por aí. Eu tinha esperança de que as ideias de Turner e Cia. equilibrassem as coisas para o lado do enredo/narrativa — mas isso seria esperar demais do contexto da cultura do nosso tempo. E, de qualquer modo, não é essa a preocupação de Turner no seu livro.

“A narrativa é um princípio básico da mente. A maioria das nossas experiências, do nosso conhecimento e do nosso pensamento é organizado como narrativas. O escopo mental da narrativa é ampliado pela projeção — uma narrativa ajuda a fazer sentido de uma outra. A projeção de uma narrativa sobre uma outra é a parábola, um princípio cognitivo básico que aparece em todo lugar, de ações simples como ver a hora até criações literárias complexas…” —Mark Turner, The Literary Mind.

 

Arte de capa de Drew Struzan.

Blade Runner (Do Androids Dream of Electric Sheep?), de Philip K. Dick. Nova York: Del Rey, 2007 [1968], 266 páginas. Capa de Drew Struzan. Posfácio de Paul M. Sammon. PaperbackVem aí o novo filme de Denis Villeneuve, Blade Runner 2049, e Gabriela Colicigno & Roberto Fideli, do Who’s Geek, me pediu um artigo sobre o original de 1982, dirigido por Ridley Scott. No processo, decidi ler pela primeira vez em inglês o romance de Philip K. Dick que deu origem ao filme — até por conta do assunto cognição e ficção científica. Eu tinha lido a tradução de Ruy Jungman, pela Francisco Alves, em 1983. Existe uma nova edição pela Editora Aleph, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, com tradução de Ronaldo Bressane. Esta aqui foi lançada por ocasião do aniversário de 25 anos do filme, e traz na capa ilustração de Drew Struzan, o famoso cartazista americano, criada para o lançamento da versão “corte do diretor”. Struzan capturou todo o charme melancólico e urbano do filme. O livro é bem diferente: a “Guerra Mundial Terminus” depopulou o planeta, que vive assolado por uma poeira tóxica. Quem pôde, emigrou para Marte e outros planetas. Quem tem saúde ruim ou QI baixo fica na Terra, como um dos personagens-ponto de vista do romance, J. R. Isidore (Sebastian, no filme). Nosso mundo não permite a presença de androides, todos destinados às colônias. Mas oito deles vêm clandestinamente para cá, e o caça-prêmios número 1 se dá mal com um deles, dando chance para que Rick Deckard entre em ação. Mais do que no filme — no qual os androides são chamados de “replicantes” e os caça-prêmios de “blade runners” —, Dick exercita sua marca-registrada, a instauração da dúvida cognitiva a respeito de identidades e relacionamentos. Começa com o status social que o dono de um animal possuí depois que a guerra atômica dizimou a fauna planetária: quem não tem dinheiro para ter um bicho de verdade adquire clandestinamente uma réplica mecânica. O mercerismo, religião baseada num martírio virtual compartilhado por todos os que empregam uma máquina de empatia ao mesmo tempo, transformou o contato com animais num exercício necessário de empatia — à qual os androides são imunes. Quando Deckard entra em ação, depara-se a todo instante com androides fingindo ser policiais como ele. Quer matar os androides para ter dinheiro para comprar um bicho real e elevar seu status. O uso dos bichos para isso é uma “coisificação” da vida; pouco empático, na verdade, e matar seres sencientes por dinheiro também não parece muito empático. Deckard começa a se questionar. Ele, a certa altura, vai parar em uma central de polícia alternativa, desconhecida daquela em que ele trabalhava, e vice-versa. Esse é outro tema que Dick empregou em contos e romances: de onde vem a ação, a autoridade, o protagonismo histórico? Pergunta que fazemos hoje na era da “pós-verdade”…

O trecho final aborda o desmascaramento de Wilbur Mercer, o criador do mercerismo, mas incorpora um momento metafísico muito enigmático que faz o leitor se perguntar o que foi mesmo desmascarado. Do Androids Dream of Electric Sheep? é um romance consistente e realizado dentro de um clima próprio e engenhoso, que faz o leitor coçar a cabeça do começo ao fim. De fato, torna o ato de coçar a cabeça uma experiência de leitura essencial. A ficção científica e as questões de cognição, sobre o que percebemos da realidade, têm uma longa história juntos, desde o século 19. Mas Philip K. Dick foi o autor da FC moderna que mais sistematicamente explorou essa relação. Esta edição, além da deslumbrante ilustração de Struzan, traz um artigo do jornalista Paul M. Sammon sobre a relação do escritor com a produção de Blade Runner, repleto de informações de bastidores sobre como os direitos do livro foram adquiridos e como Dick reagiu aos scripts e às primeiras imagens do filme.

 

Arte de capa de Wendell Minor.

South of Broad, de Pat Conroy. Nova York: Dial Press, 2010 [2009], 526 palavras. Capa de Wendell Minor. Trade paperback. O escritor sulista americano Pat Conroy me interessou desde que, criança, vi na TV o filme Conrack (1974), baseado no seu livro de não ficção The Water is Wide (1972). O primeiro dele que li foi The Prince of Tides (1986), em 1992, que virou o filme premiado O Príncipe das Marés, dirigido por Barbara Streisand. Este South of Broad, é o último romance publicado por Conroy, com a cidade de Charleston na bela aquarela de Wendell Minor na capa. Minor fez toda uma série de capas para os romances de Conroy disponíveis quando do lançamento deste. A edição é para clube de leitura, e traz entrevista com o autor e perguntas essenciais sobre o enredo. Há uma edição brasileira, como A Mansão do Rio, pela Record.

Conroy me conquistou para a ficção sulista americana. Fiquei chocado ao saber da morte dele em 2016 aos 70 anos. Resolvi desencavar este romance e matar as saudades. Quem narra é Leopold Bloom King, batizado assim em homenagem ao protagonista de Ulisses de Joyce, o livro favorito da mãe do personagem. O romance se passa em Charleston, na Carolina do Sul, indo dos anos da integração racial nas escolas, até fins da década de 1980 e a epidemia de AIDS, terminando pouco depois do flagelo do furacão Hugo, que atingiu a cidade em 1989. Traumatizado em criança pela perda do seu irmão mais velho, que cometeu suicídio, Leo passou maus bocados com a mãe e com a justiça. Mas quando um casal de gêmeos se muda para a rua dele, os dois perseguidos pelo pai psicopata e criminoso contumaz, Leo começa a reunir em torno de si os gêmeos, um casal de negros, um casal de irmãos caipiras das montanhas e órfãos, e um trio de aristocratas locais. Juntos eles enfrentam os preconceitos raciais e aristocráticos de Charleston e do Sul, com muito humor e valentia. O Leo adulto, sua mulher Starla (a garota órfã), os gêmeos e outros personagens são pessoas emocionalmente lesadas, que nem sempre alcançam o equilíbrio. Embora incompleto, o grupo se reúne e se fortalece que Sheba, a garota gêmea transformada em estrela de Hollywood, recorre a eles para resgatar seu irmão gay Trevor, que está morrendo de AIDS em San Francisco. O romance é episódico, mas a saga da turma em SF é um dos seus melhores episódios, enveredando de modo positivo para a ficção de crime, com direito aos diálogos agudos de Conroy moldando-se ao padrão hard boiled. Com Trevor, o grupo volta a Charleston, onde ele se recupera e o pessoal se fortalece bem a tempo de enfrentar o furacão que vem revirar ainda mais o lodo do terrível passado de alguns deles, que inclui abuso infantil e traições de gente muito próxima. Conroy não doura a pílula ao tratar desses assuntos graves, mas também não chafurda neles. Ele pode até estar atenuando traumas e tragédias, assim como se esquiva de levar o modo ficção de crime até o final. O que parece lhe interessar mais é a reafirmação da amizade e do amor pela vida, da força interior que seus personagens encontram um no outro e na cidade que eles amam. Essa foi a tônica da escrita de Conroy, às vezes dura e macabra o bastante para identificá-lo com o “gótico sulista”. Seu estilo sempre exuberante, exagerado, foi um dos fatores que me fez enxergar no estilo “superescrito” (dele, de Stephen King, Anton Myrer, Cormac McCarthy, William Faulkner e outros) um transbordamento que assinala o amor pela vida na literatura. Se o romance é desigual, ele como a obra final de Conroy reforça o “módulo” que ele buscou em sua obra toda, centrado na sobrevivência do trauma e no reconhecimento das ambiguidades centrais de família, amizade e comunidade. Parafraseando o nosso Guimarães Rosa, viver exige coragem.

 

Arte de Capa de Fernando Issamo.

Sete Monstros Brasileiros, de Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Fantasy, 2014, 114 páginas. Capa e ilustrações de Fernando Issamo. Brochura. Braulio Tavares é um dos melhores escritores que a Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982-2015) produziu. Seu primeiro livro de contos, A Espinha Dorsal da Memória (1989), ganhou o Prêmio Caminho Ficção Científica, de Portugal, e ele recebeu um Prêmio Jabuti em 2009 pelo livro para crianças A Invenção do Mundo pelo Deus-Curumim. Este Sete Monstros Brasileiros é, se a memória não falha, sua quarta coletânea de histórias. Eu certamente gostaria de ter sabido do seu lançamento mais cedo.

Braulio traz para uma perspectiva adulta de horror o tema folclórico que vinha explorando como literatura infantil. Na introdução, ele observa que há uma tendência na direção do uso do folclore brasileiro na ficção especulativa nacional, e cita Simone Saueressig, Christopher Kastensmidt e Felipe Castilho. Entre os monstros reunidos por ele neste livro estão o lobisomem, o bradador e o corpo-seco, o papa-figo, a Iara e o capelobo — às vezes intencionalmente misturados. Há um tom de história contada que perpassa as sete narrativas, e em alguns casos, uma aproximação econômica mas calorosa, da condição de vida dos personagens. Esse mesmo tom aparece numa construção mais complexa, como costumavam ser os contos da primeira fase de Braulio, em “A Expedição Monserrat”. Já “Os Mortos-VIPs” brinca com a moda dos zumbis na literatura e no cinema. O conto “Bradador” tem uma força incomum, oferecendo também uma condenação da corrupção endêmica da sociedade brasileira, e acabou entrando em As Melhores Histórias Brasileiras de Horror — uma importante antologia montada por Marcello Branco & Cesar Silva, que deverá sair ainda este ano. Outras histórias saídas deste livro de Braulio Tavares, como “Gotas de Sangue”, também poderiam entrar nessa que deve ser a primeira antologia retrospectiva do gênero, no Brasil. A introdução e o posfácio do autor são interessantes e a arte digital de Fernando Issamo na capa e no miolo de Sete Monstros Brasileiros são muito fluidas e competentes, mas a diagramação do livro e a reprodução sem contraste meio que matou a maioria delas. O que vale mesmo são os textos, que eu recomendo vivamente. 

 

Quadrinhos

Arte de capa de Will Conrad & Ivan Nunes.

Comunhão, de Felipe Folgosi (texto) e J. B. Bastos (arte). São Paulo: O Instituto dos Quadrinhos, 2017, 144 páginas. Capa de Will Conrad & Ivan Nunes. Álbum. Comprei este álbum gigante na TrekkerCon 2017. É mais uma bonita história em quadrinhos escrita e produzida pelo ator e roteirista Filipe Folgosi, a partir de campanha de crowdfunding feita com o Catarse. A primeira, Aurora (2014), eu resenhei no Who’s Geek. As duas realizam roteiros de cinema que ele desenvolveu depois de estudar nos Estados Unidos, na UCLA. Esta é uma história de horror, sugestão de um colega de Folgosi no curso. Ela segue a americana Amy e seu grupo de amigos, praticantes de um reality show de sobrevivência e corrida em trilhas localizadas em diversos países. Depois de uma tragédia de inverno, quando alguns amigos morrem ao atravessar um rio, ela se volta para a religião. Mais tarde, Amy e sua equipe estão no Brasil para uma etapa da competição, onde ela encontra um ex-namorado brasileiro, Dani. Todos resolvem fazer um treino na Mata Atlântica, onde se deparam com um reverendo que é uma figura tipo Kurtz (de Coração das Trevas, de Joseph Conrad) com a cara de Bryan Cranston em Breaking Bad, dominando uma tribo indígena instalada junto a um pátio ferroviário abandonado.

Amy terá sua fé testada por atos brutais motivados pela loucura mística do vilão, e seus amigos passarão por um teste ainda mais cruento de sobrevivência. Brigas de facão, empalamento, rituais de canibalismo sincretizado com a eucaristia — o leitor está no terreno dos filmes de Sexta-Feira 13 e de Halloween, com a diferença da ambientação tropical e da profundidade dada aos dilemas de Amy. Inclusive, com uma bela virada no final. A narrativa mantém um ritmo intenso o tempo todo. Por isso, provavelmente, ela foi cruel com os índios engabelados pelo reverendo, o detalhe que mais me incomodou. A arte em preto e branco de Bastos privilegia a linha, com tracejados e meios-tons apenas no fundo, e uma linha mais valorizada no contorno externo das figuras — lembrando a arte de Mike Allred ou de Geof Darrow. O formato é bem grande, aproximadamente 22 x 31 cm. Isso o torna meio perecível nas bancas de revista, mas traz ao leitor o prazer especial de ver tantos quadrinhos na página, resultando num ritmo incomum da narrativa. Coisa rara, hoje em dia.

 

Outras Leituras

The Imagitron: The Simon Stalenhag Art Gallery on the World Wide Web. Por intermédio da rede social Pinterest, fui parar no site do artista sueco Simon Stålenhag, agora exibindo artes digitais de seus livros ilustrados criados por ele e financiados via crowdfunding: Tales from the Loop (2015) e Things from the Flood (2016). Neles, um experimento de acelerador de partículas dá errado e aparentemente abrindo portais para a vinda de máquinas e criaturas fantásticas, a uma década de 1980 alternativa. Muitas das imagens revisitam a paisagem da Suécia, transformada pela presença desses objetos e criaturas, mas também há cenas que exploram outros lugares no mundo — tudo em uma atmosfera de melancolia, solidão e estranhamento. Algumas imagens dessa estranha “invasão” sugerem também uma invasão cultural americana e de um consumismo desastroso. Há um pouco de fotorrealismo e de surrealismo nessa arte de ficção científica, por si mesma perturbadora e instigante.

 

Arte de Simon Stalenhag.

 

 

Locus 673: Arte de capa de Francesca Myman.

Locus—The Magazine of the Science Fiction & Fantasy Field 673 (volume 78, N.º 2), fevereiro de 2017. A Locus é a trade magazine do campo da FC e fantasia desde que seu criador, Charles N. Brown, rodou o mimeógrafo pela primeira vez em 1968. Uma espécie de Publishers Weekly desse campo. Sou o “correspondente brasileiro” desde 1987 ou por aí. Boa parte do pagamento pelas minhas contribuições são em extensão da minha assinatura, por isso tenho a felicidade de receber a revista em casa, embora quase sempre alguns meses depois de baixar a edição em PDF a que os assinantes estrangeiros têm direito. A revista agora tem o miolo colorido, tornando-a ainda mais simpática.

Uma das suas grandes atrações é a cobertura do estado anual da arte, o “ano em resenha”, que aconteceu nesta edição de fevereiro. Mas antes eu li a entrevista com o galês Alastair Reynolds, o grande nome da new space opera. Eu já tinha enfrentado um livro dele antes, e a entrevista renovou meu interesse. A revista tem muitos resenhadores interessantes, e normalmente eu leio com maior interesse as colunas de Gary K. Wolfe e Russell Letson, que, desta vez, cobriu a antologia original Bridging Infinity (sobre super-engenharia), de Jonathan Strahan, ed., que pretendo adquirir se tropeçar nela em alguma livraria. Também resenhou dois romances do escocês Ken McLeod (escritor que não pretendo revisitar) e um do americano Greg Bear, Take Back the Sky, parte da primeira série de space opera militar de Bear. Wolfe resenhou, entre outros, Ken Liu, de quem nosso amigo Christopher Kastensmidt é grande fã. Noutra seção da revista, Rich Horton faz um bom apanhado das questões por trás da entrada da FC e fantasia nas antologias anuais “Best American” da editora Mariner, importantes no mainstream. A antologia que ele resenha, Best American Science Fiction and Fantasy 2016 foi editada por Karen Joy Fowler & John Joseph Adams. A escritora Kameron Hurley tem uma coluna eventual na revista, mas geralmente me esquivo dela por achá-la meio insossa. Só que desta vez ela acertou na mosca, com “If You Want To Level Up, Get Back to the Basics”, que me obriguei a copiar inteirinha, no meu caderno de escritor.

“Há poucas coisas para mim que são igualmente tão deprimentes e energizantes, quanto ler um livro realmente ótimo. Grandes livros são a razão de eu ter entrado nesta área em primeiro lugar, daí o motivo de eu ficar tão frequente chocada quando ouço de outros escritores profissionais que eles não leem mais.” —Kameron Hurley, “If You Want To Level Up, Get Back to the Basics”.

Hurley reveza a coluna “Commentary” com o canadense Cory Doctorow (sobre FC e cultura digital). Esse espaço já tinha existido antes, mas eventual e sem um titular. Na edição de abril de 1999, cheguei a publicar nela o meu texto “The Next Wave”, em que chamava a atenção para a importância e o crescimento de uma FC de cunho étnico e internacional: “A próxima onda na ficção especulativa provavelmente trará novas cores para o campo, e todo um conjunto de visões perturbadoras para confrontar o futuro de consenso”, afirmei. É claro que (conforme a piada vigente desde a década de 1990 no fandom paulista) eu estava errado. Antes do reposicionamento de uma FC mais internacional e diversa junto ao mainstream da FC, surgiram outras “ondas” ou “movimentos” que chamaram a atenção — como a new space opera e o New Weird, talvez não tão interessantes para a interpolinização e a abertura do gênero para outras perspectivas. (Nesse sentido, apenas o movimento da “mundane SF” pode ter chegado perto.) A julgar pela cobertura de 2016 na Locus, essa “onda” finalmente chegou. Liz Bourke trata da diversidade sexual no seu texto, Colleen Mondor saúda a instauração do novo paradigma no campo da literatura jovem adulta (como o pessoal do Manifesto Irradiativo aqui no Brasil já anunciava), e Rich Horton lamenta que a FC tradicional não esteja engajada contra a Era Trump, mas celebra o aumento da FC traduzida. Finalmente, Geoff Ryman (o fundador da mundane SF) trata da eclosão da FC africana (em língua inglesa).

No meu artigo, eu dizia que um grande obstáculo à integração das muitas FCs internacionais ao mundo de língua inglesa era o comercialismo inerente ao gênero, que impedia as editoras de investir em traduções: “quando você pensa na FC como uma ficção comercial para exportação, parte de uma tentativa de controlar a economia do lugar que importa, qualquer estratégia que contemple a troca cultural ou a interpolinização não tem razão de ser.” Eu estava citando gente como Bruce Sterling e Gwyneth Jones, mas o interessante do texto de Mondor, por exemplo, é que exatamente o comercialismo do campo que representaria uma fragilidade das editoras a ser explorada pelas demandas de público e grupos de pressão:

“A diversidade se tornou um tópico significativo de discussão no meio editorial e especialmente quanto a livros para crianças e adolescentes. Leitores, bibliotecários e livreiros estão exigindo mais representação não apenas de quem assina os livros e nos personagens, mas ambientação e enredo também, e a indústria se arrisca se ignorá-los.” —Colleen Mondor, “YA in 2016”.

Ao mesmo tempo, ler o texto de Ryman me deu o insight de que a FC africana e outras de Terceiro Mundo estão sendo favorecidas pela integração da ficção publicada na internet, às considerações editoriais do mundo de língua inglesa. A internet acaba tendo impacto não só na articulação dos grupos de pressão, mas até pelo amadorismo das suas publicações, que parcialmente igualam o campo: um blog ou revista eletrônica pode ter tanta força quanto uma revista impressa; algo mais difícil, no tempo da divisão entre revistas profissionais, semiprofissionais e fanzines.

 

Locus—The Magazine of the Science Fiction & Fantasy Field 677 (volume 78, N.º 6), junho de 2017. Quando Orson Scott Card esteve no Brasil em 1990 para a I InteriorCon, perguntei a ele sobre sua discussão com o escritor John Kessel no fanzine Short Form. Scott me disse que Kessel podia fazer muito mal à ficção científica. Suas ideias, é claro, de importar os valores do mainstream literário para a FC. Esta edição da Locus traz uma entrevista com ele, em que ele afirma que era leitor de FC desde criança, em uma família de classe trabalhadora. Kessel foi parar na universidade, onde se estabeleceu como professor de cursos de escrita criativa. Na entrevista, ele fala sobre seu novo romance, The Moon and the Other, em uma carreira não muito prolífica. Também sobre a Era Trump, o novo assunto de preferência da comunidade de FC e fantasia nos Estados Unidos. Mas já no fim da entrevista ele conta que era um fã doido de FC, que foi seduzido pela alta literatura. “Eu queria trazer os valores da literatura para a ficção científica”, declara. “Queria tratar a ficção científica como a academia tratava as obras que eu estudava. Todo jeito que eu conseguia misturar essas duas coisas, eu buscava misturar. Também estou dividido quanto aos valores dos dois tipos de literatura — ficção de gênero e ficção literária.” E ainda:

“A ficção literária que eu estudava na pós-graduação investia em personagem, em estilo e escrita e prosa. Enredo era o tipo do segredo sujo, na melhor das hipóteses, uma necessidade suja. Enquanto a ficção científica tende a investir um bocado em narrativa e nos conceitos por trás dela, e frequentemente diminui os personagens e o estilo da prosa. Eu queria ver se conseguiria fazer todas essas coisas juntas.” —John Kessel, “Over the Moon”.

Hoje, e demonstrando alguma evolução do seu pensamento, Kessel lamenta que os novos escritores não tenham contato com a tradição pulp do gênero. “Toda a tradição [do editor] John W. Campbell não significa nada para os novos escritores”, ele diz. E:

“De certas maneiras, as revistas pulp e Campbell e os escritores que vieram depois, reagindo contra ele, eles criaram a sua própria cultura, porque o mundo da literatura estava fechado a eles — não tinham qualquer acesso a ele, eles nunca seriam reconhecidos. Eles fizeram suas próprias regras. Era uma cultura de gueto, mas tinha o seu vigor, onde não tinham que se preocupar [com o crítico Edmund Wilson] vindo dizer a eles o que era o certo e o errado. […] Então eles fizeram suas próprias regras, sua própria literatura, o seu cânone, um alicerce sobre o qual as coisas poderia ser feitas, que os sustentaram e criaram obras interessantes. Essa ficção é valiosa, porque não seguem o mainstream do modernismo americano e da ficção judaica do pós guerra e todas as outras coisas que eram consideradas como a escrita série na América de meados do século 20. Muitos desses escritores assumiam certo orgulho do fato de não serem elitistas, de serem trabalhadores nas trincheiras.” —John Kessel.

A outra entrevistada é a escritora australiana Cat Sparks, exatamente da minha geração, e alguém que participou ativamente do fandom de FC antes de se voltar para a escrita e chamar a atenção com o romance Lotus Blue (2017). Além da identificação com ela, apreciei a preocupação de Sparks com o aquecimento global e mudança climática — assunto que sofreu certa resistência na FC americana há uns 8 ou 10 anos mas que agora teme entrado com força. Sparks cita o americano Kim Stanley Robinson como um autor que antecipou muito do caminho da FC nessa direção, e diz:

“Eu não sentei para escrever uma história de mudança climática, mas é fácil ver como acabei fazendo isso. Meu doutorado ainda não-terminado examina o ponto de intersecção da ficção científica de ecocatástrofe e da ficção sobre o clima. […] Pessoalmente, eu choro de tédio com [a ideia] do escolhido que salva o mundo. Salvar o nosso mundo real vai ser um esforço de grupo.” —Cat Sparks, “Strange Directions”.

Russell Letson, que se especializa em FC hard e em séries, resenhou a new space opera Infinity Engine de Neal Asher, e Convergence, de C. J. Cherryh, o 18.º livro de uma série na qual eu estou de olho, especialmente depois de ler dois romances da autora este ano. Cherryh foi muito importante nas décadas de 1980 e 90. Tom Easton, o crítico da revista Analog, chegou a afirmar que, “no seu melhor, ela me parece estar fazendo mais par moldar o futuro da FC do que qualquer outro escritor vivo”. Demorei para assimilar o estilo telegráfico e enérgico dela, mas agora quero mais. Na Locus, John Langan resenha dois livros de horror, e me interessei por Behold the Void, de Philip Fracassi [sic], justamente por trazer histórias do “tipo Além da Imaginação” — uma influência que eu também persigo (vi essa série na TV!). A Locus 677 também trouxe duas instâncias de uma apresentação relativamente nova, o “Spotlight On”. Primeiro, sobre Scott H. Andrews, editor da revista eletrônica Beneath Ceaseless Skies, dedicada à “fantasia de mundo secundário com ênfase literária ou nos personagens”. Depois sobre Heather Shaw, editora da revista eletrônica Persistent Visions, dedicada especificamente a servir de plataforma a vozes marginalizadas.

—Roberto Causo

 

 

 

 

Temos 2 comentários, veja e comente aqui