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Leituras de Dezembro de 2018

Em dezembro eu sentei para ler, e o resultado foi muita ficção científica brasileira e estrangeira, poesia, história em quadrinhos e alguma não-ficção.

 

Darwin’s Blind Spot: Evolution Beyond Natural Selection, de Frank Ryan. Boston/Nova York: Houghton Mifflin Company, 2002, 310 páginas. Hardcover. O darwinismo social é um assunto que me interessa desde que ele cruzou meu caminho em vários momentos em que eu cursava a Faculdade de Letras na USP. Minha posição, bem marcada e contrária a ele está no meu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (UFMG, 2003). Sendo leitor de ficção científica desde criança, foi ficando cada vez mais claro para mim o quanto o pensamento darwinista social faz parte da moldura anglo-americana do gênero. Essa é uma questão política e filosófica que fãs e escritores do gênero no Brasil frequentemente deixam passar.

Li partes deste livro justamente para escrever minha conferência “Combatendo Robôs: Drones e Darwinismo Social na Ficção Científica”, no IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional. (Muito obrigado ao Prof. Flavio García por me convidar!) Gostei da leitura, fluida e informativa, e resolvi terminá-lo. Trata-se de um livro-reportagem que se dedica a confrontar o neo-darwinismo com ideias em torno da simbiose e da cooperação entre as espécies — com isso indo contra as noções prevalecentes de competição e sobrevivência do mais apto. Esse é um assunto relativamente novo, e a esperança de Ryan (e minha) é de que ele venha a equilibrar a incorporação ideológica do darwinismo social na cultura, na ciência e na economia. Logo na introdução, Ryan aponta:

“Desde o início, a teoria evolucionária tem sido aplicada a muitos campos dos assuntos humanos, como a sociologia, a psicologia e mesmo a política. Tais interpretações, vistas apenas de uma perspectiva darwiniana, levam a uma ênfase excessiva na competição e no conflito. Mais danoso de todos, o darwinismo social da primeira metade do século XX levou diretamente aos horrores da eugenia. O surgimento, mais uma vez, do darwinismo social é portanto uma fonte de preocupação para muitos cientistas e sociólogos.” —Frank Ryan. Darwin’s Blind Spot.

O livro é dividido em duas partes. A primeira, “Controversies: The Struggle for Recognition” (controvérsias: a luta pelo reconhecimento), discute a história do conceito de simbiose e de como ele foi historicamente abafado pelos darwinistas. A segunda, “The Weave of Life” (a tecitura da vida), descreve a sua importância e exemplos e hipóteses que explicitam a importância da simbiose como um forte mecanismo evolucionário. Essa parte é absolutamente fascinante na sua divergência do consenso darwinista corriqueiro. Evoca uma sensação de como a evolução da vida é complexa, parecendo mesmo alienígena à nossa percepção. Há muitas ideias de ficção científica esperando gestação nessa parte do livro. É claro, o que a questão da simbiose como motor evolucionário evoca culturalmente é a ideia da cooperação equilibrando o substrato da competição no darwinismo. Um questão crucial, especialmente num momento em que a política brasileira vem abraçando perversamente as práticas do darwinismo social.

 

Contos Reversos, de Romy Schinzare. São Paulo: Editora Patuá, 2018, 158 páginas. Introdução de Caio Bezarias. Texto de orelha de Gilberto Lopes Teixeira. Ilustrações de Jorge de Souza Coelho. Brochura. Conheci pessoalmente a escritora Romy Schinzare e seu marido Jorge Coelho, um antigo colega da USP, no evento “Ficção Científica Brasileira: 60 Anos de Manifestos”, quando ela me deu um exemplar do seu Contos Reversos. O livro reúne histórias de fantástico literário, absurdismo, e daquela narrativa de FC ou fantasia que costumo chamar de “histórias tipo Além da Imaginação“. Nelas, o absurdo ou o fantástico entram no cotidiano de alguma pessoa ou pessoas, de modo relativamente restrito e mais com um caráter pessoal e humano. Menos “épico”, digamos. Nesse tipo de história há espaço também para a tão necessária franqueza na denúncia e no comentário moral. Assim, em “Ministério da Solidão” tem-se uma fábula sobre uma gente meio mole que nasce em cachos, uma espécie de humanos artificiais, individualistas e consumistas, que, como as salamandras do livro de Karel Capek, vão se multiplicando e ameaçando dominar o mundo: os Bananas. “O Prédio” é uma fábula distópica sobre essa construção que hierarquiza burocraticamente a vida em um mundo de alta tecnologia, como no livro de Ruth Bueno, Asilo nas Torres (1979). Mais longo e desenvolvimento mais pausado, “O Colecionador” é uma história de horror com uma atmosfera bem firmada, sobre uma assustadora coleção de corujas. No curto “Mrs. Liberty”, a Estátua da Liberdade ganha vida em Nova York, antes de fugir, desiludida com o desvirtuamento pelas autoridades americanas. Em “Os Robôs de Marte”, autômatos enviados ao Planeta Vermelho fundam a sua própria sociedade e retornam à Terra para capturar humanos, como nos velhos filmes B, e em Marte esses humanos e descendentes se tornam uma subclasse em revolta contra as máquinas. “Canal 66” é bem Além da Imaginação, menos panorâmico e mais centrado em personagens, tratando de um programa de TV que captura, literalmente, os seus espectadores. “Buraco de Minhoca” é uma FC sobre uma primeira missão espacial a Marte, narrada pelo ponto de vista de um cosmonauta russo que se depara com um portal dimensional no caminho. A tendência internacionalista das histórias de Schinzare é repetida em “Operação Baltimore”, ambientada no Sul dos EUA e tratando da violência racial e de uma sociedade secreta destinada a combater, com ferro e fogo, a Ku Klux Klan. “O Vampiro de Santa Efigênia” é outra história de horror e crime, enquanto “Moça Enluarada” brinca com situações de ufologia mascarando um golpe imobiliário, e “Rede ZZZ” traz outra alegoria da alienação causada pela TV e outros aparelhos que funcionam como muletas emocionais. “Oziris” é FC alegórica sobre alienígenas infiltrados na Terra, e finalmente, “Mutantes” é outra narrativa irônica e alegórica que emprega elementos de ficção científica para tratar dos absurdos do cotidiano. Vale citar o prefácio de Caio Bezarias, autor de Totalidade Pelo Horror: O Mito e a Obra de Howard Phillips Lovecraft:

“Romy Schinzare é um desses poucos autores em língua portuguesa que adotam o gênero fantástico sem se limitar a seus frequentes lugares comuns e clichês, inclusive os usando com inteligencia, vazando seus contos em uma linguagem cuidadosa, simples e desprendida, para mostrar que o impossível, o aterrador e o incrível estão muito mais perto de irromper em nossa realidade do que concebemos.”  —Caio Bezarias.

 

Arte de capa de Vagner Vargas.

Possessão Alienígena, de Ademir Pascale, ed. São Paulo: Devir Brasil, dezembro de 2018, 98 páginas. Capa e ilustrações internas de Vagner Vargas. Brochura. Esta é uma antologia original de ficção científica e horror compilada pelo dinâmico Ademir Pascale e que ficou um tempo na oficina da Devir Brasil, saindo, enfim, em dezembro de 2018. Traz histórias de Tibor Moriz, Estevan Lutz, Marcelo Bighetti, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife, Mustafá Ali Kanso, Roberto Causo e uma narrativa visual de Vagner Vargas, tudo dentro da premissa original criada por Pascale. A seleção de autores é uma mistura interessante de nomes da Segunda e da Terceira Ondas da FC Brasileira. Um grande atrativo é a deslumbrante arte de capa e as ilustrações internas de Vagner Vargas. Além disso e pela primeira vez em uma antologia de ficção científica nacional, esse destacado artista de FC participa também com uma galeria de imagens que funciona como uma espécie de narrativa visual com clima de horror, que lembra o material da revista Heavy Metal dos bons tempos. O livro também traz a primeira publicação póstuma de Mustafá ibn Ali Kanso, nosso colega desencarnado em 2017. A minha história na antologia é “Os Fantasmas de Lemnos“, vista antes em Shiroma, Matadora Ciborgue (Devir; 2015), mas escrita para Possessão Alienígena e inspirada diretamente na arte de capa feita pelo Vagner, ainda como esboço a lápis. Sobre essa arte, o que dizer? Linda, impactante, sugestiva, inquietante, com um senso estético ao mesmo tempo glamouroso e delicado que define a arte de Vagner Vargas, o melhor artista de ficção científica do Brasil.

Lendo as histórias, parece que a maioria dos escritores esquivou-se da fusão entre ficção científica e horror que o títulos sugere. O conto de Carqueija é uma love story, a de Moricz uma comédia, a minha é uma aventura. A de Bighetti provavelmente está mais próxima do horror, a de Vagner Vargas é de horror explícito, enquanto a de Lutz é uma narrativa apocalíptica. A contribuição de Calife, um dos principais autores da Segunda Onda e pai da FC hard nacional, abre a antologia repetindo a firmeza e a clareza características do seu texto, mantendo um traço de mistério. Calife sempre teve uma afinidade pelo tema, por ser fã do filme Força Sinistra (Lifeforce, 1985), e seu conto, que é a sua publicação mais recente, reflete essa afinidade.

 

The Infinite Future, de Tim Wirkus. Nova York: Penguin Press, 2018, 394 páginas. Hardcover. O Professor Christopher T. Lewis, da Universidade de Utah, me presenteou com este romance mainstream que, curiosamente, tem a ficção científica brasileira como um dos seus assuntos. Tudo indica que Wirkus, assim como Orson Scott Card e M. Shane Bell, foi missionário mórmon no Brasil. Seu primeiro romance, City of Brick and Shadow (2015), explora as favelas de São Paulo. Aparentemente, os dois livros têm em comum a narrativa construída como uma investigação. Neste aqui, trata-se de uma investigação literária. Uma sociedade informal composta por três pessoas (sendo uma delas um acadêmico brasileiro) se dedica a descobrir mais sobre um fugidio escritor americano de ficção científica que desenvolveu a sua carreira no Brasil, um certo Eduard Salgado-MacKenzie que soa como uma mistura do nosso Ivan Carlos Regina com figuras místicas tipo Philip K. Dick ou Cordwainer Smith.

No romance, Jeronymo Monteiro, André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz e Fausto Cunha são mencionados como brasileiros que escreviam para um número de antologias e de revistas que o Brasil nunca possuiu, com títulos como Contos Fantásticos, FC, Argonauto [sic], O Planeta, Contos Astronômicos, Contos Intergalácticos e Contos do Astronauta… Antes fosse assim. A descrição que Wirkus produz de um encontro de autores e fãs brasileiros de FC também soa mais como as convenções americanas, com gente circulando com bebidas nas mãos. De qualquer modo, toda a premissa, a ambientação e a estrutura do romance conduzem a leitura com interesse. Nesse último aspecto, a estrutura, o romance tem várias narrativas em primeira pessoas embricadas uma na outra, com Wirkus afirmando nque o seu romance é um manuscrito que caiu em suas mãos vindo de um amigo chamado Danny Laszlo, e com as narrativas dos outros investigadores literários e de testemunhas da verdade sobre Salgado-MacKenzie vindo logo atrás, até o ponto em que estamos lendo o manuscrito perdido do enigmático autor, ele mesmo uma espécie de ficção. Ao final dessa vasta exploração metaficcional, as coisas ficam mais misteriosas e subjetivas, mas a sugestão de que a obra de Salgado-MacKenzie possuiria uma dimensão mística e filosófica substancial não se cumpre. Além disso, todas as narrativas são moduladas com uma prosa literária competente mas que é, no todo, uma versão daquela prosa literária que parece ser tão default no mainstream quanto a prosa “operária” (workmanlike) da ficção popular. De qualquer modo, há em The Infinite Future muito de engenhoso, além de interessantes discussões mórmons (pelo caráter progressista dessas discussões), momentos genuinamente intrigantes, e essa estranha evocação literária da ficção científica no Brasil.

 

Cronista de um Tempo Ruim, de Ferréz. São Paulo: Selo Povo Editora, 2.ª edição, setembro de 2018, 124 páginas. Capa dura. Já falei nas minhas leituras de abril de 2017 da primeira edição deste livro de crônicas, que incluí na minha lista da literatura brasileira pós-mensalão. Está é uma segunda edição ampliada, num bonito formato capa dura, que adquiri do próprio Ferréz na minha visita à Comic Con Experience de 2018. Ferréz começou como fanzineiro na mesma época que eu, e se tornou um nome do hip hop e do movimento Literatura Marginal. Hoje também cronista e youtuber, é uma das figuras literárias nacionais mais interessantes e instigantes. Esta segunda edição do seu Cronista de um Tempo Ruim mostra que, além de tudo, ele deve amar o livro como objeto, já que produziu um volume bonito e gostoso de manusear. Quando tratei da primeira edição, apontei Ferréz como “uma voz fora da curva, na denúncia das hipocrisias costumeiras da sociedade brasileira quanto aos pobres e os moradores da favela e da periferia. Sua denúncia chega às autoridades, que não enfrentam a violência policial e mantêm, pela corrupção, a situação violenta que ceifa as vidas dos jovens e limita suas possibilidades de avanço. Alguns dos textos do livro repercutem os ataques do PCC em 2006, e a reação violenta da polícia e de esquadrões da morte. Outros, condenam o consumismo ou apontam o preconceito com que o morador da periferia é apresentado pela imprensa. Muitos têm a cadência e a dicção do hip hop brasuca. O retrato que Ferréz faz do estrago social produzido pela corrupção e descaso das autoridades é visceral.” Agora, além de repetir o elogio, eu me concentro no conteúdo inédito presente na segunda edição, totalizando cinco crônicas. Considerando que muita água rolou por baixo da ponte entre 2009 e 2018, politicamente falando, é apropriado que ele abra a seção com as adições anunciando a crônica “Sobre o Sorriso dos Políticos”, a respeito das suas desilusões e de uma tomada de posição humana e pessoal:

“Faz um Tempo que não me identifico com nenhum partido, a coisa parou de ser que nem time, está todo mundo no mesmo saco, literalmente.” —Ferréz, Cronista de um Tempo Ruim.

Por sua vez, “Paraíba, Literatura e Crack” descreve algo do mundo cultural que ele frequenta, feiras e eventos literários país afora. Ele trata de uma feira em especial na Paraíba, das palestras que ouviu com interesse, mas a questão de um grupo de meninos viciados em crack e jogados na rua é o centro emocional da crônica, orbitado o mundo elevado da arte literária. Em “O Aniversário de uma Favela”, ele trata de um evento de rua na periferia de São Paulo, num bairro que comemora seu aniversário e nas figuras sociais e culturais que transitam por ali, construindo um clima utópico passageiro mas que preenche o ar de esperança. “Malditos Flanelinhas” é contundente ao comentar medidas do governador de São Paulo de reprimir a atividade dos guardadores de carro; quer dizer, pisar no pescoço de quem já está desesperado, enquanto práticas cotidianas capitalistas legais são até mais extorsivas do que alguém pedir ou cobrar uns trocados para vigiar o seu automóvel. O último texto é “Tentativas”, provavelmente o mais poético, transitando em referências culturais populares que esquentaram o meu coração de fanzineiro e fã de quadrinhos e cultura popular, com tanta citação de artistas brasileiros e estrangeiros. Ferréz mantém o seu toque especial.

 

Arte de capa de Bryn Barnard.

Farewell Horizontal, de K. W. Jeter. Nova York: St Martin’s Press, 1989, 250 páginas. Capa de Bryn Barnard. Hardcover. Não me lembro onde comprei esta edição de clube de livro. Provavelmente pelo sebo virtual Alibris. De Jeter eu já tinha lido o seu romance proto-cyberpunk Dr. Adder (198 ) para a minha tese Ondas nas Praias de um Mundo Sombrio: New Wave e Cyberpunk no Brasil, e mais tarde, li o seu debut steampunk, Morlock Night (1978). Farewell Horizontal é cyberpunk de um jeito meio japonês, por se centrar em um cenário complexo, sugestivo mas sem que o autor se dê ao trabalho de mostrar como chegamos a esse futuro. Isso meio que contradiz, inclusive, os princípios extrapolativos dos cyberpunks de primeira geração.

O cenário em questão é uma gigantesca torre que se ergue num mundo que nem sabemos se é a Terra ou não. O protagonista é um cinegrafista que se pendura a face externa da torre e vende imagens para canais especializados — uma delas, de misteriosos seres alados chamados “anjos”, transando no céu em torno da torre. Esse freelancer tem até agente. Seu trabalho do coração, porém, é decorar armaduras de combate para que as diversas gangues do lugar possam se matar com estilo. As coisas entortam pra ele quando é usado como bode-expiatório em um esquema pra humilhar os líderes de uma dessas gangues. Só lhe resta fugir para regiões esquecidas, misteriosas da gigantesca torre. Caçado implacavelmente, ele conhece e trava contato com tipos ainda mais estranhos, todos apropriadamente cruéis e cínicos. Em sua jornada, ele descobre ações ainda mais cruéis do governo local. Nesse mundo, conflitos e informações são comercializados e transformados em entretenimento, e a fuga e as escapadas do herói — um individualista tipicamente cyberpunk e redimível apenas por estar circunstancialmente lutando contra o sistema — são acompanhados pelos espectadores dos vários níveis. Apesar do cenário interessante, falta pegada à narrativa e ao que ela tem a dizer. É um pouco como a competente ilustração de capa de Bryn Barnard, sugestiva e bem executada, mas com um personagem de expressão sem personalidade.

 

Mindscan, de Robert J. Sawyer. Nova York: Tor Books, 2011 [2005], 302 páginas. Capa de Stephan Martiniere. Trade paperback. Este livro, um romance de ficção científica, foi presente da minha colega de pós-graduação Cláudia Corrêa e veio autografado. O tema é o upload da consciência humana em corpos robóticos, conceito que, a partir da década de 1990, cresceu muito no rastro das ideias da singularidade tecnológica e do pós-humanismo. O protagonista é um canadense mediano, herdeiro de uma cervejaria, que resolve fazer o upload antecipando uma doença neurológica hereditária. Há um lado literário no livro, em como ele foge do formato do thriller e se concentra na caracterização do protagonista e seus relacionamentos. As coisas se encaminham para o personagem assumir um retiro na Lua, enquanto o seu duplo robótico segue com a vida na Terra. As questões em torno disso são desenvolvidas com habilidade, narrando a adaptação da consciência duplicada e transplantada ao corpo robótico, e a da consciência antiga ao ambiente artificial lunar. Na Terra, o robô enfrenta a alienação da namorada e o questionamento legal da família de uma amiga, uma nonagenária que implantou sua consciência em um corpo jovem, envolvida agora em uma disputa por controle de direitos autorais (a mulher é autora best-seller de livros para jovens). Na Lua, o protagonista descobre que um novo procedimento médico é capaz de resolver a sua doença degenerativa facilmente, e passa a desejar o retorno à Terra e para junto do seu interesse romântico. Por um lado, portanto, o romance assume as cores de um drama jurídico em torno da definição da vida e dos direitos do ser humano; e de outro, as de um drama pessoal, do homem em conflito com as disposições comerciais e legais da empresa que assumiu o controle da sua vida. Ao mesmo tempo, há um argumento interessante sobre entrelaçamento quântico entre várias iterações do upload.

Este é o primeiro romance do veterano e premiado autor canadense Robert J. Sawyer que leio. Mindscan alterna momentos intrigantes, com uma espécie de carência de empatia emocional que a gente às vezes se depara numa ficção científica que quer suprir com grandes ideias uma incapacidade de lidar com aspectos emocionais e humanos. É um problema, inclusive, do assunto upload de consciência humana a algum meio digital, virtual ou robótico. Soma-se a isso o fato de que o protagonista é outro personagem pálido, insosso. Nesse sentido, o romance de Sawyer, apesar da sua construção engenhosa e complexa, fica devendo — e muito.

 

A Arte do Cinema: Star Wars (The Art of Film: Star Wars), Anônimo, ed. São Paulo: Editora Europa, 2015, 178 páginas. Tradução de Gustavo Vicola, Maurício Muniz e Paulo Ferreira. Formato grande. Bacana saber que a ascensão da cultura nerd/geek tem permitido a publicação de um livro de arte como este, sobre a arte de Star Wars. Foi produzido originalmente pelos editores da revista inglesa ImagineFX, dedicada à arte digital. É basicamente um catálogo de artistas, trazendo muita arte de fã, mas bastante coisa comissionada oficialmente, inclusive material de Greg Hildebrandt, David Dorman, Dave Seeley, Terry Dodson, Jon Foster e outros artistas fabulosos. Foi muito sensível abrir o livro com o trabalho de Ralph McQuarrie, o desenhista de produção da primeira trilogia da franquia (1977-1983). Incluir esse conteúdo clássico, feito com rapidez com guache ou outra técnica semelhante, mas que conserva uma qualidade épica e a atmosfera de maravilhamento dos primeiros filmes, faz a gente pensar o quanto o look de Star Wars persiste com a sua coesão e coerência estética até interpenetrar a sofisticação da arte digital — representada no livro pela arte fluida de Mark Molnar, Josh Viers, Daryl Mandryk, Simon Goinard e outros. De fato, muita coisa mudou na arte de ficção científica, na transição da tinta e do pincel (ou do aerógrafo) para a mesa digitalizadora. Mas a arte de Star Wars permanece distinta para além do rótulo do retrô, justamente por sua coerência ao longo dos anos. Confesso que sou fascinado pela arte de Star Wars não só por ser  fã da franquia desde a infância, mas exatamente por essa razão relacionada à sua riqueza e à sua permanência. É claro, este e outros livros dão conta da quantidade de talentos que já produziram imagens para Star Wars, e de uma infinidade de abordagens aplicadas por eles.

Há no livro o trabalho do criador de dioramas Stephen Hayford, por exemplo, e o do modelista Ansel Hsiao, que turbinou as naves da franquia em plastimodelismo. Ou de Brandon Kenney, que pintou telas com os personagens da primeira trilogia, em óleo, carvão e acrílica, enquanto Cat Staggs absorveu a iconografia da franquia em arte de poster de propaganda política. Gostei especialmente das ilustrações de Chris Trevas, que criou interpretações visuais intensas, bem-humoradas ou dramáticas de momentos elipsados nas narrativas canônicas dos filmes, materializando aquilo que certamente pertence à imaginação dos fãs.

 

Outros Jeitos de Usar a Boca (Milk and Honey), de Rupi Kaur. São Paulo: Editora Planeta, 20.ª edição, 2018 [2017], 208 páginas. Capa e ilustrações internas de Rupi Kaur. Brochura. Tradução de Ana Guadalupe. Cá estou, tentando ler mais poesia, contemporânea desta vez, e por tabela tentando entender algo da subjetividade feminina. A poeta Rupi Kaur é uma jovem canadense que fez um baita sucesso com este livro, que ela ilustra com os seus próprios desenhos. Chegou ao primeiro lugar na lista do New York Times.

Um aspecto do livro é a exploração muito franca de questões sexuais de étnicas de alguém da sua geração que está fora, em termos físicos e subjetivos, do “padrão”. Filha de mãe indiana, Kaur fala muito de pelos corporais e da vulnerabilidade feminina, tratando de abuso e supressão da voz e do desejo. Na mesma moeda estão a violência masculina, passividade materna e opressão paterna. Ela divide o seu livro em partes com os títulos “A Dor”, “O Amor”, “A Ruptura” e “A Cura”, e é interessante como uma expressão do eu feminino em partes posteriores se contrapõem àquela presente na primeira. “O Amor” começa tratando do amor entre mãe e filha e da maternidade, mas logo entra no amor erótico. O eu lírico assume uma personalidade mais assertiva e prospectiva, mais segura de si em seus desejos e na afirmação das suas várias faces. Essa perspectiva, que não se atrela a situação da mulher vítima nem à da mulher altiva contribui para dar ao livro uma representatividade maior, mesmo que o leitor tenha a impressão de haver um caminho de libertação ou de impulso utópico aí. A terceira parte trata de saudade e separação, e a quarta de solidariedade e autodeterminação. Kaur também se sente livre para escrever poemas curtos de linhas também curtas, ou outros longos e quase de prosa poética. O título original reproduz a imagem do leito e do mel — do corpo feminino que nutre e deleita — muito repetida nos poemas. Não conheço o suficiente dos millennials canadenses e americanos para dizer se Rupi Kaur define ou não dilemas e virtudes da sua geração, mas o seu livro tem caráter e a impressão de juventude salta de suas páginas.

 

Bandeira Sobrinho: Uma Vida e Alguns Versos, de Braulio Tavares. Fortaleza: Editora IMEPH, 2017, 256 palavras. Brochura. Comprei este romance curto praticamente da mão do próprio Braulio Tavares, a quem eu e minha esposa Finisia Fideli encontramos por acaso no estande da Editora Draco, na Bienal do Livro em São Paulo. Ele nos levou ao maravilhoso estande da IMEPH e nos apresentou a este que é o seu segundo romance (depois de A Máquina Voadora, de 1994), tratando-o como um exercício de autoficção. Isso porque há um “Braulio Tavares” personagem e narrador do livro, que é centrado na figura de um cantador e repentista da Paraíba, cujo nome está no título e com quem o Braulio-personagem teria convivido. Bandeira Sobrinho, porém, é um personagem ficcional, cujo discreto estudo de personalidade traçado por Braulio (pelos Braulios, na verdade) fornece um mecanismo interessante e eficiente para uma compreensão das características da cena cultural dessa prática artística tão nordestina e tão importante para a cultura brasileira, nos anos de formação de Braulio Tavares, um conhecido letrista, roteirista de cinema e televisão, poeta cordelista e um dos melhores escritores da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira. Braulio, inclusive, já escreveu muito a respeito do cordel e do repente em livros como Contanto Histórias em Versos: Poesia e Romanceiro Popular no Brasil (2005) e Cantoria: Regras e Estilos (2016).

Como sempre e em tudo o que faz, ele conduz o texto de Bandeira Sobrinho com graça, brilho, riqueza de textura e uma erudição despretensiosa. Há um componente metaficcional efetivo e integrado ao projeto do romance, já que os versos reproduzidos — todos escritos por Braulio Tavares — compõem com a narrativa e a caracterização dos personagens e do seu ambiente. Interessantemente, no mesmo ano em que visitamos o IMEPH, o cordel  foi declarado patrimônio imaterial do Brasil.

 

Arte de capa de Cayman.

A Sombra do Corvo, de Rouxinol do Rinaré. Fortaleza: Edição do Autor, novembro de 2017, 8 páginas. Capa de Cayman. Folheto. Por falar em cordel, este é um dos que Braulio Tavares me indicou no estande do IMEPH. Uma das coisas maravilhosas que a editora cearense fez foi trazer cantadores e cordelistas para a Bienal do Livro, de modo que pegamos o autógrafo de Rouxinol do Rinaré ali mesmo. Braulio indicou este cordel em particular porque ele se inspira no famosíssimo poema de Edgar Allan Poe, “O Corvo” (1845). Trata-se então de um diálogo intertextual e homenagem bem específicos, e seria interessante sondar como o poema de Poe veio a impressionar o poeta brasileiro. De qualquer modo, o cordel sempre fez um malabarismo de erudição entre fontes clássicas e populares.

É claro, o poema narrativo de Rouxinol do Rinaré é mais extenso e num tom diferente daquele de Edgar Allan Poe, mas há pedras de toque o suficiente entre um e outro para garantir um jogo intertextual evocativo. Poe é incrivelmente produtivo e plástico, nesse sentido. A sua obra se presta ao diálogo em polos tão diferentes quanto o mainstream literário, a ficção de gênero e, como vemos aqui, formatos populares como o cordel.

 

Arte de capa de Eduardo Azevedo.

Jorge e Carolina, de Rouxinol do Rinaré. Fortaleza: Edição do Autor, novembro de 2015, 32 páginas. Capa de Eduardo Azevedo. Folheto. Neste Jorge e Carolina, Rouxinol do Rinaré adapta uma obra brasileira, A Viuvinha (1857), o segundo romance publicado por José de Alencar. Eu me pergunto se haveria ou haverá no futuro um mercado para adaptações de cordel de grandes obras do cânone literário nacional, como aconteceu com as histórias em quadrinhos que adaptam esses livros, funcionando como um facilitador para quem quer ter esse capital cultural em particular — ou que precisa enfrentar perguntas de literatura no vestibular… Acho que não.

A Viuvinha é um romance de costumes, tônica da época, e o poema narrativo descreve o casal de protagonistas citados no seu título, e a situação emocional e social dos dois. Narra como o moço superou o passado perdulário e irresponsável, para conquistar a moça. O tom é mais sóbrio, é claro, do que A Sombra do Corvo. Rouxinol do Rinaré recebeu prêmios e venceu concursos, foi citado em revistas culturais francesas como Quadrant, Latitudes e Infos Brésil, e sua arte poética é assunto de muitos trabalhos acadêmicos. Um tesouro regional e nacional.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Juan Giménez.

Apocalypse: The Eyes of Doom, de Juan Giménez & Roberto Dal Prá. Northampton, Massachusetts: Heavy Metal/Kitchen Sink, 1993 [1991], 58 páginas. Arte de capa de Juan Giménez. Tradução de Michela Noris. Álbum capa dura. Sendo fã do quadrinista argentino Juan Giménez, eu não poderia deixar este álbum colorido dando sopa por muito tempo, na loja Omniverse de Luis Mauro. A história começa em 1972 na guerra do Vietnã, quando o sargento Dan Curry (chamado de “Dick” em um momento, talvez por engano da tradutora) vê uma criança deter, aparentemente pela força do pensamento, um par de helicópteros americanos durante o ataque a uma aldeia vietnamita. Anos depois, vivendo em Nova York, Curry é um bem-sucedido escritor de ficção de detetive — uma instância do interesse europeu pela coisa toda do cinema noir. Obcecado pelo que viu no Vietnã, o atormentado Curry claramente mantém um interesse pela cultura indochinesa. Ele acaba se deparando com casos estranhos de mortes entre a cúpula do crime organizado no Chinatown novaiorquino, e passa a investigá-los de modo independente. A narrativa vai então a um jovem confinado a uma cadeira de rodas, e sua mãe, a responsável pelos ataques e pela campanha de tomada de poder do crime organizado em Chinatown. Obviamente, o rapaz é aquele menino vietnamita com poderes mentais.

Uma critica que se pode fazer ao enredo é que Curry no fim não descobre nada, apenas testemunhando o destino final do seu objeto de interesse. A dinâmica entre mãe e filho explica sozinha que ela não é de fato a mãe dele, mas uma mulher que apenas viu o que ele era capaz de fazer ainda em criança, e que passou a utilizá-lo para os seus fins. Mesmo sabendo que, a cada vez que o jovem usa seus poderes, paga um preço caro em saúde física — daí a cadeira de rodas. O álbum apresenta então uma história que é uma espécie de Scanners (1981) em formato de film noir, mas é o virtuosismo de Giménez que o eleva para algo mais do que o nível de um telefilme da época. O apartamento de Curry, por exemplo, é um desbunde, atulhado com objetos de arte oriental ajuntados pelo obcecado escritor. Para esse álbum, o artista empregou um ângulo especial de iluminação, aplicado ao rosto dos personagens a fim de lhes dar maior expressividade. E as cenas de paranormalidade são genuinamente assustadoras.

 

Superman Crônicas Volume Um, de Jerry Siegal & Joe Shuster. Barueri-SP: Panini Brasil, agosto de 2007, 194 páginas. Capa dura. Depois de ler mês passado a biografia em quadrinhos de Joe Shuster, fui atrás desta compilação das primeiras histórias do Super-Homem criadas por ele e Siegal, nas páginas da revista Action Comics. É maravilhoso que a Panini tenha nos franqueado esse material histórico.

De imediato, fica claro que o personagem que se consagrou nas HQs e nas telonas e telinhas era, em sua origem, bastante diferente. Faltam todas aqueles superpoderes cuja dinâmica foram a tônica do personagem em um momento posterior. Também falta o enfrentamento de supervilões exóticos que parecem possuir o seu próprio complexo militar-industrial (como Lex Luthor), ser um supercrânio vindo do futuro, um duende vindo de uma outra dimensão, ou incontáveis ameaças alienígenas. (Parece que essas coisas foram definidas posteriormente não por Siegal & Shuster, mas por Julius Schwartz.) Na sua primeira fase, o Super-Homem enfrenta os problemas sociais do seu tempo e lugar, os Estados Unidos de fins da década de 1930.

Na primeira história, o herói impede uma mulher injustamente condenada à morte de ser executada, brutaliza um marido abusivo, salva Lois Lane de um machão, e aterroriza um lobista corruptor. Esse último caso o leva, na segunda história, a uma situação de fomento de guerra em um país estrangeiro fictício, para incrementar a venda de armas. Clark Kent e Lois Lane vão para lá cobrir o conflito, e o herói tem a chance de salvar Lois de um fuzilamento, despacha um torturador militar, e obriga os generais das duas partes no conflito a lutar até a morte ou a fazer as pazes. Outras histórias envolvem um empresário do setor de mineração que não investe o que devia na segurança dos trabalhadores, trapaça em um campeonato de futebol americano, um impostor do Superman a serviço da imprensa marrom, delinquência juvenil e favelização, corrupção policial e penitenciária, especuladores do petróleo, e leis de trânsito frouxas levando a um número elevado de acidentes.

É fabuloso que Superman tenha surgido como um guerreiro da justiça social, mas os seus criadores temperaram a sua bondade com a atitude das ruas, emprestando a aspereza da ficção de detetive (incluindo truques como disfarces) que o faz empregar espancamentos, intimidações, destruição de propriedade na escala de arma de destruição de massa — como quando resolve sozinho revitalizar uma zona de cortiços, expulsando as pessoas de suas casas e as destruindo do teto ao chão. Suponho que o seu código de honra, tão de aço quanto ele, tenha surgido mais tarde. Depois de ler este material, eu me pergunto se a disposição do herói de obedecer às leis dos homens não veio só para temperar o uso desinibido do seu poder super-humano, mas também para afastá-lo desse seu lado social por razões políticas e ideológicas. Mesmo neste primeiro volume com 14 histórias, a gente vê o herói sendo aperfeiçoado na sua origem: a primeira história fala do menino recolhido de um foguete entregue a um orfanato por um motorista anônimo; quando o personagem ganha sua própria revista, a história de origem menciona o casal Kent como tendo encontrado a nave, recolhendo o bebê e o entregando ao orfanato, mas retornando logo depois com a proposta de adotá-lo. O livro reúne também as capas da Action Comics de 1 a 13, da primeira Superman, e da histórica edição New York World’s Fair Comics.

 

Arte de capa de Cliff Chiang.

Paper Girls Volume 1, de Brian K. Vaughan (texto) & Cliff Chiang (arte). São Paulo: Devir Brasil, 2016, . Arte de capa de Cliff Chiang. Tradução de Kleber Ricardo de Sousa. Brochura. OK: anos 80. Eu estava lá. Li livros de Stephen King, vi filmes como Os Goonies e Carrie, a Estranha, joguei Asteroids e Space Invaders, e li muito gibi de horror e ficção científica. Releituras como Super-8, Stranger Things e produções ambiciosas como a de It são mais que bem-vindas — mesmo porque as estratégias narrativas e os temas daquela época ainda guardam a sua eficiência. Os meus romances Anjo de DorMistério de Deus, ambientados em 1990 e 1991, têm tudo a ver com essas estratégias e temas.

Este Paper Girl combina muita coisa de tais estratégias narrativas: um grupo de crianças imaginativas enfiadas em situações fantásticas, um fenômeno sobrenatural ou alienígena ameaçando uma pequena comunidade, narrativas pessoais de desajuste caracterizando os personagens, ideias de ficção científica e horror informadas por uma tradição de filmes e livros populares, referências culturais por toda parte, e um aceno ao cósmico. É claro, há uma qualidade áspera, irônica, e subversiva no roteiro de Brian Vaughan, embora, felizmente, não tanto quanto no seu megassucesso, a space opera nonsense Saga. No primeiro episódio, as meninas entregadoras de jornal se metem, no meio da madrugada, com uns valentões vestidos para o Halloween — e essa é a coisa mais normal com que se deparam. Depois disso temos viagem no tempo, uma polícia temporal montada em pterossauros, e um conflito de gerações no futuro. As quatro meninas forma um conjunto de dinâmica divertida, de origens diversas (uma delas fuma, anda armada, é bocuda e politicamente incorreta; uma outra é mulata, outra é meiga e ingênua, e por aí vai). Muita coisa fica no ar, esperando definição maior no volume dois. Este aqui fecha com o gancho mais perfeito.

 

Arte de capa Owen Freeman.

Lazarus Volume 2: Ascensão (Lazarus Number 2), de Greg Rucka (texto) & Michael Lark (arte). São Paulo: Devir Brasil, dezembro de 2018, 128 páginas. Arte de capa Owen Freeman. Brochura. Este é o segundo volume de um série de ficção científica que tenho acompanhado com muito interesse por ser uma bem realizada FC cyberpunk rural — algo visto antes nos romances Tempo Fechado (Heavy Weather, 1994), de Bruce Sterling, e em partes de The Peripheral (2014), de William Gibson, do qual já tratei aqui em janeiro. Se no cyberpunk usual, urbano, frequentemente aparece uma monstruosa aristocracia financeiro-industrial, em Lazarus tem-se uma violenta aristocracia rural quase feudalista, que controla o trabalho com poderes absolutos e alicia os talentos de técnicos e cientistas à sua “família”, num vínculo vitalício. O patriarcalismo é total em um futuro americano decadente e distópico, de carências agudas e grandes desigualdades sociais.

A protagonista da série é Forever Carlyle, uma pós-humana criada desde criança para ser uma espécie de tenente e carrasco da família Carlyle. Ela é capaz de se regenerar rapidamente de ferimentos infligidos a ela — daí o título da série. Incidentes narrados no volume 1 deixaram Forever com a pulga atrás da orelha em relação aos negócios da família e o quanto a sua lealdade absoluta é correspondida pelo patriarca e por seus “irmãos”. Aqui, conhecemos mais do treinamento de Forever na infância, com direito a espadas japonesas bem cyberpunks, e à descarada chantagem emocional do patriarca. O habilidoso romancista Greg Rucka desenvolve a narrativa como o roteiro de um filme, introduzindo neste volume um enredo paralelo envolvendo uma família de “refugos” (os trabalhadores sem adesão a uma “família”) que abandona a propriedade degradada em que tinham se abrigado e partem como retirantes rumo a um posto de recrutamento de trabalhadores organizado pelos Carlyles. Tanto essa linha quando o momento climático da sua fusão com a linha de Forever tem uma crueza digna de um filme como Logan (2017). O desenho realista de Michael Lark, que conserva algo de autocontraste por baixo da cor esmaecida de Santi Arcas, enfatiza a dureza da narrativa e coloca o leitor nesse mundo tão semelhante ao nosso mas com elementos futuristas suficientes para sublinhar o lado cyberpunk de Lazarus. Uma das HQs de ficção científica mais bacanas sendo publicadas atualmente.

—Roberto Causo

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Chernobyl

Roberto Causo discute a minissérie da HBO Chernobyl, grande ganhadora do Emmy 2019

 

CHERNOBYL

 

 

Eu tinha 20 anos, quando aconteceu o desastre nuclear de Chernobyl, uma palavra que entrou para a história do mundo. Me lembro do quanto ele foi discutido na imprensa, e de que até no Brasil houve repercussões, como o bloqueio da importação de leite em pó de países escandinavos, e a venda recomentada de iodo nas farmácias. Uma ninhada de gatos que foi parar lá em casa um ou dois anos depois foi batizada de “filhotes de Chernoby“, todos frágeis e estranhos, tendo sobrevivido apenas o Pirata, que nasceu sem o olho direito mas cresceu como um bicho extremamente determinado e agressivo, a ponto de espalhar os seus genes lesados por algumas gerações de gatinhos.

O assunto “desastre nuclear” já havia surgido no meu horizonte de interesses porque eu era fã de ficção científica há algum tempo em 1986, quando explodiu o gerador de Chernobyl, e o filme Síndrome da China (The China Syndrome) — ele mesmo inspirado em um acidente anterior na usina de Three Mile Island, nos Estados Unidos — havia chamado a atenção dos fãs de FC. Dirigido por James Bridge, o filme é de 1979. Mais tarde eu me corresponderia com o escritor americano de ficção científica Gene Stewart, cujo pai, segundo ele, teria morrido em consequência dos efeitos da radiação que escapou da usina americana.

Em Síndrome da China, uma dupla de jornalistas (Jane Fonda e Michael Douglas) investiga um incidente ocorrido na usina nuclear que eles visitavam, e com a ajuda de um funcionário da empresa que administrava a usina (Jack Lemmon), escancara o acobertamento do incidente. Em parte, portanto, a corrupção é o tema do filme.

Logo depois do desastre nuclear soviético, o escritor americano de ficção científica Frederik Pohl publicou o seu romance mainstream Chernobyl, em 1987, dramatizando os trágicos eventos.

Lembro que o Brasil possui usinas nucleares: Angra 1, 2 e 3 (esta, ainda em instalação). O país produz o complicado lixo nuclear, sempre difícil de dispor e acondicionar. Obviamente, considerando que desastres nucleares já aconteceram nos EUA, Ucrânia e Japão (Fukushima, em 2011), a presença dessas usinas inspira preocupação.

De fato, nós também já tivemos o nosso desastre nuclear — o do Acidente Radiológico de Goiânia em 1987, em que uma cápsula de césio-137 foi rompida a marretadas e o conteúdo brilhante usado como brinquedo por crianças e adultos. O nosso desastre é, desse modo, apropriadamente tupinipunk, quer dizer, redutor do glamour da alta tecnologia e expressão da ignorância do povão e da irresponsabilidade empresarial e governamental. Não é à toa que apareceu como datação do “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira” do colega Ivan Carlos Regina, primeiro publicado no fanzine Somnium, em 1988.

É bem possível que um outro acidente tenha ocorrido ainda antes desse, pois eu soube por uma fonte próxima, que, quando ela era estudante de medicina, um dos seus professores, ele mesmo um dos nossos poucos especialistas nos efeitos da radiação no organismo humano, teria confidenciado que tratara um técnico atingido por vazamento em Angra.

Levei algum tempo para entender que as preocupações ambientais da minha juventude haviam evoluído para me tornar um socialista verde não-marxista. A “parte verde” faz de mim um opositor ao uso da energia nuclear, algo que tem sido a plataforma do Partido Verde mundo afora. No Brasil, o jornalista, ex-guerrilheiro e político fundador do Partido Verde no país, Alfredo Sirkis, satirizou o fetiche de potência sexual em torno da energia nuclear no seu romance tupinipunk Silicone XXI (1985).

Arte de capa de Benson Chin.

Eu mesmo, em minha noveleta tupinipunk “Vale-Tudo” (2010), tratei de uma sabotagem da Central Nuclear de Angra levando a uma crise ecológica e ao caos social no Sudeste Brasileiro, dando espaço para manobras políticas especialmente cruéis. Não é preciso, porém, apelar para uma  sabotagem de Angra para se apontar o quanto a energia nuclear é uma ideia ruim. Basta lembrar que este é um país que contingencia recursos da saúde, da educação, da defesa e da infraestrutura sempre que é conveniente. Onde estão as garantias de que os recursos para a manutenção das usinas e para a evacuação em caso de acidente não serão contingenciados? Além disso, lembrando do tema da corrupção em Síndrome da China, também aponto que a Eletrobras Eletronuclear já foi vítima da corrupção corriqueira entre agentes públicos e empreiteiras e fornecedores (como a Lava Jato explicitou). E ninguém se preocupou em garantir à opinião pública que a corrupção na empresa “criada em 1997 com a finalidade de operar e construir usinas termonucleares no Brasil” não afetou a segurança da operação das usinas existentes, nem se avaliou que riscos a corrupção pode ter trazido à sua manutenção.

 

 

A minissérie Chernobyl, criada por Craig Mazin e exibida pela HBO foi um gol de placa. Trouxe a polêmica de volta em uma produção com elementos estéticos de documentário e filme independente, com uma sólida atmosfera de horror que também parece  crua e naturalista. A produção foi elogiada pela crítica e há pouco, conquistou 10 Prêmios Emmy, inclusive o de Melhor Minissérie.

O primeiro episódio abre com um cientista russo cometendo suicídio no aniversário do desastre. A minissérie então mergulha num longo flashback que explica como esse cientista, Valery Legasov — interpretado pelo brilhante ator inglês Jared Harris —, foi parar no controle de danos do desastre de Chernobyl. Ao abrir a boca com alarme, durante uma reunião com o dirigente máximo da União Soviética de então, Mikhail Gorbachev (David Dencik), ele é selecionado para ir até a Ucrânia e avaliar in loco o tamanho da merda. A ordem improvisada dada por Gorbachev equivale a uma pena de morte. Depois de grudar no burocrata Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård, em outra atuação primorosa), durante uma discussão, Legasov diz que ele próprio e Shcherbina estarão mortos em cinco anos. A grande questão naquele ponto era evacuar ou não a cidade ucraniana de Pripyat. A hesitação teria sido motivada pela intenção de evitar o pânico e a propaganda negativa que cairia sobre a União Soviética.

Várias falas, proferidas com espantosa ausência de cerimônia, proclamam a necessidade de manter a imagem do poderio tecnológico soviético, e o papel inerte da população. Para além da necessidade de promover a aura utópica da URSS, a produção investe no clima de paranoia estabelecido pelo regime. A todo instante, os envolvidos pesam suas falas perante a possibilidade de prisão e até mesmo de execução pelas autoridades acima deles na cadeia alimentar. O serviço secreto soviético, a KGB, é mencionada, e, já perto do final, Legasov é conduzido a uma entrevista com o chefe da KGB — em uma sala com paredes cobertas de ladrilhos e um ralo no centro, para, presumivelmente, escoar o sangue dos torturados.

Salta aos olhos, em primeiro lugar, as atuações mínimas e secas, extremamente competentes dos principais atores. E em segundo lugar, o tratamento naturalista da cinematografia e do estilo de direção. Em uma era dominada pelas supercâmeras digitais HD e por efeitos especiais gerados por computador que dão a tudo aquela pátina própria da estética dos videogames, é bom saber que o naturalismo ainda tem lugar, demonstrando a sua força expressiva. Em Chernobyl, essa qualidade sublinha a angústia das situações e ampara a cuidadosa reconstituição de época, meio ambiente e arquitetura da época. A série foi filmada majoritariamente na Lituânia, o que valorizou, com certeza, o tom documental da série, muito amparado pelo naturalismo.

Desse modo, o espectador observa primeiro o drama do combate ao incêndio que se seguiu à explosão do reator nuclear RBMK durante um teste. Mais tarde, à evacuação dos moradores da zona de exclusão estabelecida depois que a liderança soviética aceitou as dimensões do desastre. É especialmente interessante que um dos episódios mais escruciantes tenha sido aquele que acompanha uma pequena equipe de reservistas designados para exterminar animais domésticos deixados para trás com a evacuação. Mais uma vez, o naturalismo não apenas evita qualquer pieguismo de uma situação que o senso comum sugeriria ser tão menor do que o drama da perda do lar e do modo de vida dos cidadãos do lugar, como torna o episódio um dos pontos fulcrais da agressão nuclear à natureza e à vida. O ator irlandês Barry Keoghan — destacado antes por sua atuação no filme de guerra de Christopher Nolan, Dunkirk (2016) —, está ótimo em sua interpretação contida do jovem reservista Pavel, equilibrado pela performance mais expansiva do libanês Fares Fares, fazendo o veterano Bacho.

Quando a narrativa desemboca em um drama de tribunal, acompanhamos uma reconstituição factual e científica — outro fato espantoso, considerando o quanto as explicações científicas são evitadas pelo audiovisual mundo afora, mesmo em produções de ficção científica. Nesse ponto, com a reprodução das situações na sala de controle da usina, a dinâmica entre os técnicos se destaca tremendamente. Aí a série perdeu uma grande oportunidade de apresentar ao espectador mais dessa dinâmica, também científica em sua natureza. É claro, ela não poderia repetir as mesmas situações, mas ficamos sabendo que a personagem de Emily Watson, Ulana Khomyuk, é na verdade composição de vários cientistas que acompanharam o controle de danos da usina. Haveria aí espaço para mais dessa dinâmica instigante. A opção dos produtores deve ter buscado diminuir custos e tempo de exibição. Afinal, Chernoby foi exibido semanalmente entre os dias 6 de maio e 3 de junho de 2019, totalizando apenas cinco episódios.

Quanto ao drama de tribunal, ele atribui culpas e papéis individuais no desastre. O supervisor Anatoly Dyatlov (Paul Ritter) conduziu o teste forçando a barra para além dos limites de segurança e contra os alertas dos técnicos. Ele queria realizar o teste sem interromper o fornecimento de energia para indústrias locais, tendo em mente a promoção que receberia, se fosse bem sucedido. Mais tarde, segundo a minissérie nos conta, Dyatlov e seus superiores também subestimaram a quantidade de radiação que escapava do reator para a atmosfera. Burocratas manipulando dados para garantir objetivos pessoais e institucionais, sem muita consideração pelo povo ou pelo meio ambiente.

No seu depoimento final, durante o julgamento, o personagem Valery Legasov arrisca a vida para denunciar, perante as autoridades do regime, um fato simples: são as mentiras que levam ao desastre e às mortes. Além das maquinações dos burocratas, os problemas do reator RBMK já eram conhecidos previamente, mas os responsáveis pelo seu exame crítico temiam serem punidos pelo regime, e o abafaram. Certamente, o regime totalitário soviético era muito adepto da mentira. Afinal, aqueles ainda eram os tempos da guerra fria e sua intensa disputa ideológica entre comunismo e capitalismo. O desastre nuclear de Chernobyl e os custos empenhados no seu enfrentamento (cerca de 36 bilhões de dólares, na época), agregados aos custos da Guerra do Afeganistão (1979-1989), ajudaram a acelerar o fim da União Soviética em 1991.

 

 

A mentira como recurso de estado é uma constante e provavelmente nunca irá desaparecer. Nem por isso certas mentiras deixam de ser contraproducentes e lesivas em uma escala que determina a necessidade de serem combatidas, dentro e fora dos governos. Para além, portanto, do caráter histórico da minissérie Chernobyl, para quais questões contemporâneas podemos direcionar a sua mensagem contra a mentira sistemática das burocracias e dos governos, nesta nossa era da pós-verdade?

O desastre de Chernobyl foi uma catástrofe potencialmente global. A catástrofe global que já se apresenta em nosso momento é o aquecimento do planeta e o consequente agravamento do clima. O fenômeno tem sido negado por burocratas, cientistas e políticos. No Brasil, os meteorologistas mais ligados ao negacionismo do aquecimento global são os professores Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício — um a serviço de interesses escusos do agronegócio, tendo aparecido várias vezes na BandNews afirmando saber mais que o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas; o outro, a serviço de uma visão desenvolvimentista apressada e irresponsável, afirmando não apenas saber mais, mas também que as conclusões do painel seriam um complô dos países desenvolvidos contra aqueles em desenvolvimento, como o Brasil, para mantê-los subordinados um argumento levantado também por Molion. É claro, eles não mencionam que o próprio Brasil faz parte do painel, assim como dezenas de outros países subdesenvolvidos — nem como, até hoje (o painel foi criado em 1988), ainda não apareceu ninguém de dentro denunciando o tal complô.

Tais impertinências foram extremamente turbinadas pelo governo americano sob a presidência de Donald Trump, ganhando muita força entre a nova direita internacional — segundo matéria recente da revista The Economist, por exemplo. Essa é outra prova de que os resultados do IPCC não são uma conspiração dos ricos contra os pobres, já que os Estados Unidos, que têm a negação do aquecimento global praticamente como política oficial do Partido Republicano, estão na linha de frente do negacionismo.

Por aqui, as mentiras são do tipo “o Brasil é o país que mais protege as suas florestas” e “o problema do meio ambiente no Brasil não é o meio ambiente rural, é o meio ambiente urbano”. No desastre de Chernobyl, cientistas suecos foram os primeiros não-soviéticos a detectar a precipitação de partículas radioativas jogadas na atmosfera pela explosão do reator, e forçando as autoridades soviéticas a admitir o acidente. Aqui, o governo brasileiro, falando contra a ciência brasileira, negou os dados levantados por sensoriamento orbital, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais a respeito do aumento das queimadas na Amazônia.

São mentiras que vão pavimentar a destruição e as mortes que virão inevitavelmente com o agravamento do clima. Relatórios do IPCC avaliam que o mundo sofrerá prejuízos de 54 trilhões de dólares até 2040. Os gastos com o desastre de Chernobyl, muito menores em ordem de grandeza, ajudaram a levar a União Soviética à banca rota e à sua queda. Os gastos mundiais com o aquecimento global podem muito bem derrubar o capitalismo internacional e as democracias que se beneficiam dele. Todos, não importando a ideologia, têm interesse em enxergar a verdade e combater a mentira.

—Roberto Causo

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Leituras de Janeiro de 2018

O ano começa como o ano anterior havia terminado com um livro de Ana Cristina Rodrigues, e começo este com outro livro da mesma autora. A fantasia foi bem representada nas minhas leituras de janeiro, que também incluíram, porém, FC cyberpunk e feminista.

 

Arte de capa de Frede Tizzot.

Fábulas Ferais: Histórias dos Animais de Shangri-lá, Conforme Relatadas no Atlas Ageográfico dos Lugares Imaginários, de Ana Cristina Rodrigues. Curitiba: Arte & Letra Editora, 2017, 86 páginas. Capa de Frede Tizzot. Capa dura artesanal. O último livro que li em dezembro do ano passado foi Minicontos de Fadas (Aquário, 2017), de Ana Cristina Rodrigues, e o mês de dezembro foi substancialmente dedicado à leitura de livros da Arte & Letra Editora, de Curitiba. Então eu começo 2018 lendo outro livro de Ana Cristina, e um lançado pela Arte & Letra. Trata-se de um livro particularmente bem cuidado nos seus aspectos gráficos, com uma maravilhosa capa dura artesanal de Dani Shuster & Patricia Jaremtchuk.

O título já nos diz que se trata de uma montagem de fábulas de animais, mas o reino de Shangri-lá, por agrupar bichos de todos os cantos e de espécies de continentes diversos, tem  uma qualidade própria de Nárnia, a imortal criação de C. S. Lewis. Inclusive, apresenta animais fabulosos como quimeras e minotauros. O livro é o primeiro título de um universo maior, o do “Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados”, que já tem página no Facebook. A estrutura de Fábulas Ferais é episódica (valendo aí um índice, algo que o livro deixou de fora) e envolve as encrencas políticas e guerreiras dos bichos na cidade fortificada, de como a quimera Gilgamesh chegou ao poder e como foram as primeiras lutas contra os seres humanos. Ao final de cada episódio tem-se excertos de verbetes do atlas em questão (existe uma disparidade, atribuída não sei ao que, no título do atlas, entre o que aparece no livro e o que vemos no Facebook). A sugestiva capa de Frede Tizzot, feita sobre a arte “The Haunt of the Troll” (1910), de Reginald L. Knowles (1879-1951), tem movimentos sutis e foge do óbvio. Tizzot também assina o elegante projeto gráfico, que valoriza muito o livro.

 

Arte de capa de Steve Gilberts.

The Long Look, de Richard Parks. Detroit: Five Stars, 1.ª edição, setembro de 2008, 298 páginas. Capa de Steve Gilberts. Hardcover. Há alguns anos, contei a Christopher Kastensmidt que gostava muito das histórias de fantasia do escritor americano Richard Parks, e encontramos nisso algo em comum. Eu até havia tentado, sem sucesso, selecionar uma história de Parks para aparecer na série Asas do Vento, a coleção de livros de bolso da Devir Brasil. Christopher me presenteou, então, com dois livros de Parks. Este romance de alta fantasia, The Long Look, e a coletânea de histórias The Ogre’s Wife (2002).

O romance é o primeiro de uma trilogia apresentando Tymon the Black, um mago adepto da ilusão, do uso de golens e de uma vidência precognitiva conhecida como “long look“. Conhecer o futuro faz com que ele se mexa para minimizar a dor e a miséria da guerra, e corrigir injustiças (quando possível). É acompanhado pelo anão e aspirante a cronista Seb — um tipo inteligente e que, pelas indicações respingadas no texto, é tão bom de briga quanto Bruce Lee. A eles se agrega, lá pelo meio do livro, um aprendiz de feiticeiro que a dupla salva de um matador de aluguel. Outros personagens secundários também aparecem e têm um bom tratamento — especialmente as mulheres: a Princesa Ashesa em particular. As mulheres são retratadas como firmes em suas posições e o feminismo que projetam não soa estridente, parecendo pessoal e natural a elas. Ao contrário de muita fantasia por aí, os personagens de Parks, heróis ou vilões, têm motivações compreensíveis e ancoradas nas circunstâncias sociais e políticas que, embora apenas esboçadas, parecem bastante concretas ao leitor. A ficção de Parks se caracteriza pela inteligência, sutileza, simpatia pelos personagens e eficiência enganadora em todos os fundamentos da composição literária. De fato, o romance tem uma aura tanto de alta fantasia tolkieniana quanto de contos de fadas, o que em si já uma realização. Mas há traços subversivos costurados em cada elemento — a começar pelo herói, Tymon, que, para ser efetivo dentro da política palaciana do seu mundo, precisa se apresentar como vilão.

 

Arte de capa de John Everett Millais.

Pré-Rafaelismo (Pre-Raphaelites), de Robert de la Sizeranne. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção Folha O Mundo da Arte volume 27, 68 páginas. Capa de John Everett Millais. Tradução de Gil Reyes. Capa dura. Existiu uma arte de fantasia, antes da fantasia como gênero literário existir — ou enquanto os elementos que viriam a dar forma à fantasia ainda eram peneirados nos agitos do século 19. Essa arte, especialmente na Inglaterra, foi a pintura Pré-Rafaelita, surgida a partir de 1846 e galvanizada em torno da Irmandade Pré-Rafaelita, um grupo de jovens artistas descontentes com o academicismo e o Neo-Classismo da época. Pregavam a atenção ao detalhe e à natureza, a recuperação de temas da Idade Média e do Renascimento (anteriores a Rafael), da cultura clássica e do folclore, e a pintura in loco — uma prática que chegou a render imagens de precisão fotográfica. É fácil reconhecer sua influência na ilustração realista de fantasia feita por Kinuko Y. Craft, Janny Wurts, Stephen Youll, Donato Giancolla e dúzias de outros artistas.

Uma disposição interessante dos pré-rafaelitas — especialmente no seu agitador, Ford Madox Brown (1821-1893) — estava no interesse de popularizar a arte, em um país eminentemente elitista. É adequado, portanto, que tenham tido impacto na ilustração de um gênero popular como a fantasia. O movimento Arts & Crafts, do qual alguns pré-rafaelitas foram fundadores (como William Morris) ou membros, também deve se conectar com essa postura. (O Arts & Crafts também tem suas digitais na arte de fantasia, como no trabalho muito romântico de Thomas Canty.) O autor, de la Sizeranne, lista outros três nomes além de Brown, como importantes para a primeira hora do movimento: Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Milais. Mas ele também aponta o trabalho do crítico John Ruskin, como essencial para o estabelecimento da nova escola. Os livros dessa série tem uma seção que discorre sobre os principais artistas de cada escola ou movimento, e aqui os selecionados são Hunt, Millais, Rossetti, Brown, Edward Burne-Jones, e William Morris. Certos nomes da segunda hora do movimento acabaram ficando de fora, embora tenham pintado algumas das obras mais conhecidas e influentes do pré-rafaelismo: John William Waterhouse e Edmund Blair Leighton (que aparecem em outras partes do volume). De qualquer modo, este é um livro acessível e bem interessante para o fã de fantasia e de sua ilustração editorial. Para sublinhar ainda mais a conexão do seu assunto com a arte de fantasia, veja este ótimo artigo no blog de Terri Windling (em inglês), que enfatiza a vinculação da escola com o Romantismo.

Lady of Shallot, baseado no poema arturiano de Alfred, Lord Tennyson, é uma adorável pintura de John William Waterhouse, ausente do livro.

 

The Peripheral, de William Gibson. Nova York: Putnam’s, 1.ª edição, 2014, 486 páginas. Hardcover. Aqui no Brasil, a Editora Aleph, de São Paulo, retomou a sua publicação de ficção científica no século 21 com a obra de William Gibson, que se tornou um dos seus carros-chefes. Mas este romance de FC de futuro próximo e viagem no tempo (tema novo para Gibson) ainda não apareceu por aqui. Estava comigo há algum tempo e o que me fez tirá-lo da estante foi uma entrevista feita com Gibson, publicada por Elizabeth Hand na edição de ressurgimento da revista OMNI. O que me chamou a atenção foi a hipótese de se tratar da primeira narrativa de viagem no tempo, escrita por Gibson. Não é bem, mas chega perto.

Apenas dois personagens detêm o ponto de vista narrativo, cada um se ocupando de um linha do livro: Flynne Fisher, uma jovem americana do futuro próximo; e Wilf Netherton, um inglês do futuro não tão próximo. Os dois começam a se aproximar depois que Flynne é recrutada por seu irmão, Burton, um veterano de guerra, para substituí-la naquilo que ela acredita ser o beta-teste de um game de realidade virtual. Isso enquanto Burton vai dar um pau num grupo fundamentalista cristão numa cidade vizinha. Ele é preso e demora para voltar. No ínterim, a garota testemunha uma espécie de assassinato usando agentes nanitas, numa Londres estilizada do futuro. Acaba sendo que não era um game, mas o modo que os aristocratas das cleptocracias europeias frequentadas por Wilf encontraram para se divertirem “viajando no tempo”. O rationale científico é de que se a viagem no tempo é impossível, o fluxo de dados do passado para o futuro não o é (uma noção que Gibson tirou do colega cyberpunk Rudy Rucker, um matemático). A consciência de Flynne é levada ao futuro para atuar lá tripulando uma espécie de robô ou androide chamado de periférico (daí o título). Esse futuro é descrito como o resultado das agressões ambientais e sociais que estamos armando agora, após um evento conhecido ironicamente como “Jackpot” (o grande prêmio do caça-niqueis). É mais ou menos o que Bruce Sterling chamou de “heavy weather” no romance Tempo Fechado: condição de vida global, marcada pelas consequências da crise climática. Pode ser que o objetivo dos aristocratas com o truque temporal fosse inicialmente só a recreação exclusivista, mas ao longo do romance vai surgindo a hipótese de intervenções seletivas no passado (o nosso futuro próximo) que tornem o Jackpot menos grave. Para isso, manipulações financeiras e de compra e venda de empresas coloca Flynne e seus associados sentados na grana, mas tendo que se defender do crime organizado e de policiais e federais (chamados lá de “Homers”: de Homeland Security) corruptos. Obedecendo a um certo padrão estabelecido desde Neuromancer, em 1984, The Peripheral firma logo cedo algumas encrencas para os protagonistas e alguns mistérios, colocando-os em movimento lento até revelações que assustam pelo seu retrato tanto de uma aristocracia que parece monstruosa, quanto de desenvolvimentos tecnológicos que nos fazem encolher em nossa condição humana. No caminho, toma-se contato com uma plêiade de personagens estranhos, excêntricos, bizarros mas quase sempre camaradas. A construção do futuro (ou futu-ros, aqui) é, como de hábito, um ponto forte de Gibson. Tanto o degradado futuro próximo de Flynne, que vive em uma América rural meio desértica e sem perspectiva, quanto o futuro pós-humano de Wilf. Mas as descrições muitas vezes brilhantes são alternadas com uma exposição por meio de diálogos rápidos que acabam recorrendo ao cacoete de um personagem sempre dizendo algo do tipo, “Hã, o quê?”, para se tornarem mais claros. A prosa de Gibson está mais minimalista neste romance, e algo da densidade e das suas marcas de estilo foi perdido com isso. Existe um papo de que The Peripheral vai virar uma série de TV, com o envolvimento do diretor Christopher Nolan.

 

Arte de capa de Qiu Ying.

Arte Chinesa (Chinese Art), de Stephen W. Bushell & Pierre Emmanuel Klingbeil. São Paulo: Folha de S. Paulo, Coleção O Mundo da Arte vol. 30, 2017, 68 páginas. Arte de capa de Qiu Ying. Tradução de Gil Reyes. Capa dura. O primeiro romance de Shiroma, Matadora Ciborgue tem como título provisório “Cerco em Ulaambaatar”, e nele a heroína se envolve com uma organização criminosa interestelar semelhante às tríades chinesas: a T’ien-Ti-Hwey da Era Galáctica. Para explorar alguma coisa da cultura chinesa no romance, comecei a minha pesquisa com este livro. A primeira coisa que se pode dizer sobre ele é que não se fixa em um movimento, estilo ou escola, como a maioria dos títulos da coleção. Isso provavelmente é inevitável, e o aspecto panorâmico se destaca.

A introdução abre com a interessante afirmativa de que a China não é um país tão fechado quanto se imagina. Não obstante, o livro parece ser composto tanto do material selecionado para o passeio panorâmico, quanto de ausências, já que é uma adaptação, por Klingbeil, do trabalho de Bushell — que morreu em 1908. Mesmo assim, o livro, belamente ilustrado com fotografias de primeira categoria, fornece uma visão geral das direções que a arte chinesa tomou desde a antiguidade, com seções sobre arquitetura, entalhes e artes de lapidação, materiais manufaturados e arte pictórica. A característica da “geomancia” (ou feng-shui) na arquitetura é das mais interessantes. Por outro lado, o único artista chinês nomeado contando com reprodução de obra de sua autoria na seção de arte pictórica é Qiu Ying, que aparece na capa. A atualização mais óbvia é a inclusão dos Guerreiros de Xian, do Exército de Terracota descoberto em 1974, bem depois da morte de Bushell.

 

A Destruição do Mundo, de Vero de Lima. São Paulo: Editora Cacique, s.d. [1955?], 182 páginas. Brochura. Mais uma leitura de ficção científica brasileira do Período Pioneiro (1857-1957), visando a versão “revista e ampliada” de Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil. Trata-se de um romance curto ambientado nos Estados Unidos em futuro próximo, escrito originalmente em 1936. Na nota inicial, Vero de Lima conta que o apresentou inicialmente a Monteiro Lobato. (O próprio Lobato havia ambientado um romance nos EUA, o infame O Presidente Negro ou O Choque das Raças, de 1925.) A primeira parte do romance apareceu como uma novela, no jornal A Época, sob o pseudônimo de “J. Allan Patrick”.

O protagonista é o jovem herdeiro milionário Richard Write, que, depois de voltar da guerra, abandona a vida loca e resolve empregar seu capital e interesse científico para o avanço da humanidade. O arrazoado científico é confuso: a princípio, fala-se de que o segredo da “desintegração nuclear” trará uma revolução à humanidade. Mais tarde, fala-se de um “raio condutor” e de uma placa com propriedades energéticas capaz de ser usada tanto como arma quanto como promotora da fertilidade do solo e das plantas. Depois que suas intenções vazam para a imprensa, ele é convidado para falar em um evento da elite novaiorquina, na sede da Liga Anti-Guerreira, organização que remete aos movimentos pacifistas do entre-guerras), mas seus discurso evita o comentário científico, para assumir uma retórica pacifista e moralizante, e se dedicar à defesa do direito natural, uma escola jurídica que, no Brasil, alimentou o pensamento do Movimento Integralista. Ao final do discurso, White diz:

“Esperavam ouvir de minha boca alvíssaras novas, anunciando-lhes maravilhosas descobertas científicas para salvar o mundo. Mas a salvação do mundo não será obra da ciência. A ciência, quando muito, descobre e utiliza o conteúdo da natureza, mas a salvação da humanidade pertence ao domínio do espírito. Convençamo-nos do seguinte: As elites são como as plantas pujantes e úteis; se porém o solo em que medrarem fôr inculto e sáfaro, seus frutos serão, por isso mesmo, raquíticos e até nulos. Cultivemos, portanto, o solo, se desejamos que as elites produzam bons frutos. E, na vida social de uma nação, o povo é o solo. Humanizemos o mundo, dando-lhe o direito humano e mínimo natural, e que garanta uma existência decente a todos […]” —Vero de Lima, A Destruição do Mundo.

É um artifício do herói para sair da mira de Mr. Ember, “a maior força político-industrial da América”, que pretende fazer dinheiro com qualquer inovação high-tech que possa usar na próxima guerra. Mas também expressa a desconfiança da FC brasileira quanto à ciência e a tecnologia, e adesão a um humanismo moralizante e católico. Essa desconfiança foi uma das marcas locais dominantes no gênero até a eclosão da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982 a 2015), e continua vigente. O discurso e o anúncio do novo conflito encerram a primeira parte do livro, que também expressa outra tensão característica da FC brasileira do Período Pioneiro (1857 a 1957), aquela entre a narrativa de aventura e a de observação social ou de costumes, presente desde, por exemplo, A Rainha do Ignoto (1899), de Emília Freitas. Assim, a intriga alterna traições de funcionários, assassinatos, ações de gangsters à mando do industrial vilão, e militares invasores asiáticos (perigo amarelo!), com observações sobre o amigo poeta do herói, sobre seus empregados, namorada e familiares. Obviamente, Vero de Lima tem familiaridade com as convenções da ficção pulp da década de 1930, e com algo da realidade americana de então. Mas não em profundidade, e os desvios e subterfúgios que adota para se esquivar do detalhe específico são evidentes. A certa altura, e de modo interessante, o texto denso do autor parece adotar essa sinuosidade como marca de estilo, aproximando-o do understatement sofisticado característicos da ficção americana da época. Mas o fato é que a qualidade da sua imaginação tropeça seguidamente, e em especial no denouemant, no qual White é capturado pelos invasores asiáticos e obrigado a construir seu raio da morte e visor remoto (recurso visto tanto em Monteiro Lobato quanto nos contos de Berilo Neves, nas décadas de 1920 e ’30). O pacifista White, assim como o pacifista Campos, no romance de Jeronymo Monteiro 3 Meses no Século 81 (1947), resolve que o único meio de dar fim à guerra é o extermínio dos povos conflitantes ou da humanidade como um todo. Aí a narrativa se encontra com o título do livro, e o romance com o seu conteúdo católico, com missionários sobreviventes vindo redimir White na ilha solitária, depois que ele realizou o Armagedom.

Vero de Lima — eu me toquei depois de ler o livro — tornou-se em 1956 o editor (ou “redator-chefe”) da versão brasileira da lembrada revista americana de FC Fantastic. Publicou nela, inclusive, pelo menos um conto. No Brasil, a revista durou de 1955 a 1960, sendo a revista nacional de FC que circulou por mais tempo. O autor foi, portanto, um daqueles raros nomes brasileiros que teve uma atuação relativamente dedicada ao campo da FC, antes da inserção da Geração GRD a partir de 1960.

 

The James Tiptree Award Anthology 3, de Karen Joy Fowler, Pat Murphy, Debbie Notkin & Jeffrey D. Smith, eds. San Francisco, CA: Tachyon Publications, 2007, 274 páginas. Trade paperback. O Prêmio James Tiptree é  voltado para o reconhecimento de obras que desafiam os papeis sexuais. E já há um tempinho. Um dos lados mais divertidos da iniciativa é a venda de bolos pelas moças do comitê em convenções de ficção científica, para levantar fundos para o prêmio. Esta antologia dedicada a ele e aos seus vencedores e destaques me foi presenteada pelo Prof. Alfredo Suppia, autor de Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro (Devir Brasil), que a trouxe de um dos congressos de que participou, nos EUA.

O livro combina histórias de ficção científica e fantasia, textos de não-ficção e listas com os resultados do prêmio, ao longo dos anos (ele foi fundado em 1991). As histórias são ganhadoras ou finalistas do prêmio. Mas um dos textos que mais me tocou foi justamente um ensaio: “Shame”, de Pam Noles, sobre a questão da representação na FC e fantasia, escrito antes da questão se tornar determinante, nos últimos anos. Noles, uma afro-americana, recorda com muita graça, como foi finalmente encontrar personagens de cor na série de fantasia Terramar, de Ursula K. Le Guin. A própria Le Guin, falecida agora em 2018, está no livro com a bela novela “Mountain Ways”, sobre uma idílica comunidade poli-amorosa que tem os seus próprios desajustados. “Have not Have”, de Geoff Ryman, é excerto do seu elogiado romance Air (2006), e trata de uma mulher que vive em uma vila no “Karzistão” e que tem como negócio guiar visitas a centros comerciais com outras mulheres, para organizar casamentos. No processo, ela funciona como um pilar da comunidade, cuidando do povo da vila de diversas maneiras. Mas tudo está ameaçado por uma inovação tecnológica que fará com as pessoas possam receber a internet diretamente em suas cabeças. Ryman é o líder do movimento Mundane-SF, e o texto dele aqui é um bom exemplo dessa corrente. Uma das narrativas mais longas da antologia é “Little Faces”, de Vonda N. McIntyre: uma utopia feminina do futuro distante e composta por mulheres aristocráticas e fashionistas vivendo solitárias em naves vivas e se reproduzindo com o concurso de pequenos alienígenas que vivem como parasitas em seus corpos — uma ideia que emana quase que diretamente da noveleta “Bloodchild” (1984), de Octavia E. Butler. A história de McIntyre, que vai na direção oposta à Mundane-SF de Ryman, me alienou na sua maior parte, soando artificial e sem enredo. Butler mereceu um ensaio muito interessante sobre a sua obra, “The Future of Female: Octavia Butler’s Mother Lode”, de Dorothy Allison.

Outras histórias no livro são “The Glass Bottle Trick”, da afro-canadense Nalo Hopkinson; “Wooden Bridge”, da australiana Margo Lanagan; “Dearth”, da americana Aimee Bender; e “Liking What You See: A Documentary”, de Ted Chiang — história que já discuti aqui ao resenhar o livro de Chiang, Story of your Life and Others. Como o prêmio homenageia o pseudônimo de Alice B. Sheldon, “James Tiptree, Jr.”, a antologia traz “Dear Alice Sheldon”, de L. Timmel Duchamp, um texto de não-ficção que explora, numa estrutura epistolar, as características da ficção da autora. E também a pioneira e premiada noveleta pré-cyberpunk “The Girl Who Was Plugged In” (1973), intrigante e violenta narrativa meio beatnik sobre uma jovem fisicamente deformada mas de coração romântico que recebe um extreme makeover pela ciência de uma empresa de publicidade, que a fabrica como figura do jet-set internacional que promova os seus produtos e tendências. A narrativa, muito irônica e às vezes nonsense, ao mesmo tempo que denuncia a fabricação de imagens femininas, descreve a heroína como sem noção e entregue aos seus devaneios, telecomandada por computadores. Cabe assim numa postura feminista que se firma pela crítica do estereótipo e do comportamento feminino frívolo e não-esclarecido, muito presente, inclusive, na ficção pós-modernista americana. Eu me pergunto se essa perspectiva teria algum futuro no Brasil em tempos de demanda por retratos positivos da mulher, e com um público leitor com grandes dificuldades para entender ironia.

—Roberto Causo

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Douglas Quinta Reis (1954-2017)

O desencarne do editor Douglas Quinta Reis, da Devir Brasil, em 13 de outubro de 2017, representou uma aguda perda pessoal, mas também foi uma perda grave para o campo da ficção científica, fantasia e horror no Brasil.

 

Douglas Quinta Reis (1954-2017).

Devo ter conhecido Douglas Quinta Reis em alguma reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica em São Paulo, em fins da década de 1980. Só o associei à Devir quando o procurei em 2002, por intermédio do editor Silvio Alexandre, que na época trabalhava na Devir. Meu objetivo era sugerir a publicação dos livros de ficção científica e fantasia de Orson Scott Card — algo que eu já tinha feito junto a outras editoras. Silvio escreveu o seu próprio obituário para o site Publishnews, com muitas informações importantes e a sua própria avaliação pessoal do Douglas.

Para minha surpresa, Douglas era tão fã de Card quanto eu. Ele me disse, inclusive, que tinha o desejo de publicar toda a sua obra. Algumas semanas depois, eu submetia à ele o projeto de publicar a coletânea de histórias A Sombra dos Homens, com as primeiras histórias da Saga de Tajarê, de fantasia heroica, que eu havia iniciado anos antes nas páginas da revista de RPG Dragão Brasil.

Também para minha surpresa, o projeto foi aceito por Douglas sem grandes discussões. A decisão dele me trouxe um grande alento, pois naquela época eu vivia uma daquelas crises periódicas de dúvidas sobre a carreira e o ofício da escrita de FC e fantasia no Brasil, que costumam me acometer.

Escrevi mais duas histórias, além das duas que tinham saído na Dragão Brasil, e o livro apareceu em 2004 com introdução de Braulio Tavares e capa de Lourenço Mutarelli— na época um nome muito associado à Devir como artista de quadrinhos, mas que a editora, com o trabalho do Douglas, já havia revelado como romancista, para o mainstream literário brasileiro. Mais tarde, Douglas também publicaria o meu primeiro romance, A Corrida do Rinoceronte (2008).

Essa atitude leve com respeito à publicação de livros foi uma das características notáveis da atuação editorial de Douglas. Raramente eu o vi rejeitar um projeto — e quando isso ocorreu, foi em razão de alguma rigidez do autor ou autora, em relação às observações dele. Ou em momentos em que a editora estava se reorganizando e certas áreas de publicação estavam momentaneamente suspensas. Essa abertura vinha primeiro da sua qualidade de leitor polivalente, sem preconceitos e familiarizado com vários gêneros. Mas também pelo entendimento de que a escrita, a leitura e a publicação de livros são aventuras de descobrimento — não apenas de talentos literários, mas da receptividade  do leitor. Daí ele dispensar a obsessão de muitas editoras em perseguir tendências visando otimizar vendas, publicando mais do mesmo.

Em 2005, Douglas me convidou para atuar como editor free-lancer, e rapidamente criamos três linhas de livros: a Pulsar (ficção científica), que acolheu os livros de Card; a Quymera (fantasia) e a Pentagrama (horror). Mais tarde, desenvolvemos um projeto favorito dele, a coleção Asas do Vento de livros de bolso dentro de um formato inédito e nunca repetido posteriormente: em 9 x 15,5 centímetros, com capa semirrígida. E também e a Enciclopédia Galáctica, de estudos e referência na área da ficção especulativa.

A Pulsar e a Asas do Vento foram as coleções mais produtivas. A primeira conta hoje com 17 títulos, tendo publicado autores importantes para a FC internacional como Card, Bruce Sterling, Arthur C. Clarke e Ursula K. Le Guin (em uma antologia). Além de completar a Saga de Ender, de Card, a coleção demonstrou muita ousadia ao publicar a maior coletânea de histórias de um autor brasileiro de FC, Confissões do Inexplicável, de André Carneiro; o primeiro “omnibus” da FC brasileira, reunindo os três romances da Trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife (que teve mais dois livros na coleção); a primeira antologia internacional de FC política montada no Brasil (organizada por Marcello Simão Branco); a primeira coletânea de Ivanir Calado, e a primeira série de antologias retrospectivas dos melhores da FC brasileira. Agora, em 2017, deve sair, fora da coleção, a primeira antologia retrospectiva do melhor do horror nacional, organizada por Branco & Silva. A Pulsar também incorporou os primeiros livros das minhas séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue. A Pulsar empregou muito o artista brasileiro de FC, Vagner Vargas, certamente impulsionando muito a sua carreira.

A Asas do Vento foi uma linha internacional que publicou Sterling, Card e o francês Jean-Pierre Laigle, além dos brasileiros Christopher Kastensmidt, Simone Saueressig, João Batista Melo e Carlos Orsi. Muitas vezes, combinava autores estrangeiros e nacionais num mesmo volume. Não foi adiante porque as questões de distribuição e exibição de livro de bolso são muito complicadas. A Enciclopédia Galáctica, por sua vez, publicou estudiosos importante como M. Elizabeth “Libby” Ginway (a brasilianista que é a maior especialista mundial em FC brasileira) e Alfredo Suppia (o especialista mundial em cinema brasileiro de FC), além de abrigar a última fase do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, de Cesar Silva & Marcello Simão Branco.

 

Douglas com o escritor e game designer Christopher Kastensmidt (à esquerda), com que estabeleceu uma relação muito produtiva em anos recentes.

Quando Douglas, Mauro Martinez dos PrazeresWalder Mitsiharu Yano, e de Deborah Fink, esposa do Mauro, fundaram a Devir Livraria em 1987 (há trinta anos), criaram uma importadora de histórias em quadrinhos e de jogos de cartas, eles provavelmente não tinham ideia do impacto que sua empresa iria ter. Aos poucos, a empresa cresceu e se internacionalizou, transformou-se também em editora. Com muita boa vontade e criando o  próprio trajeto na sua viagem de descobertas, ela foi fundamental para o boom do RPG na década de 1990, para os quadrinhos nacionais e para a entrada dos livros de HQs nas livrarias, e para o mercado local moderno de jogos de tabuleiro. Poucas empresas foram tão importantes para a face brasileira da cultura nerd/geek da atualidade. A ambição de Douglas para a ficção científica era semelhante — sedimentar sua presença nas livrarias e fomentar o autor brasileiro.

Por diversas questões comerciais, financeiras e conjunturais (as diversas crises políticas e econômicas que o país enfrentou e enfrenta), o impacto da atividade da Devir Brasil na área não foi tão grande quando poderia ter sido. Isso, porém, não diminui a importância, a originalidade e a ousadia do esforço que Douglas capitaneou nessa área.

Conviver com ele sempre foi um prazer que ia além da produção de livros. Douglas era um homem vivido e de cabeça aberta, gregário e conversador, que buscava conduzir o pensamento da gente com exemplos, metáforas e casos, em direções diferentes e incomuns. Sem afetações de intelectual ou de executivo, era sempre acessível e próximo no tratamento com autores ou leitores. Vai deixar saudades e fazer muita falta.

—Roberto Causo

 

Roberto Causo e Douglas Quinta Reis.

 

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Leituras de abril de 2017

A fantasia ganhou da ficção científica neste mês, mas minhas leituras continuam variadas, incluindo ficção de crime e não ficção. Pela primeira vez, trago anotação de uma leitura de história em quadrinhos.

 

Arte de capa de Christian McGrath.

Mistborn: The Final Empire, de Brandon Sanderson. Nova York: Tor Books, 2008 [2006], 648 páginas. Capa de Christian McGrath. Paperback. Li Elantris, o livro de estreia de Sanderson, antes de ele chegar ao Brasil. Comprei Mistborn em seguida, mas admito que só terminei a leitura por insistência do meu filho Roberto Fideli, do Who’s Geek, que gostou muito do romance. Leu o livro na edição brasileira (LeYa, 2014) com tradução de Marcia Blasques. Minha edição tem essa bonita arte de Chris McGrath — não é o melhor dele, mas ainda assim superior à brasileira, pelo francês Marc Simonetti. O tratamento esmaecido da arte fotográfica de McGrath disfarça até o desgaste nos cantos do meu paperback.

Assim como em Elantris, o forte de Mistborn está na ambientação (urbana e sombria) e no sistema de magia (baseado no uso de metais que dão poderes a uma classe especial de humanos, os “mistborn“). A concepção do romance deve muito aos RPGs; e seu andamento, ao cinema de espetáculo de Hollywood. A menina da capa é uma Oliver Twist adolescente, recrutada pelo outro protagonista do livro, um príncipe dos ladrões (também presente em Throne of the Crescent Moon, de Saladin Ahmed, que li mês passado), para uma revolução armando contra o supervilão, um tirano imortal. É que Vin, a garota, é descoberta por ele como sendo uma mistborn. Muito do livro narra seu treinamento e como ela é infiltrada na aristocracia escravagista local, onde conhece um incomum pretendente. Nem tudo faz muito sentido no mundo secundário criado por Sanderson, especialmente a vida num ecossistema degradado por condições atmosféricas possivelmente de origem mágica. Talvez venham explicações melhores, nos volumes posteriores, dois deles já lançados no Brasil. O mesmo para o sistema de magia, com suas situações constantes de kung-fu aéreo — improváveis mas divertidas. Com Elantris, gostei de chegar até o final, que achei hiperbólico e hollywoodiano demais. Com Mistborn, gostei do final apesar de faltas semelhantes (mas atenuadas). Mas foi difícil chegar a ele, por causa da monotonia da ambientação, da repetição de situações e da pequena alternância de personagens ponto de vista. O mais importante está, porém, na dramatização do desejo de resistência à opressão e à tirania, com um bem-vindo subtexto religioso emergindo no final.

 

Arte de capa de Alan Gutierrez.

Steel Brother, de Gordon R. Dickson. Nova York: Tor Books, dezembro de 1985, 236 páginas. Capa de Alan Gutierrez. Introdução de Poul Anderson. Paperback.  Pouco publicado em português, Gordon Dickson (1923-2001) foi um autor prolífico e popular no campo da ficção científica americana. Os dorsai, seus superguerreiros mercenários do futuro do Ciclo Childe, inspiraram os meus minutemen, casta de ciborgues guerreiros que aparecem nas séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue. Até como crítica ao libertarianismo (ou libertarismo) que identifiquei nos dorsai — e muito da FC militar da atualidade. Ideologia muito americana, o libertarianismo acaba sendo uma das marcas da FC hard e militar em língua inglesa. O trabalho de Dickson, junto com o de Poul Anderson, Robert A. Heinlein e Ann Rand, certamente tem um papel nisso. Tal casamento entre literatura e ideologia política resultou até num prêmio literário, o Prometheus. Dickson também se propunha a escrever uma literatura filosófica no formato de aventura de FC, e eu ainda estou explorando tal conceito e os limites da versatilidade desse autor.

Steel Brother é uma coletânea de histórias de Dickson. A introdução de Anderson revela que ela foi montada para homenagear o autor por ocasião da sua escolha como Convidado de Honra da Convenção Mundial de FC de 1984. Curiosamente, a primeira história, “Out of the Darkness” (1961), é ficção de crime primeiro publicada na Ellery Queen Mystery Magazine. A novela “Perfectly Adjusted” (1955) é o texto mais longo do livro: um aventureiro vai parar num mundo dividido entre duas utopias: uma libertariana rural e outra autoritária coletivista. Para não se sentirem ameaçados pelo comportamento dos outros, as duas comunidades se auto-hipnotizam para não enxergarem a outra. É parte da premissa do muito posterior e festejado A Cidade e a Cidade (2009), de China Miéville. Num tom mais farsesco, Dickson satiriza a cegueira ideológica (e não poupa um libertarianismo de cara hippie). “The Hard Way” (1963) é outra história longa, pelo ponto de vista de um ambicioso e implacável alienígena que lidera uma expedição batedora à Terra. Ela explora o darwinismo social cósmico, com uma solução engenhosa para a ideia do ataque preventivo comum à FC hard. “Steel Brother” (representado na capa) é FC militar de tom mais próximo ao que Dickson fez em romances do Ciclo Childe, como Tactics of Mistake (1970). Meu favorito do livro é a noveleta “The Man in the Mailbag”, publicada originalmente na revista Galaxy em 1959. É ambientada no planeta de alienígenas peludos de 2,50 m de altura. Um jovem humano é chamado para trazer uma garota fujona, Boy Is She Built (Cara Como Ela É Carnuda), de volta ao seu clã. Ele vai com o carteiro local, e passa a ser chamado de Half Pint Posted (Meia Dose Remetida). Hilariante. Fazia tempo que não lia uma história de aventura cômica tão engraçada. Fecha o livro um ensaio de Dickson sobre o Ciclo Childe, e uma entrevista dada a Sandra Miesel, pesquisadora que acompanhou a obra do autor.

 

Cronista de um Tempo Ruim, de Ferréz. São Paulo: Selo Povo, 2009, 126 páginas. Livro de bolso. Ferréz é um dos meus heróis. Ele transformou uma origem e contexto desfavoráveis em uma militância literária das mais interessantes vistas recentemente no Brasil. Vi surgir seu movimento Literatura Marginal na revista Caros Amigos, e mais tarde o conheci pessoalmente em eventos do SESC em Curitiba e Salvador. Também é especialmente inteligente o modo como ele busca transformar pelas palavras e pelas ações a geografia cultural da periferia: com uma grife (a loja conceito 1DaSul) que explicita, ao agir corretamente, a exploração do trabalho dos moradores por grandes marcas de confecções; e com livros traficados, como esta coletânea de 23 crônicas antes publicadas em jornais e revistas. Meu exemplar eu recebi de Ferréz em 2010, quando Bruce Sterling, Jasmina Tesanovic e eu o visitamos em Capão Redondo.

O apelo ao cotidiano e à subjetividade do cronista me desagradam na crônica como literatura. Afinal, escrevo ficção científica, fantasia e outras formas de ficção de gênero que buscam o extraordinário no contemporâneo. Além disso, tais características da crônica contaminam o conto e o romance brasileiros. Muitas vezes, o resultado é uma voz narrativa dominante, monótona, que entra no caminho da variedade e da diversidade. Mas Ferréz tem uma voz fora da curva, na denúncia das hipocrisias costumeiras da sociedade brasileira quanto aos pobres e os moradores da favela e da periferia. Sua denúncia chega às autoridades, que não enfrentam a violência policial e mantêm, pela corrupção, a situação violenta que ceifa as vidas dos jovens e limita suas possibilidades de avanço. Alguns dos textos do livro repercutem os ataques do PCC em 2006, e a reação violenta da polícia e de esquadrões da morte. Outros, condenam o consumismo ou apontam o preconceito com que o morador da periferia é apresentado pela imprensa. Muitos têm a cadência e a dicção do hip hop brasuca. O retrato que Ferréz faz do estrago social produzido pela corrupção e descaso das autoridades é visceral. Põe Cronista de um Tempo Ruim na prateleira daquilo que venho chamando de “Literatura do Brasil pós-Mensalão”, ao lado do premiado O Rei do Cheiro (2009), de João Silvério Trevisan; e de Distrito Federal (2014) e Não Chore (2016), de Luiz Bras.

 

Mulher no Escuro: Um Romance Perigoso (Woman in the Dark), de Dashiell Hammett. Porto Alegre: L&PM Pocket Plus, 2008 [1933], 100 páginas. Tradução de Marcelo Kahns. Introdução de Robert B. Parker. Livro de Bolso. Esta novela de Dashiell Hammett, mestre da ficção de crime americana e criador da narrativa hard boiled, foi “redescoberta” (i.e., ausente das coletâneas do autor e nas antologias do gênero) depois de décadas da sua publicação na revista Liberty em 1933. É pena que a tradução seja uma bagunça — a opção por marcar os diálogos com aspas e não com travessões cria todo tipo de problema. Aspas aparecem onde não deviam estar e desaparecem de onde deviam estar, e dois personagens falam num mesmo parágrafo. Além disso, o uso confuso de pronomes também dificulta saber quem faz ou diz o quê.

Uma jovem suíça chamada Fischer foge das garras do ricaço americano que a trouxe da Europa. Na fuga, ela leva um tombo e se refugia na casa de um cara durão, recém-saído da cadeia, chamado Brazil [sic]. Quando o ricaço e seu capanga chegam, há tiros, socos, e Brazil e a garota fogem para a casa do ex-colega de cela de Brazil, noutra localidade. A polícia vai na cola, dizendo-o suspeito de lesão corporal grave do capanga, e chega ao seu novo endereço. Brazil é baleado, a garota é detida e entregue à polícia da cidade do ricaço. Lá, o advogado de Brazil a espera para pagar a fiança. Mas também é lá que vai acontecer o desenlace violento e a verdadeira natureza do casal de heróis e do vilão será apresentada. A introdução de Robert Parker — um dos herdeiros da tradição criada por Hammett, e de quem tratei aqui — registra que este seria um dos textos mais emocionais e românticos do autor. O próprio subtítulo se refere a relacionamento romântico, e não ao formato literário do romance. Mas não existe uma única colher de açúcar nesta história. Brazil e Fischer obviamente desenvolvem interesse e preocupação um pelo outro. Mas permanecem no nível do hard boiled, em que podem tanto ser baixos nas suas emoções, quanto apenas vestir uma máscara que oculta seus sentimentos verdadeiros. O gênio de Hammett está em manter a tensão constante entre essas possibilidades, até a linha final.

 

Arte de capa de Christopher Stengel.

Os Garotos Corvos (The Raven Boys), de Maggie Stiefvater. Campinas-SP: Verus Editora, 2.ª edição, 2015 [2012], 376 páginas. Capa de Christopher Hengel. Tradução de Jorge Ritter. Minha mulher, Finisia Fideli, lê duas vezes mais rápido do que eu. Provavelmente porque tem o QI duas vezes maior que o meu. É natural, portanto, que ela faça uma certa triagem aqui em casa. Também é boa para descobrir livros valiosos nas livrarias, antes de eles caírem na boca do povo. É o caso de Flora Segunda, de Isabeau S. Wilse; de O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs — e deste Os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater. Todos fantasia para crianças e jovens, a propósito. Stiefvater é uma favorita de Finisia, que, aliás, terminou há pouco de reler a série de quatro livros.

Não leio muito esse tipo de literatura, mas nunca é tarde para explorá-la. Stiefvater deve estar na elite desse campo tão importante atualmente, para o mercado editorial. O romance acompanha uma garota no centro de um grupo de mulheres médiuns, que se aproxima de um grupo de garotos de uma escola de elite na Virgínia. Blue, a protagonista, é bocuda, inquieta, sensata e desajeitada ao mesmo tempo. Os meninos têm o objetivo secreto de encontrar uma linha de energia mística que cruza o estado. E de fazer contato com um monarca galês de tempos pré-colombianos, enterrado nela. Há um vilão, muitos obstáculos e muito drama, mas o que distingue a autora é a espirituosidade e a habilidade de manter os vários personagens em cena numa dinâmica vigorosa e encantadora. As cenas, construídas com inteligência e solidez, parecem maiores do que são realmente, por causa da rica dinâmica entre os personagens. Há uma série de truques de virtuosismo literário nisso — diálogos inteligentes, vozes claras para cada personagem, descrições que sublinham o caráter de cada um, e exposição precisa do assunto. Mas como esse é o forte da autora, algo acaba sendo sacrificado no plano da ambientação — a cidade e a escola, em particular, não ganham vida própria. O que acontece no terreno da magia tem interesse e lógica interna. Mesmo que marcadas por essa magia, a “cultura de mulheres” e a “cultura de homens” são manuseadas com a mesma verve. Stiefvater tem um talento para metáforas e figuras de linguagem, e a fluidez da sua prosa sobrevive aos pequenos azares da tradução. Este é um romance para se saborear o estilo no plano da prosa, e aquele estilo maior que está na qualidade das imagens e situações. Certamente, um livro para jovens que é original sem ser paternalista, e povoado com gente que parece de verdade justamente por incorporar excentricidades que podem ir até um pouco além do real. Realiza justamente o que se espera da fantasia contemporânea — pôr magia na vida como a conhecemos.

 

A Doutrina Zen da Não-Mente: O Significado do Sutra de Hui-Neng (Wei-Lang) (The Zen Doctrine of No Mind: The Significance of the Sutra of Hui-Neng (Wei-Lang)), de Daisetz Teitaro Suzuki. São Paulo: Editora Pensamento, s.d. [1969], 140 páginas. Tradução de Elza Bebianno. Editado por Christmas Humphreys.  Agora seguindo indicação da Finisia, continuo minhas leituras no budismo com esse livro do especialista D. T. Suzuki, que foi Professor de Filosofia Budista na Universidade de Otani, em Kioto. O assunto é a “não-mente” ou o cancelamento do ego dentro do budismo zen. É algo que entrou na cultura popular há um bom tempo, e foi importante na composição de heróis pulp como o Sombra e o Questão — que no Brasil chegaram a aparecer num mesmo gibi da DC. Essa apropriação surge da sugestão de que o estado mental do sujeito seria capaz de atuar sobre outros seres. Uma citação do livro de Suzuki: “Se você encontrasse um tigre ou um logo nas montanhas, como usaria sua mente […]?” “Quando se avista, é como se não se tivesse avistado; quando se aproxima, é como se nunca se tivesse aproximado; e o animal [reflete] o estado da não-mente. Mesmo um animal selvagem não lhe fará mal.”

Outro clichê popular relativo ao budismo ou ao zen está na ideia de que o seu praticante ou a pessoa iluminada ou em estado de buda estaria não só livre das demandas sociais, como estaria livre de considerações sobre o bem e o mal. Cheguei a pensar que fosse uma intrusão do pensamento calvinista sobre a visão popular do budismo, mas Suzuki é categórico:  “o Dharma [ensinamentos de Buda ou lei cósmica] tem o poder de perdoar todos os pecados, de modo a perdoar todos os pecadores dos castigos.” A discussão filosófica/teológica de Suzuki parte do mestre chinês Hui-neng (638-713 d.C.) e cita muitos diálogos do tipo mestre-aprendiz, para desenvolver seu argumento. O livro é complexo e os exemplos que Suzuki escolhe não ajudam, pois os mestres posteriores a Hui-neng adoravam apelar para o nonsense para transcender o intelectualismo. Muitas vezes, o budismo zen acaba soando platonista (algo que a síntese espírita de Kardec sublinhou). Em outras, a prática do nonsense lembra a irreverência modernista nas artes como meio de ferir as percepções burguesas. No pós-modernismo se fala do fim das grandes narrativas em razão da multiplicidade discursiva moderna levando a uma equivalência entre discursos. A escrita pós-modernista muitas vezes mergulha nesse entendimento pela hipertrofia textual e narrativa (William S. Burroughs, Thomas Pynchon) ou apontando a linguagem como construtora da percepção do real (fabulation e metaficção). Na minha própria ficção, busco investigar situações em que essa multiplicidade discursiva é calada por situações de violência, qualidade mítica e o esgotamento das teleologias. Parece que aí também o budismo tem algo a contribuir.

 

O Que É Design Gráfico: Conceitos Básicos, de Nobu Chinen. Rio de Janeiro: Duetto Editorial, 2014, 48 páginas. Quem me conhece apenas como escritor não sabe que também já atuei como ilustrador editorial (mesmo como fã de FC, comecei com desenhos). Ano passado, decidi voltar a desenhar e agora adquiri uma mesa digitalizadora para desenvolver arte digital. Mas acho importante ter noções de design gráfico — inclusive para poder lidar melhor com a produção dos meus livros e até deste site. Antigamente, o design parecia apenas subsidiário das indústrias do livro e da publicidade, mas hoje está em toda parte, até em movimentos sociais e artísticos. Este livrinho do especialista nipo-brasileiro Nobu Chinen, professor da Escola de Comunicação e Arte da USP, é uma introdução leve a esse campo muito em voga atualmente. Comprei-o por menos de cinco paus, numa promoção das Lojas Americanas.

Com capítulos curtos (2-3 páginas) e com muita cor e imagens, o livro busca não apenas apresentar as questões em torno do assunto (comunicação, arte, comércio), mas também ilustrar as suas possibilidades. Em grande parte, a leitura foi como recordar os cursos de ilustração publicitária que fiz em Campinas, no século passado. Do mesmo autor, ainda tenho aqui para enfrentar Design Gráfico: Curso Básico (Escala, 2011), bem maior e mais chique.

 

Quadrinhos

Arte de capa de Tony Harris & Chris Blythe.

Star Wars Infinitos: Uma Nova Esperança (Star Wars Infinities: A New Hope), de Chris Warden (roteiro), Drew Johnson (desenho) e Ray Snyder, Al Rio e Neil Nelson (arte-final). São Paulo: Panini Comics, 2017, 98 páginas. Capa de Tony Harris & Chris Blythe. Brochura. Confesso que já me peguei várias vezes imaginando uma versão alternativa do filme O Retorno de Jedi (1983), na qual tentava resolver as muitas contradições e pontas soltas do enredo da primeira trilogia de Star Wars. Em O Império Contra-Ataca (1980), Luke Skywalker chega a Bespin num Asa-X e sai de lá no Millennium Falcon, deixando para trás o caça que, supõe-se, teria o registro de todo canto em que ele esteve. Enquanto o Império tenta quebrar o código de acesso aos dados, Luke corre de volta a Dagobah para terminar o treinamento com Yoda. Ao mesmo tempo, Leia, Lando e Chewie organizam o resgate de Han. Yoda se sacrifica, ficando em Dagobah para atrair Vader. Luke obtém, por meio de uma visão, o paradeiro de Palpatine num ponto obscuro (uma nebulosa, talvez?) da “galáxia muito distante”. Antes que o Império se organize para destruir a esquadra rebelde, uma ação final é organizada contra Palpatine…

Este gibi curioso parte de uma premissa semelhante — produzir uma visão mais coerente e alternativa da trilogia, mas partindo do primeiro filme (o Episódio IV). Luke atinge as entranhas da Estrela da Morte, mas o torpedo de prótons falha. A base rebelde é destruída, Luke é recolhido por Han e Chewie. Leia é capturada por Vader e levada a Coruscant, onde vira marionete de Palpatine. Obi-Wan se manifesta e Han leva Luke até Dagobah, conhecendo Yoda. O escritor Chris Warden integra elementos da prequência iniciada com A Ameaça Fantasma (1999), criando inversões interessantes: Yoda ainda tem saúde e é Palpatine que tem os dias contados. Leia deveria se tornar a sua herdeira. Com uma ação mais compacta, os heróis convergem para Coruscant, onde ocorre o confronto final — com uma participação maior de Yoda. Pena que essa experiência alternativa de Warden não teve um número maior de fascículos na publicação original, pois ganharia mais diversidade de situações e força narrativa, se ela se espalhasse um pouco mais. Além disso, a quadrinização ficaria menos coalhada. Também é de lamentar o desenho de Johnson — meio rombudo e duro, embora lide bem com fisionomias e estruturas. Aqui estamos livres dos ewoks e da repetição do recurso da construção da nova Estrela da Morte, o relacionamento de Luke e Han tem mais arestas, e Leia ganha ambiguidades. Perde-se, porém, o centro emocional dos dois primeiros filmes — o sentimento de amizade confrontado à indiferença de forças de escala cósmica.

—Roberto Causo

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